terça-feira, 10 de março de 2026

Análise: Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante e A Dupla Exposição

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA
Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux

Foi recentemente que a editora ASA editou dois volumes de Blake e Mortimer: A Ameaça Atlante, de Yves Sente e Peter Van Dongen; e A Dupla Exposição, de James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux. Este último, inserido na série As Micro-Aventuras de Blake e Mortimer, não é bem um álbum de Blake e Mortimer, pelo menos no sentido canónico da questão, pois é um livro de texto em prosa sobre aventuras da dupla que depois é complementado por ilustrações. Nem sequer é de banda desenhada. Já o primeiro livro, esse sim, é um livro pertencente à série principal, canónica, de Blake e Mortimer.

Infelizmente, e por muito que eu gostasse de ter uma opinião mais favorável, nem um nem outro são livros que eu possa recomendar àqueles que são adeptos de um bom livro de banda desenhada. Mesmo aos amantes da série, eu tenho que recomendar alguma cautela na escolha destes livros.

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA
Começando por A Ameaça Atlante, este livro revelou-se uma verdadeira decepção. Embora Blake e Mortimer seja uma série que tem um lugar indiscutível na história da banda desenhada europeia, este álbum mostra o desgaste de uma fórmula que já não convence fora do círculo dos leitores mais saudosistas. O que antes era admirável pela ousadia e pelo rigor estético, hoje soa forçado e anacrónico. Muito forçado e muito anacrónico, sinceramente.

Hoje em dia, Blake e Mortimer é uma série que só facilmente consegue agradar aos fãs nostálgicos, aos que ainda se sentem fascinados pela reconstituição de um imaginário dos anos 1950. Mas o problema, quanto a mim, é que a junção de história clássica com ficção científica tende, por definição, a não funcionar bem, pois deixa-nos com um travo demasiadamente kitsch. Continuo a defender que a tentativa de continuar a fazer ficção científica centrada nesse período, ignorando os avanços e as sensibilidades do século XXI, falha redondamente. À luz da realidade em que vivemos, o mundo de Blake e Mortimer parece uma reconstrução de um museu, estático e ultrapassado.

A ideia da história deste livro até tinha algum potencial, uma vez que a narrativa opta por continuar os acontecimentos de O Enigma da Atlântida, um dos álbuns mais célebres da série originalmente criada por Edgar P. Jacobs.

Philip Mortimer viaja para a Escócia para embarcar numa missão governamental para o estudo de antigas terras vulcânicas e para que possa testar a viabilidade de uma instalação geotérmica. É então que a personagem toma contacto com estranhos fenómenos que estão a afetar todo o Mar do Norte e que resultam de nuvens de gazes tóxicos, bem como de um tsunami gigantesco. Para além das vítimas causadas por estes estranhos fenómenos, aparecem ainda corpos mumificados a boiar no Mar do Norte. Sou-vos sincero: este livro começa bem e a premissa inicial prendeu-me. Mas depressa esse interesse inicial deu lugar a uma sensação de frustração.

Isto porque rapidamente o enredo se começa a atropelar a si mesmo deixando a história cada vez mais desinspirada e inverosímil. Nota-se o esforço do argumentista Yves Sente em imitar o estilo de Edgar P. Jacobs, mas fá-lo sem alcançar o seu encanto ou a sua coerência, deixando que o texto, além de enorme - mas isso já é comum à série - se enrede em explicações longas e desnecessárias. 

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA
Igualmente desastrada é a tentativa de Yves Sente de justificar continuamente as pontes entre as obras de Jacobs e a sua própria criação. As longas páginas de exposição e contextualização soam forçadas. Em vez de integrar harmoniosamente a herança original, o autor parece colar fragmentos antigos e novos. Mas com uma "cola" pouco consistente. O resultado é uma narrativa rígida e olvidável, que tenta parecer densa, mas apenas se torna confusa e cansativa. A história parece costurada a partir de fragmentos soltos, sem uma lógica verdadeiramente consistente e com demasiadas passagens a soarem infamemente artificiais.

