sexta-feira, 19 de junho de 2026

Há uma nova revista portuguesa de banda desenhada!



Chama-se LeiGo e é uma revista de banda desenhada em formato digital, da editora Legado, que acaba de ser lançada. Tem duas versões, uma direcionada a um público mais adulto e outra direcionada aos mais novos e pode ser encontrada no seguinte link.

O projeto tem Liliana Gaito como coordenadora e conta com participações de vários autores de banda desenhada. Alguns deles já são conhecidos da nossa praça, outros são autores emergentes.

Mais abaixo, deixo-vos a apresentação oficial do projeto.

LeiGo #1, de vários autores

A revista LeiGo é um projeto inovador que tem como principal objetivo a publicação de conteúdos culturais e artísticos, promovendo a diversidade e a criatividade.
A revista apresenta uma ampla gama de materiais, incluindo contos de banda desenhada, poemas, ilustrações, entrevistas com artistas e muitas outras formas de expressão cultural, proporcionando uma experiência enriquecedora para os leitores.

A revista LeiGo possui duas vertentes distintas para atender diferentes faixas etárias. 

A LeiGo Kids é destinada ao público jovem com idades entre 6 e 13 anos, cuidadosamente desenvolvida para despertar a imaginação e incentivar a criatividade das crianças, oferecendo conteúdos envolventes e
inspiradores. 

Já a versão principal da revista LeiGo é voltada para leitores a partir dos 15 anos, trazendo uma abordagem mais ampla e aprofundada sobre o universo cultural e artístico.

A LeiGo é publicada anualmente e está disponível para compra na plataforma Amazon, garantindo acessibilidade global. Como uma publicação totalmente digital, proporciona praticidade e facilidade de acesso, permitindo que leitores de diferentes partes do mundo possam desfrutar do seu conteúdo de forma imediata e interativa.

Além de ser uma plataforma de divulgação e partilha de trabalhos artísticos, a revista LeiGo busca incentivar o público, independentemente da idade, a consumir arte e cultura. Com essa proposta, a publicação pretende consolidar-se como uma referência na divulgação de produções artísticas e culturais, incentivando novos talentos e ampliando o alcance da arte nas suas diversas manifestações.
Cada edição da revista LeiGo é estruturada em torno de um tema específico, explorado ao longo da publicação. Uma das entrevistas em cada número é com autores que tenham envolvimento direto com esse tema, proporcionando uma visão aprofundada e contextualizada.

Além disso, a capa de cada edição é ilustrada por um ilustrador convidado, que também concede uma entrevista exclusiva à revista, partilhando a sua experiência e processo criativo.

O tema da revista #1 para ambas as versões é a Xilogravura, cujo convidado especial é Rafael Dantas. A capa da revista LeiGo é feita por Jorge Coelho e a LeiGo Kids por Nestablo Ramos.

Ambas as versões da revista LeiGo (a edição principal e a LeiGo Kids) estão disponíveis em português e inglês. 


Análise: As Raparigas de Salem

As Raparigas de Salem, de Thomas Gilbert - Arte de Autor

As Raparigas de Salem, de Thomas Gilbert - Arte de Autor
As Raparigas de Salem, de Thomas Gilbert

O livro mais recentemente publicado pela editora Arte de Autor dá pelo nome de As Raparigas de Salem e é da autoria do francês Thomas Gilbert.

A obra conta-nos a história das Bruxas de Salem ou, mais bem dito, da Caça às Bruxas de Salem. Há uma grande diferença entre uma e outra coisa. Baseado em acontecimentos verídicos, é um tema bastante recorrente, que tem aparecido em vários meios ao longo dos anos. Lembro-me do livro de Arthur Miller, mas também da sua adaptação para cinema no filme de 1996, protagonizado por Daniel Day-Lewis, ou até de um videojogo para PlayStation que joguei recentemente, intitulado Murdered: Soul Suspect. Mas nunca tinha lido nenhuma banda desenhada sobre o tema - ou, se li, já não me lembro.

