quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Ala dos Livros encerra (por agora) a espetacular série "Shi"!




A Ala dos Livros prepara-se para publicar, a partir do próximo dia 8 de Setembro, o terceiro e último livro da série Shi, de Zidrou e Homs.

Faço aqui uma ressalva: supostamente, a série não está totalmente "fechada". É esperado que os autores venham a fazer mais um ciclo, dividido por dois tomos. 

Mas, pelo menos ao dia de hoje, podemos dizer que a série fica integralmente publicada em Portugal, pois apenas existem 6 volumes de Shi, divididos em dois ciclos: o primeiro ciclo, que inclui 4 tomos e que a Ala dos Livros editou em dois volumes duplos; e este segundo ciclo, composto por 2 tomos, respetivamente, Black Friday e O Grande Fedor, que a editora portuguesa se prepara agora para editar, novamente num álbum duplo.

Esta é uma série verdadeiramente espetacular, a todos os níveis, que recomendo vivamente a qualquer leitor. Tanto o primeiro como o segundo volume me deixaram abismalmente fascinado perante uma história tão densa e desenhos tão incríveis.

Por todos estes motivos, quero muito ler este volume que, por agora, encerra a série Shi.


Shi - Livro 3, de Zidrou e Homs

Após os acontecimentos em Londres, Jay e Kita săo, mais do que nunca, consideradas terroristas pela burguesia hipócrita.
No entanto, graças ao grupo "Măes Furiosas", a sua luta espalhou-se como fogo em palha seca. Tanto que a marca SHI nunca esteve tăo visível em Londres. No túmulo de Jay, Apolline começa a compreender a vida que a sua măe biológica levou até entăo. Uma vida de lutas e de batalhas, dedicada a uma causa. Mas será Apolline suficientemente forte para suportar o peso do seu legado? Estará preparada para assumir o lugar dessa măe falecida sobre quem nada sabe, excepto através de boatos populares e pedidos de resgate?

Londres, 1858. Enquanto Jay aguarda o seu julgamento na prisăo, após os trágicos eventos de Trafalgar Square, e tanto Kita como Sensei, com os seus demónios, lutam para recuperar dos seus ferimentos, uma nova calamidade assola a Inglaterra e a capital do Império Vitoriano. Uma onda de calor intensa seca o Tamisa, poluindo Londres e ameaçando reacender uma epidemia de cólera.

Mas isso năo impede as fundadoras das "Măes Furiosas" de planearem novos ataques, de lutarem pelo fim do trabalho infantil e de procurarem a filha de Jay. Só falta a encarnaçăo do quarto demónio para finalmente se vingarem do Império, porque, como diz a cantiga infantil: "4 é o seu número, o seu número maligno"... Desta vez, Zidrou mergulha as suas heroínas, sedentas por vingança e justiça social, no coraçăo de um evento histórico que ressoa com particular força nos dias de hoje: "O Grande Fedor", uma catástrofe climática que desencadeou uma verdadeira revoluçăo na saúde pública de Inglaterra. Um ambiente crepuscular onde a arte evocativa de Homs mais uma vez opera maravilhas.

“Shi” é uma das mais aclamadas séries da BD franco-belga da actualidade, uma obra fascinante que a Ala dos Livros publica em Portugal.

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Ficha técnica
Shi - Livro 3
Autores: Zidrou e Homs
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura, com lombada em tecido
Formato: 235 x 320 mm
PVP: 32,00€

Análise: Adèle Blanc-Sec - Série Completa

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir
Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi

Hoje falo-vos de Adèle Blanc-Sec, de Jacques Tardi, uma série que já conheço há muitos anos e que, embora já tivesse sido editada, em parte, pelas editoras Bertand e ASA, só foi integralmente editada, no final do ano passado, pelas mãos da editora Levoir. Coisa que merece as minhas vénias, pois a série tinha estado décadas - sim, décadas! - incompleta. Demorou 47 anos(!) entre a publicação do primeiro tomo, pela Bertrand, em 1978, e o último, em 2025, e não sei se isto é algo que nos devamos orgulhar ou envergonhar. Mas adiante!

