sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Análise: Faithless #3

Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio

Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio
Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet

Sabem aquela sensação de querer estar enganado? Aquela esperança teimosa de que um autor ainda consiga recuperar uma história que parece ter perdido o rumo? Foi exatamente esse sentimento que me acompanhou durante a leitura deste Faithless #3, editado por cá em Outubro de 2022 pela editora G. Floy Studio.

Este é o terceiro e último volume desta série criada por Brian Azzarello e Maria Llovet. Depois de um primeiro volume estimulante e imprevisível e de um segundo volume que me pareceu uma enorme desilusão, a questão impunha-se: conseguiria Azzarello salvar Faithless na reta final?

A resposta curta é: parcialmente. Mas a resposta longa é um pouco mais complicada.

Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio
Na análise ao primeiro volume escrevi que não fazia a menor ideia de para onde a história se dirigia, mas que isso não me incomodava. Pelo contrário. Havia algo de fascinante naquela mistura de erotismo, fantasia, terror psicológico e psicadelismo que envolvia Faith, Poppy e Louis. Tudo parecia possível a esta história. 

Mas foi com o segundo volume da série que me consegui aperceber do "problema" da obra, quando comecei a suspeitar de que o próprio autor não sabia bem para onde a história caminhava. E é uma coisa que, enquanto leitor com alguma experiência, costumo "farejar" ao longe. Quando um argumentista começa a chutar ideias para o ar... é mau sinal. E isso aconteceu no segundo volume da série: as ideias multiplicavam-se, mas raramente encontravam um propósito. A provocação, especialmente devido ao erotismo desregrado - que acaba até por ser a minha parte preferida de toda a série -, parecia ter tomado conta da narrativa.

Não diria que Brian Azzarello salve a honra da obra com este Volume Três, mas reconheço-lhe, pelo menos, o mérito de finalmente tentar construir uma conclusão. Pode não ser uma conclusão totalmente satisfatória, pode até deixar algumas questões em aberto, mas existe aqui pelo menos uma tentativa de dar sentido a vários elementos que vinham sendo introduzidos desde o primeiro livro.

Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio
A história deste último volume encontra a personagem de Faith numa fase de queda livre. Depois da ascensão meteórica ao estatuto de artista provocadora e celebridade do mundo da arte, a protagonista desapareceu durante meses e regressa profundamente transformada. A fama que parecia alimentá-la converteu-se numa prisão. As dúvidas acumulam-se. Os acontecimentos sobrenaturais tornam-se mais intensos. E a relação com Louis aproxima-se cada vez mais de um confronto inevitável.

O elemento mais interessante deste volume é precisamente a forma como Azzarello procura transformar os excessos dos livros anteriores em algo que se aproxima de um tema. Pela primeira vez, Faithless parece querer falar seriamente sobre criação artística. Sobre o que significa criar. Sobre a exploração da imagem do artista. Sobre a forma como o mercado consome, recicla e destrói personalidades criativas. 

Infelizmente, continuam presentes muitos dos problemas que prejudicaram o segundo tomo. Há momentos em que o argumento parece avançar aos saltos, como se páginas inteiras de desenvolvimento tivessem desaparecido. Algumas revelações surgem de forma abrupta e continuam a existir passagens em que os autores parecem mais interessados em criar imagens potencialmente chocantes do que em contar uma história coerente.

Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio
Quanto aos desenhos, o trabalho da espanhola Maria Llovet é muito interessante e original. A autora continua a oferecer-nos páginas belas, perturbadoras, sensuais e hipnóticas. A utilização das cores mantém-se extraordinária, alternando vermelhos agressivos, rosas vibrantes e tonalidades sombrias. Existem sequências inteiras que poderiam perder os diálogos e continuariam a funcionar apenas pela força da componente visual.

Considero que o traço de Maria Llovet continua a encaixar perfeitamente nesta história, portanto. Há personalidade, ousadia e identidade visual em praticamente todas as páginas. Dito por outras palavras, mesmo quando não acreditamos totalmente naquilo que Azzarello nos está a contar, acreditamos sempre nas imagens de Llovet.

Quanto à edição da G. Floy Studio, esta mantém a boa qualidade dos volumes anteriores. A capa é dura, a impressão e a encadernação são boas, também. No miolo, o papel é brilhante e de boa qualidade.  No final do livro, há um belo conjunto de ilustrações que engrandecem a edição.

No final da leitura desta série, fiquei com uma sensação curiosa. Faithless não se revelou a obra marcante que imaginei depois de terminar o primeiro volume. Também não acabou por ser o desastre absoluto que temi após o segundo. Ficou algures no meio. Como uma experiência ambiciosa, irregular e frequentemente contraditória. No fim, Faithless assume-se como uma viagem estranha, excessiva, provocadora e visualmente impactante. 


