sexta-feira, 6 de março de 2026

Análise: Obras de Pratt

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros
Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt

Recentemente li (e, nalguns casos, reli) quatro dos livros da autoria de Hugo Pratt que, nos últimos tempos, a Ala dos Livros editou na sua coleção Obras de Pratt. Os livros em questão são Jesuit Joe e Outras Histórias; Anna na Selva; Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles; e Fanfulla, este último, editado mais recentemente e que conta com a participação no argumento de Mino Milani. É sobre estes livros que hoje vos falo, recordando que, da mesma coleção, já aqui analisei Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara, bem como Os Escorpiões do Deserto.

Começo por afirmar que Obras de Pratt é uma coleção de caráter documental mais que relevante pois permite, por um lado, trazer as obras de Hugo Pratt a uma nova geração de leitores que, de outra forma, poderia (já) não ter acesso a estas obras; e, por outro lado, permite que aqueles que já conhecem algumas destas obras de outras edições portuguesas passadas, possam ter acesso às mesmas numa edição de qualidade superior e, diria mesmo, de colecionador. Até porque, convém não esquecer, a obra de Hugo Pratt não se finda com Corto Maltese, merecendo ser explorada além dessa e como um todo.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Falando agora, de forma tão breve quanto possível, de cada uma destas obras, Jesuit Joe e Outras Histórias reúne três histórias a que o próprio Hugo Pratt apelidou de "Trilogia das Religiões", já que o tema das histórias orbita em torno do assunto da crença. A primeira história acompanha Jesuit Joe, um mestiço de ascendência francesa e indiana, que veste um uniforme da Polícia Montada, embora não pertença à mesma. Movido por uma lógica moral própria e implacável, ele atravessa as paisagens geladas do Norte, deixando um rasto de violência ao mesmo tempo que procura a sua irmã. 

Por sua vez, as histórias A Macumba do Gringo e A Oeste do Éden exploram o choque entre crenças espirituais e a dureza da sobrevivência, apresentando personagens que enfrentam dilemas éticos em cenários exóticos e isolados, bem ao jeito das histórias de Hugo Pratt. Esta é, talvez, a obra onde a amoralidade de Pratt atinge o seu auge, oferecendo uma leitura desconcertante, mas igualmente fascinante, pois é certo que a figura da personagem Jesuit Joe desafia as convenções do herói tradicional, servindo como um veículo perfeito para Pratt explorar a solidão absoluta e a violência gratuita numa ambiência fria e hipnótica. Gostei particularmente deste livro.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Já a história de Anna na Selva, decorre em 1913, na aldeia de Gombi, na África Oriental, pouco antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Esta é uma história que embora seja constituída por quatro episódios, tem, por ventura, a história mais articulada, em termos de enredo, de todos estes livros que aqui vos trago. Convém referir que esta foi a primeira obra em que Hugo Pratt assumiu totalmente tanto o argumento como o desenho e nela já se vislumbram os temas e a sensibilidade histórica que viriam a definir a sua obra mais célebre, Corto Maltese

O álbum mistura um certo realismo histórico do colonialismo com elementos de magia e mistério típicos das temáticas que, normalmente, associamos a Pratt, servindo como um documento visual da juventude do autor vivida em África. Embora tenha um tom ligeiramente mais juvenil que obras posteriores, a riqueza dos detalhes coloniais e a construção da atmosfera africana já revelam a profundidade e o respeito cultural que tornariam o autor num mestre do género.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Quanto a Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles voltamos a acompanhar as aventuras do major polaco Koinsky que já tinha sido peça fundamental da série Os Escorpiões do Deserto. O livro reúne cinco narrativas curtas baseadas em memórias da campanha militar italiana entre os anos de 1943 e 1945.

