quarta-feira, 11 de março de 2026

Análise: O Guia do Mau Pai

O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir


O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir
O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle

Saiu há poucos dias uma das mais recentes novidades da Devir que se intitula O Diário do Meu Pai. Originalmente editado em quatro volumes, entre os anos 2013 e 2018, depois de as suas pranchas até terem começado por ser divulgadas no blog do autor, este trabalho de Guy Delisle - do qual a editora portuguesa já por cá editou as obras Crónicas de Jerusalém, Shenzhen, Crónicas da Birmânia ou Pyongyang - assume-se com uma banda desenhada extremamente divertida, que me fez rir como há muito uma BD não me fazia.

Bem sabemos que, por vezes, lemos determinada obra na altura certa da nossa vida. Pode ter sido isso que aconteceu comigo. Também eu sou pai de duas crianças e também eu experencio, se não todas, muitas das situações que, carregadas de humor, Delisle nos oferece neste álbum.

De cariz autobiográfico, o autor vai narrando, em histórias curtas, as situações e peripécias que vive com os seus dois filhos, Alice e Louis, berm como as múltiplas maneiras como tenta manter-se com a cabeça acima de água enquanto é pai. Muitas vezes, Delisle parece um mau pai... ou um pai que não sabe argumentar bem aos seus filhos, ou que lhes mente ou que é mais distraído do que aquilo que deveria ser... mas a verdade é que qualquer pai - ou mãe - se pode identificar com aquilo que aqui é contado. Digo até mais: há aqui coisas que me aconteceram de um modo quase igual.

O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir
O humor é das coisas mais subjetivas que existe. Aquilo que me faz rir a mim, pode não fazer rir outra pessoa qualquer. E vice-versa. Portanto, tenho sempre alguma reserva em dizer que algo é cómico ou que "faz rir", pois poderá não fazer rir mais ninguém se não a mim mesmo. Mas, lá está, focando-me apenas na minha experiência, pessoal, enquanto leitor, e que aqui vou partilhando convosco, tenho a dizer-vos que este O Guia do Mau Pai não só me fez rir, como muitas vezes me fez gargalhar. Ao ponto da minha mulher e filhas me perguntarem: "mas o que é que estás a ler, que só te está a fazer rir à gargalhada?". Com efeito, a verdade é que nem todas as breves histórias que aqui nos são dadas me arrancaram uma gargalhada, claro está, mas houve algumas que achei verdadeiramente hilariantes.

Aprecio também a forma como Guy Delisle se expõe nesta obra, não tendo qualquer receio de ver a "qualidade" da sua paternidade a poder ser questionada pelos seus leitores. A vida tem-me ensinado que, ainda antes de olharmos para os defeitos e imperfeições dos outros, temos que olhar para bem dentro de nós. Talvez isso até nos ajude na percepção que temos de nós mesmos e, por conseguinte, dos demais. E é isso que o livro nos dá e que é verdadeiramente valioso, sejamos nós pais, mães, avós ou mesmo filhos. 

O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir
Deixem-me também dizer-vos que o motivo do meu entusiasmo com esta obra é que, na verdade, até nem me considero um grande fã deste tipo de humor, baseado em gags do dia a dia, pois muitas vezes me parece algo forçado e seco. Se neste O Guia do Mau Pai há, de facto, uma ou duas mini-histórias mais secas - tenho que o admitir - tenho que dizer-vos também que a grande maioria das restantes ou me fez rir à gargalhada ou, pelo menos, sorrir com verdadeira vontade.

Nota ainda para a última história do livro que o encerra na perfeição com um pouco de ternura e poesia que eu não estava à espera. Maravilhoso e quase nos deixa com a lágrima no olho.

Bem sei que Guy Delisle é bem mais celebrado pelas suas crónicas em países com realidades distantes - como Crónicas de JerusalémShenzhenCrónicas da Birmânia ou Pyongyang - para os quais tem acompanhado a sua esposa, que pertence aos médicos sem fronteiras, mas sou-vos sincero quando digo que talvez este O Guia do Mau Pai me tenha marcado (bem) mais do que qualquer um desses livros, não obstante a sua qualidade e relevância.

