A Oficina do Livro, uma chancela do Grupo LeYa, publicou no passado mês de abril - ainda bem a tempo do Dia da Mãe - o livro Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa.
Esta é uma obra de estreia para as duas autoras portuguesas. Diana Rodrigues é uma influencer, criadora da página de instagram mae_e_peras, que conta com mais de 500.000 seguidores. Nessa página, a autora partilha, com humor, um pouco da sua experiência de mãe e das agruras adjacentes a essa função que ocupa 24h por dia, 7 dias por semana.
Daí à adaptação desses momentos e desafios da maternidade para banda desenhada, foi um pequeno passo.
Mãe e Peras é, por isso, uma obra que parte da experiência quotidiana da maternidade para construir um retrato simultaneamente divertido, leve e sincero, com o qual, não só as mães, mas também os pais, nos podemos identificar.
A autora vai relatando-nos pequenas situações do dia a dia, transformando aquilo a que podíamos chamar de episódios aparentemente banais, como birras em locais públicos, noites mal dormidas, ou aquelas perguntas inesperadas e inconvenientes das crianças, em momentos humorísticos que colocam um sorriso nas nossas caras. Afinal de contas, todos nós já passámos por isso.
Muitas das piadas resultam da exageração de pequenos dramas quotidianos ou da forma como as expectativas de uma mãe colidem com a imprevisibilidade das crianças. É um humor leve, acessível e eficaz, que raramente procura mais do que arrancar um sorriso cúmplice. Não diria que seja um humor para nos fazer chorar a rir, mas antes para nos colocar um sorriso na face.
E, por detrás dos sorrisos com que ficamos enquanto lemos este livro, a mensagem subjacente que retemos é que, de facto, não é fácil ser-se mãe. É desgastante em termos de tempo, de energia, de paciência e até de recursos financeiros. Mas também não há aqui - felizmente! - uma tentativa de vitimização, mostrando que a maternidade é uma coisa má. Não, longe disso. Até porque, mesmo sendo difícil, também será certamente a melhor coisa do mundo para muitas mães. E mesmo nos momentos mais caóticos e difíceis, existem memórias e afetos que acabam por dar sentido a todos os desafios.
Um dos méritos da obra - que se apresenta mais como livro de tiras humorísticas, não havendo uma sequência muito grande entre ilustrações - está precisamente na sua honestidade. Diana Rodrigues afasta-se das imagens idealizadas da maternidade que tantas vezes encontramos nas redes sociais e em determinados discursos. Em vez disso, opta por mostrar mães reais, com defeitos, dúvidas, cansaço e frustrações. Mães falíveis. Essa autenticidade torna a leitura particularmente próxima e permite que muita gente se possa rever nas situações apresentadas. As situações retratadas não são, portanto, extraordinárias, mas são, precisamente, aquelas que acontecem todos os dias em milhares de casas. E essa universalidade ajuda a explicar o potencial de identificação que este Mãe e Peras traz consigo.
Com efeito, este é um daqueles livros que poderá chegar a muitas pessoas que habitualmente não lêem banda desenhada. E isso é claramente positivo.
O livro é ilustrado por Marina Costa, que nos oferece desenhos simples e expressivos, de notável eficiência, que casam muito bem com as situações retratadas. As expressões das personagens, bem como as suas reações, são exageradas, reforçando o cariz cómico da obra. Não são desenhos que primem por uma complexidade ilustrativa muito grande, mas também não seria isso que a obra necessitaria. As cores vivas e diversas também conferem um estilo moderno e, novamente, eficiente ao todo.
Sobre a presença de Marina Costa nesta obra, tenho que fazer uma referência. Incomodou-me bastante que o nome da autora nunca apareça na capa, na lombada, na contracapa ou no frontispício do livro. Temos que procurar na ficha técnica do livro a menção ao nome de Marina Costa para verificarmos que foi ela a autora das ilustrações, da capa e da paginação do livro. Ora, tratando-se de uma obra a quatro mãos, que sem a ilustradora não seria um livro de BD/tiras humorísticas, parece-me uma grande falta de noção editorial. Mesmo aceitando que este foi um "trabalho de encomenda", em que Marina Costa pode ter sido recrutada apenas para ilustrar as histórias já definidas, continuo a achar que a menção ao nome da autora na capa do livro, era mandatória. É importante que o nosso trabalho seja devidamente creditado e respeitado, diria. Portanto, deixo essa nota.
De resto, o livro apresenta capa mole baça, com badanas e verniz localizado. No interior, o papel é brilhante e de boa qualidade. A impressão e encadernação também são boas.
Em suma, a estreia de Diana Rodrigues e Marina Costa na banda desenhada, com este Mãe e Peras é particularmente bem-vinda. Sem pretensões excessivas, as duas autoras conseguem criar uma obra que comunica diretamente com o seu público-alvo e que aproveita bem as ferramentas narrativas da 9.ª arte. Uma estreia promissora e uma aposta que me parece bem pensada por parte da Oficina do Livro.
NOTA FINAL (1/10):
7.0
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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