terça-feira, 1 de setembro de 2026

Análise: Airborne 44 - Black Boys | Wild Men

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa
Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet

Se há série que tem passado um pouco pelos pingos da chuva em Portugal, no que à constatação da sua qualidade diz respeito, Airborne 44 é um belo exemplo.

Esta série que em França já vai no seu 11º volume e cujos primeiros seis tomos foram originalmente editados por cá numa parceria entre a ASA e o jornal Público, tem revelado ser uma das séries de banda desenhada sobre a Segunda Guerra Mundial que mais prazer me tem dado acompanhar. Isto porque Philippe Jarbinet encontrou uma fórmula muito eficaz para a mesma: abordar o conflito com um impressionante rigor histórico, sim, mas sem nunca cair na armadilha de transformar a narrativa numa simples e enfadonha lição de História. Pelo contrário, cada ciclo procura apresentar-nos novas perspetivas sobre a guerra, explorando diferentes protagonistas e pontos de vista. E isso faz toda a diferença.

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa
Assim, e embora os acontecimentos históricos sirvam de alicerce, Jarbinet nunca se limita a reproduzir factos e operações militares. Existe sempre uma forte componente ficcional que nos aproxima das vidas das personagens, dos seus medos, das suas esperanças, dos seus amores e das suas contradições. A guerra surge, por isso, não apenas como um confronto entre exércitos ou nações, mas como uma experiência profundamente humana. E, logicamente, isto aproxima o leitor da obra e das suas personagens.

Estes Black Boys e Wild Men, que hoje vos trago, correspondentes, respetivamente, aos tomos 9 e 10 da série e ao seu quinto ciclo narrativo, mantêm essa abordagem de forma fiel. Desta vez, o autor coloca no centro da narrativa dois soldados americanos cujas diferenças parecem, à partida, impossíveis de reconciliar: Virgil é negro, Jay é branco... e não apenas branco: é também o típico redneck racista, moldado por preconceitos profundamente enraizados.

Jarbinet constrói a relação entre ambos so soldados americanos de forma gradual e credível. O facto de combaterem do mesmo lado não significa automaticamente que se compreendam ou respeitem. Pelo contrário, as primeiras interações são marcadas pelo conflito, pela desconfiança e pelas tensões raciais que atravessavam a sociedade norte-americana da época. Bem... e da época atual.

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa
Mas as contingências da guerra e a luta pela sobrevivência obrigam Virgil e Jay a dependerem um do outro para que consigam subsistir. Convém não esquecermos que quando a guerra reduz tudo ao essencial, muitas das certezas e preconceitos que temos começam a ser postos em causa. Embora não se trate, claro, de uma transformação instantânea ou, sequer, de uma reconciliação simplista entre as duas partes. 

Naturalmente, há alguns momentos em que é fácil antecipar a direção da narrativa. Desde cedo percebemos que a convivência forçada acabará por aproximar as duas personagens. Nesse sentido, a história não é propriamente surpreendente, admito. Contudo, o facto de alguns desenvolvimentos serem expectáveis não diminui a eficácia da sua execução.

E o interesse parece estar menos no destino final das personagens e mais na forma como esse destino é alcançado. "O que interessa não é o destino, mas a caminhada". Jarbinet consegue criar diálogos convincentes e situações suficientemente tensas para manter o envolvimento do leitor ao longo dos dois tomos. 

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa
Além disso, estes dois álbuns abordam uma temática particularmente relevante: a discriminação racial no seio das próprias forças aliadas. Muitas obras sobre a Segunda Guerra Mundial tendem a apresentar os exércitos aliados de forma homogénea e quase idealizada. Mas aqui, o autor recorda-nos que a luta contra o nazismo coexistia com profundas injustiças sociais e raciais mesmo dentro dos Estados Unidos. O que nos obriga a fazer, automaticamente, uma ponte com os mais recentes movimentos segregacionistas nos próprios Estados Unidos do tempo presente. É, pois, interessante ler estes dois livros à luz do tempo presente.

