terça-feira, 14 de julho de 2026

Análise: Brigada de Costumes

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre

As duas editoras A Seita e Arte de Autor voltaram a editar, recentemente, e de forma conjunta uma obra de Zidrou, autor de quem as duas editoras portuguesas já por cá editaram Lydie, Emma G. Wildford, Naturezas Mortas e Amore. Desta feita, foi a vez de Brigada de Costumes chegar até nós. De todos os livros editados em parceria pelas duas editoras eu gostei bastante, mas devo até dizer que este Brigada de Costumes está entre os meus favoritos!

Há muito que considero o nome de Zidrou como sinónimo de qualidade. Sou um grande adepto de todos os seus livros e, felizmente, até já são muitas as suas obras que por cá foram editadas. Além das que referi acima, também os excelentes A Fera (A Seita), Verões Felizes (Arte de Autor), Shi e A Adopção (estes últimos da Ala dos Livros) me conquistaram totalmente.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
E não me fico por aí. É que Jordi Lafebre, ilustrador dos já supramencionados Verões Felizes e Lydie, bem como, enquanto autor completo, de Apesar de Tudo, Sou o Seu Silêncio ou Sou um Anjo Perdido, também é dos meus autores preferidos da atualidade.

Ora, juntar estes dois "pesos pesados" não só já se revelou um autêntico sucesso em Verões Felizes ou Lydie, como me fez ficar bastante empolgado para este Brigada de Costumes, bem antes de o ler.

Editado originalmente em 2014, em dois tomos isolados, a narrativa desta obra é ambientada na Paris dos anos 1930, onde acompanhamos o jovem inspetor Aimé Louzeau na sua integração na chamada "Brigada de Costumes", uma força especial da polícia francesa que procura investigar e anular a libertinagem dos cidadãos. 

Recém-chegado à polícia parisiense, Aimé aprende os meandros deste tipo de vigilância sobre as vidas privadas dos outros, especialmente das suas práticas sexuais, recolhendo todas as informações que possam depois ser utilizadas contra esses supostos prevaricadores da moral e da decência. A cidade parisiense que Zidrou nos apresenta é uma cidade fascinante, mas profundamente desigual, onde a corrupção e a hipocrisia convivem lado a lado com os discursos de moralidade. O habitual, diria.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
No entanto, o verdadeiro coração da narrativa está em Aimé Louzeau. Ele é filho de um padre excomungado, carregando consigo uma herança pesada que influencia a sua visão da autoridade, da religião e da justiça. Enquanto investiga os segredos dos outros, é obrigado a confrontar-se com os seus próprios fantasmas. Isto não esquecendo que, entretanto, quer o seu pai, quer a sua mãe, parecem sucumbir à saúde mental. Além disso, tudo muda na vida de Aimé quando este dá de caras com Eeva, uma prostituta exótica que o faz experenciar uma paixão nunca antes vivida. E é nessa dimensão íntima e mais pessoal da personagem de Aimé e de todas as outras que a rodeiam, que Brigada de Costumes se revela muito mais do que uma simples história policial.

A primeira coisa que me impressionou nesta obra foi a forma como Zidrou constrói as personagens. Não é que isso me tenha surpreendido, pois já conheço as valências do autor em conseguir despertar sentimentos de empatia perante as suas personagens profundamente humanas... mas diria que o seu trabalho volta a ser impressionante. Não há aqui heróis perfeitos nem vilões de cartilha. Existem pessoas. Homens e mulheres. E, como sabemos, as pessoas são frágeis, são contraditórias. Por vezes perdem-se e por vezes encontram-se. E são tão capazes de gestos de enorme generosidade, como de atitudes profundamente destrutivas. É esse lado humano que torna a leitura tão absorvente e que nos faz permanecer emocionalmente ligados a este livro. Assim que o terminei, voltei a lê-lo de enfiada.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
E diria que estamos perante uma das histórias mais tristes escritas por Zidrou. Ainda assim, o autor mantém aquela característica tão própria de introduzir uma espécie de luz ao fundo do túnel. Não se trata de um final feliz convencional. Ou de uma resolução que põe tudo em pratos limpos. Pelo contrário, existe neste Brigada de Costumes uma postura agridoce perante a vida que acaba por tornar os momentos alegres menos leves e os momentos dolorosos um pouco mais suportáveis. E poucos argumentistas conseguem trabalhar tão bem esta ambiguidade emocional.