O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir
Estando nós perto do Dia do Pai, parece-me uma aposta irrecusável para oferecerem aos vossos pais. E não tenham receio do título do livro por poder parecer negativo para o pai que o receber. Na verdade, assim que o lemos, percebemos logo o tom humorístico e caricatural do mesmo. Na verdade, ou bem que todos somos "maus pais" ou a maioria de nós até é "bom pai".

Os desenhos de Guy Delisle nesta obra assemelham-se, em termos de traço e aspeto, àqueles a que o autor já nos habituou nas outras obras já editadas por cá, com a diferença que, neste caso, os desenhos são ainda mais simples, sendo a preto e branco, e não havendo espaço, sequer, para grandes detalhes. É frequente que não haja cenários a rodear as personagens, além dos elementos estritamente necessários para cada uma das mini-histórias. Seria mais bonito, sem dúvida, se o desenho fosse mais aprimorado, reconheço, mas também me parece que, tendo em conta o estilo de obra humorística baseada em gags que temos nas mãos, a arte de Delisle funciona bem, acabando por ser eficiente na forma como serve as histórias aqui apresentadas.

A edição da Devir é em capa dura baça, com bom papel baço no interior e uma boa impressão e encadernação. A opção por editar a obra de forma integral e não através de quatro volumes soltos, foi uma boa escolha da editora portuguesa.

Em suma, adoraria encontrar uma BD em 2026 que me fizesse gargalhar mais do que este O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle. Seria muito bom sinal. Mas não será tarefa fácil isso vir a acontecer, pois este livro deixou-me várias vezes a rir que nem um maluquinho com todas as suas curtas histórias que, de tão honestas que são, nos fazem olhar para nós mesmos e rir dos nossos defeitos e facilitismos à medida que assumimos as nossas funções parentais. Gostei mesmo muito.


NOTA FINAL (1/10):
8.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir

Ficha técnica
O Guia do Mau Pai
Autor: Guy Delisle
Editora: Devir
Páginas: 204, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Março de 2026

Parte 2 da Polémica na Feira do Livro 2026


A tempestade está instalada na Feira do Livro de Lisboa 2026!

Após a polémica levantada há uns dias com a exclusão de alguns editores de participarem na Feira do Livro de Lisboa - e da qual já aqui falei - surge agora a resposta oficial da APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) que, naturalmente, também interessa conhecer.

Para qualquer conflito que possa surgir, é sempre interessante que possamos escutar os dois lados. Como tal, e por uma questão de transparência, transcrevo mais abaixo o comunicado emitido pela APEL no dia de ontem.


APEL esclarece critérios de participação na Feira do Livro de Lisboa 2026

Perante algumas informações recentemente divulgadas sobre o processo de inscrições na edição de 2026 da Feira do Livro de Lisboa (FLL), a APEL – Associação Portuguesa de Editores e Livreiros – considera importante prestar alguns esclarecimentos.

Em primeiro lugar, importa sublinhar que é inteiramente falsa a afirmação de que “40 editoras independentes” tenham sido afastadas da Feira do Livro de Lisboa.

No dia 14 de janeiro de 2026, deu entrada uma inscrição para participação na Feira do Livro de Lisboa, por parte da empresa Foco – Serviços Editoriais, Lda., sedeada em Barcarena, na qualidade de editor. No formulário de inscrição apresentado, esta entidade indicou representar apenas as suas próprias chancelas, não tendo referido qualquer outra editora ou chancela cuja representação pudesse vir a assumir.

Importa esclarecer que a situação publicamente referida diz respeito a um único participante –Foco - Serviços Editoriais, Lda. (designação entretanto alterada para DNL Convergência, Lda.) – cuja inscrição não foi aceite para a edição de 2026.

