segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Análise: O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros
O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar

Foi há poucas semanas que a Ala dos Livros lançou o livro O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar, dando assim continuidade a esta série retomada pela editora no tomo 6, Não Terás Outro Deus Além de Mim, há cerca de 5 anos - os primeiros cinco volumes já haviam sido lançados por cá, relembro, pela editora ASA. De facto, foi bastante grande o interregno entre os volumes 6 e 7, coisa rara nas coleções editadas pela Ala dos Livros.

Estamos, pois, de regresso a este universo muito particular criado por Joann Sfar, onde a reflexão filosófica, a sátira religiosa e um certo absurdo convivem de forma natural.

Este novo episódio leva-nos de volta a Argel e centra-se nas discussões relativamente pacíficas entre o rabino Sfar e o seu primo, o imã Sfar, que acabam analisar as diferenças das suas religiões. E mesmo quando a mesquita sofre uma inundação e o rabino e o imã se veem forçados a concordar que os muçulmanos terão que rezar na sinagoga enquanto as reparações da mesquita são feitas, as diferenças entre ambos parecem ser mais que muitas, mesmo que até haja uma natural e positiva boa vontade de parte a parte.

A história desenvolve-se, depois, em torno deste acontecimento maior, permitindo a Sfar revisitar muitos dos temas que se tornaram centrais na série: a identidade, a fé e a convivência entre culturas. Como é habitual em O Gato do Rabino, o enredo parece menos interessado em chegar a um destino específico do que em apreciar as reflexões, os desvios e os encontros que surgem às personagens pelo caminho.

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros
E, claro, para isso muito contribui as tiradas e monólogos do Gato que são verdadeiramente apetecíveis e divertidas, sempre com um humor muito próprio. A personagem protagonista parece ser o próprio catalisador do pensamento de Joann Sfar, permitindo depositar no animal os comentários divertidos, mas sempre lógicos, que pairam na sua própria mente. E na mente de tantos outros, diria.

Há também uma analogia sempre presente, que neste caso se apoia no microcosmos das inundações na mesquita e na própria vinda dos novos gatos "estrangeiros" para a casa da dona do protagonista, que lhe roubam o leite da sua tigela. Esta analogia reflete-se naquilo que vivemos nos tempos atuais, em que as religiões continuam de costas voltadas e em que, cada vez mais, surgem movimentos contra os imigrantes que - dizem os iletrados em economia demográfica - nos vêm tirar o nosso sustento. É curiosa e inteligente a forma como Sfar faz crítica social, sem parecer, à primeira vista, que este é um livro satírico.

E contrariamente ao volume anterior, Não Terás Outro Deus Além de Mim, que me tinha deixado com sentimentos bastante mistos, confesso, este A Torre de Bab-El-Oued conseguiu conquistar-me de forma mais evidente. Continua a ser uma obra profundamente excêntrica e muito própria, é certo, mas desta vez senti que a história, sendo por ventura mais linear e menos poética, conseguiu atar melhor as pontas entre os acontecimentos a envolver as personagens e aquilo que o autor procura passar em termos de mensagem. Saí da leitura mais satisfeito e mais envolvido com aquilo que Sfar procurava transmitir.

E gosto especialmente da forma como o autor continua a abordar a religião sem qualquer tipo de reverência excessiva. Judaísmo, cristianismo ou islamismo surgem constantemente sujeitas ao olhar crítico, irónico e provocador do autor. Sfar não parece interessado em atacar especificamente uma religião, mas sim em encontrar as contradições, os paradoxos e os absurdos que existem em todas elas.

O humor ácido presente ao longo da obra revela-se, por isso, uma das suas maiores virtudes. Muitas das melhores passagens resultam precisamente da capacidade que o autor tem para desmontar dogmas, questionar certezas e expor a fragilidade de muitas convicções humanas através de situações absurdas e diálogos mordazes. 

