segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Análise: Domingos

Domingos, de Sidney Gusman e Jefferson Costa - Ala dos Livros

Domingos, de Sidney Gusman e Jefferson Costa - Ala dos Livros
Domingos, de Sidney Gusman e Jefferson Costa

Não é algo que aconteça sempre, mas é algo que, felizmente, acontece por vezes: há livros que nos tocam, que nos comovem, que nos fazem olhar para dentro, que nos fazem viajar para longe, para o nosso passado e para os locais ainda mais recônditos de nós mesmos. E mesmo que, no processo de leitura, continuemos imóveis, sentados num sofá ou numa cadeira, enquanto seguramos um livro nas mãos, é espantoso como aquele conjunto de folhas impressas nos permite viajar para tão longe.

Domingos, recentemente publicado em Portugal pela Ala dos Livros, é um desses livros. Sem que nos peça licença, leva-nos a viajar à nossa própria vida, ao nosso passado, mesmo que, na verdade, o relato contido nesta obra assente na vida familiar de Sidney (Domingos) Gusman, o famoso editor brasileiro, que, através de uma viagem ao seu passado mais distante, nos leva a conhecer a sua família, com especial destaque no seu pai, Domingos, que dá nome à obra. Jefferson Costa junta-se à empreitada para ilustrar estas belas personagens que dificilmente esqueceremos.

Domingos, de Sidney Gusman e Jefferson Costa - Ala dos Livros
Muito mais do que uma banda desenhada autobiográfica, esta é uma obra feita de memória, afetos e ausências, um testemunho profundamente humano sobre a relação entre um filho e um pai. No final, não sentimos apenas que conhecemos a história de Sidney e de Domingos... sentimos que revisitámos também os nossos próprios domingos, as nossas próprias perdas e os momentos que julgávamos esquecidos.

Domingos é uma figura aparentemente comum, mas cuja existência ganha uma dimensão universal através do olhar amoroso do filho. Sidney Gusman transforma a sua recordação pessoal numa história capaz de tocar qualquer leitor, porque fala-nos de algo que todos conhecemos: o tempo que passa, as mudanças que registamos - voluntária ou involuntariamente - e as ligações que nos definem e que perduram. 

A premissa é simples e, precisamente por isso, poderosa. Domingos nasceu num domingo e partiu deste mundo também num domingo. Entre esses dois momentos desenrola-se uma vida feita de incontáveis domingos partilhados com o filho e restante família. É a partir dessa coincidência simbólica que a obra constrói a sua arquitetura emocional e a sua espinha dorsal narrativa, transformando um dia da semana num espaço de memória onde se acumulam afetos, alegrias, silêncios e despedidas.

Cada domingo equivale, pois, a um breve capítulo sobre esse dia vivenciado. E, naturalmente, encontramos episódios marcantes, mas também encontramos alguns dias aparentemente banais, como almoços em família, conversas informais, jogos de futebol vistos juntos, momentos de descanso e pequenas rotinas domésticas. Mesmo assim, Domingos demonstra de forma magistral que são precisamente esses instantes comuns que acabam por moldar uma vida. As grandes emoções não surgem de acontecimentos extraordinários, mas da soma das pequenas experiências que criam a identidade de uma família.

Domingos, de Sidney Gusman e Jefferson Costa - Ala dos Livros
Aliás, a frase "life is what happens to you, while you're busy making other plans", - tantas vezes atribuída, erradamente, a Jim Morrison ou a John Lennon (este, pelo menos, ainda a cantou na sua canção Beautiful Boy) mas que, na verdade, é da autoria de Allen Saunders, um cartoonista - encaixa que nem uma luva neste livro. É que costumamos ter grandes planos, grandes falhas, grandes momentos, grandes desilusões, grandes vitórias e grandes derrotas... mas, se pensarmos bem, quando começamos a ver de perto o ocaso da vida - da nossa ou daqueles que nos são mais próximos - é nos pequenos momentos da vida que sentimos que vivemos realmente. Uma tarde de futebol com aqueles de quem gostamos, um pequeno sucesso profissional que partilhamos com alguém especial, um jogo que fazemos em criança, um pequeno gesto que fizeram por nós quando mais precisávamos, um cheiro, um sabor, uma canção, um filme, um golo, um sorriso. É nesses pequenos momentos da vida que a mesma mais nos marca e é exatamente isso que Domingos capta na perfeição. Estes foram os momentos de Sidney. Os meus, foram outros. Os daqueles que me leem, foram ainda outros. Mas, sendo todos diferentes, pois cada um de nós tem a sua própria caminhada, há um denominador comum em todos eles: são momentos que nos marcam, são momentos que não mais nos deixam. Tenhamos nós 20, 40, 60, 80 ou 100 anos.  

