Um dos lançamentos de banda desenhada que está a marcar o início deste ano - e, julgo, continuará a marcar todo o ano - é a mais recente edição da Ala dos Livros que dá pelo nome de Blast, de Manu Larcenet, autor de quem a editora portuguesa já lançou os fabulosos álbuns O Relatório de Brodeck e A Estrada. Também a obra O Combate Quotidiano já teve edição em Portugal mas, dessa vez, pelas mãos das editoras A Seita e Arte de Autor.
Originalmente editada em 4 volumes, Blast é, na verdade, uma mini-série, que a editora Ala dos Livros optou por editar em dois volumes integrais. Cada livro inclui, pois, dois volumes da obra. Neste caso, este primeiro volume que acaba de chegar às livrarias é composto pelos tomos Carcaça Gorda e O Apocalipse segundo S. Jacky. E o facto da editora portuguesa já ter anunciado a edição do segundo volume integral para o segundo semestre de 2026 é uma boa notícia, pois significa que não teremos que esperar (assim) tanto tempo para podermos concluir a leitura desta singular obra.
A história deste Blast gira à volta de um interrogatório entre dois inspetores e o protagonista da obra, Polza, um homem cuja obesidade mórbida salta à vista no primeiro momento e que, aparentemente, está relacionado com algum crime ocorrido. Não sabemos que crime foi esse, mas são-nos dadas algumas luzes, já que o nome de Carole Oudinot é referido como estando em coma artificial e com respiração assistida. E tudo indica que Polza está implicado no ataque a essa mulher.
Então, começando a sua história pelo princípio - mesmo pelo princípio! - Polza confidencia aos inspetores, e a nós, que a sua profissão era a de escritor mas que, após o falecimento do seu pai - uma figura de assaz relevância no seu percurso - decide largar a vida que vivia, experenciando um novo sentimento de libertação. Libertação essa que advém especialmente da sua família, à qual já não precisa de agradar, mas não só. Consequentemente, abandona a sua profissão, deixa a sua mulher e decide ser vagabundo. Não um sem abrigo, mas um vagabundo. Passa a viver na floresta e diz ter o melhor dos verões da sua vida devido a esta mudança. Pelo seu caminho de vagabundo, encontra algumas pessoas que o impactam - em especial S. Jacky que aparece na segunda parte do livro - e que, assim parece, são também a causa pela qual o obeso protagonista se encontra sentado naquela sala de interrogatório. Há, por parte de Polza, uma recusa consciente da sociedade, mas também uma apropriação romântica de viver à margem. Este homem escolhe a floresta, a errância e o verão eterno. Mas essa felicidade soa sempre suspeita, como um êxtase que cobra juros mais tarde.
Blast é uma descida lenta a um território onde a culpa, a memória e o corpo se entrelaçam de forma quase indissociável. Manu Larcenet não nos oferece nesta obra uma narrativa linear nem confortável; oferece-nos antes um espaço de escuta. Escuta densa, pesada, feita de pausas, silêncios e palavras que parecem sempre esconder mais do que revelam. Desde as primeiras páginas, sentimos que esta não é apenas a história de Polza, mas uma anatomia do mal-estar contemporâneo.
A estrutura do interrogatório funciona, pois, como uma moldura claustrofóbica onde tudo acontece. Dois inspetores e um homem sentado. Um corpo excessivo que ocupa o espaço físico e simbólico da sala. Polza é interrogado, mas é também ele quem conduz o ritmo, quem dita o tempo da narrativa. A verdade surge aos soluços, fragmentada, como se cada revelação exigisse um preço emocional demasiado alto para ser paga de uma só vez.
A obesidade mórbida de Polza não é um mero dado físico; é metáfora viva. O seu corpo parece carregar o peso de tudo aquilo que não foi dito, resolvido ou compreendido. É um corpo que incomoda, que provoca repulsa e curiosidade, tal como as suas palavras. Larcenet obriga-nos a olhar, a permanecer, a não desviar o olhar... como se a leitura fosse também um interrogatório dirigido a nós.
A narrativa em conta-gotas, sem revelar muito de nada, quais preliminares que nos embalam docemente para algo apoteótico, é uma das grandes forças de Blast. Somos conduzidos como os próprios inspetores: ouvintes atentos, desconfiados, ora repelidos, ora seduzidos pelo discurso de Polza.
