quinta-feira, 23 de julho de 2026

Análise: CoBrA - Porto

CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros

CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros
CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes

Foi há algumas semanas que chegou ao fim a série CoBrA, editada pela Ala dos Livros, e extraída da mente de Marco Calhorda que, para tamanha empreitada, contou com quatro autores - três deles portugueses - para as ilustrações desta ambiciosa e historicamente (muito) relevante banda desenhada nacional. 

Este mais recente livro chama-se CoBrA - Porto e conta com as ilustrações de Paulo Montes. Depois de Operação Goa e dos dois tomos de Operação Conacri, a ação da série leva-nos finalmente para o território de Portugal, durante o período dos anos 80, numa altura em que o país procurava encontrar estabilidade após o turbilhão político, militar e social desencadeado pelo 25 de Abril. 

Passaram-se mais de dez anos desde os acontecimentos de Conacri e nesse período de tempo, tudo tinha mudado em Portugal. O império colonial tinha desaparecido, o regime ditatorial tinha caído, a Guerra Colonial tinha terminado e atores importantes de todo esse universo, como Jorge Jardim, o fundador da agência CoBrA, deixaram de estar presentes. Contudo, algumas das feridas desse tempo permaneceram abertas... até mesmo ao tempo atual,  diria eu, já que ainda vivemos num tempo em que o 25 de Abril está bem fresco, muito embora já se tenham passado mais de 50 anos. 

CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros
Mas voltando à história, é quando uma vaga de atentados terroristas perpetrada pelas FP-25 começa a atingir Portugal, que Afonso Costa e Ivone Reis, antigos agentes do CoBrA, se voltam a encontrar no centro dos acontecimentos, colaborando nas investigações conduzidas pela Polícia Judiciária para desmontar uma das mais violentas organizações clandestinas da nossa história recente. De facto, as Forças Populares 25 de Abril (FP-25) foram uma organização armada clandestina de extrema-esquerda que atuou em Portugal entre 1980 e 1987, levando a cabo atentados, assaltos e ações terroristas que provocaram mais de duas dezenas de mortos, alegadamente em defesa dos ideais revolucionários que consideravam traídos após o 25 de Abril.

A partir deste tema, não tantas vezes comentado, narrado ou discutido, Marco Calhorda volta a construir uma narrativa que cruza ficção e realidade histórica, utilizando este contexto para desenvolver um conto de espionagem. Tal como nos volumes anteriores, os factos históricos servem, pois, de alicerce a uma narrativa de entretenimento, mas até diria que desta vez existe, quiçá, uma dimensão mais pessoal e emocional na narrativa, pois as personagens de Afonso Costa e Ivone Reis não estão apenas a enfrentar inimigos, mas mostrando-se confrontadas com as consequências das escolhas feitas ao longo das décadas antecedentes. Isso confere ao álbum um tom mais melancólico e reflexivo, que acaba por ser bastante adequado, tendo em conta que estamos perante um capítulo final.

Ao longo da história presente neste CoBrA - Porto, encontramos vários momentos de ação e tiroteios, que quase nos parecem transportar para um filme policial de ação americano, o que é especialmente impactante para o leitor que sente, por um lado, uma certa proximidade histórica a estes eventos, mas, por outro, e ao mesmo tempo, um certo distanciamento por poder custar a acreditar que, de facto, houve tanta violência a ser feita à custa da ação das FP-25. É claro que, repito, há aqui uma forte componente ficcional, não deixando de ser verdade que o enredo se apoia em eventos e lugares que, efetivamente aconteceram mesmo. Apreciei também o facto da introdução das mulheres strippers que acabou por emprestar a este volume um tom mais noir e uma certa sensualidade.

CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros
A história torna-se, portanto, interessante para acompanhar da primeira à última página, fazendo com que esta seja uma leitura que se faz de um só trago. Mesmo que, tal como aconteceu comigo, possamos regressar à obra para uma segunda e mais atenta leitura. 

Também é justo dizer que Marco Calhorda é hoje um argumentista mais sólido do que era quando iniciou esta aventura com Operação Goa. A evolução ao longo dos vários volumes é, pois, evidente, já que o autor foi refinando a sua forma de construir cenas, de gerir o ritmo narrativo e de organizar a informação histórica dentro da própria narrativa. Aquilo que no primeiro livro, por vezes, parecia excessivamente apressado ou fragmentado surge agora mais amadurecido e controlado.

