sexta-feira, 17 de julho de 2026

Análise: Elric (Volumes 3 e 4)

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor
Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo

Foi com a publicação de O Lobo Branco e A Cidade Que Sonha, respetivamente os tomos 3 e 4, que a adaptação para banda desenhada da obra-prima de Michael Moorcock, Elric, por Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo, concluiu o seu primeiro arco narrativo, encerrando de forma particularmente satisfatória e convincente uma obra que já nos dois volumes iniciais tinha demonstrado uma enorme ambição artística e narrativa, conforme escrevi por alturas em que analisei esses dois livros.

Se esses primeiros dois tomos, O Trono de Rubi e Stormbringer, funcionaram sobretudo como uma introdução ao universo de Melniboné e ao conflito entre Elric e Yyrkoon, estes dois volumes finais deste primeiro arco elevam a escala da narrativa, aprofundando a tragédia do protagonista e conduzindo a história para um desfecho simultaneamente épico, melancólico e inevitável.

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor
Começando por vos falar de O Lobo Branco, neste tomo encontramos um Elric profundamente transformado pelos acontecimentos anteriores. Já não estamos perante o jovem imperador dividido entre o dever para com o seu povo e as suas convicções pessoais. Depois de passar um ano em alto mar, navegando pelos Reinos Jovens, Elric tornou-se agora numa figura quase mítica, um mercenário temido por muitos, cuja reputação cresce a grande velocidade. É especialmente interessante observar esta evolução, porque a narrativa explora a forma como o antigo soberano se vai afastando progressivamente da identidade que o definiu durante os livros anteriores. 

Em A Cidade Que Sonha, por sua vez, esta componente trágica que já se poderia antever no final do terceiro tomo, atinge o seu ponto máximo, com Elric a ter que enfrentar os seus maiores inimigos em batalhas épicas e extraordinárias, voltando à sua terra para reconquistar o que é seu por direito.

Os dois livros - aliás, todo o arco narrativo - aprofundam uma das características mais fascinantes da personagem que é a sua permanente luta interior. Elric continua a ser um herói profundamente atípico no panorama da fantasia, pois não é movido pela ambição, pela glória ou pela conquista. Pelo contrário, é uma personagem dorida e melancólica que é consumida pela dúvida, pela culpa e pela reflexão moral. E até mesmo quando Elric exerce uma violência extrema sobre os demais, existe sempre uma consciência crítica relativamente aos seus próprios atos. Essa dimensão oferece profundidade e maturidade à obra e talvez seja mesmo por esse motivo que esta história se mantém atual nos dias de hoje. Como o será nos dias do amanhã.

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor
Houve também uma outra coisa que me agradou nestes volumes que foi o aparecimento da personagem de Smiorgan, que se torna companheiro de viagem e luta de Elric. Bem sei que se trata apenas de uma personagem secundária, mas consegue ser relevante para a história, não só pelo papel que desempenha na progressão da narrativa, mas sobretudo pela forma como complementa a personalidade de Elric. Sendo o protagonista alguém naturalmente reservado, introspetivo e emocionalmente contido, a presença de Smiorgan introduz maior dinamismo, jovialidade e emoção às interações entre personagens. Há uma humanidade e uma leveza na sua presença que ajudam a equilibrar o tom frequentemente sombrio da narrativa. Que jogada de mestre a introdução desta personagem.

Mas é claro que o tema mais central em todo este ciclo, é a relação ambígua entre Elric, Stormbringer e Arioch. A espada negra ceifadora de almas continua a ser simultaneamente uma bênção e uma maldição, pois sendo uma fonte inesgotável de poder, por um lado, também inflige sempre a Elric um elevado a preço a pagar, por outro. Já o vilão Arioch mantém-se como uma presença constante, quase omnipresente, manipulando acontecimentos e conduzindo subtilmente Elric por caminhos que talvez nunca escolhesse livremente. Esta dinâmica cria uma tensão muito eficaz, uma vez que nunca é totalmente claro - pelo menos, para mim não é - onde termina a vontade do protagonista e onde começam as influências das forças sobrenaturais que o rodeiam.

