segunda-feira, 13 de julho de 2026

Análise: Murena #13 - As Neronia

Murena #13 - As Neronia, de Jean Dufaux e Jérémy - ASA - LeYa

Murena #13 - As Neronia, de Jean Dufaux e Jérémy - ASA - LeYa
Murena #13 - As Neronia, de Jean Dufaux e Jérémy

Foi no passado mês de março que a editora ASA nos fez chegar o mais recente volume da muito celebrada série Murena. Ambientada na antiga Roma, esta é uma obra rica no argumento, sendo carregada de conspirações, traições, tramas políticas, erotismo e personagens impactantes. E tem sido brilhantemente desenhada.

Da autoria de Jean Dufaux, a série foi originalmente ilustrada por Philippe Delaby. Depois do falecimento deste, foi Theo quem ocupou o seu lugar. Mas, neste 13º volume, intitulado As Neronia, que abre o quarto e último ciclo da série, é Jérémy quem assegura os desenhos. Recordo que este autor até já havia trabalhado na série, tendo feito o trabalho de colorização de vários tomos, ainda no tempo de Delaby.

Dando, por isso, continuidade a uma das mais ambiciosas recriações da Roma Antiga alguma vez produzidas em banda desenhada, este novo livro não perde o fôlego, apesar do encerramento de importantes linhas narrativas no álbum anterior. Pelo contrário, sente-se que Dufaux aproveita este novo ponto de partida para um "fresh restart", reposicionando as suas personagens e preparando o terreno para novos conflitos. Apreciei especialmente esta faceta deste livro, pois sinto sempre que nestas séries longas, com muitas personagens e tramas complexas, é sempre bem-vindo um álbum que procure unir algumas das pontas que vão ficando soltas.

Murena #13 - As Neronia, de Jean Dufaux e Jérémy - ASA - LeYa
Regressamos à Roma de Nero, o imperador que está cada vez mais absorvido pela sua própria imagem e pelo desejo quase doentio de ser admirado pelos demais. Após os eventos decorridos nos tomos anteriores, Nero procura agora reconquistar o povo através da organização dos Neronia, os grandiosos jogos artísticos e atléticos inspirados nos festivais gregos. Uma espécie de jogos olímpicos. Algo que possa entreter as gentes do povo. À superfície, estes jogos surgem, pois, como uma celebração cultural, mas, naturalmente, não passam de um mero exercício propagandístico destinado a glorificar o imperador e a reforçar o seu poder.

Aprecio bastante a forma como Nero é retratado, com Dufaux a não caracterizá-lo como um simples tirano unidimensional. Ao invés, existe nele uma mistura curiosa de charme, fragilidade, vaidade e crueldade que o torna simultaneamente imprevisível e assustador. Por vezes parece mau, noutras vezes parece um bom homem. 

Além disso, a morte de Séneca, ocorrida no volume anterior, continua a fazer-se sentir ao longo de toda a narrativa, pois é algo que deixou Roma mergulhada num ambiente de medo, suspeita e vigilância constante. Esta atmosfera sufocante, onde ninguém parece verdadeiramente seguro e onde cada palavra pode ser interpretada como um ato de traição, está muito bem trabalhada e sente-se ao longo de todo o livro. 

Entretanto, Lúcio Murena continua a estar cercado por intrigas, manipulações e traições, sendo constantemente obrigado a movimentar-se num território onde as certezas são escassas e onde a lealdade tem um preço cada vez mais elevado. Por sua vez, Tigelino continua a consolidar a sua posição como uma das figuras mais perigosas da narrativa. A sua influência sobre Nero permanece grande, mas Dufaux introduz novos equilíbrios de forças dentro da corte imperial. A presença da misteriosa Hidra acrescenta novas camadas de complexidade ao jogo político, criando uma interessante competição pela proximidade ao imperador. Um autêntico jogo de cadeiras.

