A Fuga, de Paulo Caetano e Jorge Mateus
A dupla nacional de autores formada por Paulo Caetano e Jorge Mateus, lançou recentemente este
A Fuga, o seu segundo álbum de banda desenhada, depois de, há menos de dois anos, nos ter dado
O Segredo dos Mártires, que já havia deixado boas indicações.
Tal como dessa vez, a dupla volta a mergulhar-nos na história de Portugal. Mas, desta feita, esse mergulho é menos profundo, já que estamos perante eventos verídicos ocorridos há menos tempo. Se O Segredo dos Mártires se passava em época dos descobrimentos portugueses, A Fuga passa-se durante o tempo do Estado Novo, na década de 1950.
E, como bem sabemos, ou devíamos saber, este foi um dos períodos mais conturbados da História portuguesa, sendo uma época marcada por forte repressão infligida à custa da mão firme de uma ditadura de má memória.
A história acompanha António Tereso, motorista da Carris e militante clandestino do PCP, que se vê no centro de um episódio extraordinário, que combina culpa e resistência ao mesmo tempo. António Tereso é descoberto pela PIDE e acaba preso e torturado pela mesma. Durante uma sessão de tortura não consegue conter o seu silêncio, e vê-se forçado a denunciar alguns dos seus companheiros. A partir daí, o protagonista vive um autêntico conflito interior e exterior, já que terá que recuperar a honra perante a família, perante os companheiros, perante o Partido e perante si próprio.
Ora, numa tentativa de recuperar a sua dignidade, António Tereso monta um plano quase impossível: organizar uma fuga da prisão de Caxias. Para tal, vive uma vida dupla em que conquista, por um lado, a confiança dos guardas da prisão e tenta, por outro lado, arquitetar, em total segredo, a famigerada e desejada evasão da prisão.
Este elemento eleva a narrativa a um patamar quase cinematográfico, onde cada passo é cuidadosamente preparado e carregado de tensão. É precisamente aqui que a obra se aproxima de um verdadeiro “policial”, com ritmo, suspense e uma construção meticulosa dos acontecimentos.
Como se uma fuga da prisão não fosse já algo digno do cinema, a experiência torna-se ainda mais incrível quando a fuga é feita a abordo de um automóvel
Chrysler Imperial que Hitler tinha oferecido a Salazar. Pois, na verdade a fuga aconteceu mesmo e foi a bordo de um carro. Apenas não há qualquer prova de que Hitler tenha efetivamente oferecido este carro a Salazar. É um mito. E não há mal nenhum nisso, pois até aumenta, diria, a força narrativa da obra.
O que me leva a afirmar, justamente, que um dos grandes méritos deste A Fuga reside no equilíbrio entre ficção e História. A obra não se limita a usar o contexto histórico como pano de fundo; antes integra acontecimentos e figuras reais, criando um cocktail muito interessante que oscila entre o rigor documental e a emoção narrativa. Este cruzamento torna a leitura não só envolvente, mas também enriquecedora do ponto de vista cultural e histórico.
Comparativamente com O Segredo dos Mártires, trabalho anterior da dupla, esta obra consegue superar em boa medida o seu predecessor. Há aqui uma maior maturidade narrativa e uma confiança evidente na condução do enredo. A história é mais ambiciosa, mais dinâmica e, sobretudo, mais focada na ação e no impacto emocional.
Ainda assim, nem tudo é perfeito. Sensivelmente a meio da obra, o enredo sofre algumas quebras de ritmo. Existem pequenas vinhetas que parecem dispensáveis e que quebram a tensão acumulada até então. Para além disso, alguns saltos temporais surgem de forma algo abrupta, podendo causar alguma desorientação na leitura. A sensação que fica é que a história poderia ter beneficiado de uma gestão mais equilibrada do tempo, do espaço e da ação.
No entanto, estas fragilidades não comprometem de forma significativa a qualidade global da obra, que está bastante elevada. A força da narrativa principal compensa amplamente esses momentos menos conseguidos e o plano de fuga, em particular, é imaginado por Paulo Caetano com grande mestria.
O estilo de desenho de Jorge Mateus mantém-se em consonância com aquilo que o autor já nos tinha providenciado em O Segredo dos Mártires - portanto, quem já gostou dessa obra, continuará a gostar bastante desta - mas talvez aqui a dinâmica nos desenhos funcione ainda melhor por se tratar de uma história de ação. O desenho é bastante moderno e estilizado, simples nas formas utilizadas, mas complexo nos enquadramentos e dinâmica.
A maneira como as cores são aplicadas, de forma plana e minimalista, também ajuda a que o livro ganhe um aspeto muito interessante e original em termos gráficos, ao mesmo tempo que permite um uso inteligente da luz e sombra nos desenhos.
Além disso, o contraste entre os momentos mais intimistas e as sequências de maior intensidade é trabalhado com grande sensibilidade visual. Há uma clara preocupação em alinhar o estilo gráfico com o tom narrativo, o que evidencia a forte colaboração entre argumento e ilustração.
A edição da
Iguana é em capa mole baça, com detalhes a verniz e badanas. No interior, o livro apresenta bom papel baço, boa impressão e boa encadernação. Como material adicional, encontramos as fotografias de prisão das várias individualidades que protagonizam a história, bem como breves notas biográficas das mesmas. Há ainda cópias de documentos e as fotografias que a PIDE utilizou para reconstituir a fuga dos presidiários. Em termos de legendagem, o trabalho poderia estar mais bem feito, tenho que referir.
Em suma, A Fuga é uma obra muito bem conseguida, em que Paulo Caetano e Jorge Mateus superam a sua obra conjunta anterior, oferecendo-nos um relato envolvente sobre uma das mais célebres fugas de uma prisão portuguesa, por alturas do Estado Novo. É um livro com relevância histórica e que sabe, ao mesmo tempo, presentear-nos com uma história emocionante que custa a acreditar que aconteceu mesmo. Mas a verdade é que (quase) tudo o que aqui nos é contado... aconteceu realmente.
NOTA FINAL (1/10):
8.7
-/-
A Fuga
Autores: Paulo Caetano e Jorge Mateus
Editora: Iguana
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Abril de 2026