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terça-feira, 20 de outubro de 2026

Já está disponível o novo Tales From Nevermore!



Chama-se More Tales From Nevermore e é o segundo volume da série assinada pelos portugueses Pedro N. e Manuel Monteiro!

Depois do primeiro volume desta série pensada para 3 livros, Tales From Nevermore, ter arrecadado aclamação do público e da crítica, com a vitória em vários prémios de banda desenhada, a Ala dos Livros lança agora o segundo volume da série.

O livro já se encontra à venda na Amadora BD e em pré-venda no site da editora.

Estou ansioso para o ler!

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

More Tales From Nevermore, de Pedro N. e Manuel Monteiro

Vincent, o corvo, volta a ser o anfitrião nesta nova viagem pelo cemitério de Nevermore, para dar a conhecer as histórias dos seus infelizes habitantes.

Depois do sucesso da obra de estreia de Pedro N. e Manuel Monteiro, “More Tales from Nevermore”, continua a homenagem aos grandes clássicos do género com mais seis histórias, do macabro ao sombrio, mas também de amor e redenção. O desfecho de cada história continua mais ou menos inesperado e sombrio. As ilustrações continuam impressionantes, e também há muitas surpresas à espera do leitor desprevenido.

E o universo de “Tales from Nevermore” continua a crescer para além das páginas do livro físico com várias formas de expansão de conteúdos.

Vincent, o corvo, está sempre à espera de novos habitantes para o seu cemitério… E abriu uma nova época de inscrições.

“More Tales from Nevermore”, é a muito aguardada continuação da obra que tomou de assalto a BD portuguesa em 2025. “Tales from Nevermore” recebeu vários prémios nacionais e estrangeiros: Prémio Obra Revelação no Amadora BD, vários prémios de Melhor Edição de BD e o Prémio Best Comic ou Graphic Novel da European Science Fiction Society.


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Ficha técnica
More Tales From Nevermore
Autores: Pedro N. e Manuel Monteiro
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 112, a preto e branco
Encadernação: Capa dura, em pele, estampada e recortada
Formato: 210 x 285 mm
PVP: 28,90€


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Análise: Blast - Edição Integral - Volume 2 de 2

Blast - Edição Integral - Volume 2 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros

Blast - Edição Integral - Volume 2 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros
Blast - Edição Integral - Volume 2 de 2, de Manu Larcenet

Quando terminei o primeiro volume de Blast, de Manu Larcenet, escrevi que estava rendido à obra, mas também que mantinha alguma prudência na minha avaliação. Sentia que tinha atravessado metade de um rio escuro e turbulento, fascinante em cada página, mas cuja margem de chegada permanecia oculta. A grande questão era simples: conseguiria Manu Larcenet fechar uma história tão ambiciosa sem se perder nas suas próprias sombras? 

Agora que li este segundo volume integral, composto pelos tomos De Cabeça e Oxalá Os Budistas Estejam Enganados, posso dizer que sim. E posso dizer mais do que isso, até: aquilo que já me parecia uma grande obra revelou-se uma obra ainda maior. Com efeito, se adorei o primeiro volume, fiquei ainda mais maravilhado com este segundo, aquele onde chegam as grandes revelações e onde percebemos, finalmente, que nada foi deixado ao acaso.

Blast - Edição Integral - Volume 2 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros
Originalmente composta por quatro tomos, reunidos em Portugal em dois volumes integrais pela Ala dos Livros, a série encontra aqui a sua densa, triste e pesada conclusão. E aquilo que poderia ter sido apenas uma resolução de pontas soltas, transforma-se numa demonstração impressionante de controlo narrativo, por parte de Manu Larcenet. Quando chegamos ao fim, percebemos que o autor esteve sempre vários passos à nossa frente. E aquilo que poderia parecer disperso ou fragmentado revela-se, afinal, como parte de um trabalho muito maior e cuidadosamente arquitetado.

O cariz policial, que no primeiro volume servia sobretudo de moldura para o relato de Polza, regressa aqui com renovada intensidade. A investigação ganha peso, os interrogatórios tornam-se mais incisivos e os inspetores deixam progressivamente de ser simples ouvintes para assumirem, especialmente no final, um papel cada vez mais ativo. Este reforço da componente policial tem um efeito muito curioso: torna a leitura ainda mais compulsiva. Queremos saber. Aliás, precisamos de saber o que aconteceu com Polza e com Carole, a mulher de cujo assassinato Polza é suspeito. E cada nova revelação que nos vai sendo dada por Larcenet apenas aumenta a nossa ansiedade perante o inevitável desenlace.

Polza continua a contar a sua história aos inspetores. Continua a conduzir-nos através dos escombros da sua vida, ora seduzindo-nos com as suas palavras poéticas, ora chocando-nos com aquilo que nos revela. O discurso do protagonista mantém-se fascinante, poético, delirante e, acima de tudo, perturbador. As suas palavras parecem emergir de uma escuridão tão profunda que o leitor acaba por questionar constantemente aquilo que vê, aquilo que ouve e aquilo em que escolhe acreditar. Se querem obras que vos consumam um pouco do vosso ser, este Blast é uma delas.

Blast - Edição Integral - Volume 2 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros
O relato dos acontecimentos que levaram Polza até àquela sala de interrogatório continua a ser-nos dado de uma forma impregnada de violência, degradação e sofrimento. Há passagens particularmente difíceis de ler, quer seja pela sua brutalidade gráfica, quer seja pelo peso emocional que transportam. Mesmo assim, parece-me que Larcenet não procura propriamente o choque gratuito. O que faz é, aliás, muito mais desconfortável: obriga-nos a permanecer junto da dor desta personagem. A viver a sua dolorosa experiência de vida. Obriga-nos a observá-la. A compreendê-la. A senti-la. E isso transforma esta leitura numa viagem exigente e, por vezes, quase sufocante.

