quarta-feira, 20 de maio de 2026

Análise: Batman - Cavaleiro Branco

Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir

Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir
Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy

Quando li pela primeira vez este Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy, em 2019, por alturas em que a Levoir publicou o livro pela primeira vez em Portugal, fiquei verdadeiramente impressionado com o que tinha em mãos: quer a história, quer a ilustração me deixaram rendido. Aliás, num dos primeiros artigos do Vinheta 2020, quando dei conta das minhas leituras de 2019, fiz menção a este livro. 

Portanto, quando soube que a Devir - numa nova aposta editorial intitulada DC Pocket  que nos traz alguns clássicos da DC Comics em pequeno formato - iria editar este Batman - Cavaleiro Branco, fiquei feliz. Certamente esperaria - e espero - que os outros livros desta mesma série de Sean Murphy, nomeadamente The Curse of White Knight e Beyond The White Knight, fossem/sejam por cá editados. No entanto, fiquei satisfeito por este Batman - Cavaleiro Branco receber novo destaque e poder chegar a um novo público.

Isto porque considero que há o grupo de livros de banda desenhada que deixam a sua marca e depois há o grupo de livros, mais raros, que, para além de deixarem a sua marca, chegam mesmo a mudar algo. Ou a fazer-nos reconsiderar tudo aquilo que achávamos saber sobre personagens que julgávamos conhecer de cor e salteado. Batman - Cavaleiro Branco insere-se nesta última categoria, pois é uma obra que não se limita a contar uma história, mas que questiona, desmonta e reconstrói o mito do Cavaleiro das Trevas com uma ousadia rara e uma inspiração profundamente fascinante.

A premissa é, desde logo, irresistível, diga-se! Após mais um confronto explosivo com Batman, Joker é capturado e, numa reviravolta surpreendente, acaba sujeito a um tratamento médico, baseado nuns comprimidos especiais, que aparentemente o curam da sua insanidade. Surge então Jack Napier, uma pessoa lúcida, serena e muito carismática. Um homem novo, portanto. Jack Napier é alguém que não só renega o seu passado, como decide virar-se contra o próprio Batman, expondo as falhas do Cavaleiro das Trevas.

Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir
Basicamente, o vilão transforma-se no herói e o herói transforma-se no vilão. E o que se segue é um jogo político e mediático de proporções épicas. Jack Napier torna-se numa figura pública que consegue conquistar a confiança dos cidadãos e das instituições de Gotham. Com inteligência, bom planeamento e com um discurso afiado e populista, Jack Napier/Joker consegue colocar Batman no banco dos réus da opinião pública, obrigando-nos a questionar: quem é, afinal, o verdadeiro herói desta história? E quem é o vilão?

Sean Murphy constrói esta narrativa com uma mestria notável. Há aqui uma clara segurança do autor na forma como a história se desenrola, contagiando o leitor desde as primeiras páginas. Tudo parece possível dentro deste universo e, pelo menos para mim, mais importante ainda: tudo parece credível. Mesmo quando estamos perante uma inversão tão radical como a redenção do Joker, nunca sentimos que o autor nos está a dar algo forçado e pouco credível. Pelo contrário, sentimos que estamos a descobrir uma verdade incómoda que sempre esteve ali, latente. E isso é absolutamente incrível e quase nos faz perguntar: "porque é que nenhum autor se lembrou disto antes de Sean Murphy?"

Mais do que uma história de super-heróis, este é um livro profundamente político. Há aqui uma intensa reflexão sobre ser-se vigilante e os problemas que isso pode acarretar para a sociedade. É um tema que já vimos debatido em vários livros de super-heróis, de Watchmen ao português Macho-Alfa, mas neste Batman - Cavaleiro Branco, essa reflexão é-nos dada com um cariz político muito adulto e pertinente, juntando à equação os subtemas da violência policial, das desigualdades sociais em Gotham e da manipulação da opinião pública através de discursos populistas. Afinal de contas, será que quando Batman persegue um vilão pelos telhados, destruindo bens públicos e privados, e pondo em risco de vida os cidadãos, não está ele próprio a ser uma ameaça e um malfeitor?

Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir
Batman passa então a deixar de ser um símbolo incontestável de justiça para ser uma figura ambígua, um vigilante que atua fora da lei. Há algo de profundamente perturbador nesta visão e, ao mesmo tempo, algo de incrivelmente honesto. E no centro de tudo isto está o Joker - ou melhor, Jack Napier. Sempre considerei o Joker o vilão mais fascinante da galeria de Batman - e de todos os comics já agora - e aqui ele atinge um novo patamar. A sua versão de homem curado é simultaneamente sedutora e inquietante. Napier é um estratega nato, um manipulador brilhante, capaz de moldar a opinião pública com um discurso populista que ressoa perigosamente com o nosso mundo real. Ele não convence pela força, mas pela narrativa. E isso torna-o, de certo modo, ainda mais perigoso. Onde é que já vimos isto no tempo atual, caros leitores?

A forma como Napier mobiliza Gotham contra Batman é um dos pontos altos do livro. Há uma tensão constante, uma sensação de que estamos a assistir a uma inversão de papéis em tempo real. E mesmo sabendo quem é o Joker, há momentos em que quase queremos acreditar nele. Quase.

Outro elemento que também merece destaque é a presença de duas Harley Quinn. Uma que afirma que o seu grande amor sempre foi pelo homem por detrás de Joker, Jack Napier, e outra que não tem problemas em admitir que o seu verdadeiro amor é pelo palhaço do crime. Essa versão mais retorcida de Joker. Esta escolha permite explorar uma dimensão mais emocional da relação das duas mulheres com o vilão. 

Os diálogos são também um dos grandes trunfos de Cavaleiro Branco. São afiados, inteligentes e carregados de subtexto. Há frases que ficam connosco, que ecoam muito depois de fecharmos o livro. Vê-se que há um respeito enorme pela obra de Batman, como um todo, unindo certas pontas narrativas e explorando oportunidades latentes.

É verdade que, já lá mais para o final do livro, há certos acontecimentos na trama que poderão ser um pouco mais forçados e exagerados, perdendo-se algum do realismo inicial da história. Se bem que, convenhamos, isso também é algo bastante típico em histórias de super-heróis em que há uma tentativa de resolver todas as side plots, o que pode soar a algo mais forçado. Apesar disso, e mesmo no final do livro, Sean Murphy consegue "resolver" bem a história.

Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir
Em termos de desenho, o trabalho apresentado por Sean Murphy é um verdadeiro deleite para os olhos! Um autêntico festim. Confesso-vos que, sendo já eu um grande fã do estilo de desenho do autor, me senti totalmente encantado com estas personagens, com este ambiente soturno de Gotham, com as cenas de ação, com as belas mulheres e com os sempre relevantes veículos de Batman que, especialmente nesta história, assumem particular relevância. É um livro que não se cansa de nos deixar de boca aberta perante tão belas ilustrações.

E depois ainda há a cor, em que o trabalho de Matt Hollingsworth é absolutamente exemplar. As tonalidades, os contrastes, a forma como a luz e a sombra são utilizadas para reforçar o tom da narrativa... tudo isso contribui para criar uma atmosfera imersiva e coerente. Tudo extremamente bem feito.

Quanto à edição, o livro apresenta capa mole baça, com badanas, e bom papel baço no miolo. A impressão e a encadernação são boas. 

O que tem causado algum repúdio junto de alguns leitores portugueses é o formato de apenas 14,8 x 21 cm. É um formato bastante pequeno, sim, igual ao formato maior dos típicos mangás da mesma editora como Monster, Sunny e outros. Naturalmente, é um formato mais pequeno do que aquilo a que estamos habituados. E tendo na minha coleção a edição da Levoir e da Devir, admito que prefiro a edição da Levoir em capa dura e num formato maior. 

No entanto, é importante perceber que a proposta da Devir é outra: com um preço de apenas 10€ - algo que já soa absurdo nos dias de hoje para um livro a cores com mais de 200 páginas e lançado de forma independente, sem ser em parceria com um jornal - esta coleção procura chegar a um outro público: àquele público, eventualmente mais jovem, que preza preço e portabilidade e que, por ventura, até não está muito familiarizado com alguns dos clássicos da DC Comics. É para esses que esta obra se destina. O que, claro está, não invalida que todos os outros possam e devam comprar esta obra, caso não a tenham ainda. Como tal, e ao contrário de muita gente, parece-me uma coleção bem urdida e que até pode vir a ter bastante êxito comercial. A ver vamos. 

