A editora Ala dos Livros publicou há algumas semanas o segundo livro de As Guerras de Lucas, da autoria de Laurent Hopman e Renaud Roche, série pensada para três volumes, que nos mergulha nas angústias e glórias alcançadas pelo cineasta George Lucas na feitura da sua mais célebre obra de sempre, Star Wars. E se o primeiro volume deixou muita gente muito bem impressionada, comigo incluído, como tive oportunidade de referir na análise que fiz ao primeiro volume, este novo livro continua o bom caminho já trilhado pelos dois autores franceses.
Naturalmente, e à semelhança do álbum anterior, As Guerras de Lucas - Episódio II volta a colocar-nos no olho do furacão criativo e produtivo que esteve por detrás da construção do universo Star Wars, com o enfoque a recair, desta feira, no segundo filme da saga, O Império Contra-Ataca, frequentemente apontado como o mais aclamado filme de toda a franquia. E, tal como já acontecia no primeiro volume, Hopman e Roche oferecem-nos não apenas um relato factual, mas uma verdadeira narrativa de tensão, quase épica, sobre tudo aquilo que poderia ter corrido mal - e tantas vezes correu, diga-se.
Depois do estrondoso sucesso do primeiro A Guerra das Estrelas, seria legítimo pensar que George Lucas tivesse finalmente encontrado um terreno estável para trabalhar. Afinal, era agora uma figura respeitada em Hollywood, com recursos financeiros significativos e com uma legião global de fãs. No entanto, aquilo que Roche e Hopman fazem de forma particularmente eficaz é desmontar essa ideia de facilitação: o sucesso anterior não simplificou o caminho para o segundo filme da saga... complicou-o ainda mais.
E por vários motivos.
Durante a preparação de O Império Contra-Ataca, Lucas encontrava-se envolvido numa avalanche de responsabilidades simultâneas. Tentava transformar o seu rancho numa espécie de comunidade criativa, quase utópica, para realizadores; tinha ainda obrigações contratuais com o filme More American Graffiti; começava a desenvolver, em parceria com Steven Spielberg, aquilo que viria a tornar-se a saga Indiana Jones; e, paralelamente, geria a pressão pessoal da sua esposa, Marcia Lucas, que desejava uma vida mais equilibrada e a construção de uma família a dois. Este cruzamento de exigências profissionais e pessoais confere ao livro uma dimensão humana particularmente interessante. Muita coisa com que lidar, certamente.
E, como se tudo isto não bastasse, a própria produção de O Império Contra-Ataca revela-se ainda mais caótica do que a do primeiro filme. Problemas com os atores, dificuldades técnicas nas filmagens, atrasos constantes e um orçamento que, assegurado diretamente pelo próprio George Lucas, parece crescer sem controlo, tornam-se ingredientes recorrentes desta narrativa. A sensação de inevitável desastre paira constantemente sobre o leitor, num crescendo de tensão que Roche e Hopman sabem explorar com grande eficácia, tal como já o haviam feito no livro anterior.
Voltamos, portanto, a não estar apenas perante uma história de cinema, mas perante o retrato de um homem à beira da exaustão criativa e emocional. George Lucas surge aqui quase como uma figura trágica, constantemente empurrada para o limite pelas suas próprias ambições e pelas circunstâncias exteriores a si mesmo.
Tal como no primeiro volume, o estilo narrativo mantém-se eletrizante. A leitura faz-se quase sem respiração, com os acontecimentos a sucederem-se de forma intensa, em catadupa, sempre com a sensação de que o próximo obstáculo poderá ser o derradeiro. E este ritmo, já anteriormente elogiado por mim, continua a ser um dos maiores trunfos da obra.
Além de que, claro, pelo caminho aprendemos inúmeras informações pertinentes e curiosas sobre a feitura do filme e sobre a própria indústria cinematográfica. O que faz com que, além de ser um livro direcionado para os fãs de A Guerra das Estrelas, este livro também se destina aos fãs de cinema, de modo geral. Laurent Hopman consegue, mais uma vez, produzir um equilíbrio notável entre rigor documental e fluidez narrativa. Sentimos que há uma pesquisa profunda por detrás de cada página, mas essa densidade nunca se torna pesada. Pelo contrário, a história é apresentada com uma dinâmica que nos prende do início ao fim, mesmo quando entramos em zonas mais técnicas ou burocráticas da indústria cinematográfica.
No campo visual, o trabalho de Renaud Roche permanece irrepreensível. O seu traço continua a ser simultaneamente simples e expressivo, com uma capacidade impressionante de captar a essência das personagens com poucos detalhes. A clareza da narrativa visual contribui de forma decisiva para o ritmo da leitura, tornando cada página um prolongamento natural do argumento. O desenho é quase sempre em escala de cinzentos, embora haja quase sempre um ou vários detalhes a cores, que tornam mais dinâmico e apelativo o conjunto gráfico.
Embora tenha gostado muito e recomende totalmente este livro, pois considero que até é daquelas obras que tem o potencial de conquistar pessoas que não têm por hábito ler banda desenhada, talvez este segundo volume não tenha o mesmo efeito de surpresa que o primeiro. E isso deve-se, em grande medida, ao facto de seguir uma estrutura e um estilo narrativo bastante semelhantes, claro. Existe um esforço evidente para evitar a sensação de “mais do mesmo”, mas a fórmula - sendo eficaz - já não impacta com a mesma frescura inicial. Isso não significa, contudo, que a obra perca valor. Pelo contrário, continua a ser um relato envolvente, tenso e profundamente humano sobre os bastidores de uma das mais importantes produções da história do cinema. Apenas se sente que o factor novidade já não joga tanto a seu favor.
A edição da Ala dos Livros é em tudo igual à do primeiro livro, apresentando capa dura baça, com detalhes a verniz; bom papel baço no interior e excelente encadernação e impressão.
Em suma, As Guerras de Lucas - Episódio II é uma continuação sólida e recomendável, sobretudo para quem apreciou o primeiro volume desta série. É um livro que reafirma a ideia de que as verdadeiras batalhas de Star Wars não aconteceram apenas no ecrã, mas sobretudo nos bastidores: nas decisões impossíveis, nas pressões esmagadoras e na perseverança quase obstinada de George Lucas. E, mais uma vez, isso basta para justificar plenamente esta bela leitura.
NOTA FINAL (1/10):
9.0
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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