terça-feira, 28 de julho de 2026

Análise: Wild West - Volumes 4 e 5


Wild West - Volumes 4 e 5 - A Lama e o Sangue | Redenção, de Thierry Gloris e Jacques Lamontagne

Com o volume 4, intitulado A Lama e o Sangue, da série Wild West publicado no mês passado de abril, a editora Ala dos Livros não esperou muito tempo até lançar o álbum mais recente desta série da autoria de Thierry Gloris e Jacques Lamontagne  que, deste modo, fica a par com a edição original da obra em termos de lançamentos. Este quinto e novo volume chama-se Redenção e acaba de chegar às livrarias.

Como tal, foi razão para que eu pudesse ler estes dois volumes de forma seguida. E, mais uma vez, posso dizer-vos que esta é uma série do estilo western que me deixa especialmente agradado, mesmo admitindo que os últimos volumes, em especial o volume 4, caíram ligeiramente em qualidade.

Depois do excelente Escalpes em Série, aquele que considerei o melhor da série até agora, as minhas expectativas eram naturalmente elevadas, até porque esta coleção se tem afirmado como uma das mais consistentes abordagens ao western na banda desenhada franco-belga contemporânea. Se o quarto volume encerra o segundo ciclo narrativo da série, o quinto tomo inaugura uma nova etapa para estas personagens, com resultados distintos, mas igualmente interessantes.

Mas falemos de cada volume em particular.

Em A Lama e o Sangue, continuamos a acompanhar Wild Bill Hickok, Calamity Jane e Charlie Utter na perseguição ao assassino que marcou os acontecimentos de Escalpes em Série. Desta feita, e relembrando que em cada um dos tomos há sempre uma nova personagem que é inspirada em figuras históricas reais, a nova personagem é Bass Reeves, uma personagem absolutamente fascinante da história americana, por ser um dos primeiros U.S. Marshals negros. 

Paralelamente, a narrativa alarga o seu foco para os conflitos em torno da expansão ferroviária, do tratamento reservado aos povos indígenas e da utilização dos Soldados Búfalo (soldados afro-americanos), acrescentando uma importante dimensão histórica e social ao enredo.

O álbum começa de forma particularmente promissora. As primeiras páginas conseguem articular muito bem o mistério em torno dos assassinatos com questões históricas reais, explorando as tensões raciais e culturais da América do século XIX. A inclusão dos Soldados Búfalo revela-se especialmente interessante, não só pelo valor histórico da sua presença, mas também pelas ambiguidades morais que a sua utilização levanta dentro da narrativa, claro está.

Contudo, à medida que a história progride, fica a sensação de que parte desse potencial inicial não é totalmente aproveitado. O enredo encaminha-se para soluções mais convencionais e para uma sucessão de confrontos que, embora visualmente impressionantes, nem sempre parecem surgir de forma totalmente orgânica. Existe ação em abundância, sim, mas por vezes ela surge quase como um fim em si mesma, ocupando espaço que poderia ter sido dedicado a aprofundar algumas personagens ou conflitos.

Isto não significa que o álbum seja fraco. Longe disso. Simplesmente, depois da densidade dramática e da excelente gestão de ritmo que encontrámos em Escalpes em Série, este quarto volume parece um pouco mais apressado e menos refinado no desenvolvimento de algumas das suas ideias mais interessantes. É o tomo mais fraco - ou menos forte, como preferirem - da série, quanto a mim.

Redenção, segue uma abordagem bastante diferente. Após os acontecimentos traumáticos do ciclo anterior, encontramos agora Wild Bill, Calamity Jane e Charlie Utter estabelecidos em Dolores City. Bill desempenha funções de xerife, Charlie tornou-se carteiro e Jane continua a travar uma batalha contra os seus próprios vícios, cedendo ao alcoolismo. Parece que, exceptuando Calamity Jane, Wild Bill e Charlie Utter alcançaram uma vida de amena normalidade. Isto até à chegada da família Ballou, que promete pôr a tranquilidade da pequena cidade em causa.