A própria lógica científica que se procura dar ao intento é bastante incoerente, minando a própria credibilidade da narrativa. Se fosse uma paródia ou um exercício de humor, talvez resultasse; mas sendo um livro que se leva a sério, torna-se penoso.

Como se não bastasse, a previsibilidade das histórias atinge (novamente!) o seu ponto mais notório com a insistente presença de Olrik. Esta personagem, que devia ser um símbolo do antagonismo engenhoso de Jacobs, converte-se agora, em todos os livros, num clichet. Espanta-me que na editora original da obra, ninguém diga: "se calhar, desta vez não usávamos o Olrik, não?" A sua aparição em cada novo álbum já não causa surpresa, acabando por ser uma quase paródia involuntária. Como nos episódios de Scooby-Doo, o leitor já sabe sempre quem é o “vilão mascarado” antes mesmo de o rosto ser revelado. E Blake e Mortimer parece ter chegado a essa bitola. O que é lamentável, pois esta repetição constante destrói qualquer hipótese de suspense. Em vez de alimentar o mistério, reduz o universo narrativo a um ciclo mecânico e previsível. É difícil acreditar que, após tantas décadas, não se tenha encontrado uma forma diferente de desafiar os protagonistas. A persistência de Olrik é, de facto, o testemunho mais evidente da falta de originalidade e da dificuldade em reinventar a série.

Visualmente, o trabalho de Peter Van Dongen funciona bem, mantendo uma boa ponte com o estilo gráfico, em linha clara, de Edgar P. Jacobs. Nem sempre é perfeito, existindo algumas vinhetas menos perfeitas, especialmente ao nível dos cenários e dos ambientes interiores, mas diria que não é por aí que o álbum falha. É eficiente.

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA
Falando de A Dupla Explosão, que nos procura dar um texto em prosa, mais uma aventura de Blake e Mortimer, devo dizer que, inicialmente, gostei da ideia arquitetada por James Guth e Sonja Shillito. Blake e Mortimer são convidados para a Feira Mundial de 1964 e acabam expostos aos raios de uma máquina que os reduz à escala milimétrica. Uma premissa que facilmente nos remete para o filme Querida, Encolhi os Miúdos. Blake e Mortimer ficam assim presos num universo futurista, vendo-se forçados a superar esta desvantagem física que lhes é imposta. É uma história algo inusitada, mas que até me agradou. Talvez pudesse ser um pouco mais profunda e mais bem desenvolvida, ainda assim.

No entanto, as ilustrações de Laurent Durieux, autor que já tinha trabalhado em parceria com Jaco Van Dormael, Thomas Gunzig e François Schuiten em O Último Faraó, me agradou muitíssimo. Gosto desta abordagem visual ao universo de Blake e Mortimer. Claro que, sendo ilustrações que acompanham o texto, não permitem que possamos apreciar o lado mais sequencial da narrativa visual, o que talvez ainda fosse mais agradável, mas tenho que dizer que fiquei bem impressionado com estes desenhos.

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA
Em termos de edição, A Ameaça Atlante apresenta a habitual capa dura brilhante, com bom papel baço no miolo, havendo uma capa alternativa - melhor do que a principal, diga-se - exclusiva da rede de lojas FNAC. Já A Dupla Exposição recebe uma edição mais diferenciada, com capa dura baça e lombada em tecido. Lamento que na lombada não haja qualquer texto, mas já pude tomar nota que também foi assim na edição original da obra, pelo que esta ausência - incompreensível - não deve ser imputada à ASA, mas à editora original. O livro é-nos dado em formato horizontal e o papel baço utilizado, bem como a encadernação e impressão, é de boa qualidade. É um livro bonito.

