sábado, 17 de abril de 2021

Análise: Dragomante: Fogo de Dragão

Dragomante: Fogo de Dragão, de Filipe Faria e Manuel Morgado - G. Floy Studio e Comic Heart


Dragomante: Fogo de Dragão, de Filipe Faria e Manuel Morgado - G. Floy Studio e Comic Heart
Dragomante: Fogo de Dragão, de Filipe Faria e Manuel Morgado

Dragomante era um livro que já tinha despertado o meu interesse há bastante tempo mas que só agora tive a oportunidade de ler. E é fácil perceber o porquê do meu interesse primário: a arte de Manuel Morgado que, facilmente, chamou a minha atenção é um excelente cartão de visita. De facto, este parece ser um livro produzido fora de Portugal, tais não não são as suas características inerentes de boa arte ilustrativa, ótima paleta de cores e excelente grafismo. Mas já lá irei.

A ação de Dragomante decorre num tempo medieval, onde há espaço para cavaleiros e dragões, à boa maneira de uma história do universo fantástico. Bem ao jeito de uma Guerra dos Tronos, diria.

Mas o que são dragomantes? Bem, são guerreiros que têm como especialidade máxima, a arte de conseguirem domar dragões, estabelecendo uma relação muito especial com os mesmos, ou não batessem os seus corações – os dos dragomantes e os dos dragões, entenda-se – de forma ritmada, em uníssono. Logicamente, os dragomantes ao conseguirem ter estes animais sob sua alçada, são indivíduos poderosíssimos. E, para que este poder não lhes suba à cabeça, é-lhes designado um escudeiro que tem como principal objetivo trazer o seu dragomante à sobriedade e ao bom senso. Estão a imaginar como este poder de domar dragões se, colocado nas mãos erradas, poderia ser nefasto para a sociedade?

Dragomante: Fogo de Dragão, de Filipe Faria e Manuel Morgado - G. Floy Studio e Comic Heart
A história desenrola-se no reino de Armitaunin e tem em Nereila, uma jovem dragomante, a sua protagonista. Esta é acompanhada por Ékión, o seu escudeiro, que deverá zelar para que a jovem não se deixe consumir pelo próprio fogo que, juntamente com o seu dragão, consegue dominar. E claro, existe um antagonista, de seu nome Gárgol, que fora derrotado em tempos pelo pai de Nereila, Edégeon, e que agora procura fazer valer a sua vingança na jovem dragomante.

Estes são os condimentos lançados pelos autores para esta história ambientada num universo do fantástico. E é uma obra rara na sua conceção: ao contrário do mais habitual em banda desenhada, em que é traçado um argumento e só depois, com base no mesmo, nascem as ilustrações, em Dragomante o processo foi inverso. Aqui, Manuel Morgado até já tinha as ilustrações para a obra mas faltava-lhe o argumento que pudesse sustentar essas mesmas ilustrações. E decidiu chamar Filipe Faria que é um autor já bastante experiente no reino da fantasia com os seus romances As Crónicas de Allaryia.

Dragomante: Fogo de Dragão, de Filipe Faria e Manuel Morgado - G. Floy Studio e Comic Heart
Filipe Faria faz um trabalho interessante em Dragomante, conseguindo imaginar e transportar-nos para uma sociedade medieval onde os dragões – e os dragomantes – têm um papel fundamental na mesma. Mas houve um problema que substiu na minha leitura da obra e que assenta na necessidade - demasiado presente - do autor em justificar os eventos e de contextualizar este universo. O que são dragomantes e o que é esperado deles. E dos escudeiros. E do perceptor. É verdade que, ao início, achei extremamente pertinente que existisse esse texto de apoio para ambientar o leitor nesta realidade e tornar fácil a imersão do mesmo na história. Mas depois, pareceu-me que Filipe Faria abusou deste tipo de discurso, tornando a leitura em algo redundante e que, por vezes, até se torna cansativa. Muita coisa é dita sem que a ilustração acompanhe o que está a ser dito. Um exemplo disto é o final do livro em que há uma aproximação entre Nereila e Ékión que anteriormente mal se toleravam. Mas esta aproximação é parcamente explorada. Aparece quase só porque sim. Parece haver uma certa urgência em contar a história, o que leva Filipe Faria, compreensivelmente, a mantê-la à superfície. Por outras palavras, Filipe Faria é eficaz a fabricar a história mas não vai ao âmago do que a mesma poderia ser.

