domingo, 14 de junho de 2026

Análise: Arsène Lupin contra Sherlock Holmes

Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, de Jérôme Félix e Alain Janolle - Ala dos Livros

Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, de Jérôme Félix e Alain Janolle - Ala dos Livros
Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, de Jérôme Félix e Alain Janolle

Uma das mais recentes novidades da Ala dos Livros dá pelo nome de Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, uma obra da autoria de Jérôme Félix e Alain Janolle, originalmente editada em dois volumes, entre 2022 e 2023, e que a editora portuguesa congrega num volume integral.

Este é um trabalho que se apresenta como uma obra apelativa à partida, colocando frente a frente duas das figuras mais icónicas da literatura policial: Arsène Lupin e Sherlock Holmes. Estamos perante uma adaptação - ou releitura - da obra original criada por Maurice Leblanc. E sou-vos sincero: a promessa de um duelo entre o ladrão cavalheiro e o detetive mais célebre do mundo criou-me facilmente uma expectativa imediata, sugerindo uma narrativa intensa, inteligente e cheia de reviravoltas.

A história avança quando Arsène Lupin, ao assumir a identidade de especialista em códigos, é surpreendido por um homem que diz ser ele próprio. Este desconhecido pede-lhe ajuda para decifrar uma sequência enigmática, o que leva Lupin a iniciar a investigação. Descobre então que se trata de Maurice Guercin, ligado a uma família rica cuja herança envolve o suposto segredo alquímico de transformar metais comuns em ouro.

Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, de Jérôme Félix e Alain Janolle - Ala dos Livros
Mas à medida que esta investigação avança, surge uma ameaça familiar: Sherlock Holmes continua determinado a capturar Lupin. O confronto entre ambos intensifica-se então, e revela-se carregado de perseguições, disfarces e jogos de inteligência. 

Uma das coisas mais interessantes nesta abordagem é que a mesma se destaca pela forma como reinterpreta estas duas personagens clássicas. Arsène Lupin mantém o seu charme e perspicácia inconfundíveis, mas surgindo aqui como um criminoso sofisticado que ambiciona, curiosamente, reformar-se. Isto faz com que seja fácil para nós criarmos empatia com esta criativa - e divertida - personagem.

Por outro lado, também é interessante que a personagem de Sherlock Holmes nos seja apresentada numa versão bastante diferente daquela a que estamos habituados. Aqui, surge mais como um antagonista do que como um verdadeiro herói, algo que poderá causar estranheza a leitores mais familiarizados com a criação de Conan Doyle. Este é um Sherlock Holmes mais agressivo, por vezes até vingativo.

No que toca ao enredo, a obra tenta construir uma trama intrincada e cheia de surpresas. Há um esforço claro em enganar o leitor, montando e desmontando o puzzle da investigação de forma constante. Este estilo poderá remeter para as obras de Agatha Christie, em particular para as várias bandas desenhadas que a Arte de Autor tem publicado por cá na coleção dedicada às adaptações dos clássicos da escritora britânica. 

Contudo, apesar dessa ambição estrutural, foi com alguma pena que verifiquei que o resultado não atinge plenamente o nível de excelência a que parece aspirar. A história é agradável e envolvente em vários momentos, sem dúvida, mas fica aquém de se tornar verdadeiramente memorável. Há uma sensação persistente de que algo poderia ter sido mais aprofundado ou melhor trabalhado. Ou mais ajustado. É que, por um lado, a obra tem elementos sérios e parece apontar a um público mais maduro e sofisticado. Por outro lado, certas resoluções no enredo e certos eventos na narrativa parecem adquirir um tom demasiadamente juvenil e parcamente trabalhado.

Não é que seja um livro que não se leia bem, mas acho que falha em ser um trabalho mais memorável. Parece muito "ligeirinho" para aquilo que, aparentemente, procura ser: uma história densa, com muitas dimensões e que desafie a nossa inteligência.

Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, de Jérôme Félix e Alain Janolle - Ala dos Livros
Uma das principais fragilidades prende-se com a clareza do enredo, que se torna várias vezes confuso. E essa "confusão" não advém de uma complexidade intelectual desafiante, ou de subtramas mais complexas, mas antes de escolhas - e até mesmo diálogos - que parecem forçados. Em vez de enriquecer a história, certos desenvolvimentos acabam por quebrar a fluidez e a coerência da narrativa. Além disso, o ritmo revela-se por vezes demasiadamente acelerado. As situações sucedem-se com rapidez, e algumas resoluções parecem surgir de forma prematura ou pouco desenvolvida. 

Os diálogos também contribuem para essa sensação de artificialidade. Em vários momentos, soam algo forçados. E este aspeto reforça, lá está, a ideia de que a obra se aproxima mais de um estilo mais juvenil do que de uma narrativa adulta mais complexa. E, atenção, não há nada de errado nisso. Apenas acho que o livro sofre de uma certa bipolaridade entre o que quer e o que não quer ser. 

Ainda assim, não se pode dizer que seja uma leitura desinteressante, reitero. Pelo contrário, o livro lê-se bem e mantém um certo ritmo cativante. Simplesmente, não consegue cumprir totalmente a promessa de ser uma história densa e intelectualmente desafiante.

No campo visual, porém, a obra brilha de forma clara. O trabalho de Alain Janolle é muito belo, com um traço limpo e semi-caricatural que remete para importantes nomes da banda desenhada francófona, como Willy Lambil, Bruno Gazzotti ou Pierre Alary, por exemplo. Com as devidas diferenças, claro está. As personagens são expressivas, os cenários bem trabalhados e a planificação dinâmica, contribuindo fortemente para o prazer da leitura.

Também as cores merecem uma nota de apreço, graças ao contributo dos coloristas Delf & Walter. O seu trabalho é harmonioso e inspirado, complementando na perfeição o desenho e elevando o conjunto visual. No final, esta componente gráfica acaba por ser um dos maiores trunfos da obra, compensando em parte algumas fragilidades do argumento.

Em termos de edição, estamos perante mais um belíssimo trabalho da Ala dos Livros. O livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz e um belo grafismo. No interior, o papel é brilhante e de boa qualidade. Também de boa qualidade é a encadernação, impressão e acabamentos. O dossier de extras, com textos de René Pulsani e Jérôme Félix, é extremamente interessante, pois oferece alguma profundidade à obra e consegue até mesmo amarrar algumas das pontas soltas presentes na obra. Belos extras, portanto. Nota positiva, também, para a opção por editar a obra num volume integral.

Em suma, Arsène Lupin contra Sherlock Holmes oferece uma leitura envolvente e inteligentemente construída, destacando-se pelo ritmo dinâmico, pelos jogos de identidade e pelo carisma intemporal de Arsène Lupin. A tensão crescente entre Lupin e Sherlock Holmes acrescenta profundidade à narrativa e mantém o interesse até ao fim. Ainda assim, apesar do seu encanto e de algumas reviravoltas bem conseguidas, há momentos em que a história pode parecer algo previsível ou forçada. 


NOTA FINAL (1/10):
7.5


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Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, de Jérôme Félix e Alain Janolle - Ala dos Livros

Ficha técnica
Arsène Lupin contra Sherlock Holmes
Autores: Jérôme Félix e Alain Janolle
Adaptado a partir da obra original de: Maurice Leblanc
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Maio de 2026

sábado, 13 de junho de 2026

Análise: Caderno de Memórias Coloniais

Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata - Editorial Caminho

Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata - Editorial Caminho
Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata

A Editorial Caminho publicou, há poucas semanas, o livro Caderno de Memórias Coloniais que é uma adaptação para banda desenhada da obra homónima de Isabela Figueiredo, editada originalmente em 2009. A adaptação para BD contou com a própria Isabela Figueiredo, que reviu o seu texto, e com Júlia Barata que transformou o relato em imagens.

