quarta-feira, 17 de junho de 2026

"BD à Lupa" regressa à FNAC neste sábado e haverá novamente livros de BD grátis!


O programa BD à Lupa, iniciativa pioneira em Portugal surgida de uma parceira entre o Vinheta 2020 e a FNAC, está de volta!

Desta vez, vou estar à conversa com três ilustres autores de BD: André F. Morgado, Derradé e Vasco Colombo. Todos eles autores a quem reconheço grande relevância para a BD nacional.

Falaremos de um tópico muito quente e polémico, que certamente vai fazer muita gente querer assistir a esta apresentação: a IA e a Banda Desenhada.

O tema é tão vasto e apetecível que até faço um apelo, não só a todos os leitores aqui do blog, mas também a todos os amigos, autores e editores de BD... apareçam. Será uma conversa rica, tenho a certeza.

E, claro, se isto já é motivo suficiente para que apareçam, há ainda outra coisa a considerar: serão sorteados livros por aqueles que estiverem presentes. É sempre uma alegria ir a um evento gratuito sobre BD e ainda sair de lá com um livro grátis na mão, diria.

Coloquem na agenda: é neste sábado, às 16h, na FNAC do Alegro de Alfragide.

Aos que já foram às iniciativas anteriores, espero ver-vos por lá.

Aos que não foram, não sabem o que andam a perder.


Análise: O Deserto dos Tártaros

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda

Contido no mais recente rol de lançamentos de banda desenhada da editora A Seita, está este O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda, que adapta para banda desenhada o clássico homónimo da literatura da autoria de Dino Buzzati.

Conhecia a obra de reputação, mas nunca a tinha lido, portanto parti para esta leitura sem grandes referências. A história de O Deserto dos Tártaros acompanha a trajetória de Giovanni Drogo, um jovem oficial que é designado para servir na Fortaleza Bastiani, uma fortaleza isolada, situada na fronteira de um vasto deserto. No início, Drogo começa por encarar esta missão como algo temporário e pouco relevante, que servirá especialmente para fazer carreira e ser destacado, passado pouco tempo, para uma carreira militar mais promissora. Assim espera Drogo.

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
Mas à medida que o jovem soldado se instala na fortaleza, vai sendo envolvido pelo ambiente peculiar daquele lugar, marcado por longos períodos de espera e por uma tensão difusa. Isto porque os oficiais daquele lugar vivem na constante expectativa de um possível ataque vindo do deserto. É um misto de medo pelo ataque em si, mas também de um sentido de ansiedade positiva por esse ataque. Já vos aconteceu estarem tão entediados que nem se importariam que algo de mau vos acontecesse para que o vosso tédio acabasse? Assim parece ser o sentimento que se vive na Fortaleza Bastiani: a rotina dos soldados é tão entediante, que até um ataque das linhas inimigas é visto como algo que, ao menos, poderia finalmente dar sentido à rotina monótona e justificar a presença militar naquele posto.

Naturalmente, com o passar do tempo, Drogo começa a partilhar essa mentalidade dos seus companheiros, alimentando a esperança de que esse momento decisivo chegue. Assim, a vida na fortaleza passa a ser regida por pequenos sinais, rumores e expectativas, que mantêm todos presos a uma promessa incerta de glória e propósito.

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
É sensaborona e entediante a vida naquela Fortaleza e, infelizmente, também o é a experiência de leitura deste O Deserto dos Tártaros. Acredito que isso também aconteça no romance original de Dino Buzzati. Com efeito, ao longo da obra, parece que pouco ou nada acontece de concreto, e a rotina repetitiva da fortaleza contribui para uma sensação de estagnação que pode testar a paciência do leitor. Essa ausência de eventos externos significativos pode facilmente ser interpretada como falta de dinamismo narrativo.

Contudo, essa aparente monotonia é, em grande parte, intencional, pois pretende-se dar enfoque ao vazio, à espera e à repetição, fazendo destes elementos centrais algo que é sufocante e que reflete a própria condição do protagonista. A lentidão da narrativa não é, pois, um "defeito" acidental, mas sim um recurso que reforça a experiência psicológica da personagem, colocando o leitor dentro desse mesmo tempo suspenso.

