quarta-feira, 4 de março de 2026

Análise: As Aventuras de Tintin - Integral #1

As Aventuras de Tintin - Integral #1, de Hergé - ASA - LeYa

As Aventuras de Tintin - Integral #1, de Hergé - ASA - LeYa
As Aventuras de Tintin - Integral #1, de Hergé

Foi ainda em 2025 que a ASA voltou a apostar em Tintin, de Hergé, uma das mais célebres e celebradas bandas desenhadas do mundo. Desta feita, essa aposta fez-se através do início do lançamento da série completa em volumes integrais.

Este primeiro volume traz-nos os três primeiros tomos do famoso repórter que são Tintin No País dos Sovietes, Tintin no Congo e Tintin na América. Embora estas não sejam as melhores histórias de Tintin - e creio que isso até será consensual - não deixa de ser verdade que estes três tomos têm a sua relevância histórica por nos permitirem aceder à génese de um dos maiores ícones da banda desenhada europeia. E mundial.

E, ainda para mais, num formato cuidado, em capa dura e numa dimensão superior àquela que, nos últimos anos, poderíamos encontrar nas livrarias portuguesas. Como tal, acho que se pode afirmar que esta nova edição da obra não é apenas um objeto de colecionismo, mas um documento histórico que procura revelar a evolução técnica e ideológica do jovem Georges Remi, que assinava como Hergé.

A jornada começa com Tintin no País dos Sovietes, originalmente editada em 1929, que é a única aventura que Hergé nunca redesenhou para cor durante a sua vida, mantendo o traço a preto e branco original. Por falar nisso, relembro que a ASA lançou a obra a cores em 2021. Nesta aventura, Hergé utiliza o repórter como uma ferramenta de propaganda anticomunista, apresentando uma visão caricatural e unidimensional da URSS. É uma narrativa algo ingénua e episódica, onde Hergé ainda parecia estar a testar opções e à procura do seu modus operandi na forma de contar e desenhar as histórias da personagem.

As Aventuras de Tintin - Integral #1, de Hergé - ASA - LeYa
Seguidamente, o volume apresenta Tintin no Congo, talvez a obra mais controversa de toda a série. Criada num contexto de colonialismo belga exacerbado, a história reflete o paternalismo e os preconceitos raciais da época, retratando os africanos de uma forma bastante ridícula e infantil, diria. É, pois, um livro que exige uma leitura contextualizada, servindo até de testemunho documental das mentalidades europeias da década de 1930. 

Nesta aventura africana, Hergé começa a refinar um pouco a estrutura dos seus argumentos, embora os mesmos ainda dependam fortemente de gags visuais e da interação entre Tintin e o seu fiel Milu. É o primeiro álbum a cores da série. Nesta edição integral - e com alguma pena minha pois, concorde ou não com os valores que um autor deposita na sua obra, sou sempre defensor de uma criação artística independente e livre - temos a versão mais leve da história em que algumas vinhetas foram alteradas/atenuadas.

O volume integral encerra com Tintin na América, onde Hergé demonstra uma maior preocupação com a pesquisa documental para as suas histórias, procurando ter um argumento mais inteiro na forma e não se alicerçando tanto em gags oferecidos de forma avulsa. Neste tomo, a arte de Hergé também ganha uma nova maturidade narrativo-visual, mesmo que ainda esteja um pouco longe dos melhores álbuns da série. 

Enfim, como já referi acima, a leitura deste integral permite observar a transformação de Tintin que passa de um "boneco" quase inexpressivo e a preto e branco no País dos Sovietes para um personagem com maior densidade moral na América. A relação com Milu também evolui, deixando de ser apenas um companheiro mudo para se tornar a consciência irónica do protagonista, muitas vezes comentando o absurdo das situações.

As Aventuras de Tintin - Integral #1, de Hergé - ASA - LeYa
Mas, acima de tudo, considero que este primeiro volume é essencial para compreender que Hergé não nasceu mestre... fez-se mestre. E, para tal, teve que experimentar novas coisas, teve que evoluir a narrativa visual e os enredos até que Tintin conquistasse a importância que viria a ter. E que ainda tem nos dias de hoje.

