quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Análise: Ascender - Volumes 2, 3 e 4

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal
Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen

Hoje falo-vos de Ascender, uma minisérie composta por 4 volumes, da autoria de Jeff Lemire e de Dustin Nguyen. Esta é uma obra que funciona como sequela da série maior Descender, da qual já aqui falei. Aliás, o próprio primeiro volume de Ascender - A Galáxia Assombrada, também já aqui foi analisado.

Agora que voltei a pegar nesta obra, a minha sensação não difere muito daquela com que tinha ficado quando li esse primeiro volume da série. É que Ascender nasceu com uma tarefa algo ingrata: a de dar continuidade a Descender, que é em tudo superior a este segundo trabalho. Depois de um universo dominado por máquinas, inteligência artificial e conflitos galácticos, o argumentista Jeff Lemire, do qual sou confesso fã, optou por uma mudança radical de paradigma, substituindo a tecnologia pela magia e transformando uma space opera futurista numa fantasia mais cósmica. 

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal
Nestes volumes 2, 3 e 4, intitulados, respetivamente, O Mar dos Mortos, O Mago Digital e Semente Estelar, a jovem Mila continua a assumir o centro da ação. À medida que os segredos da sua origem e do seu papel neste novo universo vão sendo revelados, aos poucos, a protagonista vê-se envolvida num conflito cada vez maior, onde magia, destino e sobrevivência se cruzam constantemente. Paralelamente, algumas personagens oriundas de Descender, como Andy, Effie ou o carismático TIM-21, aparecem nesta nova narrativa, permitindo a Jeff Lemire criar uma ponte mais sólida entre as duas séries.

Aquilo que inicialmente parecia ser apenas uma luta de sobrevivência transforma-se gradualmente numa história acerca da natureza do poder, da herança e do equilíbrio entre forças opostas. Ascender é quase o oposto simétrico de Descender. E procura ser um final para ambas as sagas. Sem entrar em detalhes que estraguem a experiência de quem ainda não leu a obra, diria apenas que os vários fios narrativos são reunidos para um desfecho que procura fazer justiça às personagens e ao universo criado pelos autores ao longo de dez volumes, somando Descender e Ascender.

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal
Tal como já tinha sentido ao ler o primeiro tomo desta nova série, continuo a considerar que Ascender não alcança o mesmo fulgor da série que a precedeu. A saga original apresentava uma premissa particularmente forte e abordava temas fascinantes relacionados com a inteligência artificial, a consciência das máquinas e a relação entre criador e criatura. Eram ideias muito estimulantes e que davam à obra um peso conceptual significativo. Em Ascender, a aposta na fantasia e na magia trouxe novidade ao universo criado pelos autores, é certo, mas também retirou alguma da identidade que tornava Descender tão especial. Pelo menos, quanto a mim.

Além de que um dos problemas que já tinha identificado em Descender continua igualmente presente aqui. Jeff Lemire tem uma enorme imaginação e uma grande capacidade para criar universos ricos e complexos. No entanto, também demonstra alguma tendência para introduzir demasiadas personagens, demasiadas ramificações e demasiados subplots. Por vezes, a história parece mais preocupada em expandir o seu universo do que em aprofundar a narrativa principal. Apesar disso, importa reconhecer que Ascender continua a ser uma leitura cativante. 

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal

Onde não existe quebra de qualidade é na componente gráfica ao nível da originalidade. Dustin Nguyen continua absolutamente extraordinário. O seu estilo permanece inconfundível e imediatamente reconhecível. As linhas soltas, os esboços assumidos e a utilização das aguarelas criam uma estética visual que considero única no panorama da banda desenhada atual.

E is cenários naturais, os ambientes mágicos e as criaturas fantásticas que aparecem nesta história parecem feitos à medida do seu talento. Muitas páginas assemelham-se mais a ilustrações de um livro de arte do que a vinhetas de uma série de banda desenhada convencional, havendo uma beleza muito própria na forma como as cores se espalham pelas páginas e ajudam a criar uma atmosfera simultaneamente delicada e fantástica.

Mesmo assim, nem neste ponto as coisas são perfeitas. Há alguns desenhos, especialmente no quarto e último volume da série, que revelam claramente terem sido feitos um pouco "à pressa". Bem sei que o estilo do autor é este mesmo, assumindo o esboço do desenho, mas ainda assim, torna-se mais evidente no último volume que houve um desenho menos aprimorado, talvez pela necessidade do cumprimento de um prazo mais apertado. Digo eu.

Em termos de edição, o trabalho da G. Floy Studio volta a demonstrar-se bastante bem executado. Os livros apresentam capa dura baça, bom papel brilhante no miolo e uma boa encadernação e impressão. Apenas o livro 3 apresenta conteúdo adicional. Neste caso, trata-se de um excerto de um guião.