Caderno de Memórias Coloniais é uma obra autobiográfica em que Isabela Figueiredo revisita a sua infância vivida em Moçambique durante o período colonial português. A narrativa é construída a partir de memórias fragmentadas e intensas, nas quais descreve o ambiente social marcado pela desigualdade racial e pela violência estrutural do colonialismo. A autora expõe o quanto o racismo era natural entre os colonos brancos, incluindo dentro da sua própria família, revelando como esse sistema moldava comportamentos e relações quotidianas.

Ao longo do livro, Isabela Figueiredo confronta a figura do pai, um colono português que exemplifica a mentalidade dominante da época, autoritária e profundamente racista. A relação ambígua com ele é central: ao mesmo tempo em que ele representa afeto e proteção na infância, também encarna a violência do sistema colonial. Essa tensão contribui para o tom crítico e doloroso da narrativa, em que a autora procura compreender e denunciar o papel dos colonos, sem se poupar a si mesma enquanto testemunha e participante passiva nesse contexto.

E talvez seja esse o ponto que traz mais força ao relato. É que, falando do próprio pai, a autora alcança uma dicotomia narrativa interessante: é que, por um lado, traz-nos memórias que se revelam fraternas, pois trata-se da relação especial que tinha com o pai; por outro lado, ao dar especial enfoque ao seu pai e aos comportamentos do mesmo, acaba por nos traçar um retrato cru do homem branco colono que, invariavelmente, era racista. Eram outros tempos, era outra época e, se calhar, à luz desse tempo passado, certos comportamentos não eram socialmente questionados ou condenados da mesma forma que hoje são. Faz parte da evolução humana termos comportamentos mais certos e justos à medida que o tempo vai passando, diria. Ou, pelo menos, assim deveria ser. Digo eu, que sou otimista. Com efeito, revivendo agora no tempo presente estes eventos, quer autora, quer os seus leitores, se apercebem do que hoje não pode nem deve ser tolerado.

Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata - Editorial Caminho
E esta duplicidade traz-nos duas valências importantes: 1) Isabela Figueiredo é uma autora corajosa e de uma honestidade intelectual louvável; 2) este livro é um belo exemplo daquilo que, quanto a mim - e isto é uma opinião muito pessoal, reconheço - deve ser a reflexão sobre erros passados: mais do que recriminação, mais do que "cancelamento" a posteriori, mais do que a reescritura da História, devemos olhar para o passado com a luz do nosso tempo presente, mas sabendo contextualizar devidamente aquilo que fizemos, enquanto sociedade, no passado. Não me entendam mal: não defendo que se deve desculpar ou minorar o sofrimento infligido pelos (ou aos) nossos antepassados. Pelo contrário! Mas defendo que devemos olhar para o passado com um olhar clínico mais didático, para que aprendamos a não perpetuar os erros passados e a incrementar as coisas que foram bem feitas.

E considero que, de facto, Caderno de Memórias Coloniais consegue fazer isto muito bem. Consegue ser uma boa ferramenta de aprendizagem e reflexão, sim, mas de um modo redentor, apontando mais um caminho para o presente e futuro do que negando o passado. 

Além disso, a obra também reflete sobre o retorno a Portugal após a independência de Moçambique, destacando o sentimento de desenraizamento e deslocamento vivido por Isabela Figueiredo. A autora aborda a dificuldade de reconstruir a identidade após a ruptura com o passado colonial, evidenciando a experiência dos chamados “retornados”. O livro, assim, articula memória pessoal e reflexão histórica, oferecendo uma denúncia contundente do colonialismo e um testemunho íntimo das suas marcas duradouras.

Quanto às ilustrações de Júlia Barata, as mesmas desempenham um papel fundamental na adaptação de Caderno de Memórias Coloniais para banda desenhada, ao traduzirem visualmente a carga emocional e a densidade das memórias narradas por Isabela Figueiredo. 

O traço de Júlia Barata, bem próximo do que quem acompanha a autora já conhece, apresenta-se simplista, assente numa linha fina e depurada, que privilegia mais a sugestão do que o detalhe. Não obstante, essa contenção gráfica não suaviza em nada a violência descrita. Pelo contrário, acentua-a, criando espaço para que o leitor complete e interprete o que em alguns casos - mas não em todos - está apenas a ser insinuado. Ainda assim, também se encontram alguns momentos em que essa opção por um grafismo mais simples não resulta tão bem, com alguns desenhos a darem a sensação de estarem inacabados.