Em termos de desenho, Jarbinet continua a demonstrar ser um dos melhores autores europeus quando o tema é a Segunda Guerra Mundial. Os cenários são minuciosos, os veículos militares surgem representados com grande atenção ao detalhe e os ambientes conseguem transmitir uma sensação constante de realismo. Também os momentos de ação ou de calmaria, com espaço para conhecermos o lado mais humano das personagens, aparecem bem representados.

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa
Quer em termos de desenho realista, quer em termos de tratamento cromático, parece existir uma forte inspiração clássica, com tonalidades suaves e algo envelhecidas, o que confere às páginas um aspeto quase "vintage". Essa opção estética pode não agradar a toda a gente e a parecer algo datada, mas, por outro lado, pode ser exatamente aquilo que muitos leitores procuram.

Em termos de edição, os livros apresentam capa dura brilhante, bom papel brilhante e boa encadernação e impressão. No final de cada um dos tomos, há um texto em forma de posfácio em que o autor nos revela importantes e curiosas informações acerca da feitura dos livros e, até, daquilo em que se inspirou. Valem bem a pena por tudo o que acrescentam, a jusante, à nossa leitura. 

O que também teria valido a pena era se estes ciclos passassem a ser editados em volumes duplos. Bem sei que tendo a série começado a ser editada por cá em tomos separados, talvez já não fizesse sentido editar os tomos seguintes em álbuns duplos. Mas, enfim, acho que faz mais sentido ter cinco volumes duplos com histórias autocontidas neles, do que ter 10 volumes separados com cinco histórias autocontidas neles.

Em suma, Black Boys e Wild Men talvez constituam o melhor ciclo de Airborne 44, uma série que considero obrigatória para todos aqueles que gostam de banda desenhada histórica ou de cariz bélico. O prato de rigor histórico, personagens humanas, reflexões sobre temas complexos e belos desenhos de Jarbinet é-nos dado numa dose muito lisonjeira. E, por tudo isso, é uma obra que se recomenda! 


NOTA FINAL (1/10):
9.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa

Fichas técnicas 
Airborne 44 - Black Boys - Vol. 9 
Autor: Philippe Jarbinet 
Editora: ASA 
Páginas: 64, a cores 
Encadernação: Capa dura 
Lançamento: Julho de 2024 

Airborne 44 - Black Boys | Wild Men, de Philippe Jarbinet - ASA - LeYa

Airborne 44 - Wild Men - Vol. 10
 
Autor: Philippe Jarbinet 
Editora: ASA 
Páginas: 64, a cores 
Encadernação: Capa dura 
Lançamento: Abril de 2025

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Análise: O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros
O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar

Foi há poucas semanas que a Ala dos Livros lançou o livro O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar, dando assim continuidade a esta série retomada pela editora no tomo 6, Não Terás Outro Deus Além de Mim, há cerca de 5 anos - os primeiros cinco volumes já haviam sido lançados por cá, relembro, pela editora ASA. De facto, foi bastante grande o interregno entre os volumes 6 e 7, coisa rara nas coleções editadas pela Ala dos Livros.

Estamos, pois, de regresso a este universo muito particular criado por Joann Sfar, onde a reflexão filosófica, a sátira religiosa e um certo absurdo convivem de forma natural.

Este novo episódio leva-nos de volta a Argel e centra-se nas discussões relativamente pacíficas entre o rabino Sfar e o seu primo, o imã Sfar, que acabam analisar as diferenças das suas religiões. E mesmo quando a mesquita sofre uma inundação e o rabino e o imã se veem forçados a concordar que os muçulmanos terão que rezar na sinagoga enquanto as reparações da mesquita são feitas, as diferenças entre ambos parecem ser mais que muitas, mesmo que até haja uma natural e positiva boa vontade de parte a parte.

A história desenvolve-se, depois, em torno deste acontecimento maior, permitindo a Sfar revisitar muitos dos temas que se tornaram centrais na série: a identidade, a fé e a convivência entre culturas. Como é habitual em O Gato do Rabino, o enredo parece menos interessado em chegar a um destino específico do que em apreciar as reflexões, os desvios e os encontros que surgem às personagens pelo caminho.