Domingos, de Sidney Gusman e Jefferson Costa - Ala dos Livros
Outra das coisas que apreciei no livro é a forma como Sidney nos revela um Domingos que não nos é dado como um herói perfeito, mas como alguém com as suas qualidades, fragilidades, teimosias e contradições. Essa honestidade torna o retrato ainda mais comovente, porque revela um ser humano real, reconhecível e profundamente próximo do leitor. Aliás, considero até que o argumento de Sidney Gusman impressiona precisamente por esta sinceridade. Em vez de procurar dramatizar excessivamente os acontecimentos, o autor opta por uma abordagem contida, deixando que as emoções se manifestem de forma natural. O resultado é um equilíbrio invulgar entre delicadeza e intensidade, capaz de gerar momentos de enorme impacto sem nunca cair no sentimentalismo artificial. Domingos está longe de ser uma obra piegas, ainda que nos toque no coração.

Por sua vez, os desenhos de Jefferson Costa encaixam bem no tipo de obra que temos em mãos. As suas ilustrações, mesmo sendo um pouco toscas, possuem uma boa expressividade - o que era essencial para esta obra - e conseguem captar tanto os gestos mais subtis como os estados emocionais mais profundos. As cores são belas, ora sendo suaves, ora sendo garridas, e o traço do autor brasileiro transmite calor humano, enquanto a composição das páginas cria uma boa fluidez narrativa, ainda que, por vezes, os cenários me pareçam algo despidos em demasia. 

Domingos, de Sidney Gusman e Jefferson Costa - Ala dos Livros
Mesmo assim, o mais importante a afirmar no contributo de Jefferson Costa para esta obra é que este revela compreender perfeitamente o ritmo da memória, conseguindo traduzir visualmente aquilo que tantas vezes escapa às palavras: as sensações, os ecos do passado e a melancolia doce das lembranças felizes. O texto de Sidney Gusman é bom, mas sai bastante beneficiado com os desenhos de Jefferson Costa.

A edição da Ala dos Livros está bastante bela e diferenciada em relação à edição original brasileira da Pipoca e Nanquim. Desde logo, porque tem uma capa completamente nova. A ilustração remete-nos para um álbum de fotografias, o que me parece uma boa escolha, já que esta é uma obra que não cessa de nos dar as memórias da família de Sidney. O acabamento da capa tem uma textura específica e um brilho próprio que fazem lembrar, lá está, os próprios álbuns de família que muitos de nós temos em nossa casa. E isto tudo, faz com que o objeto-livro tenha funcionado muito bem. De resto, o livro apresenta bom papel baço no interior e um excelente trabalho ao nível da impressão, encadernação e acabamentos. Há ainda um caderno de extras com 12 páginas que inclui fotografias de Sidney e da sua família, bem como esboços de página e outras informações sobre a obra. O livro abre com um prefácio do próprio autor e termina com um posfácio de Filipe Melo.

Em suma, Domingos é um livro maravilhoso. Quando uma obra nos toca assim tanto, nos comove e surpreende como este Domingos faz, é especialmente difícil atribuir-lhe uma nota ou um classificação, pois o nosso juízo fica, de certa forma, toldado pela emoção. Não obstante, uma coisa é certa para mim: este livro entra diretamente para um lugar de honra junto dos meus livros mais queridos de banda desenhada. É um livro que fala de um pai, mas que acaba por falar de todos os pais. Fala de uma família, mas acaba por falar de todas as famílias. E fala de domingos, esses dias aparentemente comuns, mas que, vistos à distância, se transformam nos lugares onde guardamos aquilo que a vida tem de mais precioso: a memória daqueles que amámos.


NOTA FINAL (1/10):
9.6


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens dos álbuns. www.instagram.com/vinheta_2020


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Domingos, de Sidney Gusman e Jefferson Costa - Ala dos Livros

Ficha técnica
Domingos
Autores: Sidney Gusman e Jefferson Costa
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 208, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm


Gorila Sentado inaugura novo projeto!



Se há editoras que não parecem cansar-se de nos surpreender, a Gorila Sentado é uma delas!

A editora independente portuguesa acaba de inaugurar um novo projeto editorial em que os leitores podem subscrever e receber em sua casa, todos os meses, uma correspondência muito especial, que conta com uma página de banda desenhada, uma carta, autocolantes e outras surpresas. Mas, claro, tudo dentro da mesma história e universo narrativo.

Acaba por ser uma nova e diferente forma de ler BD.

Dou os parabéns à editora, na pessoa de Daniel da Silva Lopes, pela sua criatividade e vontade de fazer diferente!

Mais abaixo, deixo-vos mais informação sobre esta iniciativa.

Letters From Beyond

Letters from Beyond é um novo projeto independente da Gorila Sentado que procura explorar outras formas de contar histórias através de objetos físicos enviados pelo correio diretamente para casa dos leitores.

