sexta-feira, 10 de julho de 2026

Análise: Mãe e Peras

Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa - Oficina do Livro - LeYa

Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa - Oficina do Livro - LeYa
Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa

A Oficina do Livro, uma chancela do Grupo LeYa, publicou no passado mês de abril - ainda bem a tempo do Dia da Mãe - o livro Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa.

Esta é uma obra de estreia para as duas autoras portuguesas. Diana Rodrigues é uma influencer, criadora da página de instagram mae_e_peras, que conta com mais de 500.000 seguidores. Nessa página, a autora partilha, com humor, um pouco da sua experiência de mãe e das agruras adjacentes a essa função que ocupa 24h por dia, 7 dias por semana.

Daí à adaptação desses momentos e desafios da maternidade para banda desenhada, foi um pequeno passo. 

Mãe e Peras é, por isso, uma obra que parte da experiência quotidiana da maternidade para construir um retrato simultaneamente divertido, leve e sincero, com o qual, não só as mães, mas também os pais, nos podemos identificar. 

A autora vai relatando-nos pequenas situações do dia a dia, transformando aquilo a que podíamos chamar de episódios aparentemente banais, como birras em locais públicos, noites mal dormidas, ou aquelas perguntas inesperadas e inconvenientes das crianças, em momentos humorísticos que colocam um sorriso nas nossas caras. Afinal de contas, todos nós já passámos por isso.

Muitas das piadas resultam da exageração de pequenos dramas quotidianos ou da forma como as expectativas de uma mãe colidem com a imprevisibilidade das crianças. É um humor leve, acessível e eficaz, que raramente procura mais do que arrancar um sorriso cúmplice. Não diria que seja um humor para nos fazer chorar a rir, mas antes para nos colocar um sorriso na face.

Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa - Oficina do Livro - LeYa
E, por detrás dos sorrisos com que ficamos enquanto lemos este livro, a mensagem subjacente que retemos é que, de facto, não é fácil ser-se mãe. É desgastante em termos de tempo, de energia, de paciência e até de recursos financeiros. Mas também não há aqui - felizmente! - uma tentativa de vitimização, mostrando que a maternidade é uma coisa má. Não, longe disso. Até porque, mesmo sendo difícil, também será certamente a melhor coisa do mundo para muitas mães. E mesmo nos momentos mais caóticos e difíceis, existem memórias e afetos que acabam por dar sentido a todos os desafios.

Um dos méritos da obra - que se apresenta mais como livro de tiras humorísticas, não havendo uma sequência muito grande entre ilustrações -  está precisamente na sua honestidade. Diana Rodrigues afasta-se das imagens idealizadas da maternidade que tantas vezes encontramos nas redes sociais e em determinados discursos. Em vez disso, opta por mostrar mães reais, com defeitos, dúvidas, cansaço e frustrações. Mães falíveis. Essa autenticidade torna a leitura particularmente próxima e permite que muita gente se possa rever nas situações apresentadas. As situações retratadas não são, portanto, extraordinárias, mas são, precisamente, aquelas que acontecem todos os dias em milhares de casas. E essa universalidade ajuda a explicar o potencial de identificação que este Mãe e Peras traz consigo.

Com efeito, este é um daqueles livros que poderá chegar a muitas pessoas que habitualmente não lêem banda desenhada. E isso é claramente positivo. 

Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa - Oficina do Livro - LeYa
O livro é ilustrado por Marina Costa, que nos oferece desenhos simples e expressivos, de notável eficiência, que casam muito bem com as situações retratadas. As expressões das personagens, bem como as suas reações, são exageradas, reforçando o cariz cómico da obra. Não são desenhos que primem por uma complexidade ilustrativa muito grande, mas também não seria isso que a obra necessitaria. As cores vivas e diversas também conferem um estilo moderno e, novamente, eficiente ao todo.

Sobre a presença de Marina Costa nesta obra, tenho que fazer uma referência. Incomodou-me bastante que o nome da autora nunca apareça na capa, na lombada, na contracapa ou no frontispício do livro. Temos que procurar na ficha técnica do livro a menção ao nome de Marina Costa para verificarmos que foi ela a autora das ilustrações, da capa e da paginação do livro. Ora, tratando-se de uma obra a quatro mãos, que sem a ilustradora não seria um livro de BD/tiras humorísticas, parece-me uma grande falta de noção editorial. Mesmo aceitando que este foi um "trabalho de encomenda", em que Marina Costa pode ter sido recrutada apenas para ilustrar as histórias já definidas, continuo a achar que a menção ao nome da autora na capa do livro, era mandatória. É importante que o nosso trabalho seja devidamente creditado e respeitado, diria. Portanto, deixo essa nota. 

De resto, o livro apresenta capa mole baça, com badanas e verniz localizado. No interior, o papel é brilhante e de boa qualidade. A impressão e encadernação também são boas.

