quinta-feira, 9 de abril de 2020

Lançamento: Novos X-Men Vol. 1: E de Extinção



Tal como Criminal: Livro Dois, este X-Men Vol. 1: E de Extinção já esteve disponível em banca mas recebe agora, por parte da Editora G. Floy, como que um relançamento, através do envio das notas de imprensa e de imagens promocionais. A editora informa também que, nestes períodos conturbados e de confinamento social, tem boas campanhas promocionais para venda direta dos seus livros ao público. É de aproveitar, naturalmente.

Fiquem com a nota de imprensa e imagens:


Novos X-Men Vol. 1: E de Extinção, de Grant Morrison e Frank Quitely, Ethan Van Sciver, Igor Kordly e Leinil Francis Yu

Dezasseis milhões de mutantes mortos... e isso foi só o princípio!

O escritor Grant Morrison, uma das lendas dos comics modernos, mudou de maneira definitiva e arrojada a saga imensa dos X-Men com esta série que marcou para sempre a nossa visão dos mutantes da Marvel: Novos X-Men! Começando numa terrível conspiração e na destruição da ilha de Genosha, lar do homo superior, introduzindo mudanças como a substituição dos antigos fatos de licra por elegantes blusões de cabedal, e toda uma nova geração de mutantes muito diferentes, mas bem ancorados num grupo central forte, Novos X-Men é uma das mais imaginativas e épicas sagas de sempre de Grant Morrison.

É difícil exagerar o impacto que esta saga teve nos leitores da altura, e particularmente num período que se seguiu aos eventos traumáticos do 11 de Setembro, e como ela funcionou de maneira “evolutiva” para Morrison, levando-o a criticar os vários projectos utópicos que historicamente marcaram o seu pensamento e a reafirmar a sua convicção de que a solução para uma vida melhor reside nos indivíduos e na maneira como eles se conseguem relacionar de maneira positiva.

Alguns críticos viram em Novos X-Men uma continuação das reflexões que o autor tinha iniciado em The Invisibles, algo que o próprio reconhece. No seu Manifesto (publicado neste volume), Morrison afirma: “Esta história não é bem sobre super-heróis mas sobre um conflito evolucionário que existe entre o que é novo/bom e velho/mau. Os X-Men representam todos os rebeldes adolescentes que querem mudar o mundo e torná-lo melhor. E a humanidade são os adultos que se agarram ao passado e tentam destruir o futuro, apesar de colocarem nele todas as suas esperanças”. Os jovens são idealistas, românticos e rebeldes, desejosos de romper com tudo o que está errado no mundo, e a Revolução, quando chega, é uma ruptura terrível no tecido da história. Essa ruptura é reflectida no capítulo inicial de Novos-Men, que coloca em cena essa raça minoritária dotada de poderes tremendos, e que por causa desses mesmos poderes é temida e odiada pela maioria da população normal do mundo. Até o adjectivo Novos colocado á frente de X-Men implica que tudo o que veio antes é “velho”, e num só momento eles são “transformados de heróis que respondem de maneira passiva ao que os confronta, em agentes de uma revolução social e política, os arquitectos de uma utopia futura” (como diz Darragh Green em Here Comes Tomorrow: The Ethics of Utopianism in Grant Morrison's New X-Men).

São os nove capítulos iniciais desta imensa e popular saga dos mutantes da Marvel que durou 40 números - e que a G. Floy editará em 4 volumes - que os leitores podem agora redescobrir numa edição nova. Originalmente editada pela Devir de maneira incompleta, esta série junta-se a mais duas que editámos e que consideramos como marcos imperdíveis da história dos X-Men (Astonishing X-Men e Uncanny X- Force). Abram portanto o livro, e contemplem a cena inicial... trinta mil anos no passado, um grupo de homo sapiens massacra um grupo de neandertais, sob o olhar da misteriosa Cassandra Nova, uma nova personagem que irá colocar em movimento um enredo terrível...