O projeto acompanha o Dr. Alexandre Kael, uma personagem já apresentada no projecto Pyramid. Kael é um cientista que ficou preso num mundo desconhecido durante a destruição da Terra. Através de páginas de banda desenhada, cartas, desenhos, autocolantes e outros fragmentos ou pormenores, os leitores vão descobrindo aos poucos o universo de Kael e os acontecimentos que marcaram a sua vida.

A ideia é simples: todos os meses, um pequeno fragmento deste mundo chega à caixa de correio dos participantes. O conteúdo varia de envio para envio, tornando cada entrega uma nova descoberta e uma forma diferente de acompanhar a narrativa.

Mais do que uma subscrição tradicional, Letters from Beyond é uma experiência de storytelling físico, que procura recuperar o prazer de receber algo pelo correio sem ser sempre contas e contas e na verdade descobrir uma história para lá das páginas de uma publicação convencional.

O projeto começou agora mesmo a enviar as primeiras cartas e está agora à procura de novos leitores que queiram fazer parte desta experiência. Para leitores nacionais o preço é apenas de 3€ já com portes incluidos.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Está fechada a mais recente Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do Público!


Foi com o lançamento de O Piano Oriental, de Zeina Abirached, que a editora Levoir e o jornal Público encerraram, na sexta-feira passada, a última Coleção de Novelas Gráficas.

Zeina Abirached é já bastante conhecida pelos leitores portugueses, tendo por cá editadas as suas obras A Dança das Andorinhas, Ovelha e O Profeta. Todas pela editora Levoir.

Mais abaixo, podem encontrar a nota de imprensa da editora e algumas imagens promocionais deste O Piano Oriental.


O Piano Oriental, de Zeina Abirached

A fechar a IX série da colecção Novela Gráfica a Levoir e o Público editam a obra mais emblemática de Zeina Abirached.
Especialmente em trabalhos como O Piano Oriental, o traço de Zeina ganha uma dimensão abstrata e poética para "desenhar a música" e o som. Ruídos, melodias e o silêncio da guerra são transformados em elementos gráficos palpáveis inseridos nas vinhetas.

Devido ao formato autobiográfico em preto e branco com foco em contextos de conflito (como a Guerra Civil do Líbano), o seu estilo é frequentemente comparado ao de Marjane Satrapi (Bordados e Frango com Ameixas) embora o traço de Abirached se distinga por ser mais estilizado e geometricamente planeado.

O Piano Oriental é uma história inspirada na vida do seu antepassado, inventor de um novo instrumento musical na Beirute dos anos 60. Uma tentativa ousada de aproximar as tradições musicais do Oriente e do Ocidente, este piano de destino desconhecido só chegou a ser fabricado num único exemplar, pouco antes de a guerra civil se abater sobre o Líbano.

Pianista apaixonado, Abdallah Kamanja procura encontrar uma solução mecânica para transformar um piano bem temperado — afinado para tocar música clássica ocidental com um tom ou meio tom entre cada nota — num piano capaz de tocar tanto os modos ocidentais como os árabes e os seus quartos de tom.

Zeina Abirached nasceu em Beirute, Líbano em 1981. Estudou na Academia Libanesa de Belas Artes e depois na École nationale supérieure des Arts décoratifs em Paris. É autora de várias bandas desenhadas, algumas já publicadas em Portugal pela Levoir: A Dança das Andorinhas publicada pela Levoir na coleção Novela Gráfica (2016), Ovelha (2024) e O Profeta (2025).

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Ficha técnica
O Piano Oriental
Autora: Zeina Abirached
Editora: Levoir
Páginas: 212, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240 mm
PVP: 16,90€

Arte de Autor edita a segunda parte de "Zheng Shi"!



Já está disponível há alguns dias o segundo e último volume de Zheng Shi, de Jean-Yves Delitte, que se intitula Madame Tsching.

O livro esteve à venda no Amadora BD e, desde então, já pode ser encontrado em livraria.

O primeiro tomo, recordo, já aqui foi analisado.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Zheng Shi #2 - Madame Tsching
Na história das civilizações, a pirataria é um mal que nunca conheceu fronteiras. Embora, no final do século XVIII, pareça ter sido erradicada das águas quentes das Caraíbas — onde se forjou a sua lenda —, continua a ser ainda mais poderosa no Extremo Oriente. 

Até o Império do Meio, cujas belezas e grandiosidade são narradas por inúmeros exploradores, enfrenta este flagelo. Como a autoridade imperial é apenas aparente, regiões inteiras da China sofrem sob o jugo da pirataria — quando não são cúmplices dela. 

Conta-se que uma mulher, tão bela quanto cruel, reina de forma implacável sobre as águas meridionais do Mar da China. Milhares de homens serviriam a sua causa, e centenas de navios permitir-lhe-iam perpetrar as suas atrocidades. Mito ou realidade?

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Ficha técnica
Zheng Shi #2 - Madame Tsching
Autor: Jean-Yves Delitte
Editora: Arte de Autor
Páginas: 4, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 285 x 310 mm
PVP: 19,50€