sexta-feira, 24 de julho de 2026

Análise: Brigantus #2 - O Picto

Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor

Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H.

Editado por cá no início de 2025, quando ainda não tínhamos perdido Hermann, um dos autores mais prolíficos da banda desenhada europeia, que viria a falecer já em 2026, este segundo capítulo de Brigantus, intitulado O Picto, encerra o último díptico da extensa carreira do autor.

Esta é uma história que nos leva à Britânia, ao coração da Escócia picta, numa altura em que o avanço das legiões romanas ameaça esmagar os últimos focos de resistência aí presentes. A narrativa continua a acompanhar Melo Brigantus, antigo soldado romano repudiado e expulso da legião, que havia encontrado refúgio entre os pictos, mas esse refúgio é apenas inicial, pois este homem parece ser persona non grata aonde quer que vá. 

Aliás, diria que esse é o cerne da questão: Brigantus é um homem dividido entre mundos opostos, alguém que não pertence verdadeiramente a lado nenhum. Um perfeito "outcast". Essa condição de excluído e de potencial traidor torna-se, pois, o principal motor dramático do álbum.

Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
O argumento desenvolve-se de forma muito direta, sem grandes adornos ou desvios narrativos. No fundo, estamos perante uma história sobre um homem rejeitado por todos aqueles que o rodeiam e que procura uma forma de redenção. A história funciona, sim, mas é algo direta em demasia, sem que haja grande profundidade no tema ou nas personagens.

Confesso que o primeiro tomo desta série, Banido, me deixou com a promessa de estarmos diante de algo mais especial. Havia elementos interessantes na construção do contexto histórico e na situação ambígua do protagonista, que pareciam apontar para um desenvolvimento mais marcante. No entanto, este segundo volume acaba por confirmar que Brigantus dificilmente figura entre os melhores trabalhos de qualquer um dos seus autores.

O argumento de Yves H. cumpre os mínimos exigíveis, mas raramente surpreende. Os acontecimentos sucedem-se de forma algo previsível e faltam momentos verdadeiramente memoráveis capazes de elevar a obra acima da média. Não me interpretem mal: a trama funciona e este livro até se lê bem, mas pouca coisa entusiasma. É uma leitura fluida, mas também algo esquecível. 

Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
Ainda assim, reitero que gostei da opção de abandonar os cenários do faroeste que tantas vezes marcaram as colaborações entre Hermann e Yves H., pai e filho, em detrimento de um ambiente inspirado nas guerras entre romanos e pictos, o que permitiu a exploração - ainda que superficial - de um cenário, de uma cultura e de um conflito diferentes. 

O que se calhar ainda posso referir é que senti uma clara carga emocional associada à leitura deste álbum, por este ser um livro que serve, de certa forma, para nos despedirmos de Hermann, um dos maiores mestres da banda desenhada europeia. É certo que este não foi o último álbum feito por Hermann antes do seu falecimento. A última obra a sair foi Cartagena, que acredito que a editora Arte de Autor venha a publicar junto de nós, se bem que ainda não há nenhuma confirmação oficial nesse sentido. Seja como for, e tendo eu lido este segundo tomo de Brigantus já depois do desaparecimento de Hermann, foi com um certo sentido de nostalgia e agradecimento que fiquei pelo conjunto da sua obra. A série Comanche, em especial, marcou-me bastante enquanto leitor de BD, quando ainda era criança. 

Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
Em termos de desenho, e em linha com o que vinha a acontecer já há alguns anos, sente-se que o autor estava menos inspirado e capaz neste Brigantus, com as suas ilustrações a evidenciarem uma perda de precisão e de exatidão. Certas proporções nas faces e corpos das personagens parecem estranhas, algumas perspectivas são construídas de forma pouco convincente e existe uma irregularidade gráfica que por vezes distrai da narrativa.

E as figuras humanas são, talvez, o exemplo mais evidente dessas fragilidades. Cabeças e corpos surgem frequentemente deformados, com traços por vezes excessivamente feios ou desadequados. Em vários momentos, as personagens parecem mal resolvidas e distantes do nível de excelência que outrora associávamos ao desenhador belga.