Desde cedo se percebe que este quinto volume tem objetivos bastante diferentes, pois, ao contrário do tomo antecessor, não procura impressionar-nos através de uma sucessão constante de confrontos ou revelações. Como tal, o ritmo é mais pausado, mais contemplativo e claramente orientado para a construção das personagens e das relações entre elas. É uma opção que poderá surpreender alguns leitores - especialmente tendo em conta o tomo anterior -, mas que, na minha opinião, beneficia bastante a narrativa.

A presença dos Ballou e da lendária Belle Starr funciona sobretudo como catalisador para explorar as fragilidades e os conflitos das personagens principais, com a história a "respirar" de forma mais natural. Existe uma clara sensação de construção, como se este álbum estivesse deliberadamente a posicionar as peças para acontecimentos mais relevantes futuros. O resultado é um álbum que talvez tenha menos momentos de ação memoráveis, mas que oferece maior consistência dramática. Como se fosse a preparação de algo maior que há de chegar no tomo seguinte, Dolores City.

De uma forma geral, continuo a apreciar muito esta série. Wild West consegue encontrar um equilíbrio raro entre rigor histórico e liberdade ficcional. Embora as aventuras sejam obviamente romanceadas, existe sempre um pé bem assente em factos, personagens e contextos reais, o que contribui para uma maior credibilidade e riqueza da narrativa. Como se, à boa maneira de Lucky Luke, que procurou sempre falar-nos de uma figura ou de um tema real do faroeste, a história se tornasse mais verossímil. E, claro, quando comparada com a série do "cowboy que dispara mais depressa do que a própria sombra", Wild West consegue ser mais madura e realista no conteúdo e forma.

No plano gráfico, o trabalho de Jacques Lamontagne continua a ser verdadeiramente espetacular. O seu traço permanece impressionante, quer na representação das personagens históricas, quer na recriação dos ambientes do Oeste americano. Existe um cuidado constante com os enquadramentos, as expressões faciais e os cenários, fazendo com que cada página seja visualmente apelativa. Por vezes, pode aparecer uma ou outra expressão mais "cartoonizada" do que aquilo que seria expectável, mas de um modo geral, tudo funciona muito bem no plano visual da obra.

E são especialmente memoráveis algumas das ilustrações de página dupla que surgem ao longo destes dois volumes, e que acabam por constituir verdadeiros momentos de espetáculo visual que demonstram todo o talento de Lamontagne. Também em termos de cores, o trabalho do autor é impressionante, especialmente em termos de luz, em cenas com iluminação interior.

Quanto à edição destes livros, a mesma está em linha com os restantes volumes da série, como seria expectável. Os livros têm capa dura baça, com detalhes a verniz, e o papel no interior é brilhante e de boa qualidade. A impressão e a encadernação também são boas.

Em suma, Wild West continua a ser uma série obrigatória para todos os fãs do western em BD e um persuasivo convite aos leitores menos experientes em obras do género, mesmo ficando no ar a sensação de que o quarto volume ficou uns furos abaixo dos restantes. A boa notícia é que Redenção recupera uma abordagem mais ponderada e centrada nas personagens, inaugurando de forma bastante promissora um novo ciclo da série. Que venha o próximo volume!


NOTA FINAL (1/10):
Wild West #4 - A Lama e o Sangue: 8.4
Wild West #5 - Redenção: 9.0


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Fichas técnicas
Wild West #4 - A Lama e o Sangue
Autores: Thierry Gloris e Jacques Lamontagne
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Abril de 2026


Wild West #5 - Redenção
Autores: Thierry Gloris e Jacques Lamontagne
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Julho de 2026


Análise: Formosa

Formosa, de Li-Chin Lin - Levoir - Jornal Público

Formosa, de Li-Chin Lin - Levoir - Jornal Público
Formosa, de Li-Chin Lin

A quarta obra editada na mais recente Coleção de Novelas Gráficas da editora Levoir e do jornal Público correspondeu ao livro Formosa, de Li-Chin Lin, que marca a estreia da autora taiwanesa em Portugal. 

