quinta-feira, 1 de outubro de 2020

15 Ilustrações em homenagem a Quino

O dia de ontem foi marcado pelo desaparecimento de Quino, o criador da icónica personagem Mafalda.

Joaquín Salvador Lavado, conhecido simplesmente por Quino, faleceu aos 88 anos no seu país natal - Argentina.

Aqui reúnem-se 15 das muitas ilustrações de homenagem ao autor que foram partilhadas ontem, pela internet.

Não serás esquecido, Quino.

Franz Ferrin


Carlos Latuff




Pablo Lobato


Carlos Ruas

Omelete




Dan Werneck



Nagú

Darío Castillejos




Malagón



David Gilson



Liniers



Fernando Pnilla



Jhon Lindarte



Fred Sochard

Helô D'Angelo


quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Análise: Toutinegra



Toutinegra, de André Oliveira e Bernardo Majer

Toutinegra é uma banda desenhada publicada pela editora Polvo e oferece-nos uma história verdadeiramente madura, maravilhosamente escrita por André Oliveira e curiosamente ilustrada por Bernando Majer. E à qual os leitores portugueses de banda desenhada – e não só – deviam dar uma oportunidade. Certamente, a grande maioria desses leitores ficaria maravilhada com esta obra. 

A necessidade de pertença, de alguém que, sem saber a sua origem, consegue, ainda assim, arriscar que não faz parte daquele lugar nem daquelas gentes, é o mote inicial com que Toutinegra nos brinda. E se, aparentemente, ao folhearmos desprendidamente o livro, ficamos com a ideia de que se trata de uma história sobre crianças, diria que, na verdade, após lermos o livro com atenção, percebemos que é uma história sobre adultos, que já foram crianças e que cujas vivências não mais os largaram. Não é, contudo, um livro saudosista no sentido positivo e alegre da palavra, que remete para os dias belos passados na infância. Sem querer revelar muito da trama aqui presente, diria que o tipo de saudosismo que emana desta obra é aquele referente à perda de algo bom na infância e a forma como isso nos molda e confina o modo de ser, na vida adulta. Não mais somos a mesma coisa depois de perdermos algo que fazia (tanto) parte de nós. Isto já foi dito muitas vezes, por muitas pessoas, em muitos livros, filmes e canções mas há formas e formas de o dizer e Toutinegra, dá-nos a sua própria visão. Profunda, triste mas que, no derradeiro final, deixa entrar uma luz de esperança. Uma redenção.

Toutinegra
reveste-se de uma sensibilidade que, infelizmente, não é tão comum assim em banda desenhada. Uma sensibilidade que nos toca lá no fundo, que nos tira o sorriso superficial que temos na cara, deixando-nos com um nó na garganta. André Oliveira é exímio no uso da palavra, dando-nos um texto simples e profundo, que nos faz pensar e refletir sobre a vida, sobre os sonhos, sobre as vivências passadas, as raízes, as memórias e a ausência de um tempo que já não volta a ser.

A história apresenta-nos duas crianças, Pedro e Adelaide que vivem em Moinho, uma isolada e desabitada aldeia do interior do país. São as únicas crianças que frequentam a escola e, também por isso, são amigos inseparáveis. Mas claro, mesmo estando confinadas a um local tão recôndito e particular, ambas têm origens e famílias muito diferentes. Pedro apenas tem mãe – Dona Luz, a mulher maluca da aldeia – e Adelaide, mesmo tendo um pai com grave doença, tem uma família dita mais normal e abastada. Pedro é como que o enigma, uma pergunta sem resposta, da qual apenas se pode especular. Já Adelaide é um milagre da vida – pois nasceu de pais já algo idosos. Ela é, portanto, uma luz para eles e para a própria aldeia onde vivem.

A história assume depois, uma dimensão do universo fantástico, com o aparecimento de uma criatura, com quem as personagens começam a esgrimir argumentos e questões sem resposta. Esta figura apresenta-se como que uma consciência carregada de negritude que as crianças começam a ganhar da vida que as rodeia.

