sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Análise: Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho

Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público

Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público
Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez

Se há capas que enganam, a capa deste Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, mais uma das obras inseridas na Coleção de Novelas Gráficas da editora Levoir e do jornal Público, é uma delas. Trata-se de uma capa lindíssima, de belo desenho e - ainda mais - belas cores que muito me deixou com vontade de ler o livro. O próprio título da obra, fazendo referência ao autor e à sua obra maior, parecia prometer um mergulho na criação de O Principezinho. Contudo, depois de feita a leitura, posso dizer-vos que, não sendo um mau livro, este Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho está longe de ter respondido às minhas expectativas. O que é pena, tendo em conta que a propósito do 80º aniversário da publicação original de O Principezinho esta seja já a segunda banda desenhada editada em Portugal. A primeira foi O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard, pela ASA, que também ficou bastante aquém do esperado.

Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público
O argumento de Pierre-Roland Saint-Dizier procura construir uma biografia de Antoine de Saint-Exupéry a partir dos anos em que o futuro escritor alimentava o sonho de se tornar piloto. Acompanhamos a sua entrada no mundo da aviação, as amizades que foi estabelecendo e alguns dos episódios mais marcantes de uma vida que viria a ser tão extraordinária quanto atribulada.

O problema é que o livro nunca parece decidir verdadeiramente qual é a história que quer contar. Será uma biografia de Saint-Exupéry? Será uma exploração da génese de O Principezinho? Será uma homenagem à aviação pioneira do início do século XX? Ao tentar ser tudo isso ao mesmo tempo, com especial ênfase nesta última, acaba por não se afirmar plenamente em nenhuma dessas dimensões.

A estrutura narrativa revela precisamente essa indecisão. Em vez de uma progressão sólida e cuidadosamente construída, encontramos uma sucessão de episódios mais ou menos autónomos que vão desfilando perante o leitor. Há acontecimentos, há encontros e há mudanças de cenário, mas raramente existe a sensação de uma linha dramática robusta que dê unidade ao conjunto.

Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público
Especialmente na primeira parte da obra aquilo que acompanhamos é um relato carregado de informações não relevantes assim e quase burocrático dos primórdios da vida de Saint-Exupéry enquanto aviador. Vemo-lo ingressar na empresa de correio aéreo Latécoère, que mais tarde viria a transformar-se, primeiro, na célebre Aéropostale e, depois, na Air France. Nesse contexto, o jovem piloto é enviado para Cap Juby, no coração do Saara, onde enfrenta os desafios inerentes às primeiras experiências da aviação comercial e postal. Embora estes episódios possuam interesse histórico, a forma como são apresentados acaba por se revelar excessivamente informativa e pouco envolvente. O livro preocupa-se em registar factos, datas e personagens, mas nem sempre consegue transformar esse material numa narrativa emocionante. Muitas vezes temos a sensação de estar perante uma enumeração de acontecimentos em vez de uma verdadeira história.

Essa tendência agrava-se à medida que novas figuras entram em cena. Surgem inúmeras personagens secundárias, algumas delas apresentadas de forma tão breve que mal deixam impressão. Fica a sensação de que muitas aparecem mais por uma questão de rigor factual ou enciclopédico do que por desempenharem uma função relevante na construção dramática da obra. O argumenista não apresenta, portanto, aquele poder de síntese e de capacidade para perceber o que é importante referir e o que é acessório.

Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público
Mas onde, quanto a mim, o livro mais falha, é na relação prometida pelo próprio título. Há muito Saint-Exupéry neste livro e pouco Principezinho. Não que faltem referências à obra maior do autor, mas estas parecem frequentemente introduzidas de forma artificial, como se o argumento se recordasse ocasionalmente da promessa feita ao leitor através da capa e título da obra e procurasse cumpri-la à pressa e à bruta.

