terça-feira, 10 de março de 2026

Assembleia da República recebe exposição de BD!


Não é, de facto, todos os dias que a banda desenhada chega à Assembleia da República Portuguesa, portanto eis-nos perante uma bela notícia!

A propósito da luta pelo voto feminino em Portugal, e com curadoria da editora Levoir, inaugura na Casa do Parlamento - Centro Interpretativo, já no dia de amanhã, 11 de Março, pelas 17h30, uma exposição dedicada ao tema.

Dou os meus parabéns aos envolvidos nesta iniciativa!

Deixo-vos, mais abaixo, com a nota de imprensa da Organização, convidando-vos a uma visita a esta exposição que estará patente até ao dia 31 de Março.


Exposição de BD sobre o voto feminino em Portugal

Luta pelo direito ao voto pelas mulheres em mostra com apoio da Assembleia da República e a curadoria da Levoir

A exposição de banda desenhada intitulada “O Voto Feminino em Portugal” inaugura dia 11 de março, quarta-feira, às 17:30, na Casa do Parlamento – Centro Interpretativo da Assembleia da República, com curadoria da editora Levoir.

Dedicada à luta das mulheres em Portugal pelos seus direitos, a mostra ilustra em pranchas originais e prints de banda desenhada o acesso ao direito ao voto feminino como um instrumento de expressão livre e uma das maiores conquistas sociais e políticas da história, resultado de décadas de luta de movimentos sufragistas.

Em 2024, no Dia Internacional da Mulher, foi lançado o livro Uma Mulher, um Voto, das autoras espanholas Alicia Palmer e Montse Mazorriaga, centrado na figura de Clara Campoamor, uma advogada que levaria à inclusão do voto feminino na Constituição Espanhola de 1931. Este livro, que apresentou a bravura levada a cabo por tais personagens históricas, integra um capítulo sobre o voto (no) feminino em Portugal, uma criação do argumentista Pedro Moura e da artista Matilde Feitor.

A banda desenhada tem sido palco de grandes desenvolvimentos artísticos e literários, encontrando novos territórios de expressão, novas vozes e exploração de modos e géneros.

A Levoir apresenta, através do seu catálogo de livros, a preocupação por ilustrar vozes femininas e a revelar narrativas de mulheres com impacto. Destaque para os livros de autores como Zeina Abirached, Marjane Satrapi, Taha Siddiqui, Paco Roca, Shaghayegh Moazzami, ou os volumes de Destemidas, de Pénélope Bagieu, e a coleção de Jacques Tardi, As Extraordinárias Aventuras de Adèle Blanc-Sec.

A editora portuguesa Levoir conta com um invejável catálogo de traduções de clássicos e obras contemporâneas e de adaptações da literatura portuguesa por alguns dos autores mais representativos da BD em Portugal.

Vem aí o primeiro evento de BD do ano!


Começamos a entrar na temporada de eventos dedicados à banda desenhada que abre com o LouriBD, o festival de banda desenhada que ocorre na Lourinhã. 

Esta é já a 4ª edição de um festival que, sendo pequeno, tem vindo a melhorar de ano para ano, tendo uma camaradagem muito própria - e próxima - entre os participantes. À semelhança de um "Festival de Beja em ponto pequeno", é um bom ponto de encontro entre autores portugueses e leitores e apresenta-se com um programa que vai crescendo em relevância.

O evento ocorre entre os dias 16 e 22 de Março, no Centro Cultural Dr. Afonso Rodrigues Pereira e é organizado pela Câmara Municipal da Lourinhã e pela editora Escorpião Azul.

Estarei por lá, novamente, no sábado, dia 21 de Março, para moderar algumas conversas, bem como para uma apresentação do livro inVISÍVEIS.

As exposições afetas ao evento serão: À Descoberta da Banda Desenhada Portuguesa, de vários autores (na Galeria do Centro Cultural Dr. Afonso Rodrigues Pereira); Luís Louro - Uma Vida a Trabalhar para o Boneco (na biblioteca municipal) e Portugal Jurássico, de Duarte e Henrique Gandum (no Museu da Lourinhã).

A entrada no evento é gratuita.

