quinta-feira, 30 de julho de 2026

Análise: Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas)

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa
Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil)

Recentemente aproveitei a oportunidade para mergulhar no universo de Michel Vaillant, lendo alguns dos livros que mais recentemente foram por cá editados pela editora ASA. É por isso que hoje vos trago um artigo sobre seis(!) dos últimos livros de Michel Vaillant. E a minha conclusão perante estas obras não é propriamente animadora, tenho que confessar. Mas já la irei.

Hoje falo-vos um pouco de Redenção e Remparts (Lapière, Bourgne e Eillam); de No Inferno de Indianápolis e Alma dos Pilotos (Lapière e Dutreuil); e de Origens e Seventies (Jean Graton).

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa
Há que admitir que todos estes livros demonstram bem que a marca Michel Vaillant, originalmente criada por Jean Graton, continua viva e editorialmente ativa. Contudo, essa vitalidade quantitativa está longe de se refletir numa verdadeira relevância criativa. Entre os álbuns da série Nova Temporada, os títulos da nova coleção Corridas Lendárias e os volumes de Histórias Curtas, recuperadas do passado, fica a sensação de que a franquia atravessa uma crise de identidade profunda, dividida entre a tentativa de modernização, por um lado, e a incapacidade de encontrar uma voz verdadeiramente contemporânea, por outro. Se quiserem ler um bom livro deste universo, leiam Henri Vaillant. Esse, sim, não sendo perfeito, foi dos melhores livros deste universo que li em anos. O único que, sinceramente, vale mesmo a pena. A não ser que sejam fãs incondicionais da série, está claro.

Começando pelos dois volumes mais recentes da série moderna, posso dizer-vos que Redenção e Remparts, assinados por Philippe Lapière, Marc Bourgne e Eillam, ilustram bem essa dificuldade criativa que se regista nesta série. Isto porque apesar destes dois livros - e dos seus antecessores - procurarem inserir Michel Vaillant no contexto atual do desporto automóvel, com temas contemporâneos e uma maior preocupação com o realismo das competições, os resultados dificilmente ultrapassam a mediania.

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa
Não são trabalhos intragáveis, mas são "fraquinhos", com as histórias a carecerem de impacto, audácia e, ironicamente, contemporaneidade. Os enredos desenvolvem-se de forma funcional, previsível e pouco memorável ou inspirada. Existe ainda uma certa dificuldade em criar personagens verdadeiramente cativantes. Michel Vaillant continua a ocupar o centro da narrativa, claro, mas é uma personagem bastante unidimensional, que raramente demonstra a profundidade ou complexidade necessárias para sustentar sozinho o (pouco) peso dramático das histórias. E muitas das figuras secundárias surgem como instrumentos narrativos, sem espaço para evoluírem ou se tornarem realmente interessantes.

Os desenhos são competentes e reconhecíveis, mas raramente impressionam - muito embora, considere as capas desta Nova Temporada muito bonitas. Há dinamismo suficiente para ilustrar as corridas, mas falta alguma personalidade artística. Tudo parece funcional, mas pouco inspirado, mostrando que, mais do que tudo, estes álbuns estão a ser produzidos para cumprir uma determinada fórmula editorial previamente estabelecida. E o resultado é uma série que, de tempos a tempos, ainda consegue apresentar um volume relativamente interessante, mas que raramente deixa qualquer marca duradoura no leitor. 

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa
E quando terminamos a leitura, a sensação predominante não é a de termos acompanhado uma história marcante, mas apenas mais um episódio de uma série que continua a avançar por capricho editorial ou para continuar a alimentar um público envelhecido e nostálgico que talvez esteja mais preocupado em continuar a comprar a série, por colecionismo, do que por qualidade.

Essa sensação torna-se ainda mais evidente quando chegamos à coleção Michel Vaillant - Corridas Lendárias. Em teoria, a iniciativa tinha potencial: recuperar o espírito clássico da obra de Jean Graton, apostar em histórias mais autocontidas e celebrar momentos históricos do automobilismo. Na prática, porém, o resultado revela-se profundamente decepcionante.

Tanto No Inferno de Indianápolis como A Alma dos Pilotos parecem existir num território desconfortável entre a homenagem e, com todo o respeito, a imitação barata. As histórias tentam recriar o ambiente dos álbuns clássicos sem, contudo, compreender aquilo que os tornava especiais. O resultado são narrativas pouco inspiradas, previsíveis e incapazes de gerar verdadeiro entusiasmo.

