quarta-feira, 22 de julho de 2026

Análise: Heksa - A Bruxa

Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita

Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita
Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim

Se há casos em que uma opção editorial pode condenar uma obra, este Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim, inserido na recente coleção Âmbar, da editora A Seita, dedicada a obras de autores polacos, é um perfeito exemplo.

Há muito para falar da obra, da sua história, das suas ilustrações, mas não consigo começar este texto sem referir isso mesmo: que uma pequena opção editorial arruinou por completo a minha experiência de leitura.

O que aconteceu em concreto?

Muito sumariamente, este Heksa - A Bruxa utiliza muitas expressões em silésio. Para quem não sabe, o silésio é uma língua variante do polaco, que é tradicional da região da Silésia, no sul da Polónia. É um idioma muito próximo do polaco, mas com vocabulário, pronúncia e características próprias, sendo por alguns considerado um dialeto e por outros uma língua distinta. 

Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita
Face a isto, A Seita optou por preservar em silésio as expressões que também estavam em silésio na obra original, dotando o livro de uma página de glossário no final e de um marcador de página com o mesmo glossário. Assinalo o esforço do gesto, mas não foi suficiente para tornar menos penosa a leitura desta obra. Conhecendo o cuidado editorial dos vários membros d' A Seita, bem sei que esta não foi uma opção leviana ou despreocupada - caso contrário nem sequer teria sido feito o marcador de página - e até acredito que a ideia inicial da editora tenha sido a de ser fiel à obra original e à identidade cultural que a autora pretende transmitir. Imagino que a ideia foi "se a obra original tem expressões em silésio, então que as mantenhamos deste modo na edição portuguesa". 

Mas foi uma má opção. Isto porque aquilo que funciona de forma natural para um leitor polaco, não permite o mesmo efeito junto de um leitor português. A maioria dos polacos, mesmo aqueles que não conhecem verdadeiramente bem o silésio, têm capacidade de o compreender. Nem que seja "por alto". Agora, o português comum não sabe nada de silésio. Nem de polaco, quanto mais de silésio.

Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita
E isso faz com que o problema da obra resida precisamente na experiência de leitura. Embora a inclusão de um glossário permita, em teoria, compreender o significado das expressões utilizadas, a necessidade constante de interromper a leitura para consultar as notas acaba por quebrar o ritmo da narrativa. E em vez de o leitor permanecer imerso na história, vê-se obrigado a alternar repetidamente entre o texto principal e as páginas finais do livro ou o marcador de página. Se fosse algo que acontece esporadicamente, eu não faria alusão alguma a esta situação. Mas é algo constante e recorrentye. Dou-vos um exemplo: na página 105 do livro, encontramos os seguintes diálogos: "O que é que estás a fanzolic? É o que te dodom. Não acredito... Oh, Ciul! Vão-nos wyciepnac? E a nós também? E é quase Santa Bárbara! Greve? Estou mesmo a widza isso..." Acham que uma leitura assim é possível e agradável? Pois, eu também não.

E, por essa razão, considero que uma tradução integral das expressões em silésio para português, teria sido a opção mais adequada para a edição portuguesa. Enquanto um leitor polaco consegue geralmente inferir ou compreender o sentido das palavras em silésio devido à proximidade linguística e cultural, o leitor português parte de uma posição completamente diferente. Para se ser fiel à obra original, talvez se pudesse colocar o texto em silésio numa outra língua... mas tudo devia ter sido traduzido para português. Lamentavelmente, isso não aconteceu.

Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita
Até porque, e agora sim, focando-me mais na obra, este Heksa - A Bruxa até é uma leitura interessante. Tendo até recebido um importante prémio de BD em Lódz, a obra conta-nos a história de uma mulher que chega a uma comunidade operária na Silésia, nos anos 1920, e que, de um modo quase automático, causa verdadeiro tumulto nas gentes da terra. Não será um tema novo ou uma história completamente original - lembro-me de ter sido especialmente remetido para o filme Chocolate, com Juliette Binoche e Johnny Depp, que era baseado no livro homónimo de Joanne Harris. De facto, várias obras já exploraram esta ideia de uma mulher - ou um homem, como em Armazém Central, por exemplo - chegarem a uma localidade fechada e, por serem pessoas mais abertas ao mundo, terem chocado a pequena população dessa terra recôndita.