Dragomante: Fogo de Dragão, de Filipe Faria e Manuel Morgado - G. Floy Studio e Comic Heart
Por esse motivo, e mesmo admitindo que a tarefa de construir uma história em cima de uma arte visual já desenvolvida e planeada possa não ser nada fácil, achei que o argumento e respetiva narrativa acabam por ser algo superficiais. O autor até se esforça bastante para justificar e contextualizar a história mas, por vezes, pareceu-me que se perdeu nessa mesma contextualização, em detrimento de uma narrativa mais dinâmica. E os diálogos, em concreto, surgem algo insípidos e um bocado forçados, em vários casos.

Mas dizer isto não é o mesmo que dizer que a história não é interessante. Porque o é e faz-nos querer desvendar o que vai acontecer a seguir. E isso, também merece o seu crédito, logicamente. Quando o livro termina, ficamos com a sensação de que soube a pouco – o que até é algo manifestamente positivo, admita-se. Este Dragomante: Fogo de Dragão acaba, por isso, por parecer como que uma introdução ao universo de uma saga que se adivinha longa. Ou mesmo que não o seja – calculo que o sucesso (ou insucesso) comercial da série possa ter uma palavra a dizer sobre essa longevidade – acho que há, pelo menos, um forte potencial para fazer de Dragomante uma série com vários volumes e histórias. Nesse sentido, informo que o editor d' A Seita, José Freitas, já me confirmou que os autores se encontram neste momento a trabalhar no segundo volume da série que deverá chegar-nos em 2022.

Mas falta realçar aquilo que chamou verdadeiramente a minha atenção: a arte visual de Manuel Morgado. Este autor português, que trabalha para o mercado franco-belga, oferece-nos neste Dragomante uma arte ilustrativa moderna, estilizada e que é muito agradável ao olho. O desenho das personagens é bem conseguido, tal como são as poses - quase sempre dramáticas - dessas mesmas personagens ao longo da narrativa. O desenho dos dragões também impressiona. A somar a isto tudo, ainda temos a introdução de uma generosa paleta de cores que funciona muito bem na obra, permitindo que a mesma adquira um aspeto moderno e atual. O desenho das lutas de espada também é interessante embora, neste cômputo, o trabalho do autor não seja fora de série, a meu ver. Mas cumpre bem.

A planificação também tenta ser dinâmica, apresentando algumas soluções diferentes para contar a história, tais como a presença de diferentes tamanhos de vinhetas, a utilização das duas páginas para ilustrar grandiosas batalhas entre dragões ou para alterar o sentido da leitura.

Dragomante: Fogo de Dragão, de Filipe Faria e Manuel Morgado - G. Floy Studio e Comic Heart
O resultado, do ponto de vista da ilustração, acaba por ser muito interessante e oferece à obra a ideia (ou já será isto um complexo do mercado de bd nacional?) de que esta parece não ter sido feita por portugueses. Parece algo importado. E isso só reveste Dragomante de uma aura profissional que merece as minhas vénias e respeito. Tendo algumas lacunas em termos de argumento, parece-me uma banda desenhada que se sabe apoiar bem na sua arte - bem conseguida - e embrulhar tudo num produto bastante apetecível. Para os que gostam do género do fantástico. Para os que gostam da subtemática dos dragões. E para os que gostam de uma bd com desenhos de paisagens deslumbrantes e criaturas gigantes e temíveis. Parece, pois, ser uma obra com a capacidade de agradar a um vasto número de pesssoas.