Os temas abordados são particularmente densos. Saúde mental, religião, perversões sexuais, obsessão, solidão e hipocrisia institucional cruzam-se constantemente ao longo da narrativa. A própria polícia surge retratada de forma paradoxal, como uma instituição encarregada de combater práticas que, de uma forma ou de outra, também ajuda a perpetuar. 

Aimé Louzeau espelha bem a complexidade da história. Inicialmente surge como uma personagem extremamente cativante, quase ingénua, com quem simpatizamos imediatamente. Contudo, à medida que a narrativa avança, algo começa a mudar e a sua personalidade revela zonas mais sombrias, cada vez mais inquietantes, levando-nos a olhar para ele de forma diferente. É um retrato duro e, ao mesmo tempo, profundamente humano da incapacidade de controlar determinados impulsos.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
Confesso que a única reserva que tenho em relação à obra resulta precisamente da riqueza do material apresentado. Isto porque fiquei diversas vezes com a sensação de que havia aqui matéria suficiente para uma série bastante mais longa. Dira até de uns seis ou sete volumes. Ou mais. É que temos a questão das práticas da polícia e do ambiente boémio da prostituição; a relação amorosa de Aimé; a paixão que este nutre por Eeva; a questão da religião e do convento; a própria relação dos pais de Aimé; e até mesmo o flashforward que nos coloca em 1944 numa Paris bombardeada. É muita coisa para um díptico apenas. E não é que os principais acontecimentos da obra não fiquem devidamente bem encerrados -poruq ficam - mas sinto que havia riqueza para muito mais.

Nesse sentido, tenho a sensação de que Zidrou colocou demasiadas ideias em apenas dois volumes. Não porque a narrativa fique incompreensível ou desequilibrada, repito, mas porque existe tanta substância que acabamos por desejar mais espaço para explorar cada fio desta teia. 

Apesar disso, Brigada de Costumes permanece uma obra notável. Está impregnada de uma melancolia constante que acompanha o leitor do princípio ao fim. Há uma tristeza difusa em muitas das situações e personagens, mas nunca uma tristeza gratuita ou manipuladora. Tudo surge organicamente integrado na história e contribui para a sua autenticidade emocional.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
Relativamente aos desenhos de Jordi Lafebre, é impossível não destacar o extraordinário trabalho do autor. Uma vez mais. À partida, e tendo em conta a história que temos em mãos, até poderia pensar-se que o seu talento para histórias mais luminosas e optimistas entraria em conflito com uma narrativa tão sombria. Mas acontece precisamente o contrário. O desenhador entrega belas páginas, belas opções visuais e velos enquadramentos. As cores nos desenhos, a recriação da Paris dos anos 30, as roupas de época, a elegância dos cenários, os corpos femininos e, acima de tudo, a expressividade das personagens são absolutamente magníficos. 

A edição é em capa dura baça, de textura aveludada e com detalhes a verniz. No miolo, o papel é baço e de boa qualidade. Também de boa qualidade é a encadernação, impressão e acabamentos. A opção das editoras por lançarem a obra num único volume integral também foi a mais ajustada, claro.

Em suma, Brigada de Costumes é uma belíssima obra que em boa hora foi editada em Portugal. No final da leitura, fica uma sensação agridoce: a tristeza de abandonar estas personagens, por um lado, e a gratidão por termos podido acompanhá-las, por outro. E isso, para mim, é sinal de uma grande obra!


NOTA FINAL (1/10):
9.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor

Ficha técnica
Brigada de Costumes
Autores: Zidrou e Jordi Lafebre
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 cm
Lançamento: Junho de 2026

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Análise: Murena #13 - As Neronia

Murena #13 - As Neronia, de Jean Dufaux e Jérémy - ASA - LeYa

Murena #13 - As Neronia, de Jean Dufaux e Jérémy - ASA - LeYa
Murena #13 - As Neronia, de Jean Dufaux e Jérémy

Foi no passado mês de março que a editora ASA nos fez chegar o mais recente volume da muito celebrada série Murena. Ambientada na antiga Roma, esta é uma obra rica no argumento, sendo carregada de conspirações, traições, tramas políticas, erotismo e personagens impactantes. E tem sido brilhantemente desenhada.

