quinta-feira, 18 de junho de 2026

Análise: Amore

Amore, Zidrou e Merveille - A Seita e Arte de Autor

Amore, Zidrou e Merveille - A Seita e Arte de Autor
Amore, Zidrou e Merveille

As editoras A Seita e Arte de Autor acrescentaram, recentemente, mais uma obra do autor belga Zidrou ao seu catálogo conjunto: Amore, que tem David Merveille como ilustrador.

Não se trata de um álbum de uma só história, mas de uma antologia com nove histórias curtas que exploram o amor nas suas múltiplas dimensões. É um livro bonito, adulto e que tem a capacidade de nos fazer parar um pouco para pensar.

Todas as histórias se passam em Itália, bebendo muito do glamour deste país romântico, através de belos cenários, de pessoas sensuais, costumes clássicos e dias solarengos. Não esperem um conjunto de histórias doces, leves e superficiais. Na verdade, a maioria das histórias até é um pouco mais agridoce e, por vezes, até negativa ou triste, representando o amor tal como ele: um fogo grande que consome tudo à sua volta. O bom e o mau.

Naturalmente, e isto é comum a qualquer antologia de banda desenhada, há histórias mais marcantes do que outras. Mas há o ponto comum entre elas de apresentarem personagens fascinantes - por vezes quase "queirosianas" na abordagem, como em Santo Desiderio - que depressa sucumbem aos desejos do seu coração, pondo para trás das costas as recomendações de um outro órgão: o cérebro.

Amore, Zidrou e Merveille - A Seita e Arte de Autor
Cada história apresenta uma situação distinta, por vezes poética, por vezes irónica ou até agridoce, conseguindo revelar-nos diferentes facetas do afeto humano, desde o encantamento inicial até à solidão, ao desencontro ou à memória. A sensualidade também é algo que está presente em quase todas as histórias, o que aumenta o cariz mais maduro da obra, sem que, no entanto, esta seja graficamente explícita.

O texto de Zidrou é belíssimo, revelando-se rico, na quantidade certa e sempre muito inspirado. As próprias personagens, já por mim referidas, também são personagens impactantes. Senti-me muito remetido ao universo dos filmes italianos, que tanto aprecio, nomeadamente os de Giuseppe Tornatore, que já nos deu filmes tão bonitos como Cinema Paradiso, A Lenda de 1900, Malèna ou Báaria. Com efeito, até diria mesmo que a banda sonora perfeita para ler este livro é a música contida nas composições do mestre Ennio Morricone em Cinema Paradiso ou A Lenda de 1900.

Isto porque o charme deste livro é irresistível. Adorei-o, verdadeiramente.

Amore, Zidrou e Merveille - A Seita e Arte de Autor
É verdade que - e, mais uma vez, à boa semelhança do que costuma acontecer em antologias com histórias curtas - quase sempre ficamos a chorar por mais, achando que a história nos soube a pouco. Especialmente, tendo em conta as boas ideias de argumento de Zidrou, o seu bom texto e as suas boas personagens, isto pode chegar a ser frustrante, pois muitas vezes fica no ar a sensação que cada uma das histórias, de tão rica que é, teria potencial para ser maior em dimensão. 

Mesmo assim, a verdade é que as histórias funcionam da forma em que nos são dadas. Mais do que um livro de curtas histórias, este Amore assemelha-se mais a um livro de poemas... em banda desenhada. O que faz dele algo único, extremamente bonito, e que todos deveriam conhecer. Além disso, o formato fragmentado da obra, em pequenas narrativas, reforça a ideia de que o amor não é uma experiência única ou linear, mas antes um conjunto de momentos e perspetivas.

Quanto às ilustrações, David Merveille oferece-nos um traço elegante, sóbrio e estilizado, menos comum em obras de Zidrou. Com as devidas distâncias, o estilo de desenho do autor - especialmente em termos da representação das personagens - até me remeteu para Paco Roca. Embora, menos "cartoonesco", claro.

Amore, Zidrou e Merveille - A Seita e Arte de Autor
Há um tom nostálgico e elegante, de cariz quiçá mais autoral e menos comercial, que intensifica o impacto das ilustrações de David Merveille, e que faz com que todas elas funcionem bastante bem. E mesmo reconhecendo que o autor até pode não ser o ilustrador que mais aprecio de todos aqueles - e são muitos - que já trabalharam com Zidrou, devo dizer que o seu trabalho neste livro me agradou bastante, ainda assim. É extremamente competente.