Neste caso, em Heksa - A Bruxa, no centro da narrativa está Pelagia, uma mulher independente, bela, sofisticada e carismática que desperta a atenção e o desejo de muitos habitantes, incluindo do jovem Alojz. Até as mulheres, pelo menos as mais jovens e mais abertas, querem ser como Pelagia. Mas, lá está, é precisamente por não corresponder ao comportamento esperado para uma mulher da época, que Pelagia acaba por se tornar alvo de rumores, suspeitas e acusações, sendo gradualmente associada à figura da bruxa (a tradução de "heksa") pela própria comunidade. Mais do que uma história sobrenatural, esta é uma reflexão sobre o medo da diferença, a intolerância e os mecanismos de exclusão social. 

Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita
Gostei da história, mesmo achando que era clichet em alguns pontos e que alguns elementos da narrativa poderiam ter sido melhor explorados.

Em termos visuais, a obra agradou-me especialmente. Utilizando apenas o preto, o branco e o cor de rosa, a autora Katarzyna Witerscheim (que conta com o contributo de Xulm para o trabalho de colorização) oferece-nos um traço elegante, sensível e muito belo em termos estéticos. Destaco também a sensualidade que emana das ilustrações dos momentos mais íntimos de Pelagia e Alojz. 

O resultado é uma obra visualmente marcante, não diria deslumbrante, mas diria muito elegante e bela, em que a componente gráfica não se limita a ilustrar a história, mas participa ativamente na construção do seu ambiente e da sua carga emocional. Por ventura, até pode ser o que mais ressalta desta obra. Se bem que, volto a frisar, a história e, principalmente, o tema da história, também são interessantes.

Falando ainda da edição da obra, para além do pecado capital - já amplamente explicado por mim - da opção por se manter as muitas expressões da obra em silésio, o livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz, e bom papel baço no seu interior. A encadernação e a impressão também são de boa qualidade. No final, há ainda duas belíssimas ilustrações adicionais, uma nota da autora e um storyboard de algumas páginas.

Em suma, Heksa - A Bruxa é uma obra que merece ser lida pelas qualidades da sua história, pela pertinência dos temas que aborda e, sobretudo, pela beleza do seu trabalho gráfico. Katarzyna Witerscheim constrói uma narrativa interessante sobre preconceito, exclusão e medo da diferença, apoiada por um universo visual elegante e muito expressivo. É por isso ainda mais frustrante que uma opção editorial bem-intencionada, mas inadequada ao contexto português, acabe por prejudicar de forma tão significativa a experiência de leitura.


NOTA FINAL (1/10):
6.7



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Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita

Ficha técnica
Heksa - A Bruxa
Autora: Katarzyna Witerscheim
Editora: A Seita
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Maio de 2026

Análise: O Diabo e a Coral


O Diabo e a Coral, de Homs

A Ala dos Livros prepara-se para editar, a partir do próximo dia 28 de julho, o livro O Diabo e a Coral, que marca a estreia do autor José Homs, enquanto autor completo, assegurando argumento e ilustração de uma banda desenhada. Eu já tive o privilégio de ler esta obra, duas vezes, e trago-vos agora a minha análise à mesma.

Esta é uma história que decorre em Praga, capital da atual República Checa, em 1938, num período histórico em que a Europa se encontrava cada vez mais dominada pelo ódio, pela intolerância e pela ameaça iminente da Segunda Guerra Mundial. Acompanhamos a personagem de Coral Loew, uma jovem adulta, de 19 anos, num contexto de vida difícil e complexo, já que se viu forçada, por incompatibilidades irreconciliáveis, a afastar-se emocionalmente do seu pai que, no presente momento, é um homem cuja existência é quase senil. No entanto, o seu pai foi verdadeiramente importante noutro tempo. Coral pertence a uma trupe de circo e é uma jovem mulher carregada de traumas e demónios. Sendo que, no seu caso, mantém uma existência próxima do Diabo, que nos surge enquanto personagem quase omnipresente ao longo da narrativa, permitindo que nós, leitores, possamos acompanhar os diálogos entre Coral e o Diabo. Ninguém além de Coral - e, por extensão, do leitor - consegue ver ou falar com o Diabo.

