quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Análise: Blacksad #5 - Amarillo

Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros

Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido

Foi há poucas semanas que a editora Ala dos Livros lançou o quinto volume da série Blacksad, assegurando deste modo que tem toda a série disponível no seu catálogo. Trata-se de uma edição super especial dos primeiros cinco tomos que reúne a A História das Aguarelas em que nela nos é dado um rigoroso conteúdo extra em que o ilustrador Juanjo Guarnido nos explica as opções tomadas em relação às cores utilizadas em cada álbum. Além disso, a lombada em tecido agrupada dos cinco volumes forma o logótipo "Blacksad". É uma edição espetacular! 

Para que não se percam, relembro que estes primeiros cinco tomos da série já haviam sido lançados em Portugal há vários anos pela ASA e pela Arcádia. Os quatro primeiros pela ASA e o quinto pela Arcádia. Entretanto, a série recebeu mais uma história dividida em dois volumes, Então, tudo cai, que a Ala dos Livros também tem no seu catálogo. Há a possibilidade - mas ainda sem confirmação - desse díptico vir a ser incluído nesta coleção, reunindo os dois tomos num só volume com lombada a condizer e a inclusão da História das Aguarelas. Mas, claro, isso ainda é algo em estudo, não havendo para já nenhuma confirmação da Ala dos Livros.

Centrando-me neste quinto tomo, Amarillo, que tive a oportunidade de reler há uns dias, devo dizer que este é, quanto a mim, o menos impressionante de todos os álbuns da série. No entanto, essa perceção resulta menos das fragilidades da obra e mais da extraordinária qualidade daquilo que a precede e sucede.

Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Aqueles que me leem já o devem saber - pelo menos, faço referência a isso muitas vezes que Blacksad - juntamente com Armazém Central, por motivos diferentes - é a minha série favorita de banda desenhada. Esta é uma daquelas raras séries que, para mim, parece ter tudo. Adoro as histórias, adoro o ambiente noir, adoro o carisma das personagens e adoro, acima de tudo, a arte absolutamente extraordinária de Juanjo Guarnido. Talvez por adorar tanto a série é que considero que Amarillo acabe por ficar uns furos abaixo dos restantes álbuns.

Quero deixar uma coisa clara desde o início: considero Amarillo um belo álbum. O problema, se é que lhe podemos chamar "problema", é que pertence a uma série que me habituou à excelência absoluta. E quando comparo este quinto volume com os anteriores, sinto que é o menos forte da coleção. Mas, lá está, essa observação diz mais sobre o nível extraordinário de Blacksad do que sobre qualquer falha grave deste livro.

Desta vez, Canales leva-nos por um caminho diferente. Em vez de uma investigação policial clássica, temos uma espécie de viagem pelas estradas americanas, numa narrativa mais próxima de um road movie. A mudança de registo é interessante e permite explorar novos cenários e novas personagens, mas ao mesmo tempo senti falta daquela intensidade narrativa e daquele suspense que marcaram profundamente os restantes álbuns.

Ao longo da leitura nunca perdi o interesse, é certo, mas também nunca senti aquele fascínio quase hipnótico que experimentei em álbuns como Arctic-Nation ou Algures Entre as Sombras. A história de Amarillo flui bem, é envolvente e está cheia de bons momentos, mas nem sempre atinge os mesmos picos emocionais e dramáticos a que a série me habituou.

Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Ainda assim, há algo neste livro que é muito do meu agrado: a forma como Canales retrata a América dos anos 50. As estradas intermináveis, os motéis esquecidos, os pequenos negócios à beira da estrada e os sonhos de liberdade criam uma atmosfera irresistível. Mesmo quando a narrativa parece menos ambiciosa, o mundo de Blacksad continua a ser um lugar onde adoro passar o meu tempo.

As personagens secundárias, especialmente Chad Lowell, voltam a ser um dos grandes trunfos da obra. Uma das coisas que mais admiro nesta série é a capacidade de apresentar figuras que surgem durante poucas páginas e, mesmo assim, conseguem deixar marca. 