Em termos de edição, a obra editada pela Arte de Autor e pel' A Seita, tem capa dura baça, com detalhes a verniz. No miolo, o papel utilizado é baço e de boa qualidade. A impressão, a encadernação e os acabamentos também são bastante bons. Não há conteúdos extra, além de duas breves notas biográficas sobre os dois autores.

Em suma, Amore é um belíssimo livro, uma reflexão universal e acessível sobre o amor, carregada de breves e belas histórias, cheias de romantismo e charme, que muito me agradaram. Espero que seja um livro que conquiste uma boa quantidade de público, já que pode chegar até àqueles que não têm como hábito a leitura de banda desenhada.


NOTA FINAL (1/10):
9.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Amore, Zidrou e Merveille - A Seita e Arte de Autor

Ficha técnica
Amore
Autores: Zidrou e David Merveille
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
PVP: 18,00€

quarta-feira, 17 de junho de 2026

"BD à Lupa" regressa à FNAC neste sábado e haverá novamente livros de BD grátis!


O programa BD à Lupa, iniciativa pioneira em Portugal surgida de uma parceira entre o Vinheta 2020 e a FNAC, está de volta!

Desta vez, vou estar à conversa com três ilustres autores de BD: André F. Morgado, Derradé e Vasco Colombo. Todos eles autores a quem reconheço grande relevância para a BD nacional.

Falaremos de um tópico muito quente e polémico, que certamente vai fazer muita gente querer assistir a esta apresentação: a IA e a Banda Desenhada.

O tema é tão vasto e apetecível que até faço um apelo, não só a todos os leitores aqui do blog, mas também a todos os amigos, autores e editores de BD... apareçam. Será uma conversa rica, tenho a certeza.

E, claro, se isto já é motivo suficiente para que apareçam, há ainda outra coisa a considerar: serão sorteados livros por aqueles que estiverem presentes. É sempre uma alegria ir a um evento gratuito sobre BD e ainda sair de lá com um livro grátis na mão, diria.

Coloquem na agenda: é neste sábado, às 16h, na FNAC do Alegro de Alfragide.

Aos que já foram às iniciativas anteriores, espero ver-vos por lá.

Aos que não foram, não sabem o que andam a perder.


Análise: O Deserto dos Tártaros

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda

Contido no mais recente rol de lançamentos de banda desenhada da editora A Seita, está este O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda, que adapta para banda desenhada o clássico homónimo da literatura da autoria de Dino Buzzati.

Conhecia a obra de reputação, mas nunca a tinha lido, portanto parti para esta leitura sem grandes referências. A história de O Deserto dos Tártaros acompanha a trajetória de Giovanni Drogo, um jovem oficial que é designado para servir na Fortaleza Bastiani, uma fortaleza isolada, situada na fronteira de um vasto deserto. No início, Drogo começa por encarar esta missão como algo temporário e pouco relevante, que servirá especialmente para fazer carreira e ser destacado, passado pouco tempo, para uma carreira militar mais promissora. Assim espera Drogo.

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
Mas à medida que o jovem soldado se instala na fortaleza, vai sendo envolvido pelo ambiente peculiar daquele lugar, marcado por longos períodos de espera e por uma tensão difusa. Isto porque os oficiais daquele lugar vivem na constante expectativa de um possível ataque vindo do deserto. É um misto de medo pelo ataque em si, mas também de um sentido de ansiedade positiva por esse ataque. Já vos aconteceu estarem tão entediados que nem se importariam que algo de mau vos acontecesse para que o vosso tédio acabasse? Assim parece ser o sentimento que se vive na Fortaleza Bastiani: a rotina dos soldados é tão entediante, que até um ataque das linhas inimigas é visto como algo que, ao menos, poderia finalmente dar sentido à rotina monótona e justificar a presença militar naquele posto.

Naturalmente, com o passar do tempo, Drogo começa a partilhar essa mentalidade dos seus companheiros, alimentando a esperança de que esse momento decisivo chegue. Assim, a vida na fortaleza passa a ser regida por pequenos sinais, rumores e expectativas, que mantêm todos presos a uma promessa incerta de glória e propósito.

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
É sensaborona e entediante a vida naquela Fortaleza e, infelizmente, também o é a experiência de leitura deste O Deserto dos Tártaros. Acredito que isso também aconteça no romance original de Dino Buzzati. Com efeito, ao longo da obra, parece que pouco ou nada acontece de concreto, e a rotina repetitiva da fortaleza contribui para uma sensação de estagnação que pode testar a paciência do leitor. Essa ausência de eventos externos significativos pode facilmente ser interpretada como falta de dinamismo narrativo.

