segunda-feira, 29 de junho de 2026

Já são conhecidos os vencedores da primeira edição do Prémio Nacional de Banda Desenhada!



Já são conhecidos os vencedores da primeira edição do Prémio Nacional de Banda Desenhada! Como não podia deixar de ser... há polémica!

Os felizes contemplados deste prémio, que se espraia por três categorias, vão receber um simpático prémio no valor de 10.000€.

1) Na categoria Prémio Carreira, o vencedor foi António Jorge Gonçalves, pela súmula da sua obra.

2) Na categoria Obra do Ano; os vencedores foram o português Luís Moreira Gonçalves e o brasileiro Felipe Parucci, pela sua obra Dormindo Entre Cadáveres (Zigurate).

3) Na categoria Inovação em Banda Desenhada, os vencedores foram Ana Matilde Sousa, Ana Simões, André Nóvoa e Hugo Soares, pela sua obra Rumo ao Eclipse (Chili Com Carne).

E onde está a polémica, perguntam vós?

Bem, não me parece que esteja nas categorias Prémio Carreira e Prémio Inovação. Atribuir o Prémio Carreira a António Jorge Gonçalves, pelo conjunto da sua carreira, parece-me completamente aceitável. Tal como me parece aceitável o Prémio Inovação para Rumo ao Eclipse - embora admita não conhecer bem a obra, o conceito e premissa da mesma parecem-me bons e inovadores.

Agora, já quanto à atribuição do Prémio Obra do Ano, penso que é legítimo que levantemos já as nossas sobrancelhas. Deixem-me dizer-vos que gostei bastante da obra e, aliás, escrevi bastante positivamente sobre a mesma. Não coloco em causa a qualidade do livro, portanto.

No entanto, a obra não foi produzida para o mercado nacional. Foi produzida para o mercado brasileiro. E, embora o argumentista seja português, o ilustrador é brasileiro. Por uma questão de coerência e justiça, permitam-me desde já ilibar completamente os jurados que atribuíram este prémio. Diz o Artigo 4º do Regulamento do Prémio Nacional de Banda Desenhada que, e passo a citar, o Prémio Obra do Ano "distingue uma obra de banda desenhada original publicada em Portugal no ano anterior ao concurso, da autoria de criadores portugueses ou residentes em Portugal". Ora, um dos autores é português. E a obra foi efetivamente publicada em Portugal. Posto isto, o júri procedeu em conformidade com o regulamento. Aceita-se.

O que não se aceita tão bem é que o Regulamento, uma vez mais, seja tão mal parido. E é aí que reside o ponto polémico, quanto a mim. É que, deste modo, este Regulamento, sendo tão lato e tão pouco específico, permite que um autor nacional possa concorrer com uma obra concebida pelo e para um mercado estrangeiro, que tem outras exigências e outros níveis de produção.
 
Da mesma forma que critiquei publicamente - e critico - o Regulamento dos Prémios de Banda Desenhada da Amadora por darem azo a que se atribuam prémios a obras nas mesmas condições, também tenho que criticar este Regulamento. E mesmo quando fui um dos jurados dos Prémios e vi Jorge Coelho a vencer o Prémio pela sua (fantástica) obra O Grande Gatsby, que havia sido feita para o mercado estrangeiro e com co-autoria estrangeira, também me senti desconfortável, embora, repito, também aí o Regulamento tenha sido cumprido. Não acho que seja quem faz cumprir as regras "o culpado" desta situação desconfortável para o meio, pois é essa a sua função. É quem efetivamente faz as regras que deve ser chamado à razão. Por exemplo, se uma regra no futebol é parva, não devemos apontar armas ao árbitro por fazer cumprir essa regra parva. Devemos, isso sim, criticar a própria regra e quem a fez. A iniciativa é muito bem-vinda e importante, mas o regulamento está mal concebido. E há que o dizer.

Bem, fica feita a nota, sempre transparente e sem receios.

De resto, parabéns a todos os vencedores.

Mais abaixo, deixo-vos a nota oficial partilhada pela agência Lusa:


1.º Prémio Nacional de Banda desenhada distingue carreira de António Jorge Gonçalves

Porto, 28 jun 2026 (Lusa) - A primeira edição do Prémio Nacional de Banda Desenhada, uma iniciativa de promoção da criação artística e literária de criadores nacionais, atribuiu o Prémio Carreira a António Jorge Gonçalves e distinguiu mais cinco autores, foi hoje anunciado.