As duas personagens centrais desenvolvem, então, uma relação complexa, feita de desconfiança, confrontos e cooperação. O Diabo, sendo astuto, provocador e maldoso, parece procurar sempre uma forma de tirar a pouca harmonia que Coral ainda tem na sua vida. É uma história que se vai desvendando às camadas e, por esse motivo, não queria falar muito mais da mesma, além de dizer que esta estranha parceria entre Coral e o Diabo vai levar-nos até aos confins do inferno, enquanto a protagonista procura perceber melhor quem era o seu pai e qual a relevância que o mesmo teve na vida de tantas pessoas, enquanto assumia as funções de rabino. 

A história apoia-se bastante no folclore eslavo, apresentando-nos uma figura tão emblemática como o Rabino Loew, que se apoia na tradição judaica da cidade de Praga, bem como na figura de Golem. 

À medida que a narrativa avança, o enigma parece conduzir ao passado da família de Coral, em particular ao seu pai, o Rabino Loew, uma figura  histórica real, que foi um dos mais importantes rabinos, filósofos e estudiosos judaicos da Europa Central do século XVI. Com a passagem dos anos, a figura do Rabino Loew foi ficando associada à lenda da figura de Golem. Para quem não sabe, o Golem ainda hoje é uma figura central na cidade de Praga - uma personagem mitológica que, tal como um Galo de Barcelos para Portugal, aparece em qualquer loja de souvenirs em Praga. Reza a lenda que foi o Rabino Loew quem criou esta figura monstruosa, através do barro e da argila, que obedecia às suas ordens. Pensem num Hulk ou num Thing, dos Fantastic Four.

Ora, toda estas menções e alegorias, fazem com que este O Diabo e a Coral consiga misturar ficção histórica, com fantasia e mistério, enquanto se tem como pano de fundo a ascenção do nazismo e a invasão da cidade - e do país - por parte do exército alemão. A própria figura de Adolf Hitler aparece na história, com o Diabo a demonstrar-se, naturalmente, apreciador da sua grande "obra".  

Sendo a primeira vez em que Homs se aventura na concepção de um argumento para banda desenhada, diria que há aqui alguns belos feitos por parte do autor: a história é cativante e prende-nos desde o primeiro momento; as duas personagens principais, tanto Coral como o próprio Diabo, são absolutamente impactantes e carismáticas; e o próprio enredo consegue estar bem construído, com a história a saber piscar o olho a numerosas referências. Belo início enquanto argumentista, diria!

Mesmo assim, também tenho que referir que, por vezes, a história sai um pouco dos eixos e torna-se quiçá menos plausível. Não me refiro ao facto de a história ter elementos fantásticos - que nunca serão plausíveis mas isso faz parte das histórias do subgénero do fantástico, claro está - mas sim de certas nuances narrativas que tornam o todo um pouco confuso. Noutros casos, a ação e certos eventos também nos são dados de um modo um pouco forçado, por ventura carecendo de mais páginas para que tivessem sido mais bem introduzidos na trama.

Não obstante, reitero o feito desta obra nos dar uma boa e original história e belas personagens. 

E, claro, belos desenhos!

Homs enquadra-se no meu ciclo restrito de ilustradores preferidos de banda desenhada. E quando assim é, até pode ser complexo explicar o porquê de se gostar tanto do trabalho de um autor. 

Mas vou tentar:

Os desenhos do autor - que também podem ser apreciados na fantástica série Shi, que o autor assina em parceria com o argumentista Zidrou e que por cá tem edição da mesma Ala dos Livros - conseguem ser simultaneamente elegantes, detalhados e extremamente emotivos. Há uma fluidez no traço do autor que torna cada personagem única e reconhecível, enquanto os rostos e expressões revelam uma riqueza emocional pouco comum na banda desenhada. Mesmo nas cenas mais silenciosas, sente-se sempre a presença e a personalidade das personagens.

