quarta-feira, 22 de abril de 2026

Análise: O Preço da Desonra 2 - Crónicas de Kubidai

O Preço da Desonra - Crónicas de Kubidai, de Hiroshi Hirata - A Seita

O Preço da Desonra - Crónicas de Kubidai, de Hiroshi Hirata - A Seita
O Preço da Desonra 2 - Crónicas de Kubidai, de Hiroshi Hirata

Lançado pel' A Seita ainda durante o último Amadora BD, este O Preço da Desonra - Crónicas de Kubidai é o segundo volume da série, deixando-a deste modo finalizada. Mas sendo formalmente um segundo volume, diria que este livro funciona menos como continuação narrativa e mais como um aprofundamento conceptual, revelando um autor plenamente consciente do peso moral do universo que criou.

Tal como no primeiro livro, estamos no Japão do período Edo, num mundo aparentemente estabilizado após décadas de guerra, mas moralmente corroído. É verdade que os conflitos entre clãs podem ter abrandado, mas não é menos verdade que esses mesmos conflitos deixaram um rasto de homens quebrados, promessas adiadas e uma honra que acaba por não ser virtude, mas antes um instrumento de controlo social.

O Preço da Desonra - Crónicas de Kubidai, de Hiroshi Hirata - A Seita
O conceito central não muda face ao livro anterior: para escapar à morte imediata no campo de batalha, são muitos os samurais que assinam notas promissórias comprometendo-se a pagar uma avultada quantia, mais tarde, para que a sua vida lhes seja poupada. Hanshiro é o homem encarregado de cobrar essa dívida, bem como o protagonista das quatro histórias que compõem este livro. 

Curiosamente - e talvez de forma algo inesperada, uma vez que o primeiro volume é mais celebrado no universo da banda desenhada - acabei por preferir este livro ao primeiro. Não porque seja mais espetacular ou mais chocante, mas porque Hirata parece aqui ter a personagem mais bem delineada. Hanshiro deixa de ser apenas o dispositivo moral da narrativa e passa a revelar uma identidade mais sólida, ainda que construída a partir do silêncio e da ambiguidade. 

E, claro, também me pareceu que a simples razão de este livro ter apenas quatro histórias - e não as sete do volume anterior - permite que cada uma dessas histórias possa ser mais bem desenvolvida e explanada, fazendo com que acabem por ser mais impactantes para o leitor.

O Preço da Desonra - Crónicas de Kubidai, de Hiroshi Hirata - A Seita
Comparando os dois volumes, nota-se portanto que o primeiro tinha uma força mais conceptual, quase de manifesto, e este segundo parece mais introspetivo e mais seguro da sua própria "voz". 

As quatro histórias são independentes entre si, funcionando como verdadeiras crónicas morais. Cada uma apresenta novas figuras como samurais desonrados, camponeses esmagados pelos desenvolvimentos político-sociais da época ou guerreiros que simplesmente, no calor da batalha, escolheram viver. Todas estas personagens têm que arcar com o peso das suas escolhas, o que atribui à obra - e à própria personagem de Hanshiro - um papel algo moralista. 

Apreciei especialmente a forma como a obra desmonta o bushido, o código dos guerreiros japoneses, sem nunca o ridicularizar, ao mostrar que, na prática, o código de honra poderia perfeitamente ser manipulado para justificar violência desmedida, sacrifício inútil ou culpa perpétua. A "honra" surge-nos, pois, como uma construção social frágil e não como um valor absoluto.

O Preço da Desonra - Crónicas de Kubidai, de Hiroshi Hirata - A Seita
Em termos de desenho, a obra mantém o traço rigoroso a preto e branco, já demonstrado no volume anterior. Por esse motivo, recupero aquilo que, na altura, escrevi na análise que fiz ao primeiro volume da obra: "o desenho é verdadeiramente magnífico, com Hirata a revelar-se um autêntico mestre na ilustração realista das personagens, dos seus combates, dos ambientes e, acima de tudo, das poses que transmitem inequivocamente o ambiente épico e bélico que as histórias de samurais normalmente conseguem criar no nosso imaginário. O traço a preto e branco do autor apresenta alguma sujidade que, quanto a mim, dá o ambiente certo a este tipo de histórias duras e implacáveis onde a morte espreita ao virar da página. Há ilustrações que são de tirar o fôlego!"

Como ponto menos positivo no desenho de Hirata, reconheço que quando há muitas personagens do mesmo género e mais ou menos com a mesma idade, acaba por haver uma certa dificuldade em perceber-se quem é quem, o que retira uma certa fluidez narrativa à leitura. Mas também não é nada que seja muito gritante ou muito presente.

Em termos de edição, a obra apresenta capa mole, com badanas, um bom papel baço no miolo, e uma boa encadernação e impressão. No final, há ainda um glossário de termos onde são explicadas algumas expressões e conceitos culturais presentes na história.