As Raparigas de Salem, de Thomas Gilbert - Arte de Autor

E em boa hora foi editado por cá este As Raparigas de Salem, pois esta é mais uma daquelas histórias infames da humanidade que devemos fazer todos os esforços para que não seja esquecida.

Foi no final do século XVII, na aldeia de Salem, em Massachusetts, que se viveu um dos episódios mais notórios de histeria coletiva da história americana: um conjunto de raparigas foram perseguidas e julgadas por, aparentemente, serem bruxas. Enfim.

Esta proposta de Thomas Gilbert revisita os acontecimentos dos julgamentos a envolver estas raparigas, a partir do ponto de vista de Abigail Williams, uma das jovens que estiveram no centro das acusações. Em vez de uma narrativa puramente factual, o autor aposta numa abordagem mais sensível e interpretativa, ainda que procure reconstruir o ambiente social, religioso e emocional destes eventos tão bem quanto possível.
 
Salem era uma comunidade rígida, marcada por normas severas, repressão e tensões latentes. O clima de medo e superstição, aliado a conflitos familiares e sociais, contribui para a criação de um cenário onde comportamentos incomuns, ou menos aceitáveis para a moral vigente, rapidamente são associados ao sobrenatural. E quando a jovem recebe um presente de um rapaz, levantam-se as censuras dos locais. O Reverendo Parris é quem zela pelos bons costumes, pelo puritanismo e, quando percebe que a sua fonte de rendimento está a decrescer - ou quando é flagrado a abusar sexualmente de uma jovem - põe mãos à obra, de modo a proteger o seu estatuto e posição, arranjando um bode expiatório nestas raparigas. A partir desse momento, o Reverendo tudo fará para arrastar estas jovens até à forca.

As Raparigas de Salem, de Thomas Gilbert - Arte de Autor
É uma história triste. Lamentável. Vergonhosa.

Julgar jovens sem razão alguma, só para proteger o status quo é uma coisa de que todos nós, sociedade, nos deveríamos envergonhar. 

Mas mais do que explicar os acontecimentos de forma definitiva, a obra procura lançar perguntas sobre responsabilidade, culpa e manipulação, pois a verdae é que este episódio de Salem permanece até hoje como um exemplo marcante dos perigos do fanatismo, do medo coletivo e da fragilidade da justiça em contextos de forte pressão social e religiosa.

E ainda que o tema de Salem seja sobejamente conhecido, até chega a ser curioso que o livro, a princípio, quer pela sua capa, quer pelas primeiras páginas, nos possa induzir a considerar que estamos perante uma história leve ou até de cariz mais juvenil. Desenganem-se os incautos que acharem isso. As Raparigas de Salem rapidamente se revela uma obra bem negra, pesada e macabra. Se calhar, até diria mesmo que, dentro de todas as obras da editora Arte de Autor, esta até esteja entre aquelas que são mais opressivas e inquietantes. Isto porque Gilbert mergulha sem concessões no lado mais sombrio da experiência humana, expondo a violência, o medo e a degradação moral de forma crua e perturbadora. 

As Raparigas de Salem, de Thomas Gilbert - Arte de Autor
Nesse cenário, a figura do Reverendo Parris destaca-se de forma particularmente marcante. Trata-se de uma personagem construída com enorme força, que encarna o mal de modo direto, quase abrupto, e com uma presença carregada de caráter. Hediondo e profundamente maléfico, Parris surge como um motor de opressão e manipulação, uma figura que domina a narrativa pela sua intensidade e pela forma como personifica os excessos e perversões do poder religioso e social. Pode estar representado de forma caricatural ou exagerada, reconheço, mas é mesmo isso que era necessário para esta história, parece-me.

Em termos de desenho, o trabalho de Thomas Gilbert também me deixou sensações muito positivas. E logo a partir da capa, que impressiona, com a sua ilustração verdadeiramente linda e com um grafismo espetacular que capta facilmente a nossa atenção. Estou sempre a dizer que as embalagens também vendem produtos e que, no caso dos livros, "a capa é a embalagem do bem". Portanto, as capas os livros devem ser tão apelativas quanto possível. É o caso.

