quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Análise: O Acidente de Caça

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros
O Acidente de Caça, de David L. Carlson e Landis Blair

Num dos anos mais fortes de sempre da Ala dos Livros, em termos de lançamentos de banda desenhada, a editora portuguesa voltou a marcar mais pontos, oferecendo-nos este O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia, dos autores americanos David L. Carlson e Landis Blair, que se assume como (mais) um dos melhores livros de BD editados por cá em 2026.

Estamos perante uma daquelas obras que desafiam qualquer tentativa de classificação simples, pois trata-se de um trabalho monumental, tanto pela sua dimensão física como pela densidade dos temas que aborda. 

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros
Antes de mais, importa explicar um pouco a sua estrutura narrativa deste O Acidente de Caça, já que estamos perante uma história construída através de várias camadas e subnarrativas que se entrelaçam gradualmente. No centro da narrativa encontra-se Charlie Rizzo, um jovem de Chicago que, nos anos 50, vive uma adolescência marcada por pequenos delitos com a justiça e por uma relação difícil com o seu pai, Matt Rizzo. Até aos 10 anos, Charlie vive com a sua mãe, afastado do seu pai, mas assim que a sua mãe morre, Charlie passa a ir viver com o seu pai. 

Este é cego e a causa dessa cegueira é devida a um acidente de caça que o deixou invisual após um tiro mal disparado numa tentativa de caça a um veado. Mas o passado do pai é muito mais complexo do que aquilo que Charlie alguma vez possa imaginar. E quando o jovem se vê próximo de rumar à prisão por tentativa de assalto, Matt expõe a verdade da sua vida ao seu filho, explicando-lhe qual a real causa da sua cegueira e mostrando-lhe que também ele já esteve preso.

A história desenvolve-se depois através da revelação dessa vida oculta de Matt Rizzo, cuja experiência pessoal se transforma numa longa reflexão sobre identidade, culpa, redenção e transformação. Sem revelar os principais mistérios da narrativa, já que este é um livro em que o enredo nos oferece várias surpresas, posso dizer-vos que a obra alterna entre diferentes períodos históricos e diferentes histórias dentro da história principal, apresentando um retrato fascinante da forma como determinados acontecimentos moldam sucessivas gerações. É uma obra que exige atenção constante do leitor, mas que recompensa amplamente esse investimento, diria.

Uma das grandes qualidades do livro reside na construção destas duas personagens centrais. Charlie é impulsivo, inquieto e procura constantemente o seu lugar no mundo. Já o seu pai Matt, por seu lado, revela-se uma figura muito mais complexa do que inicialmente parece. E embora cego, parece ver muito além da maioria dos outros homens. E à medida que a narrativa avança, ambos enfrentam as consequências dos erros cometidos na juventude, descobrindo, cada um à sua maneira, que o crescimento pessoal raramente é um processo linear. 

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros
Acima de tudo, mas sem se limitar a isso, O Acidente de Caça é a história de uma relação entre pai e filho. Embora baseada em factos da vida real, a obra transcende rapidamente a mera autobiografia para se tornar uma reflexão universal sobre os laços familiares. E não só, pois o argumento é extraordinariamente rico e abrangente. Questões como a cegueira e tudo o que ela acarreta, a vida na prisão, o amor perdido, a filosofia existencial e a própria literatura estão presentes dentro desta densa narrativa. O resultado é, pois, uma obra que consegue discutir temas muito diferentes sem perder coerência. Pelo contrário, todas estas dimensões acabam por se complementar, contribuindo para uma reflexão profunda sobre aquilo que nos torna humanos e sobre a capacidade que temos de reconstruir a nossa vida depois dos erros cometidos.

Entre todas as mensagens presentes no livro, há ainda uma que, a meu ver, se destaca de forma particularmente clara: a ideia de que a arte (e a cultura) deve estar ao serviço da humanidade. Através das experiências das personagens, a obra demonstra-nos como os livros, as ideias e as diferentes formas de expressão artística podem transformar pessoas, ampliar horizontes e oferecer caminhos de redenção. E diria mesmo que poucas obras conseguem transmitir de forma tão convincente o poder transformador da cultura.

