quinta-feira, 16 de julho de 2026

Análise: A Longa Marcha de Lucky Luke

A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita

A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita
A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme

Depois dos muito bem recebidos - quer por crítica, quer por público - O Homem Que Matou Lucky Luke e Procura-se Lucky Luke, Matthieu Bonhomme está de volta com o seu terceiro álbum em que revisita a personagem de Lucky Luke, "o cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra" e, também, o cowboy mais célebre da banda desenhada.

Este álbum está inserido na coleção Lucky Luke Visto Por... que já conta com oito volumes, todos publicados por cá pela editora A Seita. Gosto bastante desta coleção, pois considero que tem permitido que diferentes autores reinterpretem Lucky Luke, possibilitando a exploração de novas camadas da personagem e das duas aventuras. E Matthieu Bonhomme surge, quanto a mim, claramente isolado face aos demais autores, brindando-nos com os melhores livros da série. E este A Longa Marcha de Lucky Luke, mesmo sendo, por ventura, o livro que menos me impressionou dos três do autor, continua a ser um bom e sólido álbum, que vos convido a ler.

A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita
Nesta aventura, Lucky Luke vê-se envolvido numa longa e perigosa travessia pelas florestas geladas do norte dos Estados Unidos, mais concretamente em território da tribo Lakota, sendo acompanhando por um jovem índio branco Nuvem-Vermelha, numa missão que rapidamente ultrapassa os contornos de uma simples missão de escolta. O que começa como uma tarefa relativamente simples transforma-se numa jornada de proteção, sobrevivência e confronto com interesses económicos que ameaçam uma comunidade inteira.

A premissa é eficaz e oferece ao autor um terreno fértil para explorar temas contemporâneos sem abdicar dos códigos clássicos do western. Ao longo da viagem, somos confrontados com a luta pela posse de terras, com a exploração de recursos naturais e com a pressão exercida por figuras de poder económico sobre comunidades mais vulneráveis. Bonhomme utiliza, com desenvoltura, o imaginário do Oeste americano para refletir sobre problemas que permanecem atuais, tecendo as suas próprias críticas ao mundo em que vivemos. O que é algo bem-vindo.

O próprio vilão da história não podia ser mais óbvio, já que o próprio nome, Ronald Cramp - uma clara ligação a Donald Trump - surge como a personificação de um capitalismo agressivo e predatório, interessado apenas no lucro e completamente indiferente às comunidades que prejudica. E também a dimensão ecológica da narrativa merece destaque, pois a terra, enquanto território, não é apresentada apenas como um recurso económico, mas como parte integrante da identidade de um povo e do equilíbrio natural do espaço em que vivemos. 

A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita
Um dos aspetos mais interessantes da narrativa deste A Longa Marcha de Lucky Luke reside na forma como Lucky Luke assume um papel que não lhe é habitual. Tradicionalmente retratado como um herói solitário, independente e de passagem, surge aqui investido de uma responsabilidade mais prolongada enquanto protetor de uma criança. A ligação que estabelece com Nuvem-Vermelha acrescenta uma dimensão emocional invulgar à personagem e permite explorar facetas mais humanas do cowboy. Confesso que até comecei por não gostar particularmente desta personagem de Nuvem-Vermelha, pois parecia-me demasiadamente unilateral e pouco trabalhada, mas reconheço que, ao longo da narrativa, e especialmente mais para o final da obra, Bonhomme conseguiu fortalecer a relação da criança com o protagonista, o que dá boas sensações ao leitor. E permite, claro, que a história fique mais profunda e verossímil, pois sem nunca perder a sua natureza reservada, a personagem de Lucky Luke acaba por revelar uma proximidade e uma preocupação que o tornam mais profundo e acessível do que o habitual, desempenhando, por vezes, uma figura quase paternal na vida de Nuvem-Vermelha. Já em Lucky Luke - Os Indomados, de Blutch, isso tinha acontecido, mas neste caso parece-me que esse feito é alcançado com uma dose de maior poesia e maturidade. 