Esta é uma série especial e profundamente original, que marcou bastante as minhas leituras durante os anos 90, quando a li pela primeira vez. E esta releitura que fiz de alguns clássicos - bem como, a primeira leitura de alguns dos tomos que eu ainda não conhecia - levou-me a mergulhar neste universo especial que, naturalmente, ocupa um lugar muito particular na história da banda desenhada europeia. 

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir
Publicada originalmente a partir de 1976, Adèle Blanc-Sec é uma série que parece diferente de todas as outras e que rapidamente se destacou pela sua combinação improvável de fantasia, terror, mistério, ficção científica, policial e sátira social. Sim, Adèle Blanc-Sec é tudo isso!

A protagonista, Adèle Blanc-Sec, é uma das grandes heroínas da banda desenhada europeia. Ela é escritora, aventureira, investigadora e uma mulher com uma independência pouco comum para a época em que as histórias decorrem. Adèle move-se por um mundo repleto de fenómenos inexplicáveis, cientistas loucos, sociedades secretas, múmias, monstros pré-históricos e conspirações de toda a espécie. E o mais curioso é que, apesar da extravagância dos acontecimentos, a personagem mantém quase sempre uma atitude pragmática perante o absurdo que a rodeia.

Considero que um dos maiores méritos da série é precisamente a forma como Tardi mistura géneros. As aventuras de Adèle começam muitas vezes como histórias policiais ou de mistério, mas rapidamente derivam para territórios fantásticos e surrealistas. Dinossauros que sobrevoam Paris, experiências científicas impossíveis ou figuras saídas do ocultismo - "you name it" - convivem naturalmente com uma recriação histórica meticulosa da capital francesa do início do século XX.

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir
Paris é, aliás, uma verdadeira protagonista da série. As ruas, os cafés, as avenidas, os monumentos e os bairros são recriados com um rigor impressionante por parte de Jacques Tardi. Como tal, essa é outra das coisas que me agrada nesta série: a de ser transportado para uma cidade que tanto admiro. As próprias guardas dos livros não só são lindas, como representam um autêntico postal ilustrado de Paris!

Outra das coisas que aprecio na série é o seu humor. É verdade que há uma presença frequente da morte, do crime, do sobrenatural e de acontecimentos perturbadores, mas a série é constantemente atravessada por uma ironia subtil. Tardi ridiculariza autoridades, cientistas, militares, burocratas e figuras do poder com uma elegância mordaz. Mas atenção que não é um tipo de humor que se apoie em gags ou trocadilhos... é um estilo de humor que nasce mais do contraste entre a seriedade das personagens e o absurdo das situações em que elas se veem metidas.

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir
Mas nem tudo é leveza na série porque, contrariamente a algumas bandas desenhadas mais clássicas de aventura, há frequentemente uma atmosfera melancólica e desencantada. E isso, parece-me, acontece porque existe uma certa dureza no olhar de Tardi sobre a sociedade, sobre o exercício do poder e sobre a natureza humana. 

É também justo reconhecer que Adèle Blanc-Sec nem sempre é uma leitura fácil ou entusiasmante. A liberdade criativa de Tardi, que constitui uma das grandes forças da série, reconheço, pode igualmente transformar-se numa das suas maiores limitações. Isto porque a sucessão constante de acontecimentos absurdos ou delirantes tende, nalguns casos, a enfraquecer a credibilidade do enredo e a reduzir o envolvimento emocional do leitor. Pelo menos, foi isso que senti nesta nova leitura que fiz de alguns álbuns mais clássicos. Certos elementos do fantástico deixaram-me muito impressionados quando li a série enquanto adolescente, mas, no tempo presente, senti que alguns acontecimentos nas histórias eram algo forçados em demasia.

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir
Visualmente, os desenhos de Jacques Tardi, essa celebridade da banda desenhada francesa - e não só - apresentam um traço verdadeiramente reconhecível. Tardi é mais um daqueles autores em que nos basta olhar durante segundos para um desenho seu para percebermos logo quem é o autor. Não se trata de um desenho exuberante ou excessivamente espetacular, mas de um estilo profundamente eficaz e expressivo. Considero que, por vezes, existe algum caos visual, com balões com bastante texto e encavalitados junto às personagens, mas diria que isso também faz parte do charme singular das obras do autor.