Ainda assim, algumas das fragilidades que fui apontando aos volumes anteriores continuam presentes, embora de forma menos acentuada. Também neste CoBrA - Porto, em determinados momentos, voltei a sentir alguma dificuldade em acompanhar com total clareza certas ligações entre personagens, acontecimentos e localizações. Não se trata de um "problema" grave, até porque a história continua perfeitamente legível, mas parece-me existir, ocasionalmente, uma certa dificuldade em encontrar o equilíbrio ideal entre uma narrativa demasiado explicativa e outra que deixa algumas peças importantes por preencher. 

Olhando agora, para a globalidade da série, penso ser justo dizer que se há algo que a série CoBrA conseguiu fazer de forma particularmente eficaz ao longo dos seus quatro volumes, foi pegar em episódios frequentemente negligenciados da história portuguesa recente e transformá-los em matéria-prima para uma narrativa acessível e cativante. Desde Goa até Conacri, passando agora pelo período das FP-25, Marco Calhorda demonstrou uma capacidade rara para identificar acontecimentos históricos pouco explorados, transportando-os para o universo da BD sem perder o equilíbrio entre o rigor e o entretenimento.

Aliás, até creio que nem sempre é suficientemente referido o valor documental deste projeto. Num país onde muitas vezes se lamenta o desconhecimento das gerações mais novas sobre o Estado Novo, sobre a Guerra Colonial ou sobre os complexos anos do pós-25 de Abril, CoBrA desempenha quase uma função de serviço público. Através de um meio tão apelativo e acessível como a BD, Marco Calhorda convida leitores de diferentes idades a descobrir episódios marcantes da nossa história contemporânea. E fá-lo sem transformar os livros em manuais escolares, privilegiando sempre a aventura, a ação e o suspense.

É precisamente essa combinação entre entretenimento e divulgação histórica que me parece ser a principal força da série. Os livros de CoBrA conseguem despertar curiosidade sobre os temas que abordam. Muitas vezes, terminada a leitura, o impulso natural é procurar saber mais sobre os acontecimentos reais que inspiraram a narrativa. Poucas obras nacionais conseguem gerar esse efeito de forma tão consistente e isso é um mérito que deve ser reconhecido.

CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros
Falando em méritos, no campo visual, Paulo Montes revela-se uma escolha bastante feliz para encerrar a saga. Depois do estilo mais "cartoonesco" de Osvaldo Medina em Operação Conacri - Tomo 2, este novo livro recupera uma abordagem mais realista, aproximando-se visualmente da linha definida por Daniel Maia e posteriormente continuada por Zoran Jovicic. Essa maior proximidade estética ajuda inclusivamente a reforçar a sensação de unidade da série. Considero apenas que, devido ao traço de Osvaldo Medina ser o mais diferente dos quatro autores, talvez pudesse ter sido Osvaldo a assinar esta tomo, que é independente, em detrimento de ter ilustrado a segunda parte de uma história já começada por outro autor.

De resto, Paulo Montes é especialmente bem sucedido na caracterização, em grande plano, das personagens e das suas expressões faciais, e na ilustração dos veículos de época que são um mimo para os olhos - especialmente se, como eu, apreciarem os carros do tempo em que decorre a ação desta obra. 

É verdade que surgem ocasionalmente algumas posturas corporais menos naturais ou menos elegantes, mas são casos pontuais. Também dei conta de, em várias situações, as personagens segurarem as armas com mãos diferentes, coisa que pode ser vista como um erro de continuidade visual. Mas, no essencial, Paulo Montes entrega um trabalho sólido, competente e visualmente apelativo, contribuindo para que este volume mantenha o bom nível artístico que sempre caracterizou a série.

A edição do livro segue aquilo que já havia sido feito nos anteriores volumes da série. O livro tem capa dura, em tecido, que é ainda coberta por uma sobrecapa. No interior, o livro tem bom papel brilhante e um bom trabalho ao nível da encadernação e impressão, se bem que, entre as páginas 73 e 78, verifiquei que os tons a preto estavam menos carregados e contrastados do que o expectável. Pode estar relacionado com o meu exemplar apenas, sendo um pequeno erro da gráfica que imprimiu o livro. Mas deixo a nota. Para além disso, temos ainda vários textos adicionais: uma introdução de Marco Calhorda, um prefácio de Manuel Castelo Branco e um posfácio de Ana Gomes. Há, por fim, ainda quatro páginas em que nos são dados estudos e esboços de páginas.