No entanto, apesar do interesse dos temas abordados, é precisamente ao nível da construção narrativa que o livro me parece ficar um pouco aquém dos anteriores trabalhos de Bonhomme. Existe a sensação de que a história procura conciliar demasiadas ideias em simultâneo: a jornada iniciática de uma criança, a crítica ao capitalismo, a defesa do ambiente, a questão da herança e da propriedade da terra, bem como o comentário político contemporâneo. Nenhum destes elementos é propriamente mal desenvolvido, mas fica-se pela rama, fazendo com que o conjunto acabe por transmitir uma certa sensação de alguma dispersão.

Há também uma inevitável sensação de déjà vu. Quando reduzimos a história aos seus elementos fundamentais, nomeadamente: 1) uma criança perseguida por interesses económicos; 2) um magnata disposto a tudo para obter terras que não lhe pertencem moralmente e 3) um herói encarregado da  proteção e escolta dessa criança; percebemos que se trata de uma estrutura narrativa amplamente utilizada, não só no western, em concreto, como em histórias de aventura, em termos gerais. Bonhomme consegue introduzir algumas nuances interessantes, concedo, mas raramente consegue libertar-se completamente dessa familiaridade.

A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita
Mesmo assim, não foi isso que mais me apoequentou nesta leitura, pois o aspeto que me parece menos conseguido em A Longa Marcha de Lucky Luke é a introdução dos irmãos Dalton na história. Que fique bem assente que eu adoro os irmãos Dalton. E saber que os mesmos entrariam nesta terceira aventura de Bonhomme até começou por me deixar satisfeito. Todavia, esta opção simplesmente não funciona. E é fácil perceber porquê: é que a representação dos quatro irmãos segue de forma muito próxima a tradição humorística estabelecida por Morris e Goscinny, surgindo como figuras essencialmente estúpidas e caricaturais. Em circunstâncias normais - leia-se na série canónica - isso seria perfeitamente legítimo e bem-vindo. Contudo, dentro do universo criado por Bonhomme para Lucky Luke, esta abordagem gera alguma estranheza e um total deslocamento de Joe, William, Jack e Averell. Recordo que desde O Homem que Matou Lucky Luke, Bonhomme tem construído uma visão mais realista, sóbria e madura deste universo, com as personagens a serem mais humanas, os conflitos mais ambíguos e a violência mais plausível. Por isso, a presença dos Dalton nesta versão excessivamente cómica parece pertencer a um registo diferente da restante narrativa, quebrando o tom da mesma. Tendo em conta que os Dalton até nem são tão importantes assim para a forma como a narrativa se desenrola, até fica a ideia que estão ali mais por um motivo comercial, para agradar a antigos fãs da série. Mas o resultado é, pelo menos quanto a mim, o oposto. 

Em consequência, a narrativa revela ocasionalmente um certo caráter remendado. A sucessão de acontecimentos é suficientemente fluida para manter o interesse, mas falta-lhe talvez a força e a unidade dramática de O Homem que Matou Lucky Luke ou de Procura-se Lucky Luke. Não me interpretem mal: a obra continua a ser sólida e envolvente, e volta a estar entre os melhores desta coleção, porém fica um pouco - não muito - aquém dos álbuns anteriores de Bonhomme. 

Já graficamente, Matthieu Bonhomme volta a confirmar o enorme talento que o tem tornado  numa das vozes mais interessantes da banda desenhada franco-belga mais recente. O seu traço semi-realista afasta-se claramente do estilo original da série, mas preserva-lhe a essência. E acho que este equilíbrio não é nada fácil de conseguir. Requer muito talento e capacidade. Isto porque reconhecemos imediatamente Lucky Luke, apesar de praticamente todos os detalhes que compõem a personagem terem sido reinterpretados por Matthieu Bonhomme. E quão especial é esse feito? Trata-se de uma harmonia difícil entre fidelidade e reinvenção que o autor domina com grande habilidade.

A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita
As paisagens nevadas constituem um dos grandes triunfos visuais do álbum. A vastidão dos espaços, o silêncio transmitido pelos cenários e a dureza das condições naturais criam uma atmosfera muito particular, simultaneamente bela e ameaçadora. E a opção de manter o vilão Ronald Cramp frequentemente oculto ou envolvido em sombras funciona igualmente bem, reforçando a sua dimensão quase misteriosa e ameaçadora. Em termos visuais, parece-me que Bonhomme continua a evoluir e, nesse ponto em concreto, este até pode ser o melhor dos seus Lucky Luke.

