sexta-feira, 13 de março de 2026

Análise: Longe

Longe, de Alicia Jaraba - Ala dos Livros

Longe, de Alicia Jaraba - Ala dos Livros
Longe, de Alicia Jaraba

Estava bastante curioso para mergulhar numa das mais recentes apostas da Ala dos Livros, que se denomina Longe e que marca a estreia da autora espanhola Alicia Jaraba em Portugal. Autora essa que, aproveito para lembrar, já foi confirmada como presença para a próxima edição do evento Comic Con, em Santa Maria da Feira. 

Vindo na senda de obras realistas, simples, em género slice of life e, aparentemente, leves, a editora portuguesa lança mais este Longe, que poderíamos colocar ao lado de outras como Peças, O Mergulho ou A Adopção, por exemplo. Com as devidas diferenças, claro está. Se faço menção a essas obras não é por achar que são obras parecidas ou que tratam do mesmo tipo de assuntos, mas por me parecer que quem gostou dessas obras pode gostar deste Longe.

Acompanhamos a história de Aimée e Ulysse, um jovem casal que empreende uma viagem ao sul de Espanha para que Ulysse possa realizar o seu sonho de fazer mergulho no Cabo de Gata e encontrar um peixe lua. Mas, por detrás do manto da aparente felicidade de umas férias com sol e mar, está uma relação amorosa em que cada um dos elementos do casal parece ter vindo a afastar-se do outro, tendo outros interesses e prioridades que nem sempre são correspondidos. 

Aimée tem pavor a fazer mergulho e, em termos profissionais, procura ser aceite num cargo importante como investigadora em Lausanne. Enquanto que Ulysse, depois de um ano difícil, quer focar-se mais nos pequenos prazeres da vida, desejando viver mais perto do mar. Ora, os desejos de cada um não são coincidentes com os do outro. E, invariavelmente, os seus caminhos conjuntos encontram-se perante um obstáculo. Como ultrapassá-lo? Como seguir em frente?

Longe, de Alicia Jaraba - Ala dos Livros
A obra assume um cariz de “road-movie” intimista, que nos fala sobre o medo de se sair da zona de conforto e da inércia de um relacionamento longo, cujo rumo já não se controla. É uma leitura profundamente agradável, destacando-se pela sua leveza enquanto nos convida a embarcar numa jornada que é tanto física como emocional.

A narrativa transporta-nos para o interior de uma autocaravana que atravessa paisagens soalheiras, à medida em que os protagonistas vão tentando realizar as várias coisas que se propuseram realizar quando delinearam uma lista de objetivos, em estilo bucket list. Essa dinâmica de irmos vendo, aos poucos, as personagens a realizar esses objetivos é muito bem-vinda e dinâmica, pois nem sempre essas realizações ocorrem da maneira que poderíamos perspectivar. 

Pelo caminho, Ulysse e Aimée encontram ainda uma personagem secundária, Paco, que acaba por assumir bastante relevância para a trama, servindo como catalisador para que vários momentos na vida conjunta de Aimée e Ulysse possam espoletar.

E, claro, ainda que a história possa parecer simples à primeira vista, ela possui a capacidade de nos fazer pensar. Aliás, diria mesmo que é esse o grande objetivo desta obra. O de nos fazer parar para refletir acerca da nossa vida, dos caminhos que trilhámos, juntos ou separados, não esquecendo tudo aquilo que optámos - voluntária ou involuntariamente - por não fazer. 

Longe, de Alicia Jaraba - Ala dos Livros
As personagens de Ulysse e Aimée - e até Paco - são cuidadosamente esculpidas pela autora, revelando camadas de personalidade que vão surgindo ao longo dos quilómetros de estrada. Graças a este cuidado na caracterização das personagens, dotando-as de vários layers, torna-se extremamente fácil para o leitor criar empatia com o trio. 

Também é justo referir que, em certos momentos, ficamos com uma certa sensação de que alguns desenvolvimentos na história são algo expectáveis, podendo a obra dar uma ideia de alguma previsibilidade em certas passagens. Não diria que essa familiaridade com a estrutura narrativa clássica de uma viagem em que as duas personagens principais procuram resolver conflitos internos e relacionais retire o prazer da leitura, mas concedo que torna alguns conflitos ou soluções narrativas menos surpreendentes do que poderiam ser.