É precisamente por isso que o aparecimento da personagem de Carole, depois de tantas páginas a falar sobre ela, assume finalmente uma importância tão significativa, pois dá uma certa ternura ao livro e à personagem de Polza. Não diria que a presença de Carole se trate propriamente de luz, porque Blast nunca é uma obra luminosa, mas de uma suave mudança de temperatura emocional, vá. 

E, no entanto, há uma ironia cruel a acompanhar tudo isto. Desde o início sabemos que algo terrível aconteceu. Sabemos qual é o destino de Carole. Conhecemos, pelo menos parcialmente, o resultado final. Mas entre conhecer o resultado e compreender o caminho existe um abismo gigantesco. É precisamente esse abismo que Larcenet explora magistralmente ao longo destas páginas. 

Blast - Edição Integral - Volume 2 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros
Outra das grandes virtudes deste segundo volume está na forma como reorganiza tudo aquilo que julgávamos saber. Cada revelação lança nova luz sobre os acontecimentos anteriores. E aquilo que, no primeiro livro, parecia uma caminhada turbulenta e imprevisível revela, afinal, um percurso narrativo perfeitamente delineado. A sensação de construção é impressionante, gerando um sentimento muito forte de "recompensa narrativa". E isto já para não falar do segundo final da história - sim, podemos considerar que o final da obra se divide em duas partes.

Uma outra coisa que me agrada bastante em Blast é o facto de a obra desafiar qualquer tentativa de classificação simples. Estaremos perante um policial? Um drama psicológico? Uma crítica social? Uma (retorcida) história de amor? Uma descida ao inferno? Um tratado filosófico sobre a condição humana? Parece justo admitir que esta obra é tudo isso. 

Visualmente, Larcenet continua simplesmente assombroso. O seu preto e branco denso, carregado e visceral traz-nos momentos inesquecíveis e impregnados de expressividade dramática. Há páginas inteiras que parecem respirar angústia. Outras que parecem gritar sem emitir qualquer som. Gosto especialmente do "tempo narrativo" que o autor atribui à obra, com inúmeras vinhetas contemplativas sem texto, que permitem que possamos refletir, absorver, questionar. Até é possível que esta obra que no somatório dos dois livros editados pela Ala dos Livros, tem 800 páginas, pudesse ter sido contada em 200 ou 300 páginas. Possivel, era. Mas, claro, não seria o mesmo livro e perderia todo o seu impacto.

Blast - Edição Integral - Volume 2 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros
Os momentos de "blast", que são em menor número neste volume, representados num estilo de ilustração diferente, carregado com cores aplicadas a caneta de feltro, continuam a ser marcantes e incómodos para o leitor.

Em termos de edição, a Ala dos Livros continua o trabalho feito no primeiro volume, que se revela muito elegante, com o livro a apresentar capa dura baça, com detalhes a verniz, papel baço de primeira qualidade no miolo, e um excelente trabalho ao nível da impressão e da encadernação. Nota ainda, muito positiva, para a fita marcadora em tecido que granjeia ainda mais elegância à edição.

É mais um dos grandes livros do ano. E notem que este está a ser um ano espetacular no que ao número de grandes obras de BD diz respeito. 

E é precisamente por isso, e em jeito de conclusão, que Blast se afirma, sem hesitação, como uma das grandes obras-primas da banda desenhada contemporânea. Não é uma leitura relaxante. É torturante. Sombria. Terrível. Por vezes até dolorosa. Mas também é brilhante, inteligente e profundamente humana. É um murro no estômago, um buraco na alma e uma dor persistente no coração. Um daqueles livros raros que não nos deixam sair iguais àquilo que éramos quando os começámos a ler. Depois de terminar esta extraordinária viagem ao lado de Polza, resta apenas fazer aquilo que se faz perante as grandes obras: levantar-nos da cadeira, engolir em seco, acenar com a cabeça e aplaudir. Inesquecivelmente bom.


NOTA FINAL (1/10):
10.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Blast - Edição Integral - Volume 2 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros

Ficha técnica
Blast - Edição Integral - Volume 2 de 2
Autor: Manu Larcenet
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 408, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 225 x 280 mm
Lançamento: Agosto de 2026

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Ala dos Livros lança "Domingos", de Sidney Gusman e Jefferson Costa!




Eis um livro que há muito quero ler e que está perto de chegar, finalmente, às livrarias portuguesas. Falo de Domingos!

Esta é uma história biográfica em que o famoso e super simpático editor brasileiro Sidney Gusman nos fala dos domingos passados com o seu pai, de seu nome Domingos. As ilustrações são assinadas por Jefferson Costa, do qual já por cá se editou o livro Farsa de Inês Pereira, com André Morgado enquanto argumentista.

A edição portuguesa deste Domingos é da Ala dos Livros e inclui uma capa inédita que, a meu ver, até supera a capa original da obra.

O livro deverá estar disponível para venda na segunda semana do Amadora BD e terá apresentação, com a presença dos autores, no dia 25 de Outubro, à tarde. Consultem a programação do evento para mais informações.

Por agora, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais da mesma.


Domingos, de Sidney Gusman e Jefferson Costa

“Chamo-me Sidney Domingos Gusman. Domingos é o nome do meu pai.