Esta decisão teve por base o histórico de participação da DNL Convergência, Lda., na Feira do Livro. A APEL tomou conhecimento de que alguns autores terão pago valores significativos para que os seus livros fossem expostos no pavilhão da DNL Convergência, Lda., prática que estaria a ser novamente promovida em publicações nas redes sociais com vista à edição de 2026.

A APEL entende que este tipo de prática configura uma utilização comercial abusiva de um pavilhão da Feira do Livro, o qual deve destinar-se exclusivamente às atividades editorial e livreira dos participantes e das editoras por estes representadas. Este modelo de participação não salvaguarda os interesses nem os valores da classe editorial e livreira que a APEL representa.

Acresce que, na edição de 2025, foram registados incumprimentos reiterados do Regulamento da Feira pela DNL Convergência, Lda., mesmo após notificação formal para correção dessas situações, nomeadamente a ocupação abusiva de espaço com impacto económico direto em participantes localizados em pavilhões contíguos.

Finalmente, a APEL recebeu ainda denúncias de autores e de outros editores relativas a práticas de mercado consideradas incorretas levadas a cabo pela DNL Convergência, Lda., incluindo relatos de não pagamento de vendas de livros e/ou de direitos de autor associados às obras comercializadas no âmbito da Feira.

Foi com base neste conjunto de circunstâncias que a APEL, entre outras medidas, decidiu não aceitar a inscrição da DNL Convergência, Lda., na edição de 2026 da Feira do Livro de Lisboa, em defesa do prestígio, da boa reputação e do cumprimento das regras que regulam a participação neste evento.

Depois da comunicação dessa decisão, o participante DNL Convergência, Lda. solicitou à APEL uma reunião, tendo a mesma decorrido no dia 6 de março de 2026.

Nessa mesma reunião, foram apresentadas as razões que estiveram na origem da recusa da inscrição. A APEL solicitou ainda os nomes das editoras/chancelas que a DNL Convergência, Lda. diz representar, mas até ao momento não recebeu a informação requerida. 

A APEL manifesta disponibilidade para colaborar na identificação de soluções que permitam a presença das editoras/chancelas que pretendiam participar na Feira através da DNL Convergência, Lda., designadamente através da eventual representação dos respetivos catálogos por outros participantes já inscritos, que se mostrem disponíveis para o efeito, ou no espaço reservado aos pequenos editores.

Relativamente à composição da Feira em 2026, importa também esclarecer que:
• Quatro participantes da edição anterior optaram, por iniciativa própria, não se inscrever;
• Cinco novos participantes, editoras independentes, foram aceites pela primeira vez na edição de 2026;
• Três inscrições não foram aceites por apresentarem catálogos centrados, maioritariamente, em produtos que não livros;
• Três inscrições, incluindo a da DNL Convergência, Lda., não foram aceites por razões relacionadas com o incumprimento dos critérios de participação definidos pela organização.

A Feira do Livro de Lisboa continuará, assim, a integrar novos projetos editoriais e editoras independentes, mantendo-se como um espaço plural e representativo da diversidade do setor. 

A APEL reafirma que continua empenhada em garantir que a Feira do Livro de Lisboa se mantenha como o maior evento cultural do país, pautado pelos princípios de rigor, transparência, diversidade editorial e respeito pelas regras que asseguram o seu bom funcionamento.



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Transcrito o comunicado, uma coisa me parece clara: a organização da APEL demonstra-se pouco clara e pouco transparente em relação aos seus critérios.

Não posso aqui dizer que a exclusão da Convergência e dos editores que a mesma representa tenha sido feita de forma justa ou injusta - está claro que cada um dos lados queixar-se-á sempre do outro -, mas posso dizer que o critério inicialmente apresentado pela APEL, que fazia crer que a razão pela exclusão era a falta de espaço continua a ser ridículo e inaceitável. 