Já agora, permitam-me dizer ainda que o autor também é um excelente capista. Todas as capas dos seus livros de Lucky Luke têm sido espetaculares, e este A Longa Marcha de Lucky Luke não é exceção.

Quanto à edição, estamos perante mais um bom trabalho da editora A Seita. O livro apresenta capa dura brilhante, bom papel baço e um belo trabalho a nível de impressão, encadernação e acabamentos. No final do livro, há ainda um dossier de extras, com 10 páginas, que inclui esboços, estudos de capa e de pranchas, que são um deleite para observarmos. Tal como em edições anteriores, a loja Wook recebeu uma capa exclusiva - também ela muito bonita.

Em suma, A Longa Marcha de Lucky Luke é uma leitura muito recomendável, que confirma a qualidade da abordagem de Bonhomme à célebre personagem. Embora fique, na minha opinião, um pouco abaixo dos seus dois álbuns anteriores, continua a oferecer uma visão inteligente, pessoal e respeitosa do cowboy solitário que tantas gerações de leitores tem conquistado. Pela ambição temática, pela inegável qualidade gráfica e pela capacidade de dialogar simultaneamente com a tradição e com o presente, merece ser lido por toda a gente.


NOTA FINAL (1/10):
8.5





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A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita

Ficha técnica
A Longa Marcha de Lucky Luke
Autor: Matthieu Bonhomme
Editora: A Seita
Páginas: 88, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 320 mm
Lançamento: Abril de 2026



quarta-feira, 15 de julho de 2026

Análise: Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia

Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, de Xavier Almeida - Péssima Editora


Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, de Xavier Almeida - Péssima Editora
Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, de Xavier Almeida

Foi com bastante satisfação que tomei conhecimento, muito recentemente, do lançamento de uma nova editora portuguesa de banda desenhada, audazmente intitulada Péssima Editora. E a esse lançamento da editora veio também acoplado o lançamento de Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, do português Xavier Almeida, reunindo oito/nove histórias, ou capítulos, que, apesar da sua autonomia narrativa, partilham um eixo temático comum: a reflexão sobre a crise ambiental, os impactos do capitalismo contemporâneo e a relação cada vez mais problemática entre a humanidade e o mundo natural. 

Foi uma bela surpresa, devo dizer. Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia apresenta-se como um instrumento de pensamento crítico, procurando questionar hábitos, sistemas e valores profundamente enraizados na nossa sociedade atual.

Um dos aspetos mais interessantes da obra reside, precisamente, na sua capacidade de cruzar diferentes influências filosóficas e científicas. Ao longo dos vários capítulos, é possível identificar ecos das reflexões de autores como Jason W. Moore - que até faz o posfácio da obra - Justin McBrien, Neil deGrasse Tyson, Ben Irvine, Sarat Colling ou Ortega y Gasset. 

Cada um dos capítulos aqui presentes apropria-se de muitas das preocupações destes autores, para as transportar para a linguagem da banda desenhada, tornando (mais) acessíveis ideias complexas sobre ecologia, responsabilidade e consciência social.

Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, de Xavier Almeida - Péssima Editora
Cheap Nature - Episódios de Renúncia e Parcimónia
 demonstra-nos que a crise ambiental não é tanto um problema isolado da natureza, mas uma consequência direta da organização económica dominante. Xavier Almeida, que conta com a participação de Pato Bravo na concepção do guião, parece sugerir-nos, e até apoiando-se nos textos dos supramencionados pensadores - sendo estes até creditados, no final do livro, enquanto autores da "proveniência da narração" - que capitalismo e natureza não podem ser analisados separadamente, uma vez que os mecanismos de exploração económica condicionam profundamente a forma como os recursos naturais são utilizados e encarados.

Com efeito, ficamos com a sensação de que a destruição ambiental não é um efeito secundário do sistema, mas sim uma das suas consequências mais evidentes. A degradação dos ecossistemas, o desperdício e a transformação de tudo em mercadoria surgem representados como sintomas de uma lógica económica incapaz de reconhecer limites ecológicos.

Paira no ar a ideia de que talvez até nem se trate de uma crítica aos sistemas económicos ou políticos, aquilo que aqui se procura fazer, mas antes um convite à reflexão individual. Convém não esquecer - embora o façamos tantas vezes, especialmente quando nos dá mais jeito - que as grandes transformações sociais começam frequentemente por uma mudança de consciência individual. 