Esta é uma obra autobiográfica em que Li-Chin Lin revisita a sua infância e juventude em Taiwan para refletir - e nos fazer refletir - sobre como se constrói a identidade de um indivíduo num contexto marcado pela propaganda política e pelo autoritarismo. 

A obra acompanha, pois, o percurso da autora desde a infância até ao despertar da sua consciência crítica, apresentando simultaneamente um retrato pessoal e uma reflexão sobre a história recente de Taiwan. 

Nascida em Taiwan nos anos 1970, Li-Chin Lin pertence a uma geração educada sob a influência do regime do partido Kuomintang, que promoveu uma forte doutrinação ideológica nas escolas e na sociedade em geral, através do culto da personalidade de Chiang Kai-shek e da transmissão de uma "versão oficial" da história.

Formosa, de Li-Chin Lin - Levoir - Jornal Público
E o que mais me impressionou neste relato foi a dicotomia, o conflito de opiniões e formas de estar, que afetou a Li-Chin Lin nos seus tempos de criança. É que enquanto a escola transmitia uma determinada visão da nação e da história, sempre enaltecendo os enormes feitos da China, a autora crescia num ambiente familiar onde sobreviviam outras memórias e referências culturais japonesas. Os avós falavam japonês, herança do período colonial japonês, o que revelava a coexistência de identidades distintas e frequentemente silenciadas pelo discurso oficial. Segundo o regime, todas as referências e cultura vindas do Japão, antigo colonizador de Taiwan, deveriam ser renegadas pelos taiwaneses, em detrimento do culto de toda a cultura chinesa. Por um lado, Li-Chin Lin ganhava concursos escolares de ilustração com desenhos pró-regime chinês; por outro lado, cedo começou a ter um enorme fascínio pela cultura japonesa, em especial o mangá e o anime. 

A questão da identidade cultural assume, pois, um papel fundamental ao longo da obra, com a autora a demonstrar que a identidade taiwanesa não pode ser reduzida a uma única narrativa. E é algo que ainda importa relembrar a tantas pessoas por esse mundo fora. A convivência entre diferentes línguas, culturas e memórias históricas evidencia a complexidade, em particular, da sociedade taiwanesa. Aliás, se pensarmos bem, o próprio título da obra apresenta um forte significado simbólico, pois "Formosa" foi o nome atribuído pelos navegadores portugueses à ilha de Taiwan no século XVI e, ao recuperar esta designação histórica, Li-Chin Lin sublinha a multiplicidade de influências culturais que moldaram a identidade da ilha.

Formosa, de Li-Chin Lin - Levoir - Jornal Público
Outro tema relevante na obra é a educação como instrumento de controlo ideológico, pois este Formosa evidencia bem a influência que a escola exerce - ou pode exercer - na formação das crianças e na construção da sua visão do mundo. Ao mostrar a repetição constante de símbolos patrióticos e mensagens políticas, a autora revela a forma como o poder utiliza a educação para moldar mentalidades e legitimar a sua autoridade.

Por outro lado, à medida que Li-Chin Lin foi crescendo, e a pensar pela sua própria cabeça - coisa que, vá-se lá saber porquê, os regimes autoritários não costumam apreciar -, começou a detectar várias contradições do regime e as diferenças entre aquilo que lhe era ensinado e a realidade que observava. O próprio e infame episódio na Praça Tiananmen, em 1989, foi um claro exemplo para que Li-Chin Lin começasse a questionar não apenas o regime chinês, mas também os mecanismos de poder e propaganda presentes em Taiwan. Este episódio marca simbolicamente a passagem da inocência para uma consciência política mais madura.