Mais do que narrar ações, o romance centra-se, portanto, no conflito interior de Giovanni Drogo, que se agarra à ideia de uma missão grandiosa e de uma carreira militar promissora como forma de dar sentido à sua vida, evitando confrontar outras possibilidades mais comuns e socialmente esperadas, como, por exemplo, a sua (potencial) vida amorosa com Maria. Essa escolha de Drogo revela uma espécie de fuga, um modo de adiar o confronto com o presente e com as decisões que poderiam aproximá-lo de uma vida mais concreta e partilhada.

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
Tenho que vos ser sincero: este O Deserto dos Tártaros é um pouco entediante, sim, e talvez, neste caso concreto, não fossem precisas tantas páginas para nos servir a história original de modo inequívoco. Todavia, também não me parece justo que se apelide este livro apenas de "aborrecido", pois o mesmo até ganha alguma profundidade na exploração que faz de temas existenciais como o medo de viver plenamente, a ilusão de um propósito maior e a tendência humana para adiar a vida à espera de um momento decisivo, conforme já sublinhei. 

Em termos de desenho, Pasquale Frisenda, autor de obras de referência como Tex - Patagónia ou Le Storie - Sangue e Gelo, ambos editados em Portugal, oferece-nos um trabalho muito belo.

O ilustrador italiano oferece-nos o seu traço elegante a preto e branco, explorando com mestria a escala de cinzentos para construir imagens de grande expressividade. E isso confere coerência ao tom melancólico da obra, como também acrescenta profundidade e subtileza às ilustrações, permitindo que cada imagem respire e se imponha com uma atmosfera muito própria. É um bom livro para observamos atentamente cada uma das ilustrações.

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
Embora as personagens sejam bem executadas e transmitam com eficácia os estados de espírito da narrativa, é sobretudo no desenho das paisagens que, quanto a mim, Frisenda mais brilha. As vastas extensões do deserto, que parecem prolongar-se até ao infinito, a fortaleza isolada e inóspita, ou ainda os jogos de luz e sombra que evocam a névoa, as tardes solarengas e as noites frias passadas naquele local, são particularmente memoráveis. É um livro belo do ponto de vista gráfico, sem dúvida.

Nota ainda, muito positiva, para a grande quantidade de referências a outras obras e a outras individualidades, que estão escondidas ao longo do livro, aumentando o valor das ilustrações e convidando o leitor a uma segunda leitura mais atenta.

Considero apenas que a capa poderia ser mais apelativa. A ilustração de Frisenda para a mesma parece-me inacabada, como um esboço que merecia mais algum aprumo visual. Não está feio, mas acho que o autor conseguia fazer melhor.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz, e bom papel baço no interior do livro. No final, é incluído um generoso dossier de extras, com 17 páginas, que contém um texto de Gianmaria Contro sobre a obra e várias ilustrações, estudos de personagem e de capa, de Pasquale Frisenda. Esta é mais um dos livros que entram para a chancela Nona Literatura d' A Seita, dedicada às adaptações para banda desenhada de grandes obras da literatura.

Em suma, pode dizer-se que, no conjunto, esta adaptação para BD de O Deserto dos Tártaros revela-se bastante bem conseguida e fiel ao original. Não é um livro em que aconteçam muitas coisas e isso pode dar-nos a sensação de algum marasmo narrativo, mas é uma obra que procura mais fazer-nos viajar e refletir sobre questões existenciais. Ao mesmo tempo que é ilustrada de forma memorável por Frisenda, trazendo esse lado mais contemplativo da obra para o leitor.