Em suma, CoBrA – Porto encerra de forma digna uma série que conquistou um lugar muito próprio na banda desenhada portuguesa. Marco Calhorda conclui aqui um percurso marcado por uma evidente evolução enquanto argumentista e por uma permanente preocupação em recuperar episódios esquecidos da nossa história recente. Já Paulo Montes oferece um trabalho gráfico consistente e alinhado com a identidade visual que ajudou a definir o universo CoBrA. Mais do que um simples álbum de ação ou espionagem, este livro - tal como a série no seu conjunto - afirma-se como uma obra de enorme relevância cultural, histórica e editorial. E só por isso, independentemente das pequenas imperfeições que possam ser apontadas, CoBrA merece ser lida, discutida e valorizada por todos aqueles que acompanham a banda desenhada portuguesa.


NOTA FINAL (1/10):
8.9


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CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros

Ficha técnica
CoBrA - Porto
Autores: Marco Calhorda e Paulo Montes
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 88, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 270 mm
Lançamento: Junho de 2026

Análise: Partir, Ficando

Partir, Ficando, de Christophe Chabouté - Levoir - Jornal Público

Partir, Ficando, de Christophe Chabouté - Levoir - Jornal Público
Partir, Ficando, de Christophe Chabouté

O quarto lançamento da Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público trouxe-nos um dos livros de banda desenhada que mais me impactou durante este ano de 2026. Falo de Partir, Ficando, de Christophe Chabouté. 

Confesso ser fã da obra do autor francês e de já ter adorado os outros álbuns editados em Portugal pela Levoir, nomeadamente, Moby Dick, Táxi Amarelo ou Acender Uma Fogueira, bem como outros livros de Chabouté que li em edições estrangeiras. E a bela mensagem deste Partir, Ficando até me faz colocar este livro, em particular, como o meu preferido, a par de Moby Dick, do autor.

Isto porque este é um daqueles livros que consegue transformar-nos de forma silenciosa. E, sinceramente, e por muito que eu gostava que acontecesse o contrário, a verdade é que são raros os livros que nos conseguem mudar. Ou, pelo menos, impelir-nos a tentar fazê-lo. E isto não acontece por esta ser uma obra que seja particularmente complexa ou ambiciosa na forma como constrói o seu enredo, mas precisamente porque alcança algo muito mais difícil: faz-nos olhar para o mundo - e para nós próprios - de maneira diferente.

Partir, Ficando, de Christophe Chabouté - Levoir - Jornal Público
A premissa da obra é de uma simplicidade quase desarmante. Alexandre é um homem comum, um funcionário de um parque de estacionamento cuja vida decorre ao ritmo monótono e previsível dos dias sensaborões que passam sem deixar marca. 

É um daqueles indivíduos que encontramos todos os dias sem verdadeiramente os ver. Vive sozinho, trabalha sozinho e parece existir num estado de discreta invisibilidade social. Quantas pessoas não conhecemos que encaixam perfeitamente nesta descrição? Mas, durante este ano, nas suas férias, procura fazer algo diferente. E enceta uma viagem ao Alasca, uma fuga para um lugar longínquo daquele em que vive, que lhe permita quebrar a prisão silenciosa da rotina em que se tornou a sua vida. Mas o destino intervém - não vou contar como, terão que ler o livro - e impede-o de partir nessa tão desejosa viagem.

Impossibilitado de viajar, Alexandre aluga um quarto de hotel no lado oposto da praça em que vive. Só para aproveitar as férias já marcadas e, pelo menos, tentar fazer algo diferente. E é este o ponto de rotura, com Chabouté a levar-nos a uma profunda reflexão sobre aquilo que significa realmente viajar.

Partir, Ficando, de Christophe Chabouté - Levoir - Jornal Público
A grande força deste Partir, Ficando reside, diria, na capacidade de desmontar uma das ilusões mais modernas da nossa época: a ideia de que a felicidade, a descoberta ou a realização pessoal existem sempre algures longe de nós. Parece que precisamos de ir para longe do sítio em que vivemos para que as viagens que fazemos pareçam mais espetaculares. Além disso, acresce o facto de vivermos numa época em que glorificamos a deslocação constante, a experiência seguinte, o próximo destino, a próxima fotografia. Somos educados para acreditar que a plenitude está sempre noutro lugar. Chabouté responde a essa inquietação com uma pergunta simples: e se estivermos a procurar no sítio errado?