Neste caso concreto, em vez de grandes batalhas estratégicas, Hugo Pratt foca-se mais em pequenos episódios e encontros mais centrados nas relações humanas que ocorrem à margem do conflito bélico. Talvez por isso, diria que é uma obra fundamental para compreendermos não só a evolução técnica do autor, como o seu interesse duradouro por cenários bélicos e destinos cruzados. Pratt consegue capturar a fragilidade das alianças e a ironia do destino, provando - se dúvidas ainda houvesse - que as melhores histórias de guerra são aquelas que se focam nos homens e não nas bandeiras das nações.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Por último, em Fanfulla, Hugo Pratt une esforços, no argumento, a Mino Milani, para nos narrar as peripécias de Fanfulla da Lodi, um mercenário histórico do século XVI. A trama desenrola-se durante a Renascença Italiana, período em que dois clãs inimigos se enfrentam pela posse da cidade de Florença. Esta será certamente a obra menos conhecida destas quatro - e que era inédita em Portugal - e, representada em formato italiano, ou horizontal, traz-nos um conjunto de peripécias, algumas divertidas, deste mercenário que é um guerreiro implacável e valente, enquanto tenta ser, ao mesmo tempo, gentil para com as mulheres. É uma narrativa histórica, de espada e capa, que nos dá uma personagem principal muito carismática, como foi apanágio, diria, das criações de Hugo Pratt.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Sendo verdade que todos estes livros foram feitos em alturas diferentes da vida de Pratt, em todos eles é notório e facilmente identificável o traço característico do autor. Todos os livros são editados nas suas versões a cores o que, quanto a mim, torna mais visível uma certa obsolescência de algumas opções do autor nas suas cores. Sei que esta é uma opinião não partilhada por alguns, mas mesmo não descurando a beleza das aguarelas de Pratt em algumas das suas ilustrações, olhando para as suas obras à luz do tempo corrente, diria que funcionam bem melhor a preto e branco do que a cores. Mesmo assim, e fora esta opinião muito pessoal, compreendo obviamente que a edição da Ala dos Livros seja a cores, pois muitos são os leitores que valorizam especial e especificamente as cores de Pratt.

Em termos de edição, e conforme já referi, considero estas edições da Ala dos Livros verdadeiramente espetaculares, carregadas de brio e respeito pela obra do autor. Todos os livros têm capa dura, com detalhes a verniz. No miolo, o papel utilizado é brilhante e de qualidade superior, bem como assim é o trabalho de encadernação e impressão. Todos os livros apresentam, também, belos extras que complementam a leitura e o nosso conhecimento sobre a obra. 

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros
Em Jesuit Joe encontramos um texto final de apoio à obra, escrito por Francesco Boille, que é complementado por imagens de capas italianas e por uma página com esboços de Pratt. Em Anna na Selva, temos um texto introdutório de Renato Gaita, que é acompanhado com imagens de algumas vinhetas e mais esboços. Há uma ilustração de Anna Livingstone, a protagonista do livro, que é uma autêntica obra de arte e que bem que poderia ser emoldurada. Em Koinsky relata... temos um texto introdutório do próprio Hugo Pratt e cada uma das cinco histórias é iniciada com uma introdução composta por texto, imagens de oficiais e veículos de guerra e esboços a aguarela. É, de todos, o livro mais bem documentado através dos seus fantásticos conteúdos adicionais. Por fim, Fanfulla, sendo um álbum em formato horizontal, inclui uma manga em formato vertical, que nos permite arrumá-lo desse modo junto dos outros livros. Um detalhe que adorei, semelhante ao que a editora já tinha feito em O Relatório de Brodeck, de Manu Larcenet. O livro inclui ainda um texto introdutório da autoria de Antonio Carboni.

Em suma, todos estes livros são preciosas adições a uma boa biblioteca de banda desenhada e verdadeiros "must have" para os muitos adeptos da obra de Hugo Pratt. Jesuit Joe é, quanto a mim, o melhor destes álbuns; Anna na Selva, é um prenúncio claro do que seria Corto Maltese alguns anos mais tarde; Koinsky relata... é, de todos, o livro com o conteúdo extra mais apetecível, e Fanfulla é a proposta mais original e diferente dos quatro livros. Dito por outras palavras, há algo de apetecível e diferenciador em cada uma destas quatro obras.


NOTA FINAL (1/10):
9.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Fichas técnicas
Anna na Selva
Autor: Hugo Pratt
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Junho de 2023

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles
Autor: Hugo Pratt
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 196, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 320 mm
Lançamento: Setembro de 2023

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Jesuit Joe e outras histórias
Autor: Hugo Pratt
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Setembro de 2024

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Fanfulla
Autores: Hugo Pratt e Mino Milani
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura, em formato italiano com manga vertical
Formato: 295 x 210 mm
Lançamento: Março de 2026



quinta-feira, 5 de março de 2026

Análise: Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir
Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito

Hoje trago-vos uma dose dupla de Junji Ito, o mestre do terror em mangá. Para tal, centro-me nas duas obras mais recentes do autor japonês que a Devir nos fez chegar, nomeadamente Soichi - As Maldições Inconvenientes e As Angústias Amorosas dos Mortos.

Relembro que este é um autor com uma assinalável quantidade de obras já editadas em Portugal. Não só pela Devir, como pela Editorial Presença e pela Sendai Editora.

