segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Análise: A Solidão do Ser

A Solidão do Ser, de Helena Sá - A Seita e Turbina

A Solidão do Ser, de Helena Sá - A Seita e Turbina
A Solidão do Ser, de Helena Sá

Foi de um modo algo surpreendente que tomei conhecimento que, em primeiro lugar, havia o Prémio Revelação Maia BD - iniciativa que, pela sua relevância e potencial, aplaudo - e que, em segundo lugar, a edição de 2026 tinha sido ganha pela autora Helena Sá, que se estreou no universo da banda desenhada com este A Solidão do Ser, que hoje vos trago.

Esta é uma obra pequena na extensão, com menos de 40 páginas de BD, mas surpreendentemente vasta pela quantidade de coisas em que nos deixa a pensar. Não existe aqui uma história complexa, nem grandes acontecimentos, nem sequer uma preocupação em construir uma progressão dramática convencional, mas o que encontramos é, por sua vez, uma reflexão ilustrada sobre a condição humana, sobre o modo como (co)existimos e sobre a forma como, tantas vezes, atravessamos os dias sem verdadeiramente os habitar.

Helena Sá apresenta-se aos leitores de uma forma algo silenciosa e tímida, mas ao mesmo tempo demonstrando segurança. Quer no texto, quer nas ilustrações. Há aqui uma delicadeza evidente, mas também uma convicção muito clara acerca daquilo que se pretende comunicar, sem que seja necessário à autora levantar a sua "voz para se fazer ouvir". Ao invés, a autora aparenta preferir sussurrar com os leitores. E é precisamente por isso que a sua mensagem acaba por permanecer connosco durante mais tempo.

A Solidão do Ser, de Helena Sá - A Seita e Turbina
A Solidão do Ser
 traz-nos alguns avisos, algumas chamadas de atenção. Numa vida em que somos corpos fechados dentro de ilhas que pouco ou nada interagem com os outros - com as outras "ilhas" - este é um livro que traz consigo um alerta sobre o significado do ser, do querer e do estar. Ao longo das páginas, Helena Sá convida-nos a observar os espaços que ocupamos, as rotinas que repetimos e os vazios que muitas vezes transportamos sem deles termos plena consciência. É uma obra que fala da vida contemporânea sem nunca precisar de nomear diretamente os seus males. E é natural que todos nós, sejamos um(a) jovem de 16 anos ou um(a) idoso(a) de 86 anos, consigamos encontrar no protagonista deste livro mais pontos de contacto do que aquilo que gostaríamos de admitir.

Existe aqui uma reflexão muito pertinente sobre a forma como vivemos os nossos dias. Sobre a velocidade com que atravessamos o quotidiano, sobre a tendência para habitar mais os pensamentos do que os lugares físicos e sobre a dificuldade crescente em estarmos verdadeiramente presentes e conectados. É um livro que nos recorda que a existência não se resume ao simples ato de passar pelo tempo.

Ao mesmo tempo, a autora parece sugerir que precisamos desesperadamente de cor nas nossas vidas cinzentas. E não apenas enquanto elemento visual - embora o mesmo seja elaborado de forma bem sucedida -, mas como metáfora para tudo aquilo que confere significado à vida: a emoção, a ligação aos outros, a criatividade, a capacidade de sonhar e de encontrar beleza nos pequenos momentos.

Uma das características que importa mencionar é a rara economia no texto que existe neste A Solidão do Ser, em que as frases surgem simples, diretas e despojadas de grandes artifícios. Contudo, por detrás dessa simplicidade existe uma notável inteligência emocional. São frases que parecem leves no momento da leitura, mas que regressam mais tarde à memória, obrigando-nos a revisitá-las.

A Solidão do Ser, de Helena Sá - A Seita e Turbina
É verdade que, por vezes, senti que o texto, mesmo sendo inspirado e, como diriam os ingleses spot on, me pareceu algo curto, ou que as ideias nele presentes poderiam ser mais (bem) desenvolvidas. Mas isso não belisca em nada a ideia e conceito presente na narrativa. Além disso, Helena Sá demonstra que não são necessárias muitas palavras para transmitir pensamentos profundos.