O que é maravilhoso neste livro é a forma inteligente e sensível como André Oliveira nos embala, ao sabor e ritmo das suas palavras, construindo uma história que parece levar a um sítio, mas que, à medida que a vamos desvendando, nos leva a um outro caminho. Quiçá menos fantasioso, mas com uma violência emocional cortante. 

O estilo de ilustração aqui presente encaixa bem na narrativa, sendo bastante bem conseguido. Com um traço pueril e linear, Bernando Majer apresenta-se em grande estilo na banda desenhada portuguesa. E embora o seu estilo seja  naïf e infantil na ilustração, com as personagens a fazerem lembrar-me a saudosa série infantil televisiva de Tom Sawyer, o autor soube munir as suas ilustrações de um processo de colorização graciosa que em muito contribui para um resultado bonito de se observar. Diria até, que o seu desenho sem estas cores não seria tão cativante, nem as suas cores utilizadas num estilo de ilustração mais detalhado e desenvolvido, não teria, presumivelmente, um resultado tão agradável. O seu signature style, acaba mesmo por depender em muito das cores que são utilizadas de forma leve e bonita, através da aplicação de aguarelas em tons muito suaves. É um livro bonito e com uma identidade muito própria na parte das ilustrações. Talvez este tipo de ilustração não agrade a toda a gente mas, pelo menos para mim, funciona muito bem, quando aplicado à narrativa construída por André Oliveira.

Em termos de edição, a Polvo oferece-nos um bom produto, com uma (bonita) capa dura. A meu ver, talvez o tipo de papel brilhante que aqui foi utilizado não fosse o mais indicado. Olhando para a arte de Bernardo Majer e para o próprio cariz poético da obra, diria que um papel baço funcionaria melhor. Mas isso é um detalhe porque a edição da Polvo, repito, está bem conseguida.

Em conclusão e em poucas palavras: Toutinegra é uma obra fantástica que merece ser conhecida e que consolida, ainda mais, André Oliveira como um dos melhores argumentistas de banda desenhada em Portugal.


NOTA FINAL (1/10):
8.9


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
Toutinegra
Autores: André Oliveira e Bernardo Majer
Editora: Polvo
Páginas: 96, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Novembro de 2019

Análise: Os Beresford – Mister Brown




Os Beresford – Mister Brown, de Emilio Van der Zuiden

Depois de, em 2018, a Arte de Autor, ter começado a editar a Coleção Agatha Christie, que reúne adaptações para a banda desenhada da obra da escritora, a editora portuguesa já lançou três álbuns: Hercule Poirot - Crime no Expresso do Oriente, Miss Marple - Um Cadáver na Biblioteca e este Os Beresford - Mister Brown, que merece a análise que se segue. A título de curiosidade, informa-se que a Arte de Autor tem previsto para o próximo mês de Outubro, o lançamento de um álbum duplo desta coleção, que será constituído pelos tomos Morte no Nilo e O Misterioso Caso Styles.

Todas as obras da Coleção Agatha Christie são adaptadas por autores de banda desenhada diferentes. Neste caso, Os Beresford – Mister Brown ficou a cargo de Emilio Van der Zuiden.

A história tem como protagonistas a bonita Tuppence Cowley e o ruivo Thomas Beresford. Ambos se conheceram na Primeira Guerra Mundial, onde Tuppence era enfermeira e Thomas era soldado. Agora que foram desmobilizados, voltam a encontrar-se e juntos, montam uma sociedade que dá pelo nome de “The Young Adventurers Limited“. E logo se vêem implicados num caso de espionagem. Há quatros anos, o navio Lusitania naufragou e uma das vítimas desse evento foi um oficial americano que, vendo-se na iminência de não escapar com vida ao referido naufrágio do navio, confiou documentos oficiais a uma rapariga, Jane Fish, para que a mesma os levasse ao Rei de Inglaterra. Entretanto, Jane Fish acaba desaparecida e a missão dos “The Young Adventurers Limited“, Tuppence e Thomas, será encontrar esta jovem que está escondida algures em Inglaterra.

