quinta-feira, 2 de julho de 2026

Análise: Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio

Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros

Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido

Foi há poucos meses que a editora Ala dos Livros nos trouxe o quarto volume da série Blacksad, intitulado O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido. Esta é, como não me canso de dizer, uma das minhas séries preferidas de sempre. Lado a lado com a brilhante Armazém Central.

Tratando-se de uma reedição, uma vez que este quarto volume já havia sido lançado pela editora ASA em 2010, convém dizer que há várias coisas que distinguem esta nova edição da primeira. Desde logo, os acabamentos. O livro apresenta capa dura baça, com lombada em tecido. Cada lombada desta reedição da Ala dos Livros contribui para a formação de uma imagem conjunta. O resultado é muito bonito e elegante. Para além desse requinte visual e de material, cada um dos livros inclui A História das Aguarelas, que é um extenso dossier sobre o processo criativo de Juanjo Guarnido, em que o autor nos revela, num discurso na primeira pessoa, as técnicas, as ideias e as opções que tomou em termos de cores. São 40 páginas - sim, leram bem - dedicadas a este assunto. O que faz com que seja justo dizer que cada um destes tomos que a Ala dos Livros tem editado é, na verdade, constituído por dois livros: o livro propriamente dito e o "livro sobre o livro" que, aliás, até foi editado de forma separada originalmente. Por este motivo, não me canso de dizer que esta é uma das melhores edições de banda desenhada em Portugal dos últimos anos. Um objeto obrigatório para fãs e colecionadores.

Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Focando-me na história deste O Inferno, O Silêncio, a narrativa leva-nos até à Nova Orleães dos anos 50, em pleno ambiente festivo do Mardi Gras. Desta vez, o nosso detetive John Blacksad é contratado por Fausto, um produtor de jazz gravemente doente, que lhe pede ajuda para encontrar Sebastian, um pianista talentoso desaparecido há vários meses. O caso parece simples à partida, mas rapidamente revela camadas mais profundas e inquietantes. 

Acompanhado pelo inseparável Weekly, Blacksad mergulha então num universo marcado pela música, pela droga, pelos excessos e por muitos segredos por desvendar. Na verdade, todas as personagens escondem mais do que aquilo que, à partida, aparentam ser. Mas isso é, já sabemos, algo comum às histórias de Blacksad.

Díaz Canales constrói novamente um belo enredo noir sólido, com a dose certa de complexidade para uma história de 58 páginas, cheio de tensão emocional e de momentos de grande humanidade, em que o mistério serve também para explorar temas como a solidão, a dependência e, especialmente, a procura de redenção.

Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Para mim, que acompanho Blacksad desde o primeiro volume, este álbum volta a demonstrar porque é que esta série ocupa um lugar tão especial na banda desenhada contemporânea. Há um nível de consistência impressionante na forma como Díaz Canales e Guarnido conseguem combinar histórias policiais envolventes com retratos humanos cheios de nuances. Especialmente tendo em conta que as personagens da história são antropomorfizadas. Ou seja, têm cara - e, por vezes, corpos - de animais, embora o universo criado não possa ser mais humano, com todos os defeitos e virtudes inerentes que nos caracterizam enquanto espécie.

Uma das coisas que mais aprecio neste quarto tomo da série é a sua coesão, pois tudo parece encaixar naturalmente: a cidade escolhida, o mardi gras, o universo do jazz, as drogas e o próprio tom melancólico da narrativa. 

E, claro, as personagens também são outro dos grandes trunfos do livro, pois mesmo aquelas que aparecem durante poucas páginas, acabam por deixar a sua marca. Como é habitual em Blacksad, ninguém é totalmente herói nem totalmente vilão. É claro que há vilões e personagens hediondas, mas mesmo as personagens boas apresentam sempre fragilidades, motivações contraditórias e zonas cinzentas que tornam cada figura mais credível e interessante.

Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
John Blacksad, por sua vez, continua a ser um protagonista fascinante precisamente porque não é infalível. E neste tomo em particular, até chega, por mais de uma vez, a quase perder a vida. A sua inteligência e persistência convivem com dúvidas, frustrações e um certo desencanto que o tornam profundamente humano, apesar da natureza antropomórfica do universo em que vive. E depois temos a personagem irresistível Weekly - que teve a honra de receber um spin off recentemente - e que aqui aparece especialmente divertido.

Díaz Canales demonstra mais uma vez o seu talento para escrever histórias policiais que respeitam os códigos clássicos do género noir, mas que conseguem ir além deles. A investigação mantém o leitor interessado, mas o verdadeiro impacto surge na forma como os temas emocionais são trabalhados ao longo da narrativa.

Visualmente, o livro continua a ser um autêntico mimo. O Inferno, O Silêncio é mais uma demonstração do talento extraordinário de Juanjo Guarnido! Cada página parece ter sido criada com um cuidado quase obsessivo, desde a composição das vinhetas até à expressão das personagens. É daquelas obras em que vale a pena parar frequentemente apenas para admirar a arte ilustrativa.

Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Aliás, acho que é justo dizer-se que as ilustrações do autor não se limitam a ilustrar o argumento. Ao invés, dão-lhe uma dimensão adicional, enriquecendo cada cena com uma quantidade impressionante de detalhe e expressividade. A Nova Orleães dos anos 50 ganha vida através de ruas apinhadas de gente, clubes de jazz envoltos em fumo, desfiles coloridos de carnaval e ambientes noturnos carregados de atmosfera. Cada vinheta transmite uma sensação de movimento e de autenticidade que faz com que o leitor se sinta verdadeiramente imerso naquele mundo. Como não adorar?

Guarnido continua também a impressionar pela forma como trabalha as personagens antropomórficas. Apesar de serem animais, nunca deixam de parecer profundamente humanas nas suas emoções, gestos e expressões. E é precisamente aqui que Juanjo Guarnido volta a lembrar-me porque é o meu ilustrador de banda desenhada preferido. O domínio da anatomia animal, a expressividade dos rostos, o trabalho de luz e sombra e a utilização da cor atingem um nível que poucos autores conseguem igualar. 

As cores, em aguarela, são ainda um espetáculo à parte, como se o prato já não estivesse cheio com a bela história noir, com as memoráveis personagens e com os belíssimos desenhos. Guarnido é verdadeiramente incrível!

No final, Blacksad - O Inferno, O Silêncio não é necessariamente o álbum mais explosivo da série, mas é um dos mais maduros e emocionalmente ricos. Com uma história bastante coesa, personagens marcantes e uma componente visual absolutamente deslumbrante, este tomo reafirma tudo aquilo que faz de Blacksad uma série tão especial para mim desde o primeiro número. E é mais uma prova de que Díaz Canales e Guarnido formam uma das duplas criativas mais extraordinárias da banda desenhada moderna.


NOTA FINAL (1/10):
9.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros

Ficha técnica
Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio
Autores: Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 104, a cores
Encadernação: Capa dura com lombada em tecido
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Março de 2026

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Vinheta 2020 tem nova imagem feita por autor nacional!



Assim tem sido desde que comecei este projeto: muda o semestre e muda a imagem do blog Vinheta 2020!

Então, para início deste segundo semestre de 2026, que começa hoje, a nova imagem deste espaço foi gentilmente feita pelo Pedro N., um dos autores do muito - e justamente - aplaudido Tales From Nevermore.

Para a imagem do blog, Pedro N. desenhou de modo verdadeiramente espetacular a incontornável personagem de Sandman, criada por Neil Gaiman.

O autor junta-se assim ao belo conjunto de autores que já ilustraram a imagem do Vinheta 2020: João Mascarenhas, Xico Santos, Diogo Carvalho, Paulo J. Mendes, Jorge Coelho, Henrique Gandum, Daniel Maia, Joana Afonso, Ricardo Santo, Luís Louro, Osvaldo Medina e Telmo Estrelado.