Em comunicado, o Ministério da Cultura, Juventude e Desporto (MCJD) explica que foram avaliadas 45 candidaturas às três categorias a concurso: 11 candidaturas ao Prémio Carreira, 15 ao Prémio Obra do Ano e 19 ao Prémio Inovação em Banda Desenhada.
António Jorge Gonçalves foi distinguido pela trajetória “permanentemente inovativa e eclética, que nunca estagnou ou se acomodou a um tipo de traço”.

O júri, composto por Sara Figueiredo Costa, Pedro Cleto e Sara Ludovico, destacou o “trabalho experimental do autor com cores, materiais e linguagens narrativas, assim como a forma consistente com que tem refletido sobre os limites e possibilidades da BD”.
O Prémio Obra do Ano foi atribuído a “Dormindo entre Cadáveres”, de Luís Moreira Gonçalves e Felipe Parucci, uma edição da Zigurate descrita pelo júri como “um testemunho muito relevante sobre a pandemia da Covid-19 no Brasil, particularmente no espaço amazónico”, construído a partir de um registo pessoal e crítico que não reduz personagens a meros veículos de informação.

Já o Prémio Inovação em Banda Desenhada foi atribuído a “Rumo ao Eclipse”, de Ana Matilde Sousa, Ana Simões, André Nôvoa e Hugo Soares, uma obra editada pela Chili Com Carne e descrita pelo júri como “um jogo de role ‘play’ a partir de um livro de banda desenhada preexistente”, que expande as possibilidades do meio sem o simplificar, antes tirando partido das suas lógicas narrativas.
Luís Moreira Gonçalves e Felipe Parucci, assim como a equipa formada por Ana Matilde Sousa, Ana Simões, André Nôvoa e Hugo Soares, são os vencedores da primeira edição do Prémio Nacional de Banda Desenhada (PNBD).

“Os autores distinguidos demonstram a diversidade, a qualidade e a capacidade de inovação da banda desenhada portuguesa. O Prémio Nacional de Banda Desenha reconhece esse talento e contribui para uma maior visibilidade da criação artística nacional, dentro e fora de Portugal”, afirma, no texto, a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes.

A cada uma das categorias foi atribuído um valor pecuniário de 10 mil euros, sendo que o Prémio Obra do Ano inclui um apoio adicional de 1.500 euros para a deslocação dos vencedores ao Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, em França.

A entrega dos prémios está marcada para o dia 18 de outubro, Dia Nacional da Banda Desenhada Portuguesa, no âmbito do Festival Amadora BD.

O Prémio Nacional de Banda Desenhada, anunciado em outubro de 2025, é uma iniciativa do Ministério da Cultura, Juventude e Desporto, gerida pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), que tem como “objetivo valorizar e promover a criação artística e literária no domínio da banda desenhada portuguesa”.

JCR // EA
Lusa/Fim

Magazine BD Independente - Análise a 10 BDs Independentes Nacionais


Hoje volto a trazer-vos um especial dedicado às últimas bandas desenhadas de cariz mais independente que andei a ler recentemente

Desde fanzines, a edições de autor e a lançamentos que, mesmo apoiados por dinheiros públicos ou pertencentes a "editoras", têm uma distribuição independente.

Embora estas BDs tenham uma distribuição menos presente e mais dispersa, face às obras das editoras mais convencionais, qualquer um destes trabalhos pode ser facilmente adquirido se contactem os responsáveis por estas edições.

Bem sei que poderia fazer um artigo para cada uma das propostas de leitura que hoje vos trago, mas diz-me a experiência - e também as estatísticas de visitas do blog - que cada uma destas bandas desenhadas independentes conseguirá chegar a mais gente se o artigo em que falo delas for mais global, com os leitores do blog a poderem, através de um estilo mais sintético de análise, em género de "magazine", tomar conhecimento das várias propostas que vos trago.

Sem mais demoras, partilho convosco as minhas breves análises a 10 Bandas Desenhadas independentes que li recentemente.


António Arroio 5
de vários Autores


Depois de um quarto volume que me surpreendeu por vários motivos - como a presença de autores de renome, a qualidade da edição e o formato "magazine" e com artigos além de histórias de banda desenhada - o quinto volume da antologia António Arroio foi lançado. 

