segunda-feira, 18 de maio de 2026

Análise: A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares

A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros

A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Moni

Foi há poucos dias que a Ala dos Livros nos trouxe mais um livro da série A Adopção, que tem Zidrou como argumentista e Monin como ilustrador.

Este trata-se do quinto tomo da série, embora seja apenas a terceira história da mesma. Isto porque, ao contrário das histórias anteriores, que foram divididas em dois tomos (se bem que, convém não esquecer, a Ala dos Livros, editou - e bem - cada um dos livros anteriores em volumes dípticos), esta terceira história, autoconclusiva, é-nos dada num menor número de páginas, encerrando em si mesma o terceiro ciclo da série. Que, entretanto, acaba de lançar, em França o sexto álbum.

Já me começo a repetir, bem sei, mas ainda está para vir o primeiro livro de Zidrou que não me agrada. As suas histórias, as suas personagens e a humanidade que emana das mesmas, não tem par. E se eu tenho gostado muito desta série até agora, é bem provável que este O Rei dos Mares até seja o meu preferido até agora. O que não é dizer pouco.

Voltamos a ter o tema da adopção, claro, mas desta feita é-nos dado de uma forma algo diferente face às duas histórias anteriores, em que o enfoque era mais colocado nas dificuldades inerentes ao processo de adopção. Desta feita, continuamos a ter a mesma temática, mas este é um livro que vai além disso, conseguindo ser uma história mais universal.

A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
Um casal é formado por um espanhol, Eduardo, e uma francesa, Nathalie. Depois de várias tentativas sem conseguirem engravidar, ambos solicitam a adopção de uma criança, nos respetivos países a que pertencem. Depois de muito tempo à espera, quer o destino que os pedidos de adopção sejam aceites praticamente na mesma altura, o francês e o espanhol, com duas meninas a chegarem com o espaçamento de três dias para que possam ser adoptadas pelo casal. Mas como, dizem, não há uma sem duas, nem duas sem três, Nathalie engravida contra tudo o que se poderia esperar. Passam então a ser três meninas. Esta família pode ser improvável, mas é profundamente unida. 

Porém, a mãe falece e o pai vê-se forçado a educar as suas três filhas sozinho (não vos estou a dar nenhum spoiler, pois esta informação até nos é dada logo na sinopse contida na contracapa do livro). E é a partir daí que as três irmãs, já mulheres, e depois de mais uma notícia trágica, voltam atrás no tempo, através de boas memórias que o pai e a mãe lhes ofereceram.

A premissa, embora oferecida num argumento dinâmico que nos leva um sem número de vezes ao passado e ao presente, é bastante simples. Mas funciona perfeitamente bem.

Com efeito, este novo livro é, antes de mais, uma obra verdadeiramente emocionante. Há nela uma delicadeza quase invisível que se infiltra devagar, mas que permanece, mesmo depois da última página, como um eco suave de algo profundamente humano. Embora não tenha chorado, senti-me profundamente emocionado por esta obra, com o seu embalo agridoce que, ora nos arranca uma gargalhada, ora nos deixa com um nó na garganta.

A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
O texto de Zidrou é tocante, sem ser lamechas, sabendo fazer o leitor viajar às suas próprias memórias. E essa é talvez a sua maior virtude: a capacidade de provocar reconhecimento. Podemos não ter vivido uma história minimamente próxima daquela que nos é dada, mas, ainda assim, sentimos que já estivemos ali, que as vozes e sentimentos destas personagens nos pertencem de alguma forma, como se cada frase abrisse uma porta para o nosso próprio passado emocional.

Como já referi, e ao contrário dos volumes anteriores, mais do que ser um livro que se foca nas dificuldades da adoção, este volume prefere iluminar aquilo que tantas vezes fica na sombra: a beleza do vínculo, a construção do afeto, a força tranquila do amor escolhido. Não ignora as dores da vida, o luto e a ausência, mas não se deixa definir por elas. Ao invés, insiste no que floresce apesar de tudo, nas memórias que ficam, nos laços que não findam.

