quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Vem aí o segundo e último volume de "Blast"!



"What a blast!"

A editora Ala dos Livros prepara-se para fazer chegar às livrarias portuguesas, já a partir do próximo dia 8 de setembro, o segundo e último volume de Blast, de Manu Larcenet!

Recordo que a série original contém 4 tomos e que a edição portuguesa desta obra marcante está dividida em dois volumes duplos. O que quer dizer que, daqui a alguns dias, já poderemos reunir nas nossas estantes a obra inteira em português! 

Coisa que, há cerca de um ano, poucos achariam possível, tendo em conta a dimensão da obra. Lembro-me que muita gente achava que nenhuma editora teria a coragem ou a força para editar esta obra. Mas a Ala dos Livros lá provou o contrário.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse e algumas promocionais deste livro que quero muito ler.


Blast - Integral (2/2), de Manu Larcenet

Polza Mancini, ainda sob custódia policial após a morte de uma jovem, relata as suas memórias na busca desesperada pelo Blast, "a explosão" — aqueles momentos mágicos que o transportam para outro lugar —, bem como as suas estadias em hospitais psiquiátricos, os seus terrores e pesadelos...
O segundo e último volume integral daquela que é por muitos considerada como a obra-prima de Manu Larcenet, uma obra artística exemplar, Blast, não deixará ninguém indiferente. Primeiro, pela sua forma: quatro álbuns publicados em Portugal em dois volumes integrais densos, sombrios e trágicos, repletos de humanidade transbordante e selvajaria fascinante. Depois, pelas suas qualidades gráficas e narrativas excepcionais que o tornam uma rara preciosidade editorial. Este segundo integral encerra, com rara mestria no argumento, a viagem de um homem cativante. Uma conclusão contundente que deixa o leitor sem palavras.

BLAST, a obra mais pessoal e que muitos consideram a obra maior de Manu Larcenet - (“O Relatório de Brodeck”, “A Estrada”…) – é uma história grandiosa, sombria e dura, carregada de um humanismo comovente.
Depois da publicação de O Relatório de Brodeck, e A Estrada, também da autoria de Manu Larcenet, BLAST, é uma obra marcante e imprescindível, que a ALA DOS LIVROS se orgulha de publicar em Portugal.

-/-

Ficha técnica
Blast - Integral (2/2)
Autor: Manu Larcenet
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 408, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 225 x 280 mm
PVP: 49,90€

Análise: Estamos Todas Bem

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público
Estamos Todas Bem, de Ana Penyas

O oitavo lançamento da atual Coleção de Novelas Gráficas, da Levoir e do jornal Público, trouxe-nos este Estamos Todas Bem, de Ana Penyas, obra bastante aclamada em Espanha, aquando do seu lançamento original em 2017, tendo conquistado vários prémios, entre os quais o Premio Nacional del Cómic.

E estamos perante um livro deveras interessante, de facto. Não diria que seja um livro perfeito, até porque fica um pouco aquém do próprio potencial que apresenta, como veremos adiante, mas é um belo e singular livro.

A obra nasce das memórias familiares da autora, mas rapidamente se transforma em algo maior. Através das recordações das suas avós, Maruja e Herminia, Ana Penyas traça o retrato de uma geração de mulheres que viveu sob o peso do franquismo e que atravessou, já em idade adulta, a transição para a democracia espanhola. E mais do que contar uma história linear, a autora recupera fragmentos de vidas, momentos aparentemente banais, mas que juntos formam um mosaico profundamente humano sobre aquilo que é ser mulher... e idosa... e avó no mundo moderno.

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público

Talvez por isso seja uma obra que facilmente nos toca a todos, fazendo-nos pensar no peso da velhice e da solidão da sensação de se estar no último capítulo da vida. E não é que estes sejam temas analisados de forma profunda pela autora, mas, mesmo assim, é quase impossível que não reflitamos sobre os mesmos quando lemos este Estamos Todas Bem que, também pelo título, me remeteu para o fabuloso filme Estão Todos Bem, com Robert de Niro.

Desde as primeiras páginas, somos apresentados a Maruja já na velhice, enfrentando uma cidade que parece ter deixado de ser feita para ela. Caminhar torna-se um desafio, os percursos mais simples transformam-se em pequenas odisseias e a solidão espalha-se pelos dias. Já Herminia, a outra avó, sente-se igualmente só, mesmo que tenha tantos filhos. Mas os filhos têm as suas próprias vidas ocupadas e não visitam a mãe tantas vezes como esta gostaria. E é neste presente silencioso que as memórias começam a emergir, misturando tempos, vozes e emoções.

