quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Análise: SHI - Livro 2 (Tomos 3 e 4)

SHI - Livro 2 (Tomos 3 e 4), de Zidrou e Homs - Ala dos Livros

SHI - Livro 2 (Tomos 3 e 4), de Zidrou e Homs - Ala dos Livros
SHI - Livro 2 (Tomos 3 e 4), de Zidrou e Homs

O primeiro volume da série Shi, editado em Portugal no final de 2024, já me tinha deixado maravilhado, confesso. Mesmo assim, mantive, na altura, algumas reticências, pois bem sei - e o leitor mais batido certamente concordará comigo - que comuns são os casos em que boas premissas e boas ideias, acabam por não ser devidamente bem trabalhadas, de forma a criar algo mais grandioso do que o banal. Pois bem, agora que finalizei a leitura do primeiro ciclo de Shi, da autoria de Zidrou e Homs, posso dizer-vos que ainda fiquei mais agradado do que na leitura dos primeiros tomos! Se é que isso era possível!

Ler os quatro primeiros tomos de Shi - especialmente se for feito de uma vez - é como atravessar Londres sob um céu permanentemente carregado: sabemos que a tempestade vai cair, mas não conseguimos desviar o olhar. Zidrou constrói uma narrativa densa, suja e fascinante, onde a lama das ruas vitorianas se cola às personagens e às suas escolhas. Sente-se a premência de um peso trágico, quase fatalista, que nos acompanha desde a primeira página e que se adensa, de forma magistral, nos tomos três e quatro, respetivamente, Vingança! e Vitória, que a editora Ala dos Livros publicou há poucos dias num só volume.

SHI - Livro 2 (Tomos 3 e 4), de Zidrou e Homs - Ala dos Livros
A história ambientada na Londres da época vitoriana - ou não fosse a própria Rainha Vitória personagem e peça relevante para a trama - volta a colocar-no encalço das três mulheres Jennifer, Kita e Pickles. Depois dos eventos trágicos do álbum anterior, que levaram Jennifer a unir forças a Kita e a desertar da sua influente família Winterfield, começamos por acompanhar os efeitos que as fotografias tiradas por Jennifer a proeminentes homens da sociedade inglesa, que procuravam satisfazer os seus caprichos sexuais mais inusitados num bordel, começam a criar.

Daí a história espraia-se, a vários níveis, para um enredo em que a união destas mulheres parece menos temporária e com um fim e um propósito maior, quiçá perpétuo, na luta perante os homens que perseguem as mulheres. É, acima de tudo, uma história de vingança a fazer lembrar, com as devidas distâncias, O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.

Neste novo volume que fecha o primeiro ciclo da série - e relembro que a série está pensada para ter mais 4 tomos, divididos por 2 ciclos, estando apenas publicado na língua original o segundo ciclo - a narrativa ganha uma espessura impressionante. As peças do puzzle começam a encaixar com uma precisão quase cruel, revelando personagens maquiavélicas, interesses obscuros e jogos de poder que vão muito além das protagonistas. É aqui que se torna inequívoco que Shi não é apenas uma boa série: é uma obra ambiciosa, pensada ao detalhe, sem medo de ir longe demais. Se aprecio muito - muito, mesmo! - o tom humanista das histórias de Zidrou contido noutros belíssimos livros (todos eles publicados em Portugal) como A FeraNaturezas Mortas, A Adopção, Emma G. Wildford, Lydie ou Verões Felizes, tenho que admitir que é em Shi que o autor vai (ainda) mais longe, oferecendo-nos, até à data, a sua obra mais ousada e ambiciosa.

De resto, a relação entre Jennifer e Kita é o verdadeiro coração pulsante da obra. Duas mulheres de origens opostas, unidas primeiro pelo choque e depois pelo ódio, acabam por construir uma ligação que ultrapassa culturas, línguas e convenções sociais. Não é uma amizade romântica nem idealizada; é uma aliança forjada na dor, na sobrevivência e na sede de justiça e, consequentemente, de vingança. O ideograma “shi”, que significa "morte", transforma-se num símbolo recorrente, quase ritualístico, que marca não apenas cadáveres, mas a falência moral de toda uma sociedade.