Na verdade, fala-se muito, mas diz-se pouco. Há várias alusões que procuram estabelecer pontes entre a vida do escritor e a criação da sua personagem mais famosa, sim, mas essas ligações raramente são desenvolvidas com profundidade suficiente para produzirem uma reflexão verdadeiramente esclarecedora. Se, afinal de contas, “o essencial é invisível aos olhos” é pena que também acabe algo invisível nesta obra. Talvez, em detrimento de sabermos (todas?) as vicissitudes que Antoine Saint-Exupéry enfrentou para ser piloto de aviação, fosse preferível mergulharmos mais na forma como pensou e projetou O Principezinho. Digo eu.

A própria inclusão de um caderno final, denominado "A Origem do Principezinho" parece dar razão ao que acabo de escrever. Este conjunto de extras, que inclui texto e desenhos, faz uma bela ponte entre a BD, propriamente dita, e a obra de Saint-Exupéry, oferecendo-nos - e bem - aquilo que a banda desenhada não conseguiu oferecer. Acaba por ser um bom complemento ao livro, mas que, paradoxalmente, revela que a BD andou muito às voltas do que aquilo que realmente interessava.

Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público
Só mais no final da obra é que o argumentista se procura aproximar mais do universo de O Principezinho. Mas já vai tarde, diria, pois torna-se uma aproximação forçada e pouco convincente.

Em termos de desenho, Cédric Fernandez oferece-nos um trabalho competente, ainda que irregular. Existem vinhetas muito bem conseguidas, particularmente nas paisagens africanas e nas sequências ligadas à aviação, onde o sentido de escala e de movimento se faz sentir com eficácia. No entanto, essas qualidades coexistem com desenhos que mereciam maior aprumo visual. O autor parece, por vezes, esconder essa fragilidade através da utilização de vinhetas mais pequenas, que permitem um traço mais esboçado e menos detalhado, mas essa opção não deixa de ser facilmente notada pelo olho atento.

Quanto à edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço e boa encadernação. Senti que algumas das páginas apresentam os desenhos ligeiramente desfocados. Não é algo que salte sempre à vista ou que ponha em causa a boa leitura da obra, mas é algo com que me deparei mais vezes do que o conveniente. O caderno de extras, com 18 páginas, já por mim mencionado, é um ótimo acrescento à edição. É daqueles extras que, além de dar mais algumas informações sobre a obra, ainda consegue o feito de melhorar a obra. Nota positiva para o facto deste livro reunir os três tomos em que a obra foi originalmente editada. Boa opção da Levoir. 

Concluindo, não quero ser demasiado negativo. Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho não é uma má leitura nem um livro destituído de interesse. Tem valor enquanto retrato biográfico e oferece alguns momentos visualmente apelativos. Ainda assim, permanece a sensação de oportunidade perdida. Ao querer abarcar demasiados acontecimentos, demasiadas personagens e demasiados objetivos em simultâneo, os autores acabaram por construir uma obra dispersa e episódica, que raramente encontra o foco necessário para se tornar verdadeiramente memorável. É um livro agradável, mas fica a impressão de que passou muito perto de ser algo bastante mais marcante. E isso é inglório.


NOTA FINAL (1/10):
7.9



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


-/-

Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público

Ficha técnica
Saint-Exupéry e a origem do Principezinho
Autores: Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez
Editora: Levoir
Páginas: 176, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
Lançamento: Agosto de 2026

Sai hoje com o público o novo livro de Zerocalcare!



Para aqueles que, como eu, adoraram Kobane Calling - igualmente editado por cá pela Levoir - ou as séries da Netflix de Zerocalcare, esta é uma fantástica notícia!

Sai hoje, com o jornal Público, No Sleep Till Shengal, nova obra do autor italiano e penúltimo livro da Coleção de Novelas Gráficas lançada pela Levoir e pelo jornal Público.

Bem sabem que não gosto de opinar sobre livros que ainda não li... mas, no caso em questão, tenho quase a certeza de que vou gostar muito, já que sou um confesso admirador da obra de Zerocalcare.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais.
No Sleep Till Shengal, de Zerocalcare

Na reta final da colecção Novela Gráfica, a Levoir e o Público editam a 9 de Outubro No Sleep till Shengal, do autor italiano Zerocalcare.