A edição do livro, que ficou a cargo das editoras Comic Heart e G.Floy é impecável, apresentando capa dura, com papel de boa qualidade e boa impressão. Há ainda um dossier de extras que, embora curto, acrescenta valor à obra. Faço ainda um breve destaque ao bom tratamento de design que foi dado a Dragomante. Não me canso de dizer que isso também é importante e também contribui para uma boa experiência de leitura e de colecionismo.

Em suma, Dragomante é uma obra muito interessante e que pode até afirmar-se como porta-estandarte da banda desenhada de fantasia povoada por cavaleiros e dragões made in Portugal. Para aqueles que já gostam deste género de fantasia ou que são apaixonados pelas temáticas de obras como Guerra dos Tronos, The Witcher, Eragon, e afins... este Dragomante merece recomendação obrigatória. Não é uma obra isenta de falhas mas parece-me um projeto com capacidade de ser um sucesso à escala portuguesa e, quem sabe, ir buscar um outro tipo de público que até não lê muita bd. Tem tudo ao seu alcance para continuar durante vários volumes e tornar-se numa referência em Portugal. Vale a pena conhecer.


NOTA FINAL (1/10):
8.4


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Dragomante: Fogo de Dragão, de Filipe Faria e Manuel Morgado - G. Floy Studio e Comic Heart

Ficha técnica
Dragomante: Fogo de Dragão
Autores: Filipe Faria e Manuel Morgado
Editoras: G. Floy e Comic Heart
Páginas: 52, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Março de 2018

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Análise: Um Trovão no Caminho e Outras Histórias

Um Trovão no Caminho e Outras Histórias, de António Rocha - Escorpião Azul


Um Trovão no Caminho e Outras Histórias, de António Rocha - Escorpião Azul
Um Trovão no Caminho e Outras Histórias, de António Rocha

Um Trovão no Caminho e Outras Histórias é o primeiro lançamento de 2021 que a editora Escorpião Azul nos traz.

Esta é a primeira obra do autor português António Rocha, que se inicia no lançamento de banda desenhada com uma antologia. Algo que, segundo as palavras do mesmo, até não é muito "comum". Sendo um primeiro trabalho, traz consigo as características inerentes a isso mesmo, isto é, o primordial intuito de ser uma obra que procura, acima de tudo, afirmar-se a si mesma. E devo dizer, sem reservas, que o trabalho de António Rocha me convenceu inteiramente.

Como é uma obra composta por 6 pequenas histórias, o autor apresenta-se-nos com várias roupagens narrativas, oferecendo-nos 3 histórias de ficção científica; duas histórias de fantasia; e uma história, mais mundana, do estilo slice of life.

Um Trovão no Caminho e Outras Histórias, de António Rocha - Escorpião Azul
Há todo um revivalismo no tom e no estilo, que faz com que estas histórias tenham um cariz vintage, que parecem retiradas do passado, como se esta publicação tivesse ficado hibernada durante 40 ou 50 anos. E isso está patente no estilo das histórias, onde habitam, quer personagens futuristas de ficção científica, quer personagens do estilo sword and sorcery. Se, há uns anos, os mercados estavam inundados deste estilo de publicações, devo confessar que, hoje em dia, em que estamos todos já largamente arredados desses tempos de outrora, ler este Um Trovão no Caminho e Outras Histórias foi algo de refrescante e prazeroso. Uma sensação bastante próxima de ver, por exemplo, a série Stranger Things e todas as referências e ambientes do passado que por ela são (res)suscitados.

A história que abre o livro é também aquela que dá nome ao mesmo. Em Um Trovão no Caminho, António Rocha conta-nos a história de Jeff, que tenta reproduzir as façanhas do seu próprio pai que, ao procurar, pelos seus próprios meios reunir dados que permitissem descobrir como armazenar a enorme energia soltada pelos trovões durante uma tempestade, acabou por perder a própria vida. Agora é a vez de Jeff, que também já é pai, tentar seguir os passos do seu pai, continuando o seu trabalho. No entanto, e por muita e boa influência que um pai possa ter na vida de um filho, ninguém é igual a ninguém e, expectavelmente, cada um de nós tem que traçar o seu próprio caminho. Será isso que Jeff fará. E é um pouco isso que o autor explora nessa história. Depois o conto ainda assume um cariz mais metafísico que, na minha opinião, era escusado. Embora se compreenda que foi a forma do autor conseguir caracterizar uma experiência pós-traumática oriunda de um acidente.