Mais abaixo, deixo-vos com o programa completo do certame, a lista de autores e convidados que marcarão presença e com a nota de imprensa da Organização.


LouriBD 2026 – Festival de Banda Desenhada da Lourinhã 

A 4.ª edição do LouriBD – Festival de Banda Desenhada da Lourinhã realiza-se de 16 a 22 de março, reunindo autores, editores, leitores e público escolar numa programação centrada na criação contemporânea e na reflexão em torno da Banda Desenhada.

O LouriBD é uma parceria entre o Município da Lourinhã e a editora local Escorpião Azul, contando com o apoio media da Antena 1 e com a colaboração do Museu da Lourinhã e da Galeria Parasol.

Sob o tema “A Descoberta”, o festival propõe uma abordagem ao conceito enquanto motor criativo: descobrir novas linguagens, novos autores, novas leituras e novas formas de pensar a narrativa gráfica.

A programação integra mercado do livro de BD e exposições ao longo de toda a semana, oficinas dirigidas ao pré-escolar, 1.º, 2.º e 3.º ciclos, ensino secundário e público sénior, bem como sessões de autógrafos e conversas com autores convidados.

O fim de semana concentra lançamentos e apresentações de obras, debates integrados nos Estados Gerais da Banda Desenhada, uma sessão de cinema para público familiar e a apresentação do Primeiro Museu Nacional de Banda Desenhada.

No dia 22 de março, terá lugar o lançamento do livro “Portugal Jurássico”, no Museu da Lourinhã, estabelecendo uma ligação entre património científico e criação artística.

A exposição coletiva desta edição reúne autores de Portugal e do Brasil, representando diferentes géneros e abordagens estéticas. As máscaras assumem destaque conceptual na mostra, surgindo trabalhadas em cortiça e acompanhadas por ilustrações realizadas com caneta bic, café e vinho, explorando ideias de identidade, anonimato e liberdade formal.

Com esta quarta edição, o LouriBD consolida um modelo de colaboração institucional e editorial que tem vindo a afirmar o festival como um espaço de programação regular, diálogo crítico e apresentação de nova produção em Banda Desenhada.


Programa






Autores e Convidados

sexta-feira, 6 de março de 2026

Análise: Obras de Pratt

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros
Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt

Recentemente li (e, nalguns casos, reli) quatro dos livros da autoria de Hugo Pratt que, nos últimos tempos, a Ala dos Livros editou na sua coleção Obras de Pratt. Os livros em questão são Jesuit Joe e Outras Histórias; Anna na Selva; Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles; e Fanfulla, este último, editado mais recentemente e que conta com a participação no argumento de Mino Milani. É sobre estes livros que hoje vos falo, recordando que, da mesma coleção, já aqui analisei Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara, bem como Os Escorpiões do Deserto.

Começo por afirmar que Obras de Pratt é uma coleção de caráter documental mais que relevante pois permite, por um lado, trazer as obras de Hugo Pratt a uma nova geração de leitores que, de outra forma, poderia (já) não ter acesso a estas obras; e, por outro lado, permite que aqueles que já conhecem algumas destas obras de outras edições portuguesas passadas, possam ter acesso às mesmas numa edição de qualidade superior e, diria mesmo, de colecionador. Até porque, convém não esquecer, a obra de Hugo Pratt não se finda com Corto Maltese, merecendo ser explorada além dessa e como um todo.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Falando agora, de forma tão breve quanto possível, de cada uma destas obras, Jesuit Joe e Outras Histórias reúne três histórias a que o próprio Hugo Pratt apelidou de "Trilogia das Religiões", já que o tema das histórias orbita em torno do assunto da crença. A primeira história acompanha Jesuit Joe, um mestiço de ascendência francesa e indiana, que veste um uniforme da Polícia Montada, embora não pertença à mesma. Movido por uma lógica moral própria e implacável, ele atravessa as paisagens geladas do Norte, deixando um rasto de violência ao mesmo tempo que procura a sua irmã. 