Em suma, fica a sensação amarga de que esta série persiste mais por obrigação comercial do que por necessidade artística. Há uma clara tentativa de rentabilizar o nome de Blake e Mortimer junto dos leitores que ainda lembram os tempos áureos da série, mas é difícil imaginar que novos públicos encontrem aqui algo inspirador. Especialmente em A Ameaça Atlante, tudo soa a requentado naquele que é (mais) um capítulo fraco de uma saga que vive mais da memória do que do presente. Falta-lhe risco, emoção e sentido de descoberta. No esforço de parecer fiel ao passado, o álbum esquece-se de ser relevante no presente e aquilo que foi outrora símbolo de aventura e elegância tornou-se apenas um eco empalidecido de uma glória perdida.


NOTA FINAL (1/10):
Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante: 5.0
A Dupla Exposição: 7.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA

Fichas técnicas
Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante
Autores: Yves Sente e Peter Van Dongen
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 310 x 235 mm
Lançamento: Novembro de 2025

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA

A Dupla Exposição
Autores: James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux
Editora: ASA
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura com lombada em tecido
Formato: 200 x 255 mm
Lançamento: Novembro de 2025



Assembleia da República recebe exposição de BD!


Não é, de facto, todos os dias que a banda desenhada chega à Assembleia da República Portuguesa, portanto eis-nos perante uma bela notícia!

A propósito da luta pelo voto feminino em Portugal, e com curadoria da editora Levoir, inaugura na Casa do Parlamento - Centro Interpretativo, já no dia de amanhã, 11 de Março, pelas 17h30, uma exposição dedicada ao tema.

Dou os meus parabéns aos envolvidos nesta iniciativa!

Deixo-vos, mais abaixo, com a nota de imprensa da Organização, convidando-vos a uma visita a esta exposição que estará patente até ao dia 31 de Março.


Exposição de BD sobre o voto feminino em Portugal

Luta pelo direito ao voto pelas mulheres em mostra com apoio da Assembleia da República e a curadoria da Levoir

A exposição de banda desenhada intitulada “O Voto Feminino em Portugal” inaugura dia 11 de março, quarta-feira, às 17:30, na Casa do Parlamento – Centro Interpretativo da Assembleia da República, com curadoria da editora Levoir.

Dedicada à luta das mulheres em Portugal pelos seus direitos, a mostra ilustra em pranchas originais e prints de banda desenhada o acesso ao direito ao voto feminino como um instrumento de expressão livre e uma das maiores conquistas sociais e políticas da história, resultado de décadas de luta de movimentos sufragistas.

Em 2024, no Dia Internacional da Mulher, foi lançado o livro Uma Mulher, um Voto, das autoras espanholas Alicia Palmer e Montse Mazorriaga, centrado na figura de Clara Campoamor, uma advogada que levaria à inclusão do voto feminino na Constituição Espanhola de 1931. Este livro, que apresentou a bravura levada a cabo por tais personagens históricas, integra um capítulo sobre o voto (no) feminino em Portugal, uma criação do argumentista Pedro Moura e da artista Matilde Feitor.

A banda desenhada tem sido palco de grandes desenvolvimentos artísticos e literários, encontrando novos territórios de expressão, novas vozes e exploração de modos e géneros.

A Levoir apresenta, através do seu catálogo de livros, a preocupação por ilustrar vozes femininas e a revelar narrativas de mulheres com impacto. Destaque para os livros de autores como Zeina Abirached, Marjane Satrapi, Taha Siddiqui, Paco Roca, Shaghayegh Moazzami, ou os volumes de Destemidas, de Pénélope Bagieu, e a coleção de Jacques Tardi, As Extraordinárias Aventuras de Adèle Blanc-Sec.

A editora portuguesa Levoir conta com um invejável catálogo de traduções de clássicos e obras contemporâneas e de adaptações da literatura portuguesa por alguns dos autores mais representativos da BD em Portugal.

Vem aí o primeiro evento de BD do ano!


Começamos a entrar na temporada de eventos dedicados à banda desenhada que abre com o LouriBD, o festival de banda desenhada que ocorre na Lourinhã. 