Ele nasceu num domingo. E num domingo partiu.

E esta é a história sobre domingos que ambos partilhámos.”

Muita coisa acontece aos domingos. As famílias encontram-se, partilham juntas almoços, gargalhadas, jogos de futebol e as pessoas aproveitam para descansar antes de retomarem a rotina uma nova semana. 

Sidney (Domingos) Gusman, jornalista, conceituado editor brasileiro e um dos maiores especialistas em banda desenhada daquele país, assume nesta obra o papel de argumentista para nos contar a história de outro “Domingos” – o seu pai – com quem partilhou muitos domingos. 

Alguns deles, banais, outros, memoráveis. 

Alguns deles, alegres, outros nem por isso… mas todos eles únicos e especiais.

E é a história desses domingos especiais que Sidney Domingos Gusman partilha connosco ao longo de 208 páginas, transformando Domingos num livro extraordinário e emocionante que evoca a importância das relaçőes familiares, a forma como estas evoluem ao longo do tempo, as mudanças que sofremos ao longo da vida e as transformaçőes que ocorrem em cada um de nós e naquele(s) que nos rodeiam e no qual todos nós nos reconhecemos.



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Ficha técnica
Domingos
Autores: Sidney Gusman e Jefferson Costa
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 208, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
PVP: 31,00€

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Análise: Soli Deo Gloria

Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros

Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros
Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour

Depois de lido este Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour, recentemente publicado pela Ala dos Livros, e que, justamente, está nomeado aos Prémios de Banda Desenhada da Amadora, uma coisa é certa: Soli Deo Gloria é uma dessas obras raras que nos lembram porque continuamos a ler banda desenhada. Há livros que entretêm, outros que impressionam pela técnica, outros ainda que revelam uma história memorável. Mas depois há aqueles livros em que tudo isso se parece alinhar numa harmonia perfeita. E é precisamente isso que acontece neste livro. Da primeira à última página, somos confrontados com uma obra de uma beleza avassaladora, que nos fala da música, da arte, da ambição, da fé e da condição humana com uma sensibilidade verdadeiramente extraordinária. Para aqueles que estão a ler este meu texto, digo-vos que não percam mais tempo e coloquem este livro na vossa lista de compras.

Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros
Soli Deo Gloria
, uma expressão em latim que significa "somente a Deus a glória" conta-nos a história e vida dos dois irmãos gémeos Hans e Helma. 

A ação decorre no período do Sacro Império Romano-Germânico e começa por nos revelar uma existência miserável por parte dos irmãos Hans e Helma, que vivem em extrema pobreza e sem qualquer acesso à música ou a qualquer tipo de arte. Até que um tio afastado lhes oferece uma flauta e Hans começa a extrair dela as primeiras notas musicais que a sua irmã Helma, portadora de uma voz cristalina, começa a tentar reproduzir com o canto. Mas após o desaparecimento de toda a sua família, pais e irmãos, os pequenos Hans e Helma precisam refugiar-se na densa floresta escura e inexplorada. São então acolhidos por um eremita que lhes permite desenvolver, um pouco mais, a sua apetência para a música. Depois disso, acabam hóspedes de um convento, onde aprendem a teoria musical, com base nos cânticos religiosos. Do convento passam para as instalações de um margrave, um chefe militar que mora sozinho, e que tem uma forte paixão pela música e pelos instrumentos musicais. Daí passam depois para a corte aristocrática. É uma história de permanente evolução musical - e social - de Hans e Helma, embora isso não queira dizer que seja uma evolução fácil ou sem a presença de eventos dolorosos. Pelo contrário.

Diria que é uma história que poderia facilmente ter sido apenas mais uma narrativa de superação. Nascidos na pobreza extrema, privados de quase tudo, e em especial da arte, os dois protagonistas acabam por encontrar na música um caminho possível para escapar ao destino aparentemente traçado para eles. Mas o argumento do autor Jean-Christophe Deveney (do qual este ano também já pudemos ler por cá o muito interessante O Sétimo Homem e Outros Contos) tem inteligência suficiente para transformar essa premissa numa reflexão muito mais rica. O que começa como uma história de sobrevivência torna-se progressivamente uma história de formação, uma procura incessante por algo maior, mais belo e mais puro do que a simples existência quotidiana. Não será essa a vida e demanda de qualquer artista?

O argumento está montado com uma elegância notável. Os diferentes nove capítulos funcionam simultaneamente como divisões na narrativa e como etapas nas vidas de Hans e Helma. Cada segmento tem a sua identidade própria, o seu ritmo particular e os seus desafios específicos. E há, parece-me, algo profundamente teatral nesta construção. Por vezes, pode dar a ideia de que estamos a assistir aos atos sucessivos de uma grande ópera, em que as personagens sobem ao palco para viver momentos de glória, de descoberta ou de desilusão, enquanto a música invisível da narrativa continua sempre a tocar. Gostei muito desta formato de "quase ópera" do livro.

Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros
Até porque essa estrutura contribui para a sensação de estarmos perante uma obra clássica, quase intemporal. Deveney compreende que as grandes narrativas não vivem apenas dos acontecimentos, mas sobretudo da forma como estes transformam aqueles que os vivem. Por isso, mais do que contar uma sucessão de episódios, Soli Deo Gloria acompanha a lenta metamorfose dos seus protagonistas, mostrando como cada conquista deixa marcas, como cada perda cobra o seu preço e como cada escolha redefine o percurso seguinte. Há, pois, um ótimo encadeamento entre capítulos. Se por vezes digo, em algumas das minhas análises, que sinto que o argumentista não sabia bem para onde estava a levar a sua obra, neste caso concreto sinto exatamente o oposto. Parece-me claro que Deveney sabia bem para onde queria levar a sua história e, a partir daí, "só" teve que tomar as decisões certas em termos de escrita, relato e eventos vividos pelas personagens. 