Por outro lado, o uso da cor revela-se particularmente expressivo e eficaz. A paleta de cores confere aos desenhos um carácter mais próximo do expressionismo, contribuindo decisivamente para a intensidade emocional da obra e aumentando o interesse visual de muitas páginas. Há vários exemplos de composições especialmente bem conseguidas, em que a combinação entre cor e a tal economia de traço, já por mim referida, resulta em imagens visualmente fortes e memoráveis. 

Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata - Editorial Caminho
No ponto em que, visualmente falando, a obra me deixou menos agradado, foi no cariz menos sequencial da mesma, fazendo com que este Caderno de Memórias Coloniais - Novela Gráfica se aproxime demasiadas vezes mais de um livro ilustrado, do que de um livro de banda desenhada. Essa sensação é reforçada pela frequência com que se opta por uma única imagem a ocupar uma página, acompanhada de uma legenda extensa no topo. Ainda que essa escolha possa ter sido pensada para preservar a força do texto original, fica a impressão de que, em alguns casos, teria sido mais eficaz dividir essa carga textual por várias vinhetas menores, promovendo um maior dinamismo narrativo e uma articulação mais fluida entre imagem e palavra.

Seja como for, com as suas valências e fraquezas, este é um belo livro que merece ser lido e - porque não? - estudado e analisado em contexto de sala de aula. O relato de Isabela Figueiredo é demasiadamente precioso e relevante para que não seja devidamente difundido. E nesse ponto concreto - que será até o mais relevante, convenhamos -, este livro acaba por funcionar bastante bem.

Para além disso, a edição da Editorial Caminho é em capa mole baça, com badanas, e o papel do miolo do livro é decente. No final da obra, encontramos um posfácio de cada uma das autoras que acabam por ser especialmente úteis para percebermos o "porquê" e o "como" desta obra, bem como as dificuldades que surgiram a Isabela Figueiredo e Júlia Barata durante a feitura da obra.

Em suma, Caderno de Memórias Coloniais afirma-se como um relato histórico de grande importância, não apenas pelo seu valor literário, mas sobretudo pelo seu contributo para a memória coletiva. Ao revisitar, sem concessões, a experiência colonial portuguesa em África, a obra recorda-nos o que foi feito por nós, enquanto sociedade, e pelos nossos antepassados, num período marcado pela violência e pela desigualdade. Sendo um testemunho por vezes revoltante e até vergonhoso, torna-se ainda mais essencial que seja lido e debatido, para que não se apague nem se deturpe esse passado. Importa que todos nós - colonizadores e colonizados - possamos reconhecer os erros cometidos, não para perpetuar culpas, mas para aprender com eles e, assim, contribuir para a construção de um presente mais consciente e um futuro mais justo.

NOTA FINAL (1/10):
8.3



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Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata - Editorial Caminho

Ficha técnica
Caderno de Memórias Coloniais - Novela Gráfica
Autoras: Isabela Figueiredo e Júlia Barata
Editora: Editorial Caminho (LeYa)
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 23,5 x 15,6
Lançamento: Maio de 2026

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Análise: Os Trabalhadores do Mar

Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand - A Seita

Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand - A Seita
Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand

Uma das mais recentes apostas da editora A Seita é este Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand, que adapta para banda desenhada o clássico da literatura da autoria de Victor Hugo. Esta obra insere-se na coleção Nona Literatura que a editora portuguesa tem vindo a fortalecer aos poucos, sempre com livros de bela qualidade. 

É o caso desta obra que vos trago hoje, que me deixou extremamente bem impressionado!