Obrigado, Pedro N.!

Análise: Três Irmãs

Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska - A Seita

Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska - A Seita
Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska

Uma das novidades mais curiosas - pela originalidade do projeto, diria - foi a recente aposta da editora A Seita numa nova coleção que procura editar obras de autores polacos e que goza de uma parceira entre a editora portuguesa e a editora polaca Timof Comics e o Festival Internacional de Comics de Łódź. A coleção chama-se Bursztyn/Âmbar e já inclui três obras editadas por cá: Heksa: A Bruxa, de Kasia Witterscheim e Xulm; Lunáticos, de Adam Fyda e Marek Ospalski; e este Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska.

Sem qualquer referência sobre a obra ou sobre a autora, foi com curiosidade que parti para esta leitura que nos conta a história de três irmãs que se veem obrigadas a viver sozinhas depois da morte precoce dos seus pais. Uma delas, Olza, é maior de idade, Lena tem 17 anos e a mais nova das irmãs, Dominika, sofre da "Doença de Werdurski", uma doença degenerativa que faz com que a pequena Domi não possa falar, nem andar, tendo que passar a totalidade dos seus dias na cama e a requerer de cuidados continuados. As duas irmãs mais velhas tentam conciliar o trabalho com os cuidados prestados a Domi. A vida não se lhes afigura fácil, mas num dia recebem a notícia que beneficiarão de uma herança de uma tia afastada. Isto permite às irmãs contemplarem a hipótese de colocarem Dominika num centro de reabilitação.

Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska - A Seita
Mas esta hipótese não será fácil de alcançar por diversos motivos que não vos revelo, para não vos estragar o prazer da leitura.

Desde o início, a autora mergulha-nos num ambiente de instabilidade e perda, criando uma narrativa que oscila entre a dureza da realidade e a resiliência das personagens, principalmente de Lena. Ao mesmo tempo, mostra-nos como a divergência entre as irmãs mais velhas acaba por afetar as suas vidas, quer a nível amoroso, quer a nível profissional, quer a nível de relacionamento familiar ou quer a nível de projeções futuras. É, aliás, natural que uma situação tão delicada como uma doença degenerativa deste nível faça surgir tensões inevitáveis que se revelam perante a adversidade.

Uma das características mais marcantes do livro é a forma como Poszepczyńska constrói as personagens. Cada irmã possui uma identidade própria, com traços psicológicos bem definidos, o que permite ao leitor compreender as suas escolhas e conflitos internos. Essa individualização reforça a credibilidade da narrativa.

Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska - A Seita
Todavia, como ponto menos positivo, senti em vários momentos que certos eventos na história são ali colocados um pouco "à força" - como, por exemplo, a questão da herança - fazendo com que os mesmos sejam meras muletas narrativas, com o propósito único de levar a história para onde a autora pretende. Mas, lá está, são algo forçadas, o que retira alguma credibilidade ao todo. Aliás, a primeira parte da história até me estava a deixar um pouco consternado com a mesma, devo admitir. Felizmente, porém, creio que, algures a meio do livro, a autora agarra melhor o enredo, centrando-se naquilo que importa e acabando por nos dar um livro bom.

Quanto aos desenhos, Anna Poszepczyńska apresenta-nos um estilo de traço bastante moderno e agradável. Por vezes, o desenho pode parecer demasiadamente pouco aprumado, uma vez que é especialmente assente no esquisso - sendo até frequente que várias personagens não apresentem narizes, bocas ou olhos em planos mais afastados - o que até poderia sugerir que estamos mais próximos de um storyboard do que de uma arte final, tal não é a velocidade e simplicidade do traço. Os cenários também se apresentam algo vazios e portadores de poucos detalhes. Contudo, com a colocação das suaves e agradáveis cores nos desenhos, a experiência acaba, ainda assim, por funcionar. 

Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska - A Seita
E há que dizer que, em termos de expressividade, Anna Poszepczyńska é exímia na concepção das suas personagens. E isso seria algo obrigatório para que nós, leitores, pudéssemos criar empatia e proximidade com as vivências destas três irmãs. O que acontece facilmente. Cada olhar, cada sorriso, cada expressão de desespero ou esperança é aqui representada de um modo muito convincente.

Este é um daqueles livros que poderia verdadeiramente ter sido "espetacular". Mas pelos motivos que aponto acima, nomeadamente o facto da história poder ter sido mais bem arquitetada ou pela existência de desenhos que poderiam ser mais aprimorados, não o é. É uma daquelas obras que acaba por ser inglória, pois sente-se que havia potencial para criar algo mais grandioso. Embora, claro, seja uma boa leitura que vos recomendo a fazer. E concedo que, especialmente mais para o final, a obra revela-se interessante e valiosa, deixando-nos com uma boa experiência. Gostei particularmente como a autora resolveu e concluiu a história, de modo realista e, ao mesmo tempo, impactante.

A edição é em capa mole baça, com badanas, e bom papel baço no miolo. A encadernação e a impressão também estão bem feitas. No final, há três páginas com esboços e estudos de personagens.

Em suma, Três Irmãs é uma obra tocante e sensível sobre os sacrifícios e as escolhas que fazemos - ou que nos vemos forçados a fazer - para apoiar aqueles que nos são próximos, mesmo que isso, muitas vezes, nos afaste da caminhada que havíamos pensado para nós mesmos. É um livro agradável, que merece ser lido, mesmo que, com um pouco mais de trabalho da autora, pudesse ter ficado ainda melhor.


NOTA FINAL (1/10):
7.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska - A Seita

Ficha técnica
Três Irmãs
Autora: Anna Poszepczyńska
Editora: A Seita
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Março de 2026



Análise: A Aranha de Mashhad


A Aranha de Mashhad - Viagem a um Irão Desconhecido, de Mana Neyestani

Foi com este A Aranha de Mashhad - Viagem a um Irão Desconhecido, de Mana Neyestani, que a editora Levoir iniciou a sua mais recente Coleção de Novelas Gráficas. Uma boa escolha, parece-me, tendo em conta que já é um autor conhecido dos portugueses - tendo a mesma editora lançado anteriormente as belas obras Uma Metamorfose Iraniana e Os Pássaros de Papel. Mana Neyestani é mais um dos autores que se juntam ao coro de vozes que procuram dar destaque às práticas político-sociais presentes no Irão. 

Depois de, em Uma Metamorfose Iraniana, o autor nos ter dado um sentido e marcante relato biográfico onde ficámos a conhecer a história real que levou ao seu encarceramento de apenas e só porque publicou um cartoon que não caiu nas boas graças de outrem; e de, em Os Pássaros de Papel, o autor ter abordado a situação que se vive nas montanhas do Curdistão iraniano, na fronteira com o Iraque, em que são efetuadas perigosas expedições de transporte por pessoas extremadamente pobres que se veem forçadas, para obter algum dinheiro, a transportar às costas, em "mochilas" verdadeiramente gigantes, muitos materiais contrabandeados; este A Aranha de Mashhad fala-nos da história real de Saïd Hanaï, um homem aparentemente normal e sem quaisquer antecedentes criminais que, certo dia, decidiu eliminar prostitutas em nome da religião, na cidade santa xiita de Mashhad, no nordeste do Irão. Foram 16 as prostitutas assassinadas.

A inspiração do autor surgiu após assistir ao documentário And Along Came a Spider, do jornalista iraniano-canadense Maziar Bahari, que abordava este caso ocorrido entre os anos de 2000 e 2001.

