Depois dos muito bem recebidos - quer por crítica, quer por público - O Homem Que Matou Lucky Luke e Procura-se Lucky Luke, Matthieu Bonhomme está de volta com o seu terceiro álbum em que revisita a personagem de Lucky Luke, "o cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra" e, também, o cowboy mais célebre da banda desenhada.
Este álbum está inserido na coleção Lucky Luke Visto Por... que já conta com oito volumes, todos publicados por cá pela editora A Seita. Gosto bastante desta coleção, pois considero que tem permitido que diferentes autores reinterpretem Lucky Luke, possibilitando a exploração de novas camadas da personagem e das duas aventuras. E Matthieu Bonhomme surge, quanto a mim, claramente isolado face aos demais autores, brindando-nos com os melhores livros da série. E este A Longa Marcha de Lucky Luke, mesmo sendo, por ventura, o livro que menos me impressionou dos três do autor, continua a ser um bom e sólido álbum, que vos convido a ler.
Nesta aventura, Lucky Luke vê-se envolvido numa longa e perigosa travessia pelas florestas geladas do norte dos Estados Unidos, mais concretamente em território da tribo Lakota, sendo acompanhando por um jovem índio branco Nuvem-Vermelha, numa missão que rapidamente ultrapassa os contornos de uma simples missão de escolta. O que começa como uma tarefa relativamente simples transforma-se numa jornada de proteção, sobrevivência e confronto com interesses económicos que ameaçam uma comunidade inteira.
A premissa é eficaz e oferece ao autor um terreno fértil para explorar temas contemporâneos sem abdicar dos códigos clássicos do western. Ao longo da viagem, somos confrontados com a luta pela posse de terras, com a exploração de recursos naturais e com a pressão exercida por figuras de poder económico sobre comunidades mais vulneráveis. Bonhomme utiliza, com desenvoltura, o imaginário do Oeste americano para refletir sobre problemas que permanecem atuais, tecendo as suas próprias críticas ao mundo em que vivemos. O que é algo bem-vindo.
O próprio vilão da história não podia ser mais óbvio, já que o próprio nome, Ronald Cramp - uma clara ligação a Donald Trump - surge como a personificação de um capitalismo agressivo e predatório, interessado apenas no lucro e completamente indiferente às comunidades que prejudica. E também a dimensão ecológica da narrativa merece destaque, pois a terra, enquanto território, não é apresentada apenas como um recurso económico, mas como parte integrante da identidade de um povo e do equilíbrio natural do espaço em que vivemos.
Um dos aspetos mais interessantes da narrativa deste A Longa Marcha de Lucky Luke reside na forma como Lucky Luke assume um papel que não lhe é habitual. Tradicionalmente retratado como um herói solitário, independente e de passagem, surge aqui investido de uma responsabilidade mais prolongada enquanto protetor de uma criança. A ligação que estabelece com Nuvem-Vermelha acrescenta uma dimensão emocional invulgar à personagem e permite explorar facetas mais humanas do cowboy. Confesso que até comecei por não gostar particularmente desta personagem de Nuvem-Vermelha, pois parecia-me demasiadamente unilateral e pouco trabalhada, mas reconheço que, ao longo da narrativa, e especialmente mais para o final da obra, Bonhomme conseguiu fortalecer a relação da criança com o protagonista, o que dá boas sensações ao leitor. E permite, claro, que a história fique mais profunda e verossímil, pois sem nunca perder a sua natureza reservada, a personagem de Lucky Luke acaba por revelar uma proximidade e uma preocupação que o tornam mais profundo e acessível do que o habitual, desempenhando, por vezes, uma figura quase paternal na vida de Nuvem-Vermelha. Já em Lucky Luke - Os Indomados, de Blutch, isso tinha acontecido, mas neste caso parece-me que esse feito é alcançado com uma dose de maior poesia e maturidade.
No entanto, apesar do interesse dos temas abordados, é precisamente ao nível da construção narrativa que o livro me parece ficar um pouco aquém dos anteriores trabalhos de Bonhomme. Existe a sensação de que a história procura conciliar demasiadas ideias em simultâneo: a jornada iniciática de uma criança, a crítica ao capitalismo, a defesa do ambiente, a questão da herança e da propriedade da terra, bem como o comentário político contemporâneo. Nenhum destes elementos é propriamente mal desenvolvido, mas fica-se pela rama, fazendo com que o conjunto acabe por transmitir uma certa sensação de alguma dispersão.
Há também uma inevitável sensação de déjà vu. Quando reduzimos a história aos seus elementos fundamentais, nomeadamente: 1) uma criança perseguida por interesses económicos; 2) um magnata disposto a tudo para obter terras que não lhe pertencem moralmente e 3) um herói encarregado da proteção e escolta dessa criança; percebemos que se trata de uma estrutura narrativa amplamente utilizada, não só no western, em concreto, como em histórias de aventura, em termos gerais. Bonhomme consegue introduzir algumas nuances interessantes, concedo, mas raramente consegue libertar-se completamente dessa familiaridade.