Por sua vez, as histórias A Macumba do Gringo e A Oeste do Éden exploram o choque entre crenças espirituais e a dureza da sobrevivência, apresentando personagens que enfrentam dilemas éticos em cenários exóticos e isolados, bem ao jeito das histórias de Hugo Pratt. Esta é, talvez, a obra onde a amoralidade de Pratt atinge o seu auge, oferecendo uma leitura desconcertante, mas igualmente fascinante, pois é certo que a figura da personagem Jesuit Joe desafia as convenções do herói tradicional, servindo como um veículo perfeito para Pratt explorar a solidão absoluta e a violência gratuita numa ambiência fria e hipnótica. Gostei particularmente deste livro.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Já a história de Anna na Selva, decorre em 1913, na aldeia de Gombi, na África Oriental, pouco antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Esta é uma história que embora seja constituída por quatro episódios, tem, por ventura, a história mais articulada, em termos de enredo, de todos estes livros que aqui vos trago. Convém referir que esta foi a primeira obra em que Hugo Pratt assumiu totalmente tanto o argumento como o desenho e nela já se vislumbram os temas e a sensibilidade histórica que viriam a definir a sua obra mais célebre, Corto Maltese

O álbum mistura um certo realismo histórico do colonialismo com elementos de magia e mistério típicos das temáticas que, normalmente, associamos a Pratt, servindo como um documento visual da juventude do autor vivida em África. Embora tenha um tom ligeiramente mais juvenil que obras posteriores, a riqueza dos detalhes coloniais e a construção da atmosfera africana já revelam a profundidade e o respeito cultural que tornariam o autor num mestre do género.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Quanto a Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles voltamos a acompanhar as aventuras do major polaco Koinsky que já tinha sido peça fundamental da série Os Escorpiões do Deserto. O livro reúne cinco narrativas curtas baseadas em memórias da campanha militar italiana entre os anos de 1943 e 1945.

Neste caso concreto, em vez de grandes batalhas estratégicas, Hugo Pratt foca-se mais em pequenos episódios e encontros mais centrados nas relações humanas que ocorrem à margem do conflito bélico. Talvez por isso, diria que é uma obra fundamental para compreendermos não só a evolução técnica do autor, como o seu interesse duradouro por cenários bélicos e destinos cruzados. Pratt consegue capturar a fragilidade das alianças e a ironia do destino, provando - se dúvidas ainda houvesse - que as melhores histórias de guerra são aquelas que se focam nos homens e não nas bandeiras das nações.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Por último, em Fanfulla, Hugo Pratt une esforços, no argumento, a Mino Milani, para nos narrar as peripécias de Fanfulla da Lodi, um mercenário histórico do século XVI. A trama desenrola-se durante a Renascença Italiana, período em que dois clãs inimigos se enfrentam pela posse da cidade de Florença. Esta será certamente a obra menos conhecida destas quatro - e que era inédita em Portugal - e, representada em formato italiano, ou horizontal, traz-nos um conjunto de peripécias, algumas divertidas, deste mercenário que é um guerreiro implacável e valente, enquanto tenta ser, ao mesmo tempo, gentil para com as mulheres. É uma narrativa histórica, de espada e capa, que nos dá uma personagem principal muito carismática, como foi apanágio, diria, das criações de Hugo Pratt.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Sendo verdade que todos estes livros foram feitos em alturas diferentes da vida de Pratt, em todos eles é notório e facilmente identificável o traço característico do autor. Todos os livros são editados nas suas versões a cores o que, quanto a mim, torna mais visível uma certa obsolescência de algumas opções do autor nas suas cores. Sei que esta é uma opinião não partilhada por alguns, mas mesmo não descurando a beleza das aguarelas de Pratt em algumas das suas ilustrações, olhando para as suas obras à luz do tempo corrente, diria que funcionam bem melhor a preto e branco do que a cores. Mesmo assim, e fora esta opinião muito pessoal, compreendo obviamente que a edição da Ala dos Livros seja a cores, pois muitos são os leitores que valorizam especial e especificamente as cores de Pratt.

Em termos de edição, e conforme já referi, considero estas edições da Ala dos Livros verdadeiramente espetaculares, carregadas de brio e respeito pela obra do autor. Todos os livros têm capa dura, com detalhes a verniz. No miolo, o papel utilizado é brilhante e de qualidade superior, bem como assim é o trabalho de encadernação e impressão. Todos os livros apresentam, também, belos extras que complementam a leitura e o nosso conhecimento sobre a obra. 