Reúne os títulos New X-Men #114-121, o Annual 2000 e o célebre Manifesto de Grant Morrison para os X-Men.


Ficha técnica:
Novos X-Men Vol. 1: E de Extinção
Autores: Grant Morrison e Frank Quitely, Ethan Van Sciver, Igor Kordly e Leinil Francis Yu
Editora: G. Floy
Páginas: 248, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 25,00€

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Análise: Harley Quinn: Através do Espelho


Harley Quinn: Através do Espelho, de Mariko Tamaki e Steve Pugh


Harley Quinn: Através do Espelho, de Mariko Tamaki e Steve Pugh
Harley Quinn: Através do Espelho, de Mariko Tamaki e Steve Pugh

Tenho que admitir que depois do maravilhoso Finalmente o Verão, também de Mariko Tamaki, as minhas altas espetativas para este Harley Quinn: Através do Espelho ficaram bastantes defraudadas, deixando-me desiludido. Bem, na verdade, não posso dizer que este seja um mau livro. Há bastantes coisas interessantes nesta nova abordagem a Harley Quinn. No entanto, depois de ler Finalmente o Verão, publicado pela Planeta Tangerina e que, curiosamente, também se destina a um público mais jovem, a verdade é que este Harley Quinn fica alguns furos abaixo e tem alguns tropeços ao longo do seu próprio caminho.

Mas vamos por partes. 

Começando, desta vez, por abordar a arte em primeiro lugar, posso afirmar que o trabalho de Steve Pugh neste Harley Quinn: Através do Espelho é absolutamente impressionante, o que me leva a dizer que a sua escolha foi uma aposta totalmente ganha neste livro. O seu desenho elaborado, num traço realista, a preto e branco (embora numa escala de azuis) - e, por vezes, colorido com algumas cores fortes - é verdadeiramente impressionante. A sua técnica de ilustração é por demais elaborada e, sinceramente, não há um único defeito que eu lhe consiga apontar. Caracterização das expressões faciais e anatomia das personagens, noção de espaço, detalhe nos cenários interiores e exteriores, planificação de páginas, uso de enquadramentos diversificados, a inteligência e sensibilidade na utilização das cores, enfim... acho que Steve Pugh faz tudo excecionalmente bem, neste livro. Se fosse apenas pela arte, acho que este livro mereceria nota máxima. É bonito de olhar e de observar.

Harley Quinn: Através do Espelho, de Mariko Tamaki e Steve Pugh
Já Mariko Tamaki, faz um papel bastante convincente na criação da linguagem e do discurso de Harley Quinn. Ao longo do livro, a história é-nos narrada pela protagonista, na primeira pessoa, relatando os seus dilemas, as suas opiniões e, acima de tudo, permitindo-nos entrar dentro da sua mente e perceber como funciona o seu cérebro - por vezes demasiado infantil, por vezes demasiado ingénuo, por vezes cheio de boas intenções. E nisto, Tamaki faz um grande trabalho. A personagem de Harleen Quinzel é bem trabalhada pela autora e está verdadeiramente em linha com o que poderíamos esperar.

Onde as coisas não funcionam tão bem é na própria criação da história e em algumas personagens que habitam na órbita de Harley. E ainda que este seja um livro destinado a adolescentes que a DC lançou na sua linha DC Ink, o que pressupunha uma abordagem mais leve de toda a história, a narrativa acaba por ser uma mão cheia de nada.

A história remete-nos para uma Harley Quinn adolescente que acaba a viver com uma Drag Queen de Gotham City. Harley é ingénua e procura ferozmente por uma integração na sociedade que a envolve. Esta é uma premissa que sempre gostei na personagem de Harley. Ela, na verdade, está cheia de boas intenções mas, ao procurar fortemente a interligação com alguém ou algo, acaba por escolher (quase) sempre os maus caminhos. Até porque também é bastante influenciável. Isso já foi muito bem explorado em Harleen, de Stjepan Šejić, e aqui volta a ser bem explorado por Tamaki, embora de forma mais ligeira. O que se compreende, tendo em conta que é um livro destinado a adolescentes e jovens adultos.