Narrativamente, as várias histórias funcionam como diferentes ângulos de observação sobre uma mesma inquietação. Em vez de construir uma narrativa contínua, Xavier Almeida prefere explorar múltiplos cenários e problemáticas, reforçando a ideia de que a crise contemporânea possui muitas faces. O resultado é um mosaico de episódios que dialogam entre si e que contribuem para uma visão coerente do conjunto da obra.

Há uns capítulos que resultam melhor do que outros - mas isso, já se sabe, é apanágio de antologias de banda desenhada, muito embora eu tenha alguns pruridos em classificar esta obra como uma antologia de BD, já que me parece que estes diferentes capítulos, mesmo podendo parecer ser independentes ente si, contribuem para uma história maior, quando juntos.

Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, de Xavier Almeida - Péssima Editora
É verdade que, pensando a obra enquanto texto e imagem, por vezes se sente uma certo desfasamento entre os dois universos. Isto porque, por vezes, parece existir um certo afastamento entre aquilo que é narrado verbalmente e aquilo que é representado graficamente. E o texto parece, em vários casos, demasiado frio, fechado em si mesmo e monologante. Contudo, também concedo que quando ambas as linguagens, a da imagem e a do texto, convergem plenamente, o impacto é significativo. Nesses momentos, o livro consegue chegar mais longe. Os capítulos Jovem Herdeiro ou A Anarca pareceram-me especialmente bem-sucedidos e impactantes.

As críticas dirigidas ao mundo actual são tudo menos subtis. Grandes empresas, modelos neoliberais, consumismo desenfreado, riqueza, desigualdades económicas e destruição ambiental surgem identificados como componentes de uma mesma estrutura de poder. Longe de procurar uma falsa neutralidade, a obra assume claramente uma posição ideológica, fazendo da crítica social um dos seus principais motores narrativos.

Essa postura é reforçada pela própria estética do livro. O carácter independente da edição e das ilustrações a preto e branco, bastantes livres na forma e conteúdo, por vezes algo toscas na concepção, noutras vezes mais elegantes e artísticas, contribui para uma sensação de autenticidade e urgência. Existe na obra uma energia próxima do panfleto político, não no sentido pejorativo do termo, mas enquanto instrumento de intervenção cultural. A aparência gráfica por vezes crua e experimental, à qual poderíamos apelidar de BD indie, acaba por servir os propósitos do autor e da editora, transmitindo uma sensação de resistência e inconformismo. Que foi, é e será sempre bem-vinda, digo eu.

Em termos de edição, o livro apresenta capa mole baça, bom papel baço no miolo - embora o papel pudesse ser um pouco menos translúcido - e uma impressão e encadernação decentes. No final, há um posfácio de Jason W. Moore que, incompreensivelmente, está na língua inglesa. Sendo uma edição portuguesa, acho que a opção mais lógica era ter traduzido o texto original para português. Há ainda um capítulo final, intitulado Rocha Brecha da Arrábida que me parece um final perfeito para o livro, uma vez que, de um modo muito simples e direto - e, por ventura, mais direto do que noutros capítulos do livro -, concede sintetizar a força motriz desta obra.

Em conclusão, Cheap Nature - Episódios de Renúncia e Parcimónia é uma bela e interessante primeira obra de grande fôlego de Xavier Almeida, que se revela ambiciosa na forma como tenta ser um espaço de reflexão filosófica, ecológica e política. O resultado é um livro exigente, provocador e profundamente contemporâneo, que desafia o leitor a repensar a sua relação com o ambiente, com a economia e com o próprio modelo de sociedade em que vive. Trata-se de uma estreia de grande maturidade, que se recomenda a todos aqueles que gostam de parar um pouco para refletir sobre aquilo que andamos todos aqui a fazer. 


NOTA FINAL (1/10):
7.8


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Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, de Xavier Almeida - Péssima Editora

Ficha técnica
Cheap Nature - Episódios de Renúncia e Parcimónia
Autor: Xavier Almeida
Editora: Péssima Editora
Páginas: 260, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: A5
PVP: 12,00€

Análise: Magriços

Magriços, de Vasco Parracho - Prime Books

Magriços, de Vasco Parracho - Prime Books
Magriços, de Vasco Parracho

Se há livros que tiveram um bom sentido de oportunidade face à altura em que foram lançados, este Magriços, de Vasco Parracho, é um bom exemplo disso.