NOTA FINAL (/10):
6.4



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio

Ficha técnica
Faithless #3
Autores: Brian Azzarello e Maria Llovet
Editora: G. Floy Studio
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Outubro de 2022

Análise: Peregrinação (Volumes 1 e 2)

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP
Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge

Uma das poucas obras da coleção Clássicos da Literatura Portuguesa em BD que teve direito a ser um álbum duplo, foi este Peregrinação que adapta para banda desenhada a célebre obra de Fernão Mendes Pinto. Tendo em conta que a obra original tem mais de 600 páginas, compostas por descrições detalhadas sobre as extraordinárias viagens, naufrágios, cativeiros, combates e encontros de Fernão Mendes Pinto pelo Oriente no século XVI, parece-me que a opção por dois volumes, foi mais que acertada.

A adaptação para banda desenhada é-nos dada por João Miguel Lameiras, no argumento, e Miguel Jorge, nos desenhos. Ambos os autores já tinham adaptado outro clássico da literatura portuguesa para BD: Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco. A edição da obra volta a surgir através da parceria entre a Levoir e a RTP.

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP
E mesmo sendo esta adaptação em dois volumes, parece-me que João Miguel Lameiras tinha aqui uma hercúlea tarefa de resumir tantas páginas para cerca de 100 páginas de banda desenhada. Tendo em conta a variedade de episódios narrados e a própria natureza híbrida do texto original, esta adaptação era, portanto, um desafio considerável. Mas pode-se dizer que o trabalho de Lameiras se revela bastante sólido e meritório, sendo capaz de preservar a essência da obra sem a reduzir a uma simples sucessão de acontecimentos.

Coisa que, convenhamos, acontece várias vezes em várias adaptações de clássicos para banda desenhada. Muitas vezes, bem o sabemos, este tipo de obras transforma-se numa espécie de resumo ilustrado, útil do ponto de vista pedagógico, mas incapaz de transmitir a complexidade e o espírito do material de origem. Não diria que a complexidade da obra original esteja presente nestes dois livros, mas não deixa de ser verdade que se sente um genuíno esforço para preservar o carácter errante da viagem de Fernão Mendes Pinto e a sucessão de aventuras, perigos, encontros culturais e momentos de descoberta que definem a obra original. É óbvio que é uma obra de maior propensão didática - como também o é a maioria dos álbuns desta coleção, recorde-se - mas, mesmo assim, apreciei este esforço dos autores.

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP
Particularmente interessante é a forma como a narrativa consegue preservar a sensação de maravilhamento que caracterizou o relato de Fernão Mendes Pinto. O contacto com povos, costumes, religiões e paisagens desconhecidas continua a desempenhar um papel central, permitindo-nos acompanhar a viagem não apenas como uma sucessão de deslocações geográficas, mas também como uma permanente descoberta do mundo. 

No plano visual, porém, os resultados revelam-se mais irregulares. Miguel Jorge demonstra, em vários momentos, possuir uma capacidade assinalável para construir vinhetas interessantes e visualmente apelativas. Existem ilustrações cuja composição impressiona pela capacidade de transmitir a escala das viagens e dos ambientes orientais. Nesses momentos, diria que a obra alcança um nível gráfico bastante elevado.

Contudo, essa qualidade não é mantida de forma consistente ao longo dos dois volumes. Existem sequências em que o desenho parece menos cuidado ou menos expressivo, gerando uma sensação de desigualdade que acompanha toda a leitura. Essa irregularidade acaba por impedir que a componente gráfica atinja o nível qualitativo que, estou certo, poderia atingir.

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP
As cenas de ação constituem provavelmente o exemplo mais evidente dessas fragilidades. Apesar da frequência de batalhas e confrontos ao longo da história, nem sempre as personagens transmitem o dinamismo esperado. Em diversas ocasiões, as figuras apresentam poses excessivamente rígidas, fazendo com que as cenas de ação fiquem alto estáticas, o que reduz, obviamente, parte da tensão dramática que esses momentos exigiriam.

Também o trabalho cromático de Inês Lima suscitou-me impressões contraditórias. Há passagens em que a cor contribui de forma muito eficaz para criar atmosferas distintas. Porém, noutras ocasiões, a aplicação da cor parece mais superficial - talvez demasiadamente digital? - sem acrescentar profundidade suficiente às imagens. Tal como acontece com o desenho, a sensação predominante é a de uma qualidade variável, alternando entre momentos bastante conseguidos e outros algo medianos.

Um aspeto particularmente agradável da leitura é a inclusão de diversas referências visuais e pequenos easter eggs dispersos pela narrativa. Só para nomear alguns, posso dizer que apreciei especialmente a referência ao célebre quadro de Théodore Gericault, A Jangada da Medusa, ou o aparecimento de uma personagem com os mesmos traços faciais de um dos mais famosos autores portugueses de banda desenhada. Quem será?