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa
E o problema agrava-se ao nível gráfico. Se a série moderna é competente sem maravilhar, esta coleção dá frequentemente a sensação de regressão. As personagens apresentam expressões faciais rígidas e pouco naturais e muitas sequências transmitem uma estranha falta de energia. Em vez de homenagear Graton, acabam por destacar a distância - abismo! - que separa estes novos autores da qualidade do criador original.

O mais frustrante, pois por isso, é que Corridas Lendárias falha em ambas as direções possíveis. Não consegue ser uma continuação digna do legado clássico e também não tem a coragem de propor algo verdadeiramente novo. É uma série que parece ficar presa numa espécie de nostalgia sem ambição, limitando-se a reproduzir - de forma superficial - alguns elementos familiares, mas sem encontrar uma razão convincente para existir.

Curiosamente, - ou deverei dizer, expectavelmente? - a iniciativa mais interessante entre estes seis livros acaba por ser a mais simples: a publicação dos volumes Michel Vaillant - Histórias Curtas 1: Origens e Michel Vaillant - Histórias Curtas 2: Seventies. Não porque estas histórias sejam irrepreensíveis, mas porque oferecem algo que as restantes obras dificilmente conseguem reproduzir: autenticidade.

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa
Ao ler estas narrativas assinadas por Jean Graton, o criador original da série, percebemos imediatamente que estamos perante um autor que possuía uma visão clara da sua criação. Existem limitações evidentes, naturalmente associadas à época em que muitas destas histórias foram produzidas, mas também existe uma energia criativa e uma personalidade que se tornaram raras nas produções mais recentes.

É verdade que várias destas histórias não envelheceram particularmente bem. A narrativa sobrecarregada de texto pode parecer ingénua, bem como algumas soluções dramáticas são datadas, pertencendo claramente a outro tempo. No entanto, existe nestes livros uma honestidade criativa que acaba por compensar muitas dessas fragilidades.

Além disso, estes dois volumes funcionam como uma espécie de "auto-homenagem" ao percurso de Jean Graton, pois permitem ao leitor acompanhar a evolução do autor, revisitar momentos importantes da personagem e compreender melhor as raízes de uma série mítica como esta. 

Em termos de edição, todos os livros apresentam um aspeto agradável. No miolo, os seis livros têm bom papel brilhante, com a encadernação e impressão a estarem igualmente bem executadas. Todas as capas são duras, embora as dos livros da Nova Temporada apresentem acabamento brilhante, enquanto as outras são baças. O formato dos livros de Corridas Lendárias e de Histórias Curtas é ligeiramente superior aos de Nova Temporada. Finalmente, os dois livros de Histórias Curtas incluem textos de apoio. E o primeiro dos dois, Michel Vaillant - Histórias Curtas 1: Origens tem ainda, no final, um texto particularmente interessante, o que beneficia em muito a edição.

No final, a conclusão não é particularmente animadora. Michel Vaillant continua a ser uma marca ativa, mas dificilmente se pode dizer que esteja a atravessar um período criativamente relevante. Talvez ainda exista um público fiel e envelhecido que continue a acompanhar estas publicações por afeto e nostalgia. É perfeitamente legítimo. O problema é que, olhando apenas para a qualidade das obras, é difícil evitar a sensação de que Michel Vaillant vive cada vez mais da memória do que da capacidade de continuar a produzir banda desenhada verdadeiramente memorável.


NOTAS FINAIS (1/10):
Redenção: 7.0
Remparts: 6.8
No Inferno de Indianápolis: 6.0
Alma dos Pilotos: 5.5
Histórias Curtas 1: Origens: 8.0
Histórias Curtas 2: Seventies: 7.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Fichas técnicas
Michel Vaillant - Redenção
Autores: Lapière, Bourgne e Eillam
Editora: ASA
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 294 x 221 mm
Lançamento: Novembro de 2024

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Michel Vaillant - Remparts
Autores: Lapière, Bourgne e Eillam
Editora: ASA
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 294 x 221 mm
Lançamento: Março de 2026

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Michel Vaillant - Corridas Lendárias 1 - No Inferno de Indianápolis
Autores: Lapière e Dutreuil
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 320 x 240 mm
Lançamento: Março de 2025

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Michel Vaillant - Corridas Lendárias 2 - A Alma dos Pilotos
Autores: Lapière e Dutreuil
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 320 x 240 mm
Lançamento: Maio de 2026

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Michel Vaillant - Histórias Curtas 1 - Origens
Autor: Jean Graton
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 320 x 240 mm
Lançamento: Junho de 2023

Michel Vaillant (Nova Temporada, Corridas Lendárias e Histórias Curtas) - Jean Graton, Lapière, Bourgne, Eillam e Dutreuil) - ASA - LeYa

Michel Vaillant - Histórias Curtas 2 - Seventies
Autor: Jean Graton
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 320 x 240 mm
Lançamento: Março de 2024

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Análise: Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia

Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon - Arte de Autor

Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon - Arte de Autor
Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon

Foi já durante o presente ano que a editora Arte de Autor publicou mais um volume da sua coleção dedicada à adaptação para banda desenhada dos clássicos de Agatha Christie. Esta é, relembro, a maior coleção - em número de volumes - da editora.