Editado pela Prime Books por alturas da maior competição do Mundial de Futebol de 2026, que decorre no México, Estados Unidos e Canadá, este livro aproveita essa febre futebolística vivida de quatro em quatro anos para nos lembrar do maior feito da Seleção Portuguesa de Futebol em campeonatos do Mundo.

Falo, claro está, do Mundial de 1966, ocorrido em Inglaterra, no qual Portugal conseguiu a honrosa 3ª classificação. É o melhor resultado de sempre obtido pela equipa lusa.

Vasco Parracho, que já nos havia presenteado com uma banda desenhada sobre futebol - Peyroteo, que nos conta a história de um dos melhores futebolistas da história do Sporting Clube de Portugal - dá-nos agora esta obra que, além de entreter, também consegue ser bastante educativa.

Tem a bela particularidade de contar com a colaboração de António Simões, um dos magriços - nome pelo qual esta seleção em particular ficou conhecida -,  o que oferece prestígio e relevância à obra, já que a história até é contada na primeira pessoa, como se fosse o próprio António Simões a descrever-nos tudo o que aconteceu em 66. Bem, e embora o argumento seja de Vasco Parracho, fica bastante explícito que António Simões participou ativamente neste livro, mais não seja através de entrevistas e conversas que, certamente, teve com Vasco Parracho.

Magriços, de Vasco Parracho - Prime Books
É também por isso um trabalho que além de recuperar um dos momentos mais marcantes da história do desporto português, vai um pouco além disso, sendo igualmente um retrato humano e histórico de uma geração que elevou o nome de Portugal num período particularmente complexo da nossa história.

E isso foi uma das coisas de que mais gostei em Magriços. Essa componente humana que aproxima o leitor dos próprios jogadores. Talvez tivesse sido mais fácil depositar um conjunto de factos e estatísticas na obra, centrando a mesma apenas nos jogos de futebol, mas devido a esta presença de António Simões enquanto voz narrativa de toda a experiência, o resultado é muito mais bem-vindo.

Assim, a história é ávida em colocar-nos no ambiente político e social da época, em que Portugal (ainda) vivia sob a ditadura do Estado Novo e encontrava-se envolvido na Guerra Colonial, circunstâncias que, naturalmente, influenciavam profundamente a vida dos portugueses. O futebol e a seleção nacional eram (e continuam a ser?) um escape para a população não sucumbir tão facilmente ao peso da sua existência, marcada por uma vida de privação e liberdades canceladas. Era um país triste, fechado e atrasado... e o futebol tinha esse condão de conseguir dar algum ânimo ao povo. Mesmo que fosse momentâneo.

Magriços, de Vasco Parracho - Prime Books
O percurso da seleção portuguesa é-nos apresentado de forma empolgante, desde os momentos iniciais até às fases decisivas da competição. E mais do que atletas especiais, os “Magriços” são retratados como homens com sonhos, receios e responsabilidades. Eusébio, Mário Coluna, José Augusto, Jaime Graça, José Torres, António Simões e todos os outros valentes jogadores que fizeram parte deste conjunto especial, recebem aqui um tratamento bastante humanizante, ao mesmo tempo que nos vão sendo dados outros aspetos interessantes dos bastidores. Apreciei também a introdução das capas dos jornais desportivos que davam conta dos feitos dos jogadores portugueses, em especial do eterno Eusébio, o Pantera Negra, que conseguiu o feito enorme de marcar 9 golos em apenas 6 jogos. 

A figura de Eusébio, inevitavelmente, ocupa um lugar de destaque. Considerado um dos melhores futebolistas de todos os tempos, surge como símbolo da excelência e da determinação da equipa portuguesa. No entanto, Vasco Parracho evita centrar toda a narrativa apenas no Pantera Negra, destacando igualmente o contributo coletivo dos restantes jogadores. E isso parece-me que foi algo acertado.

Outra coisa que merece destaque é a forma criativa e inspirada como são introduzidos algumas referências, à margem dos eventos ocorridos, a outras figuras grandes do futebol nacional, como aquelas que, por exemplo, nos surgem com a aparição do pequeno Manuel Fernandes - que havia de se tornar num dos melhores de sempre do Sporting - ou do ainda bebé Paulo Futre - esse jogador mágico que passou pelos três grandes do futebol português e pelo Atlético de Madrid.