Emilio Van der Zuiden dá-nos uma adaptação consistente e bem ritmada que torna esta obra bastante acessível e de leitura fácil. Embora conheça outros livros de Agatha Christie, não conhecia nenhuma das histórias a envolver o casal Beresford e portanto, devo admitir que este livro foi uma agradável surpresa para mim. O argumento dá várias voltas, levando-nos por um caminho para, logo a seguir, nos levar por outro, o que torna interessante o mistério que envolve as personagens, nomeadamente a personagem enigmática de Mister Brown. Sendo, como já referi, uma leitura fácil e direta, a camada de mistério e de enigma nunca é muito profunda e a própria ação, tendo em conta que o livro apenas tem 64 páginas, tem que ser rápida, sem grande espaço para desenvolvimento de personagens.

Relativamente à ilustração, este é um álbum muitíssimo bem conseguido. O traço de Emilio Van der Zuiden é elegante, e em linha clara, com o autor a revelar capacidades elevadas no desenho das personagens, dos veículos, dos cenários e, basicamente, de tudo o que ilustra. Tudo é brilhantemente bem desenhado e a própria tónica da ilustração – a que também muito ajudam as competentes cores de Fabien Alquier – remete-nos para o universo dos livros de Agatha Christie e para a ambiência british do Reino Unido, no período pós Primeira Guerra Mundial. Acho que isso é um grande feito do autor, pois nem sempre as adaptações de obras da literatura para a banda desenhada conseguem transportar-nos para esse universo visual, que já tínhamos construído mentalmente aquando da leitura dos romances. O universo de Agatha Christie que Emilio Van der Zuiden nos dá é exatamente, sem tirar nem pôr, o universo que imaginei quando li alguns romances de Christie.

Outra coisa há, que é impossível não referir quando se olha para esta obra: a fantástica, audaz e, por vezes, corajosa, planificação da obra. Sendo um "álbum clássico" (chamemos-lhe assim) no estilo, história e até ilustração, achei curioso e interessante que a planificação desta banda desenhada fosse tão dinâmica. De facto, nesse cômputo, parece haver de tudo um pouco neste Os Beresford: desde largas ilustrações que ocupam duas páginas, vinhetas de todo o tipo de tamanhos e formas, utilização de algumas vinhetas com o fundo propositadamente a branco. O autor serve-se de várias técnicas que muito contribuem para que a obra se torne bastante diversificada. 

E há particularmente dois conjuntos de páginas duplas, nomeadamente as páginas 16 e 17 e as páginas 38 e 39, que merecem destaque por desmontarem e recriarem todas as fundações da planificação clássica da banda desenhada. No primeiro caso, acompanhamos uma conversa de Tuppence, Thomas e Mr. Carter por um jardim, onde os vamos seguindo, para trás e para a frente, como se essas duas páginas, fossem uma grande ilustração, separada por vinhetas que mostram as personagens em todos os ângulos possíveis, passeando pelos caminhos intrincados do jardim. Notável, sem dúvida. No segundo caso, nas páginas 38 e 39, também temos a ação da fuga de Thomas montada de forma sui generis pelo autor, com uma ilustração central da casa de onde a personagem se tenta evadir. Embora não tão bem conseguido como o primeiro exemplo, também é algo audaz e muito interessante por parte de Van der Zuiden. Há um preço a pagar com estas excentricidades do autor: nem sempre o fio condutor da ação é perfeito e fluído, o que pressupõe um cuidado redobrado por parte do leitor para melhor compreender o que se está a passar, pela ordem certa. Não obstante, e sublinhando a coragem de avançar com páginas deste engenho e criatividade, é um preço pequeno que o leitor paga por algo novo e refrescante que, na minha opinião, é muito bem-vindo.