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros
Em Jesuit Joe encontramos um texto final de apoio à obra, escrito por Francesco Boille, que é complementado por imagens de capas italianas e por uma página com esboços de Pratt. Em Anna na Selva, temos um texto introdutório de Renato Gaita, que é acompanhado com imagens de algumas vinhetas e mais esboços. Há uma ilustração de Anna Livingstone, a protagonista do livro, que é uma autêntica obra de arte e que bem que poderia ser emoldurada. Em Koinsky relata... temos um texto introdutório do próprio Hugo Pratt e cada uma das cinco histórias é iniciada com uma introdução composta por texto, imagens de oficiais e veículos de guerra e esboços a aguarela. É, de todos, o livro mais bem documentado através dos seus fantásticos conteúdos adicionais. Por fim, Fanfulla, sendo um álbum em formato horizontal, inclui uma manga em formato vertical, que nos permite arrumá-lo desse modo junto dos outros livros. Um detalhe que adorei, semelhante ao que a editora já tinha feito em O Relatório de Brodeck, de Manu Larcenet. O livro inclui ainda um texto introdutório da autoria de Antonio Carboni.

Em suma, todos estes livros são preciosas adições a uma boa biblioteca de banda desenhada e verdadeiros "must have" para os muitos adeptos da obra de Hugo Pratt. Jesuit Joe é, quanto a mim, o melhor destes álbuns; Anna na Selva, é um prenúncio claro do que seria Corto Maltese alguns anos mais tarde; Koinsky relata... é, de todos, o livro com o conteúdo extra mais apetecível, e Fanfulla é a proposta mais original e diferente dos quatro livros. Dito por outras palavras, há algo de apetecível e diferenciador em cada uma destas quatro obras.


NOTA FINAL (1/10):
9.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Fichas técnicas
Anna na Selva
Autor: Hugo Pratt
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Junho de 2023

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles
Autor: Hugo Pratt
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 196, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 320 mm
Lançamento: Setembro de 2023

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Jesuit Joe e outras histórias
Autor: Hugo Pratt
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Setembro de 2024

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Fanfulla
Autores: Hugo Pratt e Mino Milani
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura, em formato italiano com manga vertical
Formato: 295 x 210 mm
Lançamento: Março de 2026



quinta-feira, 5 de março de 2026

Análise: Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir
Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito

Hoje trago-vos uma dose dupla de Junji Ito, o mestre do terror em mangá. Para tal, centro-me nas duas obras mais recentes do autor japonês que a Devir nos fez chegar, nomeadamente Soichi - As Maldições Inconvenientes e As Angústias Amorosas dos Mortos.

Relembro que este é um autor com uma assinalável quantidade de obras já editadas em Portugal. Não só pela Devir, como pela Editorial Presença e pela Sendai Editora.

À boa maneira de Junji Ito, quer Soichi - As Maldições Inconvenientes, quer As Angústias Amorosas dos Mortos, são duas obras que, partindo de uma premissa macabra e "assustadora", nos oferecem vários episódios sobre esse mesmo tema. Há um fio condutor entre esses episódios mas, ao mesmo tempo, há uma certa independência entre os demais.

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir
O que traz a vantagem ao leitor de ir lendo cada um dos episódios no seu próprio ritmo, podendo intercalar a sua leitura com outros livros, mas que também traz o problema maior que encontro nas obras de Junji Ito: um certo sobreaproveitamento das suas premissas. Ou seja, começo sempre por gostar das ideias e das premissas de cada livro... mas depois, o meu interesse vai diminuindo por achar: "ok, já percebi a ideia". Invariavelmente, isto acontece-me com TODOS os livros do autor. Mesmo que aprecie muito as suas ideias macabras e os seus desenhos.

