quinta-feira, 24 de setembro de 2026

"A Sombra das Luzes" chega ao fim!



A editora Ala dos Livros acaba de publicar o terceiro e último volume da mini-série A Sombra das Luzes, de Alain Ayroles e Richard Guérineau.

Este último volume da série denomina-se O Demónio dos Grandes Lagos.

Já aqui falei dos primeiro e segundo tomos da série.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


A Sombra das Luzes - Tomo 3 – O Demónio dos Grandes Lagos, de Alain Ayroles e Richard Guérineau

O primeiro ciclo das aventuras epistolares do malvado Chevalier de Saint-Sauveur chega ao fim. 

No coração da América do século XVIII, Ayroles e Guérineau conduzem-nos por uma história de romance, intriga e grandes aventuras. Nas florestas americanas, a guerra aproxima-se. O Chevalier de Saint-Sauveur não se importa. A sua única preocupação é o sucesso da sua aposta: a inocente Aimée d'Archambaud deve casar-se com um iroquęs! 

Para alcançar esse objetivo, o infame libertino está preparado para recorrer aos planos mais ardilosos. Golpes de machado e réplicas mordazes ecoarão no silêncio da floresta! 

A série “A Sombra das Luzes”, está integralmente publicada em 3 volumes pela Ala dos Livros.

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Ficha técnica
A Sombra das Luzes - Tomo 3 – O Demónio dos Grandes Lagos
Autores: Alain Ayroles e Richard Guérineau
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 255 x 340 mm
PVP: 25,00€

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Análise: Os 7 Crimes de Roma

Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet - Gradiva

Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet - Gradiva
Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet

A propósito deste Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet, que hoje vos trago, começo por opinar sobre uma coisa em específico - e é uma opinião muito pessoal como, aliás, são todas as opiniões dadas neste espaço: sou bem mais compreensivo com as editoras e/ou autores nacionais que não conseguem fazer uma obra de qualidade superior do que com as editoras que importam banda desenhada estrangeira de qualidade duvidosa. Se é para dar oportunidade a uma obra, digamos, "fraquinha"... ao menos que apostemos numa "BD fraquinha" de origem portuguesa. Pelo menos, sempre é uma forma de dar a oportunidade a um autor português para que este possa crescer. Já no que diz respeito à importação de banda desenhada... creio que o papel das editoras portuguesas deve ser o de trazer a melhor obra possível. Bem sei que nem todos temos os mesmos gostos, ou que a aposta pode ser de cariz mais comercial do que qualitativo... mas caramba, há tantas bandas desenhadas boas no estrangeiro (tantas, tantas, tantas!), que me faz confusão como se pode apostar numa obra como este Os 7 Crimes de Roma, que parece mais uma masterclass de como não fazer banda desenhada. Da capa aos desenhos, passando pelo desenvolvimento da narrativa, esta é uma obra que não merecia espaço nas livrarias portuguesas. Peço desculpa pela sinceridade, Gradiva.

Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet - Gradiva
E até devo admitir que a premissa da obra, à partida, até tinha tudo para resultar. Colocar Leonardo da Vinci no papel de investigador, envolvido numa série de assassinatos ocorridos na Roma renascentista, parece uma ideia suficientemente apelativa para captar a atenção de qualquer amante de história, mistério ou banda desenhada. Pelo menos, captou a minha atenção. Mas, infelizmente, aquilo que começa por parecer uma proposta promissora rapidamente se transforma numa leitura frustrante.

A narrativa arranca com a descoberta de um cadáver decapitado e com a presença de uma misteriosa inscrição deixada pelo assassino. O contexto histórico é interessante: Roma, em pleno Renascimento, com o Vaticano como pano de fundo e Leonardo da Vinci a circular pelos corredores do poder. São ingredientes que, bem trabalhados, poderiam ter dado origem a um thriller histórico bastante cativante.

No entanto, à medida que a história avança, torna-se cada vez mais evidente que os autores não conseguem explorar convenientemente o potencial da ideia inicial. O mistério perde força rapidamente e a investigação acaba por se tornar pouco envolvente. E em vez de sentirmos curiosidade em descobrir quem está por detrás dos crimes, somos confrontados com uma sucessão de acontecimentos que parecem acontecer porque o argumento assim o exige, e não porque surjam de forma orgânica. Confesso que estive quase a desistir da leitura, mas fiz um esforço e consegui acabãr de ler o livro.

Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet - Gradiva
Um dos vários problemas da obra reside na construção narrativa. Existem demasiadas situações que parecem forçadas, artificiais e pouco naturais. Muitas cenas parecem montadas apenas para fazer avançar a história para a página seguinte, sem grande preocupação com a coerência ou credibilidade dos acontecimentos. Os diálogos também não ajudam. Em diversos momentos soam artificiais, arrastados expositivos e pouco convincentes. Falta naturalidade às conversas e falta subtileza à forma como os autores gerem a comunicação entre as personagens.

O próprio Leonardo da Vinci, que deveria ser uma das grandes forças da obra, acaba por surgir como uma personagem de pálido carisma. Em nenhum momento senti que estivesse perante uma recriação memorável de uma das figuras mais extraordinárias da História. E também Guido, o jovem estudante de medicina que acompanha Leonardo, não me conseguiu conquistar. 

Por fim, a investigação criminal, que deveria constituir o motor da obra, sofre igualmente de vários problemas. A sensação é a de que os autores querem conduzir rapidamente a narrativa para determinado ponto sem se preocuparem em construir um percurso credível até lá. A leitura torna-se progressivamente mecânica e previsível.

Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet - Gradiva
Infelizmente, a componente gráfica também não consegue "salvar" a obra. Embora exista aqui e ali uma ilustração mais bem conseguida ou um enquadramento mais interessante, o resultado global está muito longe de impressionar. Os desenhos apresentam frequentemente um aspeto algo amador, tanto ao nível das figuras humanas como na representação dos cenários, onde há um excesso de ruído visual. As personagens surgem muitas vezes rígidas, com expressões pouco convincentes e uma linguagem corporal pouco natural. 

A própria capa está bastante mal concebida a vários níveis. Seja no grafismo, em que as letras são colocadas em cima do texto sem qualquer rigor ou preocupação estética - bem-vindos aos livros editados nos anos 70 - seja na ilustração, particularmente no desenho da mão de Leonardo da Vinci com dedos demasiadamente longos, sem que haja uma tentativa de transformar o desenho em algo caricatural. Posso dizer-vos que não tirei o dia para estar a deitar abaixo a obra... simplesmente são coisas difíceis de não referir.

A edição é em capa dura brilhante, com bom papel brilhante, boa encadernação e boa impressão. As margens a branco do livro parecem-me demasiado curtas, mas tendo em conta o amadorismo da obra, já nem sei se a "culpa" disso é da editora portuguesa ou do trabalho original.

No final, Os 7 Crimes de Roma surge como um daqueles livros em que o conceito é muito mais interessante do que a execução. Não é uma obra que faça justiça ao fascínio de Leonardo da Vinci nem ao enorme potencial do thriller histórico que havia aqui. Pelo contrário, é uma leitura esquecível que deixa a sensação de uma oportunidade claramente desperdiçada. Um livro a evitar.


NOTA FINAL (1/10):
2.0


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Ficha técnica
Os 7 Crimes de Roma
Autores: Guillaume Prévost e Robert Paquet
Editora: Gradiva
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 23 x 31 cm
Lançamento: Julho de 2024


Análise: Ed Gein

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside
Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell

Se procuram uma das bandas desenhadas mais chocantes, impressionantes, maquiavélicas e sombrias que podem ler, este Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell, pode bem ser o livro de que precisam!

Para quem não sabe - e acredito que já sejam poucos, depois da recente série da Netflix, Monstros -, Ed Gein foi um dos mais famosos e infames assassinos que habitou o planeta. Nascido em 1906, Ed Gein assassinou, na década de 1950, mulheres e profanou sepulturas, tornando-se uma das figuras mais assustadoras da história criminal. O seu legado retorcido foi tanto que até acabou por inspirar várias histórias e filmes de culto como Psycho, Massacre no Texas ou O Silêncio dos Inocentes. Lembram-se do homem da motosserra que nos perseguia na antiga Passagem do Terror,na extinta Feira Popular de Lisboa? Pois bem, também essa personagem, de Massacre no Texas, era inspirada em Ed Gein.

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside

À primeira vista, Ed Gein era visto pelos seus vizinhos como um homem tímido, solitário e relativamente inofensivo. No entanto, por detrás dessa aparência serena escondia-se uma personalidade profundamente perturbada, marcada por uma infância dominada por uma mãe extremamente autoritária e religiosa, cuja influência, mesmo após a sua morte, continuou a moldar o comportamento do filho. O isolamento social, a obsessão pela figura materna e diversos problemas psicológicos contribuíram para a formação de uma mente doentia que, infelizmente, acabou por se tornar célebre.