Aliás, para uma autora na fase inicial do seu percurso na banda desenhada, a maturidade revelada neste livro é assinalável. Existe uma consciência muito clara do impacto que cada palavra pode ter e uma capacidade invulgar para condensar emoções complexas em poucas linhas. 

Visualmente, o livro é igualmente muito interessante. O traço da autora revela elegância, sensibilidade e personalidade própria. Existe uma fluidez muito agradável no desenho, acompanhada por uma simplicidade gráfica que nunca resvala para a pobreza visual. Pelo contrário, tudo parece cuidadosamente pensado para servir a mensagem da obra.

O jogo cromático entre os tons de cinzento, preto e branco e a presença pontual do amarelo constitui mais um dos elementos bem conseguidos do livro. Essa utilização seletiva da cor funciona quase como uma linguagem paralela à do texto, ajudando, tal como já referi, a reforçar emoções, ideias e o estado de espírito do protagonista. O amarelo surge como uma espécie de brecha luminosa no interior de um mundo frequentemente dominado pela monotonia e pela introspeção.

A Solidão do Ser, de Helena Sá - A Seita e Turbina
Também as soluções de planificação demonstram criatividade e confiança. Helena Sá não se limita a repetir a mesma estrutura de página ao longo do livro. Na verdade, até experimenta diferentes composições visuais e diferentes formas de organizar a informação gráfica. Como resultado, encontramos várias pranchas muito bem conseguidas e memoráveis.

Também em termos de edição, o trabalho conjunto das editoras A Seita e Turbina revela-se singular. O livro apresenta uma espessa capa dura (mesmo em sólido cartão) e a lombada está nua, revelando as próprias costuras entre os vários cadernos que compõem o livro. Não é uma opção muito frequente em banda desenhada editada em Portugal - assim, de cabeça, apenas me lembro da editora Levoir ter apostado nesta opção com o seu livro A Ilha - e, só por isso, revela-se uma escolha bem-vinda. Mesmo sem me considerar um "fanático das lombadas" confesso que me faz confusão que não haja qualquer informação na lombada. Não por uma questão de "ficar bem na estante", mas por uma questão de informação. Para aqueles que, como eu, têm muita banda desenhada, um livro sem texto na lombada pode ser menos relembrado se não se fizer notar pelo título na lombada. Mas, enfim, isto é uma opinião muito pessoal que não põe em causa minimamente o trabalho diferenciado e bem conseguido da edição deste A Solidão do Ser.

Além disto, no miolo, o livro apresenta bom papel baço, boa encadernação, boa impressão e um breve caderno de extras onde podemos ter acesso a estudos de personagem, estudos de página e uma breve biografia da autora.

Em suma, e depois de se ler A Solidão do Ser, torna-se fácil compreender o porquê de Helena Sá já ter recebido um prémio de banda desenhada com este livro. Eis uma obra que impressiona especialmente pela honestidade, pela sensibilidade e pela inteligência com que aborda temas universais. É um livro pequeno, discreto e profundamente humano. Daqueles que não procuram impressionar o leitor à força, mas que acabam por permanecer na memória precisamente pela serenidade com que nos convidam a olhar para nós próprios. Aliás, é bem possível que, pelo menos dentro da categoria de Prémio Revelação, sejam vários os prémios que a obra venha a arrecadar durante este e o próximo ano.


NOTA FINAL (1/10):
8.5



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A Solidão do Ser, de Helena Sá - A Seita e Turbina

Ficha técnica
A Solidão do Ser
Autora: Helena Sá
Editoras: A Seita e Turbina
Páginas: 56, a preto e branco (com algumas cores)
Encadernação: Capa dura em cartão com lombada cozida
Formato: 171 x 240 mm
Lançamento: Maio de 2026

Análise: Venom - Preto, Branco & Sangue

Venom - Preto, Branco & Sangue, de Vários Autores - G. Floy Studio

Venom - Preto, Branco & Sangue, de Vários Autores - G. Floy Studio
Venom - Preto, Branco & Sangue, de Vários Autores

Foi no mês passado que a editora G. Floy Studio lançou o seu primeiro(!) e único livro neste ano de 2026, o que é clara prova da cada vez maior inatividade da editora em Portugal. Isso deixa-me especialmente triste, pois a editora tem um conjunto extremamente relevante de belas obras que foi lançando por cá, tornando-se uma referência editorial. Como tal, a sua inatividade não pode ser uma boa notícia para os amantes de BD. Faço, por isso, votos para que esta seja apenas uma fase da editora e que a mesma possa regressar em grande. A ver vamos...

