É cada vez mais frequente - não só em Portugal como em todo o mundo - a aposta em banda desenhada que aborda questões relacionadas com homossexualidade e outras temáticas do espectro LGBTQ+. Diria até mesmo que este é um dos "temas da moda", reconhecendo que talvez isso também esteja, de algum modo, relacionado com os assuntos de maior interesse de um público jovem potencial consumidor de banda desenhada. Aliás, ainda há pouco tempo eu fiz um TOP sobre o tema e, passados alguns meses, já são muitas mais as obras que poderiam ser introduzidas - ou consideradas - para a feitura desse TOP.
Como tal, quando há uma tendência de consumo, passa a haver uma tendência editorial e, consequentemente, gera-se algo de uma forma quase automática: começam a aparecer mais e mais autores a publicar livros nesse subgénero. E isso faz com que, naturalmente, nos cheguem obras com menor qualidade, mas que acabam por obter publicação só porque estão a "surfar a crista da onda", por assim dizer.
Este A Morte do Tetraz-lira, de David Combet, que a editora Devir acaba de publicar, não se insere, de todo, na categoria de obras com pouca qualidade sobre o tema. Pelo contrário, é um dos grandes lançamentos do ano e das grandes apostas da editora portuguesa que, felizmente, continua - embora de forma tímida - a apostar em algumas obras que não são mangá ou comics americanos - e digo isto sem qualquer desprimor para esse tipo de obras, atenção.
Esta é a obra de estreia de David Combet enquanto autor completo, e revela-se como uma história profundamente humana que explora a construção da identidade, os conflitos familiares e a difícil aprendizagem da aceitação de si próprio. Através de uma narrativa sensível e contemplativa, acompanhamos a vida de Pierre em diferentes momentos da sua existência, ora na infância, ora na adolescência, ora na idade adulta, revelando um percurso marcado por silêncios, dúvidas e feridas emocionais que continuam a ecoar na idade adulta. Quantas vezes, já enquanto adultos, não tentamos procurar redenção e respostas para momentos negativamente marcantes que vivenciamos quando éramos meras crianças ou adolescentes?
Enquanto criança, Pierre é um rapaz sensível, apaixonado pela natureza, pelo desenho e pela observação do mundo que o rodeia - já agora, para aqueles que, como eu, não sabiam o que era um "tetraz-lira", trata-se de uma ave.
Desde cedo Pierre se percebe, embora de forma subtil, que existe um desfasamento entre aquilo que ele é e aquilo que o seu pai gostaria que ele fosse. Conservador e profundamente ligado a uma visão tradicional da masculinidade, o pai tenta transmitir ao filho os valores que considera essenciais, levando-o para a montanha, ensinando-o a acampar e procurando iniciá-lo na caça. Contudo, Pierre sente-se distante desse universo, encontrando o seu verdadeiro refúgio na arte e na contemplação. Estas coisas não são bem ditas pelo texto que David Combet nos dá, mas por aquilo que fica implícito.
Assim, à medida que a narrativa vai avançando, torna-se evidente que esta é também uma história sobre a descoberta da orientação sexual e sobre o peso das expectativas familiares. Pierre apercebe-se gradualmente de que os seus desejos e sentimentos não correspondem ao modelo que lhe foi imposto. Não são as mulheres que o atraem, mas os homens. E uma coisa que apreciei especialmente é que esse processo de autodescoberta da personagem não surge de uma forma brusca ou dramática, mas antes como uma tomada de consciência lenta e dolorosa, marcada por hesitações e receios. Isso dá muita força e maturidade ao livro. E, claro, o conflito que nasce dessa realidade aceite por Pierre acabará por influenciar toda a sua relação com o pai.
Paralelamente, o livro dá-nos a conhecer o Pierre do tempo presente: um homem na casa dos trinta que procura ainda encontrar o seu caminho quer pessoal, quer profissional. A sua ocupação é ser escultor, mas a dificuldade na obtenção de bolsas de criação torna-se um entrave à sua vida, o que faz com que tenha que trabalhar no McDonald's para pagar as suas contas. Além disso, os encontros sexuais que vai tendo revelam-se muito superficiais e, como veremos numa das cenas mais tensas e marcantes do livro, promíscuos na forma como Pierre é instrumentalizado para fins sexuais. Na idade adulta, Pierre continua, pois, a procurar o seu lugar no mundo. Enquanto artista, sente dificuldades em afirmar-se e em encontrar um caminho sólido para a sua carreira e, no plano sentimental, a situação não é muito diferente, com as relações amorosas a revelarem-se complexas. Nem sempre as escolhas de Pierre parecem as mais acertadas. Há, portanto, uma sensação constante de desencontro consigo próprio, como se observasse a sua vida à distância sem conseguir assumir plenamente quem é.
