sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Análise: As Águias de Roma – Livro VIII

As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini - ASA - LeYa

As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini - ASA - LeYa
As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini

Foi há poucos meses que a ASA editou o oitavo volume da série As Águias de Roma, de Enrico Marini. Esta série, relembro, esteve algo esquecida pela editora durante alguns anos, mas desde o sexto volume que tem vindo a ser publicada assiduamente, encontrando-se agora a par da edição original francesa, que conta com os mesmos oito tomos. Espera-se um novo volume, em França, já para o próximo mês de Outubro e espero que a ASA acompanhe esse lançamento internacional.

Sendo As Águias de Roma uma série da qual eu gosto muito, admito que os últimos tomos têm ficado um pouco aquém dos primeiros números da série. É que depois de um arranque absolutamente brilhante e de vários volumes que colocaram esta obra entre as mais marcantes séries históricas da banda desenhada europeia contemporânea - e esta é uma opinião partilhada por muitos -, a sensação que se vai instalando progressivamente é a de que Marini procura prolongar uma história que, embora continue interessante, já não possui o fulgor narrativo dos primeiros tomos. 

Ainda assim, seria injusto afirmar que este oitavo volume representa uma queda abrupta de qualidade. O que encontramos é antes uma continuação de uma tendência que já se fazia sentir nos volumes VI e VII: uma narrativa mais lenta, mais fragmentada e menos impactante do que outrora. Existe qualidade suficiente para manter o interesse do leitor, mas não necessariamente para provocar aquele entusiasmo imediato que outrora fazia cada novo volume parecer indispensável.

As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini - ASA - LeYa
O enredo prossegue o complexo conflito entre Roma e as tribos germânicas, mantendo como eixo central a relação entre Marco e Armínio. Os dois irmãos de criação continuam presos a lealdades opostas e a visões irreconciliáveis do mundo. O confronto militar e político aproxima-se cada vez mais, ao mesmo tempo que o autor continua a explorar as consequências pessoais e emocionais das escolhas feitas por ambos ao longo dos anos.

A lealdade, a traição, a ambição política, o peso do destino e o choque entre civilizações continuam a dominar as páginas deste Livro VIII. Marini sempre foi particularmente eficaz a trabalhar estes conflitos morais e culturais, e continua a demonstrar uma enorme facilidade em retratar personagens que vivem permanentemente divididas entre os seus afetos e as suas obrigações.

Contudo, também se torna cada vez mais evidente que a narrativa perdeu alguma da urgência que caracterizava os primeiros tomos. Há momentos em que o leitor sente que a história avança apenas alguns passos, apesar do número significativo de páginas. Bem sei que muitas cenas funcionam como uma preparação para acontecimentos futuros, mas também é verdade que essa sensação de expectativa já se arrasta há vários (demasiados?) volumes. 

Não se trata necessariamente de um problema grave. Existem séries que sabem transformar esta acumulação de tensão numa poderosa recompensa final. Talvez isso possa vir acontecer em As Águias de Roma. No entanto, neste momento da obra, já não consigo evitar a sensação de que Marini está a esticar deliberadamente determinadas situações, retardando desenvolvimentos que talvez devessem ocorrer de forma mais célere.

As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini - ASA - LeYa
Ainda assim, o autor continua a revelar uma invejável capacidade para construir ambientes e relações humanas. A ambiguidade moral mantém-se como uma das maiores virtudes da série. Aqui não há verdadeiros heróis nem verdadeiros vilões. As personagens movem-se numa "zona cinzenta" onde as motivações pessoais, os interesses políticos e as convicções ideológicas se misturam de forma extremamente convincente. E essa complexidade continua a ser um dos grandes fatores de atração da série. Tão depressa compreendemos as razões de Armínio como acabamos por nos encontrar do lado de Marco. Marini evita constantemente julgamentos simplistas, apresentando indivíduos profundamente humanos, cheios de contradições e fragilidades.

Se o argumento revela algum desgaste, o trabalho gráfico continua a ser um dos grandes trunfos da série. Marini permanece um desenhador extraordinário. Poucos autores conseguem representar a Roma Antiga com tamanho sentido de monumentalidade e elegância visual. Os cenários continuam ricos, os enquadramentos cinematográficos e a composição de página exemplar.