Olhando para o objeto-livro, a obra apresenta capa dura baça, com verniz localizado e bom papel brilhante no miolo. A impressão e encadernação também são boas. O aspeto gráfico da capa e contracapa também são bonitos, primando pela sobriedade característica do estilo de Hergé. É uma bela edição que, mesmo assim, talvez pudesse trazer um caderno de extras sobre os vários tomos que inclui. Acredito que esse material há de existir, pois esta é uma obra muito documentada. Acho também que talvez o formato pudesse ser um pouco maior, se bem que, repito, é superior ao "mini-formato" em que a série de Tintin poderia ser encontrada, nos últimos anos, nas nossas livrarias.

Os restantes 5 volumes deverão ter uma média de 4 tomos cada um. Este primeiro volume tem apenas três tomos devido à dimensão grande de Tintin no País dos Sovietes.

Em suma, este integral é uma viagem não só às raízes de Tintin, como também da banda desenhada moderna. Ao ler estas três histórias em conjunto, podemos confrontar-nos com as imperfeições de um Hergé em crescimento e com a beleza original de uma criação que estava prestes a revolucionar a nona arte.


NOTA FINAL (1/10):
7.0


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As Aventuras de Tintin - Integral #1, de Hergé - ASA - LeYa

Ficha técnica
As Aventuras de Tintin - Integral #1
Autor: Hergé
Editora: ASA
Páginas: 272, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 292 x 218 mm
Lançamento: Novembro de 2025

Análise: Sangoma - Os Condenados da Cidade do Cabo

Sangoma  - Os Condenados da Cidade do Cabo, de Caryl Férey e Corentin Rouge - Arte de Autor

Sangoma  - Os Condenados da Cidade do Cabo, de Caryl Férey e Corentin Rouge - Arte de Autor
Sangoma  - Os Condenados da Cidade do Cabo, de Caryl Férey e Corentin Rouge

Depois de Islander, uma mini-série em 3 tomos - dos quais a Arte de Autor já publicou o primeiro número - me ter deixado com tão boas impressões, estava muito curioso em ler este Sangoma - Os Condenados da Cidade do Cabo, feito pela mesma dupla de autores formada por Caryl Férey e Corentin Rouge!

Isto porque, nesse primeiro volume de Islander, quer o argumentista se mostrou capaz de apresentar uma história policial muito dinâmica, com uma ambiência política na quantidade certa, com personagens cativantes e com algumas reviravoltas impactantes, como o ilustrador, do qual eu já tinha ficado fã no seu trabalho em RIO, se afirmour como dono de um estilo de ilustração magnífica e super dinâmica que, mesmo sendo moderna e singular, parece ir beber a alguns dos mais célebres ilustradores da banda desenhada europeia.

Ora, dito por outras palavras, esta parece ser uma das melhores duplas da atualidade para o estilo de histórias que se propõe fazer. Um autêntico prato cheio.

Se Islander me agradou, Sangoma também me deixou extremamente satisfeito! 

Sangoma  - Os Condenados da Cidade do Cabo, de Caryl Férey e Corentin Rouge - Arte de Autor
Neste caso, estamos perante uma história fechada em 150 páginas, um one shot, que se desenrola na África do Sul, num contexto pós-apartheid. Este foi um período marcado por profundas desigualdades e tensões raciais que deixaram brancos e negros de costas voltadas entre si e que tiveram eco um pouco por todo o mundo. E até mesmo nos dias de hoje, e embora já não se fale tanto do tema, estas tensões permanecem ativas no país. E deixem-me já dar-vos nota do tema da obra. Considero-o bastante original, pois remete-nos para uma outra igualdade. Já li muita banda desenhada e não me lembro de ter lido uma banda desenhada sobre o Apartheid. Às vezes, e deixo o comentário, começa por ser uma boa abordagem para uma obra o simples facto de a mesma versar sobre um tema menos batido, ou mesmo inédito em banda desenhada. Boa escolha, portanto.

De resto, a história arranca com a descoberta de um cadáver de um trabalhador negro nas terras da quinta Pienaar, uma linha de produção agrícola pertencente a uma influente família branca. É então que conhecemos o carismático tenente Shane Shepperd que é o oficial designado para investigar o caso. Rapidamente se percebe que a verdade está envolta em silêncios e mentiras e à medida que Shepperd mergulha na investigação, a trama entrelaça-se com as divisões políticas do país, refletindo um cenário em que a reforma agrária e os velhos ressentimentos (ainda) estão à flor da pele. Consequentemente, a tensão aumenta quando os debates no parlamento se tornam cada vez mais acalorados e a violência parece uma solução iminente.