E por um motivo em particular. É que, para além de assassinar mulheres, Ed Gein também profanava sepulturas para recolher restos mortais, que depois utilizava de formas macabras dentro da sua casa, construindo peças de decoração com ossos e pele dos cadáveres. E embora tenha sido condenado por apenas dois homicídios, a natureza particularmente grotesca dos seus crimes fez deste homem uma referência incontornável do imaginário do horror moderno. Mesmo hoje em dia, Ed Gein continua a ser estudado como um dos casos mais perturbadores e incompreensíveis de sempre.

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside
Este Ed Gein, da autoria de Harold Schechter e Eric Powell, procura traçar um retrato das origens deste assassino necrófilo e revela-se como uma obra impressionante e perturbadora. É lógico que esta é uma leitura para aqueles de estômago forte, mas, ainda assim, não me parece que este livro procure sensacionalismo gratuito. É chocante, sim, mas como não nos chocarmos quando falamos de Ed Gein e das atrocidades que cometeu? O livro procura apresentar um retrato detalhado de Ed Gein, explorando os acontecimentos que moldaram a sua personalidade e ajudaram a criar uma figura assim. O resultado é uma leitura tão envolvente quanto inquietante.

A narrativa destaca-se pela forma como consegue equilibrar rigor biográfico e ritmo dramático. Harold Schechter constrói um relato sólido e bem documentado, permitindo ao leitor acompanhar a evolução de Gein desde a infância até aos crimes que chocaram a América e o mundo. O livro não procura justificar os seus atos, até porque são injustificáveis, logicamente, mas tenta compreender as circunstâncias que contribuíram para a formação de uma mente profundamente perturbada.

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside
E um dos aspetos que, quanto a mim, é mais interessante nesta obra é a tentativa de olhar para além do monstro. Gein surge-nos como uma figura simultaneamente patética, assustadora e incompreensível. O leitor é constantemente confrontado com a pergunta de como alguém aparentemente banal se transformou num dos maiores monstros e assassinos que alguma vez pisaram o planeta. Essa reflexão acompanha toda a leitura e torna-a particularmente marcante.

O livro não evita os aspetos mais chocantes da história de Ed Gein. Pelo contrário, apresenta-os de forma direta e muitas vezes brutal. Existem momentos verdadeiramente difíceis de ler ou observar, não apenas pela violência descrita, mas sobretudo pelas implicações psicológicas dos atos cometidos. O horror que sentimos resulta da eficácia da narrativa e da honestidade com que os factos são apresentados. O livro consegue transmitir repulsa sem perder a seriedade nem cair na exploração gratuita da violência, portanto.

Também é digno de nota o modo como a obra evidencia a influência da mãe de Ed Gein - tão psicopata como o filho, diga-se - e o ambiente extremamente repressivo em que cresceu. Sem apresentar explicações simplistas, os autores mostram como determinados fatores familiares e psicológicos podem ter contribuído para o desenvolvimento de comportamentos profundamente desviantes de Ed Gein.

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside
O trabalho artístico de Eric Powell - com o qual eu já estava bastante familiarizado devido à sua série Goon - é simplesmente extraordinário. As suas ilustrações, executadas em tons de cinzento, criam uma atmosfera sombria e opressiva que combina na perfeição com o tema abordado. 

Cada página transmite desconforto, tristeza e inquietação, reforçando o impacto emocional da narrativa sem recorrer a excessos visuais. Também os contrastes entre luz e sombra ajudam a criar uma sensação permanente de decadência e isolamento, refletindo tanto o ambiente rural onde os acontecimentos decorrem, como o estado mental do protagonista. 

Além isso, a caracterização das personagens também merece destaque. Mesmo as personagens secundárias possuem profundidade suficiente para parecerem pessoas reais, com medos, limitações e emoções credíveis. Isso torna os acontecimentos ainda mais perturbadores, porque o horror não surge num universo fictício distante, mas num contexto humano reconhecível.

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside
Em termos de edição, este livro da editora brasileira Darkside - que adquiri na loja Casa da BD, em Lisboa - apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz, bom papel baço e um bom trabalho ao nível da impressão, encadernação e acabamentos. No final, há ainda um conjunto de apêndices bem-vindos que nos falam sobre os factos concretos relatados e ainda nos oferecem entrevistas a George Arndt e Irene Hill Baileu, que estudaram Ed Gein ao pormenor, bem como algumas fotografias do assassino. Parece-me que as ilustrações de Eric Powell mereciam um formato um pouco maior em dimensão para melhor respirarem, mas, fora isso, estamos perante uma bela edição.