As personagens mantêm uma presença impressionante. Os rostos, os gestos e as expressões comunicam emoções com enorme eficácia. As cenas de intimidade continuam a surgir desenhadas com a sensualidade característica do autor, enquanto os momentos de violência são retratados com uma intensidade física muito convincente.

As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini - ASA - LeYa
No entanto, também aqui começam a surgir algumas limitações que já eram visíveis nos volumes VI e VII. Existem vinhetas que parecem menos trabalhadas do que aquelas que encontrávamos nos primeiros tomos da série. O traço continua bonito, reconhecível e extremamente agradável de observar, mas por vezes transmite a sensação de ter sido executado de forma mais apressada. E isso nota-se particularmente nos cenários e nas personagens mais secundárias - ou que aparecem em segundo plano. 

Por outro lado, a cor permanece um dos elementos mais fortes da obra. As tonalidades quentes dos ambientes mediterrânicos, os contrastes entre os espaços urbanos romanos e os cenários mais agrestes da Germânia e o cuidado atmosférico de cada sequência continuam a conferir uma enorme riqueza visual ao conjunto. E esta questão das cores é especialmente importante, pois mesmo quando algumas ilustrações parecem menos refinadas, a coloração ajuda a preservar a beleza global da obra.

Em termos de edição, o livro apresenta as mesmas características dos anteriores volumes: capa dura brilhante, bom papel brilhante, boa encadernação e boa impressão. A edição francesa da obra tinha duas opções de capa: uma com Armínio e outra com Marco, deixando os leitores escolherem a sua capa preferida - ou desafiando alguns indecisos ou colecionadores a comprarem as duas. No caso português, a ASA optou por editar a obra apenas com a capa em que aparece Armínio.

Em jeito de conclusão, As Águias de Roma - Livro VIII confirma uma impressão que se vem consolidando nos últimos anos: a série continua muito boa, mas já não tão extraordinária como foi. O encanto permanece, as personagens continuam envolventes e o grafismo mantém-se claramente acima da média. Contudo, o ritmo narrativo perdeu alguma força e o desenho, embora ainda magnífico, parece por vezes menos aprimorado do que outrora. É um álbum que continua a proporcionar uma leitura bastante satisfatória, mas que reforça a ideia de que a série atravessa uma fase ligeiramente descendente. Felizmente, mesmo um Marini abaixo da sua melhor forma continua a ser melhor do que a esmagadora maioria da produção contemporânea de banda desenhada histórica.


NOTA FINAL (1/10):
8.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


-/-

As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini - ASA - LeYa

Ficha técnica
As Águias de Roma - Livro VIII
Autor: Enrico Marini
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 31,6 x 23,8 cms
Lançamento: Abril de 2026

Análise: Dylan Dog - Morte em 16 por 9

Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita

Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita
Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi

Por ocasião do 40º aniversário de Dylan Dog, uma das mais famosas e idolatradas séries dos fumetti da Bonelli, A Seita editou recentemente, numa edição especial, a obra Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi! E que bela obra é esta que entra diretamente para os meus livros favoritos da popular personagem italiana!

Dos mesmos autores, a editora portuguesa já por cá editou, relembro, Dylan Dog - Batman: A Sombra do Morcego e Dylan Dog / Dampyr - O Detective e o Caçador, ambos com argumento de Roberto Recchioni; e Dylan Dog - Trevas Profundas e Apocalipse: O Livro da Revelação de São João, estes dois últimos com ilustrações de Corrado Roi.

Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita
Se Dylan Dog já é uma série que eu muito aprecio, tenho que vos dizer que este Morte em 16 por 9 me encheu as medidas, pois mais do que ser uma simples aventura do Investigador do Pesadelo, aqui estamos perante uma experiência profundamente sensorial, construída a partir de imagens, silêncios, olhares e emoções contraditórias e sensuais que se vão infiltrando lentamente no leitor. É uma banda desenhada que parece respirar cinema em cada vinheta e que nos envolve numa atmosfera simultaneamente sedutora, inquietante e melancólica.