A narrativa alterna constantemente entre passado e presente. As recordações da juventude, do trabalho, da família e das limitações impostas às mulheres daquela época surgem sem avisar, quase como acontece com as próprias memórias. Há algo de muito verdadeiro nesta forma de contar, porque a vida raramente se organiza em capítulos perfeitos. O passado aparece-nos aos pedaços, ligado por sentimentos mais do que por datas. É verdade que, em termos de fluência narrativa, acaba por não ser perfeito, como abordarei mais à frente.

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público


Gostei particularmente da forma como a obra presta homenagem às mulheres comuns. Não às heroínas dos livros de História, mas àquelas que cozinharam, limparam, criaram filhos, trabalharam sem reconhecimento e carregaram sobre os ombros o peso de uma sociedade profundamente desigual. Ana Penyas devolve-lhes uma voz que durante demasiado tempo permaneceu ausente. 

O tom da narrativa revela uma sensibilidade admirável. É um relato emotivo, mas sem nunca se tornar lamechas ou excessivamente sentimental. A autora Ana Penyas mostra-nos que a emoção mais forte muitas vezes até pode habitar nos mais pequenos gestos, como uma fotografia guardada numa gaveta, uma conversa interrompida, um silêncio à mesa. O livro encontra essa beleza subtil nessas coisas aparentemente insignificantes.

E, claro, à semelhança de um Rugas, de Paco Roca, de um O Mergulho, de Séverine Vidal e Víctor Pinel, de um Não Me Esqueças, de Alix Garin, ou mesmo de um O Corvo #VII - O Despertar dos Esquecidos, de Luís Louro, este Estamos Todas Bem oferece-nos uma reflexão muito subtil sobre o envelhecimento. O corpo que já não responde como antes, os amigos que desapareceram, a sensação de que o mundo continua a avançar sem esperar pelos mais velhos. Ana Penyas aborda estes temas com delicadeza, sem dramatismos desnecessários, permitindo que seja o leitor a descobrir a tristeza e a dignidade escondidas em cada página.

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público


Ainda assim, em termos narrativos, a obra não é totalmente irrepreensível, como já referi. Por vezes, falta um certo fio condutor que una melhor os acontecimentos, havendo alguma desconexação entre momentos, o que nos pode dar a ideia que a história é algo remendada. Bem sei que referi acima que o passado nos aparece aos pedaços. É verdade. Mas, mesmo assim, a obra tem algumas fragilidades na própria passagem entre momentos que, em alguns casos, parece que "caíram de paraquedas" em determinada prancha, como se fosse obra do acaso.

E esta opção acaba por gerar uma certa sensação de infinitude, pois parece que a obra não fica particularmente fechada. E quando digo isto não me refiro ao final propriamente dito, que até gostei, mas à própria resolução narrativa. Talvez seja isso aquilo que não permite que a obra se torne tão inolvidável, ainda que seja um bom livro, com boas ideias. Fica quase a ideia de que havia potencial para mais. Ainda assim, aquilo que nos é oferecido é suficientemente rico e interessante para justificar plenamente a viagem.

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público


Em termos de desenho, Ana Penyas apresenta um trabalho muito particular. Os desenhos possuem um traço caricatural, por vezes grotesco e até algo sorumbático. Pessoalmente, não foi um estilo que me conquistasse por completo, e imagino que possa afastar alguns leitores. Contudo, é impossível negar que confere à obra uma identidade visual muito própria e que, naturalmente, são desenhos com a sua própria beleza.

Além disso, uma nota positiva deve ser dada à forma como a autora procura não se repetir em termos visuais, dando-nos uma planificação dinâmica - e que sabe beneficiar do formato italiano da obra - utilizando colagens e vinhetas de diversos tamanhos, para não se tornar repetitiva.

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público

 

A edição é em capa dura, com papel baço no interior e um bom trabalho ao nível da impressão e encadernação.

Tenho que referir que, novamente, não faz sentido que a edição portuguesa da obra tenha o subtítulo "Homenagem a Uma Geração de Mulheres Sem Voz". Percebo o apelativo comercial que a editora quer atribuir à sua obra, mas considero que há formas e formas de o fazer e aquela que foi escolhida, não é particularmente feliz. Já fiz referência a esta opção da editora em Albert Londres tem de Desaparecer e tenho que o fazer novamente. E, por esse motivo, até cito as minhas próprias palavras: "mais do que ser um subtítulo que não era necessário, nunca poderia ter sido colocado daquela forma, com aquela dimensão, naquele local da página. Acho que foi um ato falhado que até acaba por estragar a bela ilustração da capa." Talvez no caso deste Estamos Todas Bem o crime de grafismo não seja tão grande como em Albert Londres tem de Desaparecer, mas ainda assim, não devia ter ocorrido.