Esta publicação procura reunir trabalhos de alunos da Escola Artística António Arroio e foi coordenado por Vasco Parracho. Para além dessas histórias curtas feitas pelos alunos, o livro também conta com histórias curtas de Nuno Plati, Ricardo Cabral, Ricardo Venâncio, Francisco Caldas, João Gil, Patrícia Furtado e, claro, Vasco Parracho. 

São histórias muito curtas, a maioria com duas páginas, e que apresentam, expectavelmente, estilos e qualidade muito variada. Como é, aliás, natural neste tipo de publicações. 

A qualidade da edição merece, uma vez mais, nota de destaque, pois não é muito comum encontrarmos antologias com esta qualidade de acabamentos.



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Cadáver Esquisito
de vários Autores


Cadáver Esquisito é, logo à partida, uma aposta ganha! O seu conceito é muito original e nunca antes feito em Portugal, consistindo numa banda desenhada coletiva, que contando com a participação de mais de 50 autores, consegue ser a banda desenhada coletiva jamais feita em Portugal! O que é, claro está, um marco para o projeto.

E quando falo em banda desenhada coletiva, não me refiro a um apanhado de histórias curtas independentes... refiro-me a uma história completa que recebe, depois, o contributo de quase seis dezenas(!) de autores que a vão moldando ao seu estilo e ideias. Ou seja, a obra resulta de um sistema de produção cooperativa encadeada, em que cada interveniente usa o trabalho anterior como inspiração para a sua criação. É óbvio que isto faz com que a história aqui contida seja muito volátil e "selvagem"... mas também acredito que, pelas mesmas razões, a obra consegue funcionar bastante bem, cumprindo os seus propósitos. Até porque também é bom podermos ser surpreendidos enquanto lemos. 

O projeto foi coordenado pelo autor Daniel Maia e ocorreu entre os anos 2008 e 2015 e só há uns meses recebeu a merecida compilação em livro, através de uma publicação da Arga Warga. Acho a ideia tão gira e tão criativa, que gostaria que houvesse mais iniciativas semelhantes no futuro.



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In The Dust Of Our Planet #0
Daniel da Silva Lopes



O universo criado por Daniel da Silva Lopes para os seus Solar Sailors - que incluem as séries In The Dust of Our Planet e Sweet Wind, têm tanto de riqueza, como têm de complexidade. 

É, de facto, necessário muita atenção para não perdermos o fio à meada nestas histórias densas e complexas arquitetadas pelo muito criativo Daniel da Silva Lopes. Especialmente tendo em conta o formato em que as histórias nos são dadas, em capítulos em continuação, é fácil ficarmos perdidos. 

Talvez por isso, considero que este número zero da série In The Dust Of Our Planet foi (mais) uma excelente ideia. 

É quase como um passo atrás que procura ambientar os leitores e dar contexto a este universo. Gostei e achei uma excelente ideia.




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King of Bones #1
Sérgio Hortelão


King of Bones é uma das mais recentes séries publicadas pela Gorila Sentado e que nos apresenta em grande estilo o autor Sérgio Hortelão. 

Assim que tive conhecimento desta obra, fui automaticamente remetido para Groo, O Errante, de Sergio Aragonés, uma das minhas séries humorísticas de BD preferidas de sempre. E, de facto, há vários pontos em comum.

Acompanhamos a história do bárbaro Ragnar que é povoada de muita ação, violência e um humor bastante próprio de que gostei bastante. 

O estilo de desenho de Sério Hortelão é particularmente original e muito apelativo em termos visuais, dando-nos quase a ideia de que estamos a assistir a um desenho animado dos tempos dourados do canal Nickelodeon. Uma série a ter em conta, sem dúvida. E, entretanto, já saiu o segundo volume.


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Last Call #2 e #3
Gonçalo Fernandes


Não tenho dúvidas de que no dia em que Last Call, de Gonçalo Fernandes, for publicado em volume inteiro e na língua portuguesa, chegará a muitos leitores portugueses que, por agora, e lamentavelmente, ainda não se deliciaram com esta obra. 

Já escrevi sobre o primeiro volume e, depois de lidos estes volumes 2 e 3 da série, reitero toas as boas sensações que tive enquanto lia o primeiro volume. Entretanto, a Gorila Sentado já publicou o quarto volume da série. 

Gonçalo Fernandes tem um potencial enorme enquanto autor de banda desenhada e este Last Call, dividido pelas histórias Triple Threat Terror e Land of The Free, que captura de modo feliz aquele vibe da célebre série televisiva Miami Vice, é absolutamente viciante. 

