O primeiro volume da série Shi, editado em Portugal no final de 2024, já me tinha deixado maravilhado, confesso. Mesmo assim, mantive, na altura, algumas reticências, pois bem sei - e o leitor mais batido certamente concordará comigo - que comuns são os casos em que boas premissas e boas ideias, acabam por não ser devidamente bem trabalhadas, de forma a criar algo mais grandioso do que o banal. Pois bem, agora que finalizei a leitura do primeiro ciclo de Shi, da autoria de Zidrou e Homs, posso dizer-vos que ainda fiquei mais agradado do que na leitura dos primeiros tomos! Se é que isso era possível!
Ler os quatro primeiros tomos de Shi - especialmente se for feito de uma vez - é como atravessar Londres sob um céu permanentemente carregado: sabemos que a tempestade vai cair, mas não conseguimos desviar o olhar. Zidrou constrói uma narrativa densa, suja e fascinante, onde a lama das ruas vitorianas se cola às personagens e às suas escolhas. Sente-se a premência de um peso trágico, quase fatalista, que nos acompanha desde a primeira página e que se adensa, de forma magistral, nos tomos três e quatro, respetivamente, Vingança! e Vitória, que a editora Ala dos Livros publicou há poucos dias num só volume.
A história ambientada na Londres da época vitoriana - ou não fosse a própria Rainha Vitória personagem e peça relevante para a trama - volta a colocar-no encalço das três mulheres Jennifer, Kita e Pickles. Depois dos eventos trágicos do álbum anterior, que levaram Jennifer a unir forças a Kita e a desertar da sua influente família Winterfield, começamos por acompanhar os efeitos que as fotografias tiradas por Jennifer a proeminentes homens da sociedade inglesa, que procuravam satisfazer os seus caprichos sexuais mais inusitados num bordel, começam a criar.
Daí a história espraia-se, a vários níveis, para um enredo em que a união destas mulheres parece menos temporária e com um fim e um propósito maior, quiçá perpétuo, na luta perante os homens que perseguem as mulheres. É, acima de tudo, uma história de vingança a fazer lembrar, com as devidas distâncias, O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.
Neste novo volume que fecha o primeiro ciclo da série - e relembro que a série está pensada para ter mais 4 tomos, divididos por 2 ciclos, estando apenas publicado na língua original o segundo ciclo - a narrativa ganha uma espessura impressionante. As peças do puzzle começam a encaixar com uma precisão quase cruel, revelando personagens maquiavélicas, interesses obscuros e jogos de poder que vão muito além das protagonistas. É aqui que se torna inequívoco que Shi não é apenas uma boa série: é uma obra ambiciosa, pensada ao detalhe, sem medo de ir longe demais. Se aprecio muito - muito, mesmo! - o tom humanista das histórias de Zidrou contido noutros belíssimos livros (todos eles publicados em Portugal) como A Fera, Naturezas Mortas, A Adopção, Emma G. Wildford, Lydie ou Verões Felizes, tenho que admitir que é em Shi que o autor vai (ainda) mais longe, oferecendo-nos, até à data, a sua obra mais ousada e ambiciosa.
De resto, a relação entre Jennifer e Kita é o verdadeiro coração pulsante da obra. Duas mulheres de origens opostas, unidas primeiro pelo choque e depois pelo ódio, acabam por construir uma ligação que ultrapassa culturas, línguas e convenções sociais. Não é uma amizade romântica nem idealizada; é uma aliança forjada na dor, na sobrevivência e na sede de justiça e, consequentemente, de vingança. O ideograma “shi”, que significa "morte", transforma-se num símbolo recorrente, quase ritualístico, que marca não apenas cadáveres, mas a falência moral de toda uma sociedade.
A perseguição policial, a presença ameaçadora do temível vilão Kurb e a fuga de Kita e Jennifer com a ajuda do Sensei, acrescentam tensão constante à leitura. Nada parece gratuito; cada decisão tem consequências, cada vitória cobra um preço. E quando Jennifer e Kita unem forças com os Dead Ends, um grupo de crianças órfãs, que nos remete para as personagens de Charles Dickens, a história assume definitivamente contornos políticos, quase revolucionários, apontando o dedo ao próprio Império Britânico.
A tentativa de vingança contra o império, aproveitando o contexto histórico das decisões da Rainha Vitória e das tensões com as colónias americanas, revela um argumento que respeita e reinventa a História. Mesmo que a adapte para fins narrativos.