Harley Quinn: Através do Espelho, de Mariko Tamaki e Steve Pugh
No liceu, Harleen Quinzel começa a relacionar-se com Ivy, uma adolescente afro-americana que tem já uma consciência social bastante desenvolvida e não se coíbe de fazer manifestações, sempre que há algo no liceu, ou na sociedade, que considera injusto ou castrador das classes trabalhadoras. Esta versão da Ivy ativista até é interessante, embora não tenha gostado tanto que o aspeto da personagem original tenha mudado de ruiva, de pele branca, para uma rapariga afro-americana. Logicamente, não digo isto por questões raciais porque esta Ivy até está brilhantemente desenhada por Steve Pugh (mas neste livro, tudo está brilhantemente desenhado, sublinhe-se!) e, por isso, tem um aspeto com bastante carisma e beleza. Contudo, não gosto que uma personagem de um universo com o qual os leitores já têm tanta ligação, veja as suas características físicas básicas, completamente alteradas. Se assim é, porque não fazer Harley Quinn, um asiática, obesa, de óculos de massa? Seria incongruente e estranho, não é? Lá está! É o que se passa com esta Ivy. Podemos simplesmente não a ligar a Poison Ivy - mas, nesse caso, porquê chamar-lhe Ivy e fazer a alusão ao respeito pelas plantas? Mas se a ideia da autora era que, efetivamente, ligássemos esta Ivy a Poison Ivy, devia ter havido mais cuidado para que a coerência não se perdesse. Digo eu.

Harley Quinn: Através do Espelho, de Mariko Tamaki e Steve Pugh
Mas Ivy nem é o principal problema neste livro. O principal problema é Joker. De todas e quaisquer formas. Em primeiro lugar, o conceito visual da personagem – embora, mais uma vez, bem desenhado por Steve Pugh – está completamente fora do sítio. Se, no recentemente publicado Harleen, também da Levoir, eu realcei algumas críticas a um Joker demasiado superficial no aspeto, nem sei o que diga sobre o Joker deste livro. Mesmo dando a benesse de, como as personagens são mais adolescentes, o Joker ser eventualmente adolescente também e, por esse motivo, não ter ainda a sua personalidade e aspeto desenvolvidos, o Joker que nos é dado neste Harley Quinn: Através do Espelho é bem capaz de ser a pior versão de Joker que já tive a oportunidade de ler. E a única ligação gráfica ao Joker que todos conhecemos será, por ventura, o cabelo verde, o fato roxo e as luvas brancas. Porque neste livro, a sua cara é toda ela coberta por um trapo branco, com um nó na nuca, com um sorriso desenhado em papel e aparentemente colado à cara e uns óculos de sol(!), estilo rayban. Não é assustador, não tem um estilo cool... é apenas piroso, ridículo e demasiado mau para ser verdade. No topo da cabeça, há ainda espaço para um cabelo verde à Justin Bieber sobressair. Muito mau. E há mais, o próprio livro mostra-nos a verdadeira identidade deste Joker mascarado e é uma revelação que pouco ou nada teria a ver com o Joker que todos conhecemos. “Ah, mas isto é uma realidade paralela”, dir-me-ão alguns. Pois mas, mesmo sendo uma realidade paralela, ou alternativa, deve ser mantida uma linha de coerência entre as identidades (físicas e mentais) das personagens que todos nós conhecemos. Pelo menos, na minha opinião. Com Harley Quinn isto até foi bem conseguido. Mas com as outras personagens, especialmente Joker e Ivy, as liberdades criativas que foram tomadas, simplesmente não correram bem. Destaque para o aparecimento de Batman, ainda como Bruce Wayne, que é introduzido de forma tímida mas interessante.