A história começa com o desaparecimento de um restaurador de arte, namorado de Mina, que leva esta a pedir ajuda a Dylan Dog para investigar o caso. A partir desse ponto, a investigação conduz o detetive até à bela Lucille e ao misterioso quadro que domina toda a narrativa. E rapidamente somos transportados para uma viagem carregada de obsessões, desejos proibidos e muito sexo. Sim, de todos os livros que me lembro de ter ligo de Dylan Dog - e já foram alguns - não me lembro de uma história em que os momentos de sensualidade - por vezes, extrema, no bom sentido da palavra - fossem tantos. Das várias cenas de sexo com três e quatro pessoas, bissexualidade, bondage e dominação, Dylan Dog passa para um estado de êxtase tal, que permite à história arrastar-nos para o seu lado mais obscuro e retorcido. Um lado mais onírico e mais do âmbito do fantástico.

Mas mesmo havendo uma generosa e intensa sensualidade neste livro, também há um certo requinte na forma como a mesma nos é dada, fazendo com que, mesmo sendo uma obra para um público adulto, nunca se ultrapasse a linha da vulgaridade. Pelo menos, claro, para os meus standards que são bastante tolerantes neste tipo de questões. Não há gratuitidade nem provocação barata. Pelo contrário, tudo é enquadrado numa atmosfera de fascínio e de mistério que transforma o erotismo num elemento essencial da narrativa. Diria até mesmo que, neste caso, o desejo se torna uma força narrativa tão poderosa quanto o próprio terror contido na obra.

Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita
E nesse contexto, tenho que mencionar que a personagem de Lucille assume um papel absolutamente central na narrativa, pois poucas vezes encontrei numa banda desenhada uma figura tão magneticamente perigosa e sexy, ao mesmo tempo. Talvez por isso, a sua presença me tenha remetido inevitavelmente para Catherine Tramell, a inesquecível personagem interpretada por Sharon Stone em Instinto Fatal. Lucille possui essa mesma combinação devastadora de beleza, inteligência, mistério e ameaça latente, com cada aparição sua a parecer anunciar simultaneamente prazer e catástrofe. Quer para Dylan Dog, quer para nós, meros leitores voyeuristas.

Durante boa parte da leitura, desejamos que o protagonista se entregue a essa atração inevitável, mesmo sabendo que as consequências poderão ser devastadoras. Trata-se de uma dinâmica construída com enorme subtileza por parte do argumentista e que confere à obra uma intensidade emocional rara. 

Além disso, convém ainda referir que uma das características mais marcantes de Morte em 16 por 9 é a forma como Roberto Recchioni constrói a narrativa. Há vários momentos praticamente mudos, privilegiando o impacto visual em detrimento do diálogo. O silêncio torna-se uma linguagem própria, permitindo que as imagens falem por si mesmas.

À medida que a narrativa avança, o lado fantástico vai assumindo maior protagonismo, o que é habitual nas histórias de Dylan Dog, casando, portanto, bem com a série. Mas, ao contrário de algumas histórias do foro fantástico que, por vezes, se podem tornar menos plausíveis, este Morte em 16 por 9 apresenta-se muito mais credível por veicular todo esse lado fantástico e onírico através da doçura da euforia sexual. Se Dylan Dog não se envolvesse com Lucille, não visitaríamos certamente esse lado mais obscuro e fantástico da obra.

Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita
Naturalmente, Dylan não atravessa sozinho este pesadelo. Groucho, o seu assistente, faz a sua aparição em vários momentos da história. Confesso que, ao contrário daquilo que acontece noutros livros da série, achei que, neste caso, as tiradas de Groucho me pareceram mais forçadas e menos bem-vindas do que o desejável. Groucho é uma personagem que já me deixou muito bem humorado com os seus comentários noutros livros da franquia, mas neste Morte em 16 por 9 achei-o algo cansativo e até dispensável, deixando no ar a ideia de que aparece na história mais para "picar o ponto". Há ainda outras aparições de algumas personagens míticas da série como a da bela Lillie Connolly, a do Inspector Bloch ou a do memorável Johnny Freak.

Mas se existe um verdadeiro protagonista desta obra para além do próprio Dylan, esse protagonista chama-se Corrado Roi. O seu trabalho gráfico é absolutamente extraordinário! Poucos artistas dominam o preto e branco com tamanha elegância e sensibilidade, a meu ver. Cada página parece ter sido cuidadosamente construída para evocar emoções específicas, explorando magistralmente luzes, sombras e contrastes.

