Um dos lançamentos mais recentes das editoras A Seita e Comic Heart - e que, infelizmente, tem passado um pouco despercebido - dá pelo nome Strong - Arquivos da Kachisou. Esta é uma antologia de histórias em banda desenhada, com forte influência da imagética mais associada ao mangá, da autora portuguesa Kachisou. Acaba por ser uma reedição, uma vez que boa parte desta obra, cerca de metade, já havia sido editada com o título Weak. Editado pela editor Bubok, Weak marcou a estreia da autora portuguesa na edição de banda desenhada em formato físico. Essa edição continha quatro histórias curtas. Desta feita, o título Weak foi substituído pelo antónimo Strong e estamos perante uma edição muito melhor, que tem o dobro das histórias, uma revisão dos conteúdos, e ainda um belo conjunto de material extra.
Já aquando do seu lançamento original, em 2020, Weak fez-nos antever que Kachisou tinha um potencial imenso. E, para tal, muito contribuiu a capacidade impressionante da autora para o desenho.
E, de facto, o desenho de Kachisou neste Strong é tão bom que não está apenas ao estilo qualitativo dos mangakás do Japão, mas sim ao estilo qualitativo dos melhores mangakás do Japão. O estilo de traço da autora é clássico, extremamente expressivo, e remete-nos para os melhores animes que marcaram a infância de quem, como eu, cresceu nos anos 80 e 90. Sou verdadeiramente fã do desenho da autora. E ainda que a mesma nos tenha dado belos desenhos nos mais recentes livros A Aventura do Sapo: Caos e Coaxos ou Quero Voar, é, quanto a mim, neste livro que o seu trabalho de ilustração mais impressiona. Aqui, a maturidade do seu traço e a consistência do seu estilo atingem um nível superior, consolidando Kachisou como uma das vozes mais relevantes da banda desenhada nacional.
A autora revela uma capacidade de desenho absolutamente notável, que não se limita a imitar o estilo das suas referências, mas antes se aproxima do melhor que esse universo tem para oferecer, conseguindo oferecer-nos uma certa componente nostálgica que nos convida a deter-nos em cada uma das páginas do livro. A fluidez das linhas, a composição dos enquadramentos e a construção das personagens revelam uma artista que domina plenamente a linguagem visual do mangá, por um lado, e a elegância e clareza narrativa de uma história em banda desenhada, por outro.
A expressividade que Kachisou coloca nas suas personagens é impressionante, com cada emoção das mesmas a ter uma intensidade quase cinematográfica.
Falando das histórias, em concreto, temos um conjunto de oito breves contos que varia bastante em termos de dimensão de histórias, com uma delas a passar as duas dezenas, mas outras, mais curtas, com apenas três ou quatro páginas. Há até uma história que só ocupa uma prancha. Em comum, todas elas têm uma abordagem delicada e suave, em estilo slice of life, colocando-nos em momentos concretos da vida das personagens com quem privamos.
São relatos simples, muitas vezes contemplativos, que são centrados em emoções e pequenos momentos, mas que, precisamente por isso, conseguem ser marcantes. Não escondo que considero que muitas das histórias aqui presentes teriam potencial para serem mais desenvolvidas, tendo mais páginas, mas também acho que há uma leveza assumida que não diminui o impacto das histórias.. e que acaba por ser bem conseguida.
Os temas são vários: temos um jovem que procura ser um bom lutador de boxe; temos um robot que encontra numa rapariga uma amizade inesperada; uma idosa que procura, de algum modo, superar a própria morte; um rapaz que procura anular os seus próprios medos de infância, entre outros e variados assuntos. Há uma certa ternura transversal a todas as narrativas, que se articula de forma harmoniosa com o traço elegante da autora. As histórias exploram temas como a superação, a amizade, a perda ou o medo, sempre com bastante sensibilidade.
Quanto à edição, estamos perante um belíssimo trabalho das editoras A Seita e Comic Heart, pois este livro não só recupera material previamente publicado, e que já era difícil de encontrar à venda, como o eleva através de uma edição cuidada e substancialmente ampliada, que permite redescobrir o universo criativo de Kachisou com outro fôlego e ambição. De resto, o livro é melhor a todos os níveis do que a edição original da Bubok, tendo capa dura baça, bom papel baço no miolo e encadernação, impressão e acabamentos de boa qualidade. É, também, ligeiramente maior, em termos de formato, do que a edição de Weak. E, claro, inclui ainda um simpático caderno de material extra, com 12 páginas, onde nos são dadas lindíssimas ilustrações adicionais da autora.
No conjunto, Strong - Arquivos da Kachisou apresenta-se como o mangá português mais japonês de sempre. Esta afirmação não surge como exagero, mas como reconhecimento do grau de autenticidade com que a autora trabalha a linguagem deste subgénero. Por tudo isso, este livro não é apenas uma reedição... é uma consagração. E, acima de tudo, um testemunho claro de que o talento de Kachisou merece todo o reconhecimento que tem vindo a alcançar.
NOTA FINAL (1/10):
8.9
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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Strong - Arquivos da Kachisou
Autora: Kachisou
Editoras: A Seita e Comic Heart
Páginas:, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 23 x 16 cms
Lançamento: Abril de 2026
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