No interior, o desenho de Gilbert assume um registo frequentemente rude e grotesco, com traços duros, expressões distorcidas e uma fisicalidade quase incómoda. Os desenhos do autor lembraram-me, por vezes, uma mistura feliz entre o traço de Joann Sfar com o de Eduardo Risso. 

As Raparigas de Salem, de Thomas Gilbert - Arte de Autor
Há uma liberdade no traço que permite às formas serem mais grotescas e livres. Ainda assim, a paleta cromática suaviza e eleva essas imagens, atribuindo-lhes uma certa beleza e um charme muito particular. Assim, sente-se que o contraste entre a aspereza do traço e a riqueza das cores cria uma tensão visual bastante eficaz. Pode até não ser o estilo de desenho de que mais gosto, reconheço, mas tenho que conceder igualmente que a proposta visual de Thomas Gilbert funciona de forma coerente e eficaz.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, com textura aveludada e detalhes a verniz. No miolo, o papel é baço e de boa qualidade. O trabalho ao nível da encadernação, da impressão e dos acabamentos também está muito bem feito.

Em conclusão, Thomas Gilbert cria neste As Raparigas de Salem uma obra intensa e perturbadora, que retrata de forma convincente uma comunidade consumida pelo puritanismo e arrastada por um medo coletivo que degenera em violência absurda, com a obra a ir além da reconstituição histórica e oferecendo uma reflexão dura sobre a manipulação das massas e da fragilidade humana. O resultado é uma leitura marcante, densa e pesada, que funciona como um alerta: recordar estes acontecimentos é essencial para que nunca se voltem a repetir.


NOTA FINAL (1/10):
8.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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As Raparigas de Salem, de Thomas Gilbert - Arte de Autor

Ficha técnica
As Raparigas de Salem - Como Condenámos as Nossas Crianças
Autor: Thomas Gilbert
Editora: Arte de Autor
Páginas: 198, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cms
Lançamento: Maio de 2026



Levoir lança nova série de mangá!



Hoje, para além da terceira obra da Coleção de Novelas Gráficas, também pode ser adquirida em banca, juntamente com o jornal Público, o primeiro número da série As Gotas de Deus, da autoria dos japoneses Tadashi Agi e Shin Okimoto.

Esta é uma série que já havia sido anunciada em 2023 e que chega finalmente aos leitores portugueses. Trata o tema do vinho, o que pode apelar a um público mais maduro e, diria mesmo, não tão propenso a ler mangá.

Confesso que estou curioso para saber a periodicidade com que a Levoir vai editar esta série, uma vez que a série original conta com 44 volumes e que, pelo menos por agora, a editora e o jornal apenas estão a anunciar o lançamento dos dois primeiros volumes.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais do livro.

As Gotas de Deus #1, de Tadashi Agi e Shin Okimoto

A série emblemática dedicada ao vinho e aos seus mistérios As Gotas de Deus, foi um best seller no Japão e em França. Portugal é o terceiro país onde se publica esta série. A Levoir e o jornal Público lançam a 19 de Junho o 1º volume desta colecção.

Capaz de satisfazer tanto iniciados como conhecedores, esta colecção vai dar aos leitores um motivo perfeito para dar o salto e mergulhar neste universo tão delicioso como é o vinho. Tadashi Agi, é o pseudónimo de Yuko e Shin Kibayashi, uma dupla de irmãos japoneses que escrevem histórias de mangá, são dois profundos conhecedores e apreciadores de vinho e donos de uma garrafeira com mais de 3000 garrafas.

Em 2009 a revista Decanter Magazine elegeu os irmãos Kibayashi entre as 50 pessoas mais influentes na indústria do vinho e a publicação foi considerada a mais influente dos últimos 20 anos.

