quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Análise: Coração das Trevas

Coração das Trevas, de Luc Brahy - Relógio D' Água Editores

Coração das Trevas, de Luc Brahy - Relógio D' Água Editores
Coração das Trevas, de Luc Brahy

Relógio D'Água passou quase toda a totalidade do passado ano 2025 sem editar livros de banda desenhada. Só já no último mês de dezembro, a editora viria a editar o terceiro e último volume da série Duna, de Brian Herbert, Kevin J. Anderson, Raúl Allén e Patricia Martín, juntamente com este Coração das Trevas que, à semelhança de todas as bandas desenhadas editadas pela Relógio D'´Água, funciona como adaptação para BD de um clássico da literatura. Neste caso, o autor da obra original é Joseph Conrad e o responsável pela adaptação é Luc Brahy.

E se, por um lado, verificamos que a parca edição de BD por parte da Relógio D' Água não é a melhor situação para todos nós, amantes da 9ª arte, temos, todavia, e por outro lado, que assinalar a boa notícia e atenuante de encontrar neste Coração das Trevas um belo livro de banda desenhada.

Coração das Trevas, de Luc Brahy - Relógio D' Água Editores
Confesso nunca ter lido o livro original de Conrad e, como tal, tudo o que sei sobre este livro, absorvi-o através deste livro de BD. E, claro, também vi o clássico do cinema Apocalypse Now, de Francis Ford-Copolla que se baseia - ou, melhor dizendo - inspira nesta obra.

Mas, ao contrário da adaptação cinematográfica, a história da obra original não se passa no Vietname e em tempo de guerra (armada, pelo menos). Como tal, esta adaptação bedéfila está mais em linha com a obra original.

Coração das Trevas acompanha Charles Marlow, um marinheiro inglês que aceita um trabalho como capitão de um barco a vapor para uma companhia belga que explora o Congo africano e é-lhe incumbida a missão de encontrar Kurtz, um reputado agente da companhia. Desde o início da viagem, Marlow percebe a brutalidade e a hipocrisia do colonialismo europeu, pois sob o discurso de civilização e progresso, aquilo que Marlow vê é exploração, violência e a desumanização dos africanos. Ora, se tivermos em conta que o livro original foi escrito ainda em 1898, podemos ver como a obra foi visionária para a sua época em que o colonialismo ainda era visto com algum romantismo. Pelo menos, pela objetiva dos colonizadores, está claro. 

Coração das Trevas, de Luc Brahy - Relógio D' Água Editores
Ao avançar pelo rio adentro, onde a paisagem é densa e opressiva, reforçando a sensação de mistério e ameaça constante, Marlow ouve cada vez mais histórias sobre Kurtz que se torna localmente famoso pela sua enorme eficiência em reunir grandes quantidades de marfim. Kurtz é descrito quase como uma figura mítica, admirada e temida, alguém que levou a sua missão ao limite. Essa expectativa transforma a jornada de Marlow numa busca obsessiva, tanto física quanto psicológica, pelo homem que parece encarnar o coração da empresa colonial.

Esta adaptação de Luc Brahy surge-nos como uma leitura interessante e, confesso, uma agradável surpresa. Desde logo por partir de uma editora que, infelizmente, não tem feito da banda desenhada uma das suas grandes apostas editoriais, conforme já mencionado. Talvez por isso mesmo, esta obra acabe por ganhar um sabor especial: não estamos perante uma obra-prima incontornável da BD, mas sim diante de uma BD bem contada, bem narrada e visualmente cuidada.

Ao longo da leitura, é verdade que por momentos a narrativa pode dar a sensação de andar às voltas sobre o mesmo tema. A viagem parece nunca mais findar, acumulando obstáculos, atrasos e dificuldades que se repetem sob diferentes formas. No entanto, essa insistência acaba por ser coerente com a própria natureza da obra. A jornada de Marlow não é apenas chegar a Kurtz, mas uma metáfora de tudo o que se perde, se desgasta e se revela durante o percurso.

Coração das Trevas, de Luc Brahy - Relógio D' Água Editores
É, aliás, precisamente nessa vertente que Coração das Trevas encontra a sua sustentação temática mais forte. A viagem física é, simultaneamente, uma viagem espiritual, um mergulho progressivo no interior do ser humano. E, neste caso concreto, não é uma descida iluminadora, mas antes uma aproximação às zonas mais sombrias e desconfortáveis da alma, onde a moral se dilui e a condição humana revela as suas fraquezas.