A obra em questão é o novo volume da série Preto, Branco & Sangue que desta vez é dedicado à personagem de Venom. Esta é, aliás, uma série que, aquando do seu aparecimento, parecia trazer uma lufada de ar fresco ao universo dos super-heróis. A ideia era simples, mas eficaz: reunir vários autores em histórias curtas, restritas a uma paleta cromática assente no preto, branco e vermelho, e permitindo abordagens mais livres, experimentais e visualmente marcantes. Numa fase inicial, especialmente com os dois primeiros livros dedicados a Wolverine e a Carnificina, esta fórmula revelou-se, quanto a mim, bastante apelativa. Contudo, à medida que os volumes se vão multiplicando - e já são oito, no total - começa também a tornar-se evidente que a novidade e a frescura do conceito já não detém o mesmo impacto. Parece uma premissa bastante "reciclada".

Venom - Preto, Branco & Sangue, de Vários Autores - G. Floy Studio
Neste volume dedicado a Venom, encontramos um conjunto de histórias independentes protagonizadas pelo simbionte mais popular da Marvel. Tal como acontece nos restantes títulos da coleção, o livro aposta numa estrutura antológica, reunindo diferentes equipas criativas que exploram facetas distintas da personagem em 12 histórias curtas. O resultado é inevitavelmente desigual - como é habitual em antologias - mas também suficientemente diversificado entre si.

Um dos principais méritos do livro reside precisamente nessa liberdade criativa, pois permite que, aqui e ali, possamos ser surpreendidos. Quer em termos narrativos, quer em termos visuais. Ao não estarem condicionados pela continuidade regular das séries mensais, os autores podem experimentar conceitos mais invulgares, explorarando cenários alternativos ou simplesmente contando pequenas histórias autocontidas sem grandes consequências para o universo Marvel. Essa liberdade narrativa acaba por favorecer algumas das melhores histórias do volume, como Doce Será a Flor, de Ryan North, Creees Lee e Andres Mossa; Relação Tóxica, de Carl Pott e Damian Couceiro; ou Luzinha, de Chris Bachalo e Jaime Mendoza. O conjunto de autores que participam nesta antologia volta a ser constituído por alguns autores menos conhecidos e outros de maior renome, como, por exemplo, J.M. DeMatteis, Al Ewing ou Erik Larsen.

Venom - Preto, Branco & Sangue, de Vários Autores - G. Floy Studio
Ainda assim, também é verdade que essa estrutura mais livres gera inevitavelmente oscilações de qualidade. É verdade que algumas histórias revelam ideias interessantes e conseguem explorar eficazmente o lado monstruoso, violento e até trágico de Venom, mas outras, pelo contrário, parecem exercícios relativamente superficiais, baseados mais numa premissa visual forte do que numa verdadeira substância narrativa.

Sim, porque em termos visuais, este volta a ser um livro muito bem executado, tal como os outros da série. Vê-se que cada ilustrador se aplicou bastante na feitura da sua história. Talvez por esse motivo, já por mim mencionado, do formato curto lhes permitir arriscar em soluções que dificilmente encontrariam espaço numa série regular de longa duração.

Mesmo assim, a fragilidade deste livro, tal como dos mais recentes desta série, é que nem mesmo a excelência gráfica consegue esconder totalmente a sensação de repetição que começa a afetar esta linha editorial. E aquilo que inicialmente parecia um laboratório criativo cheio de potencial tem-se transformado, em certa medida, numa fórmula reconhecível e até algo previsível.