Harley Quinn: Através do Espelho, de Mariko Tamaki e Steve Pugh
A restante história parece-me algo desinspirada e cliché também. Temos a comunidade queer à volta de Harley Quinn que acaba por nos dar algumas personagens simpáticas mas que não contribuem assim tanto para a profundidade da história. Temos a luta pelos direitos femininos de Ivy, que, embora pertinente, me pareceu demasiado ligeira e afastada dos reais problemas que afetam as mulheres na sociedade. E temos uma empresa ultra-capitalista que está a controlar a cidade. Tudo muito cliché, repito.

A arte é “fantabulástica”, como diria Harley Quinn. Curioso é verificar que a razão que inicialmente prendeu o meu interesse neste livro foi Tamaki mas acabou por ser Pugh que me deixou verdadeiramente satisfeito. Ser um livro para jovens adultos não justifica um certo desrespeito pelo aspeto original de personagens míticas e uma narrativa desinspirada. A própria Mariko Tamaki já o provou no fantástico Finalmente o Verão que, mesmo sendo igualmente direcionado para jovens, tem uma força e uma profundidade narrativas impressionantes.

Em conclusão, as ilustrações são maravilhosas. A história e a narrativa é mediana. É um daqueles casos em que a fantástica arte visual, salva o livro.

NOTA FINAL (1/10):
7.5

-/-

Ficha Técnica
Harley Quinn: Através do Espelho
Autores: Mariko Tamaki e Steve Pugh
Editora: Levoir
Páginas: 200, a cores
Encadernação: Capa dura

Lançamento: Os Cavaleiros de Heliópolis: Rubedo e Citrinitas - 2º Álbum Duplo



Analisando o que de melhor aconteceu à banda desenhada em 2019, o Vinheta 2020, considerou o primeiro volume de Os Cavaleiros de Heliópolis (Nigredo e Albedo) como o 3º melhor álbum do ano 2019 lançado em Portugal.

Agora, é com bastante satisfação e respeito da nossa parte, que observamos a Arte de Autor a lançar mais um álbum duplo, constituído pelos números Rubedo e Citrinitas, os episódios 3 e 4 desta saga, que fica assim integralmente publicada em português.

Este trabalho de Jodorowsky e Jérémy é altamente recomendado.

Fiquem com a nota de imprensa e com as imagens já disponibilizadas pela editora.

Os Cavaleiros de Heliópolis: Rubedo e Citrinitas, de Jodorowsky e Jérémy
O destino de Luís XVII, que morreu aos 10 anos nas masmorras da prisão do Templo, é, com o Homem da Máscara de Ferro, um dos maiores mitos da História de França. Um destino romanesco que o genial Jodorowsky rescreveu com galhardia numa grandiosa fábula iniciática e esotérica. O traço virtuoso de Jeremy dá a Os Cavaleiros de Heliópolis a força de um fresco épico, onde se cruzam os segredos da alquimia e os arcanos da História.

III – RUBEDO – A OBRA AO VERMELHO
Não o deixaram tornar-se rei de França

Diante de Napoleão, Asiamar não conseguiu decidir-se a realizar a sua missão até ao fim. Embora pudesse ter mudado o curso da história com um golpe de espada, mostrou-se excessivamente bondoso. Preferiu deixar que a parte feminina da sua dupla identidade se exprimisse e beijou o Imperador. Hoje, por causa desse fracasso, comparece diante dos Cavaleiros de Heliópolis. Porque, para cumprir o seu destino, um verdadeiro Alquimista deve também saber mostrar-se cruel. Aprender a domar essa crueldade, é a essência mesma de Rubedo, a obra ao vermelho, a terceira prova alquímica. Talvez a mais difícil de todas. Será Asiamar capaz de a superar?

IV – CITRINITAS – A OBRA AO AMARELO
A alquimia reserva-lhe um destino mais grandioso.