De 2004 a 2014 a série foi publicada na revista Weekly Morning, dando ainda origem a duas sequelas mais curtas. O sucesso foi tal que o mangá seria adaptado à televisão por duas vezes, a segunda das quais já em 2023, numa co-produção francesa, japonesa e americana, cujas duas temporadas podem ser vistas em Portugal no serviço de streaming Apple TV, dando ainda origem a uma série de animação japonesa, que estreou em Abril de 2026

Filho de um enólogo conhecido, Shizuku Kanzaki é funcionário de uma empresa japonesa de bebidas com foco na venda de cervejas e não tem qualquer amor ao vinho.

Infelizmente, o seu pai morre e, quando pensava poder gozar tranquilamente da sua herança, Shizuku descobre que tem um irmão adoptivo, um renomado jovem crítico de vinhos, Toomine Issei. Pior ainda, o testamento do pai desafia-os a descobrir os doze melhores grands crus, assim como o melhor de todos, As Gotas de Deus. Shizuku vê-se assim envolvido na descoberta de um novo género, por entre vinhos, castas e sabores…

Para quem já ama o vinho, é uma declaração de amor à sua cultura mais profunda. Para quem ainda não o descobriu, é um convite sem barreiras de entrada. E para todos, é a prova de que a grande literatura — mesmo em formato de banda desenhada — fala sempre do mesmo: de quem somos, do que herdamos e do que escolhemos tornar nosso. 
– Bento Amaral

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Ficha técnica
As Gotas de Deus #1
Autores: Tadashi Agi e Shin Okimoto
Editora: Levoir
Páginas: 240, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 130 x 180 mm
PVP: 14,90€











Análise: Pátria - Romance Gráfico

Pátria, de Toni Fejzula - ASA - LeYa

Pátria, de Toni Fejzula - ASA - LeYa
Pátria, de Toni Fejzula

Foi há poucos dias que a editora ASA publicou Pátria, de Toni Fejzula, que adapta para banda desenhada a obra com o mesmo nome de Fernando Aramburu, que depressa se tornou num dos livros mais relevantes dos últimos anos editados em Espanha.

A história incide na história de duas famílias bascas, a de Bittori e a de Miren, que eram amigas íntimas até serem brutalmente separadas pelo terrorismo da ETA. O ponto de partida da história é o regresso de Bittori à sua terra natal, anos depois do assassinato do seu marido, Txato, um empresário local morto pela organização ETA. Por outro lado, o filho de Miren, Joxe Mari, é um terrorista da ETA que se encontra preso e que faz surgir a dúvida a Bittori - e a nós, leitores - se terá sido ele, ou não, o encapuzado a assassinar Txato. Esse regresso da velha Bittori desencadeia, assim, uma revisitação do passado, marcada pela dor, pelo silêncio e pela necessidade de compreender quem esteve por trás do crime do seu marido.

Pátria, de Toni Fejzula - ASA - LeYa
Por agora, fiquemos com este lado da história do livro. Já voltarei a esse tema. Deixem que me foque, para já, nas ilustrações fantásticas deste livro. Toni Fejzula dá-nos, acima de tudo, um objeto artístico profundamente ambicioso. Não se trata apenas de transpor um romance muito reconhecido para outro formato, mas de reinterpretar uma obra complexa num meio que exige síntese, ritmo visual e economia narrativa. 

O livro original conta com mais de 700 páginas e, nesta sua adaptação para banda desenhada, ultrapassa as 300 páginas. O resultado é, pois, impressionante enquanto realização material e estética. Aliás, até vos sou sincero quando vos digo que considero inexplicável que não se esteja a "fazer barulho" sobre este livro. É certo que foi lançado há pouco tempo, mas já é para mim assente que estamos perante uma das obras mais relevantes do ano.

Há um cuidado visual impressionante neste trabalho, com Toni Fejzula a construir cada página com um rigor que denota um investimento quase obsessivo, haveno uma atenção minuciosa ao enquadramento, à expressividade das personagens e à composição cromática. As cores, frequentemente contidas mas expressivas, contribuem para a atmosfera emocional, ora fria, ora opressiva, que atravessa toda a narrativa. Nesse sentido, percebe‑se claramente a ideia de que estamos perante “a obra de uma vida” para Fejzula. Verdadeiramente impressionante e com um aspeto belíssimo e cuidado.

