Curiosamente, foi no dia em que li este As Linhas que Traçam o Meu Corpo - e li-o de uma assentada, já que não consegui parar de o ler até chegar à última página - que tive conhecimento do falecimento, mais que prematuro, de Marjane Satrapi que, com a sua obra, em especial o obrigatório Persépolis, abriu as portas do Irão para o mundo ocidental, revelando às mentes mais incautas do ocidente a realidade nua e crua do que se passa no Irão. Muitos anos se passaram desde Persépolis e já um sem número de BDs sobre a realidade no Irão foram publicadas. Só em Portugal, e assim de cabeça, para além de Persépolis, posso referir obras como Frango com Ameixas, Bordados, Mulher Vida Liberdade, Assombrada, A Aranha de Mashhad, Os Pássaros de Papel, Uma Metamorfose Iraniana e este As Linhas que Traçam o Meu Corpo que hoje vos trago. E sou-vos sincero: este livro é, a par do fundamental Persépolis, o melhor livro que já li sobre a realidade iraniana. Pelo menos, é aquele que mais me marcou.
Esta obra é da autoria de Mansoureh Kamari e chegou-nos há poucas semanas pelas mãos da editora Arte de Autor. E um dos aspectos mais relevantes neste livro é precisamente a forma como a obra evoca, de modo sensível mas inequívoco, a realidade vivida por muitas mulheres no Irão. Desculpem a linguagem grosseira, mas não tenho outro forma de o dizer: ser mulher no Irão é ter uma vida de merda. As mulheres são perseguidas, julgadas, controladas, insultadas, instrumentalizadas, silenciadas e usadas como se fosse objetos. E daqueles objetos a quem nem damos muito valor, pois há objetos e bens que são muito mais estimados do que as mulheres iranianas, que são forçadas a casar cedo, para logo serem posses dos homens que as "compram". Ora são posse dos seus pais, ora são posse dos seus maridos. E mesmo que estes as assassinem... enfrentarão simplesmente uma pena ridículas a cumprir. Como é possível que continuemos a tolerar isto? Como é possível que, enquanto sociedade, engulamos em seco perante isto e continuemos impávidos, com a nossa vida de primeiro mundo?
A autora Mansoureh Kamari fala-nos aqui da sua experiência pessoal, em que viveu os primeiros anos da sua vida com terrores e traumas incutidos pelo seu pai e pelas diferenças de género com que se ia deparando. Ser-se rapaz no Irão não é nada mau, mas ser-se mulher é uma condenação à nascença. E a passagem da infância para a idade legalmente adulta - que no Irão considera-se aos 9(!) anos (sim, leram bem) - é, na verdade, um dia miserável para qualquer mulher iraniana. Porque deixa de ser criança e passa a ser uma mulher, um objeto para que um qualquer homem possa possuir e utilizar a seu belo prazer.
É triste, é chocante e é marcante a forma como Mansoureh Kamari nos insere na sua vida. Ao mesmo tempo, somos igualmente convidados a conhecer a sua vida mais recente em que, após a fuga do seu país, vive de modo livre, sim, mas com os traumas e recalcamentos do passado. Há uma clara separação - até mesmo do ponto vista gráfico devido a uma mudança cromática - entre o presente, em que a autora nos oferece a sua experiência de fazer trabalhos de nu artístico, e a experiência passada, em que a autora mergulha na sua infância e nas vivências avassaladoras com que teve que lidar na sua infância e pré-adolescência.
É um retrato sensível, triste e alarmante aquilo que Kamari nos coloca nas mãos. São vários os momentos e as formas que a autora utiliza para nos mostrar o que é ser mulher no Irão. Todas elas chocantes. Por exemplo, como conceber a existência de um país que obriga uma mãe que vê as suas duas filhas, de 16 e 15 anos, a serem vilmente assassinadas pelas autoridades a ter que pagar pelo custo das balas utilizadas para tirar a vida das suas filhas? É um filme de terror? Não, é a realidade. E deixa-me ainda mais deprimido chegar à conclusão que só sabemos destas histórias à custa de autoras e autores que se veem forçados a fugir do país para contar a sua história. Só assim conseguem denunciar as atrocidades cometidas por tão infame regime.