Nesse sentido, O Acidente de Caça é também uma apaixonada homenagem à literatura. A obra estabelece uma ligação muito forte com A Divina Comédia, de Dante Alighieri, e em particular com O Inferno de Dante. As referências à viagem dantesca são constantes e assumem um papel fundamental na interpretação dos acontecimentos. Existe um interessante paralelismo entre as descidas simbólicas de Dante e os percursos vividos pelas personagens desta novela gráfica, criando momentos de grande impacto emocional e intelectual, reconheço.

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros
Ainda assim, esta é também a área onde encontro a principal fragilidade da obra. Apesar de David L. Carlson conseguir, no final, unir praticamente todos os pontos da narrativa com enorme competência, e até alguma grandiosidade, houve momentos em que senti que a presença de Dante se tornava algo excessiva. Em determinadas passagens, a ligação temática parece um pouco forçada, como se a narrativa procurasse constantemente reforçar um paralelismo que já estava suficientemente estabelecido, criando alguma redundância. Acredito que, neste ponto em concreto, "menos teria sido mais", pois preservar-se-ia uma maior sensação de espontaneidade e genuinidade na história.

Mas mesmo com essa reserva é impossível não admirar a ambição deste projeto de banda desenhada. O conjunto de temas abordados é verdadeiramente impressionante. Poucas bandas desenhadas conseguem integrar tantos assuntos diferentes (literatura, arte, braille, educação, filosofia, you name it...) sem perder o foco narrativo. Mais importante ainda, consegue fazê-lo de forma orgânica, com cada novo tema a acrescentar profundidade à história principal. Pode parecer, por vezes, que a história se perde um pouco, mas logo o argumentista David L. Carlson segura as rédeas narrativas com primor.

Admito que não é uma leitura rápida nem particularmente fácil. Existem momentos em que a quantidade de informação e de referências culturais pode parecer esmagadora. Contudo, é precisamente dessa exigência que nasce a força da obra. E à medida que a narrativa avança, torna-se evidente que cada detalhe foi colocado com um propósito específico. Quando finalmente chegamos ao final, percebemos que estamos perante um daqueles raros livros que nos enriquecem enquanto leitores e enquanto pessoas.

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros
Se já muito escrevi sobre o trabalho do argumentista, pouco ou nada referi sobre os desenhos de Landis Blair que, ainda por cima, merecem especial atenção. O seu desenho, a preto e branco, assente num uso intenso de hachuras, cria uma atmosfera sombria, opressiva e simultaneamente fascinante. É um estilo muito próprio, imediatamente reconhecível, que dificilmente deixa alguém indiferente. Compreendo perfeitamente que não agrade a todos os leitores. Ainda recentemente, um amigo apaixonado por banda desenhada, e também ele autor, me confessou que não apreciava particularmente esta abordagem visual, por ser, nas suas palavras "demasiado densa". No meu caso, sucede exatamente o contrário: considero que a identidade gráfica da obra é uma das suas maiores virtudes.

Há momentos visualmente extraordinários ao longo do livro, incluindo várias ilustrações de página dupla que atingem uma escala quase épica. A técnica de Blair é original, meticulosa e profundamente marcante. Apenas tenho uma pequena reserva relativamente à representação de algumas expressões faciais que, por vezes, parecem demasiado simples quando comparadas com o impressionante nível de detalhe presente nos cenários e ambientes.

A edição do livro é também ela grandiosa, com a edição a ser em capa dura baça, com detalhes a verniz. No miolo, o papel utilizado é baço e de qualidade máxima. Encadernação, impressão e acabamentos também estão muito bem feitos. A edição é complementada por uma elegante fita marcadora e, no final, há ainda um posfácio e alguns documentos reais sobre Matt Rizzo.

Em suma, O Acidente de Caça afirma-se como uma das melhores leituras do ano, sendo uma obra grandiosa não apenas pela sua dimensão física, mas sobretudo pela quantidade de ideias, emoções e reflexões que deixa no leitor. É um livro que exige entrega, atenção e disponibilidade intelectual, mas que retribui esse esforço de forma generosa. Daqueles livros raros que nos marcam, que nos acompanham muito depois da última página e que, de certa forma, nos mudam. Para melhor.


NOTA FINAL (1/10):
9.8


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O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros

Ficha técnica
O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia
Autores: David L. Carlson e Landis Blair
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 464, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 209 x 237 mm
Lançamento: Agosto de 2026

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Análise: A Loja e A Demanda do G

A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral) - Polvo

A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral) - Polvo
A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral)

Hoje trago-vos dois livros emblemáticos da produção nacional no que à banda desenhada humorística diz respeito: A Loja e A Demanda do G. No caso do primeiro livro, editado em 2019, temos o veterano Derradé enquanto autor completo, assumindo desenhos e argumento. No caso de A Demanda do G, originalmente editado em 2016, a obra conta com Geral e Derradé no argumento e Derradé nos desenhos. Ambos os livros foram publicados pela editora Polvo.