Pátria, de Toni Fejzula - ASA - LeYa
E, convém não perder isso de vista, essa dimensão gráfica não é apenas decorativa, sustentando o próprio peso emocional da narrativa. Os silêncios, os olhares, os espaços vazios... tudo o que é visual nos comunica algo intenso. Dito por outras palavras, o que não é dito em palavras é transmitido pela imagem, o que exige do leitor uma atenção redobrada. Esta complementaridade entre texto e imagem é uma das maiores forças da obra, mas também um dos seus maiores desafios.

A história em si, mantém a carga temática do romance de Aramburu: a violência política, a fragmentação social e o impacto íntimo do terrorismo nas vidas de toda a gente, seja qual for a barricada em que cada uma das personagens se encontra. E embora centrada no tema da ETA, a narrativa transcende esse contexto específico, indo mais longe e conseguindo ser mais universal e atual. Isto porque estas mesmas personagens poderiam perfeitamente protagonizar um relato semelhante no contexto de um outro conflito qualquer, porque o que está em causa é uma lógica universal: a capacidade humana de dividir o mundo em “nós” e “eles”, muitas vezes em nome de uma "pátria" idealizada. Mas uma "pátria", caros amigos, é muito mais um conceito abstrato, do que algo tangível ou palpável.

Pátria, de Toni Fejzula - ASA - LeYa

A narrativa constrói-se de forma fragmentada, alternando entre diferentes personagens e momentos temporais, revelando progressivamente o impacto profundo da violência nas vidas individuais e na comunidade. Através das várias perspetivas  - incluindo familiares de vítimas e de membros da ETA - o livro mostra como o medo, a pressão social e a ideologia moldaram comportamentos, destruíram relações e dividiram uma sociedade inteira.

Assim, ao acompanharmos diferentes personagens, percebemos como cada uma constrói a sua própria verdade, justificando posições, decisões e silêncios. Nenhuma delas é perfeita. Mas, como em tudo na vida, não há heróis e vilões. Apenas humanos que são capazes do melhor e do pior. Essa multiplicidade reforça a ideia de que não há uma leitura única do conflito, mas antes uma rede de perspetivas que se cruzam, chocam e, por vezes, se anulam. 

E é precisamente nesta questão das múltiplas vozes e múltiplas personagens deste Pátria que entra uma das características mais marcantes - e mais exigentes - desta adaptação: a sua densidade. Trata-se, de facto, não vos posso negar, de uma leitura difícil. Que exige muita atenção do leitor. Não tanto pela complexidade conceptual, mas principalmente pela forma como a informação nos é apresentada.

Pátria, de Toni Fejzula - ASA - LeYa
Isto porque a narrativa surge em fragmentos, como se fossem retalhos de memória. Em vez de uma progressão linear e claramente estruturada, o leitor é confrontado com pequenos momentos da vida das várias personagens - e não são poucas - muitas vezes sem grande contextualização. Esses fragmentos acumulam-se, e cabe ao leitor reconstruir o todo, preenchendo lacunas e estabelecendo ligações. Tive que parar várias vezes, voltar atrás e tentar unir os pontos. É um daqueles livros que demora tempo a ler e mais tempo ainda a perceber.

Acresce a isso a multiplicidade de "vozes narrativas" diferentes que nos vão dando a sua visão dos factos. Mas, mais uma vez, a contextualização é quase inexistente. É verdade que as legendas vão mudando de cor, consoante a personagem que dialoga connosco, mas nem isso é suficiente para, muitas vezes, conseguirmos perceber quem é a personagem que está a falar e a que momento se refere. Isto gera uma sensação de fluidez, mas também de indefinição, pois, por momentos, torna-se difícil perceber quem está a narrar e em que ponto da história estamos.