Quanto ao protagonista, John Blacksad, continua simplesmente incrível. O seu humor, a sua inteligência, o seu sentido moral e o seu charme fazem dele uma personagem realmente impactante.

Já visualmente, Amarillo continua a estar muito acima da esmagadora maioria da banda desenhada que podemos ler. No entanto, confesso que mesmo neste ponto senti que Guarnido talvez não tenha sido tão meticuloso como costuma ser. E isso nota-se claramente no desenho mais em esboço de personagens em segundo plano ou em alguns cenários. É claro que, em contraponto, há imensos desenhos que são lindos de morrer e que nos deixam verdadeiramente deslumbrados. 

Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
As aguarelas, por seu turno, continuam a ser de uma beleza impressionante. Guarnido mantém uma capacidade quase mágica para trabalhar a luz, as cores e as atmosferas. As paisagens quentes e poeirentas do sudoeste americano estão cheias de vida e ajudam a criar uma identidade visual muito própria para este volume.

Também continuo completamente rendido ao design das personagens antropomórficas. Cada animal parece escolhido ao detalhe para refletir a personalidade de quem representa. É um dos (muitos) aspetos geniais da série e algo que nunca deixa de me impressionar, mesmo ao fim de tantas leituras.

Em termos de edição, já pouco posso dizer, além de dar nota de que é uma das minhas edições preferidas de banda desenhada. A lombada em tecido, a inclusão de a História das Aguarelas, o cuidado editorial, os acabamentos de qualidade... tudo está feito na perfeição.

Em conclusão, reitero que Blacksad - Amarillo é o volume menos forte da saga, tanto a nível narrativo como, em certa medida, a nível artístico. Mas essa avaliação só faz sentido quando comparada com os restantes livros da coleção, que considero verdadeiras obras-primas. A fasquia está tão absurdamente alta que um álbum "simplesmente muito bom" acaba por parecer uma pequena desilusão. E talvez isso seja o maior elogio que se pode fazer a Canales e Guarnido com o seu Blacksad: mesmo quando os autores não atingem o seu melhor, continuam a criar banda desenhada de altíssimo nível.


NOTA FINAL (1/10):
8.9



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Blacksad #5 - Amarillo, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros

Ficha técnica
Blacksad #5 - Amarillo
Autores: Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 88, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Julho de 2026

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Análise: Batman - Grant Morrison - Volumes 4, 5 e 6


Batman - Grant Morrison - Volumes 4, 5 e 6, de Grant Morrison, Tony Daniel, Lee Garbett, Frank Quitely, Philip Tan, Cameron Stewart, Scott Kolins, Andy Kubert, David Finch, Andy Clarke e Chris Sprouse 

A Devir tem continuado ativa na edição de livros dedicados a Batman e, em particular, à saga desenvolvida por Grant Morrison. Hoje falo-vos dos três volumes mais recentes desta famosa run do autor.

E estes números 4, 5 e 6 que hoje vos trago representam uma fase particularmente ambiciosa da longa saga que o autor construiu para o Cavaleiro das Trevas. Depois dos acontecimentos de Batman R.I.P. e da aparente morte de Bruce Wayne em Crise Final, que fecham o 4º volume da saga, Morrison afasta-se deliberadamente da abordagem tradicional ao mito de Batman para explorar questões de legado, identidade e continuidade. O resultado é uma obra que continua a distinguir-se pela enorme densidade conceptual e pela capacidade de transformar décadas de histórias dispersas numa narrativa surpreendentemente unificada. Quer dizer, mais ou menos unificada. Porque embora haja um esforço hercúleo do autor em atar muitas das pontas soltas da célebre franquia, isso também acaba por ser feito à custa de uma densidade narrativa que, por vezes, pode ser assoberbante e desconexa. Mas já lá irei.

Antes disso, reconheço que grande parte do fascínio desta obra de Morrison reside precisamente na forma como o argumentista parece encarar Batman não como um único homem, mas como uma ideia, um conceito capaz de sobreviver à ausência do seu criador. Um homem pode morrer sem que a sua ideia morra, certo? E a substituição temporária de Bruce Wayne por Dick Grayson dá força a este ponto, revelando-se uma opção corajosa. Em vez de procurar um mero imitador de Batman, Grant Morrison explora como diferentes personalidades podem encarnar o mesmo símbolo sem que este perca a sua força.