Todavia, Longe tem, ainda assim, o grande mérito de não apresentar um final tão óbvio assim. Quando o leitor pensa que já sabe exatamente para onde a obra o leva, Alicia Jaraba introduz algumas nuances que poderão desafiar as suas expectativas, o que é, sem dúvida, um ponto a favor.

No plano visual, o trabalho de Alicia Jaraba é simplesmente encantador. Os seus desenhos são belos e modernos, com uma paleta de cores airosas e estivais - da autoria de Déborah I. Villahoz - , que capta na perfeição a luminosidade e a atmosfera de férias passadas no sul de Espanha.

Longe, de Alicia Jaraba - Ala dos Livros
Também a expressividade das personagens é um dos triunfos do livro. Assente num traço algo caricatural, a autora consegue transmitir emoções complexas através de olhares e gestos, dando uma alma vibrante a cada prancha. Sobre este ponto, apenas tenho que referir que me fez alguma confusão que a personagem de Ulysse fosse tão pouco caricatural quando comparada com as personagens de Aimée ou Paco, que apresentam traços faciais muito mais exagerados do que os de Ulysse. Não é nada que estrague o prazer, mas confesso que me pareceu um tratamento visual algo desequilibrado.

À medida que vamos acompanhando a viagem das personagens, Alicia Jaraba oferece-nos desenhos bastante "felizes" e luminosos. Contudo, essa leveza vai sendo entrecortada por alguma negritude visual que nos é dada por desenhos de Aimée a mergulhar nas profundezas de um mar obscuro e misterioso. Esta alteração gráfica permite que a obra ganhe ritmo e diversidade visual. Gostei bastante.

A edição da Ala dos Livros é em capa dura baça, com bom papel brilhante e boa encadernação e impressão. No final, somos presenteados com um texto da autora sobre a obra e com páginas com esboços e estudos para as personagens de Aimée, de Ulysse, de Paco e da própria autocaravana que acaba, também, por ser uma quase quarta personagem devido à importância da mesma para a história.

Em suma, Longe é uma bela obra bem equilibrada que, mesmo podendo parecer ligeira, combina bastante substância e faz-nos pensar sobre as escolhas que fazemos (e não fazemos) na vida. É uma leitura ideal para quem procura uma história reconfortante, mas capaz de deixar uma marca reflexiva muito depois de fecharmos a última página do livro. Boa escolha.


NOTA FINAL (1/10):
8.6


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Longe, de Alicia Jaraba - Ala dos Livros

Ficha técnica
Longe
Autora: Alicia Jaraba
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Março de 2026

quinta-feira, 12 de março de 2026

Vem aí um Mestrado sobre Banda Desenhada!



Mas que bela notícia, esta!

O IPLUSO - Instituto Politécnico da Lusofonia tem preparado para arrancar no próximo ano letivo o Mestrado em Ilustração Experimental e Narrativas Gráficas, que permite a especialização dos estudantes nas áreas de banda desenhada, álbum ilustrado e livro de artista!

É Marco Filipe Fraga da Silva, alguém verdadeiramente proativo no meio da banda desenhada nacional, que muito respeito, que ocupa a direção deste Mestrado, que procurar arrancar no próximo mês de Setembro.

Para isso, é necessário, claro, que haja um número suficiente de candidatos. Portanto, se tens interesse em especializar-te em banda desenhada, esta pode muito bem ser a oportunidade de que necessitas! E atenção que a primeira fase das inscrições já se encontra aberta!

É uma iniciativa inovadora no panorama português, que muito aplaudo, pois considero que poderá capacitar ainda mais os autores e artistas nacionais. Se eles já são bons, imaginem se tiverem a oportunidade de adquirir formação académica especializada em banda desenhada.

Para mais informações, convido-vos a visitarem o website do Mestrado, se bem que as imagens criadas pela autora Joana Afonso, que partilho mais abaixo, já sintetizam muito bem o que mais precisam de saber sobre esta iniciativa.




Mestrado em Ilustração Experimental e Narrativas Gráficas

O Mestrado em Ilustração Experimental e Narrativas Gráficas tem 3 Áreas de Especialização: Álbum Ilustrado; Banda Desenhada e Livro de Artista. Providencia competências técnicas (tradicionais/digitais) e criativas a autores, artistas e tecnólogos; propõe a abordagem experimental e inovadora a projetos editoriais ilustrados e/ou visuais, bandas desenhadas autorais de carácter institucional, lúdico ou pedagógico, ou para exposição, e Livros de Artista.