1888. No refúgio dos Cavaleiros de Heliópolis, Asiamar prepara-se, aos cento e dez anos de idade, para levar a cabo o último ritual da sua iniciação, Citrinitas, a obra ao amarelo, que lhe permitirá reencontrar a juventude e viver por mil anos. É agora tempo de conhecer também o segredo dos Cavaleiros, guardado pelo seu mestre. Porque este precisa do poder de todos seus discípulos para salvar a humanidade. Mas, antes disso, encarrega Asiamar de uma missão: enfrentar a última grande ameaça à sua ordem. Um mutante assassino de mulheres que assola as noites enevoadas de Londres, a capital do mundo moderno: Jack, o Estripador!


Ficha técnica:
Os Cavaleiros de Heliópolis: Rubedo e Citrinitas
Autores: Jodorowsky e Jérémy
Editora: Arte de Autor
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 24,50€

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Análise: Filhos do Rato, de Luís Zhang e Fábio Veras



Filhos do Rato, de Luís Zhang e Fábio Veras

Nos últimos anos têm sido vários os álbuns de banda desenhada portuguesa que nos levam a cenários africanos. Congo, dos irmãos Duarte e Henrique Gandum, leva-nos às selvas luxuriantes do Congo que são habitadas por criaturas pré-históricas, enquanto que Vampiros, de Filipe Melo e Juan Cavia, nos levam até à Guiné, ao tempo da Guerra Colonial. À semelhança deste último, os Filhos do Rato, de Luís Zhang e Fábio Veras, remete-nos igualmente para a Guiné, para o período do agressivo conflito militar entre portugueses e forças guineenses que lutavam pela sua independência.

Considero natural e positivo que os autores portugueses de banda desenhada escolham como pano de fundo, os cenários africanos devido à presença - e influência - que Portugal teve nas suas antigas colónias e a todos os condicionalismos culturais que daí advieram. Não só para as colónias que eram controladas por Portugal, como também para a própria cultura portuguesa. Fazendo uma pequena nota pessoal, o meu pai serviu na Guiné durante este período conturbado e tenho, logicamente, uma ligação – pelo menos emotiva – a este tempo e a este lugar. Mais que não seja, pelas histórias que o meu pai sempre me contou. Por esse motivo, é ainda com mais prazer que vejo a guerra colonial em Guiné a ser retratada em vez do conflito em Angola ou Moçambique. Nada contra um potencial livro que foque os acontecimentos nesses dois países pois, como é bem sabido, qualquer um dos três cenários foi de uma extrema relevância, não só para Portugal, mas também – e principalmente – para os países africanos em questão. Mas a verdade é que sempre que se fala na Guerra Colonial, depressa se fala sobre Angola, muitas vezes descurando Guiné e Moçambique. O meu pai sempre me passou muitas informações sobre o que, de facto, se passou na Guiné durante este tempo. Dizia ele, que nem sempre os media portugueses davam a devida e real cobertura aos acontecimentos que tinham ocorrido nestes anos nefastos de conflito militar. É que, de facto, foi na Guiné que a guerra do Ultramar foi mais sangrenta e violenta.

Ora, ver um livro a retratar este tema é-me sempre bem-vindo. E este Filhos do Rato, de Luís Zhang e Fábio Veras, revela-se um livro interessante e pertinente, que merece ser aplaudido, pela iniciativa. Editado pela G.Floy e pela Comic Heart no início de 2019, esta é uma obra que vale a pena conhecer.

A sua história leva-nos até à Guiné, ao ano de 1973, já bem perto da aurora do 25 de Abril, e vai-nos mostrando episódios que antecederam a Revolução dos Cravos e episódios que já aconteceram depois do fim da guerra, com as claras repercussões do conflito militar, especialmente – mas não só – ao nível do foro psicológico.

O protagonista é Baldé, um soldado guineense que luta ao lado das forças militares portuguesas. Mas, não era caso único. No final deste livro, há uma página que oferece aos leitores um breve contexto histórico (e que é muito bem-vindo, diga-se), que explica bem como existiram cerca de 27.000 soldados guineenses como Baldé. Estes soldados estavam numa situação muito delicada porque eram considerados traidores pelos seus compatriotas e, também junto do exérctio português, eram muitas vezes mal aceites e colocados de parte – embora Filhos do Rato até nos mostre que Baldé é respeitado e, pelo menos, ouvido, por alguns dos seus companheiros de armas portugueses.