Em suma, Estamos Todas Bem é daqueles livros que não impressionam tanto pelo que contam, mas pela forma como permanecem connosco depois de fechados. As memórias destas mulheres acabam por se confundir com as memórias das nossas próprias avós, das nossas mães, ou de tantas outras mulheres que viveram vidas discretas e, por isso mesmo, tantas vezes esquecidas. Apesar de algumas fragilidades narrativas e de um estilo gráfico que dificilmente reunirá consenso, Ana Penyas consegue construir uma obra cheia de humanidade e de ternura. 


NOTA FINAL (1/10):
8.7


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


-/-

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público
Ficha técnica
Estamos Todas Bem
Autora: Ana Penyas
Editora: Levoir
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 170 mm
Lançamento: Agosto de 2026

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Análise: Airborne 44 - Black Boys | Wild Men

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa
Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet

Se há série que tem passado um pouco pelos pingos da chuva em Portugal, no que à constatação da sua qualidade diz respeito, Airborne 44 é um belo exemplo.

Esta série que em França já vai no seu 11º volume e cujos primeiros seis tomos foram originalmente editados por cá numa parceria entre a ASA e o jornal Público, tem revelado ser uma das séries de banda desenhada sobre a Segunda Guerra Mundial que mais prazer me tem dado acompanhar. Isto porque Philippe Jarbinet encontrou uma fórmula muito eficaz para a mesma: abordar o conflito com um impressionante rigor histórico, sim, mas sem nunca cair na armadilha de transformar a narrativa numa simples e enfadonha lição de História. Pelo contrário, cada ciclo procura apresentar-nos novas perspetivas sobre a guerra, explorando diferentes protagonistas e pontos de vista. E isso faz toda a diferença.

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa
Assim, e embora os acontecimentos históricos sirvam de alicerce, Jarbinet nunca se limita a reproduzir factos e operações militares. Existe sempre uma forte componente ficcional que nos aproxima das vidas das personagens, dos seus medos, das suas esperanças, dos seus amores e das suas contradições. A guerra surge, por isso, não apenas como um confronto entre exércitos ou nações, mas como uma experiência profundamente humana. E, logicamente, isto aproxima o leitor da obra e das suas personagens.

Estes Black Boys e Wild Men, que hoje vos trago, correspondentes, respetivamente, aos tomos 9 e 10 da série e ao seu quinto ciclo narrativo, mantêm essa abordagem de forma fiel. Desta vez, o autor coloca no centro da narrativa dois soldados americanos cujas diferenças parecem, à partida, impossíveis de reconciliar: Virgil é negro, Jay é branco... e não apenas branco: é também o típico redneck racista, moldado por preconceitos profundamente enraizados.

Jarbinet constrói a relação entre ambos so soldados americanos de forma gradual e credível. O facto de combaterem do mesmo lado não significa automaticamente que se compreendam ou respeitem. Pelo contrário, as primeiras interações são marcadas pelo conflito, pela desconfiança e pelas tensões raciais que atravessavam a sociedade norte-americana da época. Bem... e da época atual.

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa
Mas as contingências da guerra e a luta pela sobrevivência obrigam Virgil e Jay a dependerem um do outro para que consigam subsistir. Convém não esquecermos que quando a guerra reduz tudo ao essencial, muitas das certezas e preconceitos que temos começam a ser postos em causa. Embora não se trate, claro, de uma transformação instantânea ou, sequer, de uma reconciliação simplista entre as duas partes. 

Naturalmente, há alguns momentos em que é fácil antecipar a direção da narrativa. Desde cedo percebemos que a convivência forçada acabará por aproximar as duas personagens. Nesse sentido, a história não é propriamente surpreendente, admito. Contudo, o facto de alguns desenvolvimentos serem expectáveis não diminui a eficácia da sua execução.

E o interesse parece estar menos no destino final das personagens e mais na forma como esse destino é alcançado. "O que interessa não é o destino, mas a caminhada". Jarbinet consegue criar diálogos convincentes e situações suficientemente tensas para manter o envolvimento do leitor ao longo dos dois tomos. 