Ao alugar um quarto na mesma rua onde sempre viveu, Alexandre faz algo aparentemente ridículo. A ideia parece quase absurda. Contudo, aquilo que muda não é o espaço geográfico que ocupa, mas a forma como passa a observá-lo. O seu bairro não se transforma; aquilo que se transforma é o seu olhar. A forma como vê o mundo, as pequenas e as grandes coisas à sua volta. E as pessoas que o rodeiam. E é aí que reside a verdadeira aventura.

Poucos autores possuem a capacidade de encontrar poesia onde a maioria das pessoas vê apenas banalidade. Chabouté é um desses raros criadores. Em vez de nos apresentar monumentos, paisagens exóticas ou acontecimentos extraordinários, oferece-nos janelas, passeios, árvores, vizinhos, cafés e ruas comuns. O quotidiano deixa de ser apenas quotidiano e revela-se como um território vasto, misterioso e profundamente humano.

Partir, Ficando, de Christophe Chabouté - Levoir - Jornal Público
Há, portanto, algo quase zen nesta proposta narrativa. O livro parece recordar-nos constantemente que a vida não acontece apenas nos grandes momentos que guardamos na memória. Acontece também - e talvez sobretudo - nos pequenos instantes que normalmente deixamos escapar. 

Por isso mesmo, Partir, Ficando poderá não ter o mesmo impacto junto de todos os leitores. Tenho a convicção de que esta é uma obra que cresce à medida que também nós, leitores, crescemos. Não porque um leitor jovem seja incapaz de a compreender, mas porque certos temas exigem experiência de vida para serem verdadeiramente sentidos. É difícil medir a riqueza de uma rotina quando ainda não se viveu dentro dela. É difícil compreender a solidão urbana quando ainda não se experimentou o peso dos dias semelhantes uns aos outros. E é difícil reconhecer a beleza escondida nos detalhes quando ainda se procura incessantemente o brilho das grandes novidades.

Por tudo isto, considero este um livro maduro, destinado a um público mais vivido. Os leitores mais maduros - e, sobretudo, aqueles que já acumularam algumas derrotas, desilusões, recomeços e aprendizagens - encontrarão aqui uma ressonância especial. Quem nunca acreditou que precisava de mudar de cidade, de trabalho, de país ou de vida para finalmente encontrar aquilo que procurava? Quem nunca confundiu movimento com transformação?

Partir, Ficando, de Christophe Chabouté - Levoir - Jornal Público
E atenção que, a este respeito, Chabouté nunca cai na armadilha de oferecer respostas fáceis ou mensagens motivacionais simplistas. A obra não nos diz que devemos abandonar os nossos sonhos de viajar. Nem, tampouco, sugere que o mundo exterior não vale a pena ser descoberto. O que faz é muito mais subtil: lembra-nos que nenhuma paisagem distante resolverá aquilo que não conseguimos resolver dentro de nós.

Já falei muito sobre o argumento do livro, mas ainda falta mencionar o belíssimo desenho de Chabouté. Não há aqui grandes novidades, exceptuando a presença de cor em determinados momentos da história - que normalmente é a preto e branco puro - bem como a reprodução das páginas do caderno de viagem do protagonista. De resto, o preto e branco de Chabouté continua a ser verdadeiramente fantástico. Não é apenas bonito... também é expressivo. Há páginas inteiras em que uma sombra comunica mais do que muitos diálogos. Há silêncios que pesam, respiram e emocionam. Poucos desenhadores compreendem tão bem que o vazio também conta uma história.

Quanto à edição da obra, o livro conta com a habitual capa dura baça. No miolo, o papel também é baço e de boa qualidade. A encadernação e impressão também estão boas. Há ainda um prefácio da minha autoria.