Estas são duas obras que, apesar de diferentes na sua estrutura narrativa e nos seus universos ficcionais, partilham alguns elementos que até nem são tão comuns assim na banda desenhada nacional: o humor, a ironia, a cultura popular e, diria até, uma certa recusa em respeitar convenções narrativas demasiado rígidas. Além disso, as duas obras revelam a capacidade de Derradé (e de Geral) para cruzar o quotidiano português com situações absurdas, inesperadas e frequentemente cómicas.

Em A Loja, acompanhamos Bernardo Duarte, um homem que abandona uma carreira estável na informática para concretizar o sonho de gerir uma loja especializada em banda desenhada. Trata-se de uma ficção com claros laivos autobiográficos. Não que Derradé tenha tido - tanto quanto sei - uma loja de banda desenhada, mas por também ele ser informático de profissão e um acérrimo amante e defensor da banda desenhada. A premissa é simples e bastante direta, com vários elementos cómicos e muitas, muitas referências que o público mais conhecedor da BD em Portugal certamente vai encontrar. Tudo num registo carregado de sarcasmo, que nos deixa bem dispostos ao longo da leitura. Mesmo assim, e tal como o autor haveria de fazer, uns anos mais tarde, no seu O Fogo Sagrado, a obra também tem um lado mais sério que nos deixa a refletir de um modo mais amplo sobre vocação, realização pessoal e os riscos associados à perseguição de um sonho. 

Uma das maiores virtudes de A Loja é precisamente a sua autenticidade. O leitor percebe rapidamente que as situações descritas têm origem em experiências vividas ou observadas de perto. Esta proximidade com a realidade confere credibilidade à obra e permite uma representação bastante fiel das dificuldades enfrentadas por pequenos empresários no setor cultural português, particularmente num nicho tão específico como o da banda desenhada. Se trabalhar em cultura já não é fácil... imaginem trabalhar em banda desenhada, um "nicho do nicho" da cultura.

A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral) - Polvo
Ao mesmo tempo, a obra evita cair no dramatismo excessivo. Derradé utiliza o humor como instrumento de análise social, mostrando que o fracasso, as dificuldades financeiras e as desilusões podem ser retratados de forma leve, mas sem perder profundidade. Acaba, pois, por ser um livro especialmente bem sucedido por conseguir ser, ao mesmo tempo, divertido e melancólico. E se há coisa que nos demonstra é que - quer queiramos, quer não - muitos dos nossos sonhos individuais acabam por se confrontar constantemente com as limitações da realidade em que vivemos. Há contas por pagar, filhos por criar, sonhos por deixar.

Tal como já referi acima, considero ainda que outro dos feitos da obra é a homenagem que presta à (sub)cultura da banda desenhada. O livro funciona quase como um retrato de uma comunidade específica de leitores, colecionadores e apaixonados pela nona arte. Nesse sentido, ultrapassa a história individual do protagonista para se tornar uma reflexão sobre a sobrevivência das pequenas livrarias especializadas e sobre a persistência de certas paixões culturais num mundo cada vez mais dominado pela lógica comercial. Gosto muito deste A Loja. Não consegue, quanto a mim, ser tão profundo como O Fogo Sagrado, o meu livro favorito do autor, mas anda lá perto. E, claro, mesmo sendo um livro mascarado de comédia pura e dura, traz também uma seriedade e uma reflexão que importa referir. 

Já A Demanda do G segue um caminho radicalmente diferente. A história tem início com o desaparecimento misterioso de G, vocalista dos fictícios The BadSummerBoys Band, desencadeando uma procura que rapidamente se transforma numa viagem delirante povoada por referências musicais, literárias e culturais. Pelo percurso surgem figuras tão improváveis como Federico García Lorca, Serge Gainsbourg, Vinicius de Moraes, Joe Strummer, entre muitos outros.