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa
Além disso, estes dois álbuns abordam uma temática particularmente relevante: a discriminação racial no seio das próprias forças aliadas. Muitas obras sobre a Segunda Guerra Mundial tendem a apresentar os exércitos aliados de forma homogénea e quase idealizada. Mas aqui, o autor recorda-nos que a luta contra o nazismo coexistia com profundas injustiças sociais e raciais mesmo dentro dos Estados Unidos. O que nos obriga a fazer, automaticamente, uma ponte com os mais recentes movimentos segregacionistas nos próprios Estados Unidos do tempo presente. É, pois, interessante ler estes dois livros à luz do tempo presente.

Em termos de desenho, Jarbinet continua a demonstrar ser um dos melhores autores europeus quando o tema é a Segunda Guerra Mundial. Os cenários são minuciosos, os veículos militares surgem representados com grande atenção ao detalhe e os ambientes conseguem transmitir uma sensação constante de realismo. Também os momentos de ação ou de calmaria, com espaço para conhecermos o lado mais humano das personagens, aparecem bem representados.

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa
Quer em termos de desenho realista, quer em termos de tratamento cromático, parece existir uma forte inspiração clássica, com tonalidades suaves e algo envelhecidas, o que confere às páginas um aspeto quase "vintage". Essa opção estética pode não agradar a toda a gente e a parecer algo datada, mas, por outro lado, pode ser exatamente aquilo que muitos leitores procuram.

Em termos de edição, os livros apresentam capa dura brilhante, bom papel brilhante e boa encadernação e impressão. No final de cada um dos tomos, há um texto em forma de posfácio em que o autor nos revela importantes e curiosas informações acerca da feitura dos livros e, até, daquilo em que se inspirou. Valem bem a pena por tudo o que acrescentam, a jusante, à nossa leitura. 

O que também teria valido a pena era se estes ciclos passassem a ser editados em volumes duplos. Bem sei que tendo a série começado a ser editada por cá em tomos separados, talvez já não fizesse sentido editar os tomos seguintes em álbuns duplos. Mas, enfim, acho que faz mais sentido ter cinco volumes duplos com histórias autocontidas neles, do que ter 10 volumes separados com cinco histórias autocontidas neles.

Em suma, Black Boys e Wild Men talvez constituam o melhor ciclo de Airborne 44, uma série que considero obrigatória para todos aqueles que gostam de banda desenhada histórica ou de cariz bélico. O prato de rigor histórico, personagens humanas, reflexões sobre temas complexos e belos desenhos de Jarbinet é-nos dado numa dose muito lisonjeira. E, por tudo isso, é uma obra que se recomenda! 


NOTA FINAL (1/10):
9.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


-/-

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa

Fichas técnicas 
Airborne 44 - Black Boys - Vol. 9 
Autor: Philippe Jarbinet 
Editora: ASA 
Páginas: 64, a cores 
Encadernação: Capa dura 
Lançamento: Julho de 2024 

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa

Airborne 44 - Wild Men - Vol. 10
 
Autor: Philippe Jarbinet 
Editora: ASA 
Páginas: 64, a cores 
Encadernação: Capa dura 
Lançamento: Abril de 2025

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Análise: O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros
O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar

Foi há poucas semanas que a Ala dos Livros lançou o livro O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar, dando assim continuidade a esta série retomada pela editora no tomo 6, Não Terás Outro Deus Além de Mim, há cerca de 5 anos - os primeiros cinco volumes já haviam sido lançados por cá, relembro, pela editora ASA. De facto, foi bastante grande o interregno entre os volumes 6 e 7, coisa rara nas coleções editadas pela Ala dos Livros.

Estamos, pois, de regresso a este universo muito particular criado por Joann Sfar, onde a reflexão filosófica, a sátira religiosa e um certo absurdo convivem de forma natural.

Este novo episódio leva-nos de volta a Argel e centra-se nas discussões relativamente pacíficas entre o rabino Sfar e o seu primo, o imã Sfar, que acabam analisar as diferenças das suas religiões. E mesmo quando a mesquita sofre uma inundação e o rabino e o imã se veem forçados a concordar que os muçulmanos terão que rezar na sinagoga enquanto as reparações da mesquita são feitas, as diferenças entre ambos parecem ser mais que muitas, mesmo que até haja uma natural e positiva boa vontade de parte a parte.

