Ginseng Roots, de Craig Thompson
Tendo já lido muitos, muitos livros de banda desenhada - afinal, são
Muitos Anos a Virar Páginas... - há algo que digo muitas vezes: em termos de BD, existem três tipos de livros: aqueles que nos conquistam pela história; aqueles que nos conquistam pela forma/desenho; e aqueles, mais raros, que nos conquistam por inteiro, em todas as vertentes.
Ginseng Roots, de Craig Thompson, publicado há dias pela
ASA, pertence inequivocamente a esta última categoria. Trata-se de uma obra profundamente pessoal, extremamente ambiciosa e generosa ao mesmo tempo, convidando o leitor a mergulhar não apenas na vida do autor, mas também num universo cultural vasto e inesperado.
Este é um livro em que o autor revisita a sua infância e juventude no interior dos Estados Unidos, especialmente no Wisconsin, onde cresceu numa família rural de origem humilde. A obra mistura memórias pessoais com investigação jornalística, diria, tendo como eixo central o cultivo do ginseng, essa planta medicinal valiosa que marcou profundamente a economia local e a vida da família de Craig Thompson. Craig e os seus dois irmãos, Phil e a sua irmã (cujo nome não é mencionado e que, curiosamente, nem sequer apareceu no longuíssimo livro autobiográfico Blankets), passavam o verão a trabalhar nos campos de cultivo de ginseng, arrancando ervas daninhas, apanhando pedras, enfim... fazendo um trabalho que era difícil, mas que permita a Craig e a Phil amealharem algum dinheiro, que depois passaram a investir na aquisição de revistas de banda desenhada. Naturalmente, ao longo do livro, Thompson explora como o trabalho árduo nos campos moldou a sua visão de mundo e a sua própria identidade.
O autor vai depois alternando entre o passado e o presente, refletindo sobre a sua relação com a família, bem como sobre os valores religiosos e culturais que o influenciaram. A narrativa revela tensões entre a infância de trabalho físico exigente e o desejo de seguir uma vida artística. Ao revisitar essas memórias, Thompson tenta reconciliar o jovem que foi com o adulto que se tornou, explorando sentimentos de culpa, gratidão e distanciamento.
Paralelamente, o livro expande-se para uma análise global do comércio do ginseng, mostrando como essa raiz conecta diferentes países, sobretudo os Estados Unidos e a China. Thompson investiga as cadeias de produção, os impactos económicos e sociais e até as histórias de exploração de trabalhadores. Assim, o relato pessoal ganha uma dimensão mais ampla, associando a experiência individual a questões de globalização, trabalho e intercâmbio cultural.
E é difícil dissociar Ginseng Roots da obra mais conceituada do autor, Blankets. Enquanto Habibi é uma obra completamente diferente de Blankets, Ginseng Roots, com todo o seu cariz autobiográfico, acaba quase por ser um "Blankets - Parte 2", mesmo tendo a questão do ginseng como tema de fundo. E essa parte de ser uma obra autobiográfica chega quase a ser ensaísta, já que Craig Thompson parece refletir sobre Blankets, mostrando a forma como os seus pais e os seus irmãos reagiram a esse livro, o sucesso que o mesmo lhe granjeou e como isso o deixou, consequentemente, num buraco criativo para outras obras, com menor sucesso, que veio a publicar posteriormente. Há aqui um diálogo íntimo com o passado, mas também uma tentativa honesta de compreender o impacto da criação artística no seio familiar. Esta auto-análise é aqui feita sem pudores, de forma corajosa. E isso, meus caros, não é algo que encontremos todos os dias em banda desenhada.
Se tantas temáticas juntas num só livro poderiam torná-lo numa “caldeirada” algo desconexa, Craig Thompson tem o condão de unir muito bem os pontos e, tal como as cerejas, muitas vezes damos connosco a ver um tema a ser trocado por outro de um modo espontâneo, sem que isso perca interesse. Pelo contrário, ganha mais interesse. Esta fluidez narrativa é uma das grandes forças da obra, permitindo uma leitura envolvente e naturalmente ritmada.
Este é um projeto enorme e impressionante nos seus intentos, que exigiu anos de muito trabalho por parte do autor, incluindo uma documentação muito grande, através de muitas entrevistas, estudos e até viagens à China ou à Coreia para melhor aprofundar o tema do ginseng. E esse esforço sente-se em cada página, tornando a leitura não só enriquecedora, como também profundamente informada.
O próprio título do livro é muito bem conseguido, pois tendo o assunto das raízes de ginseng como temática central, o verdadeiro feito do livro é a capacidade transparente do autor em mergulhar nas suas próprias raízes, recuando até à sua infância e às experiências vividas nesse tempo, para conseguir traçar um retrato, com um “porquê” e um “como”, da forma como se tornou no homem que é hoje.