Aqui as reflexões mais sérias de A Loja ou O Fogo Sagrado dão lugar a uma narrativa que não tem medo de adoptar uma lógica assumidamente absurda. Em vez de procurar coerência realista, o livro aposta mais na acumulação de situações extravagantes e encontros improváveis. Esta opção aproxima a obra de uma corrente mais nonsense, com a viagem dos protagonistas a ser mais importante pelas situações inesperadas que as personagens encontram ao longo do caminho, do que pelo próprio destino final.

Um dos elementos mais interessantes de A Demanda do G é, portanto, a utilização da cultura popular como matéria-prima narrativa. Música punk, literatura, cinema e mitologias urbanas convivem num mesmo espaço ficcional.

A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral) - Polvo
Mas onde a obra surpreende mais é na forma como está estruturada, em termos de planificação. Temos a história principal - chamemos-lhe assim - a ocupar, mais ou menos, 66% de cada página, e temos uma sub-narrativa a acontecer em simultâneo, em forma de tira, no fundo de cada página. Aqui, a narrativa aproxima-se mais de gags que reagem à ação principal da história. São os autores a comentarem a própria história, vá. Quase como se essa tira representasse um coro grego que reage à própria história, numa abordagem meta-narrativa. A ideia é super audaz e original, sendo vista poucas vezes na BD. Mas bons exemplos desta técnica podem ser encontrados, por exemplo, em Fat Freddy's Cat ou Krazy Kat. 

E quando esta abordagem funciona bem, é hilariante. Foram várias as vezes em que gargalhei com os disparates contidos nestas tiras. Por outro lado, também tenho que ser justo e referir que à medida que a leitura vai avançando, esta iniciativa se torna um pouco repetitiva e que até acaba por retirar a nossa atenção da ação principal. É um pau de dois bicos, portanto - no pun intended.

Comparando ambas as obras, percebe-se que A Loja é mais intimista e realista, enquanto A Demanda do G aposta no delírio imaginativo. Ainda que ambas nos façam rir em diversos momentos. É um humor inteligente, frequentemente autorreferencial e recheado de referências culturais. Mesmo quando os contextos são muito distintos, a "voz" do autor mantém-se reconhecível, assente numa observação irónica do comportamento humano e numa simpatia evidente pelas figuras marginais, excêntricas ou sonhadoras.

Em termos de desenho, o autor apresenta o mesmo tipo de ilustrações a que já estamos habituados, com as personagens a serem delineadas com um traço caricatural a preto e branco que evidencia emoções e contribui para o humor presente nos textos e nas situações. Em A Demanda do G, na tal parte que já mencionei das tiras humorísticas, o estilo de desenho é ainda mais direto e "cartoonesco" do que nas outras ocasiões. Percebo a escolha, até porque permite separar melhor as duas narrativas, mas acho que em termos visuais não funciona tão bem, uma vez que deixa cada página mais cheia, causando uma certa sensação de claustrofobia gráfica.

Em termos de edição, cada um dos livros publicados pela Polvo apresenta capa mole, com badanas, e bom papel baço no interior. A impressão e a encadernação são boas. Nota para o acabamento brilhante, em tons dourados, da capa de A Demanda do G, que a torna um pouco mais distinta do que o habitual nos lançamentos da Polvo.

Em suma, A Loja e A Demanda do G demonstram não apenas a versatilidade criativa de Derradé, mas também a vitalidade de uma banda desenhada portuguesa capaz de oscilar entre a reflexão intimista e o humor mais delirante. Eis duas obras diferentes, mas de certo modo complementares, unidas por um olhar irónico sobre o mundo e por uma profunda paixão pela cultura popular. Indispensáveis para os amantes de BD humorística... e não só.


NOTA FINAL (1/10):
A Loja:  8.3
A Demanda do G: 7.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral) - Polvo

Fichas técnicas
A Loja
Autor: Derradé
Editora: Polvo
Páginas: 64, a preto e branco
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 16 x 22 cm
Lançamento: Novembro de 2019

A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral) - Polvo

A Demanda do G
Autores: Geral e Derradé
Editora: Polvo
Páginas: 64, a preto e branco
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 16 x 22 cm
Lançamento: Agosto de 2016

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Aí estão os nomeados para os Prémios de Banda Desenhada da Amadora 2026!


O Município da Amadora divulgou ontem os nomeados para os Prémios de Banda Desenhada da Amadora da próxima edição do Amadora BD que se avizinha.

Entre as 24 obras que estão a concurso em 5 categorias, uma coisa permanece intacta: o regulamento dos prémios continua curto e pouco objetivo a vários níveis. E há (mais uma) polémica. 

