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quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Análise: Karmen



Karmen, de Guillem March
 

A 10ª obra publicada na coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do Público, é Karmen, da autoria de Guillem March. Não é a primeira vez que uma das obras deste autor aparece nesta coleção da editora portuguesa. Já na edição do ano passado, a Levoir lançou Monika que o autor maiorquino assinou em parceria com Thilde Barboni. Mas desta vez, com Karmen, Guillem March assegura argumento e ilustração. 

E digo, desde já, sem rodeios, que Karmen é um forte candidato a ser a melhor obra desta coleção! E é, também, uma das melhores obras de banda desenhada a serem lançadas em 2020, em Portugal. 

O tema desta história é o suicídio. É verdade que é um tema que já vai sendo bastante comum e presente na nossa sociedade, passando, também, para o universo das criações artísticas como filmes, livros, entre outros. No entanto, também é verdade que é um tema que, pela sensibilidade que, compreensivelmente, acarreta, acaba, muitas vezes, por receber um tratamento emotivo e melodramático que parece explorar mais a tristeza inerente ao suicídio do que ser, efetivamente, uma reflexão profunda sobre o tema. E nisso, este Karmen – também – se transcede! A forma como March decidiu abordar a temática do suicídio apresenta uma grande objetividade e inteligência, sem descurar um olhar sensível sobre o assunto. 

A história arranca com o suicídio de Catalina, que corta os seus pulsos na casa de banho do apartamento onde vive com a sua flatmate. Depois, aparece a personagem de Karmen que funciona como uma espécie de anjo da guarda, que pertence a uma sociedade(?) de seres que guiam os mortos para a sua nova vida, numa espécie de realidade paralela entre a vida e a morte. Um limbo. Sim, estamos a falar de reincarnação. Mas se os meus leitores, perante este tema, já começaram a franzir a testa, deixem-me acalmar-vos e dizer que, March é inteligente o suficiente para mergulhar de forma suave nestes temas. Não é uma obra que nos tente “evangelizar” com determinada(s) crença(s) acerca do pós-vida. A obra leva-se a sério, mas sem querer ter a pretensão de nos levar a acreditar em algo. O tema da religião está totalmente ausente. 

Karmen vai acompanhar Catalina mostrando-lhe como reagirão as pessoas que lhe são próximas, após tomarem conhecimento do seu suicídio. Devido a este acompanhamento de Catalina, por parte de Karmen, uma figura metafísica, julgo que é impossível não relembrar a obra-prima da literatura, Um Conto de Natal, de Charles Dickens, em que o velho Scrooge também é visitado por vários fantasmas ou espíritos que lhe permitem tomar conhecimento do passado, presente e futuro, levando-o a refletir sobre os seus actos. Mas é curioso – e inteligente – que o próprio March tenha feito alusão à obra de Dickens, colocando, logo de parte, eventuais comparações inflamadas. A auto-consciência dos autores quase sempre funciona a seu favor. 

A concepção, quer gráfica, quer narrativa, de Karmen está maravilhosa. A personagem tem cabelo cor-de-rosa, um rosto jovial, sarapintado de sardas, e o seu corpo permite visualizar o seu esqueleto. Em termos visuais é bastante impactante mas é na sua forma de enfant terrible de atuar, quebrando algumas das regras que lhe são impostas pelo grupo a que pertence, que a personagem ainda se torna mais memorável, remetendo-me para Harley Quinn, de Batman, e para a forma, aparentemente infantil e desprovida de inteligência que aparenta, inicialmente, ter. Já Catalina, que vive de amores por Xisco, é uma personagem igualmente interessante e que vai, ela mesma, fazer esta viagem ao fundo de si própria, para conhecer que coisas são essas que a levaram a tomar uma decisão tão drástica como acabar com a própria vida. 

Também a mim, esta questão do suicídio é um tema que me faz pensar muito. E acredito que, senão em todas as vezes, pelo menos, em muitas delas, quando as pessoas decidem terminar com a própria vida, acabam por tomar uma decisão – sem retorno! - de forma pouco pensada ou pouco racional em que, apenas o mau, o desagradável e o dissabor é tomado em linha de conta. No fundo, parece-me que a visão das pessoas está toldada pela negritude à sua volta e só conseguem vislumbrar esta saída. É triste e lamentável. Mas é uma condição humana, diria. E Guillem March, sem grandes moralismos mas aparentando, ainda assim, fazer desta obra um exemplo de apoio a pessoas que sofrem com tendências suicidas, procura, com Karmen, trazer luz, perspetiva e racionalidade à forma como olhamos para nós mesmos. Sinceramente, acho que esta obra fantástica deveria ser recomendada pelos profissionais que prestam apoio a cidadãos em vias de suicídio. É magnífica na história e na ideia que pretende passar. 

