Editado originalmente no passado mês de maio pela editora Chili com Carne, este Da Noite para o Dia marca o regresso de Sofia Neto ao lançamento de banda desenhada de grande fôlego. Depois do interessante Cicatriz, editado pela Polvo, a autora portuguesa candidatou-se e venceu uma das Bolsas de Criação da DGLAB em 2020 e, agora, podemos conhecer o resultado desse trabalho.
E deixem-me dizer-vos que fiquei muito bem impressionado com este livro, bastante original, com uma história distópica de ficção científica que nos convida a caminhar na incerteza. Desde as primeiras páginas, a obra estabelece uma atmosfera de estranheza e fascínio que nos impele a continuar a leitura, sempre com a sensação de que algo importante está prestes a acontecer, mesmo sem sabermos exatamente qual será o destino da narrativa. O doce embalo de uma história que não sabemos para onde nos está a levar, mas que nos intriga a partir das primeiras páginas, é especialmente gratificante.
A premissa original é, por si só, a grande força do livro. Acompanhamos Ana, uma mulher que possui uma máquina capaz de alterar o comportamento das pessoas sem que estas tenham consciência disso. Tudo o que Ana tem que fazer é colocar uns dispositivos, unidos por fios elétricos, à pele dos seus clientes - ou, melhor dizendo, à pele das pessoas que os clientes de Ana procuram alterar. A partir dessa ideia simples, mas extremamente eficaz, Sofia Neto constrói uma história que cruza ficção científica, thriller, reflexão ética e drama humano, num equilíbrio muito bem conseguido.
O conceito ganha ainda mais interesse pelo modo como é apresentado. Ana aceita pedidos de clientes anónimos que a contratam para provocar mudanças específicas em terceiros, sem conhecer os seus motivos e sem questionar as consequências dos seus atos. Para Ana, é uma rotina quase mecânica, sustentada pela convicção de que aquilo que faz contribui para tornar o mundo um lugar melhor. Contudo, a verdadeira questão não está na tecnologia em si, mas no uso que dela fazemos.
A narrativa torna-se particularmente envolvente quando começamos a perceber que os efeitos do dispositivo estão longe de ser totalmente controláveis, dado que através da máquina que Ana opera, a alteração dos traços de personalidade das pessoas pode desencadear mudanças inesperadas e imprevisíveis, transformando de forma radical aqueles que são afetados pelo dispositivo. Consequentemente, aquilo que inicialmente parece uma ferramenta útil depressa revela contornos inquietantes, obrigando-nos a questionar até que ponto devemos interferir naquilo que define uma identidade. Imaginem que usam uma máquina destas para alterar algo que não gostam na vossa maneira de ser e, sem querer, a máquina muda uma coisa que até gostavam em vós próprios? Além disso, devemos alterar, a gosto, aquilo que não gostamos em nós ou nos outros?
É precisamente nessa zona cinzenta que a obra se torna mais estimulante. Afinal, quem nunca desejou corrigir um defeito próprio? Ou naqueles que nos rodeiam, tornando-os ainda mais perfeitos aos nossos olhos? Quem nunca imaginou como seria viver sem determinada insegurança ou sem certas limitações? Sofia Neto pega nesse desejo universal e leva-o às suas consequências mais extremas, mostrando que a remoção de um elemento da nossa personalidade pode comprometer outros aspetos que valorizamos em nós mesmos.
Existe também uma dimensão distópica bastante eficaz. Embora a tecnologia apresentada não exista, a verdade é que nunca sentimos - eu, pelo menos, não senti - estar perante algo completamente impossível. Num mundo cada vez mais moldado por algoritmos, redes sociais e sistemas capazes de influenciar comportamentos, a premissa de Da Noite para o Dia surge menos como uma fantasia distante e mais como uma extrapolação plausível do presente. Assustadoramente plausível, diria.
Em termos visuais, o livro também me agradou bastante devido à sua personalidade muito própria. A utilização de uma paleta dominada pelos cinzentos e pelos azuis reforça a atmosfera fria e melancólica da narrativa, encaixando bem na premissa da história. É verdade que os cenários são demasiadamente despidos em várias vinhetas, mas também é verdade que a autora faz um belo trabalho na forma como ilustra as expressões das personagens. Aqui e ali podemos encontrar uma expressão ou linguagem corporal menos bem conseguida, mas, regra geral, a maneira como Sofia Neto desenha as personagens é deveras interessante.
Apreciei também os momentos de silêncio, sem texto, que nos convidam a pausar um pouco o ritmo da nossa leitura para bem absorver o que as personagens estão a experienciar.
Por tudo isto, é difícil compreender a reduzida visibilidade que Da Noite para o Dia parece ter recebido. Estamos, na minha opinião, perante uma das obras mais interessantes da banda desenhada portuguesa publicada em 2026, um livro inteligente, visualmente apelativo e capaz de gerar verdadeira reflexão. É pena que a sua distribuição e divulgação não estejam à altura da qualidade do trabalho realizado. Encontrei, por acaso, este livro no stand da Kingpin Books, no último Amadora BD. Caso contrário, não saberia, sequer, da existência da obra. Quer dizer, tinha ouvido falar de uma exposição sobre a obra que a autora fez no início do ano. Mas, tirando isso, este livro tem estado invísível das lojas e dos canais de divulgação.
Compreendo com a Chili com Carne opere em mercados alternativos - e nada há de errado nisso - mas, caramba, quando não é possível encontrar, sequer, uma imagem promocional de uma página do livro na internet - o que me obriga a partilhar convosco, neste texto, fotos toscas do interior do livro tiradas por mim - ou quando não é enviada ou disponibilizada qualquer informação, sinopse ou ficha técnica sobre o livro junto dos divulgadores, algo de errado, ao nível da edição e promoção, está a ser feito pela obra. Se uma obra é publicada - atente-se no verbo "publicar" - é para chegar ao público. Se a ideia é que a obra fique privada, mais vale não a publicar. Até porque - here we go, again - estamos a falar de uma obra que nasce a partir de um apoio público. Mas, enfim, já que a editora não fala do livro, não o publicita e não o comunica, ao menos que este meu texto ajude mais pessoas a conhecer um livro tão interessante como este. Acredito que o melhor serviço que eu possa prestar a esta obra é precisamente recomendá-la.
De resto, em termos de edição, o livro apresenta capa mole baça, com detalhes a verniz. Um dos lados apresenta badana. No interior, o livro tem bom papel braço e uma boa impressão e encadernação. Como nota menos positiva, destaco a ausência de qualquer informação na lombada do livro, que faz com que, quando arrumado numa estante (seja de uma loja/livraria ou de uma coleção privada) o livro fique muito mais difícil de encontrar. Difícil de encontrar parece ser, pois, a ideia inerente à edição desta obra.
Em suma, em Da Noite para o Dia Sofia Neto constrói uma narrativa simultaneamente intrigante, perturbadora e profundamente humana, alicerçada numa premissa de ficção científica tão original quanto credível. A obra merecia, sem dúvida, uma divulgação muito mais ampla, porque tem qualidade mais do que suficiente para encontrar um público vasto. E, uma vez terminada a leitura, fica a sensação de que acabámos de descobrir uma das mais interessantes bandas desenhadas portuguesas do ano.
NOTA FINAL (1/10):
9.0
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens dos álbuns. www.instagram.com/vinheta_2020
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Da Noite para o Dia
Autora: Sofia Neto
Editora: Chili com Carne
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 18 x 24 cm
Lançamento: Maio de 2026
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