E, claro, mesmo que, conforme menciona no seu comunicado, a APEL tenha razões de queixa da Convergência, pergunto-me se a Associação não tem que fazer esse policiamento do cumprimento de regras a TODOS os outros expositores e não apenas à Convergência. Especialmente quando um dos motivos apresentados pela APEL é que "foram registados incumprimentos reiterados do Regulamento da Feira pela DNL Convergência, Lda., mesmo após notificação formal para correção dessas situações, nomeadamente a ocupação abusiva de espaço com impacto económico direto em participantes localizados em pavilhões contíguos."

Falar em "ocupação abusiva de espaço com impacto económico direto em participantes localizados em pavilhões contíguos" quando, conforme já referi, há Grupos Editoriais que ocupam, não pavilhões, mas praças(!), tendo auditórios com som incorporado que, naturalmente, se faz ouvir nos pavilhões próximos; tendo seguranças à entrada destas praças que estragam o ambiente natural de uma Feira do Livro e uma utilização completamente monopolista do espaço da Feira... me parece verdadeiramente anedótico. Assemelha-se a uma tentativa de atirar areia para os olhos dos outros.

Enfim. Vejamos que novos capítulos nos trará esta novela que merece horário nobre na SIC ou na TVI.

A arte de Luís Louro vai estar presente no Panteão Nacional!




A propósito de uma exposição interdisciplinar que inaugurará hoje, dia 11 de Março, às 19h, no Panteão Nacional, intitulada Panteão Nacional - Modos de Ver, o meio da banda desenhada estará representado na mesma pelo trabalho de Luís Louro, um dos mais relevantes autores da banda desenhada portuguesa.

É mais um "palco" prestigiante que honra a 9ª arte portuguesa e, neste caso, a obra de Luís Louro em concreto.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa sobre a exposição.

PANTEÃO NACIONAL – MODOS DE VER

Vai ser inaugurada no próximo dia 11, às 19 horas, a exposição “Panteão Nacional – modos de ver”.

“Panteão Nacional – modos de ver” propõe um percurso marcado por uma deliberada diversidade de imagens. Abrange os registos mais antigos do monumento (telas, painéis de azulejos...), as representações do Panteão na publicidade, as perspetivas que gerou em artistas contemporâneos (como Carlos Botelho, Homem-Cardoso, Luís Pavão ou Kikias Skapinakis) ou os momentos históricos de que foi protagonista.

A banda desenhada, a televisão, os discos, aproximam o monumento dos “media” dos nossos dias.

Assim se irá apresentar a Igreja de Santa Engrácia / Panteão Nacional em múltiplas facetas, incluindo os projetos de conclusão nunca implementados.

“Panteão Nacional – modos de ver” não é uma monografia sob a forma de imagens.

Nem apresenta uma narrativa histórica. É antes um convite à descoberta das diferentes representações que o monumento tem motivado. É também um desafio aos visitantes, que podem, a partir daqui, criar o seu próprio modo de ver o Panteão.

terça-feira, 10 de março de 2026

Análise: Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante e A Dupla Exposição

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA
Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux

Foi recentemente que a editora ASA editou dois volumes de Blake e Mortimer: A Ameaça Atlante, de Yves Sente e Peter Van Dongen; e A Dupla Exposição, de James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux. Este último, inserido na série As Micro-Aventuras de Blake e Mortimer, não é bem um álbum de Blake e Mortimer, pelo menos no sentido canónico da questão, pois é um livro de texto em prosa sobre aventuras da dupla que depois é complementado por ilustrações. Nem sequer é de banda desenhada. Já o primeiro livro, esse sim, é um livro pertencente à série principal, canónica, de Blake e Mortimer.

Infelizmente, e por muito que eu gostasse de ter uma opinião mais favorável, nem um nem outro são livros que eu possa recomendar àqueles que são adeptos de um bom livro de banda desenhada. Mesmo aos amantes da série, eu tenho que recomendar alguma cautela na escolha destes livros.