Desta vez, estamos perante a obra Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, do argumentista Frédéric Brrémaud (que desta feita assina o seu apelido com dois R's - não é erro da editora, descansem, é mesmo assim que o autor assinou este livro na sua edição original) e do ilustrador Alberto Zanon. Esta dupla tem-nos oferecido aquelas que considero as melhores obras desta coleção. E, mais uma vez, o trabalho de ambos é bastante meritório.

Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon - Arte de Autor
No caso em apreço, Hercule Poirot e o capitão Hastings estão de férias na Cornualha, onde conhecem a jovem Nick Buckley, uma proprietária de uma casa situada no topo de uma falésia. Nick afirma ter sobrevivido a uma série de estranhos "acidentes" que, segundo Poirot, são na realidade tentativas de homicídio. Poirot fica, então, convencido de que alguém pretende assassinar esta jovem mulher e decide protegê-la, investigando quem, entre os amigos e conhecidos que frequentam a casa, poderá ter um motivo para a eliminar. 

Como seria de esperar, tendo em conta que estamos perante uma obra extraída da mente intricada de Agatha Christie, à medida que a investigação avança Hercule Poirot depara-se com uma teia de mentiras, identidades ambíguas e interesses ocultos. E o caso torna-se ainda mais complexo quando ocorre uma morte que parece confirmar os piores receios do detective. Obviamente, Poirot consegue reunir pistas aparentemente insignificantes - daquelas que passam pelos nossos olhos sem que delas demos conta, mesmo sabendo de que se trata de uma obra de Agatha Christie - e consegue desmontar as falsas aparências que rodeiam os habitantes e hóspedes da Casa da Falésia. 

Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon - Arte de Autor

Brrémaud volta a conseguir adaptar bem o romance original para banda desenhada, mantendo a estrutura fundamental da obra original e preservando os seus elementos cruciais: os falsos indícios, que fintam os leitores; as suspeitas constantes, que vamos construindo enquanto lemos a obra; e a cuidadosa construção do suspense

Apesar da condensação narrativa, o leitor continua a ser convidado a observar pistas, formular hipóteses e tentar antecipar a solução antes da revelação final. E é precisamente essa participação ativa que torna a leitura particularmente satisfatória. É quase como se fosse um jogo, estilo escape room, que já sabemos que teremos que fazer, ainda antes de mergulharmos na leitura.

Não apreciei tanto o excesso da reprodução integral de correspondência entre personagens, mas também aceito que seria difícil abordar o assunto dessas cartas de outra forma num livro que apenas tem 64 páginas.

Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon - Arte de Autor
No plano gráfico, também Alberto Zanon volta a realizar um trabalho muito competente. O seu traço é claro, limpo, expressivo e acessível, favorecendo a legibilidade da narrativa. As personagens, mesmo sendo várias, distinguem-se facilmente entre si e as suas expressões faciais ajudam a transmitir emoções, aspeto particularmente relevante numa história assente em mentiras, disfarces e segundas intenções. Os cenários também constituem outro dos pontos fortes da obra. A recriação da Cornualha, da casa - quer vista de fora, quer vista de dentro, através dos seus elegantes interiores - bem como os jardins, contribui para uma forte sensação de época. 

Confesso que dei conta de, em algumas vinhetas, o desenho do autor parecer um pouco mais rápido e menos aprumado quando comparado com outros álbuns do autor. Não é nada que comprometa negativamente a nossa experiência de leitura, simplesmente faz com que este não seja o álbum com os melhores desenhos que o autor já fez para esta coleção.

A edição da Arte de Autor é em capa dura brilhante, com bom papel baço no interior. De resto, o trabalho de encadernação e impressão também está bem feito.

Em suma, Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia é mais uma adaptação sólida, elegante e respeitadora da obra de Agatha Christie. Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon voltam a conseguir equilibrar fidelidade e acessibilidade neste trabalho, como já o haviam feito noutras adaptações com que contribuíram para esta coleção.


NOTA FINAL (1/10):
8.4



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia, de Frédéric Brrémaud e Alberto Zanon - Arte de Autor

Ficha técnica
Hercule Poirot - Perigo na Casa da Falésia
Autores: Frédéric Brémaud e Alberto Zanon 
Adaptado a partir da obra original de: Agatha Christie
Editora: Arte de Autor
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Fevereiro de 2026

O Amadora BD mais que duplica o valor do seu prémio!