Contudo, essa aparente monotonia é, em grande parte, intencional, pois pretende-se dar enfoque ao vazio, à espera e à repetição, fazendo destes elementos centrais algo que é sufocante e que reflete a própria condição do protagonista. A lentidão da narrativa não é, pois, um "defeito" acidental, mas sim um recurso que reforça a experiência psicológica da personagem, colocando o leitor dentro desse mesmo tempo suspenso.

Mais do que narrar ações, o romance centra-se, portanto, no conflito interior de Giovanni Drogo, que se agarra à ideia de uma missão grandiosa e de uma carreira militar promissora como forma de dar sentido à sua vida, evitando confrontar outras possibilidades mais comuns e socialmente esperadas, como, por exemplo, a sua (potencial) vida amorosa com Maria. Essa escolha de Drogo revela uma espécie de fuga, um modo de adiar o confronto com o presente e com as decisões que poderiam aproximá-lo de uma vida mais concreta e partilhada.

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
Tenho que vos ser sincero: este O Deserto dos Tártaros é um pouco entediante, sim, e talvez, neste caso concreto, não fossem precisas tantas páginas para nos servir a história original de modo inequívoco. Todavia, também não me parece justo que se apelide este livro apenas de "aborrecido", pois o mesmo até ganha alguma profundidade na exploração que faz de temas existenciais como o medo de viver plenamente, a ilusão de um propósito maior e a tendência humana para adiar a vida à espera de um momento decisivo, conforme já sublinhei. 

Em termos de desenho, Pasquale Frisenda, autor de obras de referência como Tex - Patagónia ou Le Storie - Sangue e Gelo, ambos editados em Portugal, oferece-nos um trabalho muito belo.

O ilustrador italiano oferece-nos o seu traço elegante a preto e branco, explorando com mestria a escala de cinzentos para construir imagens de grande expressividade. E isso confere coerência ao tom melancólico da obra, como também acrescenta profundidade e subtileza às ilustrações, permitindo que cada imagem respire e se imponha com uma atmosfera muito própria. É um bom livro para observamos atentamente cada uma das ilustrações.

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
Embora as personagens sejam bem executadas e transmitam com eficácia os estados de espírito da narrativa, é sobretudo no desenho das paisagens que, quanto a mim, Frisenda mais brilha. As vastas extensões do deserto, que parecem prolongar-se até ao infinito, a fortaleza isolada e inóspita, ou ainda os jogos de luz e sombra que evocam a névoa, as tardes solarengas e as noites frias passadas naquele local, são particularmente memoráveis. É um livro belo do ponto de vista gráfico, sem dúvida.

Nota ainda, muito positiva, para a grande quantidade de referências a outras obras e a outras individualidades, que estão escondidas ao longo do livro, aumentando o valor das ilustrações e convidando o leitor a uma segunda leitura mais atenta.

Considero apenas que a capa poderia ser mais apelativa. A ilustração de Frisenda para a mesma parece-me inacabada, como um esboço que merecia mais algum aprumo visual. Não está feio, mas acho que o autor conseguia fazer melhor.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz, e bom papel baço no interior do livro. No final, é incluído um generoso dossier de extras, com 17 páginas, que contém um texto de Gianmaria Contro sobre a obra e várias ilustrações, estudos de personagem e de capa, de Pasquale Frisenda. Esta é mais um dos livros que entram para a chancela Nona Literatura d' A Seita, dedicada às adaptações para banda desenhada de grandes obras da literatura.

Em suma, pode dizer-se que, no conjunto, esta adaptação para BD de O Deserto dos Tártaros revela-se bastante bem conseguida e fiel ao original. Não é um livro em que aconteçam muitas coisas e isso pode dar-nos a sensação de algum marasmo narrativo, mas é uma obra que procura mais fazer-nos viajar e refletir sobre questões existenciais. Ao mesmo tempo que é ilustrada de forma memorável por Frisenda, trazendo esse lado mais contemplativo da obra para o leitor.