Além disso, impressiona-me também a capacidade de Homs em "criar ambientes". Homs utiliza a luz, as sombras e a cor de forma magistral, construindo cenários que não servem apenas de fundo, mas que participam ativamente na narrativa. Em O Diabo e a Coral, essa qualidade é particularmente evidente: a cidade de Praga adquire quase o estatuto de personagem, envolta numa atmosfera melancólica, misteriosa e profundamente evocativa que permanece na memória do leitor muito depois de terminada a leitura. Posso dizer que, por motivos profissionais - e pessoais! - conheço bem a cidade de Praga e fiquei especialmente agradado na forma como o autor reproduziu, por exemplo a belíssima Catedral de Nossa Senhora de Týn, na Praça da Cidade Velha, ou o célebre cemitério judeu, de campas sobrepostas umas nas outras. 

E já que falo em representação visual de algo, não posso deixar de referir a maravilhosa e inspirada representação do próprio inferno, enquanto lugar, que se apresenta verdadeiramente visceral e épica. As cenas de ação, a planificação a escolha pelo melhor enquadramento... tudo é feito de forma sublime por parte de Homs.

Quanto à edição, o trabalho da Ala dos Livros volta a não desiludir. O livro apresenta capa dura baça, com textura aveludada e detalhes a verniz; e, no miolo, o papel brilhante utilizado é de extrema qualidade. De resto, a impressão, a encadernação e os acabamentos são de qualidade superior, também.

Resta-me dizer que muito me agrada que, além de Shi, a editora portuguesa brinde agora os leitores portugueses com mais uma obra de Homs. Faço até votos sinceros para que, futuramente, quer o fantástico L' Angelus, quer a adaptação para BD de Millenium, o sucesso literário de Stieg Larsson, possam igualmente ter uma edição portuguesa.

Concluindo, entre uma história envolvente, uma atmosfera única e um trabalho gráfico absolutamente soberbo, O Diabo e a Coral afirma-se como mais um passo certo na construção do catálogo da Ala dos Livros e como uma leitura altamente recomendável para apreciadores de banda desenhada histórica, fantástica e de autor. Uma estreia muito conseguida de Homs como autor completo e, simultaneamente, mais um belo livro a confirmar a consistência editorial da Ala dos Livros.

NOTA FINAL (1/10):
9.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Ficha técnica
O Diabo e a Coral
Autor: Homs
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 110, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 243 x 316 mm
Lançamento: Julho de 2026



As novidades d' A Seita para o segundo semestre de 2026!


A Seita já fez saber quais as novidades de banda desenhada que espera editar durante o próximo semestre deste ano!

Entre as obras anunciadas, estão a confirmação da publicação de alguns livros que já aqui tinham sido dados a conhecer há uns meses e a adição de um bom número de obras de autores nacionais.

Há aqui vários títulos (portugueses e estrangeiros) que, confesso, estão a espevitar a minha curiosidade! Diria que é uma oferta bastante eclética, o que tem sido apanágio da editora.

A Seita faz saber que, naturalmente, este plano ainda poderá sofrer alguns ajustes, sobretudo ao nível das datas, aprovações e calendários de produção.

É aberto ainda o véu relativo a três obras que nos chegarão em 2027!

Por agora, são estas as obras que a editora portuguesa espera lançar até final do ano:

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Análise: Elric (Volumes 3 e 4)

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor
Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo

Foi com a publicação de O Lobo Branco e A Cidade Que Sonha, respetivamente os tomos 3 e 4, que a adaptação para banda desenhada da obra-prima de Michael Moorcock, Elric, por Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo, concluiu o seu primeiro arco narrativo, encerrando de forma particularmente satisfatória e convincente uma obra que já nos dois volumes iniciais tinha demonstrado uma enorme ambição artística e narrativa, conforme escrevi por alturas em que analisei esses dois livros.

Se esses primeiros dois tomos, O Trono de Rubi e Stormbringer, funcionaram sobretudo como uma introdução ao universo de Melniboné e ao conflito entre Elric e Yyrkoon, estes dois volumes finais deste primeiro arco elevam a escala da narrativa, aprofundando a tragédia do protagonista e conduzindo a história para um desfecho simultaneamente épico, melancólico e inevitável.