Aprofunda a criatividade, a crítica, a investigação, a autonomia, a proatividade e a inovação. Confere uma especialização competitiva, propícia à profissionalização e integração no mercado de trabalho. Prepara para os desafios contemporâneos no domínio da criação de graphic novels e projetos em visual storytelling, além de capacitar para a investigação académica.


quarta-feira, 11 de março de 2026

Análise: O Guia do Mau Pai

O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir


O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir
O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle

Saiu há poucos dias uma das mais recentes novidades da Devir que se intitula O Diário do Meu Pai. Originalmente editado em quatro volumes, entre os anos 2013 e 2018, depois de as suas pranchas até terem começado por ser divulgadas no blog do autor, este trabalho de Guy Delisle - do qual a editora portuguesa já por cá editou as obras Crónicas de Jerusalém, Shenzhen, Crónicas da Birmânia ou Pyongyang - assume-se com uma banda desenhada extremamente divertida, que me fez rir como há muito uma BD não me fazia.

Bem sabemos que, por vezes, lemos determinada obra na altura certa da nossa vida. Pode ter sido isso que aconteceu comigo. Também eu sou pai de duas crianças e também eu experencio, se não todas, muitas das situações que, carregadas de humor, Delisle nos oferece neste álbum.

De cariz autobiográfico, o autor vai narrando, em histórias curtas, as situações e peripécias que vive com os seus dois filhos, Alice e Louis, berm como as múltiplas maneiras como tenta manter-se com a cabeça acima de água enquanto é pai. Muitas vezes, Delisle parece um mau pai... ou um pai que não sabe argumentar bem aos seus filhos, ou que lhes mente ou que é mais distraído do que aquilo que deveria ser... mas a verdade é que qualquer pai - ou mãe - se pode identificar com aquilo que aqui é contado. Digo até mais: há aqui coisas que me aconteceram de um modo quase igual.

O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir
O humor é das coisas mais subjetivas que existe. Aquilo que me faz rir a mim, pode não fazer rir outra pessoa qualquer. E vice-versa. Portanto, tenho sempre alguma reserva em dizer que algo é cómico ou que "faz rir", pois poderá não fazer rir mais ninguém se não a mim mesmo. Mas, lá está, focando-me apenas na minha experiência, pessoal, enquanto leitor, e que aqui vou partilhando convosco, tenho a dizer-vos que este O Guia do Mau Pai não só me fez rir, como muitas vezes me fez gargalhar. Ao ponto da minha mulher e filhas me perguntarem: "mas o que é que estás a ler, que só te está a fazer rir à gargalhada?". Com efeito, a verdade é que nem todas as breves histórias que aqui nos são dadas me arrancaram uma gargalhada, claro está, mas houve algumas que achei verdadeiramente hilariantes.

Aprecio também a forma como Guy Delisle se expõe nesta obra, não tendo qualquer receio de ver a "qualidade" da sua paternidade a poder ser questionada pelos seus leitores. A vida tem-me ensinado que, ainda antes de olharmos para os defeitos e imperfeições dos outros, temos que olhar para bem dentro de nós. Talvez isso até nos ajude na percepção que temos de nós mesmos e, por conseguinte, dos demais. E é isso que o livro nos dá e que é verdadeiramente valioso, sejamos nós pais, mães, avós ou mesmo filhos. 

O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir
Deixem-me também dizer-vos que o motivo do meu entusiasmo com esta obra é que, na verdade, até nem me considero um grande fã deste tipo de humor, baseado em gags do dia a dia, pois muitas vezes me parece algo forçado e seco. Se neste O Guia do Mau Pai há, de facto, uma ou duas mini-histórias mais secas - tenho que o admitir - tenho que dizer-vos também que a grande maioria das restantes ou me fez rir à gargalhada ou, pelo menos, sorrir com verdadeira vontade.

Nota ainda para a última história do livro que o encerra na perfeição com um pouco de ternura e poesia que eu não estava à espera. Maravilhoso e quase nos deixa com a lágrima no olho.

Bem sei que Guy Delisle é bem mais celebrado pelas suas crónicas em países com realidades distantes - como Crónicas de JerusalémShenzhenCrónicas da Birmânia ou Pyongyang - para os quais tem acompanhado a sua esposa, que pertence aos médicos sem fronteiras, mas sou-vos sincero quando digo que talvez este O Guia do Mau Pai me tenha marcado (bem) mais do que qualquer um desses livros, não obstante a sua qualidade e relevância.

