segunda-feira, 4 de maio de 2026

Um Olhar Sobre a Comic Con 2026



Passada uma semana desde a Comic Con 2026, que este ano aconteceu no Europarque, em Santa Maria da Feira - um espaço que considero bastante adequado às necessidades do evento e que, portanto, merece uma nota positiva - trago-vos hoje a minha análise a este evento sui generis para o universo da banda desenhada.

E por muito que estas palavras possam não agradar a muita gente, tenho que vos ser sincero e dizer que a Comic Con Portugal se apresenta como um grande espelho do nosso tempo: um tempo guiado pela superficialidade, pelo ruído constante e pela ilusão de que quantidade é sinónimo de qualidade. O evento vende‑se como celebração da cultura pop, sim, mas rapidamente se percebe que essa “cultura” é reduzida a um conjunto de estímulos rápidos, fotografáveis e esquecíveis. De facto, tudo é pensado para o impacto imediato, para a partilha nas redes sociais, para a validação instantânea e raramente para a reflexão, para o aprofundamento ou para o respeito pelas raízes do que ali deveria ser celebrado: a banda desenhada.

Nesse sentido, e num evento que ostenta o nome "Comic Con" - que poderia ser traduzida como "Convenção de Banda Desenhada" -  a BD deveria ser o eixo central, o coração pulsante de toda a programação. E isso não acontece. Estive lá no sábado, durante várias horas, e pude constatar que a banda desenhada parece mais um item numa checklist de obrigações na programação do evento. Posso até dizer-vos, sem indicar o nome do autor, pois não me cabe a mim fazê-lo, que um dos autores estrangeiros com quem falei me disse mesmo que estava desiludido, pois não apreciava muito este tipo de eventos e que considerava que não deveria chamar-se "Comic Con", mas sim "Cosplay Con". Não poderia estar mais de acordo.

Por falar em autores, é verdade - e não me canso de reconhecê‑lo - que a Comic Con Portugal tem apresentado, ano após ano, o melhor lineup de autores de banda desenhada em território nacional. E este ano não foi exceção. Nenhum outro evento consegue - pelo menos no tempo atual - ter um cartaz que se aproxime (sequer) deste que, mesmo com a lamentável ausência de Frank Miller, incluiu, relembro, nomes importantes como Jason Aaron, Scott Snyder, John Romita Jr., Miguelanxo Prado, Bastien Vivès, Alicia Jaraba, Victor Pinel ou Jérôme Lereculey. Neste ponto, há que reconhecer que o trabalho da Organização é muito bem conseguido. Todos estes autores fizeram sessões de autógrafos e tiveram apresentações que lhes foram dedicadas. Algumas dessas apresentações, no grande auditório, estiveram bem compostas, mas outras estiveram verdadeiramente vazias. E isso é lamentável quando vemos pessoas a fazer filas para receber um tote bag de uma marca qualquer que nada tem que ver com banda desenhada. 

E talvez a "culpa" disto não seja inteiramente da Organização, reconheço. Talvez seja reflexo de nós todos e da sociedade que criámos. Aliás, isto é transversal a muitas outras coisas: quantas pessoas não vão a festivais de música sem terem real interesse nas bandas que lá tocam? Às vezes nem as conhecem. Estão no seu direito, claro, mas isso, quando amplificado, causa uma sensação de vazio no que está a ser apresentado. E cabe às Organizações dos eventos - diria eu que, tal como John Lennon, sou um sonhador - ser a garantia de um bom e relevante cuidado na qualidade da programação. E está visto que esse eco dos tempos superficiais em que vivemos se alastrou até aos eventos da banda desenhada, em paritcular este, o que faz com que a presença destes autores de renome mundial, já por mim referidos, pareça quase um paradoxo dentro do próprio evento. Os autores estão lá, sim, mas não no epicentro do evento. São convidados de luxo, mas sem o espaço estrutural que permita verdadeira proximidade entre as suas obras e os leitores.

Para os amantes da banda desenhada, este evento tem apenas isto: um excelente cartaz de autores, apresentações sobre a obra dos mesmos e a possibilidade de um autógrafo. Mas, de resto, o espetáculo é dominado por marcas, franchises e ativações publicitárias. 