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor
Começando por vos falar de O Lobo Branco, neste tomo encontramos um Elric profundamente transformado pelos acontecimentos anteriores. Já não estamos perante o jovem imperador dividido entre o dever para com o seu povo e as suas convicções pessoais. Depois de passar um ano em alto mar, navegando pelos Reinos Jovens, Elric tornou-se agora numa figura quase mítica, um mercenário temido por muitos, cuja reputação cresce a grande velocidade. É especialmente interessante observar esta evolução, porque a narrativa explora a forma como o antigo soberano se vai afastando progressivamente da identidade que o definiu durante os livros anteriores. 

Em A Cidade Que Sonha, por sua vez, esta componente trágica que já se poderia antever no final do terceiro tomo, atinge o seu ponto máximo, com Elric a ter que enfrentar os seus maiores inimigos em batalhas épicas e extraordinárias, voltando à sua terra para reconquistar o que é seu por direito.

Os dois livros - aliás, todo o arco narrativo - aprofundam uma das características mais fascinantes da personagem que é a sua permanente luta interior. Elric continua a ser um herói profundamente atípico no panorama da fantasia, pois não é movido pela ambição, pela glória ou pela conquista. Pelo contrário, é uma personagem dorida e melancólica que é consumida pela dúvida, pela culpa e pela reflexão moral. E até mesmo quando Elric exerce uma violência extrema sobre os demais, existe sempre uma consciência crítica relativamente aos seus próprios atos. Essa dimensão oferece profundidade e maturidade à obra e talvez seja mesmo por esse motivo que esta história se mantém atual nos dias de hoje. Como o será nos dias do amanhã.

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor
Houve também uma outra coisa que me agradou nestes volumes que foi o aparecimento da personagem de Smiorgan, que se torna companheiro de viagem e luta de Elric. Bem sei que se trata apenas de uma personagem secundária, mas consegue ser relevante para a história, não só pelo papel que desempenha na progressão da narrativa, mas sobretudo pela forma como complementa a personalidade de Elric. Sendo o protagonista alguém naturalmente reservado, introspetivo e emocionalmente contido, a presença de Smiorgan introduz maior dinamismo, jovialidade e emoção às interações entre personagens. Há uma humanidade e uma leveza na sua presença que ajudam a equilibrar o tom frequentemente sombrio da narrativa. Que jogada de mestre a introdução desta personagem.

Mas é claro que o tema mais central em todo este ciclo, é a relação ambígua entre Elric, Stormbringer e Arioch. A espada negra ceifadora de almas continua a ser simultaneamente uma bênção e uma maldição, pois sendo uma fonte inesgotável de poder, por um lado, também inflige sempre a Elric um elevado a preço a pagar, por outro. Já o vilão Arioch mantém-se como uma presença constante, quase omnipresente, manipulando acontecimentos e conduzindo subtilmente Elric por caminhos que talvez nunca escolhesse livremente. Esta dinâmica cria uma tensão muito eficaz, uma vez que nunca é totalmente claro - pelo menos, para mim não é - onde termina a vontade do protagonista e onde começam as influências das forças sobrenaturais que o rodeiam.

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor
E, claro, temos ainda a bela amada de Elric, Cymoril, por quem o protagonista atravessa todos os mares que sejam necessários atravessar, mas que, curiosamente, tem um papel que pode surpreender alguns. E mais, não digo.

Sendo uma série de espadas e batalhas, uma coisa que aprecio especialmente nela é a maturidade narrativa da obra que, em vez de transformar a história numa mera sucessão de batalhas e confrontos espetaculares, tenha, também, um especial cuidado no desenvolvimento das implicações emocionais e filosóficas dos acontecimentos. As grandes revelações não servem apenas para surpreender o leitor... servem sobretudo para aprofundar o drama pessoal de Elric e o peso das suas escolhas.

Não li a obra original, mas daquilo que pude perscrutar, há nestes terceiro e quarto volumes uma maior independência na forma como a obra é adaptada. No entanto, essa liberdade parece sempre colocada ao serviço da narrativa e nunca em oposição ao espírito da obra original.