No final de contas, Batman: Cavaleiro Branco vai muito além de ser apenas mais uma história do Batman. É um dos meus Batman preferidos de sempre e, mesmo quando há uns anos o li pela primeira vez, senti logo que estava perante um clássico que pode ombrear com algumas das histórias do Cavaleiro das Trevas mais aclamadas de sempre. É uma obra que desafia convenções, que nos obriga a pensar e que nos faz apaixonar novamente por algumas personagens que julgávamos estar esgotadas. Verdadeiramente imprescindível.


NOTA FINAL (1/10):
9.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - Devir

Ficha técnica
Batman - Cavaleiro Branco
Autor: Sean Murphy
Editora: Devir
Páginas: 232 páginas, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 14,8 x 21 cm
Lançamento: Maio de 2026


Análise: Os Filhos do Império #2

Os Filhos do Império #2, de Yudori - ASA - LeYa

Os Filhos do Império #2, de Yudori - ASA - LeYa
Os Filhos do Império #2, de Yudori

A ASA editou recentemente o segundo volume da série Os Filhos do Império, de Yudori, dando continuidade à narrativa iniciada no primeiro volume da obra, editado no ano passado. Lembro-me que, quando analisei esse primeiro volume, referi que havia coisas bastante interessantes e outras não tão fantásticas, sendo que seria no segundo volume que teríamos uma noção mais clara do valor da série.

Ora, depois de finda a leitura deste volume 2, devo dizer que, sim, de facto, esta é uma daquelas obras que nos vai prendendo às personagens e ao enredo, mesmo admitindo que continua a apresentar algumas das fraquezas que já apontei ao volume 1.

Regressamos à Coreia de finais da década de 1920, durante a ocupação japonesa, com Gyeongseong ainda a afirmar-se como um espaço de tensão latente entre o Japão e a Coreia, entre o moderno e o clássico, mas agora com um maior enfoque nas personagens de Arisa Jo e Jun Seomoon. É a sua relação que sustenta a obra. E mais do que protagonistas, Arisa e Jun continuam a funcionar como arquétipos do tempo em que vivem. Enquanto a rapariga se reafirma como expressão de modernidade, autonomia e mudança, o rapaz mantém-se - quase exageradamente, diria - enraizado a valores mais rígidos do mundo. 

Neste segundo volume, essa dinâmica entre as personagens ganha alguma maturidade. Se no primeiro livro, a surpresa vinha do confronto inicial entre os dois, aqui há um maior aprofundamento emocional da relação de ambos. E embora Jun seja alguém incrivelmente inseguro, Arisa Jo vai-se aproximando dele, com algumas boas ações que o fazem sentir-se cada vez mais envolvido com a sua amiga de um estrato social superior ao seu. É notória a tensão amorosa que existe entre eles, especialmente nos sentimentos do rapaz em relação à rapariga. 

Os Filhos do Império #2, de Yudori - ASA - LeYa
Ainda assim, o comportamento de Jun continua a roçar o exagero, o que faz com que a obra pareça, não raras vezes, algo juvenil na abordagem. Por outro lado, há outros assuntos mais adultos e sérios, que também podemos aqui encontrar. É talvez por isso que, tal como no volume anterior, a série continue com uma certa crise de identidade. O lado bom é que pode apelar tanto a um público menos maduro como a um público mais adulto. O lado mau é que pode ser demasiado séria ou aborrecida para um público mais jovem e demasiado infantil para um público mais maduro.
 
Quanto a Arisa, a personagem parece-me bem mais interessante que Jun. É que sem abdicar da sua personalidade ousada e independente, Arisa volta a afirmar-se como figura disruptiva num contexto profundamente conservador. Se no primeiro volume já desafiava normas, neste segundo livro começa a demonstrar, com maior clareza, as consequências dessa atitude, especialmente em relação ao seu pai, com quem parece ter uma disputa constante.

Este livro desenvolve também os relacionamentos dos jovens com outros colegas de escola, o que leva Jun a ser muito protetor em relação a Arisa e permite ao enredo respirar um pouco, não ficando apenas dependente da relação entre os protagonistas. Essas personagens secundárias que aqui aparecem são, pois, um bom contributo para que a história fique mais interessante e menos repetitiva.

Apesar disso, a obra mantém um ritmo deliberadamente lento. Tal como no volume inicial, não há uma abundância de acontecimentos marcantes. A progressão faz-se mais pela construção dos laços entre personagens e pelo aprofundamento do contexto, do que pela ação propriamente dita. 

Consequentemente, este segundo volume, embora avance ligeiramente mais na narrativa, continua a funcionar como peça de um puzzle maior. Há pistas, há desenvolvimentos, mas não há ainda um verdadeiro clímax ou um sentido claro para onde a história pode caminhar. O que, convenhamos, até é um ponto a favor. Mas, se continuar nesta situação algo híbrida durante muitos mais volumes, também pode "secar" o potencial interesse da obra. Para uns pode parecer que se passa pouco nesta série, enquanto outros podem gostar deste desenvolvimento lento, quase de novela juvenil, em que acompanhamos o dia-a-dia das personagens.

Os Filhos do Império #2, de Yudori - ASA - LeYa
Do ponto de vista visual, o trabalho da autora parece até ter melhorado face ao primeiro volume, que já era muito interessante. Especialmente no que diz respeito ao tratamento das personagens, que é verdadeiramente excelente. As suas expressões e gestos, bem como o cuidado com o vestuário, continuam a destacar-se pela sua elegância e detalhe. Há uma sensibilidade no traço que confere vida às personagens, tornando-as credíveis e emocionalmente expressivas. Juntando essa expressividade e belas cores que acompanham a obra - tanto que eu gostaria que todos, sim TODOS, os mangás fossem integralmente coloridos, mas isso é tema para outra conversa - poderemos ser remetidos para vários filmes anime do mestre Miyazaki.

Admito que os cenários poderiam ser mais detalhados, pois são algo simplórios. Mesmo assim, a minha principal irritação com a componente visual da obra são os balões de diálogo com transparência que ficam muito estranhos nas páginas. Sei que é uma questão de gosto - e nada tem a ver com a edição portuguesa, que apenas obedece à edição original da obra -, mas faz-me mesmo alguma "comichão". Já assim o tinha sido no primeiro volume e volta a ser agora.

De resto, em termos de edição o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço no interior e boa encadernação e impressão. Cada capítulo vem acompanhado de algumas notas adicionais que continuam a enriquecer a experiência, oferecendo contexto histórico e cultural de forma leve, divertida e acessível. É um complemento particularmente bem conseguido pela autora.

Em suma, Os Filhos do Império #2 confirma as qualidades e fragilidades do volume inaugural, mantendo-se como uma leitura consistente dentro do universo que Yudori tem vindo a construir. Continua a ser uma obra interessante, envolvente na sua atmosfera e nas tensões entre personagens que explora, ainda que não isenta de imperfeições - nomeadamente no ritmo e em certos excessos nas reações das personagens que retiram maturidade à obra. 


NOTA FINAL (1/10):
8.2



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Os Filhos do Império #2, de Yudori - ASA - LeYa

Ficha técnica
Os Filhos do Império #2
Autora: Yudori
Editora: ASA
Páginas: 224, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 24,1 x 17 cms
Lançamento: Abril de 2026

terça-feira, 19 de maio de 2026

Análise: Corto Maltese – O Dia Anterior

Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor

Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor
Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès

A editora Arte de Autor fez-nos chegar há algumas semanas o mais recente Corto Maltese, da autoria de Martin Quenehen e Bastien Vivès. Este já é o terceiro álbum que a dupla executa, o que me leva a crer que, apesar de algumas reservas dos leitores mais conservadores, a série até está a ser bem aceite no seu mercado original.

Nesta nova aventura, a história desenrola-se em 2022, na cidade de Sydney, Austrália, onde Corto tenta ajudar Marcus, um velho amigo pirata que se encontra preso num ciclo de dependência de drogas. A solução encontrada para salvar o seu amigo é fiel ao espírito aventureiro da personagem: partir numa nova missão. Esta surge através de uma advogada que representa um grupo de ativistas ambientais e que solicita a ajuda do nosso protagonista para resgatar com urgência uma jovem ativista detida nas ilhas Tuvalu, no Pacífico. 

Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor
De origem chinesa, esta mulher corre o risco de ser extraditada para o seu país, o que transforma a demanda numa verdadeira missão de resgate e numa autêntica corrida contra o tempo. É aliás essa corrida contra o tempo que imprime um sentido de urgência à narrativa que muito apreciei, pois mantive-se sempre agarrado ao livro até que terminasse a sua leitura. Assim, com Marcus aos comandos de um hidroavião envelhecido, os protagonistas lançam-se numa aventura que atravessa um dos territórios mais vulneráveis às alterações climáticas. 

A sensação que dá é que estamos perante um filme de ação/aventura a fazer lembrar vários clássicos do cinema. Quenehen constrói um argumento mais escorreito e amadurecido do que os anteriores, onde a ação e o contexto contemporâneo se equilibram de forma muito eficaz. O tema das alterações climáticas surge como pano de fundo, é certo mas fá-lo integrando-se naturalmente na narrativa, sem nunca se assumir como uma agenda explícita.

Nesse sentido, gostei da forma como o argumentista consegue abordar uma questão atual sem, no entanto, cair no panfletarismo ou no moralismo. O tema das alterações climáticas está presente, sim, tendo até relevância para a forma como o enredo se desenvolve, mas nunca é algo que pareça estar a ser imposto ao leitor como lição forçada. Pelo contrário, este tema é absorvido organicamente pelo universo da narrativa, o que resulta numa abordagem muito mais interessante e eficaz.

Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor
Ao nível do ritmo, a obra destaca-se, conforme já referido, por uma tensão narrativa constante. Isso já tinha acontecido nos anteriores álbuns desta dupla, Oceano Negro e A Rainha da Babilónia, mas neste O Dia Anterior até está mais presente. Mesmo nos momentos mais contemplativos, que, convém não esquecer, também são sempre bem-vindos num livro de Corto Maltese, existe sempre uma sensação de inquietação que impulsiona a leitura e que prende o leitor. 

É talvez por tudo isso junto que considero que, entre os três "Corto Maltese de Autor" da dupla, este terceiro título é o mais bem conseguido até agora. Nota-se claramente uma maior confiança da dupla de autores, especialmente do argumentista, tanto na construção da história como na forma como se lida com a herança da personagem. Tudo parece mais fluido, mais coeso e mais seguro.

Não obstante, é inegável que estamos perante um Corto Maltese diferente daquele que Hugo Pratt apresentou ao mundo. Há aqui uma contemporaneidade mais evidente, tanto nos temas como no tom geral da narrativa. Ainda assim, a essência da personagem permanece: continuamos a ter um aventureiro livre, com uma bússola moral própria e uma certa melancolia que o distingue de qualquer outra personagem.

Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor
Mesmo assim, há quem defenda que estas histórias poderiam ser protagonizadas por qualquer outra personagem e que o nome de Corto Maltese é utilizado sobretudo como forma de garantir vendas. Concordo parcialmente com essa afirmação. De facto, é verdade que o peso do nome atrai leitores e consequentes vendas; no entanto, não considero que essa escolha seja feita de forma gratuita ou unicamente oportunista. Pelo contrário, sinto que Quenehen e Vivès estão a construir histórias que, mesmo sendo modernas, dialogam com o espírito original da personagem, prestando homenagem ao enigma e ao charme original de Corto Maltese. E cada vez estou mais convencido disto.

No campo gráfico, Bastien Vivès continua a apresentar um trabalho muito interessante. O seu traço é elegante, solto e expressivo, conseguindo transmitir uma sensualidade muito própria ao conjunto. Há vinhetas verdadeiramente lindas neste álbum. Essa beleza, especialmente das mulheres, nem é feita à custa de um desenho muito detalhado, mas sim através de uma leveza, simplicidade e de uma estética singulares. Também as personagens são desenhadas com economia de linhas, mas com grande capacidade expressiva. Talvez certos cenários pudessem ter um pouco mais de detalhe, reconheço, mas, mais uma vez, não me parece que esse vazio cénico seja fruto do acaso... acho que isso é mesmo explorado pela própria estética de Vivès. 

Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor
Os desenhos são a preto e branco, com escala de cinzentos, mas não deixo de pensar que uma versão a cores poderia elevar ainda mais o impacto visual da obra, como demonstram, aliás, as belíssimas capas coloridas das edições francesas. Mesmo assim, admito que os desenhos de Bastien Vivès, mesmo numa escala a cinzento, são belíssimos na sua leveza, simplicidade e singularidade.

A edição da Arte de Autor é em capa dura baça, com detalhes a verniz, e bom papel brilhante no miolo. A encadernação, impressão e acabamentos também são bons. No final, há um caderno de extras, com oito páginas, que inclui um texto de Martin Quenehen e um texto de Antonio Politano sobre o tema ambiental que serve como pano de fundo à história. Há ainda um belo conjunto de ilustrações a cores, onde fica patente a capacidade singular de Vivès para as aguarelas, lembrando, com as devidas distâncias, o trabalho original de Pratt.

Em suma, Corto Maltese - O Dia Anterior é uma obra muito sólida e, até agora, a mais bem conseguida desta nova fase da personagem (re)imaginada por Quenehen e Vivès. Mesmo sendo um Corto diferente, revela-se cada vez mais interessante e apelativo. É uma banda desenhada que consegue equilibrar aventura, ação e atualidade, nunca descurando o respeito pelo legado de Hugo Pratt e provando que ainda há muito caminho a explorar - seja em terra, céu ou mar - pelo célebre viajante maltês.


NOTA FINAL (1/10):
8.7



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Corto Maltese - O Dia Anterior, de Martin Quenehen e Bastien Vivès - Arte de Autor

Ficha técnica
Corto Maltese - O Dia Anterior
Autores: Martin Quenehen e Bastien Vivès
Editora: Arte de Autor
Páginas: 176, a preto e branco (mais caderno final a cores)
Encadernação: Capa dura
Formato: 196 x 285 mm
Lançamento: Abril de 2026

Análise: Vizinhos


Vizinhos, de Ana Bárbara Pedrosa e Nuno Saraiva

Tendo este Vizinhos sido lançado oficialmente na passada sexta-feira, dia 15 de Maio, não consegui perder muito tempo até mergulhar na leitura do mesmo, num álbum que marca o regresso à banda desenhada de Nuno Saraiva, que desta vez se faz acompanhar por Ana Bárbara Pedrosa, que assina o argumento da obra.

Vizinhos é, na verdade, uma antologia composta por quatro histórias curtas, cada uma com mais de 10 páginas, que, apesar de independentes entre si, procuram passar uma ideia global - daí que o livro funcione especialmente bem como um todo.

Eis-nos perante uma obra profundamente contemporânea que explora o quotidiano urbano e as tensões que nascem da proximidade entre pessoas. É essa ideia de "vizinhança", isto é, de vivermos próximos uns dos outros, que a obra capta, oferecendo-nos uma abrangente panóplia de conflitos, quase todos eles assentes em preconceitos infundados. Aliás, qualquer preconceito é, por definição, infundado. 

Este eixo estrutural do livro permite que Ana Bárbara Pedrosa, que aqui se estreia como autora de banda desenhada, nos insira em variadas situações experenciadas por vizinhos que, quase sempre, se transformam em numerosos conflitos, tendo eco nos preconceitos que habitam o mundo atual em que vivemos. As histórias evidenciam a forma como o julgamento do outro surge com facilidade. É fácil olharmos para o outro e julgá-lo. É mais difícil, porém, que esse julgamento seja assente numa argumentação válida. 

Em Todos os Dias era o Mesmo tomamos contacto com um ex-presidiário, acusado por matar a própria mulher, que agora se incomoda com o barulho que vem da casa dos vizinhos onde é praticada violência doméstica. Em vez de se preocupar com a violência que vem da casa anexa à sua, o protagonista desta história incomoda-se mais com o barulho causado pela violência e chega mesmo a compadecer-se pelo agressor.

Em Coisas Ilegais, um homem protesta contra o barulho causado pelas obras na casa ao lado, mas depressa vamos percebendo que o seu problema não é bem com o barulho em si, mas com o facto dos trabalhadores dessa mesma obra serem imigrantes. 

Em A Velhota Lá de Baixo, uma história algo diferente das demais, com menos sátira e com uma certa dose de poesia, encontramos duas mulheres idosas cujas vidas se desenvolveram de forma muito díspar. Uma tem filhos e netos e gosta de ter a casa cheia com as suas visitas, especialmente em dias festivos. A outra vive sozinha e isolada de todos, não tolerando o barulho que vem da casa da vizinha. Confesso que achei esta história tão cativante que até considero que merecia um maior desenvolvimento. Talvez desse mesmo para explorar a ideia da história num álbum de grande fôlego que lhe fosse apenas dedicado. Se bem que, não obstante, é uma história que, mesmo sendo diferente, encaixa bem no livro em questão.

Finalmente, em Reunião de Condomínio, rapidamente as preocupações mundanas dos condóminos parecem resvalar para uma queixa que, na verdade, é mais advinda de um preconceito etnocêntrico face a vizinhos oriundos de outro país do que, propriamente, de um real problema.