A perseguição policial, a presença ameaçadora do temível vilão Kurb e a fuga de Kita e Jennifer com a ajuda do Sensei, acrescentam tensão constante à leitura. Nada parece gratuito; cada decisão tem consequências, cada vitória cobra um preço. E quando Jennifer e Kita unem forças com os Dead Ends, um grupo de crianças órfãs, que nos remete para as personagens de Charles Dickens, a história assume definitivamente contornos políticos, quase revolucionários, apontando o dedo ao próprio Império Britânico.

SHI - Livro 2 (Tomos 3 e 4), de Zidrou e Homs - Ala dos Livros
A tentativa de vingança contra o império, aproveitando o contexto histórico das decisões da Rainha Vitória e das tensões com as colónias americanas, revela um argumento que respeita e reinventa a História. Mesmo que a adapte para fins narrativos. 

E além de tudo isso - que já é muito! - Shi ainda consegue ser também um grito de revolta feminista. A obra expõe, sem filtros, as injustiças sofridas pelas mulheres na sociedade vitoriana (e não só) mostrando  a violência de que são alvos, a hipocrisia da "força" masculina e a instrumentalização dos corpos das mulheres. A própria maternidade, tantas vezes apagada ou menosprezada ao longo da História da Humanidade, surge aqui como um motivo de dor, mas também de resistência.

Zidrou demonstra uma notável habilidade em misturar muitos géneros de forma feliz e sem nunca perder o controlo do tom. Em Shi há aventura, ação, intriga policial, inspiração histórica e até uma camada subtil de fantasia, sempre bem doseada. Até o próprio humor existe, mas é discreto, quase irónico, surgindo nos momentos certos para aliviar a tensão sem a quebrar. Os diálogos são impactantes, afiados e carregados de subtexto. Dá a ideia de que Zidrou colocou toda a “carne no assador”, pois, criativamente falando, não há medo do excesso. E é precisamente isso que torna o resultado tão poderoso.

E se encantado fiquei com o belo argumento arquitetado por Zidrou, que posso dizer sobre os desenhos lindos, majestosos e plenos de personalidade do mestre Homs? 

SHI - Livro 2 (Tomos 3 e 4), de Zidrou e Homs - Ala dos Livros
O traço do autor parece transcender o simples papel: cada vinheta é uma pintura minuciosa, um convite a desacelerar e a observar. A riqueza de detalhes, desde o menor ornamento das roupas vitorianas até aos reflexos sombrios nas vielas de Londres, transforma cada página numa experiência quase tátil. Homs não se limita a ilustrar a narrativa; opta antes por enriquecê-la, conferindo profundidade emocional às personagens, sugerindo silêncio e tensão nos espaços vazios, e capturando o drama da história nos olhares e gestos mais subtis. As expressões faciais, os cenários urbanos, os interiores sombrios e decadentes, tudo respira autenticidade e intenção artística.
Verdadeiramente soberbo!

Há uma raridade na capacidade de Homs de fundir realismo e dramatização cinematográfica sem nunca sacrificar a elegância visual. É um estilo comercial, que pode agradar a um grande público, e autoral ao mesmo tempo, podendo agradar a quem procura uma proposta visual mais depurada. Cada plano, cada enquadramento, parece calculado para nos prender, mas sem nunca parecer forçado. 

Os desenhos são simultaneamente delicados e poderosos, elevando a própria série a um outro patamar ainda mais cimeiro. E também as cores são usadas com inteligência emocional, alternando entre tons frios, opressivos, e explosões cromáticas que intensificam a ação ou o drama. Os planos variam com fluidez cinematográfica, e as cenas de ação são dinâmicas, por vezes alucinantes, e visualmente arrebatadoras. Isto já para não falar das fantásticas e impressionantes ilustrações de página inteira ou de dupla página, que poderiam ser emolduradas e enviadas para museus. É, sem exagero, um verdadeiro "prato cheio" de qualidade superior aquilo que Homs nos oferece em Shi. Sou descaradamente fã do autor.