Luc Brahy procura manter essa ambiguidade moral e psicológica ao longo da adaptação. Parece haver um respeito evidente pelo texto original, ainda que isso, por vezes, resulte num certo excesso de texto em algumas páginas. Em determinados momentos, a densidade verbal acaba por pesar mais do que seria desejável, retirando algum espaço à imagem para respirar e comunicar por si mesma. Esse excesso de texto não compromete o conjunto, mas é um aspeto que se faz notar e que poderia ter sido mais equilibrado. 

Onde a BD brilha de forma mais consistente é no plano visual. Gostei especialmente dos desenhos de Luc Brahy, que revelam uma delicadeza que me agradou bastante e que casa muito bem com o ambiente da história. O seu traço é contido, elegante, e sabe quando recuar para oferecer imagens contemplativas e quando avançar para composições mais duras e perturbadoras.

Coração das Trevas, de Luc Brahy - Relógio D' Água Editores
Há páginas que convidam à pausa, à observação demorada da paisagem, da água e da vegetação sufocante. Noutras, somos confrontados com imagens mais chocantes e gráficas, que sublinham os momentos mais negros da narrativa, sem recorrer ao excesso gratuito. Essa alternância funciona bem e reforça o tom opressivo e gradual da descida do protagonista às "trevas".

Se o traço de Luc Brahy me agradou, devo admitir também que Cyril Saint-Blancat tem um papel absolutamente preponderante no impacto visual da obra. As cores são belíssimas e cuidadosamente aplicadas, criando atmosferas densas, quentes e por vezes quase sufocantes, que amplificam o estado psicológico das personagens. Aliás, o trabalho de cor consegue, inclusivamente, corrigir ou atenuar algumas fragilidades do desenho, nomeadamente em momentos onde existe menor detalhe ou maior simplicidade gráfica. As paletas escolhidas dão profundidade às cenas e enriquecem visualmente a narrativa, provando como a cor pode ser muito mais do que um mero complemento.

A edição do livro é em capa mole baça, com badanas, e bom papel brilhante no miolo. De resto, a encadernação e impressão são de boa qualidade.

No final, esta adaptação gráfica de Coração das Trevas afirma-se como uma leitura sólida e recomendável. Não reinventa o clássico da literatura, nem pretende fazê-lo, mas oferece uma interpretação honesta, visualmente apelativa e narrativamente consistente. Uma BD que, sem ser uma obra-prima, se revela uma história bem contada e uma experiência de leitura que vale a pena, sobretudo para quem aprecia narrativas que nos obrigam a olhar para dentro... mesmo quando aquilo que lá encontramos não é propriamente confortável.


NOTA FINAL (1/10):
8.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Coração das Trevas, de Luc Brahy - Relógio D' Água Editores

Ficha técnica
Coração das Trevas
Autor: Luc Brahy
Adaptado a partir da obra original de: Joseph Conrad
Editora: Relógio D' Água
Páginas: 108, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 19,5 x 27 cm
Lançamento: Dezembro de 2025

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Vinheta 2020 e FNAC preparam evento com sorteio de livros!



Neste sábado, todos os caminhos bedéfilos vão dar à FNAC do Alegro de Alfragide e, se és leitor(a) de banda desenhada, não podes mesmo faltar! Até porque te arriscas a sair de lá com livros de BD grátis!

Sim, leste bem, "livros grátis". Haverá mais de uma mão cheia de livros de banda desenhada que serão sorteados pelos presentes na assistência!

Mas nem só de livros grátis viverá este evento.

Nesta segunda edição da iniciativa BD À Lupa, depois de uma primeira edição com auditório cheio, contarei com a presença de alguns dos principais editores de banda desenhada em Portugal, que falarão de uma obra marcante da sua editora em 2025, enquanto apresentarão também novos livros que acabam de chegar ao mercado e farão antevisões de obras que estão prestes a chegar-nos. Falar-se-á ainda das dores de crescimento do mercado da BD em Portugal.

Ao meu lado, estará um elenco de luxo, que contará com os responsáveis das editoras A Seita, Ala dos Livros, Arte de Autor, ASA, Devir e Escorpião Azul.

E sim, os livros a ser sorteados, serão edições das respetivas editoras.

O evento acontece neste sábado, dia 7 de Fevereiro, pelas 16h00, no auditório da FNAC do Alegro de Alfragide.

É uma iniciativa inédita organizada em conjunto pelo Vinheta 2020 e pela FNAC e que, mensalmente, levará a banda desenhada à programação cultural de uma das maiores redes de livrarias do país. 

Faltar é um erro.