Da autoria de Jean Dufaux, a série foi originalmente ilustrada por Philippe Delaby. Depois do falecimento deste, foi Theo quem ocupou o seu lugar. Mas, neste 13º volume, intitulado As Neronia, que abre o quarto e último ciclo da série, é Jérémy quem assegura os desenhos. Recordo que este autor até já havia trabalhado na série, tendo feito o trabalho de colorização de vários tomos, ainda no tempo de Delaby.

Dando, por isso, continuidade a uma das mais ambiciosas recriações da Roma Antiga alguma vez produzidas em banda desenhada, este novo livro não perde o fôlego, apesar do encerramento de importantes linhas narrativas no álbum anterior. Pelo contrário, sente-se que Dufaux aproveita este novo ponto de partida para um "fresh restart", reposicionando as suas personagens e preparando o terreno para novos conflitos. Apreciei especialmente esta faceta deste livro, pois sinto sempre que nestas séries longas, com muitas personagens e tramas complexas, é sempre bem-vindo um álbum que procure unir algumas das pontas que vão ficando soltas.

Murena #13 - As Neronia, de Jean Dufaux e Jérémy - ASA - LeYa
Regressamos à Roma de Nero, o imperador que está cada vez mais absorvido pela sua própria imagem e pelo desejo quase doentio de ser admirado pelos demais. Após os eventos decorridos nos tomos anteriores, Nero procura agora reconquistar o povo através da organização dos Neronia, os grandiosos jogos artísticos e atléticos inspirados nos festivais gregos. Uma espécie de jogos olímpicos. Algo que possa entreter as gentes do povo. À superfície, estes jogos surgem, pois, como uma celebração cultural, mas, naturalmente, não passam de um mero exercício propagandístico destinado a glorificar o imperador e a reforçar o seu poder.

Aprecio bastante a forma como Nero é retratado, com Dufaux a não caracterizá-lo como um simples tirano unidimensional. Ao invés, existe nele uma mistura curiosa de charme, fragilidade, vaidade e crueldade que o torna simultaneamente imprevisível e assustador. Por vezes parece mau, noutras vezes parece um bom homem. 

Além disso, a morte de Séneca, ocorrida no volume anterior, continua a fazer-se sentir ao longo de toda a narrativa, pois é algo que deixou Roma mergulhada num ambiente de medo, suspeita e vigilância constante. Esta atmosfera sufocante, onde ninguém parece verdadeiramente seguro e onde cada palavra pode ser interpretada como um ato de traição, está muito bem trabalhada e sente-se ao longo de todo o livro. 

Entretanto, Lúcio Murena continua a estar cercado por intrigas, manipulações e traições, sendo constantemente obrigado a movimentar-se num território onde as certezas são escassas e onde a lealdade tem um preço cada vez mais elevado. Por sua vez, Tigelino continua a consolidar a sua posição como uma das figuras mais perigosas da narrativa. A sua influência sobre Nero permanece grande, mas Dufaux introduz novos equilíbrios de forças dentro da corte imperial. A presença da misteriosa Hidra acrescenta novas camadas de complexidade ao jogo político, criando uma interessante competição pela proximidade ao imperador. Um autêntico jogo de cadeiras.

Não é que haja, porém, grandes cenas de violência. Na verdade, parece haver uma preocupação em privilegiar-se uma construção pausada da intriga, como se fosse uma forma de preparar o que pode vir no futuro. É verdade que isto pode fazer com que sintamos que acontecem poucas coisas neste tomo. No entanto, parece-me que essa opção é deliberada. Como já disse mais acima, Dufaux parece estar mais interessado em reorganizar o tabuleiro das peças humanas, dando um passo atrás para, depois, poder dar dois em frente. Ou assim espero.

Ainda assim, continuo a sentir que uma das fragilidades recorrentes da série permanece presente. Por vezes, Dufaux introduz personagens, ideias ou subtramas muito interessantes que nem sempre recebem o desenvolvimento que aparentam prometer inicialmente. Não se trata de um problema grave, mas há momentos em que a narrativa parece dispersar-se ligeiramente, desviando a atenção para elementos cujo impacto acaba por revelar-se mais reduzido do que seria expectável. Do ponto de vista global, se os nós forem bem atados no futuro, até pode não ser um problema. Contudo, pensando o livro de forma isolada, acaba por ser algo mais comprometedor, parece-me.

Murena #13 - As Neronia, de Jean Dufaux e Jérémy - ASA - LeYa

Do ponto de vista visual, este é também um álbum importante por, tal como já mencionei, marcar a chegada de Jérémy ao lugar de desenhador da série. E a verdade é que o autor não demonstra qualquer necessidade de adaptação. Desde as primeiras páginas percebe-se que compreendeu perfeitamente os códigos gráficos de Murena e que sabe respeitar a identidade visual construída por Philippe Delaby ao longo de tantos anos.