O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros
Ainda assim, permanece uma reserva que já tinha identificado no tomo anterior: a sensação de que a narrativa avança frequentemente ao "sabor da maré". Nem sempre existe uma progressão dramática muito definida e há momentos em que a história parece construída a partir de associações livres de ideias, mais próximas do devaneio do que de uma estrutura narrativa tradicional. 

Contudo, desta vez senti que essa abordagem me incomodou bastante menos. Talvez porque as reflexões me pareceram mais inspiradas, talvez porque o humor funciona melhor, ou talvez porque a própria leveza do tom acaba por justificar essa estrutura mais errática. 

No campo gráfico, Joann Sfar continua a apresentar uma identidade visual absolutamente singular. O seu traço permanece expressivo, ondulado, espontâneo e quase improvisado. Há momentos em que essa aparente espontaneidade pode ser confundida com alguma falta de rigor, mas a verdade é que o conjunto continua a possuir uma personalidade artística inconfundível. As figuras são deformadas e as perspetivas irregulares, contribuindo para criar um mundo onde o absurdo e a reflexão coexistem sem qualquer atrito. É uma estética que pode não agradar a todos os leitores, imagino, mas que dificilmente deixará alguém indiferente, tendo em conta a sua singularidade.

A edição da Ala dos Livros é em capa dura brilhante, com bom papel brilhante no interior e um bom trabalho de encadernação e impressão.

Em conclusão, O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued deixou-me mais convencido do que o volume anterior. Continua a apresentar uma narrativa algo fragmentada e errática que, por vezes, parece avançar sem rumo definido, mas compensa essa fragilidade com reflexões inteligentes, um humor extremamente ácido e uma sátira religiosa tão irreverente quanto perspicaz. 


NOTA FINAL (1/10):
8.1


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued, de Joann Sfar - Ala dos Livros

Ficha técnica
O Gato do Rabino #7 - A Torre de Bab-El-Oued
Autor: Joann Sfar
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 84, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Julho de 2026



Ala dos Livros prepara-se para lançar "O Acidente de Caça"!



Eis uma bela surpresa e (mais) um dos lançamentos de BD do ano!

A Ala dos Livros já fez saber que vai lançar, brevemente, a obra O Acidente de Caça, da autoria dos americanos David L. Carlson e Landis Blair!

Esta é uma obra que abalou o mercado da banda desenhada, aquando do seu lançamento original em 2017, tendo sido vencedora nos prémios de Angoulême e dos Eisners!

Além disso, é uma obra gigante, com mais de 400 páginas, o que faz desta uma aposta de peso - a todos os níveis - por parte da Ala dos Livros, que não cessa de nos apresentar grandes obras de banda desenhada. Estou particularmente feliz com esta novidade.
Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais das edições inglesa e francesa.


O Acidente de Caça, de David L. Carlson e Landis Blair

Foi um acidente de caça - disso Charlie tem a certeza. Foi assim que o seu pai, Matt Rizzo - um intelectual gentil que escreve poemas épicos em Braille - perdeu a visão. Charlie só descobre a verdade durante a conturbada adolescência, quando enfrenta uma pena por pequenos delitos.

Matt Rizzo ficou cego depois de ter levado um tiro de caçadeira na cara - mas isso aconteceu enquanto participava num assalto à mão armada.

Recém-cego e sem esperança, Matt começou a sua nova e sombria vida na prisão de Stateville. Mas, neste lugar improvável, a vida e a própria alma de Matt foram salvas por um dos mais notórios assassinos da América: Nathan Leopold Jr., da infame dupla Leopold e Loeb.

De David L. Carlson e Landis Blair, surge a inacreditável história verídica de um pai, um filho e uma extraordinária viagem do desespero à iluminação.


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Vem aí um novo livro de Blueberry!




A ASA prepara-se para editar, a partir do próximo dia 22 de Setembro, um novo livro dedicado a Blueberry, um dos cowboys mais famosos de sempre do universo da banda desenhada!

Trata-se de uma edição especial, pois este é um livro comemorativo dos 60 anos de Fort Navajo, o primeiro álbum da série originalmente criada por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud (AKA Moebius).