Não é que haja, porém, grandes cenas de violência. Na verdade, parece haver uma preocupação em privilegiar-se uma construção pausada da intriga, como se fosse uma forma de preparar o que pode vir no futuro. É verdade que isto pode fazer com que sintamos que acontecem poucas coisas neste tomo. No entanto, parece-me que essa opção é deliberada. Como já disse mais acima, Dufaux parece estar mais interessado em reorganizar o tabuleiro das peças humanas, dando um passo atrás para, depois, poder dar dois em frente. Ou assim espero.

Ainda assim, continuo a sentir que uma das fragilidades recorrentes da série permanece presente. Por vezes, Dufaux introduz personagens, ideias ou subtramas muito interessantes que nem sempre recebem o desenvolvimento que aparentam prometer inicialmente. Não se trata de um problema grave, mas há momentos em que a narrativa parece dispersar-se ligeiramente, desviando a atenção para elementos cujo impacto acaba por revelar-se mais reduzido do que seria expectável. Do ponto de vista global, se os nós forem bem atados no futuro, até pode não ser um problema. Contudo, pensando o livro de forma isolada, acaba por ser algo mais comprometedor, parece-me.

Murena #13 - As Neronia, de Jean Dufaux e Jérémy - ASA - LeYa

Do ponto de vista visual, este é também um álbum importante por, tal como já mencionei, marcar a chegada de Jérémy ao lugar de desenhador da série. E a verdade é que o autor não demonstra qualquer necessidade de adaptação. Desde as primeiras páginas percebe-se que compreendeu perfeitamente os códigos gráficos de Murena e que sabe respeitar a identidade visual construída por Philippe Delaby ao longo de tantos anos.

Assim os desenhos, de traço realista, continuam a apresentar uma qualidade visual muito elevada. O enquadramento das cenas é bastante cinematográfico, enquanto a expressividade das personagens continua a ser uma das grandes forças da série. Além disso, as decorações, as indumentárias, os cenários e os elementos arquitetónicos revelam um cuidado impressionante com o detalhe, contribuindo para uma recriação histórica particularmente convincente.

E, já agora, as cores também desempenham um papel fundamental. Há uma riqueza cromática constante que valoriza cada página e ajuda a reforçar tanto a grandiosidade dos espaços imperiais como os momentos mais intimistas. O resultado final é um álbum visualmente muito sólido, que consegue simultaneamente preservar o legado dos seus antecessores e afirmar a identidade própria do novo ilustrador.

E não posso deixar de referir que a ilustração desta capa é verdadeiramente sublime. Todas as capas de Murena, ou quase todas, são belas, mas esta, em particular, é a mais bonita de todas, quanto a mim.

Quanto à edição da obra, o livro apresenta capa dura brilhante, com bom papel brilhante no miolo. A encadernação e a impressão também são boas. Há ainda um importante prefácio de Jean Dufaux. 

Não posso, no entanto, deixar de referir algo que me deixou bastante desapontado: o texto constante na contracapa do livro não está em português de Portugal, mas em português do Brasil(!), o que me leva a crer que talvez se tenha utilizado um google translator, ou semelhante, para traduzir este texto. E saber que numa editora como a ASA isso acontece, é algo que acho lastimoso. Devo dizer que no interior do livro, não detetei que o texto não estivesse bem feito... mas o mal - do texto da contracapa - já estava feito. E espero que tenha sido apenas um lapso que passou e que não venha a ser repetido no futuro, pois isto é algo que não dignifica a obra, nem a editora, nem a edição, nem a tradução.

Em suma, este recente Murena #13 - As Neronia funciona sobretudo como um volume de transição, em que Jean Dufaux aproveita este novo ciclo para aprofundar as tensões políticas e psicológicas do enredo, enquanto o ilustrador Jérémy assegura a continuidade gráfica da obra com enorme competência. Está longe de ser o álbum mais explosivo da série, mas é, ainda assim, um capítulo sólido, elegante e promissor que deixa grande expectativa para o que virá a seguir.