Esta é já a 4ª edição de um festival que, sendo pequeno, tem vindo a melhorar de ano para ano, tendo uma camaradagem muito própria - e próxima - entre os participantes. À semelhança de um "Festival de Beja em ponto pequeno", é um bom ponto de encontro entre autores portugueses e leitores e apresenta-se com um programa que vai crescendo em relevância.

O evento ocorre entre os dias 16 e 22 de Março, no Centro Cultural Dr. Afonso Rodrigues Pereira e é organizado pela Câmara Municipal da Lourinhã e pela editora Escorpião Azul.

Estarei por lá, novamente, no sábado, dia 21 de Março, para moderar algumas conversas, bem como para uma apresentação do livro inVISÍVEIS.

As exposições afetas ao evento serão: À Descoberta da Banda Desenhada Portuguesa, de vários autores (na Galeria do Centro Cultural Dr. Afonso Rodrigues Pereira); Luís Louro - Uma Vida a Trabalhar para o Boneco (na biblioteca municipal) e Portugal Jurássico, de Duarte e Henrique Gandum (no Museu da Lourinhã).

A entrada no evento é gratuita.

Mais abaixo, deixo-vos com o programa completo do certame, a lista de autores e convidados que marcarão presença e com a nota de imprensa da Organização.


LouriBD 2026 – Festival de Banda Desenhada da Lourinhã 

A 4.ª edição do LouriBD – Festival de Banda Desenhada da Lourinhã realiza-se de 16 a 22 de março, reunindo autores, editores, leitores e público escolar numa programação centrada na criação contemporânea e na reflexão em torno da Banda Desenhada.

O LouriBD é uma parceria entre o Município da Lourinhã e a editora local Escorpião Azul, contando com o apoio media da Antena 1 e com a colaboração do Museu da Lourinhã e da Galeria Parasol.

Sob o tema “A Descoberta”, o festival propõe uma abordagem ao conceito enquanto motor criativo: descobrir novas linguagens, novos autores, novas leituras e novas formas de pensar a narrativa gráfica.

A programação integra mercado do livro de BD e exposições ao longo de toda a semana, oficinas dirigidas ao pré-escolar, 1.º, 2.º e 3.º ciclos, ensino secundário e público sénior, bem como sessões de autógrafos e conversas com autores convidados.

O fim de semana concentra lançamentos e apresentações de obras, debates integrados nos Estados Gerais da Banda Desenhada, uma sessão de cinema para público familiar e a apresentação do Primeiro Museu Nacional de Banda Desenhada.

No dia 22 de março, terá lugar o lançamento do livro “Portugal Jurássico”, no Museu da Lourinhã, estabelecendo uma ligação entre património científico e criação artística.

A exposição coletiva desta edição reúne autores de Portugal e do Brasil, representando diferentes géneros e abordagens estéticas. As máscaras assumem destaque conceptual na mostra, surgindo trabalhadas em cortiça e acompanhadas por ilustrações realizadas com caneta bic, café e vinho, explorando ideias de identidade, anonimato e liberdade formal.

Com esta quarta edição, o LouriBD consolida um modelo de colaboração institucional e editorial que tem vindo a afirmar o festival como um espaço de programação regular, diálogo crítico e apresentação de nova produção em Banda Desenhada.


Programa






Autores e Convidados

sexta-feira, 6 de março de 2026

Análise: Obras de Pratt

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros
Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt

Recentemente li (e, nalguns casos, reli) quatro dos livros da autoria de Hugo Pratt que, nos últimos tempos, a Ala dos Livros editou na sua coleção Obras de Pratt. Os livros em questão são Jesuit Joe e Outras Histórias; Anna na Selva; Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles; e Fanfulla, este último, editado mais recentemente e que conta com a participação no argumento de Mino Milani. É sobre estes livros que hoje vos falo, recordando que, da mesma coleção, já aqui analisei Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara, bem como Os Escorpiões do Deserto.