É uma história de esperança na medida a que nos leva a crer que, mesmo partindo do nada, todos nós podemos alcançar, através do trabalho, da paixão e do talento, uma posição mais justa face à nossa capacidade. Uma meritocracia, portanto. Por outro lado, é uma obra que também nos faz olhar para os mesmos eventos, mas de um modo quiçá menos otimista: o que é que perdemos, o que é que deixamos para trás quando perseguimos, de forma desenfreada, um sonho? Será que a perseguição pelo divino, por algo que ultrapassa o comum dos mortais, nos tira a nossa humanidade?

Hans e Helma não possuem privilégios nem estatuto. Possuem apenas talento, paixão e uma determinação inabalável. Mas à medida que os protagonistas se aproximam dos seus sonhos, torna-se impossível ignorar a pergunta que acompanha toda a narrativa: quanto custa verdadeiramente alcançar a excelência? Que amizades, que amores, que afetos, que partes de nós próprios ficam para trás quando dedicamos toda a nossa existência a um único objetivo?

É precisamente aqui que a obra atinge uma dimensão quase metafísica. A busca pela perfeição musical acaba por se transformar numa procura do sublime, do absoluto, de algo que parece ultrapassar os limites do humano. O próprio título sugere essa aspiração, convenhamos. Mas quanto mais perto as personagens parecem chegar dessa dimensão superior, mais o leitor é levado a questionar se a grandeza artística não exigirá também uma forma de renúncia. E, eventualmente, os caminhos dos dois irmãos, tão inseparáveis em tempos, acabam por seguir vias opostas. Mas voltarão a encontrar-se? 

As personagens são outro dos grandes triunfos do livro. Não há aqui figuras reduzidas a funções narrativas. Cada um dos irmãos possui uma densidade emocional impressionante, uma personalidade própria, desejos, falhas e contradições, sendo que uma das personagens é um pouco mais vilã do que a outra.

Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros
Ao mesmo tempo, a opção por utilizar nome de cidades e de músicos com pequenas variações - embora reconhecíveis - contribui para o universo algo onírico de uma história que parece, deste modo, ainda mais clássica. Amesterdão, Veneza ou Roma são cidades que aparecem reconhecíveis, mas que são mencionadas com nomes diferentes. E também os próprios nomes das personagens Aldiviva e Sach são variações de nomes de compositores clássicos como Vivaldi ou Bach. Vê-se que isto também fez com que o argumentista se tivesse divertido bastante a ocultar certas coisas na história, mas sem o fazer em demasia, o que permite com que seja possível a compreensão desses jogos por parte do leitor atento.

Também o texto acompanha a qualidade geral da obra. Os diálogos são naturais, credíveis e profundamente humanos.  

Se o argumento é fantástico, o que dizer dos magníficos desenhos de Édouard Cour?

A verdade é que, por muito que se elogie o argumento, é impossível não ficar igualmente deslumbrado perante o trabalho gráfico realizado pelo ilustrador. O desenho é maioritariamente a preto e branco, com bonitos cinzentos pelo meio. E quando a cor surge, associada à música, o efeito é simplesmente arrebatador. Esta cor que aparece associada à representação da música não só funciona muito bem em termos visuais, como é uma perfeita analogia para a obra que temos em mãos, ou não fosse a música uma das coisas que mais cor dá à nossa vida cinzenta. Quão mais sorumbática e sem cor seria a nossa vida sem música?

Por falar em música e em ilustração de música, que maravilhosa é a forma como Cour representa a música. E atente-se que desenhar o som, ou a música, não me parece tarefa fácil. De todo. Como desenhar o som? Como tornar visível aquilo que, por definição, é invisível? Não me recordo de muitas obras, em qualquer meio artístico, que consigam representar a experiência musical de forma tão convincente como este Soli Deo Gloria. Há momentos em que quase conseguimos ouvir as notas apenas através das imagens. Os movimentos, as linhas, as composições e os jogos de luz transmitem sensações auditivas com uma eficácia absolutamente extraordinária. Cour faz um trabalho magnífico, pois o leitor consegue, realmente, imaginar os sons da música graças aos desenhos do autor. Vou até mais longe: que boa ideia seria apresentar este livro junto da Associação Portuguesa de Surdos. Já trabalhei com surdos num projeto musical que tive (deixo aqui o link para o caso de haver gente interessada) e sei bem dos desafios inerentes à representação/reprodução da música perante quem não a consegue ouvir. Como tal, não tenho dúvidas de que este livro, voluntária ou involuntáriamente - isso não interessa para o caso em questão - faz um excelente trabalho nesse sentido. 

Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros
Mas voltando a Soli Deo Gloria, há que dizer que, para além da representação visual de algo tão abstrato como a música, o trabalho de Cour também é impressionante nas outras vertentes. As linhas são elegantes e conferem a cada página uma dimensão quase divina, tornando cada desenho ao mesmo tempo expressivo e poético. Se os cenários são muito realistas, as personagens são um pouco mais "cartoonescas", embora essa aparente diferença até funcione bem, contribuindo para a expressividade das suas reações. O resultado é marcante e impressionantemente belo.