Quanto às ilustrações, devo dizer que foi talvez nesta dimensão da obra que Formosa menos me convenceu. Embora os desenhos, com influência clara no mangá, cumpram eficazmente a sua função narrativa e transmitam com clareza as emoções, ideias e contextos históricos que Li-Chin Lin pretende explorar, o estilo gráfico parece por vezes excessivamente pouco aprimorado e próximo de um esboço. O traço solto e aparentemente inacabado transmite espontaneidade e autenticidade, reconheço, mas nem sempre proporciona uma experiência visual particularmente apelativa. Em vários momentos, a sensação é a de estarmos perante páginas de um caderno de apontamentos transformadas diretamente em banda desenhada.

Formosa, de Li-Chin Lin - Levoir - Jornal Público
Senti também uma certa acumulação de texto, imagens, notas e comentários visuais, o que torna certas sequências densas e algo confusas, fazendo com que a leitura seja menos fluida do que seria desejável. Mesmo assim, também tenho que apontar que há certos bons momentos ao nível da ilustração, especialmente quando a autora interpreta, de forma humorística e hiperbolizada, certas cenas ou reações das personagens.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço, boa impressão e boa encadernação. No final da obra, há ainda dois posfácios da autora. O primeiro é da altura em que a obra foi originalmente lançada, em 2011. Já o segundo posfácio é deste ano e foi feito de propósito para a edição portuguesa, o que é algo especial e revela aqui um cuidado da editora Levoir para valorização da própria obra que publica. Por fim, há duas páginas, denominadas "Pontos de Referência", em que nos é dada uma contextualização histórico-política de Taiwan.

Tenho visto algumas críticas por esse internet fora sobre a introdução do subtítulo "Uma Visão Diferente Sobre a Recente História de Taiwan" na capa do livro. Mesmo sendo algo que não consta na edição original, não me parece que seja negativo, pois ajuda especialmente os que não conhecem a obra ou a autora, ou que não fazem tão diretamente a ponte entre "Formosa" e "Taiwan". Podemos discutir se, em termos de grafismo, este subtítulo poderia ter sido introduzido de uma forma mais harmoniosa - possivelmente, sim - mas não me parece que seja algo tão negativo como certas vozes querem dar a entender. Aliás, neste ponto, estou desejoso de saber como é que as mesmas vozes lidarão com a capa do próximo título da coleção Albert Londres Tem de Desaparecer.

Em suma, Formosa é uma obra de grande relevância literária e histórica sobre Taiwan, que nos é oferecida através de uma narrativa autobiográfica sincera e de uma reflexão profunda sobre identidade, liberdade, educação e memória. Mais do que a história de uma infância em Taiwan, a obra constitui um bom testemunho sobre a importância do pensamento crítico perante qualquer forma de poder autoritário propagandístico. É, portanto, um belo ensaio que merece ser lido.


NOTA FINAL (1/10):
8.0



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Formosa, de Li-Chin Lin - Levoir - Jornal Público

Ficha técnica
Formosa
Autora: Li-Chin
Editora: Levoir
Páginas: 256, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240 cm
Lançamento: Julho de 2026

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Análise: Supergirl - Mulher do Futuro

Supergirl - Mulher do Futuro, de Tom King e Bilquis Evely - Devir - DC Comics

Supergirl - Mulher do Futuro, de Tom King e Bilquis Evely - Devir - DC Comics
Supergirl - Mulher do Futuro, de Tom King e Bilquis Evely

Aproveitando a chegada às salas de cinema do filme Supergirl, com Milly Alcock enquanto protagonista, a editora Devir lançou recentemente o livro Supergirl - Mulher do Futuro, de Tom King e Bilquis Evely. Editada originalmente em 2021, esta é uma obra que depressa recebeu aclamação do público e da crítica. E compreende-se porquê, devo dizer-vos.

Este livro procura redefinir quem é Kara Zor-El para lá da habitual sombra do Super-Homem e, para tal, apresenta-nos uma Supergirl mais madura, mais complexa e mais humana, levando-nos a embarcar numa aventura espacial com contornos de conto de fadas, western e epopeia de vingança. Sim, é tudo isso, esta obra!