São boas notícias para a banda desenhada em Portugal!

A organização do Amadora BD acaba de anunciar que o valor pecuniário do Prémio atribuído à categoria Melhor Obra de Banda Desenhada de Autor Português passa de 5.000 para 10.000€! E isto é fantástico e aumenta, naturalmente, o impacto deste prémio!

E as boas notícias não ficam por aqui: a obra vencedora da categoria Prémio Revelação passa a receber o valor pecuniário de 3.000€, quando até aqui não recebia qualquer valor em dinheiro.

Também na categoria de Melhor Edição Portuguesa de Banda Desenhada, o Município da Amadora procederá à aquisição de 100 exemplares desse livro vencedor, o que também acaba por ser um prémio para a editora que, desta forma, assegura a venda de 100 livros.

Em termos de jurados, também há alterações. Para além de um elemento proposto pelo Município e por um especialista em BD, que linha com o passado, passa agora a integrar no conjunto dos três jurados, o vencedor do prémio Melhor Obra de Banda Desenhada de Autor Português do ano passado. No caso em apreço, será Luís Louro a desempenhar essa função este ano.

Tenho que dar os parabéns à Organização do Amadora BD. Confesso que ainda acho que o júri deveria ser alargado, pelo menos, a 5 elementos, mas também tenho que ser justo e assinalar a importância de todas as coisas que já assinalei e que vão melhorar, certamente, estes prémios.

Bom trabalho!

Deixo-vos, aqui, com o novo regulamento completo.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Análise: Wild West - Volumes 4 e 5


Wild West - Volumes 4 e 5 - A Lama e o Sangue | Redenção, de Thierry Gloris e Jacques Lamontagne

Com o volume 4, intitulado A Lama e o Sangue, da série Wild West publicado no mês passado de abril, a editora Ala dos Livros não esperou muito tempo até lançar o álbum mais recente desta série da autoria de Thierry Gloris e Jacques Lamontagne  que, deste modo, fica a par com a edição original da obra em termos de lançamentos. Este quinto e novo volume chama-se Redenção e acaba de chegar às livrarias.

Como tal, foi razão para que eu pudesse ler estes dois volumes de forma seguida. E, mais uma vez, posso dizer-vos que esta é uma série do estilo western que me deixa especialmente agradado, mesmo admitindo que os últimos volumes, em especial o volume 4, caíram ligeiramente em qualidade.

Depois do excelente Escalpes em Série, aquele que considerei o melhor da série até agora, as minhas expectativas eram naturalmente elevadas, até porque esta coleção se tem afirmado como uma das mais consistentes abordagens ao western na banda desenhada franco-belga contemporânea. Se o quarto volume encerra o segundo ciclo narrativo da série, o quinto tomo inaugura uma nova etapa para estas personagens, com resultados distintos, mas igualmente interessantes.

Mas falemos de cada volume em particular.

Em A Lama e o Sangue, continuamos a acompanhar Wild Bill Hickok, Calamity Jane e Charlie Utter na perseguição ao assassino que marcou os acontecimentos de Escalpes em Série. Desta feita, e relembrando que em cada um dos tomos há sempre uma nova personagem que é inspirada em figuras históricas reais, a nova personagem é Bass Reeves, uma personagem absolutamente fascinante da história americana, por ser um dos primeiros U.S. Marshals negros. 

Paralelamente, a narrativa alarga o seu foco para os conflitos em torno da expansão ferroviária, do tratamento reservado aos povos indígenas e da utilização dos Soldados Búfalo (soldados afro-americanos), acrescentando uma importante dimensão histórica e social ao enredo.

O álbum começa de forma particularmente promissora. As primeiras páginas conseguem articular muito bem o mistério em torno dos assassinatos com questões históricas reais, explorando as tensões raciais e culturais da América do século XIX. A inclusão dos Soldados Búfalo revela-se especialmente interessante, não só pelo valor histórico da sua presença, mas também pelas ambiguidades morais que a sua utilização levanta dentro da narrativa, claro está.

Contudo, à medida que a história progride, fica a sensação de que parte desse potencial inicial não é totalmente aproveitado. O enredo encaminha-se para soluções mais convencionais e para uma sucessão de confrontos que, embora visualmente impressionantes, nem sempre parecem surgir de forma totalmente orgânica. Existe ação em abundância, sim, mas por vezes ela surge quase como um fim em si mesma, ocupando espaço que poderia ter sido dedicado a aprofundar algumas personagens ou conflitos.