Começo por afirmar que Obras de Pratt é uma coleção de caráter documental mais que relevante pois permite, por um lado, trazer as obras de Hugo Pratt a uma nova geração de leitores que, de outra forma, poderia (já) não ter acesso a estas obras; e, por outro lado, permite que aqueles que já conhecem algumas destas obras de outras edições portuguesas passadas, possam ter acesso às mesmas numa edição de qualidade superior e, diria mesmo, de colecionador. Até porque, convém não esquecer, a obra de Hugo Pratt não se finda com Corto Maltese, merecendo ser explorada além dessa e como um todo.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Falando agora, de forma tão breve quanto possível, de cada uma destas obras, Jesuit Joe e Outras Histórias reúne três histórias a que o próprio Hugo Pratt apelidou de "Trilogia das Religiões", já que o tema das histórias orbita em torno do assunto da crença. A primeira história acompanha Jesuit Joe, um mestiço de ascendência francesa e indiana, que veste um uniforme da Polícia Montada, embora não pertença à mesma. Movido por uma lógica moral própria e implacável, ele atravessa as paisagens geladas do Norte, deixando um rasto de violência ao mesmo tempo que procura a sua irmã. 

Por sua vez, as histórias A Macumba do Gringo e A Oeste do Éden exploram o choque entre crenças espirituais e a dureza da sobrevivência, apresentando personagens que enfrentam dilemas éticos em cenários exóticos e isolados, bem ao jeito das histórias de Hugo Pratt. Esta é, talvez, a obra onde a amoralidade de Pratt atinge o seu auge, oferecendo uma leitura desconcertante, mas igualmente fascinante, pois é certo que a figura da personagem Jesuit Joe desafia as convenções do herói tradicional, servindo como um veículo perfeito para Pratt explorar a solidão absoluta e a violência gratuita numa ambiência fria e hipnótica. Gostei particularmente deste livro.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Já a história de Anna na Selva, decorre em 1913, na aldeia de Gombi, na África Oriental, pouco antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Esta é uma história que embora seja constituída por quatro episódios, tem, por ventura, a história mais articulada, em termos de enredo, de todos estes livros que aqui vos trago. Convém referir que esta foi a primeira obra em que Hugo Pratt assumiu totalmente tanto o argumento como o desenho e nela já se vislumbram os temas e a sensibilidade histórica que viriam a definir a sua obra mais célebre, Corto Maltese

O álbum mistura um certo realismo histórico do colonialismo com elementos de magia e mistério típicos das temáticas que, normalmente, associamos a Pratt, servindo como um documento visual da juventude do autor vivida em África. Embora tenha um tom ligeiramente mais juvenil que obras posteriores, a riqueza dos detalhes coloniais e a construção da atmosfera africana já revelam a profundidade e o respeito cultural que tornariam o autor num mestre do género.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Quanto a Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles voltamos a acompanhar as aventuras do major polaco Koinsky que já tinha sido peça fundamental da série Os Escorpiões do Deserto. O livro reúne cinco narrativas curtas baseadas em memórias da campanha militar italiana entre os anos de 1943 e 1945.