Zerocalcare é um cartoonista italiano cujas bandas desenhadas alcançaram um estatuto icónico na última década. O seu traço é excelente, mas foi com a sua escrita que conquistou a fama. As suas histórias são divertidas de ler e, ao mesmo tempo, profundas e vibrantes.

Após o sucesso internacional de Kobane Calling, traduzido para 15 línguas, incluindo a portuguesa, a Levoir editou-o em 2024, Zerocalcare regressa na Primavera de 2021 ao Médio Oriente.
Viaja para o norte do Iraque, até ao seio da comunidade ezidi, um povo que sobreviveu ao genocídio do ISIS em 2014 e que se encontra sob a proteção das milícias curdas, cuja autonomia está ameaçada pelas tensões internacionais. 

O objetivo é documentar as suas condições de vida e a sua luta. 

Esta é a crónica de um momento geopolítico específico, em que um punhado de pessoas se opõe ao poder esmagador daqueles que chamam de «terrorismo» qualquer tentativa de resistência, enquanto o sonho do confederalismo democrático corre o risco de desaparecer para sempre perante a indiferença do Ocidente.

No Sleep till Shengal revela-se mais dramático do que a sua anterior reportagem contada em Kobane Calling. Zerocalcare explica o porquê: É mais dramático por duas razões.
"As pessoas que encontrei em Shengal parecem oprimidas por um manto de dor e trauma que, pelo contrário, não tinha percebido com a mesma intensidade na Síria. Não porque lá não tivessem sofrido ofensivas do ISIS, massacres ou lutos familiares, mas em Shengal pareceu-me que havia algo de diferente, muito mais coletivo."

-/-

Ficha técnica
No Sleep Till Shengal
Autor: Zerocalcare
Editora: Levoir
Páginas: 208, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
PVP: 16,90€

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

A ASA acaba de publicar "Terra ou Lua"!



A ASA acaba de lançar uma das suas grandes apostas de BD para a segunda metade de 2026!

Falo de Terra ou Lua, de Jade Khoo, uma obra com quase 300 páginas, que no estrangeiro tem vindo a conquistar o consenso da crítica e leitores, tendo inclusive sido nomeada aos prémios BD FNAC – France Inter.

Este é o primeiro de dois tomos, sendo que a segunda parte da obra é esperada para o primeiro semestre de 2027.

O livro já se encontra à venda nas livrarias portuguesas.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.
Terra ou Lua, de Jade Khoo

Por mais que Otelo repita isso incessantemente, o ato que acabou de cometer é irreparável. 

Com apenas sete anos, ele, que só tinha olhos para os pássaros e as suas promessas de fuga, acabou de matar o pai. 

Por trás desta tragédia familiar, muitos segredos enterrados, uma infância violada e a sombra de um legado cujo alcance ele ainda desconhece.


-/-

Ficha técnica
Terra ou Lua
Autora: Jade Khoo
Editora: ASA
Páginas: 296, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 29,1 x 22 mm
PVP: 36,90€

Análise: No Rasto de Blueberry

No Rasto de Blueberry, de vários autores - ASA - LeYa

No Rasto de Blueberry, de vários autores - ASA - LeYa
No Rasto de Blueberry, de vários autores

No Rasto de Blueberry, uma das mais recentes apostas da editora ASA, surge como uma celebração assumida dos 60 anos de Blueberry, uma das personagens mais emblemáticas da banda desenhada franco-belga. Criado por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud, Mike Steve Blueberry marcou gerações de leitores e tornou-se uma referência incontornável do western em BD. Quando falamos em "banda desenhada de cowboys" é bem provável que Blueberry seja a primeira série a vir-nos à cabeça. Ou uma das primerias, vá. E este álbum coletivo procura assinalar essa longevidade através da reunião de numerosos autores consagrados, convidados a prestar a sua homenagem a uma série que continua a influenciar criadores e leitores em todo o mundo.