Não admira, portanto, que a obra tenha sido tão bem recebida e alcançado tantos prémios, como o Prix BD Fnac France Inter 2026 e o Prix Libraires, pois é fenomenal a diversos níveis.

Em termos de edição, a Ala dos Livros volta a assegurar um fantástico trabalho. A capa já é lindíssima e já nos faz querer olhar para ela durante longos minutos. Mas os detalhes a dourado e a opção por capa dura com textura aveludada tornam a experiência ainda mais elegante e requintada. Por falar em elegância e requinta, a fita marcadora dourada que o livro traz é apenas mais um detalhe dessa classe. No interior, o livro apresenta bom papel brilhante. A encadernação, a impressão e os acabamentos são todos de qualidade superior.

Em suma, Soli Deo Gloria não é apenas uma excelente banda desenhada. É uma obra que parece reunir todas as qualidades que procuramos na grande arte: inteligência, beleza, emoção, ambição e profundidade. É uma celebração da música, mas também do sonho humano de alcançar algo maior do que nós próprios. Poucos livros conseguem ser simultaneamente tão grandiosos e tão íntimos. Poucos conseguem ser tão exigentes e, ao mesmo tempo, tão profundamente emocionantes. E poucos deixam no leitor a convicção tão clara de ter acabado de percorrer as páginas de uma obra-prima. Um ótimo exemplar para "atirar à cara" - so to speak - de aqueles - cada vez menos, felizmente - que dizem que a banda desenhada é uma arte menor. 


NOTA FINAL (1/10):
10.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros

Ficha técnica
Soli Deo Gloria
Autores: Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 280, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Julho de 2026

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Análise: O Acidente de Caça

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros
O Acidente de Caça, de David L. Carlson e Landis Blair

Num dos anos mais fortes de sempre da Ala dos Livros, em termos de lançamentos de banda desenhada, a editora portuguesa voltou a marcar mais pontos, oferecendo-nos este O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia, dos autores americanos David L. Carlson e Landis Blair, que se assume como (mais) um dos melhores livros de BD editados por cá em 2026.

Estamos perante uma daquelas obras que desafiam qualquer tentativa de classificação simples, pois trata-se de um trabalho monumental, tanto pela sua dimensão física como pela densidade dos temas que aborda. 

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros
Antes de mais, importa explicar um pouco a sua estrutura narrativa deste O Acidente de Caça, já que estamos perante uma história construída através de várias camadas e subnarrativas que se entrelaçam gradualmente. No centro da narrativa encontra-se Charlie Rizzo, um jovem de Chicago que, nos anos 50, vive uma adolescência marcada por pequenos delitos com a justiça e por uma relação difícil com o seu pai, Matt Rizzo. Até aos 10 anos, Charlie vive com a sua mãe, afastado do seu pai, mas assim que a sua mãe morre, Charlie passa a ir viver com o seu pai. 

Este é cego e a causa dessa cegueira é devida a um acidente de caça que o deixou invisual após um tiro mal disparado numa tentativa de caça a um veado. Mas o passado do pai é muito mais complexo do que aquilo que Charlie alguma vez possa imaginar. E quando o jovem se vê próximo de rumar à prisão por tentativa de assalto, Matt expõe a verdade da sua vida ao seu filho, explicando-lhe qual a real causa da sua cegueira e mostrando-lhe que também ele já esteve preso.

A história desenvolve-se depois através da revelação dessa vida oculta de Matt Rizzo, cuja experiência pessoal se transforma numa longa reflexão sobre identidade, culpa, redenção e transformação. Sem revelar os principais mistérios da narrativa, já que este é um livro em que o enredo nos oferece várias surpresas, posso dizer-vos que a obra alterna entre diferentes períodos históricos e diferentes histórias dentro da história principal, apresentando um retrato fascinante da forma como determinados acontecimentos moldam sucessivas gerações. É uma obra que exige atenção constante do leitor, mas que recompensa amplamente esse investimento, diria.

Uma das grandes qualidades do livro reside na construção destas duas personagens centrais. Charlie é impulsivo, inquieto e procura constantemente o seu lugar no mundo. Já o seu pai Matt, por seu lado, revela-se uma figura muito mais complexa do que inicialmente parece. E embora cego, parece ver muito além da maioria dos outros homens. E à medida que a narrativa avança, ambos enfrentam as consequências dos erros cometidos na juventude, descobrindo, cada um à sua maneira, que o crescimento pessoal raramente é um processo linear. 

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros
Acima de tudo, mas sem se limitar a isso, O Acidente de Caça é a história de uma relação entre pai e filho. Embora baseada em factos da vida real, a obra transcende rapidamente a mera autobiografia para se tornar uma reflexão universal sobre os laços familiares. E não só, pois o argumento é extraordinariamente rico e abrangente. Questões como a cegueira e tudo o que ela acarreta, a vida na prisão, o amor perdido, a filosofia existencial e a própria literatura estão presentes dentro desta densa narrativa. O resultado é, pois, uma obra que consegue discutir temas muito diferentes sem perder coerência. Pelo contrário, todas estas dimensões acabam por se complementar, contribuindo para uma reflexão profunda sobre aquilo que nos torna humanos e sobre a capacidade que temos de reconstruir a nossa vida depois dos erros cometidos.

Entre todas as mensagens presentes no livro, há ainda uma que, a meu ver, se destaca de forma particularmente clara: a ideia de que a arte (e a cultura) deve estar ao serviço da humanidade. Através das experiências das personagens, a obra demonstra-nos como os livros, as ideias e as diferentes formas de expressão artística podem transformar pessoas, ampliar horizontes e oferecer caminhos de redenção. E diria mesmo que poucas obras conseguem transmitir de forma tão convincente o poder transformador da cultura.