A premissa até é simples, com a história a começar quando Ruthye Marye Knoll, uma jovem alienígena - mas com aspeto humano - procura a ajuda de Supergirl para perseguir Krem, o homem responsável pela morte do seu pai. Mas aquilo que poderia ser apenas mais uma narrativa de vingança - já tantas vezes vista noutros livros ou filmes, convenhamos - cedo se transforma numa longa viagem através do espaço, onde a busca pela justiça acaba por se revelar muito mais importante do que o simples desejo de retaliação.

Supergirl - Mulher do Futuro, de Tom King e Bilquis Evely - Devir - DC Comics
Um dos elementos mais interessantes da obra é precisamente a forma como Tom King escolhe contar a narrativa. Em vez de seguir diretamente o ponto de vista da Supergirl, a história é relatada por Ruthye, já adulta, que recorda os acontecimentos alguns anos depois. Este recurso cria uma espécie de distanciamento, o que transforma a Supergirl numa figura quase mítica aos olhos da jovem narradora. Ao mesmo tempo, devo dizer que fiquei muito bem impressionado com a escrita de Tom King que se apresenta inspirada, com bom texto, bom ritmo e uma certo requinte que não é tão frequente assim em histórias de super-heróis. Não estava à espera de uma escrita tão elegante e aprimorada, devo dizer, portanto isso foi uma bela surpresa.

Ao longo da viagem das duas personagens, o argumentista constrói uma reflexão constante sobre violência, perda, maturidade e responsabilidade. A vingança de Ruthye acaba por funcionar apenas como um ponto de partida para um discurso muito mais amplo sobre o sofrimento e as escolhas que definem as pessoas. É uma obra que fala frequentemente da capacidade de continuar em frente apesar da dor. E essa dor é sentida por cada uma destas duas mulheres à sua própria maneira.

Supergirl - Mulher do Futuro, de Tom King e Bilquis Evely - Devir - DC Comics
O argumento destaca-se também pela forma como desenvolve a própria Supergirl. É verdade que a personagem foi muitas vezes retratada como uma versão secundária do Super-Homem, mas aqui ganha finalmente uma identidade própria, surgindo como alguém marcado por experiências traumáticas que Clark Kent jamais viveu, nomeadamente a recordação da destruição de Krypton e da vida que perdeu. E isso gera, claro, uma profundidade na personagem que me agradou bastante. E são especialmente as fragilidades da personagem aquilo que a torna mais interessante. Esta não é uma figura perfeita ou inalcançável, mas sim uma mulher que tenta fazer o melhor possível num universo frequentemente cruel e injusto.

Sendo um belo livro de banda desenhada, com uma abordagem madura e menos infantil, também devo dizer que, por vezes, a história parece mais preocupada com as ideias que pretende transmitir do que com a ação propriamente dita, o que pode afastar alguns leitores.

Outra coisa que não apreciei tanto na obra é que, sensivelmente a meio da mesma, a viagem de Kara e Ruthye começa a acumular episódios, encontros e desvios que nem sempre parecem contribuir de forma significativa para o desenvolvimento da história principal. Parecem "fillers". Embora Tom King mantenha a qualidade dos diálogos e dos temas abordados, concedo, fica a sensação de que várias personagens e acontecimentos introduzidos ao longo da demanda das personagens não são plenamente aproveitados nem têm o impacto dramático que inicialmente prometiam. Alguns destes elementos acabam por desaparecer da narrativa quase tão rapidamente como surgem, tornando o percurso algo irregular e diluindo parte da força emocional que a obra exibe nos seus momentos mais marcantes. Felizmente, a obra recupera o rumo na reta final e termina com a intensidade que o tornou tão elogiado.