Esta nova dinâmica ganha particular relevância através da relação entre Dick Grayson e Damian Wayne. Morrison já havia introduzido Damian nos primeiros volumes, mas é aqui que, quanto a mim, a personagem encontra verdadeiramente o seu espaço. A inversão dos papéis clássicos da dupla Batman e Robin, com um Batman mais leve e acessível a contracenar com um Robin agressivo, arrogante e imprevisível, dá-nos alguns dos melhores momentos dos três volumes.

Ao mesmo tempo, Grant Morrison continua a demonstrar uma impressionante capacidade para expandir o universo da série. Talvez até em demasia, diria eu. Gotham deixa de ser apenas uma cidade dominada pelo crime e transforma-se num palco onde coexistem conspirações seculares, organizações internacionais, vilões extravagantes e até mesmo algumas reflexões metafísicas sobre o próprio conceito de heroísmo. É um guisado com muitos ingredientes. 

Por esse motivo, nestes três volumes volta a consolidar-se, por um lado, aquela que considero ser a grande virtude da escrita de Morrison em Batman: a criação de um universo rico em camadas. Quase todas as personagens parecem possuir múltiplas dimensões, motivações contraditórias e ligações inesperadas a acontecimentos anteriores. Não existem apenas heróis e vilões. É este grau de complexidade que torna a leitura especialmente estimulante para quem aprecia narrativas mais exigentes.

Por outro lado, essa mesma complexidade constitui também o principal obstáculo da obra. Morrison parece por vezes tão fascinado pelas possibilidades do seu próprio universo que acaba por sacrificar a clareza narrativa. Existem momentos em que as histórias avançam através de associações simbólicas e referências internas que nem sempre produzem uma recompensa emocional proporcional ao esforço exigido ao leitor. Sim, se aquele que me lê procura mergulhar pela primeira vez em Batman, talvez os livros de Grant Morrison não sejam a melhor porta de entrada. Pelo contrário, considero que esta saga se destina bem mais ao fã mais conhecedor de Batman.

Esta sensação torna-se particularmente evidente na enorme quantidade de subtramas que atravessam os três volumes. Conspirações internacionais, identidades secretas, mistérios ligados a várias personagens, o regresso de Bruce Wayne, os planos de organizações criminosas e os conflitos familiares sucedem-se a um ritmo quase vertiginoso. Embora seja admirável a forma como Grant Morrison tenta articular todas estas peças, nem sempre é bem-sucedido.

Na verdade, uma das conclusões a que cheguei durante a leitura destes três livros é que quantidade de subplots nem sempre é qualidade de subplots. Algumas ideias parecem existir porque contribuem para a arquitetura geral do projeto de Morrison, mas não porque sejam verdadeiramente cativantes enquanto histórias autónomas. 

Ainda assim, é impossível não admirar a capacidade do autor para planear histórias a longo prazo. Elementos introduzidos centenas de páginas antes regressam com novo significado, personagens secundárias ganham importância inesperada e referências aparentemente insignificantes revelam afinal uma função precisa dentro do conjunto. E isso é riqueza narrativa, claro.

No plano gráfico, estes três volumes mantêm um nível qualitativo muito elevado. A alternância de artistas continua a conferir diversidade visual à série, mas sem comprometer muito a identidade global do projeto. Há um equilíbrio interessante entre espetacularidade, ação, atmosfera e caracterização das personagens. Sendo talvez injusto sublinhar o trabalho de alguns desenhadores - tendo em conta que todos eles são bons - tenho que referir que apreciei especialmente os contributos de Frank Quitely, pela conhecida originalidade do traço, e de Philip Tan, pela grandiosidade do seu desenho.

Em termos de edição, o trabalho da Devir está bastante bom em todos os livros. As capas são duras, com detalhes a verniz; o papel é brilhante e de bela qualidade; e a edição, impressão e acabamentos também são muito bons. No final do volume 4, há cinco capas alternativas e um texto que procura fazer um ponto de situação da história de Grant Morrison até esse ponto. Já nos volumes 5 e 6, o conteúdo extra ainda se torna mais interessante, com 10 páginas dedicadas a explicar-nos, por texto, o trabalho de prospeção e execução das capas, dos visuais das personagens, do desenho do batmobile, incluindo vários esboços e estudos. Belas edições.