Adaptado pelo francês Michel Durand, de quem, confesso, ainda não tinha lido nada, este Os Trabalhadores do Mar é uma obra que impressiona desde as primeiras páginas, não apenas pela sua ambição, mas pela intensidade com que se entrega ao espírito do romance original de Victor Hugo. Sente-se em cada uma das 168 páginas que compõem esta obra, um respeito profundo pelo texto original, mas também uma vontade clara de o reinventar - ou de lhe dar uma nova vida eloquente, se preferirem - através da linguagem própria da banda desenhada. É uma belíssima adaptação!

Antes de mais, importa sublinhar que a força da narrativa pertence, indiscutivelmente, a Victor Hugo. Não conhecia a obra original, mas rapidamente pude constatar que a história, de tom clássico e trágico, bem ao jeito de alguma da melhor literatura da época, é verdadeiramente impressionante. Que bela história, que belo enredo e que bela narrativa. Trata-se de um universo literário denso e apaixonado, uma história de grande fôlego em que a condição humana é testada até aos seus limites. É essa dimensão clássica, quase monumental, que esta adaptação de Michel Durand preserva com notável fidelidade.

Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand - A Seita
Falando-vos um pouco do enredo, sem querer revelar em demasia, a história decorre na ilha de Guernsey e centra‑se na personagem de Gilliatt, um homem solitário, afastado da comunidade local e envolto numa aura de mistério face aos habitantes daquela pequena localidade. Apaixonado por uma jovem da ilha e levado a acreditar na reciprocidade dos sentimentos desta perante si, acaba por aceitar o desafio - aparentemente impossível - de recuperar a máquina de um navio a vapor naufragado e preso de forma cirúrgica entre dois rochedos traiçoeiros, num ambiente completamente inóspito que é dominado pela violência do mar. Convém explicar que para os habitantes de Guernsey, este navio é verdadeiramente importante, pois é a única embarcação a motor  vapor que ali existe, o que permite ao seu dono, Mess Lethierry, prosperar. É por essa importância tão grande da embarcação que o velho Lethierry não se impede de prometer a mão da sua bela filha, Déruchette, ao homem que salvar o motor da embarcação que, aparentemente, se mantém intacto. É por isso que Gilliatt, um homem com pouco a perder e muito a ganhar, se põe a caminho destes rochedos com o objetivo de recuperar a famigerada máquina a vapor. Mais não conto sobre a história em si, já que esta tem alguns plot twists e um belíssimo texto que nos deixam bem agarrados a ela.

De forma mais global, uma coisa é certa: estamos perante uma história arquitetada como uma verdadeira epopeia individual, onde o confronto entre o ser humano e a natureza assume uma dimensão quase mítica. O isolamento, o esforço físico extremo e os constantes obstáculos transformam a jornada de Gilliatt numa prova de resistência, mas também numa viagem interior. Mais do que ser uma simples aventura marítima, esta história tem o condão de nos revelar a grandeza silenciosa de um indivíduo perante um mundo vasto, indiferente e muitas vezes cruel.

Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand - A Seita
É uma bela história, sem dúvida, mas também há que dar mérito à excelente adaptação de Michel Durand que nos dá uma história bem montada, e bem narrada, captando o inteligente e inspirado texto de Victor Hugo e sendo, para além de tudo isto, visualmente impressionante. O autor oferece-nos um elegante traço a preto e branco, que evoca a tradição da gravura, com um uso expressivo de tramas, sob a forma de hachuras, que conferem densidade, textura e profundidade às imagens. É um trabalho meticuloso verdadeiramente impressionante. A história flui depois com naturalidade, tornando-se acessível mesmo para quem não conhece o romance original, como era o meu caso, sem nunca abdicar da sua complexidade emocional.

Cada cena, cada personagem e cada ambiente são ilustrados com uma devoção e detalhe arrebatadores, mas é o mar - elemento central da narrativa, diga-se - aquilo que ganha uma presença quase física nas maravilhosas pranchas que nos são dadas por Durand. As ondas parecem mover-se, os rochedos impõem-se com peso e aspereza, e o ambiente transmite constantemente uma forte tensão entre beleza e perigo. É impossível não sentir o impacto dessa natureza em fúria. As cenas do mar são belas, por um lado, e ameaçadoras, por outro. 