Supergirl - Mulher do Futuro, de Tom King e Bilquis Evely - Devir - DC Comics
Visualmente, o álbum é absolutamente extraordinário. O trabalho meticuloso de Bilquis Evely eleva cada página a um nível impressionante. Os cenários alienígenas, os planetas visitados pelas protagonistas e a vastidão do espaço são retratados com um detalhe e uma beleza que raramente encontramos nas séries regulares de super-heróis. Existe uma elegância constante no traço que ajuda a equilibrar os momentos mais duros e violentos da narrativa.

E também a componente cromática merece igualmente destaque, com as cores a contribuírem para reforçar o ambiente onírico da obra, alternando entre paisagens luminosas e momentos mais sombrios. O resultado é um universo rico e visualmente inesquecível que parece saído de um grande livro ilustrado de fantasia.

Apesar de todas as suas qualidades, Supergirl - Mulher do Futuro poderá não conquistar todos os leitores. Quem procura uma aventura clássica de super-heróis, repleta de combate e espetáculo, poderá estranhar o ritmo mais contemplativo e a forte componente introspectiva da narrativa. É uma obra mais interessada em explorar personagens e emoções do que em oferecer ação constante. E, talvez mesmo por esta razão, e apesar de algumas ressalvas que apontei acima, gostei bastante deste livro.

Quanto à edição, a obra apresenta capa dura baça, bom papel brilhante no interior e uma excelente qualidade ao nível da encadernação, impressão e acabamentos. No final, há ainda uma galeria de desenhos e capas alternativas, com 12 páginas.

Em suma, Supergirl - Mulher do Futuro afirma-se como uma das melhores histórias protagonizadas por Kara Zor-El e uma das obras mais interessantes da DC Comics dos últimos anos. Tom King oferece-nos um argumento inteligente, emocionalmente rico e muito bem escrito, enquanto Bilquis Evely produz algumas das páginas mais belas que a personagem alguma vez recebeu. 


NOTA FINAL (1/10):
8.8


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Supergirl - Mulher do Futuro, de Tom King e Bilquis Evely - Devir - DC Comics

Ficha técnica
Supergirl - Mulher do Futuro
Autores: Tom King e Bilquis Evely
Editora: Devir
Páginas: 224, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Junho de 2026

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Análise: Brigantus #2 - O Picto

Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor

Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H.

Editado por cá no início de 2025, quando ainda não tínhamos perdido Hermann, um dos autores mais prolíficos da banda desenhada europeia, que viria a falecer já em 2026, este segundo capítulo de Brigantus, intitulado O Picto, encerra o último díptico da extensa carreira do autor.

Esta é uma história que nos leva à Britânia, ao coração da Escócia picta, numa altura em que o avanço das legiões romanas ameaça esmagar os últimos focos de resistência aí presentes. A narrativa continua a acompanhar Melo Brigantus, antigo soldado romano repudiado e expulso da legião, que havia encontrado refúgio entre os pictos, mas esse refúgio é apenas inicial, pois este homem parece ser persona non grata aonde quer que vá. 

Aliás, diria que esse é o cerne da questão: Brigantus é um homem dividido entre mundos opostos, alguém que não pertence verdadeiramente a lado nenhum. Um perfeito "outcast". Essa condição de excluído e de potencial traidor torna-se, pois, o principal motor dramático do álbum.

Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
O argumento desenvolve-se de forma muito direta, sem grandes adornos ou desvios narrativos. No fundo, estamos perante uma história sobre um homem rejeitado por todos aqueles que o rodeiam e que procura uma forma de redenção. A história funciona, sim, mas é algo direta em demasia, sem que haja grande profundidade no tema ou nas personagens.

Confesso que o primeiro tomo desta série, Banido, me deixou com a promessa de estarmos diante de algo mais especial. Havia elementos interessantes na construção do contexto histórico e na situação ambígua do protagonista, que pareciam apontar para um desenvolvimento mais marcante. No entanto, este segundo volume acaba por confirmar que Brigantus dificilmente figura entre os melhores trabalhos de qualquer um dos seus autores.