Em suma, os volumes 4, 5 e 6 reforçam aquilo que já me parecia evidente nos livros anteriores: Grant Morrison criou uma das interpretações mais complexas, ambiciosas e intelectualmente estimulantes de Batman alguma vez publicadas. Contudo, também permanece a sensação de que, por vezes, o autor se deixa seduzir em demasia pela complexidade da sua própria construção. Nem todas as subtramas justificam o espaço que ocupam e nem todos os mistérios possuem um desfecho à altura das expectativas criadas. Ainda assim, mesmo quando tropeça nos seus próprios excessos, Morrison continua a oferecer uma visão singular e fascinante de Batman que vale a pena conhecer.


NOTA FINAL (1/10):
8.2


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Fichas técnicas
Batman - Grant Morrison - Volume 4
Autores: Grant Morrison, Tony Daniel e Lee Garbett
Editora: Devir
Páginas: 176, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27 cms
Lançamento: Outubro de 2025


Batman - Grant Morrison - Volume 5
Autores: Grant Morrison, Frank Quitely, Philip Tan e Cameron Stewart,
Editora: Devir
Editora: Devir
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27 cms
Lançamento: Fevereiro de 2026


Batman - Grant Morrison - Volume 6
Autores: Grant Morrison, Cameron Stewart, Tony Daniel, Frank Quitely, Scott Kolins, Andy Kubert, David Finch, Andy Clarke e Chris Sprouse 
Editora: Devir
Páginas: 188, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27 cms
Lançamento: Abril de 2026

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Análise: Trilogia Shakespeariana

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita
Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca

Foi no passado mês de Março que as editoras Levoir e A Seita se juntaram para o lançamento de uma obra clássica da banda desenhada italiana, originalmente editada a partir de 1975, que, inexplicavelmente, ainda não se encontrava publicada em Portugal: falo de Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca, que adapta para banda desenhada três das mais celebradas peças de William Shakespeare: Romeu e Julieta, Hamlet e A Tempestade.

E uma das coisas que tenho que começar por referir é que adaptar para banda desenhada as peças de Shakespeare, que foram originalmente escritas para o teatro e que, portanto, são mais assentes em diálogos/monólogos do que em narrações de eventos, não me parece uma tarefa nada fácil. Mas Gianni De Luca, que conta com a colaboração de Sigma, pseudónimo de Raoul Traverso na adaptação do argumento, é bem sucedido a dar a volta à questão com um estilo muito próprio que consegue, de forma incrível e inovadora, dar ação visual a cenas em que, supostamente, teríamos uma personagem estática a conversar. Mas já lá irei.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita

Dando uma tão breve quanto possível nota sobre cada uma das histórias aqui presentes, posso dizer-vos que Hamlet me parece a história mais sombria e introspectiva do volume. Aqui a tragédia do príncipe da Dinamarca mantém intactos os seus grandes temas: a dúvida, a culpa, a corrupção do poder e o desejo de vingança. E o famoso dilema existencial de Hamlet - "ser ou não ser, eis a questão" - encontra em De Luca um intérprete visual particularmente inspirado, pois em vez de depender apenas do texto, o autor utiliza a movimentação das figuras, a composição dos espaços e a encenação das cenas para expressar os estados de espírito da personagem. 

Em Romeu e Julieta, embora essa utilização da movimentação das personagens se mantenha -e atinja até mesmo um cume, face às restantes histórias -, o tom muda radicalmente. Aqui, a narrativa privilegia o romance, a paixão e a tragédia inevitável dos jovens amantes de Verona. Gianni De Luca representa com grande elegância tanto os momentos de intimidade como as cenas de conflito entre as famílias rivais, criando um equilíbrio eficaz entre lirismo e dramatismo.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita
A Tempestade
, por sua vez, introduz uma atmosfera mais fantástica e alegórica. A peça acompanha Próspero, legítimo duque de Milão, exilado numa ilha em que há forças mágicas, espíritos, ilusões e naufrágios. É aqui que encontramos a história mais clássica de banda desenhada, em termos de planificação, embora, não obstante, já se sinta um domínio da ação e da planificação da história.