Até sábado!









sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Análise: O Indispensável de Snoopy

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz

Falar de Peanuts é falar de um dos pilares fundamentais da história da banda desenhada em tiras e, por arrasto, da própria cultura popular do século XX. Criadas por Charles M. Schulz em 1950, estas histórias aparentemente simples, publicadas diariamente em jornais, tornaram-se rapidamente um espaço de reflexão sobre a condição humana, embalado por um humor seco, uma melancolia especial e uma lucidez rara. 

Parece-me até que foi Schulz o primeiro autor a perceber que algo simples como uma tira podia ser espaço para uma profundidade emocional e filosófica, mesmo quando protagonizada por crianças e um cão. Depois apareceram muitas outras tiras humorísticas ao longo dos anos - das quais destaco, pela sua qualidade, Mafalda, de Quino, ou Calvin and Hobbes, de Bill Watterson - que até podem ter ido mais longe em termos de profundidade nos temas, mas não há como negar a relevância cultural de Snoopy, Charlie Brown e companhia. 

Sim, de todas as personagens marcantes da série, o cão de Charlie Brown, Snoopy, sempre foi a mais popular. Talvez seja por isso que este livro não se chama "O Indispensável de Peanuts", mas "O Indispensável de Snoopy". E mesmo admitindo que talvez o nome mais ajustado fosse o primeiro, compreendo que, do ponto de vista comercial, "Snoopy" seja uma marca ainda mais forte e sonante do que "Peanuts".

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
Ao longo de décadas, Peanuts foi muito mais do que entretenimento ligeiro. Schulz construiu um universo coerente, recorrente e reconhecível, onde a repetição era uma ferramenta narrativa e não um defeito. Através de pequenas variações sobre os mesmos temas, o autor soube criar uma obra que cresceu com os seus leitores, acompanhando transformações sociais, culturais e até políticas, sem nunca perder a sua identidade.

Isto não esquecendo que, além do meio específico, Peanuts infiltrou-se profundamente na cultura pop. Snoopy, Charlie Brown e companhia tornaram-se ícones transversais, reconhecidos muito para lá das páginas dos jornais: animação, cinema, merchandising, música, moda, entre outros.

A juntar a isso, a série tem sabido manter-se atual mesmo depois do falecimento do seu criador, Charles M. Schulz, há mais de 25 anos. Talvez seja essa relação íntima entre simplicidade gráfica e complexidade emocional aquilo que melhor explica a longevidade e a atualidade de Peanuts. Schulz falava de crianças, mas escrevia claramente para adultos; fazia rir, mas quase sempre com um travo amargo. A sua obra é um espelho desconfortável, onde nos revemos sem a beleza que, por ventura, gostaríamos de encontrar, mas com uma honestidade desconcertante.

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
É neste contexto que surge O Indispensável do Snoopy, a edição portuguesa comemorativa dos 75 anos de Peanuts, lançada no passado mês de outubro pela editora Iguana (chancela do grupo Penguin).

Esta bela edição assume desde logo uma ambição clara: não apenas reunir tiras icónicas, mas celebrar uma obra maior. Trata-se de uma edição de luxo, com capa dura, bom papel e um cuidado gráfico que faz justiça à importância histórica e afetiva do material reunido.

Esta não é apenas uma antologia “best of”. É um objeto pensado, organizado e contextualizado, que procura dar ao leitor uma visão abrangente da evolução de Peanuts ao longo das décadas. As tiras estão organizadas cronologicamente, permitindo perceber como Schulz foi afinando o seu traço, o seu humor e a sua visão do mundo, sem nunca trair os fundamentos da série.

A personagem de Snoopy, naturalmente, ocupa aqui um lugar central. As suas múltiplas personas, como o ás da aviação da Primeira Guerra Mundial, o escritor fracassado de máquina de escrever ou o filósofo solitário no topo da casota, são apresentadas não apenas como gags recorrentes, mas como construções narrativas com peso simbólico. Esta contextualização transforma o livro num verdadeiro objeto de estudo, revelando camadas que muitas leituras rápidas tendem a ignorar.

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
O volume inclui ainda uma introdução geral à série e textos dedicados a cada uma das personagens principais: Charlie Brown, Linus, Lucy, Woodstock, Schroeder, Peppermint Patty, Sally, Marcie, entre outras.

Outro dos méritos desta edição é a inclusão de textos introdutórios para cada década, que enquadram histórica e artisticamente as tiras selecionadas. Estes textos ajudam o leitor a perceber como Peanuts dialoga com o seu tempo, refletindo mudanças sociais subtis, sem nunca se tornar panfletário ou datado. Há ainda algumas citações de Charles M. Schulz, que ajudam a compreender melhor as intenções do autor e a forma como via as suas próprias criações.