Curiosamente, esse mesmo lado grotesco acaba por funcionar melhor nas sequências mais violentas e viscerais deste Brigantus. As cenas de guerra, em concreto, até beneficiam dessa crueza expressiva, transmitindo uma sensação de brutalidade que encaixa bem no ambiente da obra. Gostei particularmente de alguns desses momentos de combate e também da sequência passada em alto-mar, uma das passagens visualmente mais conseguidas do álbum. E, claro, em termos de cores, Hermann manteve-se um mestre até ao fim dos seus dias. 

Mesmo assim, tenho que ser sincero e dizer que este Brigantus não é propriamente um trabalho que possamos considerar como memorável. Quer em termos narrativos, quer em termos de ilustração.

A edição da Arte de Autor mantém-se em linha com o volume anterior, apresentando capa dura baça, bom papel brilhante no miolo e um bom trabalho ao nível de impressão e encadernação.

Em suma, Brigantus #2 - O Picto é uma leitura competente, mas dificilmente memorável. A história nunca ultrapassa verdadeiramente os limites de um drama histórico simples e o desenho revela as debilidades de um autor já no ocaso da vida. Ainda assim, há algo de admirável na perseverança de Hermann, que continuou a trabalhar até aos seus últimos dias. Mesmo longe do seu auge, o mestre belga merece o respeito e a gratidão de todos os leitores pela extraordinária contribuição que deixou à banda desenhada europeia.


NOTA FINAL (1/10):
6.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor

Ficha técnica
Brigantus #2 - O Picto (2 de 2)
Autores: Hermann & Yves H.
Editora: Arte de Autor
Páginas: 586, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Fevereiro de 2025

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Análise: CoBrA - Porto

CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros

CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros
CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes

Foi há algumas semanas que chegou ao fim a série CoBrA, editada pela Ala dos Livros, e extraída da mente de Marco Calhorda que, para tamanha empreitada, contou com quatro autores - três deles portugueses - para as ilustrações desta ambiciosa e historicamente (muito) relevante banda desenhada nacional. 

Este mais recente livro chama-se CoBrA - Porto e conta com as ilustrações de Paulo Montes. Depois de Operação Goa e dos dois tomos de Operação Conacri, a ação da série leva-nos finalmente para o território de Portugal, durante o período dos anos 80, numa altura em que o país procurava encontrar estabilidade após o turbilhão político, militar e social desencadeado pelo 25 de Abril. 

Passaram-se mais de dez anos desde os acontecimentos de Conacri e nesse período de tempo, tudo tinha mudado em Portugal. O império colonial tinha desaparecido, o regime ditatorial tinha caído, a Guerra Colonial tinha terminado e atores importantes de todo esse universo, como Jorge Jardim, o fundador da agência CoBrA, deixaram de estar presentes. Contudo, algumas das feridas desse tempo permaneceram abertas... até mesmo ao tempo atual,  diria eu, já que ainda vivemos num tempo em que o 25 de Abril está bem fresco, muito embora já se tenham passado mais de 50 anos. 

CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros
Mas voltando à história, é quando uma vaga de atentados terroristas perpetrada pelas FP-25 começa a atingir Portugal, que Afonso Costa e Ivone Reis, antigos agentes do CoBrA, se voltam a encontrar no centro dos acontecimentos, colaborando nas investigações conduzidas pela Polícia Judiciária para desmontar uma das mais violentas organizações clandestinas da nossa história recente. De facto, as Forças Populares 25 de Abril (FP-25) foram uma organização armada clandestina de extrema-esquerda que atuou em Portugal entre 1980 e 1987, levando a cabo atentados, assaltos e ações terroristas que provocaram mais de duas dezenas de mortos, alegadamente em defesa dos ideais revolucionários que consideravam traídos após o 25 de Abril.