Para além desses episódios do dia a dia das tropas portuguesas e de Baldé, há depois uma vertente mais de terror de psicológico, marcada de momentos simbólicos, que nos parece revelar os traumas que subsistem na cabeça dos soldados, já depois da guerra terminar. E embora estes momentos sejam graficamente interessantes, parecem ficar algo perdidos na narrativa. Acabam por ser momentos algo latos que talvez merecessem ter sido mais bem delineados em termos de argumento. Parece que o fio condutor da história podia ser mais claro e fluído.
No entanto, também se deve referir que algum texto que nos é dado por Luís Zhang, tem um cariz profundo e até poético, por vezes, que merece ser reconhecido.
Mas é na narrativa algo retalhada, que a história por vezes podia ter sido mais bem delineada.

Fábio Veras que tem dado nas vistas nos últimos dois anos, por vencer vários prémios de banda desenhada em Portugal e depois do seu interessante trabalho em Jardim dos Espectros, assume-se aqui como uma verdadeira promessa da banda desenhada portuguesa. O seu estilo parece ainda não estar muito definido o que, se por um lado pode relevar alguma inconsistência ao longo deste livro, também é verdade que permite abrir o leque de todas as suas capacidades enquanto ilustrador. Parece um daqueles jogadores de futebol que, sendo muito jovem e já revelando talento, é uma promessa para muita gente. Ainda não chegou aonde pode chegar, mas tem um enorme potencial para lá chegar. Assim é Fábio Veras. Em Filhos do Rato, o seu estilo é pois bastante diverso, com várias vinhetas a serem verdadeiramente impressionantes mas com outras a parecerem ter sido rabiscadas em 3 minutos. Nada contra as vinhetas que parecem ser feitas mais à pressa e com menos detalhe. Até pode ser esse o estilo de determinado autor. Mas quando isso é feito amiúde, em alternância a outras ilustrações com mais detalhe e mais bem produzidas, gera-se uma certa incoerência indesejada. Simplesmente, enquanto leitor, isso tira-me alguma da imersão que seria expectável numa narrativa como esta. Mas também é verdade que, Fábio Veras nos dá outras vinhetas super estilizadas, com uma arte profunda. O livro é quase sempre a preto e branco mas também existem páginas com cores vivas para demarcar certos acontecimentos na ação.

Fora a diversidade ilustrativa, o estilo de Fábio é bastante “sujo”, com as páginas cheias de pormenores rabiscados. Isto torna as páginas algo pesadas de acompanhar, pois há muita informação negativa que cria alguma entropia para o leitor. Importa, no entanto, referir que a planificação das páginas é um dos trunfos deste livro. Temos muita dinâmica, com tantas páginas a serem projetadas com vinhetas de todas as formas e feitios. Isso é bem-vindo em Filhos do Rato. Nas cenas de ação, porém, nem sempre tudo é perceptível. Por vezes o leitor tem dificuldade em perceber o que se está a passar, quem está a fazer o quê a quem. Isso advém do tal traço sujo, de ilustração algo difusa que, naturalmente, torna a leitura difusa.

Este é um livro interessante, que revela um bom esforço. No final, parece que podia ter ido mais longe, especialmente em termos narrativos, e que a arte de Fábio Veras, embora muito promissora, nem sempre consegue obter a unidade que se pretende. Não obstante, é um livro que merece ser conhecido pelos leitores portugueses de banda desenhada.

Fica a curiosidade no ar, pelos próximos trabalhos que esta dupla criativa poderá produzir.


NOTA FINAL (1/10):
6.8


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Ficha Técnica
Filhos do Rato
Autores: Luís Zhang e Fábio Veras
Editora: G. Floy e Comic Heart
Páginas: 88, a cores
Encadernação: Capa Dura