É certo que, ao contrário da edição de integral de Mafalda, de Quino, lançada em 2024 também pela Iguana, este livro não traz a obra completa de Peanuts. Mas isso, digo eu, talvez não fosse o mais adequado a fazer, dado que a série é muito grande e seriam necessários 26(!) livros com 300(!) páginas para que tivéssemos a coleção completa. Não me parece minimamente viável para o mercado português. Um best of bem feito, como é o caso, parece-me a melhor opção, tendo esta edição a capacidade de funcionar bem a vários níveis: como porta de entrada para novos leitores, como objeto nostálgico para quem cresceu com estas personagens e como um documento histórico, cultural e artístico. 

Estamos, pois, perante uma bela e equilibrada edição, daquelas que justificam plenamente a sua existência física num tempo de consumo rápido e descartável. Um livro que toda a gente devia comprar ou oferecer, não apenas pelo carinho que Snoopy e os seus amigos continuam a merecer, mas porque Peanuts permanece, 75 anos depois, tão indispensável quanto sempre foi.


NOTA FINAL (1/10):
9.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House

Ficha técnica
O Indispensável do Snoopy
Charles M. Schulz
Editora: Iguana
Páginas: 384, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 280 mm
Lançamento: Outubro de 2025

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Análise: Atrahasis

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books
Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira

Atrahasis é o livro de banda desenhada mais recente de David Soares e Sónia Oliveira, e foi o único lançamento de BD que a editora Kingpin Books, de Mário Freitas, nos fez chegar durante o ano 2025.

Depois de Sepulturas dos Pais, com desenhos de André Coelho, O Pequeno Deus Cego e Palmas para o Esquilo, ambos com ilustrações de Pedro Serpa, e do mais recente - embora não tão recente assim - O Poema Morre, este último, também com os desenhos de Sónia Oliveira, David Soares está de regresso à feitura de banda desenhada o que, tendo em conta a singularidade da sua abordagem ao género, é boa notícia para a banda desenhada nacional.

De facto, o autor é sempre único na forma como escreve as suas densas e (talvez não tanto assim) complexas histórias. Utilizando uma linguagem erudita, que o afasta de um público mais generalista, David Soares tem, no entanto, uma franja de leitores ávidos das suas obras.

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books
Neste Atrahasis, volta a dar-nos uma história que, mais do que tudo, assenta numa alegoria e que vai beber ao poema Epopeia de Atrahasis, um dos textos mais antigos da humanidade, datado de 1700 a.C. Com efeito, ainda antes de termos a Bíblia Sagrada cujo último livro, Apocalipse, nos adverte para um conjunto de calamidades que fazem a humanidade caminhar para o seu fim, já este Epopeia de Atrahasis nos dava a provar esse sabor da destruição da humanidade, neste caso, causada por um dilúvio abismal.

Nesta releitura desse poema, David Soares conduz-nos por essa visão da relação tensa entre deuses e humanos, estes marcados pelo sofrimento enquanto parte inaliável da sua condição e, aparentemente, seres contemporâneos da nossa existência.

É uma abordagem abstrata e de leitura não tão fácil assim.

Sendo sincero - como, aliás, sou sempre, não procurando parecer mais ou menos erudito do que aquilo que realmente sou - não tenho problemas em dizer-vos que considero não "ter estudos" para o abstracionismo da maioria das obras de David Soares. Mas como em tudo na vida, e após uma segunda leitura do livro, senti o fulgor de querer ir saber mais sobre Atrahasis, sobre o seu mito, a origem do seu poema e da sua história. E se um objetivo de uma obra pode ser o de criar ensinamentos e reflexão, já posso dizer que esta obra funciona de sobremaneira.

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books
De facto, a sua leitura é complexa e requere que nós, leitores, sejamos detentores de uma forte cultura, em termos histórico-literários, não tão frequente assim. É por isso que - e muitas vezes injustamente - os argumentos de David Soares possam parecer divagar em demasia. Mas se estivermos preparados ou, lá está, se fizermos o "trabalho de casa", certamente conseguiremos apreciar melhor estas obras.