Pessoalmente, considero que os primeiros volumes continuam a representar o auge criativo da série. Existe neles uma frescura, uma imprevisibilidade e um sentido de descoberta que dificilmente se repetem mais tarde. Ou melhor, até se repetem, mas sem a mesma frescura. Isso não significa que os álbuns posteriores sejam fracos. Apenas que os primeiros tomos possuem, a meu ver, uma maior energia criativa e um encanto difícil de replicar.

Em termos de edição, a Levoir apresentou-nos um bom trabalho. Cada um dos volumes apresenta capa dura brilhante - exceto os dois últimos volumes, O Labirinto Infernal e O Bebé de Buttes-Chaumont, o que merece a minha única chamada negativa à edição. Tratando-se de uma coleção integral, este lapso foi uma pena. De resto, os livros apresentam bom papel brilhante no interior e um bom trabalho ao nível da impressão e encadernação.

No final, Adèle Blanc-Sec permanece uma das grandes criações da banda desenhada europeia, e recomenda-se a públicos de todas as idades. Original, inventiva e elegante, a série demonstra que é muito mais do que uma simples sucessão de aventuras fantásticas. É uma obra que continua a surpreender pela inteligência, pela imaginação e pela capacidade de transformar o passado histórico num território sem limites para a fantasia. Um clássico da banda desenhada, portanto.


NOTA FINAL (1/10):
9.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Fichas técnicas
Adèle Blanc-Sec #1 - Adèle e o Monstro
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Junho de 2024

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #2 - O Demónio da Torre Eiffel
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Julho de 2024

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #3 - O Cientista Louco
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Setembro de 2024

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #4 - Múmias à Solta
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Fevereiro de 2025

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #5 - O Segredo de Salamandra
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores  
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Junho de 2024

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #6 - O Afogado com as Duas Cabeças
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Julho de 2024

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #7 - Todos os Monstros
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Setembro de 2024

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #8 - O Mistério das Profundezas
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Fevereiro de 2025

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #9 - O Labirinto Infernal
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Outubro de 2025

Adèle Blanc-Sec - Série Completa, de Jacques Tardi - Levoir

Adèle Blanc-Sec #10 - O Bebé de Buttes-Chaumont
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 72, a cores 
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Outubro de 2025

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Vem aí o segundo e último volume de "Blast"!



"What a blast!"

A editora Ala dos Livros prepara-se para fazer chegar às livrarias portuguesas, já a partir do próximo dia 8 de setembro, o segundo e último volume de Blast, de Manu Larcenet!

Recordo que a série original contém 4 tomos e que a edição portuguesa desta obra marcante está dividida em dois volumes duplos. O que quer dizer que, daqui a alguns dias, já poderemos reunir nas nossas estantes a obra inteira em português! 

Coisa que, há cerca de um ano, poucos achariam possível, tendo em conta a dimensão da obra. Lembro-me que muita gente achava que nenhuma editora teria a coragem ou a força para editar esta obra. Mas a Ala dos Livros lá provou o contrário.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse e algumas promocionais deste livro que quero muito ler.


Blast - Integral (2/2), de Manu Larcenet

Polza Mancini, ainda sob custódia policial após a morte de uma jovem, relata as suas memórias na busca desesperada pelo Blast, "a explosão" — aqueles momentos mágicos que o transportam para outro lugar —, bem como as suas estadias em hospitais psiquiátricos, os seus terrores e pesadelos...
O segundo e último volume integral daquela que é por muitos considerada como a obra-prima de Manu Larcenet, uma obra artística exemplar, Blast, não deixará ninguém indiferente. Primeiro, pela sua forma: quatro álbuns publicados em Portugal em dois volumes integrais densos, sombrios e trágicos, repletos de humanidade transbordante e selvajaria fascinante. Depois, pelas suas qualidades gráficas e narrativas excepcionais que o tornam uma rara preciosidade editorial. Este segundo integral encerra, com rara mestria no argumento, a viagem de um homem cativante. Uma conclusão contundente que deixa o leitor sem palavras.