O argumento de Yves H. cumpre os mínimos exigíveis, mas raramente surpreende. Os acontecimentos sucedem-se de forma algo previsível e faltam momentos verdadeiramente memoráveis capazes de elevar a obra acima da média. Não me interpretem mal: a trama funciona e este livro até se lê bem, mas pouca coisa entusiasma. É uma leitura fluida, mas também algo esquecível. 

Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
Ainda assim, reitero que gostei da opção de abandonar os cenários do faroeste que tantas vezes marcaram as colaborações entre Hermann e Yves H., pai e filho, em detrimento de um ambiente inspirado nas guerras entre romanos e pictos, o que permitiu a exploração - ainda que superficial - de um cenário, de uma cultura e de um conflito diferentes. 

O que se calhar ainda posso referir é que senti uma clara carga emocional associada à leitura deste álbum, por este ser um livro que serve, de certa forma, para nos despedirmos de Hermann, um dos maiores mestres da banda desenhada europeia. É certo que este não foi o último álbum feito por Hermann antes do seu falecimento. A última obra a sair foi Cartagena, que acredito que a editora Arte de Autor venha a publicar junto de nós, se bem que ainda não há nenhuma confirmação oficial nesse sentido. Seja como for, e tendo eu lido este segundo tomo de Brigantus já depois do desaparecimento de Hermann, foi com um certo sentido de nostalgia e agradecimento que fiquei pelo conjunto da sua obra. A série Comanche, em especial, marcou-me bastante enquanto leitor de BD, quando ainda era criança. 

Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
Em termos de desenho, e em linha com o que vinha a acontecer já há alguns anos, sente-se que o autor estava menos inspirado e capaz neste Brigantus, com as suas ilustrações a evidenciarem uma perda de precisão e de exatidão. Certas proporções nas faces e corpos das personagens parecem estranhas, algumas perspectivas são construídas de forma pouco convincente e existe uma irregularidade gráfica que por vezes distrai da narrativa.

E as figuras humanas são, talvez, o exemplo mais evidente dessas fragilidades. Cabeças e corpos surgem frequentemente deformados, com traços por vezes excessivamente feios ou desadequados. Em vários momentos, as personagens parecem mal resolvidas e distantes do nível de excelência que outrora associávamos ao desenhador belga.

Curiosamente, esse mesmo lado grotesco acaba por funcionar melhor nas sequências mais violentas e viscerais deste Brigantus. As cenas de guerra, em concreto, até beneficiam dessa crueza expressiva, transmitindo uma sensação de brutalidade que encaixa bem no ambiente da obra. Gostei particularmente de alguns desses momentos de combate e também da sequência passada em alto-mar, uma das passagens visualmente mais conseguidas do álbum. E, claro, em termos de cores, Hermann manteve-se um mestre até ao fim dos seus dias. 

Mesmo assim, tenho que ser sincero e dizer que este Brigantus não é propriamente um trabalho que possamos considerar como memorável. Quer em termos narrativos, quer em termos de ilustração.

A edição da Arte de Autor mantém-se em linha com o volume anterior, apresentando capa dura baça, bom papel brilhante no miolo e um bom trabalho ao nível de impressão e encadernação.

Em suma, Brigantus #2 - O Picto é uma leitura competente, mas dificilmente memorável. A história nunca ultrapassa verdadeiramente os limites de um drama histórico simples e o desenho revela as debilidades de um autor já no ocaso da vida. Ainda assim, há algo de admirável na perseverança de Hermann, que continuou a trabalhar até aos seus últimos dias. Mesmo longe do seu auge, o mestre belga merece o respeito e a gratidão de todos os leitores pela extraordinária contribuição que deixou à banda desenhada europeia.


NOTA FINAL (1/10):
6.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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Brigantus #2 - O Picto, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor

Ficha técnica
Brigantus #2 - O Picto (2 de 2)
Autores: Hermann & Yves H.
Editora: Arte de Autor
Páginas: 586, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Fevereiro de 2025