NOTA FINAL (1/10):
8.4



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O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura

Ficha técnica
O Deserto dos Tártaros
Autores: Michele Medda e Pasquale Frisenda
Adaptado a partir da obra original de: Dino Buzzati
Editora: A Seita
Páginas: 184, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 215 x 285 mm
Lançamento: Março de 2026

terça-feira, 16 de junho de 2026

Análise: As Linhas que Traçam o Meu Corpo

As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor

As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor
As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari

Curiosamente, foi no dia em que li este As Linhas que Traçam o Meu Corpo - e li-o de uma assentada, já que não consegui parar de o ler até chegar à última página - que tive conhecimento do falecimento, mais que prematuro, de Marjane Satrapi que, com a sua obra, em especial o obrigatório Persépolis, abriu as portas do Irão para o mundo ocidental, revelando às mentes mais incautas do ocidente a realidade nua e crua do que se passa no Irão. Muitos anos se passaram desde Persépolis e já um sem número de BDs sobre a realidade no Irão foram publicadas. Só em Portugal, e assim de cabeça, para além de Persépolis, posso referir obras como Frango com Ameixas, Bordados, Mulher Vida LiberdadeAssombrada, A Aranha de Mashhad, Os Pássaros de PapelUma Metamorfose Iraniana e este As Linhas que Traçam o Meu Corpo que hoje vos trago. E sou-vos sincero: este livro é, a par do fundamental Persépolis, o melhor livro que já li sobre a realidade iraniana. Pelo menos, é aquele que mais me marcou.

As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor
Esta obra é da autoria de Mansoureh Kamari e chegou-nos há poucas semanas pelas mãos da editora Arte de Autor. E um dos aspectos mais relevantes neste livro é precisamente a forma como a obra evoca, de modo sensível mas inequívoco, a realidade vivida por muitas mulheres no Irão. Desculpem a linguagem grosseira, mas não tenho outro forma de o dizer: ser mulher no Irão é ter uma vida de merda. As mulheres são perseguidas, julgadas, controladas, insultadas, instrumentalizadas, silenciadas e usadas como se fosse objetos. E daqueles objetos a quem nem damos muito valor, pois há objetos e bens que são muito mais estimados do que as mulheres iranianas, que são forçadas a casar cedo, para logo serem posses dos homens que as "compram". Ora são posse dos seus pais, ora são posse dos seus maridos. E mesmo que estes as assassinem... enfrentarão simplesmente uma pena ridículas a cumprir. Como é possível que continuemos a tolerar isto? Como é possível que, enquanto sociedade, engulamos em seco perante isto e continuemos impávidos, com a nossa vida de primeiro mundo?

A autora Mansoureh Kamari fala-nos aqui da sua experiência pessoal, em que viveu os primeiros anos da sua vida com terrores e traumas incutidos pelo seu pai e pelas diferenças de género com que se ia deparando. Ser-se rapaz no Irão não é nada mau, mas ser-se mulher é uma condenação à nascença. E a passagem da infância para a idade legalmente adulta - que no Irão considera-se aos 9(!) anos (sim, leram bem) - é, na verdade, um dia miserável para qualquer mulher iraniana. Porque deixa de ser criança e passa a ser uma mulher, um objeto para que um qualquer homem possa possuir e utilizar a seu belo prazer.

As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor
É triste, é chocante e é marcante a forma como Mansoureh Kamari nos insere na sua vida. Ao mesmo tempo, somos igualmente convidados a conhecer a sua vida mais recente em que, após a fuga do seu país, vive de modo livre, sim, mas com os traumas e recalcamentos do passado. Há uma clara separação - até mesmo do ponto vista gráfico devido a uma mudança cromática - entre o presente, em que a autora nos oferece a sua experiência de fazer trabalhos de nu artístico, e a experiência passada, em que a autora mergulha na sua infância e nas vivências avassaladoras com que teve que lidar na sua infância e pré-adolescência.

É um retrato sensível, triste e alarmante aquilo que Kamari nos coloca nas mãos. São vários os momentos e as formas que a autora utiliza para nos mostrar o que é ser mulher no Irão. Todas elas chocantes. Por exemplo, como conceber a existência de um país que obriga uma mãe que vê as suas duas filhas, de 16 e 15 anos, a serem vilmente assassinadas pelas autoridades a ter que pagar pelo custo das balas utilizadas para tirar a vida das suas filhas? É um filme de terror? Não, é a realidade. E deixa-me ainda mais deprimido chegar à conclusão que só sabemos destas histórias à custa de autoras e autores que se veem forçados a fugir do país para contar a sua história. Só assim conseguem denunciar as atrocidades cometidas por tão infame regime.