Em suma, os livros 2, 3 e 4 de Ascender confirmam aquilo que já me parecia evidente após a leitura do primeiro volume: estamos perante uma continuação interessante para o universo criado por Jeff Lemire e Dustin Nguyen, ainda que sem atingir o mesmo nível de qualidade da série original. A história mantém interesse, as personagens continuam cativantes e a arte permanece deveras deslumbrante. Pode não possuir o impacto emocional e conceptual de Descender, mas continua a ser uma leitura recomendável para quem deseja regressar a este fascinante universo de máquinas, magia, família e destino.


NOTA FINAL (1/10):
8.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal

Fichas técnicas
Ascender #2 – O Mar dos Mortos
Autores: Jeff Lemire e Dustin Nguyen
Editora: G. Floy Studio
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Fevereiro de 2022

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal

Ascender #3 – O Mago Digital
Autores: Jeff Lemire e Dustin Nguyen
Editora: G. Floy Studio Portugal
Páginas: 104, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Setembro de 2022

Ascender - Volumes 2, 3 e 4, de Jeff Lemire e Dustin Nguyen - G. Floy Studio Portugal

Ascender #4 - Semente Estelar
Autores: Jeff Lemire e Dustin Nguyen
Editora: G. Floy Studio Portugal
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Fevereiro de 2023

terça-feira, 8 de setembro de 2026

As novidades da Devir para o segundo semestre de 2026!



São mais de 30(!) os novos livros que a Devir tem preparados para lançar ainda durante a segunda metade de 2026!

E, aviso já, há aqui boas notícias para amantes de diferentes géneros de BD!

Destaco as novas apostas em comics americanos, a reedição de um clássico americano, a aposta num autor francês, o fecho de algumas séries de mangá e a aposta em novas outras.

Ora vejam:

Vinheta 2020 aumenta visitas em... 8 vezes!!!


Se há coisas em que eu não sou obcecado é com as métricas, com os números, com os cliques, com as visitas aqui do Vinheta 2020. É óbvio que é bom saber que os visitantes se interessam, que aumentam em número e que as pessoas encontram aqui um espaço que fala de banda desenhada com que se possam identificar.

Mas, repito, não perco muito tempo a pensar nisso. Faço "a minha coisa", sempre que posso, da melhor forma que consigo. Bem ou mal.

Recentemente, dei conta de que o Vinheta 2020 ultrapassou os 2 milhões de visualizações! É o resultado de muita gente a vir aqui ao blog para ler os artigos que aqui são feitos.

É um número redondo e um feito porreiro, mas depois dei comigo a pensar: "espera... mas, se bem me lembro, o blog ultrapassou o milhão de visualizações há relativamente pouco tempo". Então, fui ver e dei-me conta que esse feito foi conseguido em novembro de 2025. Há menos de um ano!

Ora, se o blog demorou cerca de 5/6 anos a conquistar o seu primeiro milhão de visualizações, demorou apenas 9 meses a alcançar o seu segundo milhão!!! E isso sim deixou-me boquiaberto! Peguei numa calculadora e vi então que a média de visitas por dia neste espaço aumentou não uma, não duas, não três, não quatro, não cinco, não seis, não sete... mas oito vezes! Uau!

Só vos posso agradecer a todos os que estão aí desse lado. A grande maioria, anónima, que me visita diariamente. Este é, repito, um projeto pessoal que é feito apenas por uma pessoa. Não há uma equipa por detrás do Vinheta 2020... sou apenas eu. Não faço links patrocinados, não divido os meus artigos por várias páginas para aumentar cliques, não coloco publicidade no blog e muito menos tento criar tráfego para o blog com artigos que não falam de banda desenhada. Poderia falar de futebol, de política, de música, de cinema ou colocar vídeos de adolescentes a farmar aura... Não tenho dúvidas que aumentaria bem mais o número de visitas. Mas opto por me manter fiel a uma coisa: à banda desenhada. E saber que tanta gente me segue é um motivo de orgulho e deixa-me feliz por ter iniciado este projeto. E, ainda por cima, fi-lo sem grandes expectativas... apenas e só, porque amo banda desenhada. E que viagem tem sido...

Obrigado a todos vós!

Até breve.

Hugo Pinto

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Análise: Dostoiévski: O Sol Negro

Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público

Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público
Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr

A segunda obra a ser lançada na mais recente Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público foi este Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr. Obra que procura traçar-nos uma biografia em banda desenhada sobre um dos mais célebres escritores de todos os tempos: Fiódor Dostoiévski. Escritor esse que, já agora, parece merecer especial atenção pela Levoir, já que a editora já nos fez chegar duas adaptações do autor para banda desenhada: Crime e Castigo, de Bastien Loukia, e O Idiota, de André Diniz.

De facto, Fiódor Dostoiévski é um dos mais importantes escritores da literatura mundial, autor de várias obras fundamentais e mais do que um "simples" romancista, pois conseguiu ser um dos grandes exploradores da alma humana, sendo igualmente capaz de mergulhar nas zonas mais sombrias da consciência, de forma a transformar as suas próprias angústias - e as da população, de um modo geral - em literatura.

Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público
Este Dostoiévski: O Sol Negro começa com um dos episódios mais extraordinários da sua vida que eu, sinceramente, desconhecia. Em dezembro de 1849, Dostoiévski é conduzido para um pelotão de fuzilamento após ter sido condenado por atividades consideradas subversivas pelo regime czarista. No momento em que a execução parece inevitável, chega a ordem que suspende a sentença e a converte em trabalhos forçados na Sibéria. É a partir desse instante decisivo que os autores constroem uma viagem ao passado do autor em que revisitam alguns dos principais acontecimentos da sua vida.

E que vida foi essa! Ainda antes de se transformar no autor que todos conhecemos, Dostoiévski teve uma existência bastante conturbada e não particularmente fácil. Era jogador compulsivo, o que o deixou na penúria financeira e amorosa, já que a sua companheira - e compreensivelmente - foi perdendo a paciência para com o incessante vício ao jogo de Fiódor Epiléptico. Além da "vida vivida", o autor também tinha um demarcada "vida pensada", já que era constantemente assombrado por dúvidas espirituais, o que o fez viver em conflito consigo próprio e com o mundo que o rodeava. Consequentemente, a sua relação com a religião, com a política, com o amor e com a própria ideia de liberdade alimentaria grande parte da sua obra literária.

Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público
Nota-se que a argumentista belga Chantal Van den Heuvel procurou realizar um trabalho sério e bem documentado. O livro percorre as várias fases da vida de Dostoiévski, desde a juventude até aos seus últimos anos, cruzando acontecimentos biográficos com o contexto político, social e cultural da Rússia do século XIX. Há um esforço evidente para mostrar a complexidade da personagem e a forma como as suas vivências influenciaram a sua produção literária.

Contudo, é precisamente aqui que surge, a meu ver, a principal limitação da obra. Ao tentar abarcar praticamente toda a vida do escritor, o livro acaba por se tornar um pouco difuso. Há tantos acontecimentos, tantas relações, tantas crises pessoais e tantos contextos históricos para abordar que a narrativa perde, por vezes, alguma concentração. Não é que fique desinteressante, mas sim confusa.

Acredito que teria sido (muito mais) preferível selecionar apenas os episódios mais relevantes e desenvolvê-los com maior profundidade. Em vez disso, a obra opta frequentemente por uma abordagem "panorâmica" que nos apresenta uma enorme quantidade de informação, mas sem dar a determinadas situações o espaço que mereciam para adquirir verdadeiro peso dramático. A questão do vício do jogo do autor é um ótimo exemplo disto. Embora seja uma faceta importante da personalidade de Dostoiévski, existem várias sequências que acabam por repetir essencialmente a mesma ideia: o descontrolo financeiro de Fiódor, a sua compulsão e as expectáveis consequências. Ficamos com situações que acabam por ser recorrentes, sem que isso mude muito a narrativa. É um desperdício de vinhetas. 

Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público
Curiosamente, noutros momentos acontece exatamente o contrário. Certos períodos da vida do autor ou determinadas reflexões filosóficas surgem condensados em poucas páginas ou vinhetas, obrigando o leitor a absorver grandes quantidades de informação num curto espaço de tempo. O equilíbrio entre síntese e aprofundamento nem sempre é o mais eficaz, portanto.

Em termos visuais, o autor dinamarquês Henrik Rehr apresenta um trabalho competente e frequentemente interessante. Mais importante que isso, é um trabalho eficiente que consegue transmitir a atmosfera opressiva de São Petersburgo, o sofrimento físico do escritor e as várias situações que nos são relatadas. Não diria que o resultado gráfico seja verdadeiramente deslumbrante, mas é um desenho que cumpre bem os seus propósitos. 

Algo que considero menos positivo é a a planificação que se revela bastante densa, com muitas vinhetas por página. E tendo em conta o formato relativamente contido do livro, este tipo de planificação não ajuda a que os desenhos respirem. Em diversos momentos, a leitura adquire uma sensação algo claustrofóbica, não tanto por opção artística, mas pela quantidade de informação visual concentrada em cada página.

A edição da Levoir é na habitual capa dura baça, com bom papel baço no miolo e um bom trabalho ao nível da impressão e encadernação. No final do livro há cinco páginas com ilustrações e estudos de personagem, que sendo tão belos, também nos mostram que quiçá o trabalho final de Rehr nas ilustrações pudesse ter sido melhor. Pelo menos, havia potencial para tal.

Em suma, Dostoiévski: O Sol Negro não é uma obra-prima da banda desenhada biográfica nem uma leitura particularmente inovadora do ponto de vista formal, mas cumpre bem os seus propósitos. Não é um livro fantástico, mas é um livro útil, interessante e suficientemente competente para justificar a sua leitura, sobretudo junto daqueles que desejem conhecer melhor a vida atribulada de um dos maiores escritores de sempre.


NOTA FINAL (1/10):
7.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público

Ficha técnica
Dostoiévski: O Sol Negro
Autores: Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr
Editora: Levoir
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
Lançamento: Junho de 2026