Enquanto banda desenhada, Ed Gein é um exemplo notável do potencial do meio para abordar temas complexos e difíceis. Trata-se de uma obra que demonstra bem como a BD pode ser tão poderosa e impactante quanto qualquer romance ou filme. Na verdade, até considero que esta BD ultrapassa em qualidade a série da Netflix.

Em suma, Ed Gein é uma leitura fantástica e uma das bandas desenhadas mais pesadas que já li. É uma experiência exigente, por vezes quase sufocante, mas que recompensa quem procura uma leitura madura, intensa e intelectualmente estimulante. Poucas obras conseguem provocar simultaneamente fascínio, horror e reflexão de forma tão eficaz. A combinação entre a escrita rigorosa de Harold Schechter e a arte magnífica de Eric Powell resulta numa obra memorável, capaz de nos confrontar com algumas das facetas mais sombrias da condição humana. Não é um livro para todos os leitores, mas para quem tiver estômago para mergulhar numa escuridão tão profunda. Quem é que aceita o desafio?


NOTA FINAL (1/10):
9.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside

Ficha técnica
Ed Gein
Autores: Harold Schechter e Eric Powell
Editora: Darkside
Páginas: 224, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 26 x 17 cm
Lançamento: Maio de 2022

Análise: Mar de Rosas

Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin

Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin
Mar de Rosas, de Tomás Sousa

Enquanto amante de arte nas suas mais diversas formas, há algo que aprecio especialmente numa criação artística: que se sinta claramente a dedicação e o aprimoramento que determinado autor colocou na sua obra. Podemos falar de música, nos casos em que conseguimos escutar as diferentes camadas que um músico coloca na sua música de estúdio; podemos falar de cinema, nos casos em que percebemos que o cineasta colocou muitos pozinhos além dos estritamente necessários a fazer com que o filme funcionasse. Podemos falar de pintura, podemos falar de escultura, podemos falar de literatura. E também podemos falar de banda desenhada, claro.

Mar de Rosas, de Tomás Sousa, recentemente editado pela editora Penguin, é uma dessas obras em que se sente que o autor deu tudo de sim, construiu camadas, desenvolveu personagens marcantes, pensou na narração, escreveu bem o texto e, no final, ainda fez uns acrescentos e melhoramentos à obra. É, pois por isso, um desses trabalhos de dedicação e de aprimoramento constante até a obra seguir para a gráfica. O ano ainda não acabou, mas é possível que estejamos perante o melhor livro do ano no que à banda desenhada nacional diz respeito.

Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin
Em boa verdade, Tomás Sousa já tinha "avisado" os mais atentos ao que vinha. Com participações em alguns fanzines lançados recentemente e, especialmente, com a sua história curta A Paragem, que até ficou entre os nomeados para o VINHETA D'OURO 2025 para Melhor Curta de Autor Nacional, a abordagem visual do autor, com um traço muito elegante, embora rápido, por vezes cru, mas sempre confiante, já se revelava diferenciada. Parecia haver ali potencial para algo especial.

E foi então que saiu este Mar de Rosas, a primeira obra de grande fôlego do autor, editada pela Penguin - editora que muito provavelmente faz aqui a sua melhor aposta em termos de edição de BD nacional.

Com uma história que nos remete para o tempo das fotonovelas, em que a trama era dramática e intrincada, com as personagens a deambularem em torno dos seus próprios objetivos, quase sempre em oposição aos das outras personagens, Tomás Sousa constrói uma história a que é difícil ficar indiferente.

Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin
A história de Mar de Rosas coloca-nos dentro da casa de uma poderosa família. O filho do patriarca é Sebastião, por quem a empregada da casa, Celeste, nutre uma grande paixão. Se a mesma é correspondida ou não, só saberemos mais à frente. Embora os seus sentimentos sejam intensos, Celeste tem consciência de que há toda uma condição social que separa Sebastião de si. E ainda mais o é pela entrada em cena de Rosalinda, uma mulher impactante, cheia de si mesma, capaz de irritar qualquer leitor, e cuja ambição de se apoderar da fortuna da família é enorme. O seu plano passa por casar-se com Sebastião. 