Em suma, a estreia de Diana Rodrigues e Marina Costa na banda desenhada, com este Mãe e Peras é particularmente bem-vinda. Sem pretensões excessivas, as duas autoras conseguem criar uma obra que comunica diretamente com o seu público-alvo e que aproveita bem as ferramentas narrativas da 9.ª arte. Uma estreia promissora e uma aposta que me parece bem pensada por parte da Oficina do Livro.


NOTA FINAL (1/10):
7.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa - Oficina do Livro - LeYa

Ficha técnica
Mãe e Peras
Autoras: Diana Rodrigues e Marina Costa
Editora: Oficina do Livro
Páginas: 168, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 23,5 x 16,5 cm
Lançamento: Abril de 2026

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Análise: Joker

Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo - Devir - DC Pocket


Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo - Devir - DC Pocket
Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo

Inserido no arranque da nova Coleção DC Pocket, da Devir, estava - além do fantástico Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - este Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo. Tal como o livro de Sean Murphy que refiro, também este já havia sido previamente publicado em Portugal pela editora Levoir... duas vezes.

Originalmente publicado em 2008, este Joker propõe-nos uma visão sombria e realista do mais famoso inimigo de Batman. A história decorre fora da continuidade principal do universo DC e acompanha o regresso do Joker às ruas de Gotham após uma misteriosa libertação do Asilo Arkham. Em vez de apresentar o vilão como uma figura quase caricatural, a obra procura retratá-lo como um criminoso brutal e imprevisível. E credível. E aqui, o verdadeiro protagonista é mesmo Joker. Batman aparece, sim, mas tem um papel menor nesta narrativa.

Quem nos conta a história é Jonny Frost, um pequeno criminoso que se torna motorista e acompanhante de Joker. E acho que isso é um grande trunfo utilizado pelo argumentista Brian Azzarello. É que, ao olhar para os acontecimentos pelos olhos de alguém fascinado pelo poder e pelo carisma do vilão, o leitor é conduzido para o interior do submundo de Gotham, sendo colocado próximo do caos que Joker representa. E isto tudo dá um sentido de tensão latente que se vai experienciando ao longo de todo o livro. 

À medida que a narrativa avança, Joker tenta recuperar a influência que perdeu durante o tempo em que esteve internado, com a história a transformar-se numa guerra pelo controlo da cidade, culminando numa reflexão amarga sobre a natureza destrutiva do próprio Joker e sobre aqueles que se deixam seduzir pela sua personalidade. 

Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo - Devir - DC Pocket
Um dos aspetos menos conseguidos da obra, quanto a mim, sente-se na construção da narrativa em determinados momentos. É que, apesar de a história assentar numa premissa relativamente simples - o regresso de Joker ao topo da hierarquia criminosa de Gotham -, Azzarello introduz por vezes algumas dinâmicas entre as várias figuras do submundo que tornam o enredo desnecessariamente complexo. Certas alianças, conflitos e movimentações entre personagens secundárias acabam por não acrescentar grande coisa ao tema central, criando momentos em que a leitura perde alguma fluidez ou que aparente não saber para onde ir. Já tinha lido o livro há uns anos - e tinha gostado muito - mas agora que o voltei a ler, senti esta fraqueza da obra mais presente.

Não obstante, um dos grandes méritos deste Joker é a forma como Brian Azzarello desconstrói a "romantização" da personagem, respondendo diretamente à tendência de muitos fãs - eu incluído - para admirarem o Joker como um rebelde carismático. Aqui, Joker apresenta essa rebeldia, mas de um modo demasiado extremo, mostrando-se profundamente perturbado, cruel e incapaz de sentir empatia por quem quer que seja.

Azzarello também demonstra um excelente domínio do subgénero criminal. Gotham é apresentada menos como uma cidade de super-heróis e mais como um território controlado por gangues, corrupção e interesses criminosos. Lembra-me, com as devidas diferenças, a abordagem noir de Ed Brubkaer nos seus Criminal ou Reckless, que tanto admiro.

Recordo que este livro foi publicado pouco tempo depois da atuação brilhante do ator Heath Ledger, enquanto Joker, no filme Batman - O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan. Pode-se, por isso, sentir que houve uma certa tentativa de cavalgar essa onda e esse hype da personagem, mas também não deixa de ser verdade que se procura criar uma narrativa tensa e memorável, por si só.

Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo - Devir - DC Pocket
Se a escrita é poderosa, a arte de Lee Bermejo eleva a obra para outro nível. O artista adota um estilo hiper-realista impressionante, cheio de detalhes e texturas. Cada rosto, cicatriz ou expressão transmite uma sensação de autenticidade que torna os acontecimentos ainda mais perturbadores. E a representação visual de Joker é particularmente memorável, com Bermejo a apresentá-lo como um homem marcado física e psicologicamente, com um sorriso que parece uma ferida permanente e retorcida. A figura apresenta-se-nos simultaneamente repulsiva e fascinante, captando na perfeição a essência contraditória da personagem. 

Em termos de cores, a paleta é dominada por tons escuros, acastanhados e esverdeados, criando uma atmosfera decadente e sufocante. Além disso, a própria cidade de Gotham surge-nos como uma cidade suja e doente, refletindo o estado moral das personagens que a habitam.

