Nevada #3 - Blue Canyon, de Fred Duval, Jean-Pierre Pécau e Colin Wilson
Já está disponível há alguns dias uma das mais recentes apostas da editora
A Seita, que dá pelo nome de
Nevada. Neste caso, trata-se do terceiro volume da série, intitulado
Blue Canyon, que volta a trazer o esforço coletivo dos autores Fred Duval e Jeann-Pierre Pécau, no argumento, e Colin Wilson, nas ilustrações. Relembro que a série conta com cinco volumes e que é esperado que, ainda neste ano, A Seita venha a reunir num só volume díptico, os tomos finais 4 e 5, respetivamente
Jack London e
Viva Las Vegas. Convido-vos também a recordarem aquilo que escrevi aos volumes anteriores da série,
A Estrela Solitária e
A Estrada 99.
Blue Canyon, de que hoje vos falo, volta a oferecer-nos a curiosa e bem-vinda mistura entre os elementos de um western clássico com o ambiente cinematográfico da Hollywood dos anos 1920.
Tudo começa quando, durante a rodagem de um novo filme de faroeste produzido por Louise Hathaway, a estrela principal, Sammy Glover, sofre um ataque cardíaco fulminante em pleno
set. Louise precisa então de arranjar um ator substituto à altura e o único ator com talento suficiente para tal tarefa é Mac Nabb (conhecido como "A Estrela Solitária"). No entanto, Nabb é um homem difícil, consumido por vícios em jogo, álcool e drogas.
O ator aceita o papel, mas impõe uma condição específica: quer atravessar o deserto a cavalo até ao local das filmagens em Monument Valley, em vez de ir de comboio ou carro. Porquê? Porque quer mergulhar melhor no universo da personagem que vai desempenhar, procurando com isso ter uma melhor interpretação da mesma. Para tal, terá que ser Nevada Marquez a acompanhar o ator, garantindo que Mac Nabb chega vivo e a tempo ao set. Mas, claro, a viagem torna-se num autêntico desafio constante devido à natureza autodestrutiva do ator e aos perigos do deserto, misturando dívidas de jogo e acertos de contas. Acerto de contas esse que procura ser feito pelo implacável Carlsen, o que cria uma certa dinâmica de "gato e rato" na viagem das personagens.
Paralelamente a esta linha de ação principal, assistimos ainda à investigação levada a cabo por Louise e Miss Johnson. As duas personagens tentam desvendar a causa da morte de Sammy Glover que talvez não tenha sido tão natural como parecia inicialmente. E isto introduz uma vertente de mistério policial que se cruza com o ambiente glamoroso, mas decadente, dos primórdios do cinema.
Contudo, a estrutura da história acaba por ser o ponto mais crítico. A narrativa revela-se, por vezes, algo confusa, apresentando mudanças de cena bruscas que quebram o ritmo e que nos fazem perder um pouco a linha condutora da história. Há a sensação de que estão a acontecer demasiadas coisas ao mesmo tempo, o que pode sobrecarregar quem lê. Vejamos: temos o resgate de Mac Nab, a vingança de Carlsen e a investigação do homicídio no estúdio. Embora sejam elementos bem-vindos para adensar a trama e dar complexidade ao universo da série, a gestão destes múltiplos fios narrativos num álbum de apenas 56 páginas, torna-se algo demasiado superficial. Para que todas estas subtramas fossem devidamente explanadas e ganhassem o fôlego necessário, o argumento beneficiaria certamente de um maior número de páginas. Da forma como está, alguns desenvolvimentos parecem apressados ou comprimidos para caberem num álbum relativamente curto. É um daqueles casos em que "less is more". Por este motivo, e mesmo não sendo um mau livro, acaba por ser o álbum da série que menos me conquistou até agora. O que até pode acabar por ser uma afrimação algo injusta da minha parte, pois também considero que, face aos álbuns anteriores, os autores ousaram mais neste Blue Canyon. Infelizmente, essa ousadia poderia ter sido melhor aproveitada, quer parecer-me.
A nível visual, o traço de Colin Wilson é um dos grandes destaques da obra. É impossível não traçar paralelos com o estilo de Jean Giraud (Moebius) na mítica série
Blueberry. Até porque, convém não esquecer, o próprio Colin Wilson foi o desenhador de
A Juventude de Blueberry. Neste
Nevada, o autor neo-zelandês oferece-nos um desenho bastante agradável e bonito, demonstrando uma mestria particular na composição de cenas de ação dinâmicas e fluidas.
Além disso, é também na representação dos ambientes que o seu trabalho mais se destaca, pois Wilson consegue captar com igual eficácia tanto os desertos áridos, vastos e poeirentos típicos do western tradicional, como os cenários citadinos e modernos de uma Hollywood vibrante.
No entanto, nota-se que nem todas as vinhetas mantêm o mesmo nível de detalhe. Em certos momentos, sente-se que a representação de algumas personagens poderia ter beneficiado de um pouco mais de aprumo e acabamento. Outra coisa que acho, no mínimo, curiosa é que o rosto do protagonista, Nevada Marquez, pareça por vezes mais cru e menos refinado do que o das restantes personagens. É, portanto, uma escolha estética que, quanto a mim, não se compreende.
Para a boa fruição da leitura, as cores de Jean-Paul Fernandez revelam-se fundamentais. A paleta escolhida é muito bem-vinda, oferecendo uma atmosfera quente aos desfiladeiros e uma luz distinta às sequências urbanas, ajudando o leitor a situar-se nas diferentes frentes da narrativa.
A edição da editora A Seita apresenta-se em linha com os anteriores volumes da série. O livro apresenta capa dura baça, com papel brilhante no interior e um bom trabalho ao nível da impressão e encadernação.
Em suma, apesar de algumas limitações estruturais presentes no seu argumento, este terceiro volume da série Nevada é um livro que se lê bem. A premissa continua a ser refrescante, fugindo aos clichets mais batidos do género, ao colocar um herói de poucas palavras num mundo onde o cowboy está a ser substituído pelo duplo de cinema. Dito por outras palavras, esta mistura entre o final da época dourada do western e o início da também era de ouro de Hollywood, continua a ser o maior trunfo da série.
NOTA FINAL (1/10):
7.9
-/-
Nevada #3 - Blue Canyon
Autores: Fred Duval, Jean-Pierre Pécau e Colin Wilson
Editora: A Seita
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 24 x 33 cms
Lançamento: Março de 2026