Quanto à edição da G. Floy Studio, a mesma mantém-se irrepreensível. O livro apresenta capa dura baça, bom papel brilhante no interior, boa encadernação e boa impressão. No final, há ainda um conjunto de 14 capas alternativas, todas elas muito impressionantes do ponto de vista do desenho e do conceito gráfico.

Em suma, Venom - Preto, Branco e Sangue permanece uma leitura competente e globalmente satisfatória. Tem algumas histórias interessantes, alguns momentos visuais impressionantes e demonstrações cativantes da versatilidade da personagem. Contudo, este livro também reforça a ideia de que esta coleção começa a evidenciar um certo desgaste conceptual. Continua a ser uma boa plataforma para experimentações narrativas e gráficas, sim, mas o efeito de novidade dissipou-se há alguns volumes atrás. 


NOTA FINAL (1/10):
7.0



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Venom - Preto, Branco & Sangue, de Vários Autores - G. Floy Studio

Ficha técnica
Venom - Preto, Branco & Sangue
Autores: Vários
Editora: G. Floy Studio
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Julho de 2026

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Análise: As Águias de Roma – Livro VIII

As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini - ASA - LeYa

As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini - ASA - LeYa
As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini

Foi há poucos meses que a ASA editou o oitavo volume da série As Águias de Roma, de Enrico Marini. Esta série, relembro, esteve algo esquecida pela editora durante alguns anos, mas desde o sexto volume que tem vindo a ser publicada assiduamente, encontrando-se agora a par da edição original francesa, que conta com os mesmos oito tomos. Espera-se um novo volume, em França, já para o próximo mês de Outubro e espero que a ASA acompanhe esse lançamento internacional.

Sendo As Águias de Roma uma série da qual eu gosto muito, admito que os últimos tomos têm ficado um pouco aquém dos primeiros números da série. É que depois de um arranque absolutamente brilhante e de vários volumes que colocaram esta obra entre as mais marcantes séries históricas da banda desenhada europeia contemporânea - e esta é uma opinião partilhada por muitos -, a sensação que se vai instalando progressivamente é a de que Marini procura prolongar uma história que, embora continue interessante, já não possui o fulgor narrativo dos primeiros tomos. 

Ainda assim, seria injusto afirmar que este oitavo volume representa uma queda abrupta de qualidade. O que encontramos é antes uma continuação de uma tendência que já se fazia sentir nos volumes VI e VII: uma narrativa mais lenta, mais fragmentada e menos impactante do que outrora. Existe qualidade suficiente para manter o interesse do leitor, mas não necessariamente para provocar aquele entusiasmo imediato que outrora fazia cada novo volume parecer indispensável.

As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini - ASA - LeYa
O enredo prossegue o complexo conflito entre Roma e as tribos germânicas, mantendo como eixo central a relação entre Marco e Armínio. Os dois irmãos de criação continuam presos a lealdades opostas e a visões irreconciliáveis do mundo. O confronto militar e político aproxima-se cada vez mais, ao mesmo tempo que o autor continua a explorar as consequências pessoais e emocionais das escolhas feitas por ambos ao longo dos anos.

A lealdade, a traição, a ambição política, o peso do destino e o choque entre civilizações continuam a dominar as páginas deste Livro VIII. Marini sempre foi particularmente eficaz a trabalhar estes conflitos morais e culturais, e continua a demonstrar uma enorme facilidade em retratar personagens que vivem permanentemente divididas entre os seus afetos e as suas obrigações.

Contudo, também se torna cada vez mais evidente que a narrativa perdeu alguma da urgência que caracterizava os primeiros tomos. Há momentos em que o leitor sente que a história avança apenas alguns passos, apesar do número significativo de páginas. Bem sei que muitas cenas funcionam como uma preparação para acontecimentos futuros, mas também é verdade que essa sensação de expectativa já se arrasta há vários (demasiados?) volumes. 

Não se trata necessariamente de um problema grave. Existem séries que sabem transformar esta acumulação de tensão numa poderosa recompensa final. Talvez isso possa vir acontecer em As Águias de Roma. No entanto, neste momento da obra, já não consigo evitar a sensação de que Marini está a esticar deliberadamente determinadas situações, retardando desenvolvimentos que talvez devessem ocorrer de forma mais célere.