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA
Começando por A Ameaça Atlante, este livro revelou-se uma verdadeira decepção. Embora Blake e Mortimer seja uma série que tem um lugar indiscutível na história da banda desenhada europeia, este álbum mostra o desgaste de uma fórmula que já não convence fora do círculo dos leitores mais saudosistas. O que antes era admirável pela ousadia e pelo rigor estético, hoje soa forçado e anacrónico. Muito forçado e muito anacrónico, sinceramente.

Hoje em dia, Blake e Mortimer é uma série que só facilmente consegue agradar aos fãs nostálgicos, aos que ainda se sentem fascinados pela reconstituição de um imaginário dos anos 1950. Mas o problema, quanto a mim, é que a junção de história clássica com ficção científica tende, por definição, a não funcionar bem, pois deixa-nos com um travo demasiadamente kitsch. Continuo a defender que a tentativa de continuar a fazer ficção científica centrada nesse período, ignorando os avanços e as sensibilidades do século XXI, falha redondamente. À luz da realidade em que vivemos, o mundo de Blake e Mortimer parece uma reconstrução de um museu, estático e ultrapassado.

A ideia da história deste livro até tinha algum potencial, uma vez que a narrativa opta por continuar os acontecimentos de O Enigma da Atlântida, um dos álbuns mais célebres da série originalmente criada por Edgar P. Jacobs.

Philip Mortimer viaja para a Escócia para embarcar numa missão governamental para o estudo de antigas terras vulcânicas e para que possa testar a viabilidade de uma instalação geotérmica. É então que a personagem toma contacto com estranhos fenómenos que estão a afetar todo o Mar do Norte e que resultam de nuvens de gazes tóxicos, bem como de um tsunami gigantesco. Para além das vítimas causadas por estes estranhos fenómenos, aparecem ainda corpos mumificados a boiar no Mar do Norte. Sou-vos sincero: este livro começa bem e a premissa inicial prendeu-me. Mas depressa esse interesse inicial deu lugar a uma sensação de frustração.

Isto porque rapidamente o enredo se começa a atropelar a si mesmo deixando a história cada vez mais desinspirada e inverosímil. Nota-se o esforço do argumentista Yves Sente em imitar o estilo de Edgar P. Jacobs, mas fá-lo sem alcançar o seu encanto ou a sua coerência, deixando que o texto, além de enorme - mas isso já é comum à série - se enrede em explicações longas e desnecessárias. 

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA
Igualmente desastrada é a tentativa de Yves Sente de justificar continuamente as pontes entre as obras de Jacobs e a sua própria criação. As longas páginas de exposição e contextualização soam forçadas. Em vez de integrar harmoniosamente a herança original, o autor parece colar fragmentos antigos e novos. Mas com uma "cola" pouco consistente. O resultado é uma narrativa rígida e olvidável, que tenta parecer densa, mas apenas se torna confusa e cansativa. A história parece costurada a partir de fragmentos soltos, sem uma lógica verdadeiramente consistente e com demasiadas passagens a soarem infamemente artificiais.

A própria lógica científica que se procura dar ao intento é bastante incoerente, minando a própria credibilidade da narrativa. Se fosse uma paródia ou um exercício de humor, talvez resultasse; mas sendo um livro que se leva a sério, torna-se penoso.

Como se não bastasse, a previsibilidade das histórias atinge (novamente!) o seu ponto mais notório com a insistente presença de Olrik. Esta personagem, que devia ser um símbolo do antagonismo engenhoso de Jacobs, converte-se agora, em todos os livros, num clichet. Espanta-me que na editora original da obra, ninguém diga: "se calhar, desta vez não usávamos o Olrik, não?" A sua aparição em cada novo álbum já não causa surpresa, acabando por ser uma quase paródia involuntária. Como nos episódios de Scooby-Doo, o leitor já sabe sempre quem é o “vilão mascarado” antes mesmo de o rosto ser revelado. E Blake e Mortimer parece ter chegado a essa bitola. O que é lamentável, pois esta repetição constante destrói qualquer hipótese de suspense. Em vez de alimentar o mistério, reduz o universo narrativo a um ciclo mecânico e previsível. É difícil acreditar que, após tantas décadas, não se tenha encontrado uma forma diferente de desafiar os protagonistas. A persistência de Olrik é, de facto, o testemunho mais evidente da falta de originalidade e da dificuldade em reinventar a série.