Em suma, Partir, Ficando é uma banda desenhada de uma beleza rara, profundamente humana, melancólica, contemplativa e poética. Uma obra que fala de viagens, mas que, afinal, fala de presença. Que fala de distância, mas que, afinal, fala de proximidade. Algumas viagens terminam no exato momento em que regressamos a casa. Mas esta viagem que Chabouté nos propõe, começa precisamente em casa. E é talvez nesse ponto que reside a grandeza desta obra. Na forma discreta como altera a nossa percepção do mundo. Sem ruído. Apenas recordando-nos algo que sempre soubemos, mas que tantas vezes esquecemos: que a vida não é feita apenas dos lugares onde vamos, mas da atenção com que escolhemos habitar os lugares onde já estamos. É um dos livros do ano!


NOTA FINAL (1/10):
10.0

Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Partir, Ficando, de Christophe Chabouté - Levoir - Jornal Público

Ficha técnica
Partir, Ficando
Autor: Christophe Chabouté
Editora: Levoir
Páginas: 152, a preto e branco, com algumas vinhetas a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
Lançamento: Julho de 2026


As novidades da Arte de Autor para o segundo semestre de 2026!


Hoje é dia de olharmos para as novidades que a editora Arte de Autor prepara para o segundo semestre de 2026! Não são muitas as obras avançadas pela editora, por agora, mas são propostas bastante interessantes que refletem, acima de tudo, continuidade editorial com o trabalho que a Arte de Autor tem vindo a fazer nos últimos meses.

Acredito que possa haver ainda espaço para o lançamento de mais livros, mas, pelo menos por agora, são estas as obras confirmadas para o segundo semestre do ano.

E atenção que, no final deste artigo, há uma nota explicativa sobre duas das mais aguardadas obras da editora. Leiam tudo, por favor.

Eis, então, as novidades da Arte de Autor para o segundo semestre de 2026:

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Análise: Heksa - A Bruxa

Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita

Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita
Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim

Se há casos em que uma opção editorial pode condenar uma obra, este Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim, inserido na recente coleção Âmbar, da editora A Seita, dedicada a obras de autores polacos, é um perfeito exemplo.

Há muito para falar da obra, da sua história, das suas ilustrações, mas não consigo começar este texto sem referir isso mesmo: que uma pequena opção editorial arruinou por completo a minha experiência de leitura.

O que aconteceu em concreto?

Muito sumariamente, este Heksa - A Bruxa utiliza muitas expressões em silésio. Para quem não sabe, o silésio é uma língua variante do polaco, que é tradicional da região da Silésia, no sul da Polónia. É um idioma muito próximo do polaco, mas com vocabulário, pronúncia e características próprias, sendo por alguns considerado um dialeto e por outros uma língua distinta. 

Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita
Face a isto, A Seita optou por preservar em silésio as expressões que também estavam em silésio na obra original, dotando o livro de uma página de glossário no final e de um marcador de página com o mesmo glossário. Assinalo o esforço do gesto, mas não foi suficiente para tornar menos penosa a leitura desta obra. Conhecendo o cuidado editorial dos vários membros d' A Seita, bem sei que esta não foi uma opção leviana ou despreocupada - caso contrário nem sequer teria sido feito o marcador de página - e até acredito que a ideia inicial da editora tenha sido a de ser fiel à obra original e à identidade cultural que a autora pretende transmitir. Imagino que a ideia foi "se a obra original tem expressões em silésio, então que as mantenhamos deste modo na edição portuguesa". 

Mas foi uma má opção. Isto porque aquilo que funciona de forma natural para um leitor polaco, não permite o mesmo efeito junto de um leitor português. A maioria dos polacos, mesmo aqueles que não conhecem verdadeiramente bem o silésio, têm capacidade de o compreender. Nem que seja "por alto". Agora, o português comum não sabe nada de silésio. Nem de polaco, quanto mais de silésio.

Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita
E isso faz com que o problema da obra resida precisamente na experiência de leitura. Embora a inclusão de um glossário permita, em teoria, compreender o significado das expressões utilizadas, a necessidade constante de interromper a leitura para consultar as notas acaba por quebrar o ritmo da narrativa. E em vez de o leitor permanecer imerso na história, vê-se obrigado a alternar repetidamente entre o texto principal e as páginas finais do livro ou o marcador de página. Se fosse algo que acontece esporadicamente, eu não faria alusão alguma a esta situação. Mas é algo constante e recorrente. Dou-vos um exemplo: na página 105 do livro, encontramos os seguintes diálogos: "O que é que estás a fanzolic? É o que te dodom. Não acredito... Oh, Ciul! Vão-nos wyciepnac? E a nós também? E é quase Santa Bárbara! Greve? Estou mesmo a widza isso..." Acham que uma leitura assim é possível e agradável? Pois, eu também não.