NOTA FINAL (1/10):
8.8


-/-

Murena #13 - As Neronia, de Jean Dufaux e Jérémy - ASA - LeYa

Ficha técnica
Murena #13 - As Neronia
Autores: Jean Dufaux e Jérémy
Editora: ASA
Páginas: 46, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 298 x 226 mm
Lançamento: Março de 2026


Vinheta 2020 vende livros de BD a partir de 5€!



A LOJA OUTLET do Vinheta 2020 está de volta, com novos livros disponíveis para venda. Os preços estão ainda mais baixos e há promoções "LEVE 5, PAGUE 4" ou, melhor ainda, "LEVE 13, PAGUE 10"!

Há clássicos, novidades e raridades na nova leva que disponibilizo para venda! E tudo a preços de amigo, já que o meu objetivo não é bem fazer grandes lucros, mas despachar os livros!

Tratam-se de álbuns usados - mas em excelente estado de conservação - de autores portugueses e estrangeiros, em vários idiomas: português, inglês, castelhano e francês.







Disclaimer

Como sabem, sou um comprador e um colecionador. E sou daquelas pessoas que, ao contrário de muitos, bem sei, não gosta de ter livros repetidos na sua coleção. Pura e simplesmente porque cada pequeno espaço nas minhas prateleiras tem que merecer ser ocupado. Assim, se a minha estante recebe a versão portuguesa de uma obra que eu já possuía noutra língua; ou uma nova edição de uma obra que me agrada mais do que a anterior, um dos livros terá que sair. Não tenho espaço para ter duplicados.

É por isso que chamo a esta iniciativa LOJA OUTLET, pois o seu objetivo é servir de escape para os livros que estão a mais, ou duplicados, na minha coleção.

São livros que tenho repetidos, que tenho noutras línguas ou que, simplesmente, comprei e acho que, depois de lidos, devem rumar a outra estante.

Aproveitem e façam bons negócios.

Deixo o "como" e o "porquê" desta loja, aqui.

As novidades da Ala dos Livros para o segundo semestre de 2026!


Hoje apresento-vos as novidades que a editora Ala dos Livros tem reservadas para o segundo semestre do ano! E aviso já que há aqui muitas obras que desejo muito ler! São mais de 10 novos livros que podemos esperar!

Teremos o fecho de algumas séries, o regresso a outras que estavam em andamento e a aposta em alguns novos títulos. E ainda haverá o "Livro Mistério" e mais algumas novidades que serão anunciadas mais tarde.

Deixo-vos, mais abaixo, com a lista de obras.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Análise: Mãe e Peras

Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa - Oficina do Livro - LeYa

Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa - Oficina do Livro - LeYa
Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa

A Oficina do Livro, uma chancela do Grupo LeYa, publicou no passado mês de abril - ainda bem a tempo do Dia da Mãe - o livro Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa.

Esta é uma obra de estreia para as duas autoras portuguesas. Diana Rodrigues é uma influencer, criadora da página de instagram mae_e_peras, que conta com mais de 500.000 seguidores. Nessa página, a autora partilha, com humor, um pouco da sua experiência de mãe e das agruras adjacentes a essa função que ocupa 24h por dia, 7 dias por semana.

Daí à adaptação desses momentos e desafios da maternidade para banda desenhada, foi um pequeno passo. 

Mãe e Peras é, por isso, uma obra que parte da experiência quotidiana da maternidade para construir um retrato simultaneamente divertido, leve e sincero, com o qual, não só as mães, mas também os pais, nos podemos identificar. 

A autora vai relatando-nos pequenas situações do dia a dia, transformando aquilo a que podíamos chamar de episódios aparentemente banais, como birras em locais públicos, noites mal dormidas, ou aquelas perguntas inesperadas e inconvenientes das crianças, em momentos humorísticos que colocam um sorriso nas nossas caras. Afinal de contas, todos nós já passámos por isso.

Muitas das piadas resultam da exageração de pequenos dramas quotidianos ou da forma como as expectativas de uma mãe colidem com a imprevisibilidade das crianças. É um humor leve, acessível e eficaz, que raramente procura mais do que arrancar um sorriso cúmplice. Não diria que seja um humor para nos fazer chorar a rir, mas antes para nos colocar um sorriso na face.

Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa - Oficina do Livro - LeYa
E, por detrás dos sorrisos com que ficamos enquanto lemos este livro, a mensagem subjacente que retemos é que, de facto, não é fácil ser-se mãe. É desgastante em termos de tempo, de energia, de paciência e até de recursos financeiros. Mas também não há aqui - felizmente! - uma tentativa de vitimização, mostrando que a maternidade é uma coisa má. Não, longe disso. Até porque, mesmo sendo difícil, também será certamente a melhor coisa do mundo para muitas mães. E mesmo nos momentos mais caóticos e difíceis, existem memórias e afetos que acabam por dar sentido a todos os desafios.

Um dos méritos da obra - que se apresenta mais como livro de tiras humorísticas, não havendo uma sequência muito grande entre ilustrações -  está precisamente na sua honestidade. Diana Rodrigues afasta-se das imagens idealizadas da maternidade que tantas vezes encontramos nas redes sociais e em determinados discursos. Em vez disso, opta por mostrar mães reais, com defeitos, dúvidas, cansaço e frustrações. Mães falíveis. Essa autenticidade torna a leitura particularmente próxima e permite que muita gente se possa rever nas situações apresentadas. As situações retratadas não são, portanto, extraordinárias, mas são, precisamente, aquelas que acontecem todos os dias em milhares de casas. E essa universalidade ajuda a explicar o potencial de identificação que este Mãe e Peras traz consigo.

Com efeito, este é um daqueles livros que poderá chegar a muitas pessoas que habitualmente não lêem banda desenhada. E isso é claramente positivo. 

Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa - Oficina do Livro - LeYa
O livro é ilustrado por Marina Costa, que nos oferece desenhos simples e expressivos, de notável eficiência, que casam muito bem com as situações retratadas. As expressões das personagens, bem como as suas reações, são exageradas, reforçando o cariz cómico da obra. Não são desenhos que primem por uma complexidade ilustrativa muito grande, mas também não seria isso que a obra necessitaria. As cores vivas e diversas também conferem um estilo moderno e, novamente, eficiente ao todo.

Sobre a presença de Marina Costa nesta obra, tenho que fazer uma referência. Incomodou-me bastante que o nome da autora nunca apareça na capa, na lombada, na contracapa ou no frontispício do livro. Temos que procurar na ficha técnica do livro a menção ao nome de Marina Costa para verificarmos que foi ela a autora das ilustrações, da capa e da paginação do livro. Ora, tratando-se de uma obra a quatro mãos, que sem a ilustradora não seria um livro de BD/tiras humorísticas, parece-me uma grande falta de noção editorial. Mesmo aceitando que este foi um "trabalho de encomenda", em que Marina Costa pode ter sido recrutada apenas para ilustrar as histórias já definidas, continuo a achar que a menção ao nome da autora na capa do livro, era mandatória. É importante que o nosso trabalho seja devidamente creditado e respeitado, diria. Portanto, deixo essa nota. 

De resto, o livro apresenta capa mole baça, com badanas e verniz localizado. No interior, o papel é brilhante e de boa qualidade. A impressão e encadernação também são boas.

Em suma, a estreia de Diana Rodrigues e Marina Costa na banda desenhada, com este Mãe e Peras é particularmente bem-vinda. Sem pretensões excessivas, as duas autoras conseguem criar uma obra que comunica diretamente com o seu público-alvo e que aproveita bem as ferramentas narrativas da 9.ª arte. Uma estreia promissora e uma aposta que me parece bem pensada por parte da Oficina do Livro.


NOTA FINAL (1/10):
7.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


-/-

Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa - Oficina do Livro - LeYa

Ficha técnica
Mãe e Peras
Autoras: Diana Rodrigues e Marina Costa
Editora: Oficina do Livro
Páginas: 168, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 23,5 x 16,5 cm
Lançamento: Abril de 2026