Visualmente, o trabalho de Peter Van Dongen funciona bem, mantendo uma boa ponte com o estilo gráfico, em linha clara, de Edgar P. Jacobs. Nem sempre é perfeito, existindo algumas vinhetas menos perfeitas, especialmente ao nível dos cenários e dos ambientes interiores, mas diria que não é por aí que o álbum falha. É eficiente.

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA
Falando de A Dupla Explosão, que nos procura dar um texto em prosa, mais uma aventura de Blake e Mortimer, devo dizer que, inicialmente, gostei da ideia arquitetada por James Guth e Sonja Shillito. Blake e Mortimer são convidados para a Feira Mundial de 1964 e acabam expostos aos raios de uma máquina que os reduz à escala milimétrica. Uma premissa que facilmente nos remete para o filme Querida, Encolhi os Miúdos. Blake e Mortimer ficam assim presos num universo futurista, vendo-se forçados a superar esta desvantagem física que lhes é imposta. É uma história algo inusitada, mas que até me agradou. Talvez pudesse ser um pouco mais profunda e mais bem desenvolvida, ainda assim.

No entanto, as ilustrações de Laurent Durieux, autor que já tinha trabalhado em parceria com Jaco Van Dormael, Thomas Gunzig e François Schuiten em O Último Faraó, me agradou muitíssimo. Gosto desta abordagem visual ao universo de Blake e Mortimer. Claro que, sendo ilustrações que acompanham o texto, não permitem que possamos apreciar o lado mais sequencial da narrativa visual, o que talvez ainda fosse mais agradável, mas tenho que dizer que fiquei bem impressionado com estes desenhos.

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA
Em termos de edição, A Ameaça Atlante apresenta a habitual capa dura brilhante, com bom papel baço no miolo, havendo uma capa alternativa - melhor do que a principal, diga-se - exclusiva da rede de lojas FNAC. Já A Dupla Exposição recebe uma edição mais diferenciada, com capa dura baça e lombada em tecido. Lamento que na lombada não haja qualquer texto, mas já pude tomar nota que também foi assim na edição original da obra, pelo que esta ausência - incompreensível - não deve ser imputada à ASA, mas à editora original. O livro é-nos dado em formato horizontal e o papel baço utilizado, bem como a encadernação e impressão, é de boa qualidade. É um livro bonito.

Em suma, fica a sensação amarga de que esta série persiste mais por obrigação comercial do que por necessidade artística. Há uma clara tentativa de rentabilizar o nome de Blake e Mortimer junto dos leitores que ainda lembram os tempos áureos da série, mas é difícil imaginar que novos públicos encontrem aqui algo inspirador. Especialmente em A Ameaça Atlante, tudo soa a requentado naquele que é (mais) um capítulo fraco de uma saga que vive mais da memória do que do presente. Falta-lhe risco, emoção e sentido de descoberta. No esforço de parecer fiel ao passado, o álbum esquece-se de ser relevante no presente e aquilo que foi outrora símbolo de aventura e elegância tornou-se apenas um eco empalidecido de uma glória perdida.


NOTA FINAL (1/10):
Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante: 5.0
A Dupla Exposição: 7.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA

Fichas técnicas
Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante
Autores: Yves Sente e Peter Van Dongen
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 310 x 235 mm
Lançamento: Novembro de 2025

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA

A Dupla Exposição
Autores: James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux
Editora: ASA
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura com lombada em tecido
Formato: 200 x 255 mm
Lançamento: Novembro de 2025