Em suma, O Preço da Desonra 2 - Crónicas de Kubidai é uma obra dura, adulta e profundamente pessimista, mas também extraordinariamente honesta. Se o primeiro volume desta obra do mestre Hiroshi Hirata teve um impacto inegável, há que reconhecer que é neste segundo volume que o autor parece ter encontrado o equilíbrio certo entre personagem, tema e forma. 


NOTA FINAL (1/10)
8.9



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


-/-

O Preço da Desonra - Crónicas de Kubidai, de Hiroshi Hirata - A Seita

Ficha técnica
O Preço da Desonra 2 - Crónicas de Kubidai
Autor: Hiroshi Hirata
Editora: A Seita
Páginas: 360, a preto e branco (com 8 páginas a cores)
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 15,5 x 22,5 cm

A Seita e Arte de Autor lançam nova BD de Zidrou!


As obras com argumento do belga Zidrou continuam a merecer a aposta das editoras portuguesas. 

Se ainda ontem vos anunciei que a Ala dos Livros edita durante este mês o novo volume da série A Adopção, por seu turno, as editoras A Seita e Arte de Autor farão chegar-nos, nos próximos dias, o livro Amore que, para além do argumento de Zidrou, conta com ilustrações de David Merveille.

Ilustrações essas que parecem ser muito belas, como podemos ver nas imagens promocionais que coloco mais abaixo.

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora Arte de Autor. e inclui 3 postais de oferta - limitada ao stock disponível.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra.

Amore, de Zidrou e David Merveille

Amor... à italiana!

"- Gosta de ler?” - Nem por isso... “Nem mesmo histórias de amor?” - Histórias de amor? Pff! O amor não se lê, faz-se."

O cheiro de um espresso a espalhar-se pela praça... a voz da nonna que grita com os netos na ruela... e o olhar sedutor de uma bella ragazza que surge ao virar de uma esquina... 

É este o amor à italiana que Zidrou, um dos maiores argumentistas de banda desenhada actuais nos propõe, nesta recolha de histórias sensíveis, surpreendentes, apaixonadas, acompanhado pelo traço elegante de David Merveille.

-/-

Ficha técnica
Amore
Autores: Zidrou e David Merveille
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
PVP: 18,00€

terça-feira, 21 de abril de 2026

Ala dos Livros prepara-se para editar meia dúzia de novas BDs!



A Ala dos Livros traz consigo um conjunto de seis novos lançamentos que deverá chegar às livrarias nos próximos dias. 

Algumas destas obras deverão poder ser adquiridas nos próximos eventos (Coimbra BD e Comic Con), sendo que algumas delas até já encontrei à venda no Ilustra BD, na semana passada. Uma destes livros não é uma novidade, mas a segunda edição de uma obra lançada há relativamente pouco tempo pela editora.

A maioria destes livros também já pode ser encomendada através do website da editora.

Falarei de todos estas obras, com mais detalhe, durante os próximos dias, mas, por agora, deixo-vos apenas com a breve menção a elas, mais abaixo.

Análise: Os Cabelos de Édith

Os Cabelos de Édith, de Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid - ASA - LeYa

Os Cabelos de Édith, de Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid - ASA - LeYa
Os Cabelos de Édith, de Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid

Engrossando a quantidade de obras de cariz mais maduro que a ASA tem vindo a editar recentemente, está este Os Cabelos de Édith - com argumento de Fabienne Blanchut e Catherine Locandro, e ilustrações de Dawid - que a editora portuguesa lançou há algumas semanas.

Esta é uma obra sensível e poética que nos remete para a memória do Holocausto, reiterando a podridão de valores e o infame ataque aos mais basilares direitos humanos que se viveu na Europa entre os anos 30 e os anos 40.

A história acontece em Paris, em maio de 1945, já depois da Segunda Guerra Mundial ter terminado. O célebre Hotel Lutetia, um marco da cidade, é transformado em centro de repatriamento para sobreviventes do holocausto nazi.

O protagonista é Louis, um estudante de 17 anos, que, contra a vontade do seu pai, acaba por se juntar aos voluntários encarregues de acolher os homens e mulheres que sobreviveram aos campos de concentração. E é nessa altura que conhece Édith, que havia estado em Birkenau.

Embora Louis se aproxime da rapariga, esta parece um concha selada perante qualquer tipo de interação social. Como se estivesse alienada de tudo o que acontece à sua volta. Mesmo assim, vai tolerando a presença de Louis, ainda que aquilo que mais lhe ofereça seja uma boa dose de silêncio.

Há ainda um complemento relevante para a trama que é o facto de Louis vir a saber que o seu pai tinha sido motorista durante a guerra e, através disso, tenha transportado muitos judeus para os campos de detenção em Drancy. Ora, tudo isto faz com que se abra um fosso de distância entre si e o seu pai.