Há depois várias evocações a Os Lusíadas, de Luís de Camões, que me parecem um pouco excessivas. Percebo a razão da escolha, que apela aos grandes feitos da nação portuguesa, mas tendo em conta que acontece mais do que uma vez, parece-me algo forçada e que, pior que isso, retira mais do que acrescenta, já que causa uma quebra na imersão da história. Admito também que, em vários momentos ao longo da narrativa, me pareceu que os balões dos diálogos e as legendas da narração apresentavam uma quantidade maior de texto do que o recomendável.

Magriços, de Vasco Parracho - Prime Books
Outra coisa menos positiva - e quase incompreensível - é a dupla menção ao jogo de Portugal com a Coreia do Norte. Compreendo que esse jogo foi o mais épico de toda esta campanha, já que a equipa portuguesa chegou a estar a perder por 0-3 e acabou por virar o jogo para o resultado incrível de 5-3, com 4 golos de Eusébio, mas penso que, em termos de sequência e narrativa, não faz muito sentido que se regresse a esse jogo já depois do mesmo ter sido bem referenciado. Acredito que teria sido preferível oferecer mais páginas a este jogo no primeiro momento da narrativa em que o mesmo é retratado, sem que se voltasse à mesma partida. Assim, como está, fica redundante e prescindível, parece-me. E acho até que o livro acabaria melhor se acabasse na página 38, na vinheta central, do que na página 50. Claro que não é isto que estraga o livro, mas é algo que é difícil não mencionar. 

Em termos de desenho, Vasco Parracho oferece-nos um trabalho onde fica para mim claro que se dedicou apaixonadamente, tal não é a ligação pessoal do autor ao mundo do futebol. Vê-se que Vasco Parracho deu muito de si a esta obra, o que a engrandece. Em termos visuais, considero o autor bastante original - goste-se mais ou menos - na forma como desenha e como aplica as suas cores. E é claro que houve um esforço de Vasco Parracho em combinar rigor documental com expressividade artística, recriando ambientes, estádios e personagens de forma convincente. Esta atenção ao detalhe contribui para uma experiência de leitura simultaneamente educativa e envolvente.

Magriços, de Vasco Parracho - Prime Books
É verdade que há alguma inconsistência, já que tão depressa somos contemplados com uma ilustração que nos deixa admirados - como a reprodução aérea da cidade de Londres ou do célebre remate, no ar, de Eusébio, por exemplo - como depois encontramos outros desenhos onde o traço parece mais rápido e grotesco. Ainda que o ambiente das partidas de futebol consiga transportar-nos para os jogos, também é verdade que, em certos momentos, encontramos alguma rigidez na reprodução dos movimentos dos jogadores. Em termos de cores, que aqui se apresentam garridas e com bastante contraste, o álbum também apresenta bons momentos. 

Quanto à edição, este livro da Prime Books apresenta capa dura brilhante, bom papel brilhante no miolo e um bom trabalho a nível da impressão e encadernação. O livro conta ainda com um prefácio de Pedro Proença, o atual presidente da Federação Portuguesa de Futebol. Gosto de tomar nota que, de alguma forma, a Federação Portuguesa de Futebol se envolveu com a feitura deste livro. É um bom sinal. No final, há ainda um dossier de duas páginas onde é feita uma contextualização da obra e onde nos são dadas as fichas desportivas de cada um dos atletas portugueses que fez parte desta equipa de futebol. Bons extras que aumentam o valor didático e documental da obra.

Em suma, e mesmo esclarecendo que não queria estar a fazer comparações entre a atual seleção portuguesa de futebol e a seleção de 1966, não posso deixar de dizer que é curioso como este Magriços, de Vasco Parracho, deixa bem claro tudo aquilo que já todos sabíamos... ou devíamos saber: entre ser-se um "herói do futebol" e ser-se uma "vedeta do futebol", há uma galáxia de distância. E, regra geral, dificilmente são as vedetas que fazem história. Quem a faz são aqueles que, contra todas as probabilidades, se superam e deixam o seu nome timbrado nos manuais de história. Os heróis, portanto. E Eusébio, Coluna, Torres, José Augusto, António Simões e todos os restantes magriços, esses sim, foram heróis. E é essa ideia que este livro, que deveria ter sido lido pelos atuais jogadores portugueses enquanto se esticavam nas espreguiçadeiras de Palm Beach Gardens, na Florida, nos passa. Talvez tivesse contribuído para algo melhor nas suas prestações e mindset.