Sou um grande fã!


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Pessoa Fragmentado - Antologia
de vários Autores



A Associação TágIIde publicou uma das mais interessantes antologias que li recentemente. Com Fernando Pessoa e a sua obra enquanto tema, este trabalho reúne trabalhos muito interessantes que exploram várias valências e facetas da obra de Pessoa, aquele que considero ser o maior poeta português de sempre. 

Nem todas as histórias me deixaram tão satisfeito como outras e, por isso, merecem destaque as histórias Poema em Linha Recta, de Jorge RoD! Rodrigues e Um Jantar Muito Original, de José Macedo Bandeira. 

Houve também outras propostas em que se optou por, mais do que fazer uma história, adaptar diretamente os poemas de Fernando Pessoa. E também nesse ponto, gostei do que li.




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Portugal Jurássico
Henrique Gandum



Produzido em parceira pela Mudnag Edições e pelo Museu da Lourinhã - cujo contributo foi mais ao nível científico, para validação dos dados apresentados neste livro - Portugal Jurássico representa uma iniciativa bem-vinda, visto que procura ser um livro didático sobre os dinossauros que, algures no tempo, povoaram a região da Lourinhã, em Portugal. 

Além de incluir fichas técnicas dos vários dinossauros - e não são assim tão poucos - o livro tem uma história de banda desenhada que procura contextualizar o tema. Mas embora o livro tenha 36 páginas, apenas 8 delas são dedicadas a banda desenhada, o que me deixou um pouco desapontado. Porque a verdade é que este tipo de projeto me parece muito bem-vindo, pois consegue ser lúdico e educativo ao mesmo tempo. 

Uma excelente aquisição para os interessados em dinossauros e até para as bibliotecas das escolas do país. Só tenho mesmo pena que saiba a pouco por ter uma história tão diminuta em número de páginas.



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The Reflecting Void - Part One
Miguel Peres e Majory Yokomizo


Aquilo que Miguel Peres e Majory Yokomizo fazem neste The Reflection Void é muito interessante: dão vida e continuidade ao universo criado por Daniel da Silva Lopes no seu Solar Sailors. Ou seja, partem do universo criado pelo autor e responsável da editora, e desenvolvem a sua própria história e imagética. 

O resultado é uma história cativante que consegue o duplo feito de estar bem inserida na temática narrativa e, ao mesmo tempo, apresentar as suas próprias ideias e independência, numa boa relação de equilíbrio. 

O texto de Miguel Peres, expectavelmente, é bom e ressonante; e as ilustrações de Majory Yokomizo - que volta a trabalhar com Miguel Peres depois de O Pescador de Memórias e A Foz do Esquecimento - são bastante bem-vindas. 

Fiquei curioso para ler o próximo volume.



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Umbra #5 e #6
de vários Autores


Reúno os mais dois recentes da Antologia Umbra neste artigo, por dois motivos. Em primeiro lugar, por terem sido os dois volumes editados com uma menor janela temporal entre si. Alguns meses, apenas, separaram estes dois lançamentos. Em segundo lugar, a própria continuidade na história de Fernando Relvas, fez-me esperar para ler os dois volumes de enfiada. Eu já teci vários elogios a Umbra, e volto a fazê-lo: esta é das melhores antologias de BD editadas em Portugal. Um autêntico sucesso. 

O projeto conta com histórias de autores portugueses já consagrados no meio e alguns autores estrangeiros menos conhecidos, mas com propostas interessantes em termos de banda desenhada. As histórias são circunscritas ao universo da ficção científica o que, por si só, já permite muitos tipos de abordagens diferentes. 

Como notas positivas, destaco as histórias em que Vasco Colombo participa, a introdução, pela primeira vez, de uma história mangá - que, à boa maneira da banda desenhada de origem japonesa, se lê da direita para a esquerda (e que conta com uma colaboração editorial entre a Umbra Edições e a Sendai) - e, claro, do resgate da história Kris 3, de Fernando Relvas. As capas destes volumes 5 e 6, uma de Rita Alfaiate e outra de Pedro Potier, respetivamente, voltam a ser fantásticas na execução e inspiração.


