quinta-feira, 28 de maio de 2026

Análise: As Guerras de Lucas - Episódio II

As Guerras de Lucas - Episódio II, de Laurent Hopman e Renaud Roche - Ala dos Livros

As Guerras de Lucas - Episódio II, de Laurent Hopman e Renaud Roche - Ala dos Livros
As Guerras de Lucas - Episódio II, de Laurent Hopman e Renaud Roche

A editora Ala dos Livros publicou há algumas semanas o segundo livro de As Guerras de Lucas, da autoria de Laurent Hopman e Renaud Roche, série pensada para três volumes, que nos mergulha nas angústias e glórias alcançadas pelo cineasta George Lucas na feitura da sua mais célebre obra de sempre, Star Wars. E se o primeiro volume deixou muita gente muito bem impressionada, comigo incluído, como tive oportunidade de referir na análise que fiz ao primeiro volume, este novo livro continua o bom caminho já trilhado pelos dois autores franceses.

Naturalmente, e à semelhança do álbum anterior, As Guerras de Lucas - Episódio II volta a colocar-nos no olho do furacão criativo e produtivo que esteve por detrás da construção do universo Star Wars, com o enfoque a recair, desta feira, no segundo filme da saga, O Império Contra-Ataca, frequentemente apontado como o mais aclamado filme de toda a franquia. E, tal como já acontecia no primeiro volume, Hopman e Roche oferecem-nos não apenas um relato factual, mas uma verdadeira narrativa de tensão, quase épica, sobre tudo aquilo que poderia ter corrido mal - e tantas vezes correu, diga-se.

As Guerras de Lucas - Episódio II, de Laurent Hopman e Renaud Roche - Ala dos Livros
Depois do estrondoso sucesso do primeiro A Guerra das Estrelas, seria legítimo pensar que George Lucas tivesse finalmente encontrado um terreno estável para trabalhar. Afinal, era agora uma figura respeitada em Hollywood, com recursos financeiros significativos e com uma legião global de fãs. No entanto, aquilo que Roche e Hopman fazem de forma particularmente eficaz é desmontar essa ideia de facilitação: o sucesso anterior não simplificou o caminho para o segundo filme da saga... complicou-o ainda mais.

E por vários motivos.

Durante a preparação de O Império Contra-Ataca, Lucas encontrava-se envolvido numa avalanche de responsabilidades simultâneas. Tentava transformar o seu rancho numa espécie de comunidade criativa, quase utópica, para realizadores; tinha ainda obrigações contratuais com o filme More American Graffiti; começava a desenvolver, em parceria com Steven Spielberg, aquilo que viria a tornar-se a saga Indiana Jones; e, paralelamente, geria a pressão pessoal da sua esposa, Marcia Lucas, que desejava uma vida mais equilibrada e a construção de uma família a dois. Este cruzamento de exigências profissionais e pessoais confere ao livro uma dimensão humana particularmente interessante. Muita coisa com que lidar, certamente.

As Guerras de Lucas - Episódio II, de Laurent Hopman e Renaud Roche - Ala dos Livros
E, como se tudo isto não bastasse, a própria produção de O Império Contra-Ataca revela-se ainda mais caótica do que a do primeiro filme. Problemas com os atores, dificuldades técnicas nas filmagens, atrasos constantes e um orçamento que, assegurado diretamente pelo próprio George Lucas, parece crescer sem controlo, tornam-se ingredientes recorrentes desta narrativa. A sensação de inevitável desastre paira constantemente sobre o leitor, num crescendo de tensão que Roche e Hopman sabem explorar com grande eficácia, tal como já o haviam feito no livro anterior.

Voltamos, portanto, a não estar apenas perante uma história de cinema, mas perante o retrato de um homem à beira da exaustão criativa e emocional. George Lucas surge aqui quase como uma figura trágica, constantemente empurrada para o limite pelas suas próprias ambições e pelas circunstâncias exteriores a si mesmo. 

Tal como no primeiro volume, o estilo narrativo mantém-se eletrizante. A leitura faz-se quase sem respiração, com os acontecimentos a sucederem-se de forma intensa, em catadupa, sempre com a sensação de que o próximo obstáculo poderá ser o derradeiro. E este ritmo, já anteriormente elogiado por mim, continua a ser um dos maiores trunfos da obra.