Vejam, mais abaixo, a minha opinião sobre estas atribuições.

Mas, por agora, deixo-vos com a lista de nomeados, aproveitando para dar os parabéns a todos os autores e editores envolvidos nestas obras.


NOMEADOS PARA MELHOR OBRA ESTRANGEIRA DE BD EDITADA EM PORTUGAL

Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Edouard Cour, editado pela Ala dos Livros
Ulysse & Cyrano, de S. Servain e Xavier Dorisson, editado pela Asa/Leya
Blast - Tomo 1/2, de Manu Larcenet, editado pela Ala dos Livros
A Fera vol. 2, de Zidrou e Frank Pé, editado pel’A Seita
Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand, editado pel’A Seita


NOMEADOS PARA PRÉMIO REVELAÇÃO
A Cada Sete Ondas, de Beatriz Brajal, editado pela Chilli com Carne
Canalha Borrada, de Zé Lázaro Lourenço, editado pel’A Seita
Manda msg quando chegares, de R.G.B, editado pela Iguana, uma chancela da Penguin Random House Grupo Editorial
A Solidão do Ser, de Helena Sá, editado pel’A Seita
O Cão Invisível, de Wandson Lisboa, editado pela Iguana, uma chancela da Penguin Random House Grupo Editorial


NOMEADOS PARA MELHOR FANZINE OU PUBLICAÇÃO INDEPENDENTE
Palácio #5, de Francisco Sousa Lobo, edição de autor.
Alzine #3, de Filomena Fidalgo, Guido Barsi, Nicolas Viñolo, Fil, Hugo Teixeira, Joana Mariano, Luís Sousa, Vasco Lopes, Pedro N, Miguel Santos, Rodrigo Leme, André Vieira, Rita Torres, Marta Vicente, Marcelo Degrazia, João Gordinho, Samir Karimo, José Bandeira, Lança Guerreiro, Graziela Nascimento, Marco Fraga da Silva, Sérgio Santos, Manuel Monteiro, Sandro Leonardo, Keven Rocha, Amanda Bezerra, R Lourenço, Bruna Rodrigues, Mário André, João Gil, Sofia Santos, Sara Pires, Filipe Duarte, Sofia Bernardes, Beny-Draws, Phermad, Luciano Ferreira, José Mendes, Miguel Sánchez, Ana Mota, Rafael Sanzio, Henry Diaz, Hugo Maciel, editado pela Associação Tentáculo
Augusto Trigo: “O menino que rabiscava paredes” e “Na pista de um Sonho”, de José Baptista, Augusto Trigo e Jorge Magalhães, editado pela Câmara Municipal de Moura
FANZINE POESIA BD Nº14 – A AVÓ FLORINDA E O AVÔ QUE BEBIA CACHAÇA, de António Tavares e Paulo Diogo, Edição de Autor


NOMEADOS PARA MELHOR OBRA DE BANDA DESENHADA DE AUTOR PORTUGUÊS
Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata, editado pela Leya/Caminho
Rare Flavours, de Filipe Andrade e Ram V, editado pela Kingpin Books
Dormindo Entre Cadáveres, de Luís Moreira Gonçalves e Felipe Parucci, editado pela Zigurate
O Progresso da Humanidade, de João Sequeira e Rui Cardoso Martins editado pela Polvo
Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira, editado pela Kingpin Books


NOMEADOS PARA MELHOR EDIÇÃO PORTUGUESA DE BD
A Fera vol. 2, de Zidrou e Frank Pé, editado pel’A Seita
O Grande Poder do Chninkel, de Van Hamme e Rosinsky, editado pela Arte de Autor
Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand, editado pel’A Seita
Rare Flavours, de Filipe Andrade e Ram V, editado pela Kingpin Books
Shi - Livro 2, de Zidrou e Joseph Homs, editado pela Ala dos Livros


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Anunciados os nomeados e dados os parabéns a todos pelo trabalho desenvolvido, permitam-me então as minhas opiniões. Sem agenda secreta, sem favorecimentos, sem "tretas". Apenas e só a minha opinião.

São três as coisas com alguma gravidade que, a meu ver, devem ser referidas:


1) A primeira delas é a questão da obra de autor nacional ou obra nacional. Não é tema novo, é tema recorrente. Já muito se escreveu sobre o assunto e até mesmo eu, que já fui Presidente do Júri noutras edições, o revelei publicamente, e sem medos, mesmo durante o exercício das minhas presidências dos Prémios: o regulamento, tal como está, é insuficiente e é lato. 