Assim sendo, a verdadeira grandeza deste Trilogia Shakespeariana não reside apenas nas adaptações literárias em si. O elemento mais revolucionário do livro é mesmo o seu aspecto visual. Gianni De Luca rompe deliberadamente com a estrutura tradicional da banda desenhada baseada em vinhetas sucessivas. Em vez disso, desenvolve páginas organizadas como grandes espaços cénicos contínuos, onde as personagens aparecem várias vezes ao longo do mesmo cenário. 

Esta solução gráfica transforma a página num palco teatral. E acaba por tornar as peças de teatro originais menos aborrecidas - ou mais facilmente apreendidas - pois permite à narrativa ter uma fluidez e uma dinâmica que mantém os leitores atentos ao desenrolar da história. A passagem do tempo deixa de ser representada pela fragmentação da ação em vinhetas separadas e passa a ser sugerida pelo deslocamento das figuras no espaço. Assim, o leitor observa simultaneamente diferentes momentos da narrativa, acompanhando os trajetos das personagens quase como se estivesse perante uma representação ao vivo.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita
Esta inovação foi tão marcante que acabou por ficar associada ao chamado "Efeito De Luca", uma abordagem que influenciou numerosos autores posteriores. É algo que, de vez em quando, ainda conseguimos ver em algumas bandas desenhadas da atualidade, mas em 1975, quando esta obra começou a ser publicada, era algo verdadeiramente inovador.

O domínio do espaço, da composição e do ritmo visual de Gianni de Luca é verdadeiramente incrível. Se querem que vos seja sincero, e olhando para a obra à luz dos dias atuais, talvez o autor abuse um pouco desta forma de contar a história. Admito que consideraria a leitura mais equilibrada se esta técnica não fosse constantemente utilizada, prancha após prancha. Pois ao querer tornar-se a história menos aborrecida com uma planificação mais dinâmica, acaba por, ironicamente, se tornar também a história aborrecida pela presença sempre constante dessa planificação mais dinâmica. Parece-me que se esta técnica fosse utilizada com maior gestão, toda a história ganharia. Mas imagino que assim que o autor chegou a este nível, não mais quis parar. E reitero, claro, que é impossível não ficar abismado com a forma incrível, detalhada e original como Gianni de Luca nos mergulha nas suas histórias. E só por isso, considero este como um dos grandes lançamentos de banda desenhada clássica do ano em Portugal. Ler esta obra acaba por ser semelhante a ter-se uma masterclass sobre banda desenhada e sobre sequencialidade.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita
Além da inovação narrativa, devo ainda mencionar a bela qualidade do desenho. A linha de De Luca é elegante, precisa, limpa e expressiva. Os cenários são detalhados sem se tornarem excessivamente pesados, enquanto as figuras humanas comunicam emoções com grande naturalidade. 

A edição da obra é em tudo semelhante aos livros presentes na Coleção de Novelas Gráficas da Levoir. O livro tem capa dura baça, bom papel baço no interior, boa encadernação e boa impressão. Até tem, junto à lombada, a referência a "Novela Gráfica", numa tira de cor preta, o que é a imagem de marca da emblemática coleção da Levoir. De resto, há ainda um interessante texto introdutório de Pedro Moura e, no final, encontramos estudos e versões finais das capas originais dos álbuns e uma ilustração dedicada a Dante Alighieri.

Em conclusão, Trilogia Shakespeariana é uma obra fundamental para compreender a evolução da banda desenhada europeia. As adaptações de Hamlet, Romeu e Julieta e A Tempestade demonstram um profundo respeito pelo legado de Shakespeare, enquanto a extraordinária experimentação gráfica de Gianni De Luca é verdadeiramente impressionante, tendo redefinido os limites da narrativa visual. O resultado é um clássico intemporal que continua a impressionar leitores, estudiosos e autores, afirmando-se como uma obra que cada amante de banda desenhada deve conhecer.