Se o caso é interessante, a abordagem de Mana Neyestani é ainda mais interessante. Em vez de nos contar a história exata do que aconteceu, o autor opta por nos apresentar uma narrativa em formato de entrevista, em que Roya Karimi Majd conduz uma entrevista ao agora presidiário, e condenado à pena de morte, Saïd Hanaï. Trata-se de uma entrevista que procura dar a versão dos factos do assassino, de modo a levar-nos a perceber quais foram, realmente, as suas motivações para, no espaço de pouco mais de um ano, tirar a vida a 16 mulheres.

É-nos dada também a visão dos mesmos factos por parte da mulher e filho de Saïd Hanaï e do juiz Masouri que conduziu o caso judicial. É reproduzida, ainda, o dia na vida de Leila, uma das vítimas, que culminou com o contacto e confronto com Saïd Hanaï. 

O que mais impressiona é que este assassino seja um homem completamente sereno, que não se procura esquivar ou esconder daquilo que fez, mas, ao invés, não tem pruridos em confirmar os seus assassinatos e passar a ideia que os fez por um motivo maior: o de Alá não tolerar a prostituição. No fundo, era como se este homem considerasse que estava a fazer o trabalho certo, a função divina de eliminar as pessoas que, por serem prostitutas, não merecerem viver neste mundo.

Mais incrível ainda - especialmente aos olhos de um ocidental - é que a mulher e filho de Saïd Hanaï considerem que aquilo que este homem fez, não só é tolerável como até digno de louvores. E embora Saïd tenha sido preso e condenado, os locais passaram mesmo a olhar para ele como um exemplo a seguir e alguém que procurava fazer do mundo um lugar melhor. E mais limpo. Mesmo que, para isso, matasse quase duas dezenas de mulheres. É isto que um estado que faz brainwashing com os seus cidadãos, através de uma religião austera e castradora, faz à mentalidade e cultura vigentes. É triste de ler, mas é importante que livros como este A Aranha de Mashhad continuem a chamar a atenção do mundo para o atraso cultural que o Irão (ainda) vive.

O final, de cariz poético e político, é verdadeiramente espetacular. Funciona como um cartoon certo para concluir uma história tão impactante e triste como aquela que nos é dada neste livro. Talvez a causa do Irão seja mesmo uma causa perdida... pelo menos durante as próximas décadas, pois é difícil perceber como é que se altera um quadro de valores tão profundamente enraizado na população do país.

O estilo de desenho de Mana Neyestani mantém-se fiel àquilo que já conhecemos. Apresenta uma linha expressiva, a preto e branco, que recorre a hachuras e que é simultaneamente simples e carregada de tensão emocional. As personagens aparecem muitas vezes com feições exageradas ou ligeiramente distorcidas, criando um efeito que sublinha a opressão das situações retratadas. Funciona muito bem, na minha opinião.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço e um bom trabalho a nível de impressão e encadernação. O livro abre com uma introdução do próprio Mana Neyestani e fecha com um epílogo onde se dão breves notas adicionais sobre o assassino Saïd Hanaï, a jornalista Roya Karimi Majd e o próprio Maziar Bahari, autor do documentário original e que aqui também aparece como personagem, sendo a pessoa responsável por filmar a entrevista a Saïd Hanaï.

Em suma, A Aranha de Mashhad é mais um belo livro de Mana Neyestani que consegue fazer-nos parar para refletir sobre as atrocidades que, dia após dia, continuam a ser feitas no Irão, ao mesmo tempo que vai um pouco mais longe e nos mostra que mudar a mentalidade profundamente doutrinada presente no Irão, em que os direitos humanos são menos importantes do que as escrituras religiosas sobre uma personagem fictícia como Alá, é algo virtualmente impossível. Pelo menos, para já.


NOTA FINAL (1/10):
8.7



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
A Aranha de Mashhad - Viagem a um Irão Desconhecido
Autor: Mana Neyestani
Editora: Levoir
Páginas: 164, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240m
Lançamento: Maio de 2026