E além de tudo isso - que já é muito! - Shi ainda consegue ser também um grito de revolta feminista. A obra expõe, sem filtros, as injustiças sofridas pelas mulheres na sociedade vitoriana (e não só) mostrando a violência de que são alvos, a hipocrisia da "força" masculina e a instrumentalização dos corpos das mulheres. A própria maternidade, tantas vezes apagada ou menosprezada ao longo da História da Humanidade, surge aqui como um motivo de dor, mas também de resistência.
Zidrou demonstra uma notável habilidade em misturar muitos géneros de forma feliz e sem nunca perder o controlo do tom. Em Shi há aventura, ação, intriga policial, inspiração histórica e até uma camada subtil de fantasia, sempre bem doseada. Até o próprio humor existe, mas é discreto, quase irónico, surgindo nos momentos certos para aliviar a tensão sem a quebrar. Os diálogos são impactantes, afiados e carregados de subtexto. Dá a ideia de que Zidrou colocou toda a “carne no assador”, pois, criativamente falando, não há medo do excesso. E é precisamente isso que torna o resultado tão poderoso.
E se encantado fiquei com o belo argumento arquitetado por Zidrou, que posso dizer sobre os desenhos lindos, majestosos e plenos de personalidade do mestre Homs?
O traço do autor parece transcender o simples papel: cada vinheta é uma pintura minuciosa, um convite a desacelerar e a observar. A riqueza de detalhes, desde o menor ornamento das roupas vitorianas até aos reflexos sombrios nas vielas de Londres, transforma cada página numa experiência quase tátil. Homs não se limita a ilustrar a narrativa; opta antes por enriquecê-la, conferindo profundidade emocional às personagens, sugerindo silêncio e tensão nos espaços vazios, e capturando o drama da história nos olhares e gestos mais subtis. As expressões faciais, os cenários urbanos, os interiores sombrios e decadentes, tudo respira autenticidade e intenção artística.
Verdadeiramente soberbo!
Há uma raridade na capacidade de Homs de fundir realismo e dramatização cinematográfica sem nunca sacrificar a elegância visual. É um estilo comercial, que pode agradar a um grande público, e autoral ao mesmo tempo, podendo agradar a quem procura uma proposta visual mais depurada. Cada plano, cada enquadramento, parece calculado para nos prender, mas sem nunca parecer forçado.
Os desenhos são simultaneamente delicados e poderosos, elevando a própria série a um outro patamar ainda mais cimeiro. E também as cores são usadas com inteligência emocional, alternando entre tons frios, opressivos, e explosões cromáticas que intensificam a ação ou o drama. Os planos variam com fluidez cinematográfica, e as cenas de ação são dinâmicas, por vezes alucinantes, e visualmente arrebatadoras. Isto já para não falar das fantásticas e impressionantes ilustrações de página inteira ou de dupla página, que poderiam ser emolduradas e enviadas para museus. É, sem exagero, um verdadeiro "prato cheio" de qualidade superior aquilo que Homs nos oferece em Shi. Sou descaradamente fã do autor.
Com uma história tão boa e uma ilustração tão soberba, será que foi a edição que meteu a pata na poça? Não, nem pensar! A edição da Ala dos Livros é verdadeiramente premium fazendo jus à qualidade da obra. O livro apresenta capa dura baça, com textura macia e lombada de tecido. Na lombada, é formado o título e ideograma da obra, aumentando o cariz de colecionador da edição. Há ainda uma elegante fita marcadora vermelha. No miolo, o papel é brilhante e de excelente qualidade, enquanto a impressão e encadernação também são de primeiro nível. No final somos brindados com um dossier de esboços, como extra, onde nos podemos deleitar mais um bocadinho com os desenhos de Homs.
Em suma, tenho que dizer-vos que estou encantado com Shi. Nos primeiros dois tomos já se adivinhava algo especial, mas é com os tomos três e quatro que a obra se afirma plenamente. Não tenho qualquer problema em confessar: Shi entrou diretamente para o meu TOP de séries de BD preferidas de sempre. Fulgurante, espetacular e profundamente marcante, esta é uma obra que não se limita a entreter. Sabe provocar, incomodar, emocionar e, no fim, deixar-nos com aquela sensação rara de termos contactado com algo verdadeiramente especial.
NOTA FINAL (1/10):
10.0
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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