Nesse sentido, O Acidente de Caça é também uma apaixonada homenagem à literatura. A obra estabelece uma ligação muito forte com A Divina Comédia, de Dante Alighieri, e em particular com O Inferno de Dante. As referências à viagem dantesca são constantes e assumem um papel fundamental na interpretação dos acontecimentos. Existe um interessante paralelismo entre as descidas simbólicas de Dante e os percursos vividos pelas personagens desta novela gráfica, criando momentos de grande impacto emocional e intelectual, reconheço.

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros
Ainda assim, esta é também a área onde encontro a principal fragilidade da obra. Apesar de David L. Carlson conseguir, no final, unir praticamente todos os pontos da narrativa com enorme competência, e até alguma grandiosidade, houve momentos em que senti que a presença de Dante se tornava algo excessiva. Em determinadas passagens, a ligação temática parece um pouco forçada, como se a narrativa procurasse constantemente reforçar um paralelismo que já estava suficientemente estabelecido, criando alguma redundância. Acredito que, neste ponto em concreto, "menos teria sido mais", pois preservar-se-ia uma maior sensação de espontaneidade e genuinidade na história.

Mas mesmo com essa reserva é impossível não admirar a ambição deste projeto de banda desenhada. O conjunto de temas abordados é verdadeiramente impressionante. Poucas bandas desenhadas conseguem integrar tantos assuntos diferentes (literatura, arte, braille, educação, filosofia, you name it...) sem perder o foco narrativo. Mais importante ainda, consegue fazê-lo de forma orgânica, com cada novo tema a acrescentar profundidade à história principal. Pode parecer, por vezes, que a história se perde um pouco, mas logo o argumentista David L. Carlson segura as rédeas narrativas com primor.

Admito que não é uma leitura rápida nem particularmente fácil. Existem momentos em que a quantidade de informação e de referências culturais pode parecer esmagadora. Contudo, é precisamente dessa exigência que nasce a força da obra. E à medida que a narrativa avança, torna-se evidente que cada detalhe foi colocado com um propósito específico. Quando finalmente chegamos ao final, percebemos que estamos perante um daqueles raros livros que nos enriquecem enquanto leitores e enquanto pessoas.

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros
Se já muito escrevi sobre o trabalho do argumentista, pouco ou nada referi sobre os desenhos de Landis Blair que, ainda por cima, merecem especial atenção. O seu desenho, a preto e branco, assente num uso intenso de hachuras, cria uma atmosfera sombria, opressiva e simultaneamente fascinante. É um estilo muito próprio, imediatamente reconhecível, que dificilmente deixa alguém indiferente. Compreendo perfeitamente que não agrade a todos os leitores. Ainda recentemente, um amigo apaixonado por banda desenhada, e também ele autor, me confessou que não apreciava particularmente esta abordagem visual, por ser, nas suas palavras "demasiado densa". No meu caso, sucede exatamente o contrário: considero que a identidade gráfica da obra é uma das suas maiores virtudes.

Há momentos visualmente extraordinários ao longo do livro, incluindo várias ilustrações de página dupla que atingem uma escala quase épica. A técnica de Blair é original, meticulosa e profundamente marcante. Apenas tenho uma pequena reserva relativamente à representação de algumas expressões faciais que, por vezes, parecem demasiado simples quando comparadas com o impressionante nível de detalhe presente nos cenários e ambientes.

A edição do livro é também ela grandiosa, com a edição a ser em capa dura baça, com detalhes a verniz. No miolo, o papel utilizado é baço e de qualidade máxima. Encadernação, impressão e acabamentos também estão muito bem feitos. A edição é complementada por uma elegante fita marcadora e, no final, há ainda um posfácio e alguns documentos reais sobre Matt Rizzo.

Em suma, O Acidente de Caça afirma-se como uma das melhores leituras do ano, sendo uma obra grandiosa não apenas pela sua dimensão física, mas sobretudo pela quantidade de ideias, emoções e reflexões que deixa no leitor. É um livro que exige entrega, atenção e disponibilidade intelectual, mas que retribui esse esforço de forma generosa. Daqueles livros raros que nos marcam, que nos acompanham muito depois da última página e que, de certa forma, nos mudam. Para melhor.


NOTA FINAL (1/10):
9.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros

Ficha técnica
O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia
Autores: David L. Carlson e Landis Blair
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 464, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 209 x 237 mm
Lançamento: Agosto de 2026

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

"A Sombra das Luzes" chega ao fim!



A editora Ala dos Livros acaba de publicar o terceiro e último volume da mini-série A Sombra das Luzes, de Alain Ayroles e Richard Guérineau.

Este último volume da série denomina-se O Demónio dos Grandes Lagos.

Já aqui falei dos primeiro e segundo tomos da série.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


A Sombra das Luzes - Tomo 3 – O Demónio dos Grandes Lagos, de Alain Ayroles e Richard Guérineau

O primeiro ciclo das aventuras epistolares do malvado Chevalier de Saint-Sauveur chega ao fim. 

No coração da América do século XVIII, Ayroles e Guérineau conduzem-nos por uma história de romance, intriga e grandes aventuras. Nas florestas americanas, a guerra aproxima-se. O Chevalier de Saint-Sauveur não se importa. A sua única preocupação é o sucesso da sua aposta: a inocente Aimée d'Archambaud deve casar-se com um iroquęs! 