Na história seguinte, O Pai Partiu, António Rocha apresenta-nos a história mais terra-a-terra desta antologia e posso dizer que fiquei muito bem impressionado com a mesma. Quer na forma como a história é narrada, quer no seu ritmo, quer no facto de ser uma reflexão simples, mas profunda, sobre aqueles que, mesmo deixando este mundo fisicamente, ainda se continuam a fazer sentir na vida dos que cá ficam. Gostei muito e só tive pena que a história seja demasiado curta em páginas.

Um Trovão no Caminho e Outras Histórias, de António Rocha - Escorpião Azul
Depois temos Sobrevivente e Solidão que são curtas histórias de ficção científica que parecem inspiradas no ambiente criado por H. G. Wells na sua Guerra dos Mundos. Uma passa-se num mundo pós-apocalíptico e a outra no espaço sideral. Estes dois pequenos contos pareceram-me meros exercícios narrativos. Interessantes, mas pouco desenvolvidos em termos de argumento.

Por fim, as duas últimas histórias colocam-nos num passado distante, em reinos de fantasia. Em A Lei do Mais Forte, António Rocha dá-nos em meras 5 páginas uma boa noção de perspetiva em relação à força e à grandeza do seu protagonista, Korgo. E, em Bashir, temos uma história de cavaleiros num reino povoado por figuras mitológicas e monstros que, embora seja muito bem desenhada, não me seduziu tanto pois considero que o argumento me parece algo atabalhoado. Como se fosse uma mera justificação para que o autor desenhasse este tipo de figuras.

Olhando na globalidade para as histórias, Um Trovão no Caminho é aquela que tem mais princípio, meio e fim. Aquela que foi mais bem pensada do ponto de vista do argumento. Se bem que O Pai Partiu foi a história que deixou melhor impressão em mim sobre o real potencial que António Rocha pode ter em si. Adoraria ter visto esta história mais comprida em duração e mais desenvolvida em termos de argumento.

Mas, se falei das histórias até agora, há algo neste livro que importa realçar e que, possivelmente, será até aquilo que mais salta à vista quando abrimos esta obra: é que, António Rocha é um excelente ilustrador.

Um Trovão no Caminho e Outras Histórias, de António Rocha - Escorpião Azul
O seu estilo a preto e branco, com um traço fino que sabe ser elegante, remeteu-me bastante para certas publicações da Bonelli dos anos 70 e 80. O domínio das sombras e a utilização do espaço negativo por parte do autor é deveras interessante e surpreende pela positiva várias vezes ao longo da obra. E mesmo sendo verdade que certas personagens apresentam, por vezes, uma sensação de movimento algo estático, não é menos verdade de que este é um livro onde nos podemos perder algum tempo a observar os detalhes da arte de António Rocha. 

O seu estilo de ilustração, volto a repetir-me, bem sei, também me remete para o passado, para ilustrações que, não sei bem porquê, foram passando de moda. Mas, pelo menos a mim, isso não faz confusão nenhuma e não é, sequer, algo que deva ser sentido como negativo. Ao invés, e mesmo podendo parecer um paradoxo, a verdade é que acho refrescante nos dias de hoje este estilo revivalista do autor. Quer na temática, quer na arte.

Sobre a edição da Escorpião Azul, este é um lançamento em linha com a tendência da editora. A encadernação é em capa mole e com bandanas. No entanto, há um destaque que merece ser feito. O papel que este livro traz é amarelado (em tons creme). Pessoalmente, acho que assentou que nem um luva na obra em questão pois, como já referi, a sensação revivalista da obra ainda ganha mais força devido a este papel. Parece mesmo que encontrámos este livro perdido num baú e o papel amarelado acentua essa sensação. Gostei.