Vejamos: as obras Rare Flavours e Dormindo Entre Cadáveres, ainda que sejam frutos da criação portuguesa, são obras que foram concebidas por e para mercados internacionais. Rare Flavours para o mercado americano e Dormindo Entre Cadáveres para o mercado brasileiro. Fará sentido que sejam premiadas pelos prémios de um mercado que não as desenvolveu? Talvez não faça. Mesmo assim, e porque me considero uma pessoa bastante coerente tenho que dizer que não atribuo, minimamente, as "culpas" destas nomeações aos jurados. Neste ponto, os jurados estiveram bem e não mudo de opinião. Se o Regulamento não faz menção a que a obra tenha que ser feita pelo e para o mercado português e que só procura premiar uma obra que tenha sido publicada em Portugal e que tenha na sua autoria um português, então os jurados estiveram bem. Cumpriram as regras. É o regulamento que deve corrigir esta questão. Isto, claro está, se a Organização achar que deve ser corrigida. Este ano houve algumas melhorias no regulamento, concedo, mas ainda há algum trabalho a fazer. Já o digo há 6 anos, todos os anos, desde que o Vinheta 2020 foi criado.


2) Se no ponto anterior considero que os jurados estiveram bem, neste segundo ponto em concreto tenho que lhes estender a minha crítica. Este ano, temos a atribuição de duas nomeações que me parecem completa e incrivelmente sem sentido: Manda msg quando chegares, de R.G.B, e O Cão Invisível, de Wandson Lisboa. O que coloco em causa não é a qualidade maior ou menor das obras em questão, mas uma coisa ainda mais óbvia: não são obras de banda desenhada. São livros ilustrados. Não é uma questão opinativa... é um facto. Notem que até me considero bastante tolerante em relação aos cânones da banda desenhada. Vejo muita gente, mais purista, que apenas considera como BD os livros que têm uma determinada planificação, com um conjunto de vinhetas, pranchas e balões, mais clássicos. Eu não sou essa pessoa. Acho que devemos abrir-nos a novas abordagens. Agora, vamos lá ter bom senso! É que, convenhamos, ter um livro sem qualquer sequencialidade gráfica, e apenas com algumas ilustrações e um ou outro ocasional balão... não é estarmos diante de um livro de banda desenhada. Não se trata de embirração minha. É o que é. Ou será que os Prémios de Banda Desenhada da Amadora podem premiar, no futuro, obras de culinária, só porque têm alguns desenhos? Manuais escolares? Cadernos de Normas de Segurança das Companhias aéreas? Vamos lá ser mais sérios e rigorosos.


3) Por último, e igualmente polémico, há um livro nomeado que, a julgar pelo Regulamento, não reúne as condições para ser considerado nestes prémios. Esse livro é Soli Deo Gloria, editado recentemente pela Ala dos Livros. Ora, segundo as regras - não fui eu que as inventei - "as obras a concurso deverão ter data de lançamento entre 1 de agosto do ano transato e 31 de julho do ano referente aos prémios." Ora, isto quer dizer que, para este ano, apenas podem contar as obras publicadas em Portugal entre 1 de agosto de 2025 e 31 de julho de 2026. Acontece que Soli Deo Gloria tem como data de edição o mês de Agosto de 2026. Está na ficha técnica. É factual. Logo, esta obra não podia nem devia ter sido considerada para estes prémios. Mas ninguém lê o próprio regulamento, for god's sake? Soli Deo Gloria pode até ser nomeada para o prémio no próximo ano. E até sair vencedora... mas, se os regulamentos servem para qualquer coisa, não pode ser nomeada este ano.

NOTA POSTERIOR À PUBLICAÇÃO DESTE ARTIGO: já fui informado que, na ficha técnica do livro Soli Deo Gloria aparece a data de julho de 2026. (Embora em TODOS os websites que visitei a data de edição do livro apareça como agosto de 2026, o que também constitui um erro de alguém). De qualquer maneira, sou sempre o primeiro a assumir o meu erro. Se o livro tem, efetivamente, data de publicação como julho de 2026, apresento as minhas desculpas aos envolvidos e digo: já cá não está quem falou. Pelo menos, relativamente a este terceiro ponto em particular. Tudo o resto se mantém.


