Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida, de Julia Korbik e Julia Bernhard
O livro
Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida, foi editado há poucas semanas pela
Iguana - uma chancela do grupo editorial
Penguin - e resulta do trabalho conjunto das autoras alemãs Julia Korbik (texto) e Julia Bernhard (ilustrações). Autoras essas que estarão presentes por cá, na próxima edição do
Maia BD.
O livro apresenta‑se como uma biografia em banda desenhada que procura tornar acessível a vida e o pensamento de Simone de Beauvoir, uma das figuras centrais do século XX. A obra assume desde o início uma vocação introdutória, deixando claro que não pretende ser uma análise filosófica profunda, mas antes um retrato geral da trajetória pessoal e intelectual de Simone de Beauvoir.
Nascida em 1908, Simone de Beauvoir foi uma filósofa, escritora e intelectual francesa, uma das figuras centrais do existencialismo no século XX. Parceira intelectual e amorosa do também famoso filósofo Jean‑Paul Sartre, com quem manteve uma relação livre e duradoura, Beauvoir teve formação em filosofia e destacou‑se num meio predominantemente masculino, sendo uma das primeiras mulheres a obter reconhecimento académico e literário nesse campo.
A sua obra mais marcante, O Segundo Sexo, acabou por se tornar num verdadeiro marco fundamental do pensamento feminista. Nesse livro, Simone argumenta que a condição feminina não é determinada apenas pela biologia, mas sobretudo por fatores históricos, sociais e culturais.
Além desta importante obra, Simone de Beauvoir esteve politicamente envolvida em causas sociais ao longo da sua vida, como na defesa dos direitos das mulheres, desempenhando, por exemplo, um papel relevante no caso de Bobigny, já amplamente abordado no belo livro
Bobigny 1972, de Marie Bardiaux-Vaïente e Carol Maurel (ASA), e que nesta biografia também merece algum destaque.
A narrativa deste
Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida estrutura‑se a partir de uma entrevista entre Madame Blair e Simone de Beauvoir, opção que funciona como eixo organizador da obra. Este enquadramento dá ao livro um tom intimista e dialogado, permitindo que os principais momentos da vida da filósofa surjam como recordações contadas na primeira pessoa, o que facilita a aproximação do leitor à personagem.
Deste modo, são abordados vários episódios fundamentais da vida de Beauvoir, como a sua infância burguesa, a sua formação intelectual, o seu encontro com Jean‑Paul Sartre, a sua afirmação como escritora, o seu envolvimento político e o seu impacto da obra, já por mim referida, O Segundo Sexo. Todos estes momentos que nos são dados ajudam a que seja composta uma linha cronológica clara para quem pouco conhece a autora. E isso é bem feito.
Contudo, apesar de cumprir essa função, diria, "panorâmica", o livro acaba por tratar muitos destes episódios de forma relativamente superficial. Os acontecimentos surgem uns após os outros, mas raramente são aprofundados ou ligados por um fio condutor mais robusto que permita compreender melhor as tensões internas, as evoluções ideológicas ou as próprias contradições de Simone de Beauvoir. Que eram algumas.
Essa falta de maior densidade analítica faz com que o livro avance rapidamente, quase em ritmo de resumo ilustrado. A leitura é fluida e agradável, sim, mas por vezes deixa a sensação de que temas complexos, como o existencialismo, o feminismo ou a relação entre vida pessoal e obra, são apenas tocados à superfície.
Ainda assim, importa reconhecer que essa abordagem não compromete totalmente o livro. Dentro dos seus próprios pressupostos, a obra até funciona realtivamente bem, pois oferece uma visão geral coerente, contextualiza a importância histórica de Beauvoir e desperta curiosidade para leituras futuras mais exigentes sobre a filósofa.
No plano visual, o desenho é realizado a preto e branco, com a aplicação dominante de uma única cor, um amarelo esverdeado, que atravessa grande parte do livro. Esta escolha confere unidade gráfica, mas também cria um ambiente visual algo mortiço e pouco dinâmico, fazendo com que haja uma certa monotonia visual, especialmente em sequências mais longas.
Outro problema significativo da ilustração prende‑se com a caracterização das personagens. O estilo de ilustração de Julia Bernhard aposta em traços faciais muito simples e lineares, o que faz com que muitas personagens se tornem confundíveis entre si. Em várias cenas, é difícil distinguir quem é quem. Essa limitação compromete, claro, a clareza narrativa em alguns momentos, sobretudo quando surgem várias figuras históricas ou secundárias na mesma página.
Outro aspeto particularmente irritante nos desenhos é a sensação de pixelização presente em certas páginas, onde parecem haver imagens ampliadas a partir de um formato menor, o que prejudica a nitidez do traço. Como tal, tentei perceber se este problema se devia à qualidade da impressão da Iguana ou se era uma opção estética da autora. Ao comparar com páginas promocionais disponíveis na
web, não me foi possível chegar a uma conclusão definitiva sobre a origem deste efeito. Mas bem, seja falha de impressão ou escolha gráfica da autora, o resultado não é satisfatório e quebra a experiência de leitura em vários momentos.
De resto, a edição da Iguana apresenta capa dura baça e bom papel baço no miolo. No final da obra, há ainda um caderno de extras, com mais de 10 páginas, que inclui excertos de cartas enviadas a Simone de Beauvoir, textos conclusivos e biografias das duas autoras e uma extensa lista de literatura selecionada e fontes de inspiração. As guardas do livro incluem ainda uma cronologia detalhada com alguns momentos relevantes da vida de Simone de Beauvoir, em paralelo com os acontecimentos político-sociais mais marcantes do período histórico em que viveu.
Em conclusão, Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida cumpre o seu objetivo principal: apresentar a vida de uma mulher extraordinária, moderna e ainda profundamente relevante. No entanto, fá‑lo sem o primor narrativo e visual que tornaria a obra verdadeiramente memorável. Trata‑se, pois, de uma leitura recomendável sobretudo para fãs de Simone de Beauvoir ou para quem deseja ter um primeiro contacto com a sua vida, mais do que para leitores exigentes de (boa) banda desenhada.
NOTA FINAL (1/10):
6.2
-/-
Simone de Beauvoir - Quero Tudo da Vida
Autoras: Julia Korbik e Julia Bernhard
Editora: Iguana
Páginas: 224, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Março de 2026