NOTA FINAL (1/10):
8.8


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Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca - Levoir e A Seita

Ficha técnica
Trilogia Shakespeariana
Autor: Gianni De Luca
Adaptado a partir da obra original de: William Shakespeare
Editoras: Levoir e A Seita
Páginas: 144, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
Lançamento: Março de 2026

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Análise: A Solidão do Ser

A Solidão do Ser, de Helena Sá - A Seita e Turbina

A Solidão do Ser, de Helena Sá - A Seita e Turbina
A Solidão do Ser, de Helena Sá

Foi de um modo algo surpreendente que tomei conhecimento que, em primeiro lugar, havia o Prémio Revelação Maia BD - iniciativa que, pela sua relevância e potencial, aplaudo - e que, em segundo lugar, a edição de 2026 tinha sido ganha pela autora Helena Sá, que se estreou no universo da banda desenhada com este A Solidão do Ser, que hoje vos trago.

Esta é uma obra pequena na extensão, com menos de 40 páginas de BD, mas surpreendentemente vasta pela quantidade de coisas em que nos deixa a pensar. Não existe aqui uma história complexa, nem grandes acontecimentos, nem sequer uma preocupação em construir uma progressão dramática convencional, mas o que encontramos é, por sua vez, uma reflexão ilustrada sobre a condição humana, sobre o modo como (co)existimos e sobre a forma como, tantas vezes, atravessamos os dias sem verdadeiramente os habitar.

Helena Sá apresenta-se aos leitores de uma forma algo silenciosa e tímida, mas ao mesmo tempo demonstrando segurança. Quer no texto, quer nas ilustrações. Há aqui uma delicadeza evidente, mas também uma convicção muito clara acerca daquilo que se pretende comunicar, sem que seja necessário à autora levantar a sua "voz para se fazer ouvir". Ao invés, a autora aparenta preferir sussurrar com os leitores. E é precisamente por isso que a sua mensagem acaba por permanecer connosco durante mais tempo.

A Solidão do Ser, de Helena Sá - A Seita e Turbina
A Solidão do Ser
 traz-nos alguns avisos, algumas chamadas de atenção. Numa vida em que somos corpos fechados dentro de ilhas que pouco ou nada interagem com os outros - com as outras "ilhas" - este é um livro que traz consigo um alerta sobre o significado do ser, do querer e do estar. Ao longo das páginas, Helena Sá convida-nos a observar os espaços que ocupamos, as rotinas que repetimos e os vazios que muitas vezes transportamos sem deles termos plena consciência. É uma obra que fala da vida contemporânea sem nunca precisar de nomear diretamente os seus males. E é natural que todos nós, sejamos um(a) jovem de 16 anos ou um(a) idoso(a) de 86 anos, consigamos encontrar no protagonista deste livro mais pontos de contacto do que aquilo que gostaríamos de admitir.

Existe aqui uma reflexão muito pertinente sobre a forma como vivemos os nossos dias. Sobre a velocidade com que atravessamos o quotidiano, sobre a tendência para habitar mais os pensamentos do que os lugares físicos e sobre a dificuldade crescente em estarmos verdadeiramente presentes e conectados. É um livro que nos recorda que a existência não se resume ao simples ato de passar pelo tempo.

Ao mesmo tempo, a autora parece sugerir que precisamos desesperadamente de cor nas nossas vidas cinzentas. E não apenas enquanto elemento visual - embora o mesmo seja elaborado de forma bem sucedida -, mas como metáfora para tudo aquilo que confere significado à vida: a emoção, a ligação aos outros, a criatividade, a capacidade de sonhar e de encontrar beleza nos pequenos momentos.

Uma das características que importa mencionar é a rara economia no texto que existe neste A Solidão do Ser, em que as frases surgem simples, diretas e despojadas de grandes artifícios. Contudo, por detrás dessa simplicidade existe uma notável inteligência emocional. São frases que parecem leves no momento da leitura, mas que regressam mais tarde à memória, obrigando-nos a revisitá-las.