As Guerras de Lucas - Episódio II, de Laurent Hopman e Renaud Roche - Ala dos Livros
Além de que, claro, pelo caminho aprendemos inúmeras informações pertinentes e curiosas sobre a feitura do filme e sobre a própria indústria cinematográfica. O que faz com que, além de ser um livro direcionado para os fãs de A Guerra das Estrelas, este livro também se destina aos fãs de cinema, de modo geral. Laurent Hopman consegue, mais uma vez, produzir um equilíbrio notável entre rigor documental e fluidez narrativa. Sentimos que há uma pesquisa profunda por detrás de cada página, mas essa densidade nunca se torna pesada. Pelo contrário, a história é apresentada com uma dinâmica que nos prende do início ao fim, mesmo quando entramos em zonas mais técnicas ou burocráticas da indústria cinematográfica.

No campo visual, o trabalho de Renaud Roche permanece irrepreensível. O seu traço continua a ser simultaneamente simples e expressivo, com uma capacidade impressionante de captar a essência das personagens com poucos detalhes. A clareza da narrativa visual contribui de forma decisiva para o ritmo da leitura, tornando cada página um prolongamento natural do argumento. O desenho é quase sempre em escala de cinzentos, embora haja quase sempre um ou vários detalhes a cores, que tornam mais dinâmico e apelativo o conjunto gráfico.

As Guerras de Lucas - Episódio II, de Laurent Hopman e Renaud Roche - Ala dos Livros
Embora tenha gostado muito e recomende totalmente este livro, pois considero que até é daquelas obras que tem o potencial de conquistar pessoas que não têm por hábito ler banda desenhada, talvez este segundo volume não tenha o mesmo efeito de surpresa que o primeiro. E isso deve-se, em grande medida, ao facto de seguir uma estrutura e um estilo narrativo bastante semelhantes, claro. Existe um esforço evidente para evitar a sensação de “mais do mesmo”, mas a fórmula - sendo eficaz - já não impacta com a mesma frescura inicial. Isso não significa, contudo, que a obra perca valor. Pelo contrário, continua a ser um relato envolvente, tenso e profundamente humano sobre os bastidores de uma das mais importantes produções da história do cinema. Apenas se sente que o factor novidade já não joga tanto a seu favor.

A edição da Ala dos Livros é em tudo igual à do primeiro livro, apresentando capa dura baça, com detalhes a verniz; bom papel baço no interior e excelente encadernação e impressão.

Em suma, As Guerras de Lucas - Episódio II é uma continuação sólida e recomendável, sobretudo para quem apreciou o primeiro volume desta série. É um livro que reafirma a ideia de que as verdadeiras batalhas de Star Wars não aconteceram apenas no ecrã, mas sobretudo nos bastidores: nas decisões impossíveis, nas pressões esmagadoras e na perseverança quase obstinada de George Lucas. E, mais uma vez, isso basta para justificar plenamente esta bela leitura.


NOTA FINAL (1/10):
9.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


-/-

As Guerras de Lucas - Episódio II, de Laurent Hopman e Renaud Roche - Ala dos Livros

Ficha técnica
As Guerras de Lucas - Episódio II
Autores: Laurent Hopman e Renaud Roche
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 208, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 270 mm
Lançamento: Abril de 2026

As novidades da ASA para o segundo semestre de 2026!


A ASA já avançou quais as novidades de banda desenhada que prepara para o segundo semestre deste ano!

Entre as obras anunciadas, podemos encontrar a continuação de várias das séries que a editora tem em andamento, mas também algumas apostas menos óbvias - e, talvez por isso, estimulantes - para o que ainda falta deste ano editorial.

A editora, que tem vindo a consolidar o seu bom trabalho em belas apostas nos últimos anos, informa ainda que já tem o próximo ano alinhavado em relação a novas obras.

No entanto, optou por não revelar, ainda, que obras serão essas.

Deixo-vos, mais abaixo, com os livros que deverão chegar às livrarias nos próximos seis meses:

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Vem aí a adaptação de "Pátria", de Fernando Aramburu, para BD!