Para alcançar esse objetivo, o infame libertino está preparado para recorrer aos planos mais ardilosos. Golpes de machado e réplicas mordazes ecoarão no silêncio da floresta! 

A série “A Sombra das Luzes”, está integralmente publicada em 3 volumes pela Ala dos Livros.

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Ficha técnica
A Sombra das Luzes - Tomo 3 – O Demónio dos Grandes Lagos
Autores: Alain Ayroles e Richard Guérineau
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 255 x 340 mm
PVP: 25,00€

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Análise: O Mercenário (Série Completa)

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros
O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles

Foi há poucas semanas que a Ala dos Livros concluiu a publicação de O Mercenário, o clássico do autor espanhol Vicente Segrelles. E isto é, quanto a mim, um belo feito, pois esta era uma série (mais uma) que não estava integralmente publicada em Portugal. Os primeiros 9 tomos tinham tido publicação pela Meribérica / Liber, é verdade, mas a série acabou por ficar incompleta, pois teve continuidade até 2019, sendo constituída por 14 volumes.

E como se não bastasse a publicação integral da obra, a Ala dos Livros ainda teve a audácia de fazer uma coleção absolutamente perfeita da série. Com encadernação e acabamentos de autêntico luxo, e com extensos dossiers de extras, esta é uma daquelas edições que considero que fazem jus à relevância da obra. Mas disso, já falarei mais à frente.

Por agora, centro-me na série, propriamente dita.

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros
O Mercenário
é uma daquelas obras que ocupa um lugar muito particular na história da banda desenhada europeia. Publicada originalmente entre 1982 e 2019, tornou-se uma obra de culto pela sua identidade visual absolutamente singular e pela forma como funde fantasia medieval, ficção científica, aventura e elementos oníricos num universo que parece não obedecer a nenhuma lógica que não seja a da imaginação do seu criador.

A premissa geral da série é relativamente simples. Num mundo composto por montanhas intermináveis, mares de nuvens e cidades perdidas, onde os cavaleiros cavalgam dragões em vez de cavalos, acompanhamos as aventuras de um mercenário sem nome que vende os seus serviços de espada a quem os possa pagar. Pelo seu caminho surgem alquimistas, sacerdotes, monstros, reis tirânicos, criaturas lendárias, invenções impossíveis e, naturalmente, uma sucessão de donzelas em apuros, normalmente, desnudas.

À medida que a série avança, esse universo vai-se expandindo e revelando mais camadas. E o que inicialmente parece apenas um mundo de fantasia medieval acaba por incorporar gradualmente elementos de ficção científica, tecnologia avançada, civilizações perdidas e mesmo viagens cósmicas. É uma mistura improvável, por vezes um pouco over the top, reconheço, e que revela que Vicente Segrelles nunca se preocupou demasiado em estabelecer fronteiras rígidas entre géneros. Aliás, se há algo que posso dizer desta obra, é que a mesma procura agradar, em primeiro lugar, ao seu criador. E quando assim é, normalmente encontramos obras únicas. Até podem não apelar a toda a gente, mas são obras com muita personalidade.

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros
Todavia, e olhando para esta obra à luz do tempo atual, considero que há algo que deve ser dito sobre O Mercenário: estamos perante uma obra criada por um ilustrador extraordinário e não necessariamente por um grande contador de histórias. As narrativas dos vários álbuns são simples, lineares e frequentemente previsíveis. As personagens raramente apresentam grande profundidade psicológica e os conflitos morais costumam ser bastante elementares. O bem e o mal surgem normalmente identificados de forma evidente e unilateral e a evolução dramática das personagens é reduzida.

Nesse sentido, as histórias servem mais como um pretexto para que o autor possa desenhar aquilo que verdadeiramente o fascina, do que outra coisa qualquer. Recuperando a expressão "dress to impress", acho que podemos dizer que O Mercenário é uma obra que nos remete para uma lógica de "draw to impress". Dragões gigantescos, castelos suspensos, monstros aterradores, batalhas aéreas, paisagens impossíveis, mulheres voluptuosas, cavaleiros e até naves espaciais. Tudo parece existir para alimentar a imaginação visual de Segrelles.

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros
Portanto, quem procura argumentos sofisticados, diálogos memoráveis ou personagens particularmente complexas... lamento, mas não as encontrará em O Mercenário. Por outro lado, quem valoriza a construção de mundos visuais e a contemplação artística encontrará aqui uma obra praticamente única no panorama da banda desenhada. Nesse sentido, é um autêntico "prato cheio".

E não se trata apenas de uma série de BD com bons desenhos... é uma série de BD com desenhos únicos. E o que a distingue das demais é a técnica utilizada por Vicente Segrelles. Em vez de recorrer aos métodos convencionais da banda desenhada, o autor optou por pintar cada vinheta com tinta a óleo. Só por si, esta escolha revela uma ambição pouco habitual na banda desenhada, para não dizer única.

O resultado é absolutamente impressionante. A técnica de pintura a óleo de Segrelles é fenomenal, ao ponto de muitas vezes nos esquecermos que estamos perante uma banda desenhada. Existem páginas e vinhetas que poderiam perfeitamente ser expostas num museu de pintura. As montanhas, as nuvens, os dragões e os cenários monumentais possuem uma riqueza visual e uma profundidade raramente vistas. Poucos autores conseguem criar ilustrações tão belas e tão ricas em atmosfera. Diria que é uma obra que tanto se lê como se contempla.