A Solidão do Ser, de Helena Sá - A Seita e Turbina
É verdade que, por vezes, senti que o texto, mesmo sendo inspirado e, como diriam os ingleses spot on, me pareceu algo curto, ou que as ideias nele presentes poderiam ser mais (bem) desenvolvidas. Mas isso não belisca em nada a ideia e conceito presente na narrativa. Além disso, Helena Sá demonstra que não são necessárias muitas palavras para transmitir pensamentos profundos.

Aliás, para uma autora na fase inicial do seu percurso na banda desenhada, a maturidade revelada neste livro é assinalável. Existe uma consciência muito clara do impacto que cada palavra pode ter e uma capacidade invulgar para condensar emoções complexas em poucas linhas. 

Visualmente, o livro é igualmente muito interessante. O traço da autora revela elegância, sensibilidade e personalidade própria. Existe uma fluidez muito agradável no desenho, acompanhada por uma simplicidade gráfica que nunca resvala para a pobreza visual. Pelo contrário, tudo parece cuidadosamente pensado para servir a mensagem da obra.

O jogo cromático entre os tons de cinzento, preto e branco e a presença pontual do amarelo constitui mais um dos elementos bem conseguidos do livro. Essa utilização seletiva da cor funciona quase como uma linguagem paralela à do texto, ajudando, tal como já referi, a reforçar emoções, ideias e o estado de espírito do protagonista. O amarelo surge como uma espécie de brecha luminosa no interior de um mundo frequentemente dominado pela monotonia e pela introspeção.

A Solidão do Ser, de Helena Sá - A Seita e Turbina
Também as soluções de planificação demonstram criatividade e confiança. Helena Sá não se limita a repetir a mesma estrutura de página ao longo do livro. Na verdade, até experimenta diferentes composições visuais e diferentes formas de organizar a informação gráfica. Como resultado, encontramos várias pranchas muito bem conseguidas e memoráveis.

Também em termos de edição, o trabalho conjunto das editoras A Seita e Turbina revela-se singular. O livro apresenta uma espessa capa dura (mesmo em sólido cartão) e a lombada está nua, revelando as próprias costuras entre os vários cadernos que compõem o livro. Não é uma opção muito frequente em banda desenhada editada em Portugal - assim, de cabeça, apenas me lembro da editora Levoir ter apostado nesta opção com o seu livro A Ilha - e, só por isso, revela-se uma escolha bem-vinda. Mesmo sem me considerar um "fanático das lombadas" confesso que me faz confusão que não haja qualquer informação na lombada. Não por uma questão de "ficar bem na estante", mas por uma questão de informação. Para aqueles que, como eu, têm muita banda desenhada, um livro sem texto na lombada pode ser menos relembrado se não se fizer notar pelo título na lombada. Mas, enfim, isto é uma opinião muito pessoal que não põe em causa minimamente o trabalho diferenciado e bem conseguido da edição deste A Solidão do Ser.

Além disto, no miolo, o livro apresenta bom papel baço, boa encadernação, boa impressão e um breve caderno de extras onde podemos ter acesso a estudos de personagem, estudos de página e uma breve biografia da autora.

Em suma, e depois de se ler A Solidão do Ser, torna-se fácil compreender o porquê de Helena Sá já ter recebido um prémio de banda desenhada com este livro. Eis uma obra que impressiona especialmente pela honestidade, pela sensibilidade e pela inteligência com que aborda temas universais. É um livro pequeno, discreto e profundamente humano. Daqueles que não procuram impressionar o leitor à força, mas que acabam por permanecer na memória precisamente pela serenidade com que nos convidam a olhar para nós próprios. Aliás, é bem possível que, pelo menos dentro da categoria de Prémio Revelação, sejam vários os prémios que a obra venha a arrecadar durante este e o próximo ano.


NOTA FINAL (1/10):
8.5



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A Solidão do Ser, de Helena Sá - A Seita e Turbina

Ficha técnica
A Solidão do Ser
Autora: Helena Sá
Editoras: A Seita e Turbina
Páginas: 56, a preto e branco (com algumas cores)
Encadernação: Capa dura em cartão com lombada cozida
Formato: 171 x 240 mm
Lançamento: Maio de 2026