As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini - ASA - LeYa
Ainda assim, o autor continua a revelar uma invejável capacidade para construir ambientes e relações humanas. A ambiguidade moral mantém-se como uma das maiores virtudes da série. Aqui não há verdadeiros heróis nem verdadeiros vilões. As personagens movem-se numa "zona cinzenta" onde as motivações pessoais, os interesses políticos e as convicções ideológicas se misturam de forma extremamente convincente. E essa complexidade continua a ser um dos grandes fatores de atração da série. Tão depressa compreendemos as razões de Armínio como acabamos por nos encontrar do lado de Marco. Marini evita constantemente julgamentos simplistas, apresentando indivíduos profundamente humanos, cheios de contradições e fragilidades.

Se o argumento revela algum desgaste, o trabalho gráfico continua a ser um dos grandes trunfos da série. Marini permanece um desenhador extraordinário. Poucos autores conseguem representar a Roma Antiga com tamanho sentido de monumentalidade e elegância visual. Os cenários continuam ricos, os enquadramentos cinematográficos e a composição de página exemplar.

As personagens mantêm uma presença impressionante. Os rostos, os gestos e as expressões comunicam emoções com enorme eficácia. As cenas de intimidade continuam a surgir desenhadas com a sensualidade característica do autor, enquanto os momentos de violência são retratados com uma intensidade física muito convincente.

As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini - ASA - LeYa
No entanto, também aqui começam a surgir algumas limitações que já eram visíveis nos volumes VI e VII. Existem vinhetas que parecem menos trabalhadas do que aquelas que encontrávamos nos primeiros tomos da série. O traço continua bonito, reconhecível e extremamente agradável de observar, mas por vezes transmite a sensação de ter sido executado de forma mais apressada. E isso nota-se particularmente nos cenários e nas personagens mais secundárias - ou que aparecem em segundo plano. 

Por outro lado, a cor permanece um dos elementos mais fortes da obra. As tonalidades quentes dos ambientes mediterrânicos, os contrastes entre os espaços urbanos romanos e os cenários mais agrestes da Germânia e o cuidado atmosférico de cada sequência continuam a conferir uma enorme riqueza visual ao conjunto. E esta questão das cores é especialmente importante, pois mesmo quando algumas ilustrações parecem menos refinadas, a coloração ajuda a preservar a beleza global da obra.

Em termos de edição, o livro apresenta as mesmas características dos anteriores volumes: capa dura brilhante, bom papel brilhante, boa encadernação e boa impressão. A edição francesa da obra tinha duas opções de capa: uma com Armínio e outra com Marco, deixando os leitores escolherem a sua capa preferida - ou desafiando alguns indecisos ou colecionadores a comprarem as duas. No caso português, a ASA optou por editar a obra apenas com a capa em que aparece Armínio.

Em jeito de conclusão, As Águias de Roma - Livro VIII confirma uma impressão que se vem consolidando nos últimos anos: a série continua muito boa, mas já não tão extraordinária como foi. O encanto permanece, as personagens continuam envolventes e o grafismo mantém-se claramente acima da média. Contudo, o ritmo narrativo perdeu alguma força e o desenho, embora ainda magnífico, parece por vezes menos aprimorado do que outrora. É um álbum que continua a proporcionar uma leitura bastante satisfatória, mas que reforça a ideia de que a série atravessa uma fase ligeiramente descendente. Felizmente, mesmo um Marini abaixo da sua melhor forma continua a ser melhor do que a esmagadora maioria da produção contemporânea de banda desenhada histórica.


NOTA FINAL (1/10):
8.6



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As Águias de Roma – Livro VIII, de Enrico Marini - ASA - LeYa

Ficha técnica
As Águias de Roma - Livro VIII
Autor: Enrico Marini
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 31,6 x 23,8 cms
Lançamento: Abril de 2026

Análise: Dylan Dog - Morte em 16 por 9

Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita

Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita
Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi

Por ocasião do 40º aniversário de Dylan Dog, uma das mais famosas e idolatradas séries dos fumetti da Bonelli, A Seita editou recentemente, numa edição especial, a obra Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi! E que bela obra é esta que entra diretamente para os meus livros favoritos da popular personagem italiana!