Assim os desenhos, de traço realista, continuam a apresentar uma qualidade visual muito elevada. O enquadramento das cenas é bastante cinematográfico, enquanto a expressividade das personagens continua a ser uma das grandes forças da série. Além disso, as decorações, as indumentárias, os cenários e os elementos arquitetónicos revelam um cuidado impressionante com o detalhe, contribuindo para uma recriação histórica particularmente convincente.

E, já agora, as cores também desempenham um papel fundamental. Há uma riqueza cromática constante que valoriza cada página e ajuda a reforçar tanto a grandiosidade dos espaços imperiais como os momentos mais intimistas. O resultado final é um álbum visualmente muito sólido, que consegue simultaneamente preservar o legado dos seus antecessores e afirmar a identidade própria do novo ilustrador.

E não posso deixar de referir que a ilustração desta capa é verdadeiramente sublime. Todas as capas de Murena, ou quase todas, são belas, mas esta, em particular, é a mais bonita de todas, quanto a mim.

Quanto à edição da obra, o livro apresenta capa dura brilhante, com bom papel brilhante no miolo. A encadernação e a impressão também são boas. Há ainda um importante prefácio de Jean Dufaux. 

Não posso, no entanto, deixar de referir algo que me deixou bastante desapontado: o texto constante na contracapa do livro não está em português de Portugal, mas em português do Brasil(!), o que me leva a crer que talvez se tenha utilizado um google translator, ou semelhante, para traduzir este texto. E saber que numa editora como a ASA isso acontece, é algo que acho lastimoso. Devo dizer que no interior do livro, não detetei que o texto não estivesse bem feito... mas o mal - do texto da contracapa - já estava feito. E espero que tenha sido apenas um lapso que passou e que não venha a ser repetido no futuro, pois isto é algo que não dignifica a obra, nem a editora, nem a edição, nem a tradução.

Em suma, este recente Murena #13 - As Neronia funciona sobretudo como um volume de transição, em que Jean Dufaux aproveita este novo ciclo para aprofundar as tensões políticas e psicológicas do enredo, enquanto o ilustrador Jérémy assegura a continuidade gráfica da obra com enorme competência. Está longe de ser o álbum mais explosivo da série, mas é, ainda assim, um capítulo sólido, elegante e promissor que deixa grande expectativa para o que virá a seguir.


NOTA FINAL (1/10):
8.8


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Murena #13 - As Neronia, de Jean Dufaux e Jérémy - ASA - LeYa

Ficha técnica
Murena #13 - As Neronia
Autores: Jean Dufaux e Jérémy
Editora: ASA
Páginas: 46, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 298 x 226 mm
Lançamento: Março de 2026


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Disclaimer

Como sabem, sou um comprador e um colecionador. E sou daquelas pessoas que, ao contrário de muitos, bem sei, não gosta de ter livros repetidos na sua coleção. Pura e simplesmente porque cada pequeno espaço nas minhas prateleiras tem que merecer ser ocupado. Assim, se a minha estante recebe a versão portuguesa de uma obra que eu já possuía noutra língua; ou uma nova edição de uma obra que me agrada mais do que a anterior, um dos livros terá que sair. Não tenho espaço para ter duplicados.

É por isso que chamo a esta iniciativa LOJA OUTLET, pois o seu objetivo é servir de escape para os livros que estão a mais, ou duplicados, na minha coleção.

São livros que tenho repetidos, que tenho noutras línguas ou que, simplesmente, comprei e acho que, depois de lidos, devem rumar a outra estante.

Aproveitem e façam bons negócios.

Deixo o "como" e o "porquê" desta loja, aqui.

As novidades da Ala dos Livros para o segundo semestre de 2026!


Hoje apresento-vos as novidades que a editora Ala dos Livros tem reservadas para o segundo semestre do ano! E aviso já que há aqui muitas obras que desejo muito ler! São mais de 10 novos livros que podemos esperar!

Teremos o fecho de algumas séries, o regresso a outras que estavam em andamento e a aposta em alguns novos títulos. E ainda haverá o "Livro Mistério" e mais algumas novidades que serão anunciadas mais tarde.

Deixo-vos, mais abaixo, com a lista de obras.