À boa maneira de Junji Ito, quer Soichi - As Maldições Inconvenientes, quer As Angústias Amorosas dos Mortos, são duas obras que, partindo de uma premissa macabra e "assustadora", nos oferecem vários episódios sobre esse mesmo tema. Há um fio condutor entre esses episódios mas, ao mesmo tempo, há uma certa independência entre os demais.

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir
O que traz a vantagem ao leitor de ir lendo cada um dos episódios no seu próprio ritmo, podendo intercalar a sua leitura com outros livros, mas que também traz o problema maior que encontro nas obras de Junji Ito: um certo sobreaproveitamento das suas premissas. Ou seja, começo sempre por gostar das ideias e das premissas de cada livro... mas depois, o meu interesse vai diminuindo por achar: "ok, já percebi a ideia". Invariavelmente, isto acontece-me com TODOS os livros do autor. Mesmo que aprecie muito as suas ideias macabras e os seus desenhos.

Falando-vos um pouco de cada um dos livros em concreto, em Soichi - As Maldições Inconvenientes, a história centra-se num rapaz excêntrico e antissocial que acredita possuir poderes sobrenaturais para lançar maldições. Caracterizado pela sua aparência pálida e pelo hábito bizarro de mastigar pregos de ferro (alegadamente para combater a anemia!), Soichi é uma criança narcisista que se sente incompreendida pela sua família e colegas. O livro reúne diversos contos que acompanham as suas tentativas sádicas de atormentar todos ao seu redor, utilizando bonecos de palha e rituais de vodu para causar infortúnios a quem o desagrada. O ponto mais positivo que encontrei nesta obra é a introdução de um humor negro, por vezes muito divertido, que contrasta um pouco com o tom mais sério que o autor utiliza noutras das suas obras. É que muitas vezes os planos maléficos de Soichi acabam por ter resultados inesperados ou cómicos, voltando-se contra ele próprio. 

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir
Já As Angústias Amorosas dos Mortos, é uma obra que explora a intersecção entre o amor obsessivo e o sobrenatural. A trama principal decorre na cidade de Nazumi, um lugar perpetuamente envolto em nevoeiro, onde os jovens praticam a "leitura da sorte no cruzamento" que é um ritual em que os habitantes locais tapam o rosto e pedem ao primeiro estranho que passa por si para prever o seu futuro amoroso. O enredo segue Ryusuke, um estudante que regressa à cidade anos após um evento traumático na sua infância. Ao dar uma previsão cruel a uma mulher desesperada num cruzamento, o pequeno Ryusuke levou-a, indiretamente, a cometer suicídio. E, ao voltar à cidade, o protagonista depara-se com uma onda de suicídios entre raparigas, todas influenciadas por um misterioso e "belo rapaz de preto" que vagueia pelo nevoeiro distribuindo leituras da sorte que levam ao desespero e à morte.

O que mais gostei neste livro foi do clima de suspense e mistério que contrasta com o terror mais direto de outras obras do autor. Gostei mesmo muito de toda aquela incerteza do nevoeiro a rodear tudo e todos, de quem seria o "belo rapaz de preto" e como isso estaria, ou não, relacionado com o episódio anterior na vida de Ryusuke. 

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir
Posso até dizer-vos que talvez este As Angústias Amorosas dos Mortos tenha sido o livro que mais me impactou de todos os que já li de Junji Ito. Até aprecio o terror macabro e gutural direto que o autor nos dá, mas senti-me mais impelido pela história quando esta se revelou menos direta e mais na base do suspense e do mistério.

Mesmo assim, pecou apenas, tal como Soichi - As Maldições Inconvenientes, na sensação de repetição, estilo "mais do mesmo", que se começa a sentir sensivelmente a meio da obra.

Em termos de desenho, o autor volta a oferecer-nos um belo trabalho nos dois livros. A sua mestria visual reside especialmente na sua capacidade única de fundir o belo com o grotesco, utilizando um traço meticuloso e detalhado que eleva o horror a uma forma de arte hipnótica e singular. É através deste contraste entre a os traços limpos das suas personagens humanas e a densidade caótica do sobrenatural, que Junji Ito consegue evocar uma sensação de desconforto visceral e que é única na abordagem.

Em termos de edição, ambos os livros apresentam capa mole com badanas e papel baço aceitável no miolo da obra. A encadernação e impressão estão boas, também.

Em suma, tanto Soichi - As Maldições Inconvenientes como As Angústias Amorosas dos Mortos, nos trazem mais dois bons livros de Junji Ito, especialmente direcionados aos fãs do autor. Se o primeiro livro prima por ter algum humor negro que se junta ao terror visual, o segundo apresenta um clima de tensão, mistério e suspense que me agradou especialmente. Muito embora, tenho que o admitir, ambos os livros pequem na exata mesma questão de, sensivelmente a meio das obras, esgotarem as suas próprias premissas.