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor
E, claro, temos ainda a bela amada de Elric, Cymoril, por quem o protagonista atravessa todos os mares que sejam necessários atravessar, mas que, curiosamente, tem um papel que pode surpreender alguns. E mais, não digo.

Sendo uma série de espadas e batalhas, uma coisa que aprecio especialmente nela é a maturidade narrativa da obra que, em vez de transformar a história numa mera sucessão de batalhas e confrontos espetaculares, tenha, também, um especial cuidado no desenvolvimento das implicações emocionais e filosóficas dos acontecimentos. As grandes revelações não servem apenas para surpreender o leitor... servem sobretudo para aprofundar o drama pessoal de Elric e o peso das suas escolhas.

Não li a obra original, mas daquilo que pude perscrutar, há nestes terceiro e quarto volumes uma maior independência na forma como a obra é adaptada. No entanto, essa liberdade parece sempre colocada ao serviço da narrativa e nunca em oposição ao espírito da obra original.

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor
E talvez seja mesmo esse um dos vários triunfos desta adaptação. É que adaptar não significa reproduzir mecanicamente. E isso é sentido até nas próprias declarações de Moorcock sobre esta banda desenhada. O grande feito passou por reapropriar a matéria-prima criada originalmente por Michael Moorcock para construir uma verdadeira banda desenhada, pensada para tirar partido das potencialidades específicas do meio. O resultado é uma narrativa fluida, moderna e visualmente impressionante, que sabe respeitar as bases da saga original sem ficar totalmente aprisionada por elas.

No plano gráfico, a qualidade da obra também se mantém em elevado nível. Tal como nos volumes anteriores, encontramos aqui uma obra visualmente magnífica, capaz de alternar bem entre a grandiosidade épica e a intimidade emocional das personagens. Quando a história exige escala, os desenhadores oferecem panoramas monumentais, cidades impossíveis, paisagens fantásticas, embarcações impressionantes e cenas de combate de enorme impacto. Mas quando o foco se desloca para as emoções das personagens, a expressividade dos rostos e das poses assume o papel principal.

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor
É igualmente digno de elogio o facto de uma equipa com tantos desenhadores ter conseguido preservar uma identidade visual tão consistente. Com tantos desenhadores no projeto "tinha tudo para correr mal", diria, mas a verdade é que, ao longo dos quatro volumes, a homogeneidade gráfica não é posta em causa, não havendo nunca a sensação de fragmentação ou de mudança brusca de estilo. Pelo contrário, todo o projeto apresenta uma coerência estética admirável, fruto de um evidente esforço coletivo e de uma visão artística partilhada. Vê-se que houve cuidado, logo de iníco, na preparação e concepção da obra.

As cores continuam também a desempenhar um papel fundamental, com a paleta utilizada a contribuir para reforçar a atmosfera simultaneamente gótica, melancólica e grandiosa da obra.

Em termos de edição, a Arte de Autor mantém os elevados padrões de qualidade já demonstrados nos volumes anteriores. Os livros apresentam capa dura, com textura aveludada e detalhes a verniz. No miolo, o papel utilizado é brilhante e de excelente qualidade. A impressão, encadernação e acabamentos também são de primeira linha. No final do terceiro volume, encontramos um dossier com oito páginas que reúne ilustrações, esboços e estudos de página. Por sua vez, o quarto volume, apresenta um caderno de extras, com cinco páginas, em que nos é dada bastante informação sobre Melniboné. por William Blanc. Os livros têm prefácios de Neil Gaiman e Jean-Pierre Dionnet.

Nota positiva, ainda, para o facto deste arco da série ter sido finalizado em meros dois meses, o que não é nada comum. Bem sei que a presença dos autores no Maia BD há de ter estimulado a editora portuguesa a não perder a oportunidade de editar o maior número possível de volumes. Mas, seja como for, a verdade é que os leitores portugueses puderam deitar mãos a uma mini-série de 4 volumes que foi completada em pouquíssimo tempo, o que é sempre positivo.