Não tão bem-vindas são as legendagens que, muitas vezes, não parecem colocadas da melhor forma, o que obriga o leitor a ter que voltar atrás, e reler a vinheta do início, para que a história faça sentido. É uma questão pequena, mas que deveria ter sido mais bem acautelada pelo autor, para garante de melhor fluidez na leitura. Julgo também que, por vezes, teria sido possível ter um pouco de menos texto na obra, embora compreenda que haja uma certa tendência para tal nas adaptações de obras de literatura.

Quanto à edição da Arte de Autor, como não podia deixar de ser, é de excelente qualidade. Edição cuidada, com capa dura e papel de boa gramagem. Sendo o papel baço, parece-me a escolha mais feliz para este tipo de história, pois realça as cores e traço do autor. 

Ainda não li Miss Marple - Um Cadáver na Biblioteca (embora brevemente seja aqui publicada a análise a esse livro que a editora já me fez chegar) mas, entre Hercule Poirot - Crime no Expresso do Oriente e este Os Beresford - Mister Brown, posso dizer que o último é sobejamente melhor do que o primeiro volume. Uma boa e refinada história para fãs de bandas desenhadas de detectives e mistério e, claro, para os amantes da incontornável obra da autora Agatha Christie.


NOTA FINAL (1/10):
8.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Ficha técnica
Os Beresford – Mister Brown
Adaptação do Romance de Agatha Christie
Autor: Emilio Van der Zuiden
Editora: Arte de Autor
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Outubro de 2019

Lançamento: Homem-Grilo



Acaba de ser anunciado o lançamento da obra Homem-Grilo. Trata-se de uma publicação de autor, do selo de Flávio C. Almeida - FA que, há uns meses, lançou para o mercado português a obra Pepper e Carrot.

Desta vez, estamos perante uma banda desenhada, da autoria de Cadú Simões, que fez a sua estreia no ano 2000. Por esse motivo, este lançamento também procura assinalar os 20 anos do super-herói.

Mais abaixo, fiquem com a nota de imprensa e com as imagens promocionais.


Homem-Grilo, de Cadú Simões, Ricardo Marcelino e Alex Rodrigues

Não importa quando, onde, ou quem, a jornada do herói é sempre a mesma, e isso inclui até mesmo um certo super-herói!

Carlos Parducci era um jovem como outro qualquer até ser mordido por um grilo radioativo (se é que os grilos mordem) e receber habilidades proporcionais às desse inseto, além do sensacional sentido de grilo (que ele não sabe pra que serve, mas tudo bem). Carlos então resolveu fazer bom uso dos seus novos poderes e, assumindo o nome de Homem-Grilo, começou a combater o crime e a proteger os fracos e indefesos em Osasco City. Mas para ele, mais do que uma grande responsabilidade, ser o Homem-Grilo é uma grande diversão, principalmente quando se tem a oportunidade de chutar no rabo de vilões megalomaníacos que querem dominar o mundo (e está cheio deles por aí, mas... onde é que eu já ouvi isto tudo antes!).

Criação do argumentista Cadu Simões, o Homem-Grilo a princípio, estava destinada a ser um super-herói sério com aventuras online. No entanto, o bom-senso venceu, e o herói com aspeto cómico prevaleceu. O Homem-Grilo fez a sua estreia em 2000, na forma de uma dezena de tiras virtuais publicadas na internet, comemorando 20 anos de “carreira” que é assinalado também por esta publicação. Com ilustrações de Ricardo Marcelino e Alex Rodrigues, capa de Will, e edição de Flávio C. Almeida.

Disponível em www.fabd.pt e em várias plataformas online.

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Ficha técnica
Homem-Grilo
Autores: Cadú Simões, Ricardo Marcelino e Alex Rodrigues
Editor: Flávio C. Almeida
Páginas: 58, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
PVP: 13,30€
Também disponível em formato digital: ISBN 9781716563379 - PVP 3,99€