É particularmente frustrante verificar a ausência de um espaço digno para editoras venderem banda desenhada de forma consistente e valorizada. Num país onde o mercado já é pequeno e frágil, a Comic Con poderia - e deveria - funcionar como uma oportunidade única de contacto direto entre autores, leitores e livros. E bem sei que não são as editoras portuguesas que não querem lá ir. São os preços avultados que a Organização lhes pede para aí venderem os seus livros. Isto leva a quê? Bem, leva a que, compreensivelmente, os editores não tenham presença no evento. Posso dizer-vos que procurei  na área comercial do evento, os livros de alguns dos autores que estavam presentes e não encontrei quase nenhum livro. Havia lá a Wook e a FNAC a venderem alguns livros, sim, mas era uma oferta parca e, por incrível que pareça, com mais livros de literatura fantástica do que de banda desenhada. Em vez de espaços de editoras a vender livros de banda desenhada, o que encontrei foram stands esmagados por merchandising genérico.

Também não há qualquer tipo de exposição de trabalhos o que, volto a dizer, daria mais força ao evento. E para aqueles que consideram que "as exposições não encaixam bem neste tipo de eventos", tenho que discordar. Aliás, lembro-me que numa das edições da Comic Con no Meo Arena, julgo que em 2022, havia uma exposição da Nickelodeon dedicada aos desenhos animados do canal televisivo. Ora, isto só comprova que, havendo interesse, haveria possibilidade de o fazer. Em vez disso, temos coisas efémeras, descartáveis e montadas para ser percorridas em segundos e fotografadas antes de se seguir para a próxima fila ou para o próximo palco ruidoso. 

Os cosplayers, omnipresentes, são o verdadeiro símbolo do evento. Parece ser esse o enfoque da Comic Con. E atenção que nunca me vão ouvir dizer mal do cosplay. Nada tenho contra esta prática e até a acho totalmente legítima e criativa. No entanto, acho que a mesma acaba por ser instrumentalizada pelo próprio evento, enquanto mera decoração ambulante. Mais uma vez, a aparência sobrepõe-se ao conteúdo, com a personagem a importar mais do que a obra.


Não é minha intenção denegrir minimamente a Comic Con com esta minha análise. Moderei duas conversas com dois autores, que acredito terem sido muito interessantes, e só tenho a agradecer à Organização - e em especial à generosa Maria José Pereira - pelo convite. Se faço estes reparos, é porque me parece que a Comic Con, com a dimensão que tem, poderia ser muito mais e muito melhor para o universo da banda desenhada. Nem digo que deixe de ter aquilo que já tem... mas que dê mais (muita mais) importância à banda desenhada, à criação da mesma, e ao próprio livro de banda desenhada.

Caso contrário, ficará sempre a sensação amarga de uma oportunidade desperdiçada. A Comic Con Portugal podia ser o grande motor da banda desenhada no país, um ponto de encontro real entre autores, editoras e leitores. Em vez disso, prefere cavalgar a onda da superficialidade contemporânea, apostando no espetáculo fácil e no consumo imediato. Pode ser um grande evento, mas continua muito longe de ser um grande evento de banda desenhada e isso, num contexto cultural tão frágil como o nosso, é mais do que uma falha: é uma escolha.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Bomba! Devir lança coleção "DC Pocket"!



A Devir acaba de anunciar que já no próximo mês de Maio nos vai trazer a sua nova coleçºao de banda desenhada que se intitula DC Pocket e traz-nos alguns clássicos da DC em formato reduzido! E também, já agora, em preço reduzido, visto que cada um destes livros custará apenas 10,00€. 

A abrir esta coleção estão os títulos Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo, e Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy, ambos já por cá publicados pela Levoir.

Acredito que esta coleção faz sentido, pois tem um caráter quase pedagógico de apresentar aos novos leitores alguns clássicos da DC e em preço reduzido. É claro que já estou a imaginar algum "choro" por serem obras já anteriormente publicadas em Portugal. No entanto, há que ter visão periférica e perceber a quem se destina a esta série, diria.

E, claro, se for possível a publicação futura de algum livro ainda não editado cá, melhor.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora.


DC POCKET

A Devir lança em Portugal, em maio de 2026, os primeiros títulos da coleção de enorme sucesso internacional DC Pocket, uma linha editorial que reúne algumas das histórias mais emblemáticas da DC Comics num formato compacto, integralmente a cores, portátil e acessível, pensada para responder a novos hábitos de leitura.