Estamos perante uma história de boas memórias, numa clara homenagem a um pai. E que pai! Edu é uma personagem que não se constrói por grandes gestos heroicos, mas pela constância, pela presença e pelo cuidado quotidiano que tem com as suas filhas. As pequenas coisas ganham aqui um peso imenso, porque são elas que, no fundo, edificam uma vida partilhada. Especialmente quando temos, enquanto pais, crianças a absorverem tudo o que fazemos, diria.

Além disso, há algo mais onde me parece que Zidrou volta a ser muito bem sucedido: a verosimilhança da história. Os momentos descritos são tão intensos que parecem ser retirados da vida real, como se o autor tivesse mesmo vivido estes eventos ou como se alguém lhos tivesse contado. Consequentemente, nós, os leitores, parecemos estar a observar fragmentos de uma existência autêntica, com todas as suas imperfeições e maravilhas, sem que nada soe forçado, quando lemos este O Rei dos Mares

Há, por isso, uma melancolia doce que percorre toda a obra. Não uma tristeza pesada, mas antes uma saudade luminosa, daquelas que aquecem mesmo quando doem. O passado não é um peso, mas antes um abrigo, ou um lugar aonde regressar para reencontrar o que/quem nos fez ser quem somos. Já vos aconteceu? A mim, certamente que sim.

A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros
É, pois, uma história sobre o luto, mas também sobre a vida após a morte. Não uma vida literal, nem metafísica, mas aquela que persiste nas recordações. Quando alguém parte, fica presente nos seus gestos que repetimos, nas suas palavras e expressões que herdamos, e nas suas histórias que recontamos. Gosto de pensar que é aí que este pai - e tantos outros pais, incluindo o meu - continua a existir.

O desenho de Monin acompanha toda esta sensibilidade da história com uma harmonia notável, que se coaduna muito bem com o relato. Mantém o mesmo estilo demonstrado nos álbuns anteriores, com ilustrações suaves e bonitas cores que acentuam essa suavidade e leveza. As personagens, de traço semicaricatural, são muito expressivas, criando facilmente empatia com o leitor, o que reforça o impacto emocional da narrativa.

É verdade que, de quando a quando, e especialmente comparando com os álbuns anteriores, surgem pequenos momentos em que os desenhos parecem feitos com mais pressa do que o habitual, carecendo de algum detalhe que o autor, noutros momentos, demonstrou dominar plenamente. Ainda assim, esses apontamentos não diminuem o conjunto. A obra permanece muito boa mesmo do ponto de vista da ilustração.

A edição da Ala dos Livros é em capa dura baça, com bom papel baço no interior e boa impressão e encadernação. Nada a objetar.

Em suma, este O Rei dos Mares até é capaz de superar os dois ciclos anteriores que já tanto me tinham agradado. Sei que muita gente até pode considerá-lo como um livro "apenas" bom, com uma história leve e bonita e bem servida por belos desenhos... mas se é verdade que devemos avaliar um livro por aquilo que ele nos fez sentir e como nos marcou, então tenho que admitir este é um dos livros que mais me tocou no presente ano.  Esta é uma obra que não procura impressionar-nos, mas antes tocar-nos. E fá-lo como poucas!


NOTA FINAL (1/10):
9.7



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares, de Zidrou e Monin - Ala dos Livros

Ficha técnica
A Adopção - Livro 3 - O Rei dos Mares
Autores: Zidrou e Monin
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Maio de 2026

"Something is Killing the Children" avança para o terceiro volume!



A editora Devir prepara-se para publicar, ainda durante o mês de maio, o terceiro volume da série Something is Killing the Children, da autoria de James Tynion IV e Werther Dell’Edera.

Por agora, o livro já se encontra em pré-venda no site da editora. A publicação desta série de terror, que começou em novembro de 2025, está a avançar a um bom ritmo, coisa que deve ser assinalada.

Recordo que o primeiro volume já aqui foi analisado.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Something is Killing the Children #03, de James Tynion IV e Werther Dell’Edera

As coisas em Archer’s Peak estão cada vez pior. Erica Slaughter procura o assassino, mas as crianças continuam a morrer. Irritados e com medo, os habitantes voltam as suas suspeitas para a estranha que está entre eles, a mulher que chegou quando os assassinatos começaram.