A principal virtude deste livro reside precisamente na sua natureza de homenagem. Em vez de tentar reinventar ou subverter o universo de Blueberry, os diferentes autores que participam nesta antologia optam por celebrar os elementos que fizeram da personagem um ícone: a aventura, o sentido épico, os cenários do Oeste americano e o carisma de um protagonista que sempre se distinguiu pela sua personalidade complexa e pouco convencional. Por vezes parecia pautado por uma forte código de valores, noutras situações o Tenente Blueberry parecia um verdadeiro "badass". E essa é uma dicotomia que sempre apreciei na série.

No Rasto de Blueberry, de vários autores - ASA - LeYa
Neste No Rasto de Blueberry a diversidade de vozes criativas é impressionante. Autores como Enrico Marini, Dominique Bertail, Fred Duval, Matz, Corentin Rouge ou Olivier Taduc juntam-se a muitos outros nomes reconhecidos para nos oferecer histórias curtas e ilustrações que, logicamente, refletem diferentes sensibilidades artísticas. Mesmo assim, e apesar da variedade de abordagens, existe uma evidente preocupação de todos os autores envolvidos em respeitar o legado deixado por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud.

As narrativas reunidas nesta antologia exploram caminhos distintos. Algumas procuram preencher pequenas lacunas da cronologia de Blueberry, enquanto outras desenvolvem novas situações inspiradas em períodos ou álbuns particularmente marcantes da série. Esta estratégia é bem-vinda, uma vez que permite revisitar momentos familiares para os leitores mais antigos e conhecedores da série, ao mesmo tempo que oferece perspetivas inéditas sobre o universo da personagem.

Como acontece frequentemente em projetos deste género, a qualidade das histórias revela algumas oscilações. Naturalmente, e quiçá consoante os gostos de cada um, há episódios mais inspirados e outros menos memoráveis, mesmo sendo verdade que se sente que os autores abordaram o desafio com respeito e genuína admiração pela obra original. E isso é especialmente verificável quando, no início de cada história, nos é dado um breve comentário de cada um dos autores participantes em que os mesmos nos revelam o quão importante foi Blueberry nas suas vidas.

No Rasto de Blueberry, de vários autores - ASA - LeYa
Uma das fragilidades da obra - embora já fosse totalmente expectável - é que a limitação imposta pelo formato curto das histórias impede, naturalmente, um desenvolvimento mais aprofundado das tramas e das personagens. Muitas histórias terminam precisamente quando começamos a desejar uma exploração mais extensa das suas premissas. Mas, bem, isso é algo comum em antologias com histórias curtas.

Por outro lado, um dos aspetos mais positivos do álbum é a forma como preserva o espírito da série clássica. Quer do ponto de vista narrativo, quer na representação visual de Blueberry e do Oeste americano, existe uma preocupação constante em manter a identidade da criação original. 

É, contudo, na componente gráfica que No Rasto de Blueberry atinge alguns dos seus momentos mais marcantes. O livro tem muitos momentos de alto nível, com alguns autores a aplicarem-se verdadeiramente na forma como homenageiam o trabalho incrível de Jean Giraud. Entre os quais, destaco os de Enrico Marini, Dominique Bertail, Vincent Perriot e de Paul Gastine que é, a meu ver, o ilustrador que nos oferece, em termos de desenho, o melhor contributo do álbum. Nota ainda para a inclusão de ilustrações de vários autores de renome como Blutch, Milo Manara ou Ralph Meyer. A capa é da autoria de Mathieu Lauffray.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço no interior, boa encadernação e boa impressão. No início, há ainda um texto de duas páginas sobre Blueberry e os seus autores.

Em suma, No Rasto de Blueberry cumpre plenamente o seu objetivo: homenagear um dos cowboys mais famosos da história da banda desenhada e assinalar com dignidade os 60 anos de existência de uma personagem verdadeiramente icónica, quer marcou gerações e cujo potencial aventureiro não se encontra ainda extinto.


NOTA FINAL (1/10):
8.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


-/-

No Rasto de Blueberry, de vários autores - ASA - LeYa

Ficha técnica
No Rasto de Blueberry
Autores: Vários
Editora: ASA
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Setembro de 2026