NOTA FINAL (1/10):
7.0


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Magriços, de Vasco Parracho - Prime Books

Ficha técnica
Magriços
Autor: Vasco Parracho
Editora: Prime Books
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 297 mm
Lançamento: Abril de 2026

terça-feira, 14 de julho de 2026

Análise: Brigada de Costumes

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre

As duas editoras A Seita e Arte de Autor voltaram a editar, recentemente, e de forma conjunta uma obra de Zidrou, autor de quem as duas editoras portuguesas já por cá editaram Lydie, Emma G. Wildford, Naturezas Mortas e Amore. Desta feita, foi a vez de Brigada de Costumes chegar até nós. De todos os livros editados em parceria pelas duas editoras eu gostei bastante, mas devo até dizer que este Brigada de Costumes está entre os meus favoritos!

Há muito que considero o nome de Zidrou como sinónimo de qualidade. Sou um grande adepto de todos os seus livros e, felizmente, até já são muitas as suas obras que por cá foram editadas. Além das que referi acima, também os excelentes A Fera (A Seita), Verões Felizes (Arte de Autor), Shi e A Adopção (estes últimos da Ala dos Livros) me conquistaram totalmente.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
E não me fico por aí. É que Jordi Lafebre, ilustrador dos já supramencionados Verões Felizes e Lydie, bem como, enquanto autor completo, de Apesar de Tudo, Sou o Seu Silêncio ou Sou um Anjo Perdido, também é dos meus autores preferidos da atualidade.

Ora, juntar estes dois "pesos pesados" não só já se revelou um autêntico sucesso em Verões Felizes ou Lydie, como me fez ficar bastante empolgado para este Brigada de Costumes, bem antes de o ler.

Editado originalmente em 2014, em dois tomos isolados, a narrativa desta obra é ambientada na Paris dos anos 1930, onde acompanhamos o jovem inspetor Aimé Louzeau na sua integração na chamada "Brigada de Costumes", uma força especial da polícia francesa que procura investigar e anular a libertinagem dos cidadãos. 

Recém-chegado à polícia parisiense, Aimé aprende os meandros deste tipo de vigilância sobre as vidas privadas dos outros, especialmente das suas práticas sexuais, recolhendo todas as informações que possam depois ser utilizadas contra esses supostos prevaricadores da moral e da decência. A cidade parisiense que Zidrou nos apresenta é uma cidade fascinante, mas profundamente desigual, onde a corrupção e a hipocrisia convivem lado a lado com os discursos de moralidade. O habitual, diria.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
No entanto, o verdadeiro coração da narrativa está em Aimé Louzeau. Ele é filho de um padre excomungado, carregando consigo uma herança pesada que influencia a sua visão da autoridade, da religião e da justiça. Enquanto investiga os segredos dos outros, é obrigado a confrontar-se com os seus próprios fantasmas. Isto não esquecendo que, entretanto, quer o seu pai, quer a sua mãe, parecem sucumbir à saúde mental. Além disso, tudo muda na vida de Aimé quando este dá de caras com Eeva, uma prostituta exótica que o faz experenciar uma paixão nunca antes vivida. E é nessa dimensão íntima e mais pessoal da personagem de Aimé e de todas as outras que a rodeiam, que Brigada de Costumes se revela muito mais do que uma simples história policial.

A primeira coisa que me impressionou nesta obra foi a forma como Zidrou constrói as personagens. Não é que isso me tenha surpreendido, pois já conheço as valências do autor em conseguir despertar sentimentos de empatia perante as suas personagens profundamente humanas... mas diria que o seu trabalho volta a ser impressionante. Não há aqui heróis perfeitos nem vilões de cartilha. Existem pessoas. Homens e mulheres. E, como sabemos, as pessoas são frágeis, são contraditórias. Por vezes perdem-se e por vezes encontram-se. E são tão capazes de gestos de enorme generosidade, como de atitudes profundamente destrutivas. É esse lado humano que torna a leitura tão absorvente e que nos faz permanecer emocionalmente ligados a este livro. Assim que o terminei, voltei a lê-lo de enfiada.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
E diria que estamos perante uma das histórias mais tristes escritas por Zidrou. Ainda assim, o autor mantém aquela característica tão própria de introduzir uma espécie de luz ao fundo do túnel. Não se trata de um final feliz convencional. Ou de uma resolução que põe tudo em pratos limpos. Pelo contrário, existe neste Brigada de Costumes uma postura agridoce perante a vida que acaba por tornar os momentos alegres menos leves e os momentos dolorosos um pouco mais suportáveis. E poucos argumentistas conseguem trabalhar tão bem esta ambiguidade emocional.