A partir deste tema, não tantas vezes comentado, narrado ou discutido, Marco Calhorda volta a construir uma narrativa que cruza ficção e realidade histórica, utilizando este contexto para desenvolver um conto de espionagem. Tal como nos volumes anteriores, os factos históricos servem, pois, de alicerce a uma narrativa de entretenimento, mas até diria que desta vez existe, quiçá, uma dimensão mais pessoal e emocional na narrativa, pois as personagens de Afonso Costa e Ivone Reis não estão apenas a enfrentar inimigos, mas mostrando-se confrontadas com as consequências das escolhas feitas ao longo das décadas antecedentes. Isso confere ao álbum um tom mais melancólico e reflexivo, que acaba por ser bastante adequado, tendo em conta que estamos perante um capítulo final.

Ao longo da história presente neste CoBrA - Porto, encontramos vários momentos de ação e tiroteios, que quase nos parecem transportar para um filme policial de ação americano, o que é especialmente impactante para o leitor que sente, por um lado, uma certa proximidade histórica a estes eventos, mas, por outro, e ao mesmo tempo, um certo distanciamento por poder custar a acreditar que, de facto, houve tanta violência a ser feita à custa da ação das FP-25. É claro que, repito, há aqui uma forte componente ficcional, não deixando de ser verdade que o enredo se apoia em eventos e lugares que, efetivamente aconteceram mesmo. Apreciei também o facto da introdução das mulheres strippers que acabou por emprestar a este volume um tom mais noir e uma certa sensualidade.

CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros
A história torna-se, portanto, interessante para acompanhar da primeira à última página, fazendo com que esta seja uma leitura que se faz de um só trago. Mesmo que, tal como aconteceu comigo, possamos regressar à obra para uma segunda e mais atenta leitura. 

Também é justo dizer que Marco Calhorda é hoje um argumentista mais sólido do que era quando iniciou esta aventura com Operação Goa. A evolução ao longo dos vários volumes é, pois, evidente, já que o autor foi refinando a sua forma de construir cenas, de gerir o ritmo narrativo e de organizar a informação histórica dentro da própria narrativa. Aquilo que no primeiro livro, por vezes, parecia excessivamente apressado ou fragmentado surge agora mais amadurecido e controlado.

Ainda assim, algumas das fragilidades que fui apontando aos volumes anteriores continuam presentes, embora de forma menos acentuada. Também neste CoBrA - Porto, em determinados momentos, voltei a sentir alguma dificuldade em acompanhar com total clareza certas ligações entre personagens, acontecimentos e localizações. Não se trata de um "problema" grave, até porque a história continua perfeitamente legível, mas parece-me existir, ocasionalmente, uma certa dificuldade em encontrar o equilíbrio ideal entre uma narrativa demasiado explicativa e outra que deixa algumas peças importantes por preencher. 

Olhando agora, para a globalidade da série, penso ser justo dizer que se há algo que a série CoBrA conseguiu fazer de forma particularmente eficaz ao longo dos seus quatro volumes, foi pegar em episódios frequentemente negligenciados da história portuguesa recente e transformá-los em matéria-prima para uma narrativa acessível e cativante. Desde Goa até Conacri, passando agora pelo período das FP-25, Marco Calhorda demonstrou uma capacidade rara para identificar acontecimentos históricos pouco explorados, transportando-os para o universo da BD sem perder o equilíbrio entre o rigor e o entretenimento.

Aliás, até creio que nem sempre é suficientemente referido o valor documental deste projeto. Num país onde muitas vezes se lamenta o desconhecimento das gerações mais novas sobre o Estado Novo, sobre a Guerra Colonial ou sobre os complexos anos do pós-25 de Abril, CoBrA desempenha quase uma função de serviço público. Através de um meio tão apelativo e acessível como a BD, Marco Calhorda convida leitores de diferentes idades a descobrir episódios marcantes da nossa história contemporânea. E fá-lo sem transformar os livros em manuais escolares, privilegiando sempre a aventura, a ação e o suspense.

É precisamente essa combinação entre entretenimento e divulgação histórica que me parece ser a principal força da série. Os livros de CoBrA conseguem despertar curiosidade sobre os temas que abordam. Muitas vezes, terminada a leitura, o impulso natural é procurar saber mais sobre os acontecimentos reais que inspiraram a narrativa. Poucas obras nacionais conseguem gerar esse efeito de forma tão consistente e isso é um mérito que deve ser reconhecido.

CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros
Falando em méritos, no campo visual, Paulo Montes revela-se uma escolha bastante feliz para encerrar a saga. Depois do estilo mais "cartoonesco" de Osvaldo Medina em Operação Conacri - Tomo 2, este novo livro recupera uma abordagem mais realista, aproximando-se visualmente da linha definida por Daniel Maia e posteriormente continuada por Zoran Jovicic. Essa maior proximidade estética ajuda inclusivamente a reforçar a sensação de unidade da série. Considero apenas que, devido ao traço de Osvaldo Medina ser o mais diferente dos quatro autores, talvez pudesse ter sido Osvaldo a assinar esta tomo, que é independente, em detrimento de ter ilustrado a segunda parte de uma história já começada por outro autor.

De resto, Paulo Montes é especialmente bem sucedido na caracterização, em grande plano, das personagens e das suas expressões faciais, e na ilustração dos veículos de época que são um mimo para os olhos - especialmente se, como eu, apreciarem os carros do tempo em que decorre a ação desta obra. 

É verdade que surgem ocasionalmente algumas posturas corporais menos naturais ou menos elegantes, mas são casos pontuais. Também dei conta de, em várias situações, as personagens segurarem as armas com mãos diferentes, coisa que pode ser vista como um erro de continuidade visual. Mas, no essencial, Paulo Montes entrega um trabalho sólido, competente e visualmente apelativo, contribuindo para que este volume mantenha o bom nível artístico que sempre caracterizou a série.

A edição do livro segue aquilo que já havia sido feito nos anteriores volumes da série. O livro tem capa dura, em tecido, que é ainda coberta por uma sobrecapa. No interior, o livro tem bom papel brilhante e um bom trabalho ao nível da encadernação e impressão, se bem que, entre as páginas 73 e 78, verifiquei que os tons a preto estavam menos carregados e contrastados do que o expectável. Pode estar relacionado com o meu exemplar apenas, sendo um pequeno erro da gráfica que imprimiu o livro. Mas deixo a nota. Para além disso, temos ainda vários textos adicionais: uma introdução de Marco Calhorda, um prefácio de Manuel Castelo Branco e um posfácio de Ana Gomes. Há, por fim, ainda quatro páginas em que nos são dados estudos e esboços de páginas.

Em suma, CoBrA – Porto encerra de forma digna uma série que conquistou um lugar muito próprio na banda desenhada portuguesa. Marco Calhorda conclui aqui um percurso marcado por uma evidente evolução enquanto argumentista e por uma permanente preocupação em recuperar episódios esquecidos da nossa história recente. Já Paulo Montes oferece um trabalho gráfico consistente e alinhado com a identidade visual que ajudou a definir o universo CoBrA. Mais do que um simples álbum de ação ou espionagem, este livro - tal como a série no seu conjunto - afirma-se como uma obra de enorme relevância cultural, histórica e editorial. E só por isso, independentemente das pequenas imperfeições que possam ser apontadas, CoBrA merece ser lida, discutida e valorizada por todos aqueles que acompanham a banda desenhada portuguesa.


NOTA FINAL (1/10):
8.9


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros

Ficha técnica
CoBrA - Porto
Autores: Marco Calhorda e Paulo Montes
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 88, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 270 mm
Lançamento: Junho de 2026

Análise: Partir, Ficando

Partir, Ficando, de Christophe Chabouté - Levoir - Jornal Público

Partir, Ficando, de Christophe Chabouté - Levoir - Jornal Público
Partir, Ficando, de Christophe Chabouté

O quarto lançamento da Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público trouxe-nos um dos livros de banda desenhada que mais me impactou durante este ano de 2026. Falo de Partir, Ficando, de Christophe Chabouté. 

Confesso ser fã da obra do autor francês e de já ter adorado os outros álbuns editados em Portugal pela Levoir, nomeadamente, Moby Dick, Táxi Amarelo ou Acender Uma Fogueira, bem como outros livros de Chabouté que li em edições estrangeiras. E a bela mensagem deste Partir, Ficando até me faz colocar este livro, em particular, como o meu preferido, a par de Moby Dick, do autor.