Em conclusão, este Um Trovão no Caminho e Outras Histórias traz consigo coisas muito interessantes, especialmente um autor com excelentes dotes de ilustração e que bebeu, certamente, de boas influências a preto e branco, que marcaram especialmente a edição de banda desenhada nos anos 70 e 80. Foi uma agradável surpresa. Para ser ainda mais agradável, só gostaria que em vez de 6 histórias curtas, tivéssemos apenas uma história mas mais bem trabalhada e desenvolvida em termos de argumento. Com um argumento sólido, julgo ser justo dizer que António Rocha pode dar-nos algo verdadeiramente inesquecível no futuro. É ficarmos atentos ao trabalho deste autor português.


NOTA FINAL (1/10):
7.7



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Um Trovão no Caminho e Outras Histórias, de António Rocha - Escorpião Azul

Ficha técnica
Um Trovão no Caminho e Outras Histórias
Autor: António Rocha
Editora: Escorpião Azul
Páginas: 88, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Março de 2021

Lançamento: Peter Pan #1 - Londres





Já se encontra hoje nas bancas o primeiro livro da mini-série Peter Pan, da autoria de Régis Loisel, que é lançada pela ASA, em parceria com o jornal Público.

Esta é uma fantástica série que recomendo extremamente a todos os fãs de banda desenhada!




Abaixo, fiquem com a sinopse deste primeiro tomo.

Peter Pan #1 - Londres, de Régis Loisel

Londres, Inverno de 1887. 

Peter é uma criança e, como tantas outras naquela cidade, vive na miséria. 

Porém, tem o dom de contar histórias fantásticas aos seus companheiros, conseguindo assim trazer um pouco de luz e de sonho às suas vidas sombrias. 

Inventa também uma mãe afectuosa e elegante, em contraste com a sua que, consumida pelo álcool, há muito deixou de lhe proporcionar qualquer tipo de sustento e muito menos de carinho. 

Na verdade, Peter tem a sorte de conhecer o senhor Kundal, um velho médico que decide protegê-lo e ajudá-lo, dando-lhe não só de comer, mas encarregando-se igualmente da sua educação: ensina-o a ler, escrever e contar, iniciando o jovem indigente no apaixonante mundo das histórias e das lendas. 

Um dia, Kundal conta a Peter que conheceu o pai dele e entrega-lhe um livro sobre mitologia grega que lhe tinha pertencido, o único legado de um pai desaparecido. 

Depois de uma discussão violenta com a mãe, Peter refugia-se no velho porto e começa a ler o livro do seu pai. 

É então que lhe aparece uma estranha criatura, uma pequena fada inquieta, que lhe pede para a seguir…

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Ficha técnica
Peter Pan #1 - Londres
Autor: Régis Loisel
Editora: ASA
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 10,90€



quarta-feira, 14 de abril de 2021

Análise: O Vento nos Salgueiros

O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix - Witloof e NBM

O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix - Witloof e NBM

O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix

O Vento nos Salgueiros é um clássico da literatura infantil, com mais de 100 anos de existência, que foi originalmente escrito por Kenneth Grahame. Desde a sua publicação, a obra tem sido aclamada por muitos e já teve adaptações ao teatro, ao cinema, aos desenhos animados, a livros ilustrados e, também, à banda desenhada. Quanto à 9ª arte, a adaptação ficou a cargo do autor francês Michel Plessix.