O traço de Roi é simultaneamente realista e onírico. As personagens possuem uma presença física convincente, mas os cenários e as atmosferas parecem emergir de um sonho sombrio. As sombras invadem frequentemente as páginas quase como "entidades vivas", transformando o espaço visual numa extensão dos estados emocionais das personagens. É um trabalho gráfico de enorme maturidade e requinte que eu assumidamente adoro!

Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita
E também a opção formal de utilizar exclusivamente três vinhetas horizontais por página merece aplauso. A referência, no título, ao formato cinematográfico 16:9 não é meramente decorativa, moldando, pelo contrário, toda a experiência de leitura. O resultado aproxima-se mais de um filme do que de uma banda desenhada convencional, com cada vinheta a funcionar como um enquadramento cuidadosamente composto, conferindo ritmo, tensão e uma impressionante fluidez narrativa.

A edição d' A Seita é integral, pois reúne num só volume os dois tomos que constituem a obra original e é feita num formato superior ao que a editora habitualmente utiliza para os restantes livros de Dylan Dog, exceptuando o já referido Dylan Dog - Batman: A Sombra do Morcego, com quem partilha o mesmo formato de 20 x 26,5 cm. De resto, a edição é em capa dura, com detalhes a verniz, com excelente papel baço no interior e um bom trabalho a nível da encadernação e impressão. Há ainda um prefácio de João Miguel Lameiras e, no final do livro, um caderno adicional de extras, com 12 páginas, que nos oferece um texto de Gianmaria Contro sobre a obra e que é acompanhado por vários esboços e ilustrações.

Em suma, Dylan Dog - Morte em 16 por 9 revelou-se para mim uma experiência extraordinária. É uma obra despudoramente sensual, sombria, poética e profundamente cinematográfica, capaz de combinar erotismo, horror, romance e introspeção numa narrativa coerente e emocionalmente poderosa. Roberto Recchioni oferece um dos argumentos mais envolventes que li recentemente na série, enquanto Corrado Roi assina um verdadeiro recital gráfico. Daquelas leituras que não se limitam a ocupar algumas horas do nosso tempo, mas que permanecem connosco muito depois de fecharmos o livro!


NOTA FINAL (1/10):
9.3



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


-/-

Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita

Ficha técnica
Dylan Dog - Morte em 16 por 9
Autores: Roberto Recchioni e Corrado Roi
Editora: A Seita
Páginas: 208, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 20 x 26,5 cm
Lançamento: Junho de 2026

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Sendai Editora aposta em "Midori: A Menina das Camélias"


Sendai Editora prepara-se para editar, ainda durante este mês de agosto, a obra Midori: A Menina das Camélias, de Suehiro Maruo!

Trata-se do 20º lançamento da editora portuguesa, o que já é um número redondo e substancial, que merece os meus louvores.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse deste livro e com algumas imagens promocionais.


Midori: A Menina das Camélias, de Suehiro Maruo

A Sendai Editora tem o prazer de divulgar o seu vigésimo lançamento: “Midori: a menina das camélias” de Suehiro Maruo.

Abandonada pelo pai e órfã de mãe, a doce Midori é levada por uma trupe de saltimbancos. Abusada constantemente pelos artistas e aberrações, Midori vê o seu futuro muito negro...

Suehiro Maruo é o mestre do erótico-grotesco e esta a sua obra-prima. Inspirada num teatro de papel tradicional, evidencia a perversão e a avareza humanas através do dia-a-dia de uma inocente rapariga, numa Tóquio miserável dos anos 1930.

Midori: a menina das camélias já teve duas adaptações para longa-metragem: uma, realizada por um fã, em 1992, e outra, em imagem real, em 2016. Em 2011 e 2012, foi também adaptada para teatro pelo grupo Kaiten Hyakume. Podem ver aqui o trailer do filme de 2016.

Os 100 primeiros a comprarem na nossa loja recebem um chaveiro da edição original.