Falando-vos um pouco de cada um dos livros em concreto, em Soichi - As Maldições Inconvenientes, a história centra-se num rapaz excêntrico e antissocial que acredita possuir poderes sobrenaturais para lançar maldições. Caracterizado pela sua aparência pálida e pelo hábito bizarro de mastigar pregos de ferro (alegadamente para combater a anemia!), Soichi é uma criança narcisista que se sente incompreendida pela sua família e colegas. O livro reúne diversos contos que acompanham as suas tentativas sádicas de atormentar todos ao seu redor, utilizando bonecos de palha e rituais de vodu para causar infortúnios a quem o desagrada. O ponto mais positivo que encontrei nesta obra é a introdução de um humor negro, por vezes muito divertido, que contrasta um pouco com o tom mais sério que o autor utiliza noutras das suas obras. É que muitas vezes os planos maléficos de Soichi acabam por ter resultados inesperados ou cómicos, voltando-se contra ele próprio. 

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir
Já As Angústias Amorosas dos Mortos, é uma obra que explora a intersecção entre o amor obsessivo e o sobrenatural. A trama principal decorre na cidade de Nazumi, um lugar perpetuamente envolto em nevoeiro, onde os jovens praticam a "leitura da sorte no cruzamento" que é um ritual em que os habitantes locais tapam o rosto e pedem ao primeiro estranho que passa por si para prever o seu futuro amoroso. O enredo segue Ryusuke, um estudante que regressa à cidade anos após um evento traumático na sua infância. Ao dar uma previsão cruel a uma mulher desesperada num cruzamento, o pequeno Ryusuke levou-a, indiretamente, a cometer suicídio. E, ao voltar à cidade, o protagonista depara-se com uma onda de suicídios entre raparigas, todas influenciadas por um misterioso e "belo rapaz de preto" que vagueia pelo nevoeiro distribuindo leituras da sorte que levam ao desespero e à morte.

O que mais gostei neste livro foi do clima de suspense e mistério que contrasta com o terror mais direto de outras obras do autor. Gostei mesmo muito de toda aquela incerteza do nevoeiro a rodear tudo e todos, de quem seria o "belo rapaz de preto" e como isso estaria, ou não, relacionado com o episódio anterior na vida de Ryusuke. 

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir
Posso até dizer-vos que talvez este As Angústias Amorosas dos Mortos tenha sido o livro que mais me impactou de todos os que já li de Junji Ito. Até aprecio o terror macabro e gutural direto que o autor nos dá, mas senti-me mais impelido pela história quando esta se revelou menos direta e mais na base do suspense e do mistério.

Mesmo assim, pecou apenas, tal como Soichi - As Maldições Inconvenientes, na sensação de repetição, estilo "mais do mesmo", que se começa a sentir sensivelmente a meio da obra.

Em termos de desenho, o autor volta a oferecer-nos um belo trabalho nos dois livros. A sua mestria visual reside especialmente na sua capacidade única de fundir o belo com o grotesco, utilizando um traço meticuloso e detalhado que eleva o horror a uma forma de arte hipnótica e singular. É através deste contraste entre a os traços limpos das suas personagens humanas e a densidade caótica do sobrenatural, que Junji Ito consegue evocar uma sensação de desconforto visceral e que é única na abordagem.

Em termos de edição, ambos os livros apresentam capa mole com badanas e papel baço aceitável no miolo da obra. A encadernação e impressão estão boas, também.

Em suma, tanto Soichi - As Maldições Inconvenientes como As Angústias Amorosas dos Mortos, nos trazem mais dois bons livros de Junji Ito, especialmente direcionados aos fãs do autor. Se o primeiro livro prima por ter algum humor negro que se junta ao terror visual, o segundo apresenta um clima de tensão, mistério e suspense que me agradou especialmente. Muito embora, tenho que o admitir, ambos os livros pequem na exata mesma questão de, sensivelmente a meio das obras, esgotarem as suas próprias premissas.


NOTA FINAL (1/10):
Soichi - As Maldições Inconvenientes: 8.3
As Angústias Amorosas dos Mortos: 8.8

Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir

Fichas técnicas
Soichi - As Maldições Inconvenientes
Autor: Junji Ito
Editora: Devir
Páginas: 414, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 14,8 x 21 cm
Lançamento: Maio de 2025

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir

As Angústias Amorosas dos Mortos
Autor: Junji Ito
Editora: Devir
Páginas: 406, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 14,8 x 21 cm
Lançamento: Outubro de 2025