NOTA FINAL (1/10):
8.4



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura

Ficha técnica
O Deserto dos Tártaros
Autores: Michele Medda e Pasquale Frisenda
Adaptado a partir da obra original de: Dino Buzzati
Editora: A Seita
Páginas: 184, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 215 x 285 mm
Lançamento: Março de 2026

terça-feira, 16 de junho de 2026

Análise: As Linhas que Traçam o Meu Corpo

As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor

As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor
As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari

Curiosamente, foi no dia em que li este As Linhas que Traçam o Meu Corpo - e li-o de uma assentada, já que não consegui parar de o ler até chegar à última página - que tive conhecimento do falecimento, mais que prematuro, de Marjane Satrapi que, com a sua obra, em especial o obrigatório Persépolis, abriu as portas do Irão para o mundo ocidental, revelando às mentes mais incautas do ocidente a realidade nua e crua do que se passa no Irão. Muitos anos se passaram desde Persépolis e já um sem número de BDs sobre a realidade no Irão foram publicadas. Só em Portugal, e assim de cabeça, para além de Persépolis, posso referir obras como Frango com Ameixas, Bordados, Mulher Vida LiberdadeAssombrada, A Aranha de Mashhad, Os Pássaros de PapelUma Metamorfose Iraniana e este As Linhas que Traçam o Meu Corpo que hoje vos trago. E sou-vos sincero: este livro é, a par do fundamental Persépolis, o melhor livro que já li sobre a realidade iraniana. Pelo menos, é aquele que mais me marcou.

As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor
Esta obra é da autoria de Mansoureh Kamari e chegou-nos há poucas semanas pelas mãos da editora Arte de Autor. E um dos aspectos mais relevantes neste livro é precisamente a forma como a obra evoca, de modo sensível mas inequívoco, a realidade vivida por muitas mulheres no Irão. Desculpem a linguagem grosseira, mas não tenho outro forma de o dizer: ser mulher no Irão é ter uma vida de merda. As mulheres são perseguidas, julgadas, controladas, insultadas, instrumentalizadas, silenciadas e usadas como se fosse objetos. E daqueles objetos a quem nem damos muito valor, pois há objetos e bens que são muito mais estimados do que as mulheres iranianas, que são forçadas a casar cedo, para logo serem posses dos homens que as "compram". Ora são posse dos seus pais, ora são posse dos seus maridos. E mesmo que estes as assassinem... enfrentarão simplesmente uma pena ridículas a cumprir. Como é possível que continuemos a tolerar isto? Como é possível que, enquanto sociedade, engulamos em seco perante isto e continuemos impávidos, com a nossa vida de primeiro mundo?

A autora Mansoureh Kamari fala-nos aqui da sua experiência pessoal, em que viveu os primeiros anos da sua vida com terrores e traumas incutidos pelo seu pai e pelas diferenças de género com que se ia deparando. Ser-se rapaz no Irão não é nada mau, mas ser-se mulher é uma condenação à nascença. E a passagem da infância para a idade legalmente adulta - que no Irão considera-se aos 9(!) anos (sim, leram bem) - é, na verdade, um dia miserável para qualquer mulher iraniana. Porque deixa de ser criança e passa a ser uma mulher, um objeto para que um qualquer homem possa possuir e utilizar a seu belo prazer.

As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor
É triste, é chocante e é marcante a forma como Mansoureh Kamari nos insere na sua vida. Ao mesmo tempo, somos igualmente convidados a conhecer a sua vida mais recente em que, após a fuga do seu país, vive de modo livre, sim, mas com os traumas e recalcamentos do passado. Há uma clara separação - até mesmo do ponto vista gráfico devido a uma mudança cromática - entre o presente, em que a autora nos oferece a sua experiência de fazer trabalhos de nu artístico, e a experiência passada, em que a autora mergulha na sua infância e nas vivências avassaladoras com que teve que lidar na sua infância e pré-adolescência.

É um retrato sensível, triste e alarmante aquilo que Kamari nos coloca nas mãos. São vários os momentos e as formas que a autora utiliza para nos mostrar o que é ser mulher no Irão. Todas elas chocantes. Por exemplo, como conceber a existência de um país que obriga uma mãe que vê as suas duas filhas, de 16 e 15 anos, a serem vilmente assassinadas pelas autoridades a ter que pagar pelo custo das balas utilizadas para tirar a vida das suas filhas? É um filme de terror? Não, é a realidade. E deixa-me ainda mais deprimido chegar à conclusão que só sabemos destas histórias à custa de autoras e autores que se veem forçados a fugir do país para contar a sua história. Só assim conseguem denunciar as atrocidades cometidas por tão infame regime.