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Zé Povinho nos Dias de Hoje
de Vários Autores


Que belo projeto, este! A propósito da celebração dos 150 anos da criação do Zé Povinho, por Rafael Bordalo Pinheiro, a Associação Tentáculo, em parceria com a Biblioteca Municipal das Caldas da Rainha e o Museu Bordalo Pinheiro, decidiu criar esta antologia que procura levar os autores participantes a apresentar a sua visão pessoal sobre esta personagem icónica da cultura portuguesa, adaptando-a à contemporaneidade. 

O resultado foi um belo conjunto de bandas desenhadas, ilustrações e texto ilustrado. 

Em termos globais, considero que os trabalhos apresentados reúnem bastante qualidade e é interessante verificar, também, como Zé Povinho é uma personagem maior do que o seu criador e continuará a ser símbolo futuro de todos os portugueses. Ou da maioria dos portugueses, vá, porque podemos excluir da equação os grandes ricos e poderosos de Portugal.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Análise: Dez Mil Elefantes

Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé - Levoir - Público

Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé - Levoir - Público
Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé

Dez Mil Elefantes é a terceira obra da mais recente Coleção de Novelas Gráficas publicada pela Levoir e pelo jornal Público.

Da autoria do espanhol Pere Ortín e do guineense Nzé Esono Ebalé, a obra parte de um episódio histórico concreto para construir uma narrativa que oscila entre o estilo documental e o estilo poético. 

A narrativa acompanha a expedição liderada pelo cineasta espanhol Manuel Hernández‑Sanjuán à então Guiné Espanhola, entre 1944 e 1946, em pleno regime franquista. A missão era, aparentemente, registar a vida colonial, mas rapidamente se percebe que esse olhar estava condicionado por interesses propagandísticos, procurando mostrar uma realidade filtrada e ideologicamente moldada. Coisas típicas dos estados colonialistas, como sabemos.

Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé - Levoir - Público
E é através da voz de Ngono Mbá, um dos carregadores guineenses que integrou esta expedição, que a história nos é contada na primeira pessoa. Esta escolha narrativa é logo interessante à partida, pois desloca o ponto de vista habitual - que, normalmente, é centrado no colonizador - para quem viveu a experiência do outro lado da lente. Ngono observa, comenta e interpreta aquilo que vê, oferecendo-nos um testemunho simultaneamente curioso, ingénuo e profundamente revelador.

A narrativa documenta, pois, essa viagem insólita, cruzando o olhar europeu, carregado de paixão pelo exotismo e de uma sempre crescente ambição, com a realidade concreta, mais simples, do território africano e das suas populações. O próprio sonho de Hernández‑Sanjuán - o de ver dez mil elefantes juntos - surge como uma metáfora dessa busca romantizada e, ao mesmo tempo, irrealista, espelhando o desencontro entre o imaginário colonial e o mundo real que o colonizador tentava captar.

Dez Mil Elefantes é uma proposta diferenciada e audaz por parte da Levoir que, com esta obra, nos oferece algo diferente daquilo a que estamos habituados a encontrar por cá, em termos de banda desenhada. Como tal, é possível que muita gente não goste, mas também é possível que muitos adorem este livro. Haverá quem não se identifique com a sua abordagem experimental, mas também quem a considere absolutamente fascinante. E isso é, em suma, a grande valência desta Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público: a de nos fazer conhecer novas obras e estilos, levando-nos para lá da nossa zona de conforto e convidando-nos a explorar linguagens, temas e sensibilidades diferentes, contribuindo, deste modo, para um panorama editorial mais diverso e enriquecedor. Goste-se mais ou menos.

Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé - Levoir - Público
Um dos aspetos mais interessantes da obra reside na forma como nos mostra, ainda que muitas vezes nas entrelinhas, que o colonialismo é, por natureza, uma construção artificial. Um sistema imposto, que ignora deliberadamente as culturas locais e que procura reescrever a realidade em função dos interesses de quem domina. Essa dimensão está sempre presente na obra, mesmo sendo verdade que nunca é explicitamente verbalizada pelo narrador.

O olhar de Ngono é simultaneamente curioso e crítico, revelando tanto o fascínio pelo desconhecido como a estranheza perante os comportamentos dos colonizadores. A sua vontade de aprender a ler e a escrever funciona, aliás, como símbolo de uma tentativa de apropriação e compreensão de um mundo que lhe é imposto.

Como ponto menos positivo, há vários momentos em que a história parece fragmentar-se em pequenos episódios algo soltos, criando uma certa desconexão entre os mesmos. A opção por uma narração contínua em monólogo, sem recurso a diálogos convencionais, reforça a ideia de testemunho, mas também torna a leitura mais monocórdica e, por vezes, ligeiramente cansativa. Acredito que a experiência poderia ter sido melhorada, se existissem momentos de diálogo entre as personagens.

Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé - Levoir - Público
Mesmo assim, a inclusão de cartas e outros elementos gráficos ao longo da narrativa contribui para quebrar esta linearidade e introduzir variações no ritmo da leitura, reconheço. 

Em termos visuais, Dez Mil Elefantes é uma obra extremamente rica e surpreendente. Nzé Esono Ebalé apresenta um trabalho profundamente autoral, combinando diferentes técnicas, que vão desde o desenho com esferográfica até colagens e inserções fotográficas. Tudo isto confere ao livro uma identidade estética muito própria, com cada página a parecer oferecer-nos algo novo, desafiando constantemente o nosso olhar.

A escolha da caneta esferográfica, associada à infância e à escassez de recursos do autor, não é apenas um gesto técnico, mas também simbólico. O resultado são imagens carregadas de textura e expressividade, com uma sensibilidade africana evidente. Este livro não precisava de ser sobre África para que sentíssemos, de algum modo, esse espírito africano só por olharmos para as ilustrações. 

A forma como as cores são utilizadas também se revela particularmente original e a planificação é muitas vezes ousada, com soluções visuais que enriquecem a experiência e sublinham o tom híbrido entre documento e interpretação artística.

À boa maneira daquilo que podemos esperar dos livros desta Coleção de Novelas Gráficas, o livro apresenta capa dura baça, com bom papel baço no miolo. A impressão e encadernação também são boas. No final, encontramos um epílogo escrito por Pere Ortín, que nos dá mais informações acerca do seu processo de trabalho nesta obra. 

Em suma, Dez Mil Elefantes é uma obra exigente, mas recompensadora. Não é uma leitura imediata nem confortável, mas precisamente por isso se torna relevante e marcante. Ao mesmo tempo que revisita um passado colonial pouco explorado, fá-lo com uma linguagem inovadora e uma perspectiva crítica subtil. Uma boa e original proposta da Levoir.


NOTA FINAL (1/10):
8.3



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé - Levoir - Público

Ficha técnica
Dez Mil Elefantes
Autores: Pere Ortín e Nzé Esono Embalé
Editora: Levoir
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Junho de 2026

Vinheta 2020 cancela grupo de facebook...


... mas cria um novo grupo!

Bem, aqueles que me seguem, e principalmente os que me conhecem bem, sabem que tenho um certo sentido prático de olhar para as coisas.

Se algo é relevante, muito bem, continuemos a trabalhar nesse algo. Mas se determinada coisa não tem verdadeira razão de ser, ou foi mal concebida desde o início, então talvez não valha a pena a sua existência.

É o caso do grupo de facebook BDinder. Quando, em 2021 o grupo foi lançado, a ideia era apenas uma: a de unir um argumentista sem desenhador para a sua história a um desenhador sem argumento para desenhar. Talvez tenha sido uma ideia um pouco ingénua da minha parte, pois agora, passados 5 anos, sei que dificilmente um projeto assim poderia ganhar verdadeira tração. Não é que fosse impossível - já vi bons projetos de banda desenhada começarem por menos - mas seria algo difícil. E a prova disso é que, apesar das 373 pessoas que se juntaram ao grupo, nada de verdadeiramente relevante surgiu desta iniciativa. Portanto, sim, mais vale que não exista.

Como tal, hoje é o dia em que este grupo deixa de existir.

Mas algo novo surge!

Hoje é lançado o BD Quotes - Frases da 9ª Arte que Ecoam. Será um novo grupo de facebook diferente de todos aqueles que existem em Portugal. Um grupo para partilha de citações de banda desenhada. Só assim, sem explicação nenhuma. Já vos aconteceu estarem a ler um livro de BD e determinada frase ou imagem vos fazer refletir, sorrir, pensar, chorar? A mim, certamente que sim.

Este novo grupo será para partilhar essas frases que ficam a ecoar dentro de nós.

O modo de funcionamento deste novo grupo não poderia ser mais simples: se estão a ler um livro de BD e tais sentimentos vos surgirem, só têm que tirar uma fotografia a essa vinheta e colocá-la no grupo. Podem fazer uma legenda... ou não fazer legenda nenhuma. Quem quiser pode depois comentar.

Será este o BD Quotes. Passem por lá e façam o vosso primeiro post.