A ASA prepara-se para editar nos próximos dias a obra Pátria, de Toni Fejzula, que adapta para banda desenhada a obra original homónima de Fernando Aramburu.

Embora conheça a obra original por reputação, é um livro que nunca li e que poderia agora ler, numa adaptação de Toni Fejzula que, a julgar pelas páginas que já tive oportunidade de ler, promete ser marcante.

Por agora, o livro já se encontra em pré-venda no site da editora.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais da edição francesa da obra.
Pátria - Romance Gráfico, de Toni Fejzula

No dia em que a ETA anuncia o abandono das armas, Bittori dirige-se ao cemitério para contar junto do túmulo do seu marido, o Txato, assassinado pelos terroristas, que decidiu voltar para a casa onde viveram.

 Poderá conviver com aqueles que a perseguiram antes e depois do atentado que transformou toda a sua vida e a da sua família? Poderá saber quem foi o encapuzado que num dia chuvoso matou o seu marido, quando voltava da sua empresa de transportes? 

Por mais que chegue às escondidas, a presença de Bittori irá alterar a falsa tranquilidade da terra, sobretudo da sua vizinha Miren, amiga íntima noutros tempos, e mãe de Joxe Mari, um terrorista preso e suspeito dos piores receios de Bittori.

O que aconteceu entre essas duas mulheres? O que é que envenenou a vida dos seus filhos e dos seus maridos tão unidos no passado? 

Com as suas angústias disfarçadas e as suas convicções inquebrantáveis, com as suas feridas e as suas valentias, a história incandescente das suas vidas antes e depois do estouro que foi a morte do Txato, fala-nos da impossibilidade de esquecer e da necessidade de perdão numa comunidade desfeita pelo fanatismo político. 

Toni Fejzula adapta num impressionante romance gráfico, com um estilo narrativo visual e artístico sem comparação possível, um dos romances mais importantes do panorama literário atual.

-/-

Ficha técnica
Pátria - Romance Gráfico
Autor: Toni Fejzula
Adaptado a partir da obra original de Fernando Aramburu
Editora: ASA
Páginas: 304, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 27, 5 x 20,6 cm
PVP: 40,90€

Análise: A Fuga


A Fuga, de Paulo Caetano e Jorge Mateus

A dupla nacional de autores formada por Paulo Caetano e Jorge Mateus, lançou recentemente este A Fuga, o seu segundo álbum de banda desenhada, depois de, há menos de dois anos, nos ter dado O Segredo dos Mártires, que já havia deixado boas indicações.

Tal como dessa vez, a dupla volta a mergulhar-nos na história de Portugal. Mas, desta feita, esse mergulho é menos profundo, já que estamos perante eventos verídicos ocorridos há menos tempo. Se O Segredo dos Mártires se passava em época dos descobrimentos portugueses, A Fuga passa-se durante o tempo do Estado Novo, na década de 1950. 

E, como bem sabemos, ou devíamos saber, este foi um dos períodos mais conturbados da História portuguesa, sendo uma época marcada por forte repressão infligida à custa da mão firme de uma ditadura de má memória.

A história acompanha António Tereso, motorista da Carris e militante clandestino do PCP, que se vê no centro de um episódio extraordinário, que combina culpa e resistência ao mesmo tempo. António Tereso é descoberto pela PIDE e acaba preso e torturado pela mesma. Durante uma sessão de tortura não consegue conter o seu silêncio, e vê-se forçado a denunciar alguns dos seus companheiros. A partir daí, o protagonista vive um autêntico conflito interior e exterior, já que terá que recuperar a honra perante a família, perante os companheiros, perante o Partido e perante si próprio.

Ora, numa tentativa de recuperar a sua dignidade, António Tereso monta um plano quase impossível: organizar uma fuga da prisão de Caxias. Para tal, vive uma vida dupla em que conquista, por um lado, a confiança dos guardas da prisão e tenta, por outro lado, arquitetar, em total segredo, a famigerada e desejada evasão da prisão.

Este elemento eleva a narrativa a um patamar quase cinematográfico, onde cada passo é cuidadosamente preparado e carregado de tensão. É precisamente aqui que a obra se aproxima de um verdadeiro “policial”, com ritmo, suspense e uma construção meticulosa dos acontecimentos.