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros
E, claro, para isso muito contribui as tiradas e monólogos do Gato que são verdadeiramente apetecíveis e divertidas, sempre com um humor muito próprio. A personagem protagonista parece ser o próprio catalisador do pensamento de Joann Sfar, permitindo depositar no animal os comentários divertidos, mas sempre lógicos, que pairam na sua própria mente. E na mente de tantos outros, diria.

Há também uma analogia sempre presente, que neste caso se apoia no microcosmos das inundações na mesquita e na própria vinda dos novos gatos "estrangeiros" para a casa da dona do protagonista, que lhe roubam o leite da sua tigela. Esta analogia reflete-se naquilo que vivemos nos tempos atuais, em que as religiões continuam de costas voltadas e em que, cada vez mais, surgem movimentos contra os imigrantes que - dizem os iletrados em economia demográfica - nos vêm tirar o nosso sustento. É curiosa e inteligente a forma como Sfar faz crítica social, sem parecer, à primeira vista, que este é um livro satírico.

E contrariamente ao volume anterior, Não Terás Outro Deus Além de Mim, que me tinha deixado com sentimentos bastante mistos, confesso, este A Torre de Bab-El-Oued conseguiu conquistar-me de forma mais evidente. Continua a ser uma obra profundamente excêntrica e muito própria, é certo, mas desta vez senti que a história, sendo por ventura mais linear e menos poética, conseguiu atar melhor as pontas entre os acontecimentos a envolver as personagens e aquilo que o autor procura passar em termos de mensagem. Saí da leitura mais satisfeito e mais envolvido com aquilo que Sfar procurava transmitir.

E gosto especialmente da forma como o autor continua a abordar a religião sem qualquer tipo de reverência excessiva. Judaísmo, cristianismo ou islamismo surgem constantemente sujeitas ao olhar crítico, irónico e provocador do autor. Sfar não parece interessado em atacar especificamente uma religião, mas sim em encontrar as contradições, os paradoxos e os absurdos que existem em todas elas.

O humor ácido presente ao longo da obra revela-se, por isso, uma das suas maiores virtudes. Muitas das melhores passagens resultam precisamente da capacidade que o autor tem para desmontar dogmas, questionar certezas e expor a fragilidade de muitas convicções humanas através de situações absurdas e diálogos mordazes. 

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros
Ainda assim, permanece uma reserva que já tinha identificado no tomo anterior: a sensação de que a narrativa avança frequentemente ao "sabor da maré". Nem sempre existe uma progressão dramática muito definida e há momentos em que a história parece construída a partir de associações livres de ideias, mais próximas do devaneio do que de uma estrutura narrativa tradicional. 

Contudo, desta vez senti que essa abordagem me incomodou bastante menos. Talvez porque as reflexões me pareceram mais inspiradas, talvez porque o humor funciona melhor, ou talvez porque a própria leveza do tom acaba por justificar essa estrutura mais errática. 

No campo gráfico, Joann Sfar continua a apresentar uma identidade visual absolutamente singular. O seu traço permanece expressivo, ondulado, espontâneo e quase improvisado. Há momentos em que essa aparente espontaneidade pode ser confundida com alguma falta de rigor, mas a verdade é que o conjunto continua a possuir uma personalidade artística inconfundível. As figuras são deformadas e as perspetivas irregulares, contribuindo para criar um mundo onde o absurdo e a reflexão coexistem sem qualquer atrito. É uma estética que pode não agradar a todos os leitores, imagino, mas que dificilmente deixará alguém indiferente, tendo em conta a sua singularidade.

A edição da Ala dos Livros é em capa dura brilhante, com bom papel brilhante no interior e um bom trabalho de encadernação e impressão.