Outra coisa de que gostei particularmente neste As Linhas que Traçam o Meu Corpo é que a denúncia muitas vezes até é feita através do silêncio. Certas coisas ficam implícitas no desenho pleno de expressividade, sem que haja uma dramatização exagerada da autora. É uma pedrada no charco que nos deixa com um nó na garganta. Será isto possível no tempo atual? Infelizmente, sim. E não só é possível, como os direitos das mulheres iranianas até têm sofrido um agravamento nos últimos anos.

As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor
Ao mesmo tempo, a obra mostra como essas adversidades moldam a relação da protagonista com o seu próprio corpo. O corpo torna-se um espaço de resistência, mas também de dor e conflito. As “linhas” que o atravessam representam não só experiências pessoais, mas também as marcas deixadas por um contexto social opressivo. E, claro, apesar das limitações e da repressão, as mulheres encontram formas de afirmar a sua identidade, ainda que de maneira discreta ou interior. Este equilíbrio entre opressão e resistência é tratado com grande sensibilidade e profundidade pela autora.

Se o tema é pertinente, se o relato é marcante... os desenhos são lindíssimos. Aliás, sobre o assunto em questão - e relembro o vasto conjunto de obras já mencionadas por mim, mais acima,- não há nenhum livro que, quanto a mim, chegue sequer perto em termos de beleza de desenho.

Há uma delicadeza, uma ternura, uma tristeza e uma poesia nos desenhos aparentemente simples, mas tão belos, de Mansoureh Kamari, que é raro encontrar em banda desenhada e, especialmente, em banda desenhada com um cunho mais político. O desenho é tão bom que, em vários casos, nem é necessária a colocação de qualquer legenda ou balão de fala, pois está ali tudo, entendido e exposto. O poder da evocação dos desenhos de Mansoureh Kamari é, pois, verdadeiramente impressionante. A várias fases da vida da autora - as do presente e as do passado - vão sendo diferenciadas através da cor. No passado, os desenhos são a preto e branco, em tons de sépia. No presente, a cor vai sendo introduzida paulatinamente.

As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor
Diria que, como ponto menos positivo neste livro, que é quase perfeito, encontro apenas uma certa e aparente relutância ou dificuldade da autora em decidir, mais ou menos a meio da obra, para onde levar a sua história. Dito por outras palavras, até meio do livro eu achei: "que maravilha... este livro vai ser nota máxima" e, na última parte achei: "Ok, continua fantástico... mas estava à espera de ser levado para algo ainda mais emocionante, especial ou original no final". Sente-se uma certa insegurança da autora na forma de fechar o livro. Mesmo que, atenção, o final seja bem conseguido. Nada está estragado, descansem, mas foi motivo para que o livro não ficasse perfeito. Mas, não o sendo, é uma das melhores apostas dos últimos meses por parte da Arte de Autor. 

A edição da obra é em capa dura, baça, com detalhes a verniz. Capa essa que tem uma belíssima ilustração, deixem-me que vos diga. Se há boas capas que chamam a atenção daqueles que passeiam numa livraria, esta é um bom exemplo disso. No interior, o livro apresenta bom papel baço e um bom trabalho ao nível da encadernação, impressão e acabamentos. No final, são concedidas duas páginas para que se explique melhor algumas das coisas que nos são reveladas durante a leitura da obra.

O formato da obra é o 17 x 24 cm, um formato em que a editora portuguesa tem vindo a apostar num conjunto específico de obras que, naturalmente, se destinam a um público mais vasto, quiçá menos familiarizado com banda desenhada. Nesse mesmo formato, a editora também editou as obras Radium GirlsO Jardim, Paris ou As Raparigas de Salem. Já os li a todos - e de todos gostei - mas, a meu ver, nenhum é tão bom como este As Linhas que Traçam o Meu Corpo.

Em suma, esta obra consegue ser verdadeiramente notável, não apenas pela sua beleza visual, mas sobretudo pela profundidade e honestidade com que aborda questões de identidade, memória e resistência, que tantas marcas continuam a fazer nas mulheres iranianas. Mansoureh Kamari consegue criar um equilíbrio notável entre o íntimo e o universal, transformando uma narrativa pessoal no espelho das experiências de mais de 40 milhões de mulheres. Um dos livros do ano que deve ser comprado, lido, emprestado e/ou oferecido.


NOTA FINAL (1/10):
9.6


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor

Ficha técnica
As Linhas que Traçam o Meu Corpo
Autora: Mansoureh Kamari
Editora: Arte de Autor
Páginas: 200, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
Lançamento: Maio de 2026