Mas, se até aqui, já temos um argumento inteligente, bem temperado com questões metafísicas mas querendo, também, ser uma história acessível e mundana, em termos gráficos, esta é uma obra de enorme fôlego artístico! 

A forma como March desenha é de loucos! E explico porquê o “de loucos”: a maneira como o autor utiliza os planos de câmara, isto é, o ponto de vista de observação, parece obedecer a uma regra: ser difícil! Ou seja, com planos picados e contra-picados, ou com efeitos fisheye, o objeto a ser desenhado torna-se muito mais difícil de desenhar, certo? E é isso que March faz. Opta pelas situações mais difíceis e executa-as de forma soberba. Um verdadeiro mago da ilustração. 

Devido ao meu background pessoal, em que sou músico nas horas vagas, a forma virtuosa como March ilustra, remete-me bastante para a música. Exemplificando: enquanto baterista, tendo algumas noções musicais, é relativamente simples acompanhar uma qualquer música, oferecendo-lhe percussão. No entanto, os melhores bateristas, aqueles que são mais virtuosos, conseguem, para além desse objetivo primordial de dar batimento a uma música, introduzir técnicas, nuances, alterações que enriquecem a música. E claro, quanto mais técnico for o baterista, mais desses pormenores colocará na sua prestação. Por vezes oiço alguns bateristas e penso: “Ui, que escolha arriscada que este baterista fez mas que conseguiu resolver de forma majestosa”. Pois bem, neste Karmen, esta sensação assaltou-me muitas e muitas vezes. Ao visualizar certos planos, certas perspetivas que March escolhia, tinha exatamente essa sensação: “Ui, que escolha arriscada que este ilustrador fez mas que conseguiu resolver de forma majestosa”. 

E não é apenas na escolha da posição dos pontos de vista que o autor é incrível. A concepção das personagens, a emoção nas suas caras, os cenários - sejam interiores ou exteriores, tudo está feito de forma exímia. E a planificação, com uma dinâmica vertiginosa, que consegue surpreender constantemente o leitor, é fantástica também. O facto de Catalina conseguir voar pelos céus, também foi mais um golpe de génio do autor, pois possibilitou que visualmente as situações criadas sejam de enorme fulgor, com a personagem a voar – ou a nadar pelos céus? - ao longo de Palma de Maiorca, local onde a história se desenrola. 

Mais uma coisa ainda. O poder que Catalina recebe de, quando toca numa pessoa viva, conseguir visualizar o percurso de vida dessa personagem, não só graficamente está feito de forma muito inspirada e original como, narrativamente, é mais uma forma inteligente e criativa de ter estas subplots que nos fazem mergulhar na história. Tudo muito bem feito e muito bem pensado! 

A edição da Levoir apresenta capa rija e papel fino de boa qualidade, tendo uma capa com uma ilustração muito apelativa, também. A editora portuguesa está de parabéns pela aposta nesta obra fantástica. Pelo preço mais que convidativo a que é lançada, chega a ser pecaminoso não a adquirir. É um dos melhores livros do ano. Não só da Levoir como da totalidade de livros de bd lançados em 2020, no mercado português. 
Muito recomendável! 


NOTA FINAL (1/10): 
9.3 


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica 
Karmen 
Autor: Guillem March 
Editora: Levoir 
Páginas: 168, a cores 
Encadernação: Capa dura 
Lançamento: Outubro de 2020

2 comentários:

  1. Acontece que nos suicidamos por um mal-entendido. É hora do relatório: um "código vermelho" para Karmen. Em Palma de Maiorca, a jovem de cabelos rosa e sardas, vestida com um macacão preto de esqueleto, entra no apartamento de uma colega de quarto de estudante. Ela vai direto para o banheiro onde Catalina fez um corte nas veias. No momento suspenso entre a vida e a morte, começa a introspecção para a jovem e a sua angústia, transportada numa narração fantástica que faz malabarismos em dimensões de distanciamento e paralelas.

    Ao imaginar este purgatório metafísico administrado por mulheres, Guillem March, que já trabalhou para “Batman” e “Mulher-Gato”, cuida da arquitetura cômica de cada prato, multiplica recortes dinâmicos e enquadramentos pendentes para criar vertigem. Ele assina em solo este thriller psicológico de tirar o fôlego que impulsiona o suicídio nu, em vôo acima de memórias e realidades, nesta cidade balear de onde o artista vem. Sua trilha sonora crepuscular vai do vermelho ao azul em variações melancólicas, carregadas por uma linha deslumbrante que transforma a tragédia em um conto de fadas com o toque da varinha gráfica

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    1. Muito obrigado pelo seu comentário que é muito interessante e que faz um bom acrescento ao meu texto! Cumprimentos.

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