BLAST, a obra mais pessoal e que muitos consideram a obra maior de Manu Larcenet - (“O Relatório de Brodeck”, “A Estrada”…) – é uma história grandiosa, sombria e dura, carregada de um humanismo comovente.
Depois da publicação de O Relatório de Brodeck, e A Estrada, também da autoria de Manu Larcenet, BLAST, é uma obra marcante e imprescindível, que a ALA DOS LIVROS se orgulha de publicar em Portugal.

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Ficha técnica
Blast - Integral (2/2)
Autor: Manu Larcenet
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 408, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 225 x 280 mm
PVP: 49,90€

Análise: Estamos Todas Bem

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público
Estamos Todas Bem, de Ana Penyas

O oitavo lançamento da atual Coleção de Novelas Gráficas, da Levoir e do jornal Público, trouxe-nos este Estamos Todas Bem, de Ana Penyas, obra bastante aclamada em Espanha, aquando do seu lançamento original em 2017, tendo conquistado vários prémios, entre os quais o Premio Nacional del Cómic.

E estamos perante um livro deveras interessante, de facto. Não diria que seja um livro perfeito, até porque fica um pouco aquém do próprio potencial que apresenta, como veremos adiante, mas é um belo e singular livro.

A obra nasce das memórias familiares da autora, mas rapidamente se transforma em algo maior. Através das recordações das suas avós, Maruja e Herminia, Ana Penyas traça o retrato de uma geração de mulheres que viveu sob o peso do franquismo e que atravessou, já em idade adulta, a transição para a democracia espanhola. E mais do que contar uma história linear, a autora recupera fragmentos de vidas, momentos aparentemente banais, mas que juntos formam um mosaico profundamente humano sobre aquilo que é ser mulher... e idosa... e avó no mundo moderno.

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público

Talvez por isso seja uma obra que facilmente nos toca a todos, fazendo-nos pensar no peso da velhice e da solidão da sensação de se estar no último capítulo da vida. E não é que estes sejam temas analisados de forma profunda pela autora, mas, mesmo assim, é quase impossível que não reflitamos sobre os mesmos quando lemos este Estamos Todas Bem que, também pelo título, me remeteu para o fabuloso filme Estão Todos Bem, com Robert de Niro.

Desde as primeiras páginas, somos apresentados a Maruja já na velhice, enfrentando uma cidade que parece ter deixado de ser feita para ela. Caminhar torna-se um desafio, os percursos mais simples transformam-se em pequenas odisseias e a solidão espalha-se pelos dias. Já Herminia, a outra avó, sente-se igualmente só, mesmo que tenha tantos filhos. Mas os filhos têm as suas próprias vidas ocupadas e não visitam a mãe tantas vezes como esta gostaria. E é neste presente silencioso que as memórias começam a emergir, misturando tempos, vozes e emoções.

A narrativa alterna constantemente entre passado e presente. As recordações da juventude, do trabalho, da família e das limitações impostas às mulheres daquela época surgem sem avisar, quase como acontece com as próprias memórias. Há algo de muito verdadeiro nesta forma de contar, porque a vida raramente se organiza em capítulos perfeitos. O passado aparece-nos aos pedaços, ligado por sentimentos mais do que por datas. É verdade que, em termos de fluência narrativa, acaba por não ser perfeito, como abordarei mais à frente.

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público


Gostei particularmente da forma como a obra presta homenagem às mulheres comuns. Não às heroínas dos livros de História, mas àquelas que cozinharam, limparam, criaram filhos, trabalharam sem reconhecimento e carregaram sobre os ombros o peso de uma sociedade profundamente desigual. Ana Penyas devolve-lhes uma voz que durante demasiado tempo permaneceu ausente. 

O tom da narrativa revela uma sensibilidade admirável. É um relato emotivo, mas sem nunca se tornar lamechas ou excessivamente sentimental. A autora Ana Penyas mostra-nos que a emoção mais forte muitas vezes até pode habitar nos mais pequenos gestos, como uma fotografia guardada numa gaveta, uma conversa interrompida, um silêncio à mesa. O livro encontra essa beleza subtil nessas coisas aparentemente insignificantes.