NOTA FINAL (1/10):
Soichi - As Maldições Inconvenientes: 8.3
As Angústias Amorosas dos Mortos: 8.8

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Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir

Fichas técnicas
Soichi - As Maldições Inconvenientes
Autor: Junji Ito
Editora: Devir
Páginas: 414, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 14,8 x 21 cm
Lançamento: Maio de 2025

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir

As Angústias Amorosas dos Mortos
Autor: Junji Ito
Editora: Devir
Páginas: 406, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 14,8 x 21 cm
Lançamento: Outubro de 2025


Análise: Um Livro Esquecido Num Banco

Um Livro Esquecido Num Banco, de Jim e Mig - ASA - LeYa

Um Livro Esquecido Num Banco, de Jim e Mig - ASA - LeYa
Um Livro Esquecido Num Banco, de Jim e Mig

Originalmente editado em 2014, chegou-nos no mês passado, pelas mãos da editora ASAUm Livro Esquecido Num Banco, obra que marca a estreia da edição do trabalho dos autores Jim e Mig em Portugal.

Não sabendo muito bem o que havia de esperar deste livro - embora tivesse lido e ouvido boas referências - posso dizer-vos que foi uma boa surpresa e que funciona, acima de tudo, como uma obra que nos remete para uma daquelas comédias românticas de sábado à tarde, leves e que se veem bem, mas sem serem obras-primas.

Um Livro Esquecido Num Banco é isso mesmo: um livro que entretém e que até deixa algum espaço para refletirmos sobre as vidas que levamos no tempo presente. Será que, com o corre-corre do dia-a-dia nos esquecemos de como ser românticos? Mesmo a própria banda desenhada enquanto meio - com alguma pena minha, pois considero-me, orgulhosamente, um romântico - parece não se focar tanto no romantismo e nas relações amorosas. oferecendo-nos outros temas. Portanto, devo dizer que gosto da abordagem e também gosto que a ASA esteja a dar "palco" a este tipo de obras. Até porque, assim me quer parecer, são obras que podem trazer novos leitores (e leitoras) para a leitura de banda desenhada.

Mas além de ser uma história romântica, este livro também tem a valência de ser uma homenagem aos livros. Por tudo aquilo que eles nos dão, por todas as possibilidades infinitas que um livro por ler nos traz e até por poder funcionar como objeto de partilha de algo entre dois seres.

E é mesmo por aí que a história arranca.

Um Livro Esquecido Num Banco, de Jim e Mig - ASA - LeYa
Acompanhamos Camélia, uma jovem e bonita mulher, que encontra um livro num banco do jardim. Alguém o deve ali ter esquecido. Por um impulso natural de alguém que gosta de livros, Camélia dá por si a folhear o livro. Até que encontra aí uma mensagem que a convida a levá-lo para casa.

Já em casa, Camélia descobre que o livro parece ter mensagens codificadas, pois tem algumas palavras sublinhadas que, juntas, formam uma frase. Quem será esta pessoa que aparenta querer comunicar com outra através de um livro?

Ora, todo este secretismo e este enigma agitam a vida de Camélia, que até se encontra presa numa relação amorosa cansada, em que o seu namorado parece mais interessado em estar conectado através do seu novo telemóvel, do que em si. A jovem mulher encontra, então, na misteriosa pessoa que escreveu estas mensagens naquele livro um ponto em comum, pois também ela sonha com uma vida igualmente intensa, semelhante aos romances que lê. Passa então a escrever, também ela, mensagens no livro, deixando-o em espaços públicos na expectativa que o desconhecido(a) aceda a ele. 

O livro surge, pois, como um meio de comunicação entre Camélia e o misterioso - ou misteriosa - interlocutor(a). Mas embora Camélia deixe o livro no espaço público e se esconda procurando detectar quem é a pessoa que lhe escreve mensagens, há sempre algum evento que a distrai na hora H, fazendo com que ela não consiga perceber quem é a enigmática pessoa. E isso permite uma dinâmica interessante no enredo, alimentando a história sem a tornar cansativa. Ao invés, torna-a mais apelativa, aumentando a curiosidade do leitor.

No fundo, o que esta obra tenta fazer é explorar e valorizar a conexão humana através da literatura num mundo dominado pela conexão digital. Seja através de telemóveis, tablets, computadores ou e-books. Há aqui uma valorização do objeto físico, do papel dos livros, bem como da aventura de um encontro fortuito, às cegas, em contraste com os algoritmos contemporâneos de aplicações de encontros onde, antes de cada encontro físico, as pessoas já se conhecem virtualmente.