Neste caso concreto, em vez de grandes batalhas estratégicas, Hugo Pratt foca-se mais em pequenos episódios e encontros mais centrados nas relações humanas que ocorrem à margem do conflito bélico. Talvez por isso, diria que é uma obra fundamental para compreendermos não só a evolução técnica do autor, como o seu interesse duradouro por cenários bélicos e destinos cruzados. Pratt consegue capturar a fragilidade das alianças e a ironia do destino, provando - se dúvidas ainda houvesse - que as melhores histórias de guerra são aquelas que se focam nos homens e não nas bandeiras das nações.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Por último, em Fanfulla, Hugo Pratt une esforços, no argumento, a Mino Milani, para nos narrar as peripécias de Fanfulla da Lodi, um mercenário histórico do século XVI. A trama desenrola-se durante a Renascença Italiana, período em que dois clãs inimigos se enfrentam pela posse da cidade de Florença. Esta será certamente a obra menos conhecida destas quatro - e que era inédita em Portugal - e, representada em formato italiano, ou horizontal, traz-nos um conjunto de peripécias, algumas divertidas, deste mercenário que é um guerreiro implacável e valente, enquanto tenta ser, ao mesmo tempo, gentil para com as mulheres. É uma narrativa histórica, de espada e capa, que nos dá uma personagem principal muito carismática, como foi apanágio, diria, das criações de Hugo Pratt.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Sendo verdade que todos estes livros foram feitos em alturas diferentes da vida de Pratt, em todos eles é notório e facilmente identificável o traço característico do autor. Todos os livros são editados nas suas versões a cores o que, quanto a mim, torna mais visível uma certa obsolescência de algumas opções do autor nas suas cores. Sei que esta é uma opinião não partilhada por alguns, mas mesmo não descurando a beleza das aguarelas de Pratt em algumas das suas ilustrações, olhando para as suas obras à luz do tempo corrente, diria que funcionam bem melhor a preto e branco do que a cores. Mesmo assim, e fora esta opinião muito pessoal, compreendo obviamente que a edição da Ala dos Livros seja a cores, pois muitos são os leitores que valorizam especial e especificamente as cores de Pratt.

Em termos de edição, e conforme já referi, considero estas edições da Ala dos Livros verdadeiramente espetaculares, carregadas de brio e respeito pela obra do autor. Todos os livros têm capa dura, com detalhes a verniz. No miolo, o papel utilizado é brilhante e de qualidade superior, bem como assim é o trabalho de encadernação e impressão. Todos os livros apresentam, também, belos extras que complementam a leitura e o nosso conhecimento sobre a obra. 

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros
Em Jesuit Joe encontramos um texto final de apoio à obra, escrito por Francesco Boille, que é complementado por imagens de capas italianas e por uma página com esboços de Pratt. Em Anna na Selva, temos um texto introdutório de Renato Gaita, que é acompanhado com imagens de algumas vinhetas e mais esboços. Há uma ilustração de Anna Livingstone, a protagonista do livro, que é uma autêntica obra de arte e que bem que poderia ser emoldurada. Em Koinsky relata... temos um texto introdutório do próprio Hugo Pratt e cada uma das cinco histórias é iniciada com uma introdução composta por texto, imagens de oficiais e veículos de guerra e esboços a aguarela. É, de todos, o livro mais bem documentado através dos seus fantásticos conteúdos adicionais. Por fim, Fanfulla, sendo um álbum em formato horizontal, inclui uma manga em formato vertical, que nos permite arrumá-lo desse modo junto dos outros livros. Um detalhe que adorei, semelhante ao que a editora já tinha feito em O Relatório de Brodeck, de Manu Larcenet. O livro inclui ainda um texto introdutório da autoria de Antonio Carboni.

Em suma, todos estes livros são preciosas adições a uma boa biblioteca de banda desenhada e verdadeiros "must have" para os muitos adeptos da obra de Hugo Pratt. Jesuit Joe é, quanto a mim, o melhor destes álbuns; Anna na Selva, é um prenúncio claro do que seria Corto Maltese alguns anos mais tarde; Koinsky relata... é, de todos, o livro com o conteúdo extra mais apetecível, e Fanfulla é a proposta mais original e diferente dos quatro livros. Dito por outras palavras, há algo de apetecível e diferenciador em cada uma destas quatro obras.


NOTA FINAL (1/10):
9.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Fichas técnicas
Anna na Selva
Autor: Hugo Pratt
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Junho de 2023

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles
Autor: Hugo Pratt
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 196, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 320 mm
Lançamento: Setembro de 2023

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Jesuit Joe e outras histórias
Autor: Hugo Pratt
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Setembro de 2024

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Fanfulla
Autores: Hugo Pratt e Mino Milani
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura, em formato italiano com manga vertical
Formato: 295 x 210 mm
Lançamento: Março de 2026