Isto porque este é um daqueles livros que consegue transformar-nos de forma silenciosa. E, sinceramente, e por muito que eu gostava que acontecesse o contrário, a verdade é que são raros os livros que nos conseguem mudar. Ou, pelo menos, impelir-nos a tentar fazê-lo. E isto não acontece por esta ser uma obra que seja particularmente complexa ou ambiciosa na forma como constrói o seu enredo, mas precisamente porque alcança algo muito mais difícil: faz-nos olhar para o mundo - e para nós próprios - de maneira diferente.

Partir, Ficando, de Christophe Chabouté - Levoir - Jornal Público
A premissa da obra é de uma simplicidade quase desarmante. Alexandre é um homem comum, um funcionário de um parque de estacionamento cuja vida decorre ao ritmo monótono e previsível dos dias sensaborões que passam sem deixar marca. 

É um daqueles indivíduos que encontramos todos os dias sem verdadeiramente os ver. Vive sozinho, trabalha sozinho e parece existir num estado de discreta invisibilidade social. Quantas pessoas não conhecemos que encaixam perfeitamente nesta descrição? Mas, durante este ano, nas suas férias, procura fazer algo diferente. E enceta uma viagem ao Alasca, uma fuga para um lugar longínquo daquele em que vive, que lhe permita quebrar a prisão silenciosa da rotina em que se tornou a sua vida. Mas o destino intervém - não vou contar como, terão que ler o livro - e impede-o de partir nessa tão desejosa viagem.

Impossibilitado de viajar, Alexandre aluga um quarto de hotel no lado oposto da praça em que vive. Só para aproveitar as férias já marcadas e, pelo menos, tentar fazer algo diferente. E é este o ponto de rotura, com Chabouté a levar-nos a uma profunda reflexão sobre aquilo que significa realmente viajar.

Partir, Ficando, de Christophe Chabouté - Levoir - Jornal Público
A grande força deste Partir, Ficando reside, diria, na capacidade de desmontar uma das ilusões mais modernas da nossa época: a ideia de que a felicidade, a descoberta ou a realização pessoal existem sempre algures longe de nós. Parece que precisamos de ir para longe do sítio em que vivemos para que as viagens que fazemos pareçam mais espetaculares. Além disso, acresce o facto de vivermos numa época em que glorificamos a deslocação constante, a experiência seguinte, o próximo destino, a próxima fotografia. Somos educados para acreditar que a plenitude está sempre noutro lugar. Chabouté responde a essa inquietação com uma pergunta simples: e se estivermos a procurar no sítio errado?

Ao alugar um quarto na mesma rua onde sempre viveu, Alexandre faz algo aparentemente ridículo. A ideia parece quase absurda. Contudo, aquilo que muda não é o espaço geográfico que ocupa, mas a forma como passa a observá-lo. O seu bairro não se transforma; aquilo que se transforma é o seu olhar. A forma como vê o mundo, as pequenas e as grandes coisas à sua volta. E as pessoas que o rodeiam. E é aí que reside a verdadeira aventura.

Poucos autores possuem a capacidade de encontrar poesia onde a maioria das pessoas vê apenas banalidade. Chabouté é um desses raros criadores. Em vez de nos apresentar monumentos, paisagens exóticas ou acontecimentos extraordinários, oferece-nos janelas, passeios, árvores, vizinhos, cafés e ruas comuns. O quotidiano deixa de ser apenas quotidiano e revela-se como um território vasto, misterioso e profundamente humano.

Partir, Ficando, de Christophe Chabouté - Levoir - Jornal Público
Há, portanto, algo quase zen nesta proposta narrativa. O livro parece recordar-nos constantemente que a vida não acontece apenas nos grandes momentos que guardamos na memória. Acontece também - e talvez sobretudo - nos pequenos instantes que normalmente deixamos escapar. 