E, por essa razão, considero que uma tradução integral das expressões em silésio para português, teria sido a opção mais adequada para a edição portuguesa. Enquanto um leitor polaco consegue geralmente inferir ou compreender o sentido das palavras em silésio devido à proximidade linguística e cultural, o leitor português parte de uma posição completamente diferente. Para se ser fiel à obra original, talvez se pudesse colocar o texto em silésio numa outra cor ou font... mas tudo devia ter sido traduzido para português. Lamentavelmente, isso não aconteceu.

Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita
Até porque, e agora sim, focando-me mais na obra, este Heksa - A Bruxa até é uma leitura interessante. Tendo até recebido um importante prémio de BD em Lódz, a obra conta-nos a história de uma mulher que chega a uma comunidade operária na Silésia, nos anos 1920, e que, de um modo quase automático, causa verdadeiro tumulto nas gentes da terra. Não será um tema novo ou uma história completamente original - lembro-me de ter sido especialmente remetido para o filme Chocolate, com Juliette Binoche e Johnny Depp, que era baseado no livro homónimo de Joanne Harris. De facto, várias obras já exploraram esta ideia de uma mulher - ou um homem, como em Armazém Central, por exemplo - chegarem a uma localidade fechada e, por serem pessoas mais abertas ao mundo, terem chocado a pequena população dessa terra recôndita.

Neste caso, em Heksa - A Bruxa, no centro da narrativa está Pelagia, uma mulher independente, bela, sofisticada e carismática que desperta a atenção e o desejo de muitos habitantes, incluindo do jovem Alojz. Até as mulheres, pelo menos as mais jovens e mais abertas, querem ser como Pelagia. Mas, lá está, é precisamente por não corresponder ao comportamento esperado para uma mulher da época, que Pelagia acaba por se tornar alvo de rumores, suspeitas e acusações, sendo gradualmente associada à figura da bruxa (a tradução de "heksa") pela própria comunidade. Mais do que uma história sobrenatural, esta é uma reflexão sobre o medo da diferença, a intolerância e os mecanismos de exclusão social. 

Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita
Gostei da história, mesmo achando que era clichet em alguns pontos e que alguns elementos da narrativa poderiam ter sido melhor explorados.

Em termos visuais, a obra agradou-me especialmente. Utilizando apenas o preto, o branco e o cor de rosa, a autora Katarzyna Witerscheim (que conta com o contributo de Xulm para o trabalho de colorização) oferece-nos um traço elegante, sensível e muito belo em termos estéticos. Destaco também a sensualidade que emana das ilustrações dos momentos mais íntimos de Pelagia e Alojz. 

O resultado é uma obra visualmente marcante, não diria deslumbrante, mas diria muito elegante e bela, em que a componente gráfica não se limita a ilustrar a história, mas participa ativamente na construção do seu ambiente e da sua carga emocional. Por ventura, até pode ser o que mais ressalta desta obra. Se bem que, volto a frisar, a história e, principalmente, o tema da história, também são interessantes.

Falando ainda da edição da obra, para além do pecado capital - já amplamente explicado por mim - da opção por se manter as muitas expressões da obra em silésio, o livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz, e bom papel baço no seu interior. A encadernação e a impressão também são de boa qualidade. No final, há ainda duas belíssimas ilustrações adicionais, uma nota da autora e um storyboard de algumas páginas.

Em suma, Heksa - A Bruxa é uma obra que merece ser lida pelas qualidades da sua história, pela pertinência dos temas que aborda e, sobretudo, pela beleza do seu trabalho gráfico. Katarzyna Witerscheim constrói uma narrativa interessante sobre preconceito, exclusão e medo da diferença, apoiada por um universo visual elegante e muito expressivo. É por isso ainda mais frustrante que uma opção editorial bem-intencionada, mas inadequada ao contexto português, acabe por prejudicar de forma tão significativa a experiência de leitura.


NOTA FINAL (1/10):
6.7



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim - A Seita

Ficha técnica
Heksa - A Bruxa
Autora: Katarzyna Witerscheim
Editora: A Seita
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Maio de 2026