Tendo essas duas vertentes - autobiográfica e da história do ginseng - como pontos centrais, o livro não se fica por aí, abordando outros assuntos interconexos como a história dos nativos americanos, as técnicas agrícolas, o marketing adjacente aos produtos agroalimentares, a geopolítica económica que daí chega e o próprio impacto cultural de tudo isto. Craig Thompson leva esta missão a cabo de um modo quase frenético, o que até pode ser extremo para alguns leitores, mas que reforça a densidade e a riqueza do conjunto.
Em termos visuais, esta é uma obra absolutamente fantástica! Com um estilo de desenho próximo daquilo que o autor nos deu nas suas obras mais conceituadas, aqui a variação, que funciona muito bem, acontece com o recurso às tonalidades vermelhas em cima do preto e branco. O resultado é simultaneamente elegante e expressivo, criando uma identidade visual muito própria.
O que sempre achei incrivelmente fantástico no desenho do autor é o detalhe que ele coloca em cada vinheta, por mais pequena que a mesma possa ser. Cada cenário, cada ambiente, cada cena, está repleta de pequenos pormenores que, juntos, contribuem para uma arte maior. Talvez seja (também) por isto que Craig Thompson tenha tantos admiradores - grupo no qual me incluo sem qualquer hesitação.
Qualquer que seja a cena retratada, um lamacento campo de cultivo, uma viagem de carro, uma cidade repleta de gente, uma paisagem árida, um templo chinês... o detalhe é impressionante.
Tal como impressionante também é o uso inteligente e muito original da planificação que o autor faz. Várias vezes, partes do cenário de uma vinheta fundem-se com outras vinhetas, fazendo com que cada página seja única e surpreendente. Parece nunca faltar inspiração à forma elegante, bela e singular como o autor pensa cada uma das páginas dos seus livros. E em Ginseng Roots isso é particularmente notável. É daqueles livros em que podemos (devemos?) perfeitamente utilizar vários minutos a observar cada uma das ilustrações e páginas, absorvendo cada traço e cada composição.
Se este tipo de trabalho fosse feito num livro de 48 páginas já seria algo impressionante. Agora, num livro com mais de 400 páginas, chega a revelar uma dedicação extrema do autor à sua arte. Cabe-nos a nós, leitores, desfrutar e aplaudir tal abnegação. É, sem dúvida, um livro lindo e profundamente marcante.
Se há algo de que me posso queixar - embora não seja uma queixa muito intensa - é que, por vezes, talvez o tema do ginseng seja um pouco explorado de forma intensiva pelo autor. Percebo o cuidado de Craig Thompson em nos dar um retrato tão fiel quanto possível - e isso é sempre bem-vindo - mas, a certa altura, achei que algumas coisas eram um pouco redundantes. Talvez o livro pudesse ser ainda melhor se tivesse algumas dezenas de páginas a menos ou caso uma ou outra entrevista tivesse sido deixada de fora. Ainda assim, nada disto belisca a grandiosidade da obra. Só a afasta, quanto a mim, de ser perfeita - mesmo que ande lá perto. Bem perto.
Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, com lombada arredondada, bom papel baço no interior, e um bom trabalho a nível de impressão, encadernação e acabamentos. Originalmente, a obra foi editada em 12 fascículos, sendo depois editada como um todo, num só volume. E é essa a opção editorial assumida pela ASA. A correta, claro. No final, o livro apresenta 10 páginas onde estão inseridas muitas notas do autor sobre diversas ilustrações ou factos que nos deu ao longo do livro, o que ainda aumenta o cariz enciclopédico da obra. Há ainda um curioso e raro agradecimento especial à ASA, e à equipa portuguesa, por parte de Craig Thompson. Devo dizer que esta não é uma obra fácil para editar, pois tem inúmeras legendas, inúmeras informações, tipos de letra diferentes, notas de rodapé e até algum texto a fazer parte da própria arte, pois é ilustrado pelo autor. Apesar dessa aparente dificuldade, há que dizer que o trabalho de edição da ASA neste livro está muito bem conseguido. Posso dizer-vos que, em mais de 400 páginas repletas de informação, não encontrei nenhum erro de sintaxe ou ortografia. Coisa que, infelizmente, vejo acontecer em obras mais "fáceis" de editar.
Em suma, tal como as raízes do ginseng crescem lentamente, escondidas sob a terra, alimentando-se do tempo e da paciência, também nós carregamos dentro de nós raízes invisíveis, como memórias, afetos, e experiências, que nos definem de forma silenciosa. Ginseng Roots é, acima de tudo, uma escavação dessas camadas profundas da identidade, um gesto de coragem e de pertença. Mais do que nos oferecer um bom livro - certamente um dos melhores do ano editorial português - Craig Thompson, oferece-nos um espelho onde podemos reconhecer as nossas próprias origens e, quem sabe, encontrar um sentido mais claro para o caminho que ainda temos pela frente. Porque, no fundo, todos procuramos compreender de onde vimos na esperança de melhor perceber para onde vamos.
NOTA FINAL (1/10):
9.9
-/-
Ginseng Roots
Autor: Craig Thompson
Editora: ASA
Páginas: 448, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 24,2 x 18 cm
Lançamento: Maio de 2026