Por isso mesmo, Partir, Ficando poderá não ter o mesmo impacto junto de todos os leitores. Tenho a convicção de que esta é uma obra que cresce à medida que também nós, leitores, crescemos. Não porque um leitor jovem seja incapaz de a compreender, mas porque certos temas exigem experiência de vida para serem verdadeiramente sentidos. É difícil medir a riqueza de uma rotina quando ainda não se viveu dentro dela. É difícil compreender a solidão urbana quando ainda não se experimentou o peso dos dias semelhantes uns aos outros. E é difícil reconhecer a beleza escondida nos detalhes quando ainda se procura incessantemente o brilho das grandes novidades.

Por tudo isto, considero este um livro maduro, destinado a um público mais vivido. Os leitores mais maduros - e, sobretudo, aqueles que já acumularam algumas derrotas, desilusões, recomeços e aprendizagens - encontrarão aqui uma ressonância especial. Quem nunca acreditou que precisava de mudar de cidade, de trabalho, de país ou de vida para finalmente encontrar aquilo que procurava? Quem nunca confundiu movimento com transformação?

Partir, Ficando, de Christophe Chabouté - Levoir - Jornal Público
E atenção que, a este respeito, Chabouté nunca cai na armadilha de oferecer respostas fáceis ou mensagens motivacionais simplistas. A obra não nos diz que devemos abandonar os nossos sonhos de viajar. Nem, tampouco, sugere que o mundo exterior não vale a pena ser descoberto. O que faz é muito mais subtil: lembra-nos que nenhuma paisagem distante resolverá aquilo que não conseguimos resolver dentro de nós.

Já falei muito sobre o argumento do livro, mas ainda falta mencionar o belíssimo desenho de Chabouté. Não há aqui grandes novidades, exceptuando a presença de cor em determinados momentos da história - que normalmente é a preto e branco puro - bem como a reprodução das páginas do caderno de viagem do protagonista. De resto, o preto e branco de Chabouté continua a ser verdadeiramente fantástico. Não é apenas bonito... também é expressivo. Há páginas inteiras em que uma sombra comunica mais do que muitos diálogos. Há silêncios que pesam, respiram e emocionam. Poucos desenhadores compreendem tão bem que o vazio também conta uma história.

Quanto à edição da obra, o livro conta com a habitual capa dura baça. No miolo, o papel também é baço e de boa qualidade. A encadernação e impressão também estão boas. Há ainda um prefácio da minha autoria.

Em suma, Partir, Ficando é uma banda desenhada de uma beleza rara, profundamente humana, melancólica, contemplativa e poética. Uma obra que fala de viagens, mas que, afinal, fala de presença. Que fala de distância, mas que, afinal, fala de proximidade. Algumas viagens terminam no exato momento em que regressamos a casa. Mas esta viagem que Chabouté nos propõe, começa precisamente em casa. E é talvez nesse ponto que reside a grandeza desta obra. Na forma discreta como altera a nossa percepção do mundo. Sem ruído. Apenas recordando-nos algo que sempre soubemos, mas que tantas vezes esquecemos: que a vida não é feita apenas dos lugares onde vamos, mas da atenção com que escolhemos habitar os lugares onde já estamos. É um dos livros do ano!


NOTA FINAL (1/10):
10.0

Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Partir, Ficando, de Christophe Chabouté - Levoir - Jornal Público

Ficha técnica
Partir, Ficando
Autor: Christophe Chabouté
Editora: Levoir
Páginas: 152, a preto e branco, com algumas vinhetas a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
Lançamento: Julho de 2026


As novidades da Arte de Autor para o segundo semestre de 2026!


Hoje é dia de olharmos para as novidades que a editora Arte de Autor prepara para o segundo semestre de 2026! Não são muitas as obras avançadas pela editora, por agora, mas são propostas bastante interessantes que refletem, acima de tudo, continuidade editorial com o trabalho que a Arte de Autor tem vindo a fazer nos últimos meses.

Acredito que possa haver ainda espaço para o lançamento de mais livros, mas, pelo menos por agora, são estas as obras confirmadas para o segundo semestre do ano.

E atenção que, no final deste artigo, há uma nota explicativa sobre duas das mais aguardadas obras da editora. Leiam tudo, por favor.

Eis, então, as novidades da Arte de Autor para o segundo semestre de 2026: