Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade
Este era um dos livros que eu mais queria ler, confesso-vos. Depois do espetacular
As Muitas Mortes de Laila Starr, em que ficou claro como a obra tinha uma muito criativa premissa narrativa e um fantástico texto a acompanhá-la, de Ram V, bem como uma bela ilustração por parte do português Filipe Andrade, estava desejoso de ler este
Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, que a editora
Kingpin Books acaba de publicar.
Tinha lido muitas coisas positivas sobre esta obra, sabia que era algo completamente diferente de As Muitas Mortes de Laila Starr e que tinha como temas centrais a gastronomia indiana e alguns elementos fantasiosos. Mas pouco mais eu sabia sobre a obra.
Estava à espera, portanto, de algo que fosse bom, sim, mas devo confessar-vos que as minhas expectativas foram redondamente superadas! Confesso-vos: fiquei maravilhado com esta obra.
Eis uma banda desenhada única, bela, poética, madura e inesquecível, que nos faz parar um pouco da azáfama dos nossos dias em excesso de velocidade para que possamos refletir - realmente - sobre o sentido da vida e como melhor vivê-la. Ou apreciá-la.
Rare Flavours acompanha a viagem improvável de dois protagonistas: por um lado, temos um demónio antigo, curioso e contemplativo, que deseja tornar-se numa espécie de novo Anthony Bourdain; por outro lado, temos um jovem cineasta humano que decide - um pouco a contragosto - documentar a jornada gastronómica do demónio. Juntos, encetam uma viagem em que percorrem diferentes regiões da Índia em busca de experiências culinárias únicas, experimentando pratos preparados por pessoas comuns, tais como cozinheiros de rua ou cozinheiros domésticos. Mas todos eles são autênticos guardiões de tradições locais, da comida tradicional e da forma como a mesma é confeccionada desde sempre.
Mas não pensem que esta é uma viagem meramente gastronómica e quase turística, porque não o é. Ao invés, é muito mais uma exploração do que significa viver, lembrar e deixar um rasto no mundo.
À medida que as personagens avançam pelo seu périplo, cada refeição transforma-se numa porta para histórias mais profundas, enquanto vamos percebendo que este Demónio encerra em si verdades ocultas que tardam a ser reveladas. E tudo isto enquanto são perseguidos por dois homens que querem matar o Demónio.
Enquanto o protagonista desta história parece mais interessado em compreender aquilo que torna os humanos tão ligados ao efémero, o cineasta procura capturar algo que, por natureza, não pode ser totalmente preservado. A história desenvolve-se assim como uma meditação poética sobre o tempo, a mortalidade e a beleza dos pequenos gestos, das pequenas coisas da vida, onde a comida serve de elo entre o corpo, a cultura e a alma.
O próprio título da obra não poderia ser mais acertado, já que este é um livro que mais do que se ler... degusta-se. Saboreia-se. Até vou mais longe e confirmo que estamos perante um banquete sensorial, uma peregrinação pela memória, pelo sabor e pelo invisível que habita entre os dois.
E a escrita de Ram V, meus caros, parece melhor e mais inspirada do que nunca! Solta, leve, densa, ritmada, com frases passíveis de serem citadas a cada duas páginas. A história é menos sobre aquilo que é visto e mais sobre aquilo que é sentido: o peso da história, a permanência dos gestos, a eternidade que se esconde no quotidiano.
E, claro, o tema da comida, e da gastronomia indiana em concreto, não nos é dado apenas como alimento, mas como memória física. Seja essa memória pessoal ou coletiva. Seja o sabor que marcou a existência de todo um povo e que foi sendo recapturado cada vez que alguém cozinhava cada prato como deve ser, cumprindo todas as pequenas regras e caprichos gastronómicos; seja o sabor de uma comida caseira, cozinhada de determinada forma, que parece permanecer mais no nosso coração do que nas nossas papilas gustativas. Já vos aconteceu? Certamente que sim.
Cada prato descrito torna‑se uma cápsula de tempo, um fragmento de existência preservado na especiaria certa, no método antigo, no calor humano de quem cozinha. Ram V constrói uma espécie de filosofia do paladar: comer é recordar, é honrar, é atravessar gerações.
E há algo de muito melancólico nesta abordagem. A cada nova refeição, sentimos a urgência da preservação, como se as receitas que nos são dadas - e as histórias que as acompanham em paralelo - estivessem prestes a desaparecer. E talvez estejam. Rare Flavours é, nesse sentido, uma ode ao que resiste… mas também ao que inevitavelmente se perde.
O que torna esta obra ainda mais fascinante é, quanto a mim, a forma como Ram V mistura o sobrenatural com o profundamente humano. O demónio acaba por não ser uma figura de horror, mas de curiosidade, pois quer apenas compreender aquilo que torna a vida humana tão extraordinariamente significativa.
Outra coisa que também apreciei bastante, é a forma como o autor brinca com a narrativa, deixando-nos um pouco à deriva mais no início da obra, até que, lá mais para o meio, nos puxe para dentro do seu "barco" e nos leve a navegar ao sabor do seu texto.
Confesso que a introdução das receitas ao longo do livro me chateou um bocado, pois tinha sempre o condão de me distrair da bela narração e diálogos verosímeis de Ram V. E fê-lo de todas as vezes em que isso aconteceu. Percebo a ideia, claro, mas parece-me que faz menos pela história do que aquilo que, eventualmente, os autores poderão ter achado que faria. Mesmo assim, é um detalhe apenas. Não é isso que corrói esta experiência fantástica de leitura.
E se o texto de Ram V é poético e evocativo, deixem-me dizer-vos ainda que as ilustrações do "nosso" Filipe Andrade são quase translúcidas, na medida em que nos oferecem páginas que mais do que ilustrar a história, parecem dissolver as fronteiras entre o que é contado por palavras e o que é ilustrado por desenhos. O que faz com que toda a experiência, mais uma vez, seja poética, com os corpos a alongarem-se e os rostos das personagens a desvanecerem-se. Como se tudo fosse um sonho. Em vez de desenhar cenas, o autor parece desenhar sensações.
E há uma fluidez impressionante no traço de Filipe Andrade, que aqui se mostra ainda mais livre e, diria, confiante, do que em As Muitas Mortes de Laila Starr. Parece que cada página está em movimento contínuo. Para isso, também importa não esquecer que a cor desempenha um papel fundamental: as cores são bastante quentes, vibrantes, quase táteis, com os tons a evocar o calor das cozinhas, o fervor das ruas e a quentura das paisagens indianas.
A edição da obra, por parte da Kingpin Books - e bem da forma a que o seu editor, Mário Freitas, nos tem habituado - é muito cuidada. A capa é dura e baça, com detalhes a verniz. No miolo, o papel é brilhante e de boa gramagem. A impressão, encadernação e acabamentos também são de primeira linha. No final, temos ainda uma galeria de extras, que inclui as seis capas da obra quando foi lançada em números, estudos de capa e de personagem, e ainda belos posfácios de ambos os autores.
Em suma, Rare Flavours deixa-nos com uma rara sensação de termos saboreado um prato inesquecível. Daqueles que não conseguimos descrever totalmente, mas cujo aftertaste (desculpem o anglicismo) é belo e permanece por longos momentos. E num mundo apressado, onde tudo é consumo imediato, Ram V e Filipe Andrade oferecem-nos uma experiência que exige presença. Que nos pede para parar, para sentir e para lembrar que talvez ainda devamos acreditar na beleza, na memória e no poder transformador de uma boa história… servida à temperatura certa e com o tempero ideal, claro.
NOTA FINAL (1/10):
10.0
-/-
Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh
Autores: Ram V e Filipe Andrade
Editora: Kingpin Books
Tradução, legendagem, design e edição: Mário Freitas
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 19,5 x 28 cm
PVP: 29,95€