Entretanto, a morte do patriarca agrava as tensões já existentes e desencadeia uma sucessão de conflitos, revelando interesses ocultos, rivalidades entre irmãos e uma luta feroz pelo controlo da herança. As duas irmãs de Sebastião também entram em cena, para que a trama cresça ainda mais. A intriga é digna de uma autêntica novela mexicana e aprecio especialmente que Tomás Sousa não o esconda, pois o próprio subtítulo do livro é "uma fotonovela de Tomás Sousa".

Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin
Mas o que importa aqui referir é que é uma fotonovela no melhor sentido da palavra, com uma trama cativante, por vezes provocadora, com muito drama à mistura e personagens impactantes. Algo que tão depressa bebe das saudosas Tieta do Agreste ou de Pedra Sobre Pedra, como das mais memoráveis obras de Eça de Queirós ou de Guy de Maupassant. É verdade que as personagens são algo unidimensionais, isto é, ou são muito boas ou muito más, e que podem representar clichés já por nós vistos noutras paragens, mas acho que, mais uma vez, isso não é bem uma fraqueza, mas antes uma escolha assumida.

A história é-nos contada por várias vozes: por Celeste, por Rosalinda, por Lúcia e por Victor, o irmão e advogado da infame Rosalinda. E isso dá profundidade à narrativa, pois coloca as personagens em contacto direto com o leitor. É, pois, (mais) uma escolha inteligente de Tomás Sousa. 

O que também é inteligente e rico, é o texto, que se nos revela muito bem escrito, com um certo pendor clássico na forma, mas sem ser pesado, o que dá um certo charme à narrativa. O próprio final da obra está bem concebido e é inteligente o suficiente para resolver bem a história, deixando uma brecha para, quem sabe, o autor poder voltar a este universo numa obra vindoura.

Nota ainda, positiva, para a introdução de anúncios entre capítulos, que são um plus muito bem vindo, pois permitem incutir à obra algum humor, fazerem a história parar para respirar e, em última análise, sedimentar ainda mais a não escondida homenagem às fotonovelas do antigamente. Como comecei por dizer neste texto, é mais um exemplo do aprimoramento e da atenção ao detalhe de Tomás Sousa.

Falta-me ainda mencionar os belos desenhos presentes neste Mar de Rosas. Tomás Sousa dá-nos personagens com uma expressividade impressionante com quem se torna difícil não criarmos uma relação de empatia - ou de repulsa, no caso de Rosalinda. O seu estilo é bastante moderno e o traço até se revela rápido e caricatural. Dá a ideia de que o autor desenha com velocidade. Mas a confiança do desenho é tal que essa alegada velocidade na ilustração nunca nos deixa com a ideia de estarmos perante desenhos apressados. Isto porque há bastante cuidado com os detalhes, com as cores, com a escolha das poses das personagens e dos próprios "planos de câmara". A primeira página de cada capítulo abre também com uma abordagem visual um pouco mais autoral, que nos permite perceber que, em presumíveis futuros trabalhos, o autor até pode, se quiser, enveredar por outras abordagens gráficas. Estamos, pois, perante um novo talento da BD nacional, cheio de potencial.

Em termos de edição, o livro apresenta capa mole e baça, com badanas. No interior, o papel utilizado é em papel baço de boa qualidade. A encadernação e impressão também são boas. No final, há um bem-vindo dossier de extras, convenientemente denominado de "Bastidores", que nos traz estudos de personagens, desenvolvimentos visuais, desenhos livres e estudos de capa. Por falar em capa, não é que eu não goste desta capa, mas creio que a mesma poderia ter sido melhor. E o que me leva a dizer isto é o talento demonstrado pelo autor dentro do próprio livro, bem como os outros estudos de capa ou mesmo a galeria de desenhos livres que nos é apresentada. Não sendo má, parece-me que a capa ainda poderia ser melhor. Mas isso é um detalhe que em nada belisca a qualidade desta primeira obra de grande fôlego de Tomás Sousa.

E, em suma, Mar de Rosas é bem capaz de ser o livro do ano, em termos de banda desenhada nacional, tal como Tomás Sousa pode bem ser o novo "menino de ouro" da BD portuguesa. Bela história, belos desenhos, bela escrita e bela execução, numa obra que todos devem conhecer. Fiquei fã!


NOTA FINAL (1/10):
9.2


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin

Ficha técnica
Mar de Rosas
Autor: Tomás Sousa
Editora: Penguin
Páginas: 192, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 171 x 239 mm
Lançamento: Setembro de 2026