Os Cabelos de Édith, de Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid - ASA - LeYa
Ler Os Cabelos de Edith é aceitar caminhar devagar, quase em silêncio, por uma história que parece sussurrada ao ouvido. As duas argumentistas Fabienne Blanchut e Catherine Locandro têm uma abordagem bastante serena e séria, que tenta sempre não ser demasiadamente dramática. Como se os silêncios que nos são impostos pelo relato e uma gestão narrativa mais lenta do que o normal, tivessem o objetivo implícito de nos fazer parar para pensar. Há, portanto, um trabalho de contenção na escrita, beneficiando silêncios confrangedores, que tornam a leitura bastante madura e, ao mesmo tempo, arrebatadora.

A narrativa gira em torno da ausência, daquilo que ficou por dizer e do que nunca mais pôde ser vivido plenamente. Edith e os cabelos que o holocausto lhe retirou são meros símbolos de perda e de violência histórica. Algo que, mesmo quando uma barbárie termina, continua a persistir naqueles que por ela são afetados. A história avança depois como uma recordação fragmentada, feita de imagens soltas que se insinuam mais do que se explicam.

O tema do Holocausto é abordado com enorme pudor e respeito por parte das autoras, não havendo propriamente uma tentativa de mostrar todo o mal que aconteceu a Édith, mas antes sugeri-lo. Afinal de contas, para os sobreviventes basta uma silhueta que surge de repente, um choro distante que se escuta repentinamente, uma paisagem observada ao acaso ou a simples recordação de um longo cabelo que já não existe, para que o pesadelo se reinstale. A memória traumática nunca se vai embora, apenas aprende a esconder-se. Essa permanência do horror gera desconfiança, medo difuso e uma sensação de perda irreparável. O livro capta bem esse estado de suspensão emocional, onde o passado invade o presente sem pedir licença, tornando cada gesto simples num campo minado de recordações.

Gostei desta abordagem das autoras em não procurar dramatizar o tema em excesso, nem transformar a dor em espetáculo e, pelo contrário, deixar espaços em branco e silêncios narrativos que dizem tanto quanto as palavras impressas, respeitando a inteligência emocional do leitor.

Os Cabelos de Édith, de Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid - ASA - LeYa
Os desenhos de Dawid - do qual a ASA já havia editado o curioso, mas não tão bom, Senhor Apothéoz - elevam ainda mais os bons apontamentos deixados pela história e narrativa da obra. O traço do autor volta a mostrar-se delicado, quase etéreo, e embora os rostos das personagens não sejam excessivamente detalhados, há neles uma expressividade subtil que se ajusta perfeitamente à serenidade narrativa da obra. O que falta em detalhe, sobra em sensação. Além de que, a tal serenidade da narrativa em texto encontra paralelo na narrativa visual, o que é perfeito para a cadência de ambas.

As ilustrações de Dawid sugerem emoções e acontecimentos através de imagens fortes, mas delicadas, que reforçam o impacto simbólico da história sem chocar o leitor. Ainda assim, gostei particularmente da maneira como o autor desenha as memórias do passado de Édith, com os nazis a serem representados com um traço mais grosso e agressivo que os judeus.

O desenho de vários pontos da cidade de Paris também é particularmente marcante. Reconhecemos ruas, fachadas e atmosferas, mas também uma Paris suspensa no tempo, atravessada por uma melancolia discreta. O Hotel Lutetia, em particular, um lugar carregado de memória histórica, surge com uma sobriedade tocante, como se as suas paredes ainda guardassem vozes.

Algumas dessas imagens da cidade fazem lembrar os postais ilustrados que ainda hoje são vendidos nas margens do rio Sena. Há nestes desenhos da cidade uma certa beleza calma, quase turística, que contrasta com o peso da história que se carrega. Talvez Dawid se tenha inspirado nesses postais ou talvez tenha sido apenas coincidência, mas o que é certo é que o efeito das mesmas é poderoso precisamente por essa ambiguidade.

As cores são em tons pastéis e contribuem para a beleza sóbria do todo, criando uma tensão visual constante entre beleza e horror. É como se a delicadeza do traço tentasse, sem nunca conseguir totalmente, atenuar a brutalidade do que é contado.

A edição da ASA apresenta-se em capa dura baça, com um bom papel braço no miolo. Ao nível da encadernação e da impressão, o livro também está bem produzido.

Em suma, Os Cabelos de Édith é uma muito bela e tocante obra, que procura ser um testemunho decoroso das atrocidades do Holocausto, levando-nos a refletir também na dificuldade das escolhas morais em tempos de terror e procurando trazer-nos igualmente uma sensação de esperança para a humanidade. Com efeito, mesmo que já tenhamos ouvido muitas histórias sobre o Holocausto, é vital que elas regressem, sob novas vozes e novos olhares, pois cada repetição é um gesto de resistência contra o esquecimento. E porque lembrar, ainda que doa, é talvez a única forma de impedir que o horror volte a acontecer. Especialmente nos dias que vivemos no tempo presente...


NOTA FINAL (1/10):
9.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


-/-

Os Cabelos de Édith, de Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid - ASA - LeYa

Ficha técnica
Os Cabelos de Edith
Autores: Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid
Editora: ASA
Páginas: 168, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 275 x 206 mm
Lançamento: Março de 2026