JOKER de Brian Azzarello e Lee Bermejo, é um romance gráfico intenso e sombrio que apresenta o Joker numa abordagem crua e realista. Com uma narrativa direta e uma arte marcante, é um clássico contemporâneo da DC, pensado para leitores que procuram histórias mais adultas e psicológicas.
132 páginas • 10,00€


BATMAN: CAVALEIRO BRANCO de Sean Murphy é uma reinterpretação moderna e aclamada do universo Batman. Numa história completa e independente, os papéis invertem-se quando o Joker recupera a sanidade e questiona publicamente os métodos do herói, levantando um debate atual sobre justiça, responsabilidade e poder em Gotham.
232 páginas • 10,00€

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Ala dos Livros publica novo volume de Wild West!



Já se encontra nas livrarias o novo volume da série Wild West, dos autores Thierry Gloris e Jacques Lamontagne, intitulado A Lama e o Sangue.

Continuamos a acompanhar as personagens de Wild Bill, Calamity Jane e Charlie Utter, enquanto Bass Reeves recebe destaque neste quarto volume de Wild West.

Esta é uma série que, na sua edição original, já conta com cinco volumes, estando previsto que a mesma seja concluída com a publicação futura do sexto volume.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse desta obra publicada pela Ala dos Livros, e com algumas imagens promocionais da mesma.

Wild West #4 - A Lama e o Sangue, de Thierry Gloris e Jacques Lamontagne

Ainda na pista do assassino, Wild Bill, Calamity Jane e Charlie Utter descobrem que o misterioso assassino, quando criança, foi provavelmente escalpelado por nativos americanos que também assassinaram os seus pais. 

Enquanto isso, Graham, o empregador do trio e chefe da Union Pacific, acolhe os Soldados Búfalo, soldados negros que contratou para proteger a ferrovia dos ataques indígenas. Uma minoria oprimida para subjugar nativos americanos?

A América, a terra da liberdade, não trata todos os seus filhos de forma igual... Mas a situação irá tornar-se ainda mais complexa quando os trabalhadores da via férrea dinamitarem um cemitério sagrado indígena...

Entre ficção, história e uma exploração intransigente do mito americano, a conclusão do incrível segundo díptico do Velho Oeste, carregado por um conjunto de personagens lendários.

Bass Reeves é a quarta lenda do Oeste na série Wild West, editada em Portugal pela Ala dos Livros.


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Ficha técnica
Wild West #4 - A Lama e o Sangue
Autores: Thierry Gloris e Jacques Lamontagne
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
PVP: 17,50€

Análise: Um Feiticeiro de Terramar

Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham - Relógio D' Água

Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham - Relógio D' Água
Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham

Foi durante este mês de Abril que a editora Relógio D'Água editou a adaptação para banda desenhada de Um Feiticeiro de Terramar. A obra original é da autoria de Ursula K. Le Guin e o autor responsável por esta adaptação para a 9ª arte é Fred Fordham, que já nos havia dado as obras Mataram a Cotovia e Admirável Mundo Novo. Ambas adaptações para BD de obras de literatura e ambas editas por cá pela Relógio D' Água.

Embora conhecesse a obra Um Feiticeiro de Terramar e a autora Ursula K. Le Guin de nome, nunca tinha lido esta obra, nem nada da autora, pese embora o seu nome e o seu reconhecimento dentro da literatura de fantasia seja muito grande.

Um Feiticeiro de Terramar acompanha a infância e formação de Ged, um rapaz nascido na ilha de Gont que descobre possuir um grande talento natural para a magia. Inicialmente orgulhoso e impulsivo, Ged aprende feitiçaria com um mago local. Devido ao seu enorme potencial para as feitiçarias, Ged acaba por trocar os ensinamentos desse mago local por aqueles lecionados na Escola de Magos da ilha de Roke. Aí, estuda as leis profundas da magia, sobretudo a importância do verdadeiro nome das coisas. O que achei curioso é que a magia e controlo dos elementos da natureza, como o estado do tempo ou os comportamentos dos animais, por exemplo, advenha desse conhecimento da linguagem mágica, ou seja, da palavra que controla cada coisa que o mágico pretende controlar. Se um mágico procura controlar, por exemplo, um corvo, tem que saber a palavra mágica própria para que consiga controlar esse animal. É por isso que há muito que estudar e aprender naquela escola que, com as devidas distâncias, até nos pode remeter para a Hogwarts, de Harry Potter.

Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham - Relógio D' Água
Apesar do ensino rigoroso que é dado nesta Escola de Magos, o orgulho de Ged leva-o a cometer um ato proibido, pois ao tentar mostrar a sua superioridade sobre outro estudante, Ged liberta uma sombra maligna no mundo. E é a partir desse exato momento que a história se transforma numa jornada pessoal. Essa sombra passa a persegui‑lo, representando tanto um perigo real quanto o reflexo dos seus próprios medos e falhas. Ged vagueia pelo reino de Terramar, um local repleto de numerosas ilhas e muita água, tentando de alguma forma combater esta sombra das trevas que, sem querer, acabou por libertar. Mas qual será então o verdadeiro poder de um feiticeiro? O de fazer feitiços ou o do auto-conhecimento? Terão que ler a obra para responder a esta questão.

A adaptação de Fred Fordham traz consigo um tom meditativo, simbólico e íntimo bem explanado pela linguagem visual contida e poética das ilustrações. O traço de Fordham é deliberadamente simples e suave, evitando o excesso de detalhe. Esta escolha estética está intimamente ligada à filosofia da própria história, que valoriza o equilíbrio, a humildade e a moderação. De facto, os desenhos limpos e suaves de Fordham, bem como vários enquadramentos amplos, contribuem para uma leitura contemplativa, em perfeita sintonia com o carácter introspectivo da viagem de Ged.

Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham - Relógio D' Água
O uso da cor é outro elemento que merece menção. Predominam tons terrosos, azuis suaves e uma paleta contida, que evoca simultaneamente a naturalidade do arquipélago de Terramar e a sobriedade do universo mágico. Não tenho dúvidas de que é neste Um Feiticeiro de Terramar que Fordham se revela inspirado como nunca. Do ponto de vista visual, e tendo em conta os livros Mataram a Cotovia e Admirável Mundo Novo, é este o seu melhor trabalho. Ainda que, como um todo, eu tenha preferido o belíssimo Mataram a Cotovia.

Sendo Um Feiticeiro de Terramar uma obra com vários momentos de ilustração que achei arrebatadores, nem tudo é perfeito. É verdade que, por vezes, as personagens são pouco expressivas. Noutros casos, podem ser dificilmente reconhecíveis, o que fragiliza o fio condutor da narrativa. Também há alguns problemas com as cores das ilustrações quando os ambientes ilustrados são mais escuros, como no caso em que a ação decorre no interior de casas ou nas alturas em que o relato acontece de noite. Isto torna certas ilustrações algo ilegíveis, de tão escuras que ficam. Primeiro, ainda achei que a "culpa" de isto acontecer era da edição da Relógio D'Água, que tinha deixado as páginas muito escuras. No entanto, fui procurar páginas de edições estrangeiras e cheguei à conclusão de que acontecia o mesmo fenómeno. Ou seja, as imagens acabam por ser bastante escuras em vários momentos, o que é uma pena.

Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham - Relógio D' Água
Mesmo assim, nas vezes em que a ação decorre ao ar livre - e felizmente isso acontece na maioria das páginas da obra - Fred Fordham oferece-nos magníficas vistas, com vários momentos e imagens que ficam na nossa mente muito depois de fecharmos o livro. Imagino que, se daqui a alguns anos, alguém me falar deste livro, prontamente se formará na minha mente uma imagem do nosso Ged envolvo por verdejantes montes e/ou azuladas ondas marinhas. É um daqueles livros em que, em termos visuais, quando funciona, funciona muitíssimo bem... mas quando não funciona, também o faz de forma inglória.

De resto, a edição da Relógio D'Água apresenta-se sólida. A capa é mole, baça e com badanas. No interior, o papel utilizado é brilhante e de boa qualidade. A encadernação também está bem feita. Quanto à impressão - e tal como referi no parágrafo anterior - a mesma me parece boa, pois o facto de haver páginas demasiado escuras está mais relacionado com a obra original do que com a impressão portuguesa da obra.

Em suma, a adaptação de Um Feiticeiro de Terramar para banda desenhada é um exemplo notável de como um clássico literário pode ser transposto para outro meio sem perder identidade nem profundidade. O resultado é um livro belo, equilibrado e profundamente humano, que confirma Terramar como um espaço de reflexão sobre identidade, responsabilidade e maturidade. É uma obra que confirma que a fantasia pode ser silenciosa, séria e profundamente humana.


NOTA FINAL (1/10):
8.3


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Um Feiticeiro de Terramar, de Fred Fordham - Relógio D' Água

Ficha técnica
Um Feiticeiro de Terramar
Autor: Fred Fordham
Adaptação a partir da obra original de Ursula K. Le Guin
Editora: Relógio D'Água
Páginas: 288, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Lançamento: Abril de 2026