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros
Naturalmente, esta mesma opção estética da pintura a óleo também tem algumas consequências. Por mais extraordinárias que sejam as pinturas, elas tendem a transmitir uma certa sensação de imobilidade. Muitas figuras parecem posar para o artista em vez de estar efetivamente em movimento. E nas cenas de ação, claro está, essa característica torna-se particularmente evidente. Falta, por vezes, dinamismo e fluidez ao movimento das personagens, parecendo que as personagens humanas são bonecos de cera. Maravilhosamente pintados, sim, mas bonecos de cera.

Outro aspeto interessante na série, especialmente se lida de forma seguida como o fiz recentemente, é a evolução técnica do próprio autor. Durante grande parte da obra, nos primeiros nove tomos, Segrelles manteve-se fiel à pintura tradicional a óleo. Contudo, nos últimos volumes, começou gradualmente a incorporar ferramentas digitais no seu processo criativo. Devo dizer-vos que essa mudança não foi abrupta e que o autor procurou preservar a identidade visual da série. Aqui e ali, se olharmos com olho clínico, podemos encontrar alguma imagem que fica um pouco estranha ou artificial, especialmente em algumas texturas, devido ao recurso a ferramentas digitais. Mesmo assim, posso dizer que o autor conseguiu atingir uma certa linha de continuidade visual. Os leitores mais incautos até poderão não detetar a diferença de técnicas.

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros
Em termos de relevância histórica, O Mercenário merece lugar de destaque na banda desenhada europeia. Não porque tenha revolucionado a narrativa gráfica ou introduzido conceitos particularmente inovadores do ponto de vista do argumento, mas porque demonstrou até onde a banda desenhada pode aproximar-se da pintura clássica sem perder a sua identidade. E isso dá-lhe uma enorme originalidade. Digo até mais: conheço várias pessoas - não muitas, mas algumas - que até não leem BD, ou que leem pouca BD, mas que têm a totalidade desta série. Dito por outras palavras, O Mercenário é tão original que até pode ter seguidores que não leem habitualmente banda desenhada. E isso é sempre algo para enaltecer numa banda desenhada.

Quanto à edição, esta é uma das melhores edições de banda desenhada em Portugal. E a todos os níveis! Os livros apresentam capa dura, de textura aveludada e com detalhes a verniz. A lombada é feita num material baço que simula a pele de dragão. É verdadeiramente diferenciado. No interior, os livros apresentam excelente papel brilhante, boa encadernação, boa impressão e bons acabamentos. Como input construtivo, não sei se não poderia haver uma ilustração conjunta a ser formada pelo conjunto das 14 lombadas alinhadas. Penso que seria a cereja no topo do bolo, mas também compreendo que talvez a editora não tenha enveredado por esse caminho, por haver, por ventura, uma significativa parte dos leitores portugueses que já possuía na sua coleção alguns tomos de O Mercenário editados pela Meribérica.

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros
Ainda focando na edição, os dossiers de extras destes livros são grandiosos. Cada livro traz textos em que o autor nos explica, na primeira pessoa, o que fez, como fez, que técnicas utilizou, o que pretendia... etc. Além de que são introduzidas ainda fantásticas ilustrações - algumas nem sequer estão relacionadas com o universo de O Mercenário. É uma edição verdadeiramente espetacular, uma das mais bem feitas em Portugal e merece os meus mais sinceros louvores. É preciso ter amor pelas obras e pelos livros para se avançar com uma edição deste gabarito.

Chamo a atenção para o facto de o 14º volume da coleção não ser um livro de banda desenhada, mas uma história em prosa do mesmo universo que é depois complementada com bonitas ilustrações. Curiosamente, em termos de história, é capaz de ser a melhor de todos os livros, já que Vicente Segrelles se permitiu dar o tal desenvolvimento às personagens e à trama que não acontece nos restantes livros. Este 14º livro inclui ainda, como extra, a história curta A Evidência.

No final, O Mercenário é uma daquelas obras em que a forma acaba por ser mais importante do que o conteúdo. As histórias são clássicas, simples, por vezes até algo insípidas e unilaterais. Mas a arte é tão extraordinária, tão virtuosa e tão única que acaba por elevar toda a experiência. É uma série que dificilmente figurará entre as melhores da história ao nível do argumento, mas que permanecerá para sempre entre as mais impressionantes manifestações de beleza visual e originalidade que a banda desenhada europeia alguma vez produziu.


NOTA FINAL (1/10):
8.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros

Fichas técnicas
O Mercenário #1 - O Fogo Sagrado
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Junho de 2021

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros

O Mercenário #2 - A Fórmula
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Janeiro de 2022

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros

O Mercenário #3 - As Provas
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Janeiro de 2022

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros

O Mercenário #4 - O Sacrifício
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Julho de 2023

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros

O Mercenário #5 - A Fortaleza
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Março de 2024

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros

O Mercenário #6 - A Bola Negra
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Março de 2024

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros

O Mercenário #7 - A Viagem
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Dezembro de 2025

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros

O Mercenário #8 - Ano Mil. O Fim do Mundo
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Dezembro de 2025

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros

O Mercenário #9 - Os Antepassados Perdidos
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Maio de 2026

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros

O Mercenário #10 - Gigantes
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Junho de 2021

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros

O Mercenário #11 - A Queda
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Julho de 2023

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros

O Mercenário #12 - O Resgate I
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Dezembro de 2024

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros

O Mercenário #13 - O Resgate II
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Dezembro de 2024

O Mercenário (Série Completa), de Vicente Segrelles - Ala dos Livros

O Mercenário #14 - O Último Dia
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Junho de 2026