SHI - Livro 2 (Tomos 3 e 4), de Zidrou e Homs - Ala dos Livros
Com uma história tão boa e uma ilustração tão soberba, será que foi a edição que meteu a pata na poça? Não, nem pensar! A edição da Ala dos Livros é verdadeiramente premium fazendo jus à qualidade da obra. O livro apresenta capa dura baça, com textura macia e lombada de tecido. Na lombada, é formado o título e ideograma da obra, aumentando o cariz de colecionador da edição. Há ainda uma elegante fita marcadora vermelha. No miolo, o papel é brilhante e de excelente qualidade, enquanto a impressão e encadernação também são de primeiro nível. No final somos brindados com um dossier de esboços, como extra, onde nos podemos deleitar mais um bocadinho com os desenhos de Homs.

Em suma, tenho que dizer-vos que estou encantado com Shi. Nos primeiros dois tomos já se adivinhava algo especial, mas é com os tomos três e quatro que a obra se afirma plenamente. Não tenho qualquer problema em confessar: Shi entrou diretamente para o meu TOP de séries de BD preferidas de sempre. Fulgurante, espetacular e profundamente marcante, esta é uma obra que não se limita a entreter. Sabe provocar, incomodar, emocionar e, no fim, deixar-nos com aquela sensação rara de termos contactado com algo verdadeiramente especial.


NOTA FINAL (1/10):
10.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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SHI - Livro 2 (Tomos 3 e 4), de Zidrou e Homs - Ala dos Livros

Ficha técnica
SHI - Livro 2 (Tomos 3 e 4)
Autores: Zidrou e Homs
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura com lombada em tecido
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Janeiro de 2025

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Análise: Coração das Trevas

Coração das Trevas, de Luc Brahy - Relógio D' Água Editores

Coração das Trevas, de Luc Brahy - Relógio D' Água Editores
Coração das Trevas, de Luc Brahy

Relógio D'Água passou quase toda a totalidade do passado ano 2025 sem editar livros de banda desenhada. Só já no último mês de dezembro, a editora viria a editar o terceiro e último volume da série Duna, de Brian Herbert, Kevin J. Anderson, Raúl Allén e Patricia Martín, juntamente com este Coração das Trevas que, à semelhança de todas as bandas desenhadas editadas pela Relógio D'´Água, funciona como adaptação para BD de um clássico da literatura. Neste caso, o autor da obra original é Joseph Conrad e o responsável pela adaptação é Luc Brahy.

E se, por um lado, verificamos que a parca edição de BD por parte da Relógio D' Água não é a melhor situação para todos nós, amantes da 9ª arte, temos, todavia, e por outro lado, que assinalar a boa notícia e atenuante de encontrar neste Coração das Trevas um belo livro de banda desenhada.

Coração das Trevas, de Luc Brahy - Relógio D' Água Editores
Confesso nunca ter lido o livro original de Conrad e, como tal, tudo o que sei sobre este livro, absorvi-o através deste livro de BD. E, claro, também vi o clássico do cinema Apocalypse Now, de Francis Ford-Copolla que se baseia - ou, melhor dizendo - inspira nesta obra.

Mas, ao contrário da adaptação cinematográfica, a história da obra original não se passa no Vietname e em tempo de guerra (armada, pelo menos). Como tal, esta adaptação bedéfila está mais em linha com a obra original.

Coração das Trevas acompanha Charles Marlow, um marinheiro inglês que aceita um trabalho como capitão de um barco a vapor para uma companhia belga que explora o Congo africano e é-lhe incumbida a missão de encontrar Kurtz, um reputado agente da companhia. Desde o início da viagem, Marlow percebe a brutalidade e a hipocrisia do colonialismo europeu, pois sob o discurso de civilização e progresso, aquilo que Marlow vê é exploração, violência e a desumanização dos africanos. Ora, se tivermos em conta que o livro original foi escrito ainda em 1898, podemos ver como a obra foi visionária para a sua época em que o colonialismo ainda era visto com algum romantismo. Pelo menos, pela objetiva dos colonizadores, está claro. 