Sem descurar minimamente a beleza poética de cada página deste livro, que é indiscutível, devo admitir, no entanto, que houve certas cenas no mar, na parte em que Gilliatt tenta resgatar a máquina de vapor da embarcação encalhada, em que tive alguma dificuldade em perceber o que estava ali a acontecer. Talvez nessas partes em que o fulgor do mar era demasiadamente grande, o detalhe na ilustração devesse ter sido simplificado de alguma forma, diria.

Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand - A Seita
Mas isto é um detalhe pequeno, ainda assim, pois cada ilustração, seja grande ou pequena, é trabalhada com um cuidado incrível, havendo uma atenção ao detalhe que não se limita ao virtuosismo técnico, mas que revela uma sensibilidade artística profundamente envolvente. Diria mesmo que em vez de ter ficado preso a uma função meramente ilustrativa, Michel Durand foi além disso e estabeleceu aquilo a que podemos considerar como uma boa simbiose com o universo criado por Victor Hugo, conseguindo o feito de deixar a história fluir com naturalidade, tornando-a acessível mesmo para quem não conhece o romance original - como era o meu caso -, mas sem que isso leve a narrativa a abdicar da sua complexidade emocional.

Em termos de edição, estamos perante um trabalho superlativo d' A Seita. O livro é editado em grande formato - o mesmo grande formato dos livros da mesma coleção dos irmãos Brizzi - e a capa dura é baça, com detalhes a verniz. No interior, o papel é brilhante e a encadernação, impressão e acabamentos são bastante bons. No final, há ainda um extenso caderno com 16 páginas de extras, em que podemos encontrar vários esboços de Durand e uma longa e peculiar entrevista com este que é conduzida por Christelle Pissavy-Yvernault.

Sobre a coleção Nona Literatura, tenho que fazer um louvor ao trabalho da editora. Depois dos belos livros de Georges Bess (Drácula, Frankenstein e O Corcunda de Notre Dame) e dos irmãos Brizzi (Dom Quixote de la Mancha e O Inferno de Dante), este Os Trabalhadores do Mar não lhes fica nada atrás e ajuda a sedimentar a relevância e bela curadoria desta coleção d' A Seita.

Em suma, a adaptação de Michel Durand de Os Trabalhadores do Mar impõe‑se como uma obra de rara intensidade e beleza, onde a fidelidade ao espírito de Victor Hugo se alia a uma expressão gráfica profundamente pessoal e arrebatadora. Mais do que uma simples transposição, trata‑se de uma recriação viva e pulsante, em que cada página respira poesia, esforço e grandiosidade. Eis um dos livros mais bonitos do ano e com uma história bem poderosa que se afirma como altamente recomendável!


NOTA FINAL (1/10):
9.7


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand - A Seita

Ficha técnica
Os Trabalhadores do Mar
Autor: Michel Durand
Adaptado a partir da obra original de: Victor Hugo
Editora: A Seita
Páginas: 168, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 340mm
Lançamento: Março de 2026

Hoje há lançamento de mais uma novela gráfica da Levoir!




Decorre hoje, na Feira do Livro de Lisboa, às 18h00, no Auditório Sul, uma apresentação do livro Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé. Depois da apresentação, haverá uma sessão de autógrafos com os autores, que também marcarão presença no evento, juntamente com a editora da Levoir, Silvia Reig.

Este que é o terceiro volume da nova Coleção de Novelas Gráficas da editora, já deverá estar à venda na Feira do Livro no dia de hoje, sendo depois lançado, a nível nacional, na próxima sexta-feira, dia 19 de Junho, com o jornal Público

Falando-vos um pouco da história deste Dez Mil Elefantes, posso adiantar que esta é uma história que nos leva à Guiné Equatorial, durante o período da colonização espanhola, com base numa expedição organizada por Franco em 1944. É uma história que recupera fotografias e cartas de Manuel Hernández Sanjuán, bem como o testemunho de Ngono Mbà, um dos participantes africanos nesta expedição, o que permite cruzar a visão do colonizador e do colonizado.