Essa escolha formal é interessante do ponto de vista artístico, pois reforça o caráter "polifónico" da obra. Contudo, também contribui para a sensação de uma certa desorientação. As vozes tendem a fundir-se, especialmente quando não há tempo suficiente para o leitor se fixar em cada personagem de forma clara.

Pátria, de Toni Fejzula - ASA - LeYa
O próprio facto das personagens terem nomes bascos, que serão pouco familiares para a maioria dos leitores portugueses, torna-se exigente para que consigamos identificar quem é quem. No romance, que tive oportunidade de ler há uns anos, esse processo é mais gradual, mas nesta adaptação, devido a uma certa condensação, é mais abrupto.

Ainda assim, acredito que essa dificuldade não deve ser vista como uma falha. Pelo contrário, pode ser entendida como uma consequência direta da ambição desta adaptação. Ao tentar preservar a complexidade da obra original, Toni Fejzula opta por não simplificar em excesso, mantendo intacta a fragmentação narrativa e a multiplicidade de perspetivas. Quem leu o romance original, vai compreender esta a minha afirmação, acredito.

Só para vos fazer um comparativo com base nesta questão da complexidade que estou a referir, livros como Watchmen, V de Vingança ou Do Inferno, de Alan Moore, parecem-me simples na abordagem, comparativamente com este Pátria. Achei-os (bem) mais fáceis de ler.

"Não é defeito, é feitio". Por vezes, aponto a questão da complexidade como um defeito numa obra, pois considero que não se justificava, mas neste caso concreto, parece-me que faz parte do jogo de personagens, desse carrossel narrativo arquitetado por Fernando Aramburu e fielmente mantido por Toni Fejzula. Com sinceridade, quando soube deste livro, não esperava que fosse algo tão grandioso. Mas é.

Pátria, de Toni Fejzula - ASA - LeYa
Quanto à edição, o livro apresenta capa dura baça e bom papel baço no interior. A impressão, encadernação e acabamentos são igualmente bons. Há ainda um extenso caderno de material extra, que inclui um epílogo de Toni Fejzula, em que o mesmo nos conta a sua própria experiência enquanto sérvio, fazendo uma ponte para os acontecimentos desta obra. Há ainda ilustrações, estudos de página, storyboards, etc. Além disso, uma coisa de que gostei muito - e que acho até que mais livros poderiam ter - foi da forma como o autor nos fala do seu processo de trabalho, da documentação que fez, de como condensou a obra original, entre outras coisas.

Há ainda um glossário no final do livro que nos revela algumas das palavras bascas que, durante a obra, são referidas até à exaustão, como aita (pai), ama (mãe), ongi etorri (bem-vindo), etc. Considero que a experiência de leitura poderia ter saído beneficiada se a tradução destas palavras bascas aparecessem em notas de rodapé nas páginas em que são proferidas. Mas é uma escolha, claro. Achei também que, em termos de legendagem, por vezes a obra não é tão legível como poderia ser, muito por causa do tamanho das legendas e texto ser muito pequeno - e a transparência das legendas também não ajuda. Mas fui ver a versão original da obra e isto também acontece, pelo que não terá sido uma falha da ASA nesta questão.

No final, o que fica é uma obra simultaneamente bela e exigente. Uma BD que impressiona pelo virtuosismo visual e pela profundidade temática, mas que pede ao leitor um envolvimento ativo e paciente. Pátria é uma reflexão sobre memória, culpa e reconciliação, em que se explora a dificuldade de enfrentar o passado, a persistência do trauma e a complexidade do perdão, sugerindo que os conflitos coletivos deixam marcas duradouras nas vidas pessoais. Um dos livros do ano.


NOTA FINAL (1/10):
9.7


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Pátria, de Toni Fejzula - ASA - LeYa

Ficha técnica
Pátria - Romance Gráfico
Autor: Toni Fejzula
Adaptado a partir da obra original de: Fernando Aramburu
Editora: ASA
Páginas: 304, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 27, 5 x 20,6 cm
Lançamento: Junho de 2026