Coração das Trevas, de Luc Brahy - Relógio D' Água Editores
Ao avançar pelo rio adentro, onde a paisagem é densa e opressiva, reforçando a sensação de mistério e ameaça constante, Marlow ouve cada vez mais histórias sobre Kurtz que se torna localmente famoso pela sua enorme eficiência em reunir grandes quantidades de marfim. Kurtz é descrito quase como uma figura mítica, admirada e temida, alguém que levou a sua missão ao limite. Essa expectativa transforma a jornada de Marlow numa busca obsessiva, tanto física quanto psicológica, pelo homem que parece encarnar o coração da empresa colonial.

Esta adaptação de Luc Brahy surge-nos como uma leitura interessante e, confesso, uma agradável surpresa. Desde logo por partir de uma editora que, infelizmente, não tem feito da banda desenhada uma das suas grandes apostas editoriais, conforme já mencionado. Talvez por isso mesmo, esta obra acabe por ganhar um sabor especial: não estamos perante uma obra-prima incontornável da BD, mas sim diante de uma BD bem contada, bem narrada e visualmente cuidada.

Ao longo da leitura, é verdade que por momentos a narrativa pode dar a sensação de andar às voltas sobre o mesmo tema. A viagem parece nunca mais findar, acumulando obstáculos, atrasos e dificuldades que se repetem sob diferentes formas. No entanto, essa insistência acaba por ser coerente com a própria natureza da obra. A jornada de Marlow não é apenas chegar a Kurtz, mas uma metáfora de tudo o que se perde, se desgasta e se revela durante o percurso.

Coração das Trevas, de Luc Brahy - Relógio D' Água Editores
É, aliás, precisamente nessa vertente que Coração das Trevas encontra a sua sustentação temática mais forte. A viagem física é, simultaneamente, uma viagem espiritual, um mergulho progressivo no interior do ser humano. E, neste caso concreto, não é uma descida iluminadora, mas antes uma aproximação às zonas mais sombrias e desconfortáveis da alma, onde a moral se dilui e a condição humana revela as suas fraquezas.

Luc Brahy procura manter essa ambiguidade moral e psicológica ao longo da adaptação. Parece haver um respeito evidente pelo texto original, ainda que isso, por vezes, resulte num certo excesso de texto em algumas páginas. Em determinados momentos, a densidade verbal acaba por pesar mais do que seria desejável, retirando algum espaço à imagem para respirar e comunicar por si mesma. Esse excesso de texto não compromete o conjunto, mas é um aspeto que se faz notar e que poderia ter sido mais equilibrado. 

Onde a BD brilha de forma mais consistente é no plano visual. Gostei especialmente dos desenhos de Luc Brahy, que revelam uma delicadeza que me agradou bastante e que casa muito bem com o ambiente da história. O seu traço é contido, elegante, e sabe quando recuar para oferecer imagens contemplativas e quando avançar para composições mais duras e perturbadoras.

Coração das Trevas, de Luc Brahy - Relógio D' Água Editores
Há páginas que convidam à pausa, à observação demorada da paisagem, da água e da vegetação sufocante. Noutras, somos confrontados com imagens mais chocantes e gráficas, que sublinham os momentos mais negros da narrativa, sem recorrer ao excesso gratuito. Essa alternância funciona bem e reforça o tom opressivo e gradual da descida do protagonista às "trevas".

Se o traço de Luc Brahy me agradou, devo admitir também que Cyril Saint-Blancat tem um papel absolutamente preponderante no impacto visual da obra. As cores são belíssimas e cuidadosamente aplicadas, criando atmosferas densas, quentes e por vezes quase sufocantes, que amplificam o estado psicológico das personagens. Aliás, o trabalho de cor consegue, inclusivamente, corrigir ou atenuar algumas fragilidades do desenho, nomeadamente em momentos onde existe menor detalhe ou maior simplicidade gráfica. As paletas escolhidas dão profundidade às cenas e enriquecem visualmente a narrativa, provando como a cor pode ser muito mais do que um mero complemento.

A edição do livro é em capa mole baça, com badanas, e bom papel brilhante no miolo. De resto, a encadernação e impressão são de boa qualidade.