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP
A edição dos livros é, à boa maneira dos restantes livros da mesma coleção, em capa dura baça, com bom papel brilhante no miolo, boa encadernação e boa impressão. Em cada um dos livros encontramos, no final, um dossiê de extras, elaborado por Paulo Silva Pereira, com informações adicionais sobre Fernão Mendes Pinto, a obra Peregrinação e o contexto histórico de ambos. 

Uma nota negativa para uma questão que, não sendo enorme, merece, quanto a mim, referência. Quando colocadas lado a lado, as lombadas dos livros - que têm exatamente o mesmo texto, exceptuando a menção ao facto de serem o "Peregrinação I" ou o "Peregrinação II" - apresentam o texto de forma bastante diferente. É a mesma font, sim, mas o texto aparece com um espaçamento e dimensão demasiadamente diferente. Sei que é uma coisa pequena, que não é isso que tira valor à obra, mas considero que é nestes (não tão) pequenos que está a diferença entre uma edição rigorosa e menos rigorosa.

No balanço final, Peregrinação afirma-se como uma adaptação competente e relevante de um dos maiores clássicos da literatura portuguesa. Não é uma obra isenta de falhas, sobretudo devido à sua natureza graficamente intermitente, mas consegue cumprir aquilo que era a sua missão fundamental: oferecer uma transposição acessível, respeitosa e suficientemente abrangente do texto de Fernão Mendes Pinto. 


NOTA FINAL (1/10):
7.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP

Fichas técnicas
Peregrinação - Primeira Parte
Autores: João Miguel Lameiras e Miguel Jorge
Adaptação da obra original de: Fernão Mendes Pinto
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Maio de 2024

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP

Peregrinação - Segunda Parte
Autores: João Miguel Lameiras e Miguel Jorge
Adaptação da obra original de: Fernão Mendes Pinto
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Outubro de 2024

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

"A Sombra das Luzes" chega ao fim!



A editora Ala dos Livros acaba de publicar o terceiro e último volume da mini-série A Sombra das Luzes, de Alain Ayroles e Richard Guérineau.

Este último volume da série denomina-se O Demónio dos Grandes Lagos.

Já aqui falei dos primeiro e segundo tomos da série.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


A Sombra das Luzes - Tomo 3 – O Demónio dos Grandes Lagos, de Alain Ayroles e Richard Guérineau

O primeiro ciclo das aventuras epistolares do malvado Chevalier de Saint-Sauveur chega ao fim. 

No coração da América do século XVIII, Ayroles e Guérineau conduzem-nos por uma história de romance, intriga e grandes aventuras. Nas florestas americanas, a guerra aproxima-se. O Chevalier de Saint-Sauveur não se importa. A sua única preocupação é o sucesso da sua aposta: a inocente Aimée d'Archambaud deve casar-se com um iroquęs! 

Para alcançar esse objetivo, o infame libertino está preparado para recorrer aos planos mais ardilosos. Golpes de machado e réplicas mordazes ecoarão no silêncio da floresta! 

A série “A Sombra das Luzes”, está integralmente publicada em 3 volumes pela Ala dos Livros.

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Ficha técnica
A Sombra das Luzes - Tomo 3 – O Demónio dos Grandes Lagos
Autores: Alain Ayroles e Richard Guérineau
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 255 x 340 mm
PVP: 25,00€

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Análise: Os 7 Crimes de Roma

Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet - Gradiva

Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet - Gradiva
Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet

A propósito deste Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet, que hoje vos trago, começo por opinar sobre uma coisa em específico - e é uma opinião muito pessoal como, aliás, são todas as opiniões dadas neste espaço: sou bem mais compreensivo com as editoras e/ou autores nacionais que não conseguem fazer uma obra de qualidade superior do que com as editoras que importam banda desenhada estrangeira de qualidade duvidosa. Se é para dar oportunidade a uma obra, digamos, "fraquinha"... ao menos que apostemos numa "BD fraquinha" de origem portuguesa. Pelo menos, sempre é uma forma de dar a oportunidade a um autor português para que este possa crescer. Já no que diz respeito à importação de banda desenhada... creio que o papel das editoras portuguesas deve ser o de trazer a melhor obra possível. Bem sei que nem todos temos os mesmos gostos, ou que a aposta pode ser de cariz mais comercial do que qualitativo... mas caramba, há tantas bandas desenhadas boas no estrangeiro (tantas, tantas, tantas!), que me faz confusão como se pode apostar numa obra como este Os 7 Crimes de Roma, que parece mais uma masterclass de como não fazer banda desenhada. Da capa aos desenhos, passando pelo desenvolvimento da narrativa, esta é uma obra que não merecia espaço nas livrarias portuguesas. Peço desculpa pela sinceridade, Gradiva.

Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet - Gradiva
E até devo admitir que a premissa da obra, à partida, até tinha tudo para resultar. Colocar Leonardo da Vinci no papel de investigador, envolvido numa série de assassinatos ocorridos na Roma renascentista, parece uma ideia suficientemente apelativa para captar a atenção de qualquer amante de história, mistério ou banda desenhada. Pelo menos, captou a minha atenção. Mas, infelizmente, aquilo que começa por parecer uma proposta promissora rapidamente se transforma numa leitura frustrante.

A narrativa arranca com a descoberta de um cadáver decapitado e com a presença de uma misteriosa inscrição deixada pelo assassino. O contexto histórico é interessante: Roma, em pleno Renascimento, com o Vaticano como pano de fundo e Leonardo da Vinci a circular pelos corredores do poder. São ingredientes que, bem trabalhados, poderiam ter dado origem a um thriller histórico bastante cativante.

No entanto, à medida que a história avança, torna-se cada vez mais evidente que os autores não conseguem explorar convenientemente o potencial da ideia inicial. O mistério perde força rapidamente e a investigação acaba por se tornar pouco envolvente. E em vez de sentirmos curiosidade em descobrir quem está por detrás dos crimes, somos confrontados com uma sucessão de acontecimentos que parecem acontecer porque o argumento assim o exige, e não porque surjam de forma orgânica. Confesso que estive quase a desistir da leitura, mas fiz um esforço e consegui acabãr de ler o livro.

Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet - Gradiva
Um dos vários problemas da obra reside na construção narrativa. Existem demasiadas situações que parecem forçadas, artificiais e pouco naturais. Muitas cenas parecem montadas apenas para fazer avançar a história para a página seguinte, sem grande preocupação com a coerência ou credibilidade dos acontecimentos. Os diálogos também não ajudam. Em diversos momentos soam artificiais, arrastados expositivos e pouco convincentes. Falta naturalidade às conversas e falta subtileza à forma como os autores gerem a comunicação entre as personagens.

O próprio Leonardo da Vinci, que deveria ser uma das grandes forças da obra, acaba por surgir como uma personagem de pálido carisma. Em nenhum momento senti que estivesse perante uma recriação memorável de uma das figuras mais extraordinárias da História. E também Guido, o jovem estudante de medicina que acompanha Leonardo, não me conseguiu conquistar. 

Por fim, a investigação criminal, que deveria constituir o motor da obra, sofre igualmente de vários problemas. A sensação é a de que os autores querem conduzir rapidamente a narrativa para determinado ponto sem se preocuparem em construir um percurso credível até lá. A leitura torna-se progressivamente mecânica e previsível.

Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet - Gradiva
Infelizmente, a componente gráfica também não consegue "salvar" a obra. Embora exista aqui e ali uma ilustração mais bem conseguida ou um enquadramento mais interessante, o resultado global está muito longe de impressionar. Os desenhos apresentam frequentemente um aspeto algo amador, tanto ao nível das figuras humanas como na representação dos cenários, onde há um excesso de ruído visual. As personagens surgem muitas vezes rígidas, com expressões pouco convincentes e uma linguagem corporal pouco natural. 

A própria capa está bastante mal concebida a vários níveis. Seja no grafismo, em que as letras são colocadas em cima do texto sem qualquer rigor ou preocupação estética - bem-vindos aos livros editados nos anos 70 - seja na ilustração, particularmente no desenho da mão de Leonardo da Vinci com dedos demasiadamente longos, sem que haja uma tentativa de transformar o desenho em algo caricatural. Posso dizer-vos que não tirei o dia para estar a deitar abaixo a obra... simplesmente são coisas difíceis de não referir.

A edição é em capa dura brilhante, com bom papel brilhante, boa encadernação e boa impressão. As margens a branco do livro parecem-me demasiado curtas, mas tendo em conta o amadorismo da obra, já nem sei se a "culpa" disso é da editora portuguesa ou do trabalho original.

No final, Os 7 Crimes de Roma surge como um daqueles livros em que o conceito é muito mais interessante do que a execução. Não é uma obra que faça justiça ao fascínio de Leonardo da Vinci nem ao enorme potencial do thriller histórico que havia aqui. Pelo contrário, é uma leitura esquecível que deixa a sensação de uma oportunidade claramente desperdiçada. Um livro a evitar.


NOTA FINAL (1/10):
2.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
Os 7 Crimes de Roma
Autores: Guillaume Prévost e Robert Paquet
Editora: Gradiva
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 23 x 31 cm
Lançamento: Julho de 2024