Esta alternância entre os dois períodos da vida de Pierre, o do passado e o do presente, está muito bem conseguida, pois permite que o livro nunca se torne enfadonho, mesmo tendo em conta o cariz contemplativo da obra. Se na infância de Pierre somos levados para paisagens naturais, em florestas densas e verdejantes de cortar a respiração, na sua vida adulta somos levados para ambientes urbanos e citadinos, onde a vida acontece depressa.
A alternância entre passado e presente permite-nos compreender também de que forma os acontecimentos do passado continuam a moldar as escolhas do presente de Pierre. Percebemos facilmente que as inseguranças do adulto não surgem do nada, mas resultam de um longo processo de repressão emocional e de uma relação familiar marcada pela incompreensão.
O autor dá-nos espaço para que compreendamos as dúvidas, os medos e os conflitos de Pierre, mas evita cuidadosamente qualquer forma de vitimização excessiva. O livro não procura apresentar o seu protagonista como uma vítima permanente nem recorrer a discursos panfletários. Pelo contrário, observa-o com humanidade e complexidade, mostrando tanto as suas fragilidades como as suas contradições. E diria que essa contenção torna a narrativa mais credível, madura e emocionalmente eficaz.
E vou até mais longe quando afirmo que o grande mérito deste livro está na forma como transforma esta busca identitária numa experiência profundamente universal. Embora a história aborde a homossexualidade e os desafios associados à sua aceitação, parece-me que será redutor considerarmos que é apenas esse o tema que aqui temos em mãos. Ao invés, o autor fala, acima de tudo, sobre a necessidade de sermos fiéis à nossa essência, sobre o impacto da educação que recebemos e sobre as marcas que determinadas relações familiares deixam em nós. É um livro que dialoga com qualquer leitor que alguma vez tenha sentido a dificuldade de corresponder às expectativas dos outros. É, pois por isso, que acho relevante que se tenha em conta que este não é apenas um livro destinado aos interessados no universo LGBTQ+. Também o é, mas não se resume a isso.
Outro elemento particularmente bem conseguido é o ritmo da narrativa. A Morte do Tetraz-Lira é uma obra que sabe valorizar o silêncio. Existem numerosos momentos de contemplação em que a ação abranda e o leitor é convidado simplesmente a observar. O resultado é um livro que se sente tanto quanto se lê. As pausas, os olhares, as paisagens e os gestos discretos possuem frequentemente mais significado do que muitos diálogos, criando uma atmosfera de grande intimidade emocional e isso revela-nos um autor bastante maduro.
Mas se já escrevi bastante sobre a história, não toquei ainda num ponto fundamental deste livro: a sua dimensão visual que é, sem dúvida, um dos elementos mais marcantes do livro. David Combet opta por realizar toda a obra em pintura acrílica, construindo um universo estético singular e imediatamente singular. As cores, quase sempre suaves, possuem uma extraordinária intensidade expressiva e ajudam a traduzir os estados emocionais de Pierre ao longo das diversas fases da sua vida. Existe, claro está, uma forte aproximação entre a banda desenhada e a pintura, fazendo com que muitas páginas possam ser apreciadas como obras artísticas autónomas.
E isso é ainda mais visível no desenho dos cenários naturais da montanha, que são absolutamente lindos. As montanhas surgem retratadas com uma beleza impressionante, transmitindo simultaneamente serenidade e grandiosidade. Há uma suavidade particular na forma como a paisagem é representada, conferindo à obra uma elegância visual muito própria.
Resta ainda dizer que a edição do livro é bastante bela, com capa dura baça, com detalhes a verniz, e bom papel baço no interior. A encadernação e impressão também são de boa qualidade. Há um detalhe importante que importa referir: ainda que este livro não esteja inserido na Coleção Angoulême da editora - que já está finalizada - gosto do facto desta edição manter o mesmo tipo de formato e aspeto desses livros. Ou seja, não pertencendo formalmente à mesma da coleção, acaba por se assemelhar. Acho interessante e positivo que os livros europeus da editora se apresentem com um aspeto homogéneo entre si.
Em suma, A Morte do Tetraz-Lira é um belo livro, com uma narrativa profundamente humana, onde as emoções surgem com naturalidade e os silêncios possuem o mesmo peso das palavras. É um livro que nos recorda que aceitar quem somos é talvez a mais exigente de todas as viagens e que, por vezes, a verdadeira liberdade nasce precisamente da coragem de abrir a velha caixa das recordações.
NOTA FINAL (1/10):
9.5
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens dos álbuns. www.instagram.com/vinheta_2020
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A Morte do Tetraz-lira
Autor: David Combet
Editora: Devir
Páginas: 284, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 12 x 24 cm
Lançamento: Outubro de 2026
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