Sombria, gótica, violenta, bárbara, romântica, trágica e profundamente fantástica, esta adaptação de Elric afirma-se como uma das mais impressionantes obras de fantasia publicadas em banda desenhada nos últimos anos. Para os admiradores de Michael Moorcock, trata-se de leitura obrigatória. Para os fãs de fantasia épica em geral, é uma recomendação facílima. E até para todos aqueles que procuram uma BD capaz de combinar espetáculo visual, densidade temática e personagens memoráveis, esta série é uma proposta que não deve ser ignorada.


NOTA FINAL (1/10):
9.4



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor

Fichas técnicas
Elric #3 - O Lobo Branco
Autores: Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo
Editora: Arte de Autor
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 232 x 310 cm
Lançamento: Maio de 2026

Elric (Volumes 3 e 4), de Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Robin Recht e Julien Telo - Arte de Autor

Elric #4 - A Cidade que Sonha
Autores: Julien Blondel, Jean-Luc Cano e Julien Telo
Editora: Arte de Autor
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 232 x 310
Lançamento: Maio de 2026

Já está nas bancas a nova Novela Gráfica da Levoir e do Público!




Sai hoje, com o jornal Público, o 5º livro da Coleção de Novelas Gráficas da editora Levoir!

Desta feita, trata-se da obra Formosa, da autora Li-Chin, que é uma estreia em Portugal. Estou bastante curioso com esta obra, pois reconheço que sei pouco ou nada sobre a mesma.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa sobre o livro e com algumas imagens promocionais do mesmo.


Formosa, de Li-Chin

Depois da publicação de A Aranha de Mashaad; Dostoiévski: O sol negro, Dez Mil Elefantes, Partir, ficando, chega Formosa o quinto volume da colecção novela gráfica editada pela Levoir e o jornal Público com saída a 17 de Julho.
Li-Chin Lin nasceu em Taiwan em 1973. Deixou a ilha para estudar arte em França, na École Supérieure de l’Image, em Angoulême, e depois matriculou-se na escola de animação Poudrière, em Valence. Depois de realizar curtas-metragens de animação, dedicou-se à banda desenhada em 2002.

Li-Chin publicou em várias fanzines e produziu dois livros infantis. Esta é a sua primeira novela gráfica, trabalho autobiográfico, onde aborda com franqueza e muito distanciamento a sua infância, dividida entre a cultura da sua família (os seus avós falam japonês, uma recordação dos colonizadores e uma língua odiada pelo regime), os seus desejos (a atração pelo mangá) e a doutrina oficial. Ela mostra como o regime ditatorial do Kuomintang, que governa a ilha com mão de ferro praticamente sem interrupção desde a chegada de Chiang Kai-shek, pratica uma doutrinação diária da população taiwanesa em geral e das crianças em particular.

Confrontada desde muito jovem com as contradições do regime, Li-Chin Lin pertence à geração marcada pela revolta de Tiananmen, que será levada a questionar o culto à personalidade de CKS e o partido único. 

O seu olhar sempre rebelde sobre a corrupção e as ambiguidades que corroem a sociedade taiwanesa combina-se com um desenho influenciado pelos códigos do mangá e uma imaginação gráfica desenfreada.

Formosa foi o nome dado no século XVI pelos portugueses à bela ilha de montanhas cobertas de verde situada junto da costa sul da China. Taiwan, por seu lado, é o nome chinês da ilha que desde 1949 a República Popular da China considera uma província rebelde.

Taiwan não pertence a nenhum país. 

É um Estado com governo democrático próprio, moeda e constituição, operando como um país autónomo desde 1949, é um dos principais focos de tensão entre Pequim e Washington. 

A China reivindica soberania sobre a ilha e nunca excluiu o recurso à força para alcançar aquilo que descreve como a "reunificação".

A reunificação de Taiwan à China é imparável. – Xi Jinping (Presidente da China).

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Ficha técnica
Formosa
Autora: Li-Chin
Editora: Levoir
Páginas: 256, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240 cm
PVP: 16,90€

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Análise: A Longa Marcha de Lucky Luke

A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita

A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita
A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme

Depois dos muito bem recebidos - quer por crítica, quer por público - O Homem Que Matou Lucky Luke e Procura-se Lucky Luke, Matthieu Bonhomme está de volta com o seu terceiro álbum em que revisita a personagem de Lucky Luke, "o cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra" e, também, o cowboy mais célebre da banda desenhada.