No final, esta adaptação gráfica de Coração das Trevas afirma-se como uma leitura sólida e recomendável. Não reinventa o clássico da literatura, nem pretende fazê-lo, mas oferece uma interpretação honesta, visualmente apelativa e narrativamente consistente. Uma BD que, sem ser uma obra-prima, se revela uma história bem contada e uma experiência de leitura que vale a pena, sobretudo para quem aprecia narrativas que nos obrigam a olhar para dentro... mesmo quando aquilo que lá encontramos não é propriamente confortável.


NOTA FINAL (1/10):
8.5



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Coração das Trevas, de Luc Brahy - Relógio D' Água Editores

Ficha técnica
Coração das Trevas
Autor: Luc Brahy
Adaptado a partir da obra original de: Joseph Conrad
Editora: Relógio D' Água
Páginas: 108, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 19,5 x 27 cm
Lançamento: Dezembro de 2025

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Vinheta 2020 e FNAC preparam evento com sorteio de livros!



Neste sábado, todos os caminhos bedéfilos vão dar à FNAC do Alegro de Alfragide e, se és leitor(a) de banda desenhada, não podes mesmo faltar! Até porque te arriscas a sair de lá com livros de BD grátis!

Sim, leste bem, "livros grátis". Haverá mais de uma mão cheia de livros de banda desenhada que serão sorteados pelos presentes na assistência!

Mas nem só de livros grátis viverá este evento.

Nesta segunda edição da iniciativa BD À Lupa, depois de uma primeira edição com auditório cheio, contarei com a presença de alguns dos principais editores de banda desenhada em Portugal, que falarão de uma obra marcante da sua editora em 2025, enquanto apresentarão também novos livros que acabam de chegar ao mercado e farão antevisões de obras que estão prestes a chegar-nos. Falar-se-á ainda das dores de crescimento do mercado da BD em Portugal.

Ao meu lado, estará um elenco de luxo, que contará com os responsáveis das editoras A Seita, Ala dos Livros, Arte de Autor, ASA, Devir e Escorpião Azul.

E sim, os livros a ser sorteados, serão edições das respetivas editoras.

O evento acontece neste sábado, dia 7 de Fevereiro, pelas 16h00, no auditório da FNAC do Alegro de Alfragide.

É uma iniciativa inédita organizada em conjunto pelo Vinheta 2020 e pela FNAC e que, mensalmente, levará a banda desenhada à programação cultural de uma das maiores redes de livrarias do país. 

Faltar é um erro.

Até sábado!









sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Análise: O Indispensável de Snoopy

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz

Falar de Peanuts é falar de um dos pilares fundamentais da história da banda desenhada em tiras e, por arrasto, da própria cultura popular do século XX. Criadas por Charles M. Schulz em 1950, estas histórias aparentemente simples, publicadas diariamente em jornais, tornaram-se rapidamente um espaço de reflexão sobre a condição humana, embalado por um humor seco, uma melancolia especial e uma lucidez rara. 

Parece-me até que foi Schulz o primeiro autor a perceber que algo simples como uma tira podia ser espaço para uma profundidade emocional e filosófica, mesmo quando protagonizada por crianças e um cão. Depois apareceram muitas outras tiras humorísticas ao longo dos anos - das quais destaco, pela sua qualidade, Mafalda, de Quino, ou Calvin and Hobbes, de Bill Watterson - que até podem ter ido mais longe em termos de profundidade nos temas, mas não há como negar a relevância cultural de Snoopy, Charlie Brown e companhia. 

Sim, de todas as personagens marcantes da série, o cão de Charlie Brown, Snoopy, sempre foi a mais popular. Talvez seja por isso que este livro não se chama "O Indispensável de Peanuts", mas "O Indispensável de Snoopy". E mesmo admitindo que talvez o nome mais ajustado fosse o primeiro, compreendo que, do ponto de vista comercial, "Snoopy" seja uma marca ainda mais forte e sonante do que "Peanuts".

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
Ao longo de décadas, Peanuts foi muito mais do que entretenimento ligeiro. Schulz construiu um universo coerente, recorrente e reconhecível, onde a repetição era uma ferramenta narrativa e não um defeito. Através de pequenas variações sobre os mesmos temas, o autor soube criar uma obra que cresceu com os seus leitores, acompanhando transformações sociais, culturais e até políticas, sem nunca perder a sua identidade.