Portanto, o argumentista Caryl Férey não nos apresenta apenas um mistério policial, mas também uma crítica social incisiva. Embora essa crítica não seja panfletária ou demasiadamente politizada. O assassinato deste homem não é apenas um crime, mas o reflexo óbvio das cicatrizes deixadas pelo apartheid. 

Sangoma  - Os Condenados da Cidade do Cabo, de Caryl Férey e Corentin Rouge - Arte de Autor
Além disso, este thriller bem arquitetado, destaca-se pela sua capacidade em vários outros elementos: para além do enfoque político, há toda uma questão social e ainda cultural, pois os mitos tribais também têm importância na forma como os acontecimentos se desenrolam. A história é, deste modo, um excelente reflexo das complexidades da África do Sul contemporânea, onde as feridas do passado ainda estão abertas. A forma como os debates sobre a reforma agrária se entrelaçam com a narrativa principal enriquece a história, proporcionando um contexto que a torna ainda mais relevante. 

E, claro, está carregada de momentos de ação, com um ritmo que, por vezes, é frenético, mantendo-nos sempre alerta e em tensão emocional. A isso juntam-se ainda algumas personagens que, admito, podem ser um pouco o arquétipo expetável para este tipo de história - como o protagonista bem parecido, a fazer lembrar John Tango, que é ao mesmo tempo um sedutor -, mas que fazem bem o seu papel, contribuindo para que não seja difícil criar empatia com as personagens.

Férey demonstra um domínio impressionante do ritmo narrativo. A cada página, somos puxados para dentro da trama, ansiosos para descobrir o que acontecerá a seguir. As interações entre as personagens são carregadas de tensão, e as revelações são cuidadosamente doseadas, criando um efeito de crescente suspense. Esta habilidade em manter o leitor interessado na história é uma das grandes virtudes da obra. 

Diria que, sendo uma obra one shot, talvez não se tenha conseguido explorar com tanto detalhe algumas nuances das personagens e das suas intenções, como acontece no primeiro volume de Islander, mas, e não obstante, continua a ser uma história muito bem cozinhada.

Sangoma  - Os Condenados da Cidade do Cabo, de Caryl Férey e Corentin Rouge - Arte de Autor
Visualmente, Sangoma também é um espetáculo! Corentin Rouge dá vida à narrativa com ilustrações muito inspiradas, com forte influência cinematográfica, que servem a história da melhor forma possível! Os seus desenhos são dinâmicos e precisos, capturando a energia das cenas de ação de maneira vibrante. Além disso, também na representação das personagens, nos momentos mais introspetivos, nos debates no parlamento ou nas senas sensuais, o seu trabalho é de qualidade superior e muito envolvente.

Os planos cinematográficos utilizados por Rouge oferecem uma amplitude à história que é muito bem-vinda e que não só realça os momentos de ação frenética, como também permite que nós, leitores, sintamos a magnitude dos conflitos representados. A energia e o ritmo das ilustrações de Rouge são contagiantes. As cenas de ação estão carregadas de movimento e emoção, fazendo com que o leitor se sinta parte da narrativa. A sequência visual é tão bem executada que, muitas vezes, é possível “ouvir” os sons e sentir as emoções das personagens apenas através das imagens. Nota para a existência de maravilhosas ilustrações em página dupla, que ajudam a que a obra crie momentos ainda mais impactantes.

Sangoma  - Os Condenados da Cidade do Cabo, de Caryl Férey e Corentin Rouge - Arte de Autor
Talvez por tudo isto, não admira que, na biografia de Corentin Rouge presente nesta edição, seja feita menção ao facto de o autor seguir "a tradição gráfica dos maiores artistas realistas clássicos da banda desenhada como Hermann, François Boucq, Rossi e Jean Giraud/Moebius". Ainda que haja diferenças entre estes ilustradores e, claro, com o trabalho de Corentin Rouge, compreendo esta comparação, pois parece-me que, no panorama atual da banda desenhada franco-belga, talvez seja mesmo Rouge o autor que segura a tocha deste importante legado.

Daí que, sim, não tenho dúvidas de que amantes de uma banda desenhada de ação de origem europeia certamente gostarão muito deste Sangoma como, e isso é sempre assinalável, a abordagem moderna no estilo de Rouge também pode conquistar novos leitores.

A edição da Arte de Autor é em capa dura baça, com detalhes a verniz, e bom papel brilhante no miolo. A encadernação e impressão também são muito boas. O trabalho de ilustração é tão bom que lamentei que não houvesse um caderno gráfico a esse propósito nesta edição. Mas acredito que talvez a edição portuguesa não o inclua pela simples razão de o mesmo não estar disponível. 