Este álbum está inserido na coleção Lucky Luke Visto Por... que já conta com oito volumes, todos publicados por cá pela editora A Seita. Gosto bastante desta coleção, pois considero que tem permitido que diferentes autores reinterpretem Lucky Luke, possibilitando a exploração de novas camadas da personagem e das duas aventuras. E Matthieu Bonhomme surge, quanto a mim, claramente isolado face aos demais autores, brindando-nos com os melhores livros da série. E este A Longa Marcha de Lucky Luke, mesmo sendo, por ventura, o livro que menos me impressionou dos três do autor, continua a ser um bom e sólido álbum, que vos convido a ler.

A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita
Nesta aventura, Lucky Luke vê-se envolvido numa longa e perigosa travessia pelas florestas geladas do norte dos Estados Unidos, mais concretamente em território da tribo Lakota, sendo acompanhando por um jovem índio branco Nuvem-Vermelha, numa missão que rapidamente ultrapassa os contornos de uma simples missão de escolta. O que começa como uma tarefa relativamente simples transforma-se numa jornada de proteção, sobrevivência e confronto com interesses económicos que ameaçam uma comunidade inteira.

A premissa é eficaz e oferece ao autor um terreno fértil para explorar temas contemporâneos sem abdicar dos códigos clássicos do western. Ao longo da viagem, somos confrontados com a luta pela posse de terras, com a exploração de recursos naturais e com a pressão exercida por figuras de poder económico sobre comunidades mais vulneráveis. Bonhomme utiliza, com desenvoltura, o imaginário do Oeste americano para refletir sobre problemas que permanecem atuais, tecendo as suas próprias críticas ao mundo em que vivemos. O que é algo bem-vindo.

O próprio vilão da história não podia ser mais óbvio, já que o próprio nome, Ronald Cramp - uma clara ligação a Donald Trump - surge como a personificação de um capitalismo agressivo e predatório, interessado apenas no lucro e completamente indiferente às comunidades que prejudica. E também a dimensão ecológica da narrativa merece destaque, pois a terra, enquanto território, não é apresentada apenas como um recurso económico, mas como parte integrante da identidade de um povo e do equilíbrio natural do espaço em que vivemos. 

A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita
Um dos aspetos mais interessantes da narrativa deste A Longa Marcha de Lucky Luke reside na forma como Lucky Luke assume um papel que não lhe é habitual. Tradicionalmente retratado como um herói solitário, independente e de passagem, surge aqui investido de uma responsabilidade mais prolongada enquanto protetor de uma criança. A ligação que estabelece com Nuvem-Vermelha acrescenta uma dimensão emocional invulgar à personagem e permite explorar facetas mais humanas do cowboy. Confesso que até comecei por não gostar particularmente desta personagem de Nuvem-Vermelha, pois parecia-me demasiadamente unilateral e pouco trabalhada, mas reconheço que, ao longo da narrativa, e especialmente mais para o final da obra, Bonhomme conseguiu fortalecer a relação da criança com o protagonista, o que dá boas sensações ao leitor. E permite, claro, que a história fique mais profunda e verossímil, pois sem nunca perder a sua natureza reservada, a personagem de Lucky Luke acaba por revelar uma proximidade e uma preocupação que o tornam mais profundo e acessível do que o habitual, desempenhando, por vezes, uma figura quase paternal na vida de Nuvem-Vermelha. Já em Lucky Luke - Os Indomados, de Blutch, isso tinha acontecido, mas neste caso parece-me que esse feito é alcançado com uma dose de maior poesia e maturidade. 

No entanto, apesar do interesse dos temas abordados, é precisamente ao nível da construção narrativa que o livro me parece ficar um pouco aquém dos anteriores trabalhos de Bonhomme. Existe a sensação de que a história procura conciliar demasiadas ideias em simultâneo: a jornada iniciática de uma criança, a crítica ao capitalismo, a defesa do ambiente, a questão da herança e da propriedade da terra, bem como o comentário político contemporâneo. Nenhum destes elementos é propriamente mal desenvolvido, mas fica-se pela rama, fazendo com que o conjunto acabe por transmitir uma certa sensação de alguma dispersão.