Isto não significa que o álbum seja fraco. Longe disso. Simplesmente, depois da densidade dramática e da excelente gestão de ritmo que encontrámos em Escalpes em Série, este quarto volume parece um pouco mais apressado e menos refinado no desenvolvimento de algumas das suas ideias mais interessantes. É o tomo mais fraco - ou menos forte, como preferirem - da série, quanto a mim.

Redenção, segue uma abordagem bastante diferente. Após os acontecimentos traumáticos do ciclo anterior, encontramos agora Wild Bill, Calamity Jane e Charlie Utter estabelecidos em Dolores City. Bill desempenha funções de xerife, Charlie tornou-se carteiro e Jane continua a travar uma batalha contra os seus próprios vícios, cedendo ao alcoolismo. Parece que, exceptuando Calamity Jane, Wild Bill e Charlie Utter alcançaram uma vida de amena normalidade. Isto até à chegada da família Ballou, que promete pôr a tranquilidade da pequena cidade em causa.

Desde cedo se percebe que este quinto volume tem objetivos bastante diferentes, pois, ao contrário do tomo antecessor, não procura impressionar-nos através de uma sucessão constante de confrontos ou revelações. Como tal, o ritmo é mais pausado, mais contemplativo e claramente orientado para a construção das personagens e das relações entre elas. É uma opção que poderá surpreender alguns leitores - especialmente tendo em conta o tomo anterior -, mas que, na minha opinião, beneficia bastante a narrativa.

A presença dos Ballou e da lendária Belle Starr funciona sobretudo como catalisador para explorar as fragilidades e os conflitos das personagens principais, com a história a "respirar" de forma mais natural. Existe uma clara sensação de construção, como se este álbum estivesse deliberadamente a posicionar as peças para acontecimentos mais relevantes futuros. O resultado é um álbum que talvez tenha menos momentos de ação memoráveis, mas que oferece maior consistência dramática. Como se fosse a preparação de algo maior que há de chegar no tomo seguinte, Dolores City.

De uma forma geral, continuo a apreciar muito esta série. Wild West consegue encontrar um equilíbrio raro entre rigor histórico e liberdade ficcional. Embora as aventuras sejam obviamente romanceadas, existe sempre um pé bem assente em factos, personagens e contextos reais, o que contribui para uma maior credibilidade e riqueza da narrativa. Como se, à boa maneira de Lucky Luke, que procurou sempre falar-nos de uma figura ou de um tema real do faroeste, a história se tornasse mais verossímil. E, claro, quando comparada com a série do "cowboy que dispara mais depressa do que a própria sombra", Wild West consegue ser mais madura e realista no conteúdo e forma.

No plano gráfico, o trabalho de Jacques Lamontagne continua a ser verdadeiramente espetacular. O seu traço permanece impressionante, quer na representação das personagens históricas, quer na recriação dos ambientes do Oeste americano. Existe um cuidado constante com os enquadramentos, as expressões faciais e os cenários, fazendo com que cada página seja visualmente apelativa. Por vezes, pode aparecer uma ou outra expressão mais "cartoonizada" do que aquilo que seria expectável, mas de um modo geral, tudo funciona muito bem no plano visual da obra.

E são especialmente memoráveis algumas das ilustrações de página dupla que surgem ao longo destes dois volumes, e que acabam por constituir verdadeiros momentos de espetáculo visual que demonstram todo o talento de Lamontagne. Também em termos de cores, o trabalho do autor é impressionante, especialmente em termos de luz, em cenas com iluminação interior.

Quanto à edição destes livros, a mesma está em linha com os restantes volumes da série, como seria expectável. Os livros têm capa dura baça, com detalhes a verniz, e o papel no interior é brilhante e de boa qualidade. A impressão e a encadernação também são boas.

Em suma, Wild West continua a ser uma série obrigatória para todos os fãs do western em BD e um persuasivo convite aos leitores menos experientes em obras do género, mesmo ficando no ar a sensação de que o quarto volume ficou uns furos abaixo dos restantes. A boa notícia é que Redenção recupera uma abordagem mais ponderada e centrada nas personagens, inaugurando de forma bastante promissora um novo ciclo da série. Que venha o próximo volume!


NOTA FINAL (1/10):
Wild West #4 - A Lama e o Sangue: 8.4
Wild West #5 - Redenção: 9.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Fichas técnicas
Wild West #4 - A Lama e o Sangue
Autores: Thierry Gloris e Jacques Lamontagne
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Abril de 2026


Wild West #5 - Redenção
Autores: Thierry Gloris e Jacques Lamontagne
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Julho de 2026