O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir
Estando nós perto do Dia do Pai, parece-me uma aposta irrecusável para oferecerem aos vossos pais. E não tenham receio do título do livro por poder parecer negativo para o pai que o receber. Na verdade, assim que o lemos, percebemos logo o tom humorístico e caricatural do mesmo. Na verdade, ou bem que todos somos "maus pais" ou a maioria de nós até é "bom pai".

Os desenhos de Guy Delisle nesta obra assemelham-se, em termos de traço e aspeto, àqueles a que o autor já nos habituou nas outras obras já editadas por cá, com a diferença que, neste caso, os desenhos são ainda mais simples, sendo a preto e branco, e não havendo espaço, sequer, para grandes detalhes. É frequente que não haja cenários a rodear as personagens, além dos elementos estritamente necessários para cada uma das mini-histórias. Seria mais bonito, sem dúvida, se o desenho fosse mais aprimorado, reconheço, mas também me parece que, tendo em conta o estilo de obra humorística baseada em gags que temos nas mãos, a arte de Delisle funciona bem, acabando por ser eficiente na forma como serve as histórias aqui apresentadas.

A edição da Devir é em capa dura baça, com bom papel baço no interior e uma boa impressão e encadernação. A opção por editar a obra de forma integral e não através de quatro volumes soltos, foi uma boa escolha da editora portuguesa.

Em suma, adoraria encontrar uma BD em 2026 que me fizesse gargalhar mais do que este O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle. Seria muito bom sinal. Mas não será tarefa fácil isso vir a acontecer, pois este livro deixou-me várias vezes a rir que nem um maluquinho com todas as suas curtas histórias que, de tão honestas que são, nos fazem olhar para nós mesmos e rir dos nossos defeitos e facilitismos à medida que assumimos as nossas funções parentais. Gostei mesmo muito.


NOTA FINAL (1/10):
8.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir

Ficha técnica
O Guia do Mau Pai
Autor: Guy Delisle
Editora: Devir
Páginas: 204, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Março de 2026

Parte 2 da Polémica na Feira do Livro 2026


A tempestade está instalada na Feira do Livro de Lisboa 2026!

Após a polémica levantada há uns dias com a exclusão de alguns editores de participarem na Feira do Livro de Lisboa - e da qual já aqui falei - surge agora a resposta oficial da APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) que, naturalmente, também interessa conhecer.

Para qualquer conflito que possa surgir, é sempre interessante que possamos escutar os dois lados. Como tal, e por uma questão de transparência, transcrevo mais abaixo o comunicado emitido pela APEL no dia de ontem.


APEL esclarece critérios de participação na Feira do Livro de Lisboa 2026

Perante algumas informações recentemente divulgadas sobre o processo de inscrições na edição de 2026 da Feira do Livro de Lisboa (FLL), a APEL – Associação Portuguesa de Editores e Livreiros – considera importante prestar alguns esclarecimentos.

Em primeiro lugar, importa sublinhar que é inteiramente falsa a afirmação de que “40 editoras independentes” tenham sido afastadas da Feira do Livro de Lisboa.

No dia 14 de janeiro de 2026, deu entrada uma inscrição para participação na Feira do Livro de Lisboa, por parte da empresa Foco – Serviços Editoriais, Lda., sedeada em Barcarena, na qualidade de editor. No formulário de inscrição apresentado, esta entidade indicou representar apenas as suas próprias chancelas, não tendo referido qualquer outra editora ou chancela cuja representação pudesse vir a assumir.

Importa esclarecer que a situação publicamente referida diz respeito a um único participante –Foco - Serviços Editoriais, Lda. (designação entretanto alterada para DNL Convergência, Lda.) – cuja inscrição não foi aceite para a edição de 2026.

Esta decisão teve por base o histórico de participação da DNL Convergência, Lda., na Feira do Livro. A APEL tomou conhecimento de que alguns autores terão pago valores significativos para que os seus livros fossem expostos no pavilhão da DNL Convergência, Lda., prática que estaria a ser novamente promovida em publicações nas redes sociais com vista à edição de 2026.

A APEL entende que este tipo de prática configura uma utilização comercial abusiva de um pavilhão da Feira do Livro, o qual deve destinar-se exclusivamente às atividades editorial e livreira dos participantes e das editoras por estes representadas. Este modelo de participação não salvaguarda os interesses nem os valores da classe editorial e livreira que a APEL representa.