Os temas abordados são particularmente densos. Saúde mental, religião, perversões sexuais, obsessão, solidão e hipocrisia institucional cruzam-se constantemente ao longo da narrativa. A própria polícia surge retratada de forma paradoxal, como uma instituição encarregada de combater práticas que, de uma forma ou de outra, também ajuda a perpetuar. 

Aimé Louzeau espelha bem a complexidade da história. Inicialmente surge como uma personagem extremamente cativante, quase ingénua, com quem simpatizamos imediatamente. Contudo, à medida que a narrativa avança, algo começa a mudar e a sua personalidade revela zonas mais sombrias, cada vez mais inquietantes, levando-nos a olhar para ele de forma diferente. É um retrato duro e, ao mesmo tempo, profundamente humano da incapacidade de controlar determinados impulsos.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
Confesso que a única reserva que tenho em relação à obra resulta precisamente da riqueza do material apresentado. Isto porque fiquei diversas vezes com a sensação de que havia aqui matéria suficiente para uma série bastante mais longa. Dira até de uns seis ou sete volumes. Ou mais. É que temos a questão das práticas da polícia e do ambiente boémio da prostituição; a relação amorosa de Aimé; a paixão que este nutre por Eeva; a questão da religião e do convento; a própria relação dos pais de Aimé; e até mesmo o flashforward que nos coloca em 1944 numa Paris bombardeada. É muita coisa para um díptico apenas. E não é que os principais acontecimentos da obra não fiquem devidamente bem encerrados -poruq ficam - mas sinto que havia riqueza para muito mais.

Nesse sentido, tenho a sensação de que Zidrou colocou demasiadas ideias em apenas dois volumes. Não porque a narrativa fique incompreensível ou desequilibrada, repito, mas porque existe tanta substância que acabamos por desejar mais espaço para explorar cada fio desta teia. 

Apesar disso, Brigada de Costumes permanece uma obra notável. Está impregnada de uma melancolia constante que acompanha o leitor do princípio ao fim. Há uma tristeza difusa em muitas das situações e personagens, mas nunca uma tristeza gratuita ou manipuladora. Tudo surge organicamente integrado na história e contribui para a sua autenticidade emocional.

Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor
Relativamente aos desenhos de Jordi Lafebre, é impossível não destacar o extraordinário trabalho do autor. Uma vez mais. À partida, e tendo em conta a história que temos em mãos, até poderia pensar-se que o seu talento para histórias mais luminosas e optimistas entraria em conflito com uma narrativa tão sombria. Mas acontece precisamente o contrário. O desenhador entrega belas páginas, belas opções visuais e velos enquadramentos. As cores nos desenhos, a recriação da Paris dos anos 30, as roupas de época, a elegância dos cenários, os corpos femininos e, acima de tudo, a expressividade das personagens são absolutamente magníficos. 

A edição é em capa dura baça, de textura aveludada e com detalhes a verniz. No miolo, o papel é baço e de boa qualidade. Também de boa qualidade é a encadernação, impressão e acabamentos. A opção das editoras por lançarem a obra num único volume integral também foi a mais ajustada, claro.

Em suma, Brigada de Costumes é uma belíssima obra que em boa hora foi editada em Portugal. No final da leitura, fica uma sensação agridoce: a tristeza de abandonar estas personagens, por um lado, e a gratidão por termos podido acompanhá-las, por outro. E isso, para mim, é sinal de uma grande obra!


NOTA FINAL (1/10):
9.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Brigada de Costumes, de Zidrou e Jordi Lafebre - A Seita - Arte de Autor

Ficha técnica
Brigada de Costumes
Autores: Zidrou e Jordi Lafebre
Editoras: A Seita e Arte de Autor
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 cm
Lançamento: Junho de 2026