E, claro, à semelhança de um Rugas, de Paco Roca, de um O Mergulho, de Séverine Vidal e Víctor Pinel, de um Não Me Esqueças, de Alix Garin, ou mesmo de um O Corvo #VII - O Despertar dos Esquecidos, de Luís Louro, este Estamos Todas Bem oferece-nos uma reflexão muito subtil sobre o envelhecimento. O corpo que já não responde como antes, os amigos que desapareceram, a sensação de que o mundo continua a avançar sem esperar pelos mais velhos. Ana Penyas aborda estes temas com delicadeza, sem dramatismos desnecessários, permitindo que seja o leitor a descobrir a tristeza e a dignidade escondidas em cada página.

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público


Ainda assim, em termos narrativos, a obra não é totalmente irrepreensível, como já referi. Por vezes, falta um certo fio condutor que una melhor os acontecimentos, havendo alguma desconexação entre momentos, o que nos pode dar a ideia que a história é algo remendada. Bem sei que referi acima que o passado nos aparece aos pedaços. É verdade. Mas, mesmo assim, a obra tem algumas fragilidades na própria passagem entre momentos que, em alguns casos, parece que "caíram de paraquedas" em determinada prancha, como se fosse obra do acaso.

E esta opção acaba por gerar uma certa sensação de infinitude, pois parece que a obra não fica particularmente fechada. E quando digo isto não me refiro ao final propriamente dito, que até gostei, mas à própria resolução narrativa. Talvez seja isso aquilo que não permite que a obra se torne tão inolvidável, ainda que seja um bom livro, com boas ideias. Fica quase a ideia de que havia potencial para mais. Ainda assim, aquilo que nos é oferecido é suficientemente rico e interessante para justificar plenamente a viagem.

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público


Em termos de desenho, Ana Penyas apresenta um trabalho muito particular. Os desenhos possuem um traço caricatural, por vezes grotesco e até algo sorumbático. Pessoalmente, não foi um estilo que me conquistasse por completo, e imagino que possa afastar alguns leitores. Contudo, é impossível negar que confere à obra uma identidade visual muito própria e que, naturalmente, são desenhos com a sua própria beleza.

Além disso, uma nota positiva deve ser dada à forma como a autora procura não se repetir em termos visuais, dando-nos uma planificação dinâmica - e que sabe beneficiar do formato italiano da obra - utilizando colagens e vinhetas de diversos tamanhos, para não se tornar repetitiva.

Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público

 

A edição é em capa dura, com papel baço no interior e um bom trabalho ao nível da impressão e encadernação.

Tenho que referir que, novamente, não faz sentido que a edição portuguesa da obra tenha o subtítulo "Homenagem a Uma Geração de Mulheres Sem Voz". Percebo o apelativo comercial que a editora quer atribuir à sua obra, mas considero que há formas e formas de o fazer e aquela que foi escolhida, não é particularmente feliz. Já fiz referência a esta opção da editora em Albert Londres tem de Desaparecer e tenho que o fazer novamente. E, por esse motivo, até cito as minhas próprias palavras: "mais do que ser um subtítulo que não era necessário, nunca poderia ter sido colocado daquela forma, com aquela dimensão, naquele local da página. Acho que foi um ato falhado que até acaba por estragar a bela ilustração da capa." Talvez no caso deste Estamos Todas Bem o crime de grafismo não seja tão grande como em Albert Londres tem de Desaparecer, mas ainda assim, não devia ter ocorrido.

Em suma, Estamos Todas Bem é daqueles livros que não impressionam tanto pelo que contam, mas pela forma como permanecem connosco depois de fechados. As memórias destas mulheres acabam por se confundir com as memórias das nossas próprias avós, das nossas mães, ou de tantas outras mulheres que viveram vidas discretas e, por isso mesmo, tantas vezes esquecidas. Apesar de algumas fragilidades narrativas e de um estilo gráfico que dificilmente reunirá consenso, Ana Penyas consegue construir uma obra cheia de humanidade e de ternura. 


NOTA FINAL (1/10):
8.7


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Estamos Todas Bem, de Ana Penyas - Levoir - Público
Ficha técnica
Estamos Todas Bem
Autora: Ana Penyas
Editora: Levoir
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 170 mm
Lançamento: Agosto de 2026