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor
E talvez seja mesmo esse um dos vários triunfos desta adaptação. É que adaptar não significa reproduzir mecanicamente. E isso é sentido até nas próprias declarações de Moorcock sobre esta banda desenhada. O grande feito passou por reapropriar a matéria-prima criada originalmente por Michael Moorcock para construir uma verdadeira banda desenhada, pensada para tirar partido das potencialidades específicas do meio. O resultado é uma narrativa fluida, moderna e visualmente impressionante, que sabe respeitar as bases da saga original sem ficar totalmente aprisionada por elas.

No plano gráfico, a qualidade da obra também se mantém em elevado nível. Tal como nos volumes anteriores, encontramos aqui uma obra visualmente magnífica, capaz de alternar bem entre a grandiosidade épica e a intimidade emocional das personagens. Quando a história exige escala, os desenhadores oferecem panoramas monumentais, cidades impossíveis, paisagens fantásticas, embarcações impressionantes e cenas de combate de enorme impacto. Mas quando o foco se desloca para as emoções das personagens, a expressividade dos rostos e das poses assume o papel principal.

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor
É igualmente digno de elogio o facto de uma equipa com tantos desenhadores ter conseguido preservar uma identidade visual tão consistente. Com tantos desenhadores no projeto "tinha tudo para correr mal", diria, mas a verdade é que, ao longo dos quatro volumes, a homogeneidade gráfica não é posta em causa, não havendo nunca a sensação de fragmentação ou de mudança brusca de estilo. Pelo contrário, todo o projeto apresenta uma coerência estética admirável, fruto de um evidente esforço coletivo e de uma visão artística partilhada. Vê-se que houve cuidado, logo de iníco, na preparação e concepção da obra.

As cores continuam também a desempenhar um papel fundamental, com a paleta utilizada a contribuir para reforçar a atmosfera simultaneamente gótica, melancólica e grandiosa da obra.

Em termos de edição, a Arte de Autor mantém os elevados padrões de qualidade já demonstrados nos volumes anteriores. Os livros apresentam capa dura, com textura aveludada e detalhes a verniz. No miolo, o papel utilizado é brilhante e de excelente qualidade. A impressão, encadernação e acabamentos também são de primeira linha. No final do terceiro volume, encontramos um dossier com oito páginas que reúne ilustrações, esboços e estudos de página. Por sua vez, o quarto volume, apresenta um caderno de extras, com cinco páginas, em que nos é dada bastante informação sobre Melniboné. por William Blanc. Os livros têm prefácios de Neil Gaiman e Jean-Pierre Dionnet.

Nota positiva, ainda, para o facto deste arco da série ter sido finalizado em meros dois meses, o que não é nada comum. Bem sei que a presença dos autores no Maia BD há de ter estimulado a editora portuguesa a não perder a oportunidade de editar o maior número possível de volumes. Mas, seja como for, a verdade é que os leitores portugueses puderam deitar mãos a uma mini-série de 4 volumes que foi completada em pouquíssimo tempo, o que é sempre positivo.

Sombria, gótica, violenta, bárbara, romântica, trágica e profundamente fantástica, esta adaptação de Elric afirma-se como uma das mais impressionantes obras de fantasia publicadas em banda desenhada nos últimos anos. Para os admiradores de Michael Moorcock, trata-se de leitura obrigatória. Para os fãs de fantasia épica em geral, é uma recomendação facílima. E até para todos aqueles que procuram uma BD capaz de combinar espetáculo visual, densidade temática e personagens memoráveis, esta série é uma proposta que não deve ser ignorada.


NOTA FINAL (1/10):
9.4



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor

Fichas técnicas
Elric #3 - O Lobo Branco
Autores: Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo
Editora: Arte de Autor
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 232 x 310 cm
Lançamento: Maio de 2026

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor

Elric #4 - A Cidade que Sonha
Autores: Julien Blondel, Jean-Luc Cano e Julien Telo
Editora: Arte de Autor
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 232 x 310
Lançamento: Maio de 2026