Há também uma inevitável sensação de déjà vu. Quando reduzimos a história aos seus elementos fundamentais, nomeadamente: 1) uma criança perseguida por interesses económicos; 2) um magnata disposto a tudo para obter terras que não lhe pertencem moralmente e 3) um herói encarregado da  proteção e escolta dessa criança; percebemos que se trata de uma estrutura narrativa amplamente utilizada, não só no western, em concreto, como em histórias de aventura, em termos gerais. Bonhomme consegue introduzir algumas nuances interessantes, concedo, mas raramente consegue libertar-se completamente dessa familiaridade.

A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita
Mesmo assim, não foi isso que mais me apoequentou nesta leitura, pois o aspeto que me parece menos conseguido em A Longa Marcha de Lucky Luke é a introdução dos irmãos Dalton na história. Que fique bem assente que eu adoro os irmãos Dalton. E saber que os mesmos entrariam nesta terceira aventura de Bonhomme até começou por me deixar satisfeito. Todavia, esta opção simplesmente não funciona. E é fácil perceber porquê: é que a representação dos quatro irmãos segue de forma muito próxima a tradição humorística estabelecida por Morris e Goscinny, surgindo como figuras essencialmente estúpidas e caricaturais. Em circunstâncias normais - leia-se na série canónica - isso seria perfeitamente legítimo e bem-vindo. Contudo, dentro do universo criado por Bonhomme para Lucky Luke, esta abordagem gera alguma estranheza e um total deslocamento de Joe, William, Jack e Averell. Recordo que desde O Homem que Matou Lucky Luke, Bonhomme tem construído uma visão mais realista, sóbria e madura deste universo, com as personagens a serem mais humanas, os conflitos mais ambíguos e a violência mais plausível. Por isso, a presença dos Dalton nesta versão excessivamente cómica parece pertencer a um registo diferente da restante narrativa, quebrando o tom da mesma. Tendo em conta que os Dalton até nem são tão importantes assim para a forma como a narrativa se desenrola, até fica a ideia que estão ali mais por um motivo comercial, para agradar a antigos fãs da série. Mas o resultado é, pelo menos quanto a mim, o oposto. 

Em consequência, a narrativa revela ocasionalmente um certo caráter remendado. A sucessão de acontecimentos é suficientemente fluida para manter o interesse, mas falta-lhe talvez a força e a unidade dramática de O Homem que Matou Lucky Luke ou de Procura-se Lucky Luke. Não me interpretem mal: a obra continua a ser sólida e envolvente, e volta a estar entre os melhores desta coleção, porém fica um pouco - não muito - aquém dos álbuns anteriores de Bonhomme. 

Já graficamente, Matthieu Bonhomme volta a confirmar o enorme talento que o tem tornado  numa das vozes mais interessantes da banda desenhada franco-belga mais recente. O seu traço semi-realista afasta-se claramente do estilo original da série, mas preserva-lhe a essência. E acho que este equilíbrio não é nada fácil de conseguir. Requer muito talento e capacidade. Isto porque reconhecemos imediatamente Lucky Luke, apesar de praticamente todos os detalhes que compõem a personagem terem sido reinterpretados por Matthieu Bonhomme. E quão especial é esse feito? Trata-se de uma harmonia difícil entre fidelidade e reinvenção que o autor domina com grande habilidade.

A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita
As paisagens nevadas constituem um dos grandes triunfos visuais do álbum. A vastidão dos espaços, o silêncio transmitido pelos cenários e a dureza das condições naturais criam uma atmosfera muito particular, simultaneamente bela e ameaçadora. E a opção de manter o vilão Ronald Cramp frequentemente oculto ou envolvido em sombras funciona igualmente bem, reforçando a sua dimensão quase misteriosa e ameaçadora. Em termos visuais, parece-me que Bonhomme continua a evoluir e, nesse ponto em concreto, este até pode ser o melhor dos seus Lucky Luke.

Já agora, permitam-me dizer ainda que o autor também é um excelente capista. Todas as capas dos seus livros de Lucky Luke têm sido espetaculares, e este A Longa Marcha de Lucky Luke não é exceção.