A edição da Devir é em capa mole, com badanas, e num formato reduzido. No miolo, o papel é de boa qualidade. O livro apresenta o preço incrível de 10€, pelo que me parece uma bela forma de chegar a outros públicos, assegurando uma qualidade física bastante aceitável. No final, há ainda 4 páginas com estudos preliminares e ilustrações não utilizadas por Bermejo.

Em suma, Joker é uma das mais marcantes interpretações modernas do vilão mais vil de sempre. Brian Azzarello constrói um thriller criminal intenso e perturbador, enquanto Lee Bermejo oferece algumas das ilustrações mais impressionantes alguma vez associadas a esta personagem. O resultado é uma obra adulta, violenta e provocadora, que não procura tornar Joker em alguém mais simpático, mas sim mostrar, sem filtros, porque é que este continua a ser um dos vilões mais assustadores da banda desenhada.


NOTA FINAL (1/10):
8.8

Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo - Devir - DC Pocket

Ficha técnica
Joker
Autores: Brian Azzarello e Lee Bermejo
Editora: Devir
Páginas: 132, a cores
Encadernação: Capa mole, com badanas
Formato: 14,8 x 21 cm
Lançamento: Maio de 2026


Há uma nova editora portuguesa de BD!



De vez em quando, somos confrontados com boas notícias. E esta é uma delas.

Acaba de ser formada a Péssima Editora, que vai procurar oferecer-nos banda desenhada nacional de cariz mais independente. Coisa que é sempre muito bem-vinda, diria.

E até já tem obra de estreia! Trata-se de Cheap Nature - Episódios de Renúncia e Parcimónia, do autor Xavier Almeida, que é uma antologia de BD, dividida em oito episódios, que até já teve apresentação no passado Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja.

Devo dizer-vos que fiquei especialmente curioso para conhecer esta obra.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse do livro e com algumas imagens promocionais.

Cheap Nature - Episódios de Renúncia e Parcimónia, de Xavier Almeida

8 existências de marginalidade variável esquivam-se de uma narração alheia e persistente. Será o texto que comenta o desenho, ou será o desenho que comenta o texto? 

Expandindo o conceito do primeiro capítulo, "o respigador" (originalmente autopublicado em 2024), Xavier Almeida leva o seu estilo expressionista mais longe que nunca, oscilando livremente entre realismo e semi-realismo ao serviço das histórias, das personagens e dos espaços que elas habitam. 

Aqui não há vaidade de estilo nem fantasmas franco-belgas: apenas o ofício do autor praticado com persistência, pouquíssima renúncia e muita, muita, parcimónia.

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Ficha técnica
Cheap Nature - Episódios de Renúncia e Parcimónia
Autor: Xavier Almeida
Editora: Péssima Editora
Páginas: 260, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: A5
PVP: 12,00€

quarta-feira, 8 de julho de 2026

30 Bandas desenhadas para crianças e jovens (e adultos)


Se é verdade que é comummente aceite que, em Portugal, vivemos na atualidade uma das melhores fases - em termos de variedade, quantidade e qualidade - na edição de banda desenhada, o mesmo não é dito relativamente ao lançamento de banda desenhada destinada às crianças e aos jovens.

Com efeito, é frequente que oiçamos gente do meio da BD a dizer que "não são lançadas obras para um público infanto-juvenil em Portugal". Poderia ser verdade há uns anos, mas de há uns tempos (largos) para cá, com especial incidência nos últimos três ou quatro anos, é cada vez mais frequente e robusta a aposta em banda desenhada para as crianças e jovens. E isto já sem falar de mangás ou das bandas desenhadas mais clássicas como Astérix ou Lucky Luke. Portanto, achar-se que é pouca a BD infanto-juvenil editada por cá, no tempo presente, revela apenas uma coisa: desconhecimento sobre o meio.

E a prova cabal do que acabo de dizer é que me foi bastante fácil chegar à listagem de 30(!) obras de BD infanto-juvenil, editadas nos últimos dois/três anos, que vos trago hoje. Tive até que deixar outras obras relevantes de fora. É claro que poderemos sempre objetar que ainda há espaço para que se publiquem mais obras para este público. Sim, claro que há. Mas isso também é válido para qualquer mercado. Até o franco-belga.

Assim, este artigo tem a função de vos fazer conhecer boas obras de banda desenhada que poderão comprar para oferecer aos vossos filhos, aos vossos netos, aos vossas afilhados, aos vossos sobrinhos. A qualquer criança que vos rodeie, portanto. Pois, se queremos que a 9ª Arte prospere, também importa formar leitores. E cabe-nos a nós, leitores e amantes de banda desenhada, fazê-lo. Não contemos com grandes iniciativas do Ministério da Educação ou da Cultura...

E mesmo que não estejam rodeados de crianças, posso até dizer-vos que há nesta listagem de 30 obras, vários livros que, sendo para crianças ou jovens, também são leituras ricas para adultos.

Portanto, sem mais demoras, eis a minha lista de 30 Bandas desenhadas para crianças e jovens (e adultos):