Outra coisa de que gostei particularmente neste As Linhas que Traçam o Meu Corpo é que a denúncia muitas vezes até é feita através do silêncio. Certas coisas ficam implícitas no desenho pleno de expressividade, sem que haja uma dramatização exagerada da autora. É uma pedrada no charco que nos deixa com um nó na garganta. Será isto possível no tempo atual? Infelizmente, sim. E não só é possível, como os direitos das mulheres iranianas até têm sofrido um agravamento nos últimos anos.

As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor
Ao mesmo tempo, a obra mostra como essas adversidades moldam a relação da protagonista com o seu próprio corpo. O corpo torna-se um espaço de resistência, mas também de dor e conflito. As “linhas” que o atravessam representam não só experiências pessoais, mas também as marcas deixadas por um contexto social opressivo. E, claro, apesar das limitações e da repressão, as mulheres encontram formas de afirmar a sua identidade, ainda que de maneira discreta ou interior. Este equilíbrio entre opressão e resistência é tratado com grande sensibilidade e profundidade pela autora.

Se o tema é pertinente, se o relato é marcante... os desenhos são lindíssimos. Aliás, sobre o assunto em questão - e relembro o vasto conjunto de obras já mencionadas por mim, mais acima,- não há nenhum livro que, quanto a mim, chegue sequer perto em termos de beleza de desenho.

Há uma delicadeza, uma ternura, uma tristeza e uma poesia nos desenhos aparentemente simples, mas tão belos, de Mansoureh Kamari, que é raro encontrar em banda desenhada e, especialmente, em banda desenhada com um cunho mais político. O desenho é tão bom que, em vários casos, nem é necessária a colocação de qualquer legenda ou balão de fala, pois está ali tudo, entendido e exposto. O poder da evocação dos desenhos de Mansoureh Kamari é, pois, verdadeiramente impressionante. A várias fases da vida da autora - as do presente e as do passado - vão sendo diferenciadas através da cor. No passado, os desenhos são a preto e branco, em tons de sépia. No presente, a cor vai sendo introduzida paulatinamente.

As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor
Diria que, como ponto menos positivo neste livro, que é quase perfeito, encontro apenas uma certa e aparente relutância ou dificuldade da autora em decidir, mais ou menos a meio da obra, para onde levar a sua história. Dito por outras palavras, até meio do livro eu achei: "que maravilha... este livro vai ser nota máxima" e, na última parte achei: "Ok, continua fantástico... mas estava à espera de ser levado para algo ainda mais emocionante, especial ou original no final". Sente-se uma certa insegurança da autora na forma de fechar o livro. Mesmo que, atenção, o final seja bem conseguido. Nada está estragado, descansem, mas foi motivo para que o livro não ficasse perfeito. Mas, não o sendo, é uma das melhores apostas dos últimos meses por parte da Arte de Autor. 

A edição da obra é em capa dura, baça, com detalhes a verniz. Capa essa que tem uma belíssima ilustração, deixem-me que vos diga. Se há boas capas que chamam a atenção daqueles que passeiam numa livraria, esta é um bom exemplo disso. No interior, o livro apresenta bom papel baço e um bom trabalho ao nível da encadernação, impressão e acabamentos. No final, são concedidas duas páginas para que se explique melhor algumas das coisas que nos são reveladas durante a leitura da obra.

O formato da obra é o 17 x 24 cm, um formato em que a editora portuguesa tem vindo a apostar num conjunto específico de obras que, naturalmente, se destinam a um público mais vasto, quiçá menos familiarizado com banda desenhada. Nesse mesmo formato, a editora também editou as obras Radium GirlsO Jardim, Paris ou As Raparigas de Salem. Já os li a todos - e de todos gostei - mas, a meu ver, nenhum é tão bom como este As Linhas que Traçam o Meu Corpo.