Além dos temas alegóricos e abstratos, a própria linguagem do autor é de uma riqueza tal que é bem possível que demos por nós mesmos a ter que pesquisar alguma palavra no google. Eu, certamente, o fiz. Não julgo haver nada de mal nisso, aliás, pois se as palavras existem, é mesmo para serem utilizadas. Acho apenas que a opção por se utilizar determinado discurso ou linguagem em detrimento de outro, leva a que possamos estar, desse modo, a balizar o nosso público, seja pela utilização de uma linguagem erudita, seja pela utilização de uma linguagem mais banal ou mesmo corriqueira. Mas dizer isto é apenas um comentário "La Paliciano", pois, naturalmente, tudo o que somos ou fazemos delimita a aproximação dos outros face a nós.

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books
Mas, voltando a Atrahasis, e não obstante a beleza e coragem do autor para um texto propositadamente polido com palavras rebuscadas e sofisticadas, o próprio discurso deliberadamente erudito também pode esconder algumas debilidades narrativas, levando a que a obra se perca mais na forma do que no conteúdo. De certo modo, senti um pouco isso neste livro, pois já depois de mais bem preparado para melhor sorver os acontecimentos descritos e narrados, dei comigo a achar, em vários casos, o texto demasiado divagante. Como se, a partir de um tema, se limitasse a divagar de forma abstrata sobre o mesmo. É legítimo, como o é qualquer tipo de criação, mas igualmente passível de ser apenas um mero recurso de estilo e de reflexão. 

Todavia, devo dizer que, por outro lado, também aprecio a abordagem singular de David Soares, pois é algo que nos tira das azáfama do dia a dia, servindo como simples (e bem-vindo) escape. Como um livro de poesia. São divagações, sem dúvida, de cariz poético e filosófico mas, quanto a mim, têm - e devem ter - o seu lugar na produção nacional de banda desenhada. É a chamada BD de culto. Boa, mas não para toda a gente.

Daí que, mais uma vez, uma obra de David Soares me faça ficar com sentimentos mistos.

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books
Já quanto ao trabalho de Sónia Oliveira neste livro, devo dizer que as suas ilustrações a preto e branco impressionam pelo seu estilo a carvão, onde a negritude da obra salta à vista. Há algo de imediatamente evocativo nestes desenhos, como se os mesmos pudessem ter sido extraídos do booklet de um álbum - ou, pelo menos, da imagética - de uma banda de metal mais pesado. É uma presença sombria e intensa que caminha de mãos dadas com o texto de David Soares e que nos oferece uma força visual que capta a atenção do leitor, reforçando o clima da história.

Também aqui há um grande abstracionismo que resulta, nuns casos, muito bem, com imagens de grande fulgor poético e estético. Noutras situações, porém, o abstracionismo é de tal ordem que a perceção de alguns elementos e personagens se torna mais difícil, criando um (maior) desafio interpretativo ao leitor.  

Ora, tendo em conta que o texto já não é muito leve ou linear, o casamento é perfeito. Os desenhos de Sónia Oliveira não parecem procurar tornar mais perceptível o texto de David Soares e vice-versa. Texto e imagens caminham, pois, de mãos dadas, havendo coerência. Quer seja para o bem, quer seja para o mal. No meu caso, mantenho-me um pouco neutro, pois considero uma obra interessante a vários níveis, que me faz querer salvaguardá-la, mas que poderia almejar maiores voos se fizesse algum tipo de cedências. Logicamente, não estou a dizer - ou, sequer, a sugerir - que um autor deva equacionar cedências para a sua própria criação só para fazer a mesma chegar a um público maior. Também eu sou músico independente e é isso - música independente - que me dá gozo fazer. Agora, quando nos perguntarmos o porquê de determinada obra não chegar a um público maior, também temos que ter a honestidade intelectual de perceber os motivos para que essa situação aconteça.

A edição do livro é em capa mole, baça, com detalhes a verniz e badanas. No interior, o papel utilizado é baço e de boa qualidade, tal como o é a impressão, a encadernação e o aprumo gráfico da edição - o que é frequente nas obras editadas pelo selo de Mário Freitas.

No final, posso dizer que gostei de Atrahasis. A obra apresenta boas ideias e um universo visual e literário rico e denso, onde se sente a força da alegoria e a complementaridade entre o texto de David Soares e as ilustrações de Sónia Oliveira. Apesar disso, há momentos em que a narrativa e a própria relação entre imagens e palavras se tornam algo divagantes, tornando a leitura mais caótica e o enredo mais aleatório do que o desejável.


NOTA FINAL (1/10):
8.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books

Ficha técnica
Atrahasis
Autores: David Soares e Sónia Oliveira
Editora: Kingpin Books
Legendagem e design de Mário Freitas
Páginas: 72, a preto e branco
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 18 x 27 cms
Lançamento: Novembro de 2025