Isto não esquecendo que, além do meio específico, Peanuts infiltrou-se profundamente na cultura pop. Snoopy, Charlie Brown e companhia tornaram-se ícones transversais, reconhecidos muito para lá das páginas dos jornais: animação, cinema, merchandising, música, moda, entre outros.

A juntar a isso, a série tem sabido manter-se atual mesmo depois do falecimento do seu criador, Charles M. Schulz, há mais de 25 anos. Talvez seja essa relação íntima entre simplicidade gráfica e complexidade emocional aquilo que melhor explica a longevidade e a atualidade de Peanuts. Schulz falava de crianças, mas escrevia claramente para adultos; fazia rir, mas quase sempre com um travo amargo. A sua obra é um espelho desconfortável, onde nos revemos sem a beleza que, por ventura, gostaríamos de encontrar, mas com uma honestidade desconcertante.

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
É neste contexto que surge O Indispensável do Snoopy, a edição portuguesa comemorativa dos 75 anos de Peanuts, lançada no passado mês de outubro pela editora Iguana (chancela do grupo Penguin).

Esta bela edição assume desde logo uma ambição clara: não apenas reunir tiras icónicas, mas celebrar uma obra maior. Trata-se de uma edição de luxo, com capa dura, bom papel e um cuidado gráfico que faz justiça à importância histórica e afetiva do material reunido.

Esta não é apenas uma antologia “best of”. É um objeto pensado, organizado e contextualizado, que procura dar ao leitor uma visão abrangente da evolução de Peanuts ao longo das décadas. As tiras estão organizadas cronologicamente, permitindo perceber como Schulz foi afinando o seu traço, o seu humor e a sua visão do mundo, sem nunca trair os fundamentos da série.

A personagem de Snoopy, naturalmente, ocupa aqui um lugar central. As suas múltiplas personas, como o ás da aviação da Primeira Guerra Mundial, o escritor fracassado de máquina de escrever ou o filósofo solitário no topo da casota, são apresentadas não apenas como gags recorrentes, mas como construções narrativas com peso simbólico. Esta contextualização transforma o livro num verdadeiro objeto de estudo, revelando camadas que muitas leituras rápidas tendem a ignorar.

O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House
O volume inclui ainda uma introdução geral à série e textos dedicados a cada uma das personagens principais: Charlie Brown, Linus, Lucy, Woodstock, Schroeder, Peppermint Patty, Sally, Marcie, entre outras.

Outro dos méritos desta edição é a inclusão de textos introdutórios para cada década, que enquadram histórica e artisticamente as tiras selecionadas. Estes textos ajudam o leitor a perceber como Peanuts dialoga com o seu tempo, refletindo mudanças sociais subtis, sem nunca se tornar panfletário ou datado. Há ainda algumas citações de Charles M. Schulz, que ajudam a compreender melhor as intenções do autor e a forma como via as suas próprias criações.

É certo que, ao contrário da edição de integral de Mafalda, de Quino, lançada em 2024 também pela Iguana, este livro não traz a obra completa de Peanuts. Mas isso, digo eu, talvez não fosse o mais adequado a fazer, dado que a série é muito grande e seriam necessários 26(!) livros com 300(!) páginas para que tivéssemos a coleção completa. Não me parece minimamente viável para o mercado português. Um best of bem feito, como é o caso, parece-me a melhor opção, tendo esta edição a capacidade de funcionar bem a vários níveis: como porta de entrada para novos leitores, como objeto nostálgico para quem cresceu com estas personagens e como um documento histórico, cultural e artístico. 

Estamos, pois, perante uma bela e equilibrada edição, daquelas que justificam plenamente a sua existência física num tempo de consumo rápido e descartável. Um livro que toda a gente devia comprar ou oferecer, não apenas pelo carinho que Snoopy e os seus amigos continuam a merecer, mas porque Peanuts permanece, 75 anos depois, tão indispensável quanto sempre foi.


NOTA FINAL (1/10):
9.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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O Indispensável de Snoopy, de Charles M. Schulz - Iguana - Penguin Random House

Ficha técnica
O Indispensável do Snoopy
Charles M. Schulz
Editora: Iguana
Páginas: 384, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 280 mm
Lançamento: Outubro de 2025