Em suma, e acima de tudo, Sangoma é uma aposta ganha por parte da Arte de Autor! Como, aliás, também o é a aposta nesta dupla de autores que é mais do que capaz de nos oferecer um espetacular thriller de ação que não se contenta em entreter e sabe provocar reflexões sobre justiça, memória e reconciliação. Ao entrelaçar a investigação policial com as questões sociais da África do Sul, um bom ritmo narrativo, personagens empáticas, memoráveis cenas de ação frenética e um desenho soberbo, Férey e Rouge criam uma obra que é um "prato cheio" de boa banda desenhada e que merece ser conhecida por todos. Adorei! 


NOTA FINAL (1/10):
9.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Sangoma  - Os Condenados da Cidade do Cabo, de Caryl Férey e Corentin Rouge - Arte de Autor

Ficha técnica
Sangoma - Os Condenados da Cidade do Cabo
Autores: Caryl Férey e Corentin Rouge
Editora: Arte de Autor
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 232 x 310 mm
Lançamento: Março de 2026

Murena está de volta!



A ASA prepara-se para editar o mais recente livro da série Murena, de Jean Dufaux e Jérémy!

Trata-se do 13º volume da série, intitulado As Neronia, e deverá chegar às livrarias a partir do próximo dia 17 de Março. Por agora, o livro já se encontra em pré-venda no site da editora.

Com este lançamento, a série portuguesa passa a estar alinhada com a série original, o que também é uma boa notícia para os leitores portugueses.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais da edição original.


Murena #13 - As Neronia, de Jean Dufaux e Jérémy

Na verdade, L. Crassus, ainda bastante jovem, não derivou a sua reputação de ninguém além de si mesmo.

Ele adquiriu um título muito elevado através de uma famosa e ilustre ACUSAÇÃO.

Numa idade em que geralmente se é elogiado pelas suas realizações, L. Crassus mostrou que já era bem sucedido na CORTE, quando poderia ter sido mais meritório exercer a advocacia em casa.

CíCERO
De Officiis (Sobre os Deveres), II.

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Ficha técnica
Murena #13 - As Neronia
Autores: Jean Dufaux e Jérémy
Editora: ASA
Páginas: 46, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 298 x 226 mm
PVP: 17,90€

terça-feira, 3 de março de 2026

Análise: Vincent

Vincent, de Barbara Stok - Iguana - Penguin Random House

Vincent, de Barbara Stok - Iguana - Penguin Random House
Vincent, de Barbara Stok

Foi muito recentemente que tive a oportunidade de visitar, pela primeira vez, o Museu Van Gogh, em Amesterdão, onde a vida e obra do famosíssimo pintor está muito bem documentada e explanada. Já conhecendo um pouco do percurso do pintor neerlandês, foi uma boa oportunidade para recuperar alguns conhecimentos sobre a sua obra que, com a passagem dos anos, tinha olvidado.

Portanto, ler agora Vicent, de Barbara Stok, recentemente editado pela editora Iguana, que procura dar-nos um retrato intimista dos últimos anos de Van Gogh, foi uma sensação especialmente prazerosa até pelo simples facto de ter os meus conhecimentos "vangoghianos" em dia.

Devo começar por dizer que trazer a figura incontornável de Van Gogh para a 9ª arte é, por si só, um projeto meritório e de interesse inegável para muita gente: os que leem banda desenhada e têm algum interesse na vida do pintor e os que, mesmo não lendo banda desenhada, são admiradores do pintor. O que pode ainda ser um engodo para trazer mais gente para a banda desenhada. E isso é sempre positivo e digno de nota. Por falar nisso, recordo também a obra Vincent e Van Gogh, de Gradimir Smudja, publicada por cá pela Arte de Autor em 2023.

Vincent, de Barbara Stok - Iguana - Penguin Random House
O foco da narrativa deste Vicent centra-se no período em que Van Gogh tentou encontrar inspiração e alguma serenidade para a sua mente no sul de França, em Arles. Acompanhamos a transição da sua vida atribulada num quarto de hotel para a célebre "Casa Amarela", onde o sonho de fundar uma colónia de artistas acaba por colidir com a rigidez e o temperamento explosivo de um Van Gogh assumidamente workaholic

É durante esse período que Van Gogh convive mais de perto com o seu amigo Paul Gauguin, outro célebre pintor, partilhando casa e locais de inspiração com ele, mas experenciando, igualmente, algumas divergências e incompatibilidades. É que a convivência forçada e os métodos de trabalho díspares dos dois amigos pintores acabam mesmo por afastá-los um do outro, culminando no desmoronamento dos planos de Vincent para a criação da comunidade criativa.