Todas as narrativas convergem, está bom de ver, num retrato coletivo de uma sociedade que vive lado a lado sem verdadeiramente se compreender. Esta estrutura tem o condão de multiplicar os pontos de vista e impedir uma leitura simplista da realidade. Pelo menos, acredito que seja esse o grande objetivo dos autores. É que num mundo - e até num país - cada vez mais polarizado, onde as duas fações de qualquer desacordo parecem colocar-se em pontos opostos na forma de estar, ser e pensar, é importante que surjam obras como este Vizinhos, que nos faz parar um pouco para pensar e perceber que talvez devêssemos dar mais espaço ao outro - especialmente àquele que é completamente diferente de nós - para que ele possa ser ele próprio. Da maneira que o quiser ser. Não tenho dúvidas de que não só essa heterogeneidade torna o mundo melhor, como evita guerras e conflitos mesquinhos que são a prova comprovada que talvez a humanidade não seja tão sofisticada e inteligente como julga ser, faltando-lhe a própria "humanidade" que lhe caracteriza o nome.  

Um dos aspetos mais relevantes da obra é, pois, o modo como trabalha o conceito de "vizinhança". O vizinho não é apenas aquele que vive ao lado: é o outro, o diferente, o desconhecido que se torna próximo por força das circunstâncias. Assim, o título Vizinhos revela-se particularmente feliz, pela sua simplicidade e pela sua potência simbólica. Afinal, todos somos, de alguma forma, vizinhos uns dos outros.

O texto de Ana Bárbara Pedrosa destaca-se pela sua verossimilhança. As personagens parecem extraídas diretamente da realidade, não sendo figuras distantes, mas pessoas comuns que poderíamos reconhecer do nosso prédio ou bairro. Essa proximidade é um dos pontos fortes da obra, pois permite ao leitor identificar-se facilmente com o universo apresentado.

E em vez de tratar os temas com um tom excessivamente dramático, os autores optam por uma abordagem crítica e satírica. Essa escolha evidencia o absurdo de certas atitudes e comportamentos sociais. Até podemos rir de algumas situações por parecerem tão absurdas, mas será sempre - assim espero! - um riso incómodo que nos confronta com nós mesmos.


Já do trabalho de Nuno Saraiva, poderemos dizer que o mesmo complementa de forma exemplar o texto. O seu traço, inconfundível mesmo à distância, ebastante colorido, encaixa perfeitamente neste tipo de narrativas. Com uma estética que já se evidenciou em cartoons e ilustrações anteriores, Saraiva traz uma energia visual que amplifica o impacto das histórias, oscilando entre o humor e a crítica social com grande eficácia. De resto, o seu estilo é tão singular que é daqueles casos em que quem gosta continuará a gostar, e quem não gosta continuará a não gostar. No meu caso, não só gosto do trabalho do autor como acho que há uma portugalidade - e até um certo lisboetismo - na sua obra, que é difícil de encontrar noutro autor.

Se me posso queixar de algo neste livro - embora não seja uma real "queixa", confesso - é que o mesmo poderia ser (ainda) mais marcante se tivesse mais umas três ou quatro histórias, aumentando ainda mais a sua esfera de contacto e reflexão. É um pouco "curtinho" em demasia.

A edição da ASA é em capa dura baça, com bom papel brilhante no interior e um bom trabalho ao nível da impressão e da encadernação. No final, há ainda duas páginas com esboços de Nuno Saraiva. Mas mais do que falar na edição da obra, que é boa, apraz-me falar da boa iniciativa da editora portuguesa que, embora de forma ainda tímida, tem vindo a incrementar a sua aposta em edições nacionais. Algo que aplaudo sempre, claro está.

Em suma, Vizinhos é uma obra sólida, inteligente e profundamente atual. É uma leitura que oferece um olhar crítico sobre a sociedade contemporânea portuguesa (e não só) incomodando, desafiando e, ao mesmo tempo, convidando à reflexão, através de um retrato duro, mas realista, de uma sociedade que continua a excluir ou a rotular tudo o que foge à norma. Ousemos ser melhor do que isso.


NOTA FINAL (1/10):
8.6


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
Vizinhos
Autores: Ana Bárbara Pedrosa e Nuno Saraiva
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 222 x 296 mm
Lançamento: Maio de 2026