O livro, que já se encontra em pré-venda no site da editora, conta com várias histórias curtas e ilustrações da autoria de nomes famosos da banda desenhada como Milo Manara, Mathieu Lauffray, Blutch, Jérôme Félix, Enrico Marini, Ralph Meyer, Corentin Rouge, entre muitos outros.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais da edição original.


No Rasto de Blueberry, de Vários Autores

Por ocasião do 60.º aniversário de Blueberry (lançamento do primeiro álbum, Fort Navajo, 1965), série de culto criada por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud, grandes autores prestam homenagem a Mike Steve Blueberry. 

Assim, os autores Anlor, Alberto Belmonte, Dominique Bertail, Michel Blanc-Dumont, Blutch, Olivier Bocquet, Vincent Brugeas, Stefano Carloni, Alexandre Coutelis, Fred Duval, Jérôme Félix, Paul Gastine, Goossens, Mathieu Lauffray, Lu Ming, Jean Mallard, Milo Manara, Enrico Marini,
Mathieu Mariolle, Thierry Martin, Matz, Ralph Meyer, Félix Meynet, Vincent Perriot, Corentin Rouge, Olivier Taduc, Ronan Toulhoat, Jean- François Vivier e Philippe Xavier criaram, cada um, uma história curta ou uma ilustração para homenagear esta grande personagem da BD franco-belga.
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Ficha técnica
No Rasto de Blueberry
Autores: Vários
Editora: ASA
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 24,90€

Análise: Thorgal - Wendigo

Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge - A Seita

Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge - A Seita
Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge

Foi há poucas semanas que chegou às livrarias portuguesas o mais recente livro dedicado à série de fantasia Thorgal, uma saga originalmente criada por Jean Van Hamme e Grzegorz Rosinski. Este livro está inserido em Thorgal Saga, uma série que procura convidar autores a darem o seu cunho pessoal à série, através de um álbum autocontido e, portanto, fora da história da série canónica. O primeiro álbum desta iniciativa que já conta com 6 volumes em França foi o muito belo Adeus Aaricia, de Robin Recht, já por cá editado também pel' A Seita.

Wendigo chega-nos pelas mãos de Fred Duval e Corentin Rouge e a ideia com que fiquei, no final da leitura, é que estamos perante uma aventura sólida que nos entretém, e que é visualmente muito apelativa, mas que acaba por ficar um pouco aquém das expectativas. Pelo menos, das minhas expectativas. Especialmente, se tivermos em conta o anterior Adeus Aaricia

Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge - A Seita
A história de Wendigo leva-nos até ao território americano e decorre durante a viagem de regresso de Thorgal e da sua família do país de Qa. Pelo caminho, a família vê-se envolvida num conflito entre dois povos indígenas, numa região selvagem onde a violência se intensifica após a invocação da figura mitológica de Wendigo. Com Aaricia grávida e gravemente ferida, Thorgal vê-se obrigado a agir, entrando novamente numa guerra que não é a sua, mas da qual não consegue fugir. 

Até porque para salvar Aaricia, Thorgal terá que embarcar numa missão que faz recordar algumas das aventuras mais clássicas da série. A solução para a saúde da sua amada passa pela obtenção de uma flor rara que cresce no topo de uma gigantesca árvore-mundo. E para alcançar esse objetivo, Thorgal une forças com um dos indígenas da tribo e com uma guerreira viking quem, entretanto, aparece no seu caminho. 

É uma abordagem bastante clássica das histórias da personagem, o que pode agradar aos leitores mais clássicos da série. A ação desenrola-se entre florestas densas e os impressionantes ramos da árvore-mundo, proporcionando vários momentos de tensão e de espetáculo visual.

No entanto, apesar da premissa interessante e do recurso a elementos do folclore ameríndio que são bem-vindos, a verdade é que a história acaba por seguir caminhos demasiado previsíveis. Quase tudo decorre da forma esperada, sem verdadeiras surpresas ou reviravoltas marcantes. 

Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge - A Seita
E esse acaba por ser, quanto a mim, a principal fragilidade do álbum. É que sendo uma obra integrada na linha de "livros de autor", esperava-se uma abordagem mais ousada, capaz de explorar aspetos menos conhecidos das personagens ou apresentar uma leitura diferente deste universo. Algo como Robin Recht fez - e bem - no já anteriormente mencionado Adeus Aaricia. Fred Duval opta, pelo contrário, por construir uma aventura muito convencional, que poderia facilmente integrar a série principal sem causar qualquer estranheza. Parece-me até que Fred Duval não entendeu bem a razão de ser desta "coleção de autor" preferindo fazer uma história que funciona mais como hommage, sem recriar algo de verdadeiramente novo.

Isto não significa que a leitura seja desinteressante, atenção. Pelo contrário, a narrativa mantém um ritmo eficaz e consegue prender a atenção ao longo das suas páginas. O "problema" não está na qualidade da execução, mas sim na falta de ambição em relação às possibilidades oferecidas por este formato mais livre e experimental.

Se o argumento deixa algumas reservas, o mesmo não pode ser dito do trabalho gráfico de Corentin Rouge. O desenhador confirma mais uma vez o enorme talento que tem demonstrado em trabalhos anteriores. As personagens são extremamente expressivas, transmitindo emoções de forma imediata e convincente. E também os momentos de ação constituem outro dos grandes destaques da obra. As cenas de combate, perseguição e sobrevivência apresentam uma excelente dinâmica visual. Rouge consegue criar movimento dentro de cada prancha, envolvendo o leitor nos acontecimentos e aumentando a intensidade das sequências mais espetaculares. E há várias delas. Sou um grande admirador do trabalho deste autor, reconheço!

Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge - A Seita
Ainda assim, fiquei com a sensação de que o estilo gráfico de Corentin Rouge funciona melhor em universos mais contemporâneos. Obras como Sangoma  - Os Condenados da Cidade do Cabo, Islander ou Rio parecem, quanto a mim, adequar-se de forma mais natural às características do seu traço, que é muito direto, energético e centrado na ação. Em contextos históricos ou de fantasia, como acontece em Thorgal, o resultado continua a ser bastante bom, mas talvez menos surpreendente. Não se trata de uma questão de qualidade de desenho, porque essa está presente em abundância ao longo de todo o álbum. Simplesmente, a vertente mais poética, contemplativa e mítica que se associa ao universo de Thorgal parece não beneficiar tanto deste estilo mais moderno, desnudo e cinematográfico de Rouge. Ainda assim, reitero que Corentin Rouge é um ilustrador fenomenal, do qual sou um totalmente fã. 

Nota ainda, muito positiva, para a fantástica ilustração da capa que é impactante, elegante e imediatamente apelativa. É uma daquelas capas que, quer parecer-me, capta o olhar de qualquer transeunte de uma livraria, ao transmitir na perfeição o ambiente de aventura e mistério presente na obra. 

A edição da editora A Seita é muito bem conseguida. O livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz e com uma textura aveludada, suave ao toque, que tanto aprecio, e um excelente papel brilhante no miolo. A impressão, a encadernação e os acabamentos também têm uma qualidade que impressiona. Por fim, o caderno de extras também está fantástico, reunindo oito ilustrações verdadeiramente espetaculares e ainda um texto de cada um dos autores.

Em suma, Thorgal - Wendigo revela-se uma leitura competente, bem desenhada e agradável, que tem o potencial para aguardar aos fãs mais antigos da série, mesmo que, a meu ver, dificilmente possa figurar entre os livros mais memoráveis do universo de Thorgal, sobretudo por optar por uma fórmula demasiado segura quando poderia ter arriscado muito mais. É, acima de tudo, para isso que servem - ou deveriam servir - "os álbuns de autor"... para que se possa arriscar mais a todos os níveis.


NOTA FINAL (1/10):
8.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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Thorgal - Wendigo, de Fred Duval e Corentin Rouge - A Seita

Ficha técnica
Thorgal - Wendigo
Autores: Fred Duval e Corentin Rouge
Editora: A Seita
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 325 mm
Lançamento: Maio de 2026