Mesmo assim, não foi isso que mais me apoequentou nesta leitura, pois o aspeto que me parece menos conseguido em A Longa Marcha de Lucky Luke é a introdução dos irmãos Dalton na história. Que fique bem assente que eu adoro os irmãos Dalton. E saber que os mesmos entrariam nesta terceira aventura de Bonhomme até começou por me deixar satisfeito. Todavia, esta opção simplesmente não funciona. E é fácil perceber porquê: é que a representação dos quatro irmãos segue de forma muito próxima a tradição humorística estabelecida por Morris e Goscinny, surgindo como figuras essencialmente estúpidas e caricaturais. Em circunstâncias normais - leia-se na série canónica - isso seria perfeitamente legítimo e bem-vindo. Contudo, dentro do universo criado por Bonhomme para Lucky Luke, esta abordagem gera alguma estranheza e um total deslocamento de Joe, William, Jack e Averell. Recordo que desde O Homem que Matou Lucky Luke, Bonhomme tem construído uma visão mais realista, sóbria e madura deste universo, com as personagens a serem mais humanas, os conflitos mais ambíguos e a violência mais plausível. Por isso, a presença dos Dalton nesta versão excessivamente cómica parece pertencer a um registo diferente da restante narrativa, quebrando o tom da mesma. Tendo em conta que os Dalton até nem são tão importantes assim para a forma como a narrativa se desenrola, até fica a ideia que estão ali mais por um motivo comercial, para agradar a antigos fãs da série. Mas o resultado é, pelo menos quanto a mim, o oposto.
Em consequência, a narrativa revela ocasionalmente um certo caráter remendado. A sucessão de acontecimentos é suficientemente fluida para manter o interesse, mas falta-lhe talvez a força e a unidade dramática de O Homem que Matou Lucky Luke ou de Procura-se Lucky Luke. Não me interpretem mal: a obra continua a ser sólida e envolvente, e volta a estar entre os melhores desta coleção, porém fica um pouco - não muito - aquém dos álbuns anteriores de Bonhomme.
Já graficamente, Matthieu Bonhomme volta a confirmar o enorme talento que o tem tornado numa das vozes mais interessantes da banda desenhada franco-belga mais recente. O seu traço semi-realista afasta-se claramente do estilo original da série, mas preserva-lhe a essência. E acho que este equilíbrio não é nada fácil de conseguir. Requer muito talento e capacidade. Isto porque reconhecemos imediatamente Lucky Luke, apesar de praticamente todos os detalhes que compõem a personagem terem sido reinterpretados por Matthieu Bonhomme. E quão especial é esse feito? Trata-se de uma harmonia difícil entre fidelidade e reinvenção que o autor domina com grande habilidade.
As paisagens nevadas constituem um dos grandes triunfos visuais do álbum. A vastidão dos espaços, o silêncio transmitido pelos cenários e a dureza das condições naturais criam uma atmosfera muito particular, simultaneamente bela e ameaçadora. E a opção de manter o vilão Ronald Cramp frequentemente oculto ou envolvido em sombras funciona igualmente bem, reforçando a sua dimensão quase misteriosa e ameaçadora. Em termos visuais, parece-me que Bonhomme continua a evoluir e, nesse ponto em concreto, este até pode ser o melhor dos seus Lucky Luke.
Já agora, permitam-me dizer ainda que o autor também é um excelente capista. Todas as capas dos seus livros de Lucky Luke têm sido espetaculares, e este A Longa Marcha de Lucky Luke não é exceção.
Quanto à edição, estamos perante mais um bom trabalho da editora A Seita. O livro apresenta capa dura brilhante, bom papel baço e um belo trabalho a nível de impressão, encadernação e acabamentos. No final do livro, há ainda um dossier de extras, com 10 páginas, que inclui esboços, estudos de capa e de pranchas, que são um deleite para observarmos. Tal como em edições anteriores, a loja Wook recebeu uma capa exclusiva - também ela muito bonita.
Em suma, A Longa Marcha de Lucky Luke é uma leitura muito recomendável, que confirma a qualidade da abordagem de Bonhomme à célebre personagem. Embora fique, na minha opinião, um pouco abaixo dos seus dois álbuns anteriores, continua a oferecer uma visão inteligente, pessoal e respeitosa do cowboy solitário que tantas gerações de leitores tem conquistado. Pela ambição temática, pela inegável qualidade gráfica e pela capacidade de dialogar simultaneamente com a tradição e com o presente, merece ser lido por toda a gente.
NOTA FINAL (1/10):
8.5
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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A Longa Marcha de Lucky Luke
Autor: Matthieu Bonhomme
Editora: A Seita
Páginas: 88, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 320 mm
Lançamento: Abril de 2026
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