Aproveitando a chegada às salas de cinema do filme Supergirl, com Milly Alcock enquanto protagonista, a editora Devir lançou recentemente o livro Supergirl - Mulher do Futuro, de Tom King e Bilquis Evely. Editada originalmente em 2021, esta é uma obra que depressa recebeu aclamação do público e da crítica. E compreende-se porquê, devo dizer-vos.
Este livro procura redefinir quem é Kara Zor-El para lá da habitual sombra do Super-Homem e, para tal, apresenta-nos uma Supergirl mais madura, mais complexa e mais humana, levando-nos a embarcar numa aventura espacial com contornos de conto de fadas, western e epopeia de vingança. Sim, é tudo isso, esta obra!
A premissa até é simples, com a história a começar quando Ruthye Marye Knoll, uma jovem alienígena - mas com aspeto humano - procura a ajuda de Supergirl para perseguir Krem, o homem responsável pela morte do seu pai. Mas aquilo que poderia ser apenas mais uma narrativa de vingança - já tantas vezes vista noutros livros ou filmes, convenhamos - cedo se transforma numa longa viagem através do espaço, onde a busca pela justiça acaba por se revelar muito mais importante do que o simples desejo de retaliação.
Um dos elementos mais interessantes da obra é precisamente a forma como Tom King escolhe contar a narrativa. Em vez de seguir diretamente o ponto de vista da Supergirl, a história é relatada por Ruthye, já adulta, que recorda os acontecimentos alguns anos depois. Este recurso cria uma espécie de distanciamento, o que transforma a Supergirl numa figura quase mítica aos olhos da jovem narradora. Ao mesmo tempo, devo dizer que fiquei muito bem impressionado com a escrita de Tom King que se apresenta inspirada, com bom texto, bom ritmo e uma certo requinte que não é tão frequente assim em histórias de super-heróis. Não estava à espera de uma escrita tão elegante e aprimorada, devo dizer, portanto isso foi uma bela surpresa.
Ao longo da viagem das duas personagens, o argumentista constrói uma reflexão constante sobre violência, perda, maturidade e responsabilidade. A vingança de Ruthye acaba por funcionar apenas como um ponto de partida para um discurso muito mais amplo sobre o sofrimento e as escolhas que definem as pessoas. É uma obra que fala frequentemente da capacidade de continuar em frente apesar da dor. E essa dor é sentida por cada uma destas duas mulheres à sua própria maneira.
O argumento destaca-se também pela forma como desenvolve a própria Supergirl. É verdade que a personagem foi muitas vezes retratada como uma versão secundária do Super-Homem, mas aqui ganha finalmente uma identidade própria, surgindo como alguém marcado por experiências traumáticas que Clark Kent jamais viveu, nomeadamente a recordação da destruição de Krypton e da vida que perdeu. E isso gera, claro, uma profundidade na personagem que me agradou bastante. E são especialmente as fragilidades da personagem aquilo que a torna mais interessante. Esta não é uma figura perfeita ou inalcançável, mas sim uma mulher que tenta fazer o melhor possível num universo frequentemente cruel e injusto.
Sendo um belo livro de banda desenhada, com uma abordagem madura e menos infantil, também devo dizer que, por vezes, a história parece mais preocupada com as ideias que pretende transmitir do que com a ação propriamente dita, o que pode afastar alguns leitores.
Outra coisa que não apreciei tanto na obra é que, sensivelmente a meio da mesma, a viagem de Kara e Ruthye começa a acumular episódios, encontros e desvios que nem sempre parecem contribuir de forma significativa para o desenvolvimento da história principal. Parecem "fillers". Embora Tom King mantenha a qualidade dos diálogos e dos temas abordados, concedo, fica a sensação de que várias personagens e acontecimentos introduzidos ao longo da demanda das personagens não são plenamente aproveitados nem têm o impacto dramático que inicialmente prometiam. Alguns destes elementos acabam por desaparecer da narrativa quase tão rapidamente como surgem, tornando o percurso algo irregular e diluindo parte da força emocional que a obra exibe nos seus momentos mais marcantes. Felizmente, a obra recupera o rumo na reta final e termina com a intensidade que o tornou tão elogiado.
Visualmente, o álbum é absolutamente extraordinário. O trabalho meticuloso de Bilquis Evely eleva cada página a um nível impressionante. Os cenários alienígenas, os planetas visitados pelas protagonistas e a vastidão do espaço são retratados com um detalhe e uma beleza que raramente encontramos nas séries regulares de super-heróis. Existe uma elegância constante no traço que ajuda a equilibrar os momentos mais duros e violentos da narrativa.
E também a componente cromática merece igualmente destaque, com as cores a contribuírem para reforçar o ambiente onírico da obra, alternando entre paisagens luminosas e momentos mais sombrios. O resultado é um universo rico e visualmente inesquecível que parece saído de um grande livro ilustrado de fantasia.
Apesar de todas as suas qualidades, Supergirl - Mulher do Futuro poderá não conquistar todos os leitores. Quem procura uma aventura clássica de super-heróis, repleta de combate e espetáculo, poderá estranhar o ritmo mais contemplativo e a forte componente introspectiva da narrativa. É uma obra mais interessada em explorar personagens e emoções do que em oferecer ação constante. E, talvez mesmo por esta razão, e apesar de algumas ressalvas que apontei acima, gostei bastante deste livro.
Quanto à edição, a obra apresenta capa dura baça, bom papel brilhante no interior e uma excelente qualidade ao nível da encadernação, impressão e acabamentos. No final, há ainda uma galeria de desenhos e capas alternativas, com 12 páginas.
Em suma, Supergirl - Mulher do Futuro afirma-se como uma das melhores histórias protagonizadas por Kara Zor-El e uma das obras mais interessantes da DC Comics dos últimos anos. Tom King oferece-nos um argumento inteligente, emocionalmente rico e muito bem escrito, enquanto Bilquis Evely produz algumas das páginas mais belas que a personagem alguma vez recebeu.
NOTA FINAL (1/10):
8.8
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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