Lançado pel' A Seita ainda durante o último Amadora BD, este O Preço da Desonra - Crónicas de Kubidai é o segundo volume da série, deixando-a deste modo finalizada. Mas sendo formalmente um segundo volume, diria que este livro funciona menos como continuação narrativa e mais como um aprofundamento conceptual, revelando um autor plenamente consciente do peso moral do universo que criou.
Tal como no primeiro livro, estamos no Japão do período Edo, num mundo aparentemente estabilizado após décadas de guerra, mas moralmente corroído. É verdade que os conflitos entre clãs podem ter abrandado, mas não é menos verdade que esses mesmos conflitos deixaram um rasto de homens quebrados, promessas adiadas e uma honra que acaba por não ser virtude, mas antes um instrumento de controlo social.
O conceito central não muda face ao livro anterior: para escapar à morte imediata no campo de batalha, são muitos os samurais que assinam notas promissórias comprometendo-se a pagar uma avultada quantia, mais tarde, para que a sua vida lhes seja poupada. Hanshiro é o homem encarregado de cobrar essa dívida, bem como o protagonista das quatro histórias que compõem este livro.
Curiosamente - e talvez de forma algo inesperada, uma vez que o primeiro volume é mais celebrado no universo da banda desenhada - acabei por preferir este livro ao primeiro. Não porque seja mais espetacular ou mais chocante, mas porque Hirata parece aqui ter a personagem mais bem delineada. Hanshiro deixa de ser apenas o dispositivo moral da narrativa e passa a revelar uma identidade mais sólida, ainda que construída a partir do silêncio e da ambiguidade.
E, claro, também me pareceu que a simples razão de este livro ter apenas quatro histórias - e não as sete do volume anterior - permite que cada uma dessas histórias possa ser mais bem desenvolvida e explanada, fazendo com que acabem por ser mais impactantes para o leitor.
Comparando os dois volumes, nota-se portanto que o primeiro tinha uma força mais conceptual, quase de manifesto, e este segundo parece mais introspetivo e mais seguro da sua própria "voz".
As quatro histórias são independentes entre si, funcionando como verdadeiras crónicas morais. Cada uma apresenta novas figuras como samurais desonrados, camponeses esmagados pelos desenvolvimentos político-sociais da época ou guerreiros que simplesmente, no calor da batalha, escolheram viver. Todas estas personagens têm que arcar com o peso das suas escolhas, o que atribui à obra - e à própria personagem de Hanshiro - um papel algo moralista.
Apreciei especialmente a forma como a obra desmonta o bushido, o código dos guerreiros japoneses, sem nunca o ridicularizar, ao mostrar que, na prática, o código de honra poderia perfeitamente ser manipulado para justificar violência desmedida, sacrifício inútil ou culpa perpétua. A "honra" surge-nos, pois, como uma construção social frágil e não como um valor absoluto.
Em termos de desenho, a obra mantém o traço rigoroso a preto e branco, já demonstrado no volume anterior. Por esse motivo, recupero aquilo que, na altura, escrevi na análise que fiz ao primeiro volume da obra: "o desenho é verdadeiramente magnífico, com Hirata a revelar-se um autêntico mestre na ilustração realista das personagens, dos seus combates, dos ambientes e, acima de tudo, das poses que transmitem inequivocamente o ambiente épico e bélico que as histórias de samurais normalmente conseguem criar no nosso imaginário. O traço a preto e branco do autor apresenta alguma sujidade que, quanto a mim, dá o ambiente certo a este tipo de histórias duras e implacáveis onde a morte espreita ao virar da página. Há ilustrações que são de tirar o fôlego!"
Como ponto menos positivo no desenho de Hirata, reconheço que quando há muitas personagens do mesmo género e mais ou menos com a mesma idade, acaba por haver uma certa dificuldade em perceber-se quem é quem, o que retira uma certa fluidez narrativa à leitura. Mas também não é nada que seja muito gritante ou muito presente.
Em termos de edição, a obra apresenta capa mole, com badanas, um bom papel baço no miolo, e uma boa encadernação e impressão. No final, há ainda um glossário de termos onde são explicadas algumas expressões e conceitos culturais presentes na história.
Em suma, O Preço da Desonra 2 - Crónicas de Kubidai é uma obra dura, adulta e profundamente pessimista, mas também extraordinariamente honesta. Se o primeiro volume desta obra do mestre Hiroshi Hirata teve um impacto inegável, há que reconhecer que é neste segundo volume que o autor parece ter encontrado o equilíbrio certo entre personagem, tema e forma.
NOTA FINAL (1/10)
8.9
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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