Conseguirá Erica salvar a cidade, ou será que as mesmas pessoas que ela está a tentar proteger se voltam contra ela?

Reúne os capítulos #11 a #15 da coleção.


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Ficha técnica
Something is Killing the Children #03
Autores: James Tynion IV e Werther Dell’Edera
Editora: Devir
Páginas: 142, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 18 x 27,5 cm
PVP: 18,00€

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Escorpião Azul reedita "Jardim dos Espectros"!



Já está disponível a nova edição da obra Jardim dos Espectros, de Fábio Veras, editada pela Escorpião Azul!

Esta é uma obra de belíssima qualidade, já aqui analisada por mim, e que se encontrava esgotada.

A nova edição apresenta uma nova ilustração de capa e uma dimensão ligeiramente superior.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Jardim dos Espectros, de Fábio Veras

Núvia é o jardim que acolhe centenas de almas que já pertenceram a este mundo.

Mas por alguma razão, este local, que fora o mais visitado da cidade, é agora tabu na boca da população. O que fora um jardim alegre e cheio de vida, é agora palco de acontecimentos invulgares. 

Hoje poucos ousam entrar. Mas um forasteiro, assim como é tratado, parece não temer os segredos tão bem escondidos por entre os ramos das árvores. 

Saberá mais do que aparenta?




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Ficha técnica
Jardim dos Espectros
Autor: Fábio Veras
Editora: Escorpião Azul
Páginas: 64, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 17 x 24 cm
PVP: 19,00€

Arte de Autor e A Seita editam livro sobre Hugo Pratt!



As editoras Arte de Autor e A Seita acabam de editar um livro sobre Hugo Pratt, o célebre autor da ainda mais célebre série de BD Corto Maltese.

Da autoria de Angel de La Calle, que esteve recentemente em Portugal no Coimbra BD, este não é um "livro de banda desenhada", mas sim um livro "sobre banda desenhada". Algo que, felizmente, temos vindo a ver mais assiduamente em Portugal, com a edição de alguns livros que teorizam a banda desenhada.

Certamente é compra obrigatória para todos os que, como eu, são apaixonados pela criação de Hugo Pratt.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Hugo Pratt: A Mão de Deus, de Angel de La Calle

“[Jorge Luis] Borges ensinava uma coisa muito importante: contar mentiras como se elas fossem a verdade. Dele, aprendi a contar a verdade como se fosse a mentira”.
Hugo Pratt

O veneziano Hugo Pratt passou à história da cultura como criador da personagem Corto Maltese, o pirata romântico e navegante solitário e complexo. Mas mais do que isso, Pratt foi um autor que transformou o clássico em moderno e revolucionou a linguagem da banda desenhada.

Nesta obra, o autor e investigador Ángel de la Calle, analisa detalhada e criticamente as diferentes fases da vida e obra de Pratt, desde a sua infância em Veneza, a adolescência na Etiópia, o início da sua carreira como autor de BD no pós-guerra, a empreitada argentina, até à consagração como um autor tão mítico quanto a sua maior criação, o marinheiro Corto Maltese, sem esquecer as suas últimas obras, desmontando o mito construído por Pratt em torno da sua biografia e revelando os segredos do seu traço único.

Uma viagem fascinante, muito bem documentada e melhor ilustrada - com mais de uma centena de imagens, muitas delas publicadas pela primeira vez em Portugal - pela vida de um dos nomes maiores da Literatura Desenhada (expressão que ele preferia a banda desenhada) do século XX, enriquecida com um posfácio do especialista brasileiro Gabriel Nascimento, que revela a verdade sobre os filhos brasileiros de Pratt.

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Ficha técnica
Hugo Pratt: A Mão de Deus
Autor: Angel de La Calle
Ilustrações: Hugo Pratt
Editoras: Arte de Autor e A Seita
Páginas: 160, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
PVP: 19,90€