Como se uma fuga da prisão não fosse já algo digno do cinema, a experiência torna-se ainda mais incrível quando a fuga é feita a abordo de um automóvel Chrysler Imperial que Hitler tinha oferecido a Salazar. Pois, na verdade a fuga aconteceu mesmo e foi a bordo de um carro. Apenas não há qualquer prova de que Hitler tenha efetivamente oferecido este carro a Salazar. É um mito. E não há mal nenhum nisso, pois até aumenta, diria, a força narrativa da obra. 

O que me leva a afirmar, justamente, que um dos grandes méritos deste A Fuga reside no equilíbrio entre ficção e História. A obra não se limita a usar o contexto histórico como pano de fundo; antes integra acontecimentos e figuras reais, criando um cocktail muito interessante que oscila entre o rigor documental e a emoção narrativa. Este cruzamento torna a leitura não só envolvente, mas também enriquecedora do ponto de vista cultural e histórico.

Comparativamente com O Segredo dos Mártires, trabalho anterior da dupla, esta obra consegue superar em boa medida o seu predecessor. Há aqui uma maior maturidade narrativa e uma confiança evidente na condução do enredo. A história é mais ambiciosa, mais dinâmica e, sobretudo, mais focada na ação e no impacto emocional.

Ainda assim, nem tudo é perfeito. Sensivelmente a meio da obra, o enredo sofre algumas quebras de ritmo. Existem pequenas vinhetas que parecem dispensáveis e que quebram a tensão acumulada até então. Para além disso, alguns saltos temporais surgem de forma algo abrupta, podendo causar alguma desorientação na leitura. A sensação que fica é que a história poderia ter beneficiado de uma gestão mais equilibrada do tempo, do espaço e da ação.

No entanto, estas fragilidades não comprometem de forma significativa a qualidade global da obra, que está bastante elevada. A força da narrativa principal compensa amplamente esses momentos menos conseguidos e o plano de fuga, em particular, é imaginado por Paulo Caetano com grande mestria.

O estilo de desenho de Jorge Mateus mantém-se em consonância com aquilo que o autor já nos tinha providenciado em O Segredo dos Mártires - portanto, quem já gostou dessa obra, continuará a gostar bastante desta - mas talvez aqui a dinâmica nos desenhos funcione ainda melhor por se tratar de uma história de ação. O desenho é bastante moderno e estilizado, simples nas formas utilizadas, mas complexo nos enquadramentos e dinâmica.

A maneira como as cores são aplicadas, de forma plana e minimalista, também ajuda a que o livro ganhe um aspeto muito interessante e original em termos gráficos, ao mesmo tempo que permite um uso inteligente da luz e sombra nos desenhos. 

Além disso, o contraste entre os momentos mais intimistas e as sequências de maior intensidade é trabalhado com grande sensibilidade visual. Há uma clara preocupação em alinhar o estilo gráfico com o tom narrativo, o que evidencia a forte colaboração entre argumento e ilustração.

A edição da Iguana é em capa mole baça, com detalhes a verniz e badanas. No interior, o livro apresenta bom papel baço, boa impressão e boa encadernação. Como material adicional, encontramos as fotografias de prisão das várias individualidades que protagonizam a história, bem como breves notas biográficas das mesmas. Há ainda cópias de documentos e as fotografias que a PIDE utilizou para reconstituir a fuga dos presidiários. Em termos de legendagem, o trabalho poderia estar mais bem feito, tenho que referir.

Em suma, A Fuga é uma obra muito bem conseguida, em que Paulo Caetano e Jorge Mateus superam a sua obra conjunta anterior, oferecendo-nos um relato envolvente sobre uma das mais célebres fugas de uma prisão portuguesa, por alturas do Estado Novo. É um livro com relevância histórica e que sabe, ao mesmo tempo, presentear-nos com uma história emocionante que custa a acreditar que aconteceu mesmo. Mas a verdade é que (quase) tudo o que aqui nos é contado... aconteceu realmente.


NOTA FINAL (1/10):
8.7


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


-/-


Ficha técnica
A Fuga
Autores: Paulo Caetano e Jorge Mateus
Editora: Iguana
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Abril de 2026