De resto, acedemos ainda aos vários períodos em que Vincent tem que ser internado em hospitais psiquiátricos para aí recuperar, tanto quanto possível, dos seus surtos psicóticos.

Vincent, de Barbara Stok - Iguana - Penguin Random House
Além de Gauguin, outra das presenças assíduas neste livro, ainda que à distância, é a de Theo, o irmão de Vincent que, trabalhando enquanto comerciante de arte em Paris, não só enviava dinheiro a Van Gogh para este poder viver do seu sonho de ser pintor, como ainda se correspondia assiduamente com o irmão. Várias dessas cartas são integralmente reproduzidas na obra para, desse modo, nos narrarem algumas das experiências, dificuldades, processos criativos e sonhos de Vincent. É nestas passagens que sentimos a admiração profunda de Van Gogh pela luz e paisagem da Provença.

Embora estejamos perante uma leitura "que se faz bem" e cujos intuitos são mais do que bons, o livro padece de uma crise de identidade, pois revela-se perdido entre dirigir-se a um público infantil e/ou um público adulto. Podendo considerar-se que é para ambos, mas para nenhum em concreto. Analisado enquanto "livro infantil", a história e densidade do livro - bem como alguns episódios mais adultos como, por exemplo, a confraternização do pintor com prostitutas - pode ser desadequada. Por outro lado, observado enquanto "livro para adultos", talvez a abordagem seja demasiadamente leve e otimista, não refletindo a profundidade da depressão do pintor, tratando-o de uma forma algo unidimensional e simplista, não se sentindo, consequentemente, a verdadeira profundidade da sua depressão. Como se a sua dor fosse apenas um acessório e não a sua essência. A obra fica, portanto, algures a meio caminho entre um livro que parece destinado aos mais novos e um livro que parece destinado aos mais velhos, não sendo excelsa em nenhuma dessas duas opções.

Vincent, de Barbara Stok - Iguana - Penguin Random House
Ainda assim, não deixa de ser verdade que Barbara Stok consegue retratar, com alguma emoção e de forma convincente, várias características basilares de Van Gogh: a sua obsessão pela arte e pelo processo artístico, o sentimento de solitude, o desajuste social e a angústia da sua doença mental.

Quanto às ilustrações, a obra apresenta um estilo gráfico extremamente naïf e simples, quase infantil. Pode não ser deslumbrante nos primeiros momentos em que observamos as pranchas deste livro, mas devo reconhecer que, depois de nos habituarmos à abordagem de Barbara Stok, começamos a melhor valorizar as suas ilustrações. A utilização de uma paleta de cores muito vivas dá uma certa sensação de frescura e leveza ao trabalho. E há algumas vinhetas ou pranchas onde parecemos entrar dentro de um quadro de Van Gogh. Não por Stok e Van Gogh terem o mesmo estilo de ilustração, sublinhe-se, mas pelo facto de a autora ter conseguido transmitir - no seu próprio estilo - a ambiência e estética, mesmo que de uma forma muito pictórica, do trabalho de Van Gogh. Gostei particularmente das ilustrações onde são reproduzidos os campos de trigo, os ciprestes, os girassóis, a noite estrelada ou até mesmo o famoso quarto desarrumado onde viveu Vincent.

A edição da Iguana apresenta capa dura baça, bom papel baço, e uma boa encadernação e impressão. Nada a objetar, portanto.

Em suma, esta é uma obra que mesmo sendo, devido ao seu tema, mais que bem-vinda, deixa um certo travo agridoce devido à opção por uma abordagem algo lata e pouco densa da narrativa. Barbara Stok apresenta-nos um Vincent estranhamente feliz e luminoso, o que, para quem conhece minimamente a biografia do pintor, soa a uma simplificação excessiva da sua realidade atormentada. Mesmo assim, também é verdade que é uma leitura agradável para que não esqueçamos o quão especial foi este homem de nome Vincent Van Gogh.


NOTA FINAL (1/10):
7.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Vincent, de Barbara Stok - Iguana - Penguin Random House

Ficha técnica
Vincent
Autora: Barbara Stok
Editora: Iguana
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Fevereiro de 2026