Permitam-me acabar este artigo de opinião com uma reflexão. Não devemos olhar para o regulamento de qualquer coisa como algo que nos possa favorecer, se o fintarmos e formos mais espertos que os outros. Ninguém é mais esperto do que os outros e não há maior atentado à esperteza que é achar isso mesmo: que somos mais espertos do que os outros. Portanto, é melhor jogarmos sempre com fair play.
Dou-vos um exemplo: sei que a CERCIOEIRAS submeteu o seu livro inVISÍVEIS, do qual sou coordenador e autor, a estes prémios. E provavelmente até poderia estar entre os nomeados para, pelo menos, Melhor Publicação Independente. Digo eu. Mas isso não aconteceu... e porquê? Porque Luís Louro, que também participa nesse livro em questão, fazia parte do júri, o que criava um conflito de interesses. Como tal, imagino (e espero) que o livro inVISÍVEIS tenha sido prontamente descartado. E há algum problema nisso? Claro que não! Se está nas regras, é para cumprir. Sabemos que em anos anteriores houve casos em que obras de membros das famílias dos jurados foram vencedoras. Os jurados nessa situação abstiveram-se de votar, é certo, mas isso acabou por, ainda assim, condicionar a atribuição dos prémios. Até porque, não esqueçamos, são apenas três os jurados, o que é manifestamente pouco.
Falo nisto, pois considero mesmo que a bem da legitimidade, da clareza e da justiça, é melhor jogarmos sempre com fair play. Vale mais uma derrota com fair play do que uma vitória sem fair play. Digo eu, que sou um romântico. E é também importante que não haja dois pesos e duas medidas. Ou bem que cumprimos sempre as regras, ou bem que nunca as cumprimos. No meu caso, acho preferível que se cumpram sempre as regras. Desculpem-me caros amigos da CERCIOEIRAS, mas ainda bem que o vosso (nosso) livro não foi nomeado. Chamem-me choninhas... mas sempre vou preferir estar do lado dos que cumprem as regras. Ou se ganha cumprindo as regras ou não vale a pena ganhar.

Coleção de Novelas Gráficas publica obra de autor português!



Já está nas bancas, desde a passada sexta-feira, a mais recente obra da Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público.

E desta vez, temos uma obra de autor português!

Trata-se de A Armação, de Daniel Silvestre, obra vencedora dos Prémios de Banda Desenhada da Amadora, em 2024, na categoria Melhor Publicação Independente!

É um belo trabalho que apreciei bastante aquando do seu lançamento original e que nesta edição até recebe várias páginas de extras e documentação.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.
A Armação, de Daniel Silvestre

Já está em banca A Armação volume 10 da colecção novela gráfica da Levoir e do Público.

A premiada obra do ilustrador Daniel Silvestre é apresentada em versão completa. A Armação teve a sua primeira versão em 2023, no âmbito da 1.ª Residência Artística de Banda Desenhada Portugal-Bélgica, promovida pelo Instituto Camões em Bruxelas, em parceria com a Bedeteca de Beja, que a editou numa publicação sem distribuição comercial, premiada na categoria de Melhor Publicação Independente no 35.º Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, em 2024.

Daniel Silvestre tem uma carreira de mais de 20 anos no campo da ilustração e um percurso académico na área do desenho e da ilustração.

Desde 2006 exerce actividade de ilustrador editorial. Foi ilustrador residente do Museu do Porto entre 2021 e 2023. É docente convidado de desenho na Escola de Design do IPCA (Barcelos) e na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto.

Para o público da banda desenhada não é um desconhecido. Daniel Silvestre foi um dos desenhadores da obra de Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, na colecção Clássicos da Literatura Portuguesa em BD que a Levoir tem vindo a publicar com o apoio da RTP.

A Armação recupera as memórias do avô do autor, José Silvestre, que, aos dez anos, percorria os caminhos entre Porto Novo e Torres Vedras transportando peixe num burro para ajudar os pais.
Mais concretamente uma viagem em particular em que José teve de levar sozinho sobre o dorso do burro um peixe com cento e cinquenta quilos ao longo de quinze quilómetros. Partindo deste caso particular, centrado nos medos e fantasias que a criança projecta sobre a presença daquele peixe colossal, Silvestre traça um retrato sensível e bem documentado da dura vida dos pescadores no Portugal dos anos 30 do século XX.

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Ficha técnica
A Armação
Autor: Daniel Silvestre
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
PVP: 16,90€