Outra coisa de que gostei particularmente neste As Linhas que Traçam o Meu Corpo é que a denúncia muitas vezes até é feita através do silêncio. Certas coisas ficam implícitas no desenho pleno de expressividade, sem que haja uma dramatização exagerada da autora. É uma pedrada no charco que nos deixa com um nó na garganta. Será isto possível no tempo atual? Infelizmente, sim. E não só é possível, como os direitos das mulheres iranianas até têm sofrido um agravamento nos últimos anos.
Ao mesmo tempo, a obra mostra como essas adversidades moldam a relação da protagonista com o seu próprio corpo. O corpo torna-se um espaço de resistência, mas também de dor e conflito. As “linhas” que o atravessam representam não só experiências pessoais, mas também as marcas deixadas por um contexto social opressivo. E, claro, apesar das limitações e da repressão, as mulheres encontram formas de afirmar a sua identidade, ainda que de maneira discreta ou interior. Este equilíbrio entre opressão e resistência é tratado com grande sensibilidade e profundidade pela autora.
Se o tema é pertinente, se o relato é marcante... os desenhos são lindíssimos. Aliás, sobre o assunto em questão - e relembro o vasto conjunto de obras já mencionadas por mim, mais acima,- não há nenhum livro que, quanto a mim, chegue sequer perto em termos de beleza de desenho.
Há uma delicadeza, uma ternura, uma tristeza e uma poesia nos desenhos aparentemente simples, mas tão belos, de Mansoureh Kamari, que é raro encontrar em banda desenhada e, especialmente, em banda desenhada com um cunho mais político. O desenho é tão bom que, em vários casos, nem é necessária a colocação de qualquer legenda ou balão de fala, pois está ali tudo, entendido e exposto. O poder da evocação dos desenhos de Mansoureh Kamari é, pois, verdadeiramente impressionante. A várias fases da vida da autora - as do presente e as do passado - vão sendo diferenciadas através da cor. No passado, os desenhos são a preto e branco, em tons de sépia. No presente, a cor vai sendo introduzida paulatinamente.
Diria que, como ponto menos positivo neste livro, que é quase perfeito, encontro apenas uma certa e aparente relutância ou dificuldade da autora em decidir, mais ou menos a meio da obra, para onde levar a sua história. Dito por outras palavras, até meio do livro eu achei: "que maravilha... este livro vai ser nota máxima" e, na última parte achei: "Ok, continua fantástico... mas estava à espera de ser levado para algo ainda mais emocionante, especial ou original no final". Sente-se uma certa insegurança da autora na forma de fechar o livro. Mesmo que, atenção, o final seja bem conseguido. Nada está estragado, descansem, mas foi motivo para que o livro não ficasse perfeito. Mas, não o sendo, é uma das melhores apostas dos últimos meses por parte da Arte de Autor.
A edição da obra é em capa dura, baça, com detalhes a verniz. Capa essa que tem uma belíssima ilustração, deixem-me que vos diga. Se há boas capas que chamam a atenção daqueles que passeiam numa livraria, esta é um bom exemplo disso. No interior, o livro apresenta bom papel baço e um bom trabalho ao nível da encadernação, impressão e acabamentos. No final, são concedidas duas páginas para que se explique melhor algumas das coisas que nos são reveladas durante a leitura da obra.
O formato da obra é o 17 x 24 cm, um formato em que a editora portuguesa tem vindo a apostar num conjunto específico de obras que, naturalmente, se destinam a um público mais vasto, quiçá menos familiarizado com banda desenhada. Nesse mesmo formato, a editora também editou as obras Radium Girls, O Jardim, Paris ou As Raparigas de Salem. Já os li a todos - e de todos gostei - mas, a meu ver, nenhum é tão bom como este As Linhas que Traçam o Meu Corpo.
Em suma, esta obra consegue ser verdadeiramente notável, não apenas pela sua beleza visual, mas sobretudo pela profundidade e honestidade com que aborda questões de identidade, memória e resistência, que tantas marcas continuam a fazer nas mulheres iranianas. Mansoureh Kamari consegue criar um equilíbrio notável entre o íntimo e o universal, transformando uma narrativa pessoal no espelho das experiências de mais de 40 milhões de mulheres. Um dos livros do ano que deve ser comprado, lido, emprestado e/ou oferecido.
NOTA FINAL (1/10):
9.6
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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