Em suma, esta obra consegue ser verdadeiramente notável, não apenas pela sua beleza visual, mas sobretudo pela profundidade e honestidade com que aborda questões de identidade, memória e resistência, que tantas marcas continuam a fazer nas mulheres iranianas. Mansoureh Kamari consegue criar um equilíbrio notável entre o íntimo e o universal, transformando uma narrativa pessoal no espelho das experiências de mais de 40 milhões de mulheres. Um dos livros do ano que deve ser comprado, lido, emprestado e/ou oferecido.


NOTA FINAL (1/10):
9.6


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor

Ficha técnica
As Linhas que Traçam o Meu Corpo
Autora: Mansoureh Kamari
Editora: Arte de Autor
Páginas: 200, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
Lançamento: Maio de 2026

domingo, 14 de junho de 2026

Análise: Arsène Lupin contra Sherlock Holmes

Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, de Jérôme Félix e Alain Janolle - Ala dos Livros

Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, de Jérôme Félix e Alain Janolle - Ala dos Livros
Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, de Jérôme Félix e Alain Janolle

Uma das mais recentes novidades da Ala dos Livros dá pelo nome de Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, uma obra da autoria de Jérôme Félix e Alain Janolle, originalmente editada em dois volumes, entre 2022 e 2023, e que a editora portuguesa congrega num volume integral.

Este é um trabalho que se apresenta como uma obra apelativa à partida, colocando frente a frente duas das figuras mais icónicas da literatura policial: Arsène Lupin e Sherlock Holmes. Estamos perante uma adaptação - ou releitura - da obra original criada por Maurice Leblanc. E sou-vos sincero: a promessa de um duelo entre o ladrão cavalheiro e o detetive mais célebre do mundo criou-me facilmente uma expectativa imediata, sugerindo uma narrativa intensa, inteligente e cheia de reviravoltas.

A história avança quando Arsène Lupin, ao assumir a identidade de especialista em códigos, é surpreendido por um homem que diz ser ele próprio. Este desconhecido pede-lhe ajuda para decifrar uma sequência enigmática, o que leva Lupin a iniciar a investigação. Descobre então que se trata de Maurice Guercin, ligado a uma família rica cuja herança envolve o suposto segredo alquímico de transformar metais comuns em ouro.

Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, de Jérôme Félix e Alain Janolle - Ala dos Livros
Mas à medida que esta investigação avança, surge uma ameaça familiar: Sherlock Holmes continua determinado a capturar Lupin. O confronto entre ambos intensifica-se então, e revela-se carregado de perseguições, disfarces e jogos de inteligência. 

Uma das coisas mais interessantes nesta abordagem é que a mesma se destaca pela forma como reinterpreta estas duas personagens clássicas. Arsène Lupin mantém o seu charme e perspicácia inconfundíveis, mas surgindo aqui como um criminoso sofisticado que ambiciona, curiosamente, reformar-se. Isto faz com que seja fácil para nós criarmos empatia com esta criativa - e divertida - personagem.

Por outro lado, também é interessante que a personagem de Sherlock Holmes nos seja apresentada numa versão bastante diferente daquela a que estamos habituados. Aqui, surge mais como um antagonista do que como um verdadeiro herói, algo que poderá causar estranheza a leitores mais familiarizados com a criação de Conan Doyle. Este é um Sherlock Holmes mais agressivo, por vezes até vingativo.

No que toca ao enredo, a obra tenta construir uma trama intrincada e cheia de surpresas. Há um esforço claro em enganar o leitor, montando e desmontando o puzzle da investigação de forma constante. Este estilo poderá remeter para as obras de Agatha Christie, em particular para as várias bandas desenhadas que a Arte de Autor tem publicado por cá na coleção dedicada às adaptações dos clássicos da escritora britânica. 