Os primeiros 4 tomos, que compõem o primeiro ciclo da série, foram publicados em Portugal pela extinta editora Witloof. E, hoje em dia, o primeiro tomo, O Bosque Selvagem, é virtualmente impossível de encontrar à venda por cá. Encontra-se completamente esgotado! Mesmo os outros três volumes, 2) Automóvel, Sapo, Texugo; 3) A Bela Evasão e 4) Confusão na Mansão também não são nada fáceis de encontrar embora, com jeitinho, ainda se vão vendo em feiras dos livros, sites de compra e venda de BD em segunda mão e alfarrabistas. No meu caso, sempre me faltou o primeiro livro. E tive que o encomendar em inglês, numa edição da editora americana NBM (Nantier Beall Minoustchine) à livraria BD Mania que, por sorte a minha, ainda tinha, algures perdido no seu armazém, um único(!) exemplar. Em parte, também foi por esta minha procura que arrisquei formar o grupo do facebook “PROCURA-SE BD PERDIDA” para que os leitores portugueses de BD possam colocar anúncios relativos às bandas desenhadas que procuram.
O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix - Witloof e NBM

Julgo que a história de O Vento nos Salgueiros é sobejamente conhecida por todos mas faço aqui uma pequena síntese. Este clássico conta-nos as aventuras de quatro personagens antropomórficos, o Toupeira, o Rato, o Sapo e o Texugo, numa Inglaterra de cariz bucólico, e apresenta-nos a importância de certos valores universais como a amizade, a camaradagem e a humildade.

A história começa quando o Toupeira, farto de fazer limpezas em casa, decide sair de casa e ir passear, acabando por travar conhecimento com o Rato. Este leva o Toupeira num passeio de barco e rapidamente surge uma amizade entre ambos. Mais tarde estes personagens encontram-se com o Sapo que é, na minha opinião, o grande protagonista deste O Vento nos Salgueiros, pois é a personagem mais errónea, mais egoísta e, consequentemente, mais divertida e carismática da obra. Um autêntico George Constanza da série Seinfeld. Este Sapo é arrogante, acha-se o maior e não olha a meios para alcançar o que quer. É por isso que, apaixonado por automóveis, acaba por roubar um. O que fará com que seja preso. Depois disso, acompahamos a sua fuga da prisão e o seu reencontro com os amigos Toupeira, Rato e Texugo. Nesta altura, o enorme palácio do Sapo foi ocupado por outros animais e caberá aos quatro amigos reconquistarem a sumptuosa residência do anfíbio.

A história é simples e infantil embora seja pertinente realçar que é muito bem conseguida, ao trazer consigo uma mensagem assente na importância da amizade, ao mesmo tempo que, através da personagem do Sapo, tenta demonstrar como a humildade e o altruísmo devem estar presentes nas nossas vidas.

O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix - Witloof e NBM
Relativamente ao trabalho de Plessix, posso dizer que o mesmo é exímio. Por um lado, na adaptação para BD da obra original, que conheço bem, realço que o autor fez um excelente trabalho. A narrativa aparece dividida por 12 capítulos (3 capítulos por livro) e estão aqui contidos os principais eventos que sucedem no romance original, havendo uma clara fidelidade à obra de Kenneth Grahame.

Por outro lado, e em relação aos desenhos do autor, posso dizer que os mesmos são absolutamente maravilhosos. A forma como Plessix dá imagem às palavras de Grahame é fantástica, com o autor a captar maravilhosamente bem o tal ambiente bucólico que esta obra pedia, enquanto que nos consegue oferecer personagens adoráveis e marcantes, com um estilo de ilustração algo clássico, que já não é muito frequente de encontrar em banda desenhada.

De facto, a sensação que tenho, quando pego nestes livros, é que estou a ler uma obra de banda desenhada “do antigamente”. O primeiro tomo foi originalmente publicado em 1996 e, portanto, já tem alguns anos, reconheço. Mas a verdade é que me parece bem mais antigo do que isso. Com muitas décadas de existência. E digo isto no melhor dos sentidos, pois é revelador de que Plessix soube imprimir às suas ilustrações este cunho clássico no estilo e na forma.

Asssim, os ambientes campestres e citadinos são fantásticos, as expressões das personagens são inequívocas e vibrantes. E o detalhe que o autor coloca em alguns dos cenários é verdadeiramente impressionante.