A história desenvolve-se, depois, em torno deste acontecimento maior, permitindo a Sfar revisitar muitos dos temas que se tornaram centrais na série: a identidade, a fé e a convivência entre culturas. Como é habitual em O Gato do Rabino, o enredo parece menos interessado em chegar a um destino específico do que em apreciar as reflexões, os desvios e os encontros que surgem às personagens pelo caminho.

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros
E, claro, para isso muito contribui as tiradas e monólogos do Gato que são verdadeiramente apetecíveis e divertidas, sempre com um humor muito próprio. A personagem protagonista parece ser o próprio catalisador do pensamento de Joann Sfar, permitindo depositar no animal os comentários divertidos, mas sempre lógicos, que pairam na sua própria mente. E na mente de tantos outros, diria.

Há também uma analogia sempre presente, que neste caso se apoia no microcosmos das inundações na mesquita e na própria vinda dos novos gatos "estrangeiros" para a casa da dona do protagonista, que lhe roubam o leite da sua tigela. Esta analogia reflete-se naquilo que vivemos nos tempos atuais, em que as religiões continuam de costas voltadas e em que, cada vez mais, surgem movimentos contra os imigrantes que - dizem os iletrados em economia demográfica - nos vêm tirar o nosso sustento. É curiosa e inteligente a forma como Sfar faz crítica social, sem parecer, à primeira vista, que este é um livro satírico.

E contrariamente ao volume anterior, Não Terás Outro Deus Além de Mim, que me tinha deixado com sentimentos bastante mistos, confesso, este A Torre de Bab-El-Oued conseguiu conquistar-me de forma mais evidente. Continua a ser uma obra profundamente excêntrica e muito própria, é certo, mas desta vez senti que a história, sendo por ventura mais linear e menos poética, conseguiu atar melhor as pontas entre os acontecimentos a envolver as personagens e aquilo que o autor procura passar em termos de mensagem. Saí da leitura mais satisfeito e mais envolvido com aquilo que Sfar procurava transmitir.

E gosto especialmente da forma como o autor continua a abordar a religião sem qualquer tipo de reverência excessiva. Judaísmo, cristianismo ou islamismo surgem constantemente sujeitas ao olhar crítico, irónico e provocador do autor. Sfar não parece interessado em atacar especificamente uma religião, mas sim em encontrar as contradições, os paradoxos e os absurdos que existem em todas elas.

O humor ácido presente ao longo da obra revela-se, por isso, uma das suas maiores virtudes. Muitas das melhores passagens resultam precisamente da capacidade que o autor tem para desmontar dogmas, questionar certezas e expor a fragilidade de muitas convicções humanas através de situações absurdas e diálogos mordazes. 

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros
Ainda assim, permanece uma reserva que já tinha identificado no tomo anterior: a sensação de que a narrativa avança frequentemente ao "sabor da maré". Nem sempre existe uma progressão dramática muito definida e há momentos em que a história parece construída a partir de associações livres de ideias, mais próximas do devaneio do que de uma estrutura narrativa tradicional. 

Contudo, desta vez senti que essa abordagem me incomodou bastante menos. Talvez porque as reflexões me pareceram mais inspiradas, talvez porque o humor funciona melhor, ou talvez porque a própria leveza do tom acaba por justificar essa estrutura mais errática. 

No campo gráfico, Joann Sfar continua a apresentar uma identidade visual absolutamente singular. O seu traço permanece expressivo, ondulado, espontâneo e quase improvisado. Há momentos em que essa aparente espontaneidade pode ser confundida com alguma falta de rigor, mas a verdade é que o conjunto continua a possuir uma personalidade artística inconfundível. As figuras são deformadas e as perspetivas irregulares, contribuindo para criar um mundo onde o absurdo e a reflexão coexistem sem qualquer atrito. É uma estética que pode não agradar a todos os leitores, imagino, mas que dificilmente deixará alguém indiferente, tendo em conta a sua singularidade.

A edição da Ala dos Livros é em capa dura brilhante, com bom papel brilhante no interior e um bom trabalho de encadernação e impressão.

Em conclusão, O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued deixou-me mais convencido do que o volume anterior. Continua a apresentar uma narrativa algo fragmentada e errática que, por vezes, parece avançar sem rumo definido, mas compensa essa fragilidade com reflexões inteligentes, um humor extremamente ácido e uma sátira religiosa tão irreverente quanto perspicaz. 


NOTA FINAL (1/10):
8.1


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


-/-

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros

Ficha técnica
O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued
Autor: Joann Sfar
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 84, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Julho de 2026