Quanto à edição, estamos perante mais um bom trabalho da editora A Seita. O livro apresenta capa dura brilhante, bom papel baço e um belo trabalho a nível de impressão, encadernação e acabamentos. No final do livro, há ainda um dossier de extras, com 10 páginas, que inclui esboços, estudos de capa e de pranchas, que são um deleite para observarmos. Tal como em edições anteriores, a loja Wook recebeu uma capa exclusiva - também ela muito bonita.

Em suma, A Longa Marcha de Lucky Luke é uma leitura muito recomendável, que confirma a qualidade da abordagem de Bonhomme à célebre personagem. Embora fique, na minha opinião, um pouco abaixo dos seus dois álbuns anteriores, continua a oferecer uma visão inteligente, pessoal e respeitosa do cowboy solitário que tantas gerações de leitores tem conquistado. Pela ambição temática, pela inegável qualidade gráfica e pela capacidade de dialogar simultaneamente com a tradição e com o presente, merece ser lido por toda a gente.


NOTA FINAL (1/10):
8.5





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A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita

Ficha técnica
A Longa Marcha de Lucky Luke
Autor: Matthieu Bonhomme
Editora: A Seita
Páginas: 88, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 320 mm
Lançamento: Abril de 2026



quarta-feira, 15 de julho de 2026

Análise: Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia

Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, de Xavier Almeida - Péssima Editora


Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, de Xavier Almeida - Péssima Editora
Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, de Xavier Almeida

Foi com bastante satisfação que tomei conhecimento, muito recentemente, do lançamento de uma nova editora portuguesa de banda desenhada, audazmente intitulada Péssima Editora. E a esse lançamento da editora veio também acoplado o lançamento de Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, do português Xavier Almeida, reunindo oito/nove histórias, ou capítulos, que, apesar da sua autonomia narrativa, partilham um eixo temático comum: a reflexão sobre a crise ambiental, os impactos do capitalismo contemporâneo e a relação cada vez mais problemática entre a humanidade e o mundo natural. 

Foi uma bela surpresa, devo dizer. Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia apresenta-se como um instrumento de pensamento crítico, procurando questionar hábitos, sistemas e valores profundamente enraizados na nossa sociedade atual.

Um dos aspetos mais interessantes da obra reside, precisamente, na sua capacidade de cruzar diferentes influências filosóficas e científicas. Ao longo dos vários capítulos, é possível identificar ecos das reflexões de autores como Jason W. Moore - que até faz o posfácio da obra - Justin McBrien, Neil deGrasse Tyson, Ben Irvine, Sarat Colling ou Ortega y Gasset. 

Cada um dos capítulos aqui presentes apropria-se de muitas das preocupações destes autores, para as transportar para a linguagem da banda desenhada, tornando (mais) acessíveis ideias complexas sobre ecologia, responsabilidade e consciência social.

Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, de Xavier Almeida - Péssima Editora
Cheap Nature - Episódios de Renúncia e Parcimónia
 demonstra-nos que a crise ambiental não é tanto um problema isolado da natureza, mas uma consequência direta da organização económica dominante. Xavier Almeida, que conta com a participação de Pato Bravo na concepção do guião, parece sugerir-nos, e até apoiando-se nos textos dos supramencionados pensadores - sendo estes até creditados, no final do livro, enquanto autores da "proveniência da narração" - que capitalismo e natureza não podem ser analisados separadamente, uma vez que os mecanismos de exploração económica condicionam profundamente a forma como os recursos naturais são utilizados e encarados.

Com efeito, ficamos com a sensação de que a destruição ambiental não é um efeito secundário do sistema, mas sim uma das suas consequências mais evidentes. A degradação dos ecossistemas, o desperdício e a transformação de tudo em mercadoria surgem representados como sintomas de uma lógica económica incapaz de reconhecer limites ecológicos.

Paira no ar a ideia de que talvez até nem se trate de uma crítica aos sistemas económicos ou políticos, aquilo que aqui se procura fazer, mas antes um convite à reflexão individual. Convém não esquecer - embora o façamos tantas vezes, especialmente quando nos dá mais jeito - que as grandes transformações sociais começam frequentemente por uma mudança de consciência individual. 