O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix - Witloof e NBM
Outra coisa que merece enormes louvores é a enorme quantidade de referências que algumas das ilustrações trazem consigo, aludindo, de uma forma mais ou menos direta, a outras obras de arte de vários artistas que influenciaram Plessix. O mais famoso destes easter eggs será a ilustração em que Plessix se baseia claramente na mulher nua da obra L'origine du Monde, de Gustave Coubert. Mas outros exemplos podem ser encontrados ao longo deste O Vento nos Salgueiros, tais como Train dans la Campagne, de Monet, ou La Méridienne, da autoria de Jean Millet, que merecem vinhetas de Plessix que são perfeitos piscares de olhos às obras originais. 

Muita gente pode considerar estas inclusões por parte de Plessix como meras homenagens às obras e aos artistas que o mesmo aprecia. Mas eu considero um pouco mais do que isso: julgo que acabam por dotar a própria obra de O Vento nos Salgueiros de uma interpretação mais profunda e mais complexa. Por conseguinte, e se, de facto, esta é uma banda desenhada altamente recomendável para crianças, também é verdade que os adultos obterão nela uma leitura madura e extremamente interessante.

O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix - Witloof e NBM

Ainda no cômputo da arte ilustrativa, convém dizer que, em termos de planificação, o trabalho do autor também é deveras interessante, oferecendo-nos uma planificação dinâmica e original nessa vertente, com a inclusão de vinhetas de todos os tamanhos e feitios, o que atribui uma variedade cinematográfica à planificação que, ora nos oferece grandes planos, ora nos brinda com planos de pormenor, demonstrando-nos que as pranchas de Plessix não são apenas a soma de várias vinhetas, mas que trazem uma identidade e um valor estético muito próprios.

Em termos de edição, posso dizer que a Witloof fez um bom trabalho com estes livros. Capa dura e bom papel caracterizam estas edições. Comparando-os até com o meu Tomo 1, da editora americana NBM, têm uma legendagem muito mais bem conseguida - e legível – do que a versão americana da obra. Embora a versão americana tenha capa em tecido, o que também é sempre algo que aprecio e que acrescenta dignidade ao objeto-livro.

Em conclusão, esta é uma história adorável que recomendo para as crianças e para os jovens. E, claro, para os adultos que queiram relembrar este conto universal, enquanto apreciam uma arte de qualidade superior, por parte de Michel Plessix. Embora já tenha sido lançada em Portugal, esta adaptação de O Vento nos Salgueiros é um obra que, infelizmente, já não é possível de encontrar por cá e que, a meu ver, seria interessante de relançar. Se possível numa edição integral visto que, como cada um dos livros tem apenas 32 páginas, o integral ficaria só com 128 páginas. O que não me parece muito excêntrico, em termos de edição. Gostaria também que, eventualmente, o segundo ciclo da série, publicado entre 2005 e 2013, e constituído por 5 tomos, pudesse ser igualmente publicado em Portugal. Talvez um dia.


NOTA FINAL (1/10):
8.9


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O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix - Witloof e NBM

Fichas técnicas
The Wind in The Willows – Volume 1 – The Wild Wood
Autor: Michel Plessix
Editora: NBM
Páginas: 32, a cores
Encadernação: Capa dura em tecido
Lançamento: Dezembro de 1997

O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix - Witloof e NBM

O Vento nos Salgueiros – Tomo 2 – Automóvel, Sapo, Texugo
Autor: Michel Plessix
Editora: Witloof
Páginas: 32, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Maio de 2002

O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix - Witloof e NBM

O Vento nos Salgueiros – Tomo 3 – A Bela Evasão
Autor: Michel Plessix
Editora: Witloof
Páginas: 32, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Agosto de 2002

O Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix - Witloof e NBM

O Vento nos Salgueiros – Tomo 4 – Confusão na Mansão
Autor: Michel Plessix
Editora: Witloof
Páginas: 32, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Agosto de 2002