Apenas o Silêncio, de Fabrice Colin e Richard Guérineau, é uma das mais recentes apostas da editora Arte de Autor, tendo chegado às livrarias no início deste verão. E se há obras que nos apanham completamente desprevenidos, deixando-nos maravilhados, esta é uma delas. Admito que, não conhecendo o romance original de R. J. Ellory, no qual esta banda desenhada se inspira, entrei nesta leitura sem saber praticamente nada sobre ela. E talvez tenha sido precisamente isso que tornou a experiência tão especial. Sem expectativas nem ideias pré-concebidas, fui sendo absorvido por uma história incrível que nos é servida através de um argumento rico, complexo e impactante. Adorei.
A obra acompanha a vida de Joseph Vaughan, um rapaz que cresce numa pequena cidade da Geórgia, nos Estados Unidos, durante a década de 1940. Quando várias raparigas começam a ser brutalmente assassinadas, Joseph e os seus amigos decidem organizar patrulhas para proteger as crianças da localidade, tentando reunir provas para chegar ao assassino. Contudo, apesar dos seus esforços, os crimes continuam a acontecer, uma e outra vez, deixando uma marca profunda na comunidade e, sobretudo, na consciência de Joseph.
À medida que os anos passam, Joseph vai crescendo e procura reconstruir a sua vida, tentando superar o trauma que carrega desde os anos da juventude. Mas a sua vida parece ensombrada, pois a felicidade acaba sempre por findar de um momento para o outro e de forma hedionda. E tudo parece ligado com esses crimes das raparigas assassinadas. Não se trata apenas de descobrir a verdade, mas de compreender as consequências dos acontecimentos e o impacto que estes têm nas vidas das personagens. Essa dimensão humana dá uma profundidade adicional à narrativa. E isso é algo que apreciei muito.
A verdade é que desde as primeiras páginas, se percebe que estamos perante uma história extremamente densa e emocionalmente pesada. Não é apenas um thriller centrado na descoberta de um culpado, apesar de essa dimensão estar naturalmente presente. Parece-me que o verdadeiro interesse da obra reside sobretudo na qualidade do argumento, na profundidade das suas personagens e na forma elegante como os acontecimentos nos vão sendo revelados, através de um texto rico, bem congeminado e com um ritmo muito elegante.
Outra coisa que achei interessante é que embora não seja um livro muito grande em termos de número de páginas, contém uma história densa e complexa, que atravessa várias décadas e, mesmo assim, isso não faz com que o relato se torne apressado, com demasiado texto por página, como acontece em tantos livros, especialmente aqueles que adaptam para BD obras da literatura. E isso é um belo feito do argumentista, Fabrice Colin, que consegue manter o suspense de tirar o fôlego até à última página, sem ser "chato" e sem ser "apressado". Na medida certa, portanto. A história mantém a sua riqueza dramática e a sua complexidade temática sem parecer resumida ou simplificada em excesso.
É verdade que o desfecho talvez tenha sido um pouco apressado. Mesmo assim, como já era algo que, sinceramente, eu estava à espera, não me fez muita "comichão". Talvez, se o impacto da descoberta fosse maior, a rapidez com que tudo se resolve tivesse deixado uma impressão mais negativa em mim. Ainda assim, é provavelmente o ponto em que a obra mais se aproxima da imperfeição.
Apesar dessa pequena reserva, a verdade é que fiquei completamente hipnotizado por este álbum. Durante toda a leitura senti-me incapaz de fazer uma pausa na leitura e mesmo depois de a terminar continuei a pensar neste livro durante vários dias. Mais do que isso, despertou em mim uma enorme vontade de procurar e ler o romance original. Ora, quando isto acontece é sinal de que a experiência de leitura foi deveras marcante.
Quanto à componente visual, Richard Guérineau - do qual a editora Ala dos Livros também publicado por cá A Sombra das Luzes - realiza um trabalho muito competente e com belos momentos. Os desenhos possuem uma grande eficácia narrativa, revelando personagens expressivas e emocionalmente credíveis. Parece-me que o autor está muitas vezes a um passo de ser sublime, mas que depois há sempre algo que o impede de o ser. Não me entendam mal: eu aprecio bastante o seu trabalho e acho que estamos perante um belo desenhador. Mesmo assim, parece-me que lhe falta algo para que os seus desenhos sejam sublimes. São bons, são bem feitos, bem coloridos... simplesmente não são maravilhosos. São bastante bons. "Apenas".
Ainda assim, o resultado é excelente, com várias vinhetas de grande beleza e uma recriação particularmente conseguida da América rural, banhada por tons amarelados que reforçam a atmosfera melancólica e opressiva da narrativa, o que lhe aufere uma teor cinematográfico.
A edição da Arte de Autor está bastante bem feita. O livro tem capa dura, com textura aveludada e detalhes a verniz. No interior, o papel é baço e de boa qualidade. A encadernação, a impressão e os acabamentos também estão bem conseguidos. Há apenas uma pequena coisa na edição portuguesa que me fez bastante confusão e até me deu alguma irritação, tenho que admitir: a utilização de palavra "miudita" sempre que é feita uma referência às raparigas que aparecem assassinadas. Se fosse uma vez, eu não estaria a referir isso neste texto. Mas essa palavra é usada SEMPRE que há uma referência às vítimas. Com tantas opções, como "menina", "miúda", "criança", "rapariga"... não percebo a insistência do tradutor em recorrer a esta palavra. É um detalhe, bem sei, mas incomodou-me.
Em suma, tenho que confessar que não estava à espera de encontrar um livro tão bom quando peguei neste Apenas o Silêncio. Gostei muito desta leitura. A capacidade da obra em criar inquietação e desconforto emocional é impressionante, tornando-a num trabalho particularmente intenso. É uma leitura pesada, angustiante e até potencialmente traumática para leitores mais sensíveis, mas é precisamente essa força emocional que me cativou especialmente. Bela aposta e bela surpresa da Arte de Autor!
NOTA FINAL (1/10):
9.2
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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