Narrativamente, as várias histórias funcionam como diferentes ângulos de observação sobre uma mesma inquietação. Em vez de construir uma narrativa contínua, Xavier Almeida prefere explorar múltiplos cenários e problemáticas, reforçando a ideia de que a crise contemporânea possui muitas faces. O resultado é um mosaico de episódios que dialogam entre si e que contribuem para uma visão coerente do conjunto da obra.

Há uns capítulos que resultam melhor do que outros - mas isso, já se sabe, é apanágio de antologias de banda desenhada, muito embora eu tenha alguns pruridos em classificar esta obra como uma antologia de BD, já que me parece que estes diferentes capítulos, mesmo podendo parecer ser independentes ente si, contribuem para uma história maior, quando juntos.

Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, de Xavier Almeida - Péssima Editora
É verdade que, pensando a obra enquanto texto e imagem, por vezes se sente uma certo desfasamento entre os dois universos. Isto porque, por vezes, parece existir um certo afastamento entre aquilo que é narrado verbalmente e aquilo que é representado graficamente. E o texto parece, em vários casos, demasiado frio, fechado em si mesmo e monologante. Contudo, também concedo que quando ambas as linguagens, a da imagem e a do texto, convergem plenamente, o impacto é significativo. Nesses momentos, o livro consegue chegar mais longe. Os capítulos Jovem Herdeiro ou A Anarca pareceram-me especialmente bem-sucedidos e impactantes.

As críticas dirigidas ao mundo actual são tudo menos subtis. Grandes empresas, modelos neoliberais, consumismo desenfreado, riqueza, desigualdades económicas e destruição ambiental surgem identificados como componentes de uma mesma estrutura de poder. Longe de procurar uma falsa neutralidade, a obra assume claramente uma posição ideológica, fazendo da crítica social um dos seus principais motores narrativos.

Essa postura é reforçada pela própria estética do livro. O carácter independente da edição e das ilustrações a preto e branco, bastantes livres na forma e conteúdo, por vezes algo toscas na concepção, noutras vezes mais elegantes e artísticas, contribui para uma sensação de autenticidade e urgência. Existe na obra uma energia próxima do panfleto político, não no sentido pejorativo do termo, mas enquanto instrumento de intervenção cultural. A aparência gráfica por vezes crua e experimental, à qual poderíamos apelidar de BD indie, acaba por servir os propósitos do autor e da editora, transmitindo uma sensação de resistência e inconformismo. Que foi, é e será sempre bem-vinda, digo eu.

Em termos de edição, o livro apresenta capa mole baça, bom papel baço no miolo - embora o papel pudesse ser um pouco menos translúcido - e uma impressão e encadernação decentes. No final, há um posfácio de Jason W. Moore que, incompreensivelmente, está na língua inglesa. Sendo uma edição portuguesa, acho que a opção mais lógica era ter traduzido o texto original para português. Há ainda um capítulo final, intitulado Rocha Brecha da Arrábida que me parece um final perfeito para o livro, uma vez que, de um modo muito simples e direto - e, por ventura, mais direto do que noutros capítulos do livro -, concede sintetizar a força motriz desta obra.

Em conclusão, Cheap Nature - Episódios de Renúncia e Parcimónia é uma bela e interessante primeira obra de grande fôlego de Xavier Almeida, que se revela ambiciosa na forma como tenta ser um espaço de reflexão filosófica, ecológica e política. O resultado é um livro exigente, provocador e profundamente contemporâneo, que desafia o leitor a repensar a sua relação com o ambiente, com a economia e com o próprio modelo de sociedade em que vive. Trata-se de uma estreia de grande maturidade, que se recomenda a todos aqueles que gostam de parar um pouco para refletir sobre aquilo que andamos todos aqui a fazer. 


NOTA FINAL (1/10):
7.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, de Xavier Almeida - Péssima Editora

Ficha técnica
Cheap Nature - Episódios de Renúncia e Parcimónia
Autor: Xavier Almeida
Editora: Péssima Editora
Páginas: 260, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: A5
PVP: 12,00€