Uma das mais recentes novidades da Ala dos Livros dá pelo nome de Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, uma obra da autoria de Jérôme Félix e Alain Janolle, originalmente editada em dois volumes, entre 2022 e 2023, e que a editora portuguesa congrega num volume integral.
Este é um trabalho que se apresenta como uma obra apelativa à partida, colocando frente a frente duas das figuras mais icónicas da literatura policial: Arsène Lupin e Sherlock Holmes. Estamos perante uma adaptação - ou releitura - da obra original criada por Maurice Leblanc. E sou-vos sincero: a promessa de um duelo entre o ladrão cavalheiro e o detetive mais célebre do mundo criou-me facilmente uma expectativa imediata, sugerindo uma narrativa intensa, inteligente e cheia de reviravoltas.
A história avança quando Arsène Lupin, ao assumir a identidade de especialista em códigos, é surpreendido por um homem que diz ser ele próprio. Este desconhecido pede-lhe ajuda para decifrar uma sequência enigmática, o que leva Lupin a iniciar a investigação. Descobre então que se trata de Maurice Guercin, ligado a uma família rica cuja herança envolve o suposto segredo alquímico de transformar metais comuns em ouro.
Mas à medida que esta investigação avança, surge uma ameaça familiar: Sherlock Holmes continua determinado a capturar Lupin. O confronto entre ambos intensifica-se então, e revela-se carregado de perseguições, disfarces e jogos de inteligência.
Uma das coisas mais interessantes nesta abordagem é que a mesma se destaca pela forma como reinterpreta estas duas personagens clássicas. Arsène Lupin mantém o seu charme e perspicácia inconfundíveis, mas surgindo aqui como um criminoso sofisticado que ambiciona, curiosamente, reformar-se. Isto faz com que seja fácil para nós criarmos empatia com esta criativa - e divertida - personagem.
Por outro lado, também é interessante que a personagem de Sherlock Holmes nos seja apresentada numa versão bastante diferente daquela a que estamos habituados. Aqui, surge mais como um antagonista do que como um verdadeiro herói, algo que poderá causar estranheza a leitores mais familiarizados com a criação de Conan Doyle. Este é um Sherlock Holmes mais agressivo, por vezes até vingativo.
No que toca ao enredo, a obra tenta construir uma trama intrincada e cheia de surpresas. Há um esforço claro em enganar o leitor, montando e desmontando o puzzle da investigação de forma constante. Este estilo poderá remeter para as obras de Agatha Christie, em particular para as várias bandas desenhadas que a Arte de Autor tem publicado por cá na coleção dedicada às adaptações dos clássicos da escritora britânica.
Contudo, apesar dessa ambição estrutural, foi com alguma pena que verifiquei que o resultado não atinge plenamente o nível de excelência a que parece aspirar. A história é agradável e envolvente em vários momentos, sem dúvida, mas fica aquém de se tornar verdadeiramente memorável. Há uma sensação persistente de que algo poderia ter sido mais aprofundado ou melhor trabalhado. Ou mais ajustado. É que, por um lado, a obra tem elementos sérios e parece apontar a um público mais maduro e sofisticado. Por outro lado, certas resoluções no enredo e certos eventos na narrativa parecem adquirir um tom demasiadamente juvenil e parcamente trabalhado.
Não é que seja um livro que não se leia bem, mas acho que falha em ser um trabalho mais memorável. Parece muito "ligeirinho" para aquilo que, aparentemente, procura ser: uma história densa, com muitas dimensões e que desafie a nossa inteligência.
Uma das principais fragilidades prende-se com a clareza do enredo, que se torna várias vezes confuso. E essa "confusão" não advém de uma complexidade intelectual desafiante, ou de subtramas mais complexas, mas antes de escolhas - e até mesmo diálogos - que parecem forçados. Em vez de enriquecer a história, certos desenvolvimentos acabam por quebrar a fluidez e a coerência da narrativa. Além disso, o ritmo revela-se por vezes demasiadamente acelerado. As situações sucedem-se com rapidez, e algumas resoluções parecem surgir de forma prematura ou pouco desenvolvida.
Os diálogos também contribuem para essa sensação de artificialidade. Em vários momentos, soam algo forçados. E este aspeto reforça, lá está, a ideia de que a obra se aproxima mais de um estilo mais juvenil do que de uma narrativa adulta mais complexa. E, atenção, não há nada de errado nisso. Apenas acho que o livro sofre de uma certa bipolaridade entre o que quer e o que não quer ser.
Ainda assim, não se pode dizer que seja uma leitura desinteressante, reitero. Pelo contrário, o livro lê-se bem e mantém um certo ritmo cativante. Simplesmente, não consegue cumprir totalmente a promessa de ser uma história densa e intelectualmente desafiante.
No campo visual, porém, a obra brilha de forma clara. O trabalho de Alain Janolle é muito belo, com um traço limpo e semi-caricatural que remete para importantes nomes da banda desenhada francófona, como Willy Lambil, Bruno Gazzotti ou Pierre Alary, por exemplo. Com as devidas diferenças, claro está. As personagens são expressivas, os cenários bem trabalhados e a planificação dinâmica, contribuindo fortemente para o prazer da leitura.
Também as cores merecem uma nota de apreço, graças ao contributo dos coloristas Delf & Walter. O seu trabalho é harmonioso e inspirado, complementando na perfeição o desenho e elevando o conjunto visual. No final, esta componente gráfica acaba por ser um dos maiores trunfos da obra, compensando em parte algumas fragilidades do argumento.
Em termos de edição, estamos perante mais um belíssimo trabalho da Ala dos Livros. O livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz e um belo grafismo. No interior, o papel é brilhante e de boa qualidade. Também de boa qualidade é a encadernação, impressão e acabamentos. O dossier de extras, com textos de René Pulsani e Jérôme Félix, é extremamente interessante, pois oferece alguma profundidade à obra e consegue até mesmo amarrar algumas das pontas soltas presentes na obra. Belos extras, portanto. Nota positiva, também, para a opção por editar a obra num volume integral.
Em suma, Arsène Lupin contra Sherlock Holmes oferece uma leitura envolvente e inteligentemente construída, destacando-se pelo ritmo dinâmico, pelos jogos de identidade e pelo carisma intemporal de Arsène Lupin. A tensão crescente entre Lupin e Sherlock Holmes acrescenta profundidade à narrativa e mantém o interesse até ao fim. Ainda assim, apesar do seu encanto e de algumas reviravoltas bem conseguidas, há momentos em que a história pode parecer algo previsível ou forçada.
NOTA FINAL (1/10):
7.5
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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