Contudo, apesar dessa ambição estrutural, foi com alguma pena que verifiquei que o resultado não atinge plenamente o nível de excelência a que parece aspirar. A história é agradável e envolvente em vários momentos, sem dúvida, mas fica aquém de se tornar verdadeiramente memorável. Há uma sensação persistente de que algo poderia ter sido mais aprofundado ou melhor trabalhado. Ou mais ajustado. É que, por um lado, a obra tem elementos sérios e parece apontar a um público mais maduro e sofisticado. Por outro lado, certas resoluções no enredo e certos eventos na narrativa parecem adquirir um tom demasiadamente juvenil e parcamente trabalhado.

Não é que seja um livro que não se leia bem, mas acho que falha em ser um trabalho mais memorável. Parece muito "ligeirinho" para aquilo que, aparentemente, procura ser: uma história densa, com muitas dimensões e que desafie a nossa inteligência.

Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, de Jérôme Félix e Alain Janolle - Ala dos Livros
Uma das principais fragilidades prende-se com a clareza do enredo, que se torna várias vezes confuso. E essa "confusão" não advém de uma complexidade intelectual desafiante, ou de subtramas mais complexas, mas antes de escolhas - e até mesmo diálogos - que parecem forçados. Em vez de enriquecer a história, certos desenvolvimentos acabam por quebrar a fluidez e a coerência da narrativa. Além disso, o ritmo revela-se por vezes demasiadamente acelerado. As situações sucedem-se com rapidez, e algumas resoluções parecem surgir de forma prematura ou pouco desenvolvida. 

Os diálogos também contribuem para essa sensação de artificialidade. Em vários momentos, soam algo forçados. E este aspeto reforça, lá está, a ideia de que a obra se aproxima mais de um estilo mais juvenil do que de uma narrativa adulta mais complexa. E, atenção, não há nada de errado nisso. Apenas acho que o livro sofre de uma certa bipolaridade entre o que quer e o que não quer ser. 

Ainda assim, não se pode dizer que seja uma leitura desinteressante, reitero. Pelo contrário, o livro lê-se bem e mantém um certo ritmo cativante. Simplesmente, não consegue cumprir totalmente a promessa de ser uma história densa e intelectualmente desafiante.

No campo visual, porém, a obra brilha de forma clara. O trabalho de Alain Janolle é muito belo, com um traço limpo e semi-caricatural que remete para importantes nomes da banda desenhada francófona, como Willy Lambil, Bruno Gazzotti ou Pierre Alary, por exemplo. Com as devidas diferenças, claro está. As personagens são expressivas, os cenários bem trabalhados e a planificação dinâmica, contribuindo fortemente para o prazer da leitura.

Também as cores merecem uma nota de apreço, graças ao contributo dos coloristas Delf & Walter. O seu trabalho é harmonioso e inspirado, complementando na perfeição o desenho e elevando o conjunto visual. No final, esta componente gráfica acaba por ser um dos maiores trunfos da obra, compensando em parte algumas fragilidades do argumento.

Em termos de edição, estamos perante mais um belíssimo trabalho da Ala dos Livros. O livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz e um belo grafismo. No interior, o papel é brilhante e de boa qualidade. Também de boa qualidade é a encadernação, impressão e acabamentos. O dossier de extras, com textos de René Pulsani e Jérôme Félix, é extremamente interessante, pois oferece alguma profundidade à obra e consegue até mesmo amarrar algumas das pontas soltas presentes na obra. Belos extras, portanto. Nota positiva, também, para a opção por editar a obra num volume integral.

Em suma, Arsène Lupin contra Sherlock Holmes oferece uma leitura envolvente e inteligentemente construída, destacando-se pelo ritmo dinâmico, pelos jogos de identidade e pelo carisma intemporal de Arsène Lupin. A tensão crescente entre Lupin e Sherlock Holmes acrescenta profundidade à narrativa e mantém o interesse até ao fim. Ainda assim, apesar do seu encanto e de algumas reviravoltas bem conseguidas, há momentos em que a história pode parecer algo previsível ou forçada. 


NOTA FINAL (1/10):
7.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, de Jérôme Félix e Alain Janolle - Ala dos Livros

Ficha técnica
Arsène Lupin contra Sherlock Holmes
Autores: Jérôme Félix e Alain Janolle
Adaptado a partir da obra original de: Maurice Leblanc
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Maio de 2026