Em conclusão, O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued deixou-me mais convencido do que o volume anterior. Continua a apresentar uma narrativa algo fragmentada e errática que, por vezes, parece avançar sem rumo definido, mas compensa essa fragilidade com reflexões inteligentes, um humor extremamente ácido e uma sátira religiosa tão irreverente quanto perspicaz. 


NOTA FINAL (1/10):
8.1


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros

Ficha técnica
O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued
Autor: Joann Sfar
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 84, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Julho de 2026



Ala dos Livros prepara-se para lançar "O Acidente de Caça"!



Eis uma bela surpresa e (mais) um dos lançamentos de BD do ano!

A Ala dos Livros já fez saber que vai lançar, brevemente, a obra O Acidente de Caça, da autoria dos americanos David L. Carlson e Landis Blair!

Esta é uma obra que abalou o mercado da banda desenhada, aquando do seu lançamento original em 2017, tendo sido vencedora nos prémios de Angoulême e dos Eisners!

Além disso, é uma obra gigante, com mais de 400 páginas, o que faz desta uma aposta de peso - a todos os níveis - por parte da Ala dos Livros, que não cessa de nos apresentar grandes obras de banda desenhada. Estou particularmente feliz com esta novidade.
Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais das edições inglesa e francesa.


O Acidente de Caça, de David L. Carlson e Landis Blair

Foi um acidente de caça - disso Charlie tem a certeza. Foi assim que o seu pai, Matt Rizzo - um intelectual gentil que escreve poemas épicos em Braille - perdeu a visão. Charlie só descobre a verdade durante a conturbada adolescência, quando enfrenta uma pena por pequenos delitos.

Matt Rizzo ficou cego depois de ter levado um tiro de caçadeira na cara - mas isso aconteceu enquanto participava num assalto à mão armada.

Recém-cego e sem esperança, Matt começou a sua nova e sombria vida na prisão de Stateville. Mas, neste lugar improvável, a vida e a própria alma de Matt foram salvas por um dos mais notórios assassinos da América: Nathan Leopold Jr., da infame dupla Leopold e Loeb.

De David L. Carlson e Landis Blair, surge a inacreditável história verídica de um pai, um filho e uma extraordinária viagem do desespero à iluminação.


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Vem aí um novo livro de Blueberry!




A ASA prepara-se para editar, a partir do próximo dia 22 de Setembro, um novo livro dedicado a Blueberry, um dos cowboys mais famosos de sempre do universo da banda desenhada!

Trata-se de uma edição especial, pois este é um livro comemorativo dos 60 anos de Fort Navajo, o primeiro álbum da série originalmente criada por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud (AKA Moebius).

O livro, que já se encontra em pré-venda no site da editora, conta com várias histórias curtas e ilustrações da autoria de nomes famosos da banda desenhada como Milo Manara, Mathieu Lauffray, Blutch, Jérôme Félix, Enrico Marini, Ralph Meyer, Corentin Rouge, entre muitos outros.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais da edição original.


No Rasto de Blueberry, de Vários Autores

Por ocasião do 60.º aniversário de Blueberry (lançamento do primeiro álbum, Fort Navajo, 1965), série de culto criada por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud, grandes autores prestam homenagem a Mike Steve Blueberry. 

Assim, os autores Anlor, Alberto Belmonte, Dominique Bertail, Michel Blanc-Dumont, Blutch, Olivier Bocquet, Vincent Brugeas, Stefano Carloni, Alexandre Coutelis, Fred Duval, Jérôme Félix, Paul Gastine, Goossens, Mathieu Lauffray, Lu Ming, Jean Mallard, Milo Manara, Enrico Marini,
Mathieu Mariolle, Thierry Martin, Matz, Ralph Meyer, Félix Meynet, Vincent Perriot, Corentin Rouge, Olivier Taduc, Ronan Toulhoat, Jean- François Vivier e Philippe Xavier criaram, cada um, uma história curta ou uma ilustração para homenagear esta grande personagem da BD franco-belga.
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Ficha técnica
No Rasto de Blueberry
Autores: Vários
Editora: ASA
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 24,90€