Além disso, Polza é uma daquelas personagens que dão gosto ler, porque aquilo que ela tem a dizer parece diferente e, mais uma vez, "fora da caixa". Não sabemos bem se é um impostor ou se é um autêntico poeta e filósofo da modernidade. Ficamos, por isso, sempre na dúvida se estamos perante um visionário ou um mentiroso talentoso. E é isso que dá riqueza à personagem e ao relato. E mesmo não sabendo ao certo o que aconteceu, sentimos que algo se quebrou de forma definitiva. Larcenet constrói esta expectativa com mestria, mantendo-nos num estado constante de inquietação moral.
O mal-estar atravessa toda a obra: sente-se no corpo de Polza, no seu olhar, nos rostos imóveis dos inspetores, nas pausas longas que dizem mais do que qualquer confissão. Blast é uma obra que pesa, que exige disponibilidade emocional, que não se lê de forma ligeira nem distraída.
Visualmente, Larcenet atinge aqui um dos seus picos criativos. O desenho de Larcenet em Blast é de uma beleza rude e desconfortável, onde cada mancha de negro e cada silêncio entre traços parecem respirar angústia, transformando o papel num espaço vivo de peso, carne e vertigem existencial.
O preto e branco denso, sujo, carregado de cinzentos, constrói uma ambiência sufocante que dialoga intimamente com o texto. As raras pranchas a cores surgem quase como intrusões sensoriais, momentos de rutura que sublinham estados emocionais extremos... os tais momentos de "blast". O traço oscila entre o artístico e o caricatural, conferindo uma humanidade brutal às personagens. Pode parecer estranho ao início, mas logo nos toma nos seus braços.
As cenas na sala de interrogatório são particularmente exemplares, com o desenho de longos silêncios, recorrendo a enquadramentos fechados e a rostos que falam sem palavras. O jogo de luz e sombra é magistral e quase musical.
Em termos de edição, o trabalho da Ala dos Livros, está em consonância com a grandiosidade da obra: o livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz, papel baço de primeira qualidade no miolo e um excelente trabalho ao nível da impressão e da encadernação. Nota ainda, muito positiva, para a fita marcadora em tecido que granjeia ainda mais elegância à edição.
Voltando à obra, e em jeito de conclusão, é Polza a verdadeira estrela da companhia deste Blast, pois assume-se como O Homem Contemporâneo esmagado pelo peso da existência, pela fricção constante entre o desejo de fuga e a impossibilidade de redenção total.
Pode-se, portanto, afirmar que, no fundo, o protagonista desta obra é o retrato de todos nós, homens e mulheres do século XXI, gordos ou magros, que, de algum modo, sentimos o peso da nossa existência. Talvez esse peso não seja da carne que nos envolve os ossos, mas de todas as dificuldades, vicissitudes, provações e dramas que enfrentamos, bem como da dor intensa de viver para e junto dos outros. E ainda que nos consideremos - uns mais do que outros - pessoas felizes, realizadas e com objetivos claros de vida, tantas são as vezes em que nos sentimos no abismo, no buraco e na solitude da escuridão, almejando, à custa do que for, apenas esse escape momentâneo que nos é dado num pequeno e fugaz instante de júbilo, de euforia e de um contacto mais profundo connosco próprios e com o mundo, qual momento de explosão interior, qual Blast!
Por outro lado, a única coisa que me faz temporizar o meu júbilo e a minha satisfação perante esta obra é a sensação de que, finda a leitura deste primeiro volume de dois, só considero estar a meio da travessia de um rio tumultuoso. Ainda há muito por resolver em termos narrativos e isso é suficiente para a minha prudência de não conseguir, à data, afirmar que este livro é, sim, algo de fantástico e marcante para toda uma vida de leitor de banda desenhada. Tendo em conta que, após o término da leitura, tudo fica em aberto, será que a obra vai atingir todo o seu potencial? Quero acreditar que sim, que estamos perante um livro de nota máxima e um dos melhores do ano - e dos últimos anos -, mas, por ora, opto pela prudência de lhe dar nota máxima, dizendo que, sim, já dá para dizer sem medo que esta é uma grande e sentida obra, mas que falta ainda chegar a segunda leva da mesma para, nessa altura, poder ter uma opinião mais vincada, completa e formada. Que chegue, então, depressa a publicação desse segundo volume!
NOTA FINAL (1/10):
9.6
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
-/-
Blast - Edição Integral - Volume 1 de 2
Autor: Manu Larcenet
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 408 páginas a preto e branco (com algumas a cores)
Encadernação: Capa dura
Formato: 225 x 280 mm
Lançamento: Janeiro de 2026
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
Viva Hugo. Espero que quando fizer a resenha ao 2º volume reveja a sua classificação. Para mim, uma obra claramente para 10++. 😊
ResponderEliminarOlá, António. Se todo o potencial que a obra tem vier a ser cumprido, decerto isso acontecer. Um abraço.
Eliminar