-/-

Ficha técnica
Midori: A Menina das Camélias
Autor: Suehiro Maruo
Editora: Sendai Editora
Páginas: 164 (16 coloridas em vermelho e castanho, 148 em azul especial)
Encadernação: Capa mole
Formato: A5
PVP: 18,90€

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Análise: Albert Londres tem de Desaparecer

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público
Albert Londres tem de Desaparecer, de Frédéric Kinder e Borris

Este ano, a Coleção de Novelas Gráficas tem vindo a apresentar uma qualidade média bastante interessante. Já li praticamente todos os livros que saíram até ao momento e, pelo menos para já, posso dizer-vos que estou bastante satisfeito com a seleção de obras deste ano. É óbvio que haverá sempre livros para todos os gostos e que uns serão melhores do que outros, mas olhando para o todo, tenho que conceder que a seleção é boa e equilibrada.

Este Albert Londres tem de Desaparecer que hoje vos trago é mais uma das boas obras que fazem parte desta iniciativa editorial levada a cabo pela editora Levoir e pelo jornal Público.

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público
Para quem não sabe, Albert Londres foi um célebre jornalista e escritor francês, sendo considerado um dos pioneiros do jornalismo de investigação. Era uma daquelas pessoas que não tinha medo de "pôr o dedo na ferida" e que ficou conhecido pelas suas reportagens corajosas, nas quais denunciava injustiças sociais, condições desumanas em prisões, abusos do colonialismo e outros problemas ignorados pela sociedade da época. Mais do que isso, as suas viagens por vários países deram origem a reportagens marcantes que influenciaram a opinião pública e contribuíram para mudanças sociais. Existe mesmo um prémio de jornalismo, o Prémio Albert Londres, que foi criado em sua homenagem, sendo um dos mais prestigiados galardões do jornalismo francófono. Estamos perante, pois está claro, uma das individualidades mais importantes do jornalismo. Se bem que a sua morte sempre levantou alguma suspeita.

E este Albert Londres tem de Desaparecer, dos autores Frédéric Kinder e Borris, é um livro que se situa algures entre a biografia, o relato histórico e a ficção especulativa. A obra parte dos acontecimentos devidamente comprovados que marcaram os últimos meses da vida do jornalista para construir uma narrativa envolvente em torno do mistério da sua morte. O resultado é uma obra simultaneamente informativa e fascinante, que é capaz de despertar a curiosidade dos leitores tanto pela figura histórica retratada, como pela hipótese apresentada para explicar o seu desaparecimento.

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público
Sente-se que os autores procuram prestar homenagem a um homem cuja influência no jornalismo de investigação continua a ser sentida nos dias de hoje. Sendo alguém que procurava expor injustiças, denunciar abusos e revelar realidades, fez, com certeza, bastantes inimigos, já que que muita preferia manter escondidas as verdades incómodas que Albert procurava revelar. E essa dimensão ética da sua atividade profissional revela-se muito bem representada ao longo da narrativa.

A escolha do período final da vida do jornalista revela-se particularmente acertada. A viagem à China, realizada em 1931, permanece envolta em inúmeras dúvidas e interrogações. Ao que parece, não se tratou de uma deslocação encomendada por qualquer jornal e os verdadeiros objetivos de Albert Londres com esta viagem nunca ficaram totalmente esclarecidos. E foi especificamente essa incerteza histórica que os autores agarraram, utilizando esse terreno fértil para a construção de uma narrativa que combina factos documentados com elementos ficcionais de forma bastante convincente.

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público
E um dos aspetos mais interessantes da obra reside precisamente nessa mistura entre verdade histórica e ficção. Frédéric Kinder, o argumentista, evita transformar o livro numa simples biografia ilustrada e opta antes por explorar as zonas cinzentas que rodeiam os acontecimentos que motivaram a morte do célebre jornalista. O resultado é uma narrativa dinâmica, a fazer lembrar uma história policial, que nos mantém constantemente envolvidos e a questionar aquilo que realmente poderá ter acontecido.

A hipótese central do livro assenta na possibilidade de Albert Londres ter descoberto uma rede de tráfico de armas e de ópio envolvendo interesses poderosos. Sendo que essas informações recolhidas pelo jornalista durante a sua estadia na Ásia seriam suficientemente comprometedoras para ameaçar figuras influentes. A partir desta premissa desenvolve-se um enredo marcado pela tensão e pelo suspense.