Dos mesmos autores, a editora portuguesa já por cá editou, relembro, Dylan Dog - Batman: A Sombra do Morcego e Dylan Dog / Dampyr - O Detective e o Caçador, ambos com argumento de Roberto Recchioni; e Dylan Dog - Trevas Profundas e Apocalipse: O Livro da Revelação de São João, estes dois últimos com ilustrações de Corrado Roi.

Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita
Se Dylan Dog já é uma série que eu muito aprecio, tenho que vos dizer que este Morte em 16 por 9 me encheu as medidas, pois mais do que ser uma simples aventura do Investigador do Pesadelo, aqui estamos perante uma experiência profundamente sensorial, construída a partir de imagens, silêncios, olhares e emoções contraditórias e sensuais que se vão infiltrando lentamente no leitor. É uma banda desenhada que parece respirar cinema em cada vinheta e que nos envolve numa atmosfera simultaneamente sedutora, inquietante e melancólica.

A história começa com o desaparecimento de um restaurador de arte, namorado de Mina, que leva esta a pedir ajuda a Dylan Dog para investigar o caso. A partir desse ponto, a investigação conduz o detetive até à bela Lucille e ao misterioso quadro que domina toda a narrativa. E rapidamente somos transportados para uma viagem carregada de obsessões, desejos proibidos e muito sexo. Sim, de todos os livros que me lembro de ter ligo de Dylan Dog - e já foram alguns - não me lembro de uma história em que os momentos de sensualidade - por vezes, extrema, no bom sentido da palavra - fossem tantos. Das várias cenas de sexo com três e quatro pessoas, bissexualidade, bondage e dominação, Dylan Dog passa para um estado de êxtase tal, que permite à história arrastar-nos para o seu lado mais obscuro e retorcido. Um lado mais onírico e mais do âmbito do fantástico.

Mas mesmo havendo uma generosa e intensa sensualidade neste livro, também há um certo requinte na forma como a mesma nos é dada, fazendo com que, mesmo sendo uma obra para um público adulto, nunca se ultrapasse a linha da vulgaridade. Pelo menos, claro, para os meus standards que são bastante tolerantes neste tipo de questões. Não há gratuitidade nem provocação barata. Pelo contrário, tudo é enquadrado numa atmosfera de fascínio e de mistério que transforma o erotismo num elemento essencial da narrativa. Diria até mesmo que, neste caso, o desejo se torna uma força narrativa tão poderosa quanto o próprio terror contido na obra.

Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita
E nesse contexto, tenho que mencionar que a personagem de Lucille assume um papel absolutamente central na narrativa, pois poucas vezes encontrei numa banda desenhada uma figura tão magneticamente perigosa e sexy, ao mesmo tempo. Talvez por isso, a sua presença me tenha remetido inevitavelmente para Catherine Tramell, a inesquecível personagem interpretada por Sharon Stone em Instinto Fatal. Lucille possui essa mesma combinação devastadora de beleza, inteligência, mistério e ameaça latente, com cada aparição sua a parecer anunciar simultaneamente prazer e catástrofe. Quer para Dylan Dog, quer para nós, meros leitores voyeuristas.

Durante boa parte da leitura, desejamos que o protagonista se entregue a essa atração inevitável, mesmo sabendo que as consequências poderão ser devastadoras. Trata-se de uma dinâmica construída com enorme subtileza por parte do argumentista e que confere à obra uma intensidade emocional rara. 

Além disso, convém ainda referir que uma das características mais marcantes de Morte em 16 por 9 é a forma como Roberto Recchioni constrói a narrativa. Há vários momentos praticamente mudos, privilegiando o impacto visual em detrimento do diálogo. O silêncio torna-se uma linguagem própria, permitindo que as imagens falem por si mesmas.

À medida que a narrativa avança, o lado fantástico vai assumindo maior protagonismo, o que é habitual nas histórias de Dylan Dog, casando, portanto, bem com a série. Mas, ao contrário de algumas histórias do foro fantástico que, por vezes, se podem tornar menos plausíveis, este Morte em 16 por 9 apresenta-se muito mais credível por veicular todo esse lado fantástico e onírico através da doçura da euforia sexual. Se Dylan Dog não se envolvesse com Lucille, não visitaríamos certamente esse lado mais obscuro e fantástico da obra.

Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita
Naturalmente, Dylan não atravessa sozinho este pesadelo. Groucho, o seu assistente, faz a sua aparição em vários momentos da história. Confesso que, ao contrário daquilo que acontece noutros livros da série, achei que, neste caso, as tiradas de Groucho me pareceram mais forçadas e menos bem-vindas do que o desejável. Groucho é uma personagem que já me deixou muito bem humorado com os seus comentários noutros livros da franquia, mas neste Morte em 16 por 9 achei-o algo cansativo e até dispensável, deixando no ar a ideia de que aparece na história mais para "picar o ponto". Há ainda outras aparições de algumas personagens míticas da série como a da bela Lillie Connolly, a do Inspector Bloch ou a do memorável Johnny Freak.

Mas se existe um verdadeiro protagonista desta obra para além do próprio Dylan, esse protagonista chama-se Corrado Roi. O seu trabalho gráfico é absolutamente extraordinário! Poucos artistas dominam o preto e branco com tamanha elegância e sensibilidade, a meu ver. Cada página parece ter sido cuidadosamente construída para evocar emoções específicas, explorando magistralmente luzes, sombras e contrastes.

O traço de Roi é simultaneamente realista e onírico. As personagens possuem uma presença física convincente, mas os cenários e as atmosferas parecem emergir de um sonho sombrio. As sombras invadem frequentemente as páginas quase como "entidades vivas", transformando o espaço visual numa extensão dos estados emocionais das personagens. É um trabalho gráfico de enorme maturidade e requinte que eu assumidamente adoro!

Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita
E também a opção formal de utilizar exclusivamente três vinhetas horizontais por página merece aplauso. A referência, no título, ao formato cinematográfico 16:9 não é meramente decorativa, moldando, pelo contrário, toda a experiência de leitura. O resultado aproxima-se mais de um filme do que de uma banda desenhada convencional, com cada vinheta a funcionar como um enquadramento cuidadosamente composto, conferindo ritmo, tensão e uma impressionante fluidez narrativa.

A edição d' A Seita é integral, pois reúne num só volume os dois tomos que constituem a obra original e é feita num formato superior ao que a editora habitualmente utiliza para os restantes livros de Dylan Dog, exceptuando o já referido Dylan Dog - Batman: A Sombra do Morcego, com quem partilha o mesmo formato de 20 x 26,5 cm. De resto, a edição é em capa dura, com detalhes a verniz, com excelente papel baço no interior e um bom trabalho a nível da encadernação e impressão. Há ainda um prefácio de João Miguel Lameiras e, no final do livro, um caderno adicional de extras, com 12 páginas, que nos oferece um texto de Gianmaria Contro sobre a obra e que é acompanhado por vários esboços e ilustrações.

Em suma, Dylan Dog - Morte em 16 por 9 revelou-se para mim uma experiência extraordinária. É uma obra despudoramente sensual, sombria, poética e profundamente cinematográfica, capaz de combinar erotismo, horror, romance e introspeção numa narrativa coerente e emocionalmente poderosa. Roberto Recchioni oferece um dos argumentos mais envolventes que li recentemente na série, enquanto Corrado Roi assina um verdadeiro recital gráfico. Daquelas leituras que não se limitam a ocupar algumas horas do nosso tempo, mas que permanecem connosco muito depois de fecharmos o livro!


NOTA FINAL (1/10):
9.3



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Dylan Dog - Morte em 16 por 9, de Roberto Recchioni e Corrado Roi - A Seita

Ficha técnica
Dylan Dog - Morte em 16 por 9
Autores: Roberto Recchioni e Corrado Roi
Editora: A Seita
Páginas: 208, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 20 x 26,5 cm
Lançamento: Junho de 2026