Acresce que, na edição de 2025, foram registados incumprimentos reiterados do Regulamento da Feira pela DNL Convergência, Lda., mesmo após notificação formal para correção dessas situações, nomeadamente a ocupação abusiva de espaço com impacto económico direto em participantes localizados em pavilhões contíguos.

Finalmente, a APEL recebeu ainda denúncias de autores e de outros editores relativas a práticas de mercado consideradas incorretas levadas a cabo pela DNL Convergência, Lda., incluindo relatos de não pagamento de vendas de livros e/ou de direitos de autor associados às obras comercializadas no âmbito da Feira.

Foi com base neste conjunto de circunstâncias que a APEL, entre outras medidas, decidiu não aceitar a inscrição da DNL Convergência, Lda., na edição de 2026 da Feira do Livro de Lisboa, em defesa do prestígio, da boa reputação e do cumprimento das regras que regulam a participação neste evento.

Depois da comunicação dessa decisão, o participante DNL Convergência, Lda. solicitou à APEL uma reunião, tendo a mesma decorrido no dia 6 de março de 2026.

Nessa mesma reunião, foram apresentadas as razões que estiveram na origem da recusa da inscrição. A APEL solicitou ainda os nomes das editoras/chancelas que a DNL Convergência, Lda. diz representar, mas até ao momento não recebeu a informação requerida. 

A APEL manifesta disponibilidade para colaborar na identificação de soluções que permitam a presença das editoras/chancelas que pretendiam participar na Feira através da DNL Convergência, Lda., designadamente através da eventual representação dos respetivos catálogos por outros participantes já inscritos, que se mostrem disponíveis para o efeito, ou no espaço reservado aos pequenos editores.

Relativamente à composição da Feira em 2026, importa também esclarecer que:
• Quatro participantes da edição anterior optaram, por iniciativa própria, não se inscrever;
• Cinco novos participantes, editoras independentes, foram aceites pela primeira vez na edição de 2026;
• Três inscrições não foram aceites por apresentarem catálogos centrados, maioritariamente, em produtos que não livros;
• Três inscrições, incluindo a da DNL Convergência, Lda., não foram aceites por razões relacionadas com o incumprimento dos critérios de participação definidos pela organização.

A Feira do Livro de Lisboa continuará, assim, a integrar novos projetos editoriais e editoras independentes, mantendo-se como um espaço plural e representativo da diversidade do setor. 

A APEL reafirma que continua empenhada em garantir que a Feira do Livro de Lisboa se mantenha como o maior evento cultural do país, pautado pelos princípios de rigor, transparência, diversidade editorial e respeito pelas regras que asseguram o seu bom funcionamento.



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Transcrito o comunicado, uma coisa me parece clara: a organização da APEL demonstra-se pouco clara e pouco transparente em relação aos seus critérios.

Não posso aqui dizer que a exclusão da Convergência e dos editores que a mesma representa tenha sido feita de forma justa ou injusta - está claro que cada um dos lados queixar-se-á sempre do outro -, mas posso dizer que o critério inicialmente apresentado pela APEL, que fazia crer que a razão pela exclusão era a falta de espaço continua a ser ridículo e inaceitável. 

E, claro, mesmo que, conforme menciona no seu comunicado, a APEL tenha razões de queixa da Convergência, pergunto-me se a Associação não tem que fazer esse policiamento do cumprimento de regras a TODOS os outros expositores e não apenas à Convergência. Especialmente quando um dos motivos apresentados pela APEL é que "foram registados incumprimentos reiterados do Regulamento da Feira pela DNL Convergência, Lda., mesmo após notificação formal para correção dessas situações, nomeadamente a ocupação abusiva de espaço com impacto económico direto em participantes localizados em pavilhões contíguos."

Falar em "ocupação abusiva de espaço com impacto económico direto em participantes localizados em pavilhões contíguos" quando, conforme já referi, há Grupos Editoriais que ocupam, não pavilhões, mas praças(!), tendo auditórios com som incorporado que, naturalmente, se faz ouvir nos pavilhões próximos; tendo seguranças à entrada destas praças que estragam o ambiente natural de uma Feira do Livro e uma utilização completamente monopolista do espaço da Feira... me parece verdadeiramente anedótico. Assemelha-se a uma tentativa de atirar areia para os olhos dos outros.

Enfim. Vejamos que novos capítulos nos trará esta novela que merece horário nobre na SIC ou na TVI.