É evidente que esta interpretação poderá ser vista por alguns leitores como excessivamente conspirativa. Afinal, a verdade é que ninguém sabe ao certo o que Albert Londres estava a investigar na China durante os últimos meses da sua vida. A escassez de provas definitivas impede qualquer conclusão categórica, é certo. Contudo, a proposta dos autores nunca deixa de parecer plausível, sobretudo quando recordamos o histórico profissional de Londres e a natureza das investigações que já realizara anteriormente, incidindo em temas como a prisão de Cayenne, o tráfico de mulheres ou as condições desumanas dos hospitais psiquiátricos. E é por isso que o livro funciona bem.

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público
Além disso, a obra tem ainda o mérito de levar o leitor a refletir sobre uma realidade que permanece atual. Quando alguém revela verdades incómodas sobre práticas ilegítimas ou criminosas, os interesses afetados tendem frequentemente a reagir. Ao longo da História, não têm sido poucos os jornalistas, denunciantes e investigadores que enfrentaram pressões, ameaças ou tentativas de silenciamento. Nesse sentido, a narrativa transcende a figura de Albert Londres e assume uma dimensão mais universal, o que volta a ser bem-vindo.

Em termos de ilustração, gostei particularmente da abordagem visual de Borris. Os seus desenhos são bastante originais e conferem à obra uma identidade muito própria, por vezes a roçar o expressionismo. O estilo gráfico afasta-se, pois, de soluções mais convencionais e, com os traços do esboço a notarem-se propositadamente na composição final, o desenhador consegue cria uma atmosfera que combina perfeitamente com o tom de mistério e investigação da narrativa. A expressividade das personagens - onde reside, por vezes, um certo nível caricatural - consegue funcionar muito bem, também, e as cores também são bem conseguidas.

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público
Por vezes, senti que algumas páginas careciam de alguma legibilidade, como se aparentassem estar pixelizadas, o que tornou a experiência menos positiva. Ainda investiguei a edição original da obra, para comparar, mas confesso não ter percebido se este problema da legibilidade que aparece amiúde se devia à propria ilustração original ou se se devia a um defeito de impressão. Mas deixo essa nota.

De resto, a edição da Levoir é em capa dura baça, com bom papel baço no interior e um bom trabalho a nível de encadernação. No final, há ainda um generoso caderno documental, com 12 páginas, que nos oferece textos com mais informações sobre o desaparecimento de Albert Londres, sobre o contexto geopolítico de Xangai em 1932 e que inclui notas biográficas das principais personagens. Há ainda várias ilustrações e esboços, bem como fotografias e estudos de página, que acompanham estes textos.

Devo fazer uma menção negativa ao facto da edição portuguesa trazer o (enorme!) subtítulo "O Segredo da Última Reportagem de um Jornalista Excepcional". Mais do que ser um subtítulo que não era necessário, nunca poderia ter sido colocado daquela forma, com aquela dimensão, naquele local da página. Acho que foi um ato falhado que até acaba por estragar a bela ilustração da capa. Ou a bem que não se colocava esse grande subtítulo ou, colocando, teria que ser no canto inferior da capa, em rodapé. Ou, sendo neste sítio em que acabou por ficar, teria que ser com um círculo/quarado à volta, simulando um autocolante. São noção básicas de design e produção gráfica.

Tirando este detalhe, e em suma, Albert Londres tem de Desaparecer é um livro bastante bem conseguido, que presta uma justa homenagem a um dos mais importantes jornalistas de sempre, ao mesmo tempo que lança luz sobre uma possível explicação para o seu desaparecimento. Mesmo que a teoria apresentada não possa ser comprovada e permaneça no domínio da especulação, os autores conseguem torná-la credível e estimulante. Boa aposta!


NOTA FINAL (1/10):
8.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



-/-

Albert Londres tem de Desaparecer - Frédéric Kinder e Borris - Levoir - Público

Ficha técnica
Albert Londres tem de Desaparecer
Autores: Frédéric Kinder e Borris
Editora: Levoir
Páginas: 104, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 X 270 mm
Lançamento: Julho de 2026