Um Livro Esquecido Num Banco, de Jim e Mig - ASA - LeYa
E para isso, o autor Jim baseia-se na prática conhecida por bookcrossing, que consiste em disponibilizar um livro à primeira pessoa curiosa num local público, para que esse livro possa ter uma segunda vida.

O argumento de Jim tem, pois, uma premissa original e cativante e o desenvolvimento do enredo e da investigação de Camélia deixa-nos agarrados à história. Parece-me que, no fim, a resolução do enigma e da história poderia ter sido melhor ou mais inspirada mesmo que, ainda assim, não seja má de todo.

Os desenhos de Mig encaixam bastante bem na história arquitetada por Jim. As ilustrações são modernas, simples, mas com uma boa dose de pormenores. A expressividade da protagonista é bastante boa, embora me tenha parecido que certas personagens apresentam uma expressividade algo rígida e menos verossímil. Em particular, a personagem de Étienne que parece um autêntico "boneco de cera". Todavia, penso que é justo dizer que, mesmo sem maravilhar, são desenhos que cumprem bem a sua função. Nota positiva, ainda, para as cores da obra que dão vida e uma boa dinâmica aos desenhos de Mig, sendo asseguradas por Delphine, com quem Jim já colaborou noutras obras.

A edição da ASA é integral, reunindo num só volume os dois tomos em que a obra foi originalmente editada. O que foi uma boa ideia, claro. O livro tem capa dura baça, bom papel brilhante, boa encadernação e impressão. É incluída uma nota introdutória de Jim e duas páginas, entre o primeiro e o segundo tomos, com esboços de Mig. 

O formato escolhido pela ASA é um pouco menor do que aquele da edição original francesa da obra, da Bamboo Édition. Nem sempre faço reparos a esta situação, pois muitas vezes não considero que a edição num formato mais pequeno desvirtue assim tanto a obra original - embora, claro, prefira sempre que a edição portuguesa seja tão fiel à edição original quanto possível. Neste caso concreto, esta redução no formato impacta um pouco a boa fruição da obra pois, como Mig utiliza várias vinhetas por página - por vezes até nos aparecem 4 tiras por página - isso faz com que as ilustrações e respetivas legendas e balões tenham uma dimensão menor do que o indicado. O que não é a situação ideal. Fica a nota.

Em suma, Um Livro Esquecido Num Banco oferece-nos uma boa leitura, leve e divertida, com um toque de comédia romântica não tão comum em banda desenhada - pelo menos naquela que, habitualmente, se lança em Portugal - e que, por isso mesmo, é mais que bem-vinda. Além disso, é um livro que presta homenagem aos próprios livros e lembra-nos que há mais vida para lá dos écrans dos telemóveis e computadores. Ora, a esse propósito, e sabendo que acabaram de ler este texto através de um écran digital, convido-vos a desligarem-no e a irem procurar um livro para vós mesmos. Se possível, de banda desenhada. E se for este Um Livro Esquecido Num Banco, ficam bem servidos.


NOTA FINAL (1/10):
8.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Um Livro Esquecido Num Banco, de Jim e Mig - ASA - LeYa

Ficha técnica
Um Livro Esquecido Num Banco
Autores: Jim e Mig
Editora: ASA
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 275 x 205 mm
Lançamento: Fevereiro de 2026



Vem aí novo volume de "Something is Killing the Children"!


É já a partir do próximo dia 16 de Março que nos chega o segundo volume da série Something is Killing the Children, de James Tynion IV e Werther Dell’Edera!

Relembro, àqueles que não leram, que já aqui falei do primeiro volume da série.

O livro já se encontra, por agora, em pré-venda no site da editora Devir.

Por agora, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Something is Killing the Children #2, de James Tynion IV e Werther Dell’Edera

Erica Slaughter matou o monstro que aterrorizava a pequena cidade de Archer’s Peak, em Wisconsin, mas o horror está longe de ter acabado.

Quando o seu misterioso superior chega à cidade para limpar a confusão e colocar os habitantes de quarentena, Erica entra ainda mais na floresta — porque o monstro que ela matou era uma mãe… e agora os seus filhos também têm que morrer.

Reúne os capítulos #6 a #10 da coleção.
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Ficha técnica
Something is Killing the Children #2
Autores: James Tynion IV e Werther Dell’Edera
Editora: Devir
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa mole
PVP: 18,00