quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Análise: Grande Pequeno Homem

Grande Pequeno Homem, de Zanzim - A Seita

Grande Pequeno Homem, de Zanzim - A Seita
Grande Pequeno Homem, de Zanzim

Foi preciso ir à internet procurar imagens promocionais da obra que pudessem acompanhar este texto, para eu saber algo que não sabia: Grande Pequeno Homem, de Zanzim, é uma obra que tem sido mal recebida por uma quantidade significativa de público. Raramente leio textos de opinião sobre obras que procuro analisar nos meus textos, para que a minha percepção sobre as mesmas não fique toldada por aquilo que li. Mas, desta vez, devido à procura das imagens, acabei por ir dar a algumas opiniões, nomeadamente no site Goodreads, que me deixaram boquiaberto.

Aparentemente - certamente por pessoas com pouca capacidade interpretativa, permitam-me - esta é uma obra misógina, que não respeita o corpo da mulher. O caso de Gisèle Pelicot é até referido por muitas destas opiniões obtusas. Mas está tudo doido? Estamos a confundir alhos com bugalhos? Ou simplesmente (já) não sabemos interpretar?

Grande Pequeno Homem, de Zanzim - A Seita
Quem acusa esta obra de ser misógina, desrespeitadora do consentimento e do corpo do outro, claramente não sentiu na pele o que são todas essas coisas que, naturalmente, não só são profundamente erradas como devem ser erradicadas do planeta. O que aqui temos é algo bem diferente e uma verdadeira carta de amor à paixão, ao amor platónico, à curiosidade pelo corpo feminino. Mesmo havendo algumas cenas com uma leve - sublinho leve - carga erótica, não há nada de sexual ou gráfico nesta obra. E mesmo que houvesse, nada de mal isso teria. A própria forma como os corpos, mesmo nus, são retratados neste livro, não tem nada de sexual ou chocante. Pelo contrário, tudo é feito de um modo belo e elegante. Quase naif. O que temos é, pois, uma forma expressa e romântica de descrever a paixão pelo outro. A devoção, quase pueril, de um rapaz apreciar o corpo feminino. Se fosse a devoção, quase pueril, de uma rapariga apreciar o corpo masculino... (ou outro corpo qualquer) seria igualmente belo. E já que falo nisso, não me lembro de ter visto nenhuma polémica no conto original de Murakami, Xerazade - contido na obra O Sétimo Homem e Outros Contos, e adaptado para banda desenhada por Jean-Christophe Deveney e PMGL -, em que a história nos mostra uma jovem mulher a infiltrar-se na casa de um rapaz por quem estava obsessivamente apaixonada, mexendo nos seus objetos pessoais, sem o conhecimento do mesmo. Será que as pessoas chocadas com Grande Pequeno Homem estarão chocadas com esta obra? Ou, nesse caso, como é uma mulher a entrar no espaço pessoal de um homem, já é algo mais compreensível? Enfim, não tenho paciência para moralismos incoerentes e enviesados. Tenho ainda menos paciência para quem não sabe interpretar texto.

Grande Pequeno Homem, de Zanzim - A Seita
Desculpem esta longa introdução na minha análise, pouco usual nos meus textos, mas não poderia começar de outra forma. Agora que está desfeita a "polémica" neste livro, olhemos para a obra, que é o que realmente interessa.

Grande Pequeno Homem, de Zanzim - o mesmo ilustrador de Pele de Homem, também publicado por cá pela editora A Seita - conta a história de Stanislas Rétif, um homem profundamente complexado com a sua baixa estatura. O pequeno homem é também apaixonado por sapatos e pés femininos, e trabalha numa sapataria. Mas ninguém parece notar em si ou na sua relevância. As mulheres à sua volta acham-no ridículo e insignificante. A baixa estatura do homem é, portanto, um problema e um complexo.

Mas um dia acontece uma estranha alteração: através de uma maldição, o homem acaba transformado num pequeno ser, de meros centímetros. Algo reminiscente de um Querida, Encolhi os Miúdos, em que as personagens eram encolhidas até ao tamanho de pequenos insetos. Agora que Stanislas parece um mero "polegarzinho", terá que lidar com um novo mundo e acaba por involuntariamente ser levado para casa de uma mulher que passa a observar devotamente, na intimidade do lar desta.

Grande Pequeno Homem, de Zanzim - A Seita
Não conto mais, para não vos criar nenhum spoiler, mas posso deixar bem presente que aquilo que, depois de se tornar pequeno, Stanislas vive, é uma autêntica epopeia que o vai levar a questionar o que será, de facto, a grandeza. Somos grandes pela nossa aparência e pela forma como os outros nos veem ou seremos grandes por aquilo que, realmente, somos e pelas nossas ações?

Graficamente, a obra é um verdadeiro encanto. Zanzim apresenta novamente - e à semelhança do que já nos havia dado em Pele de Homem - um desenho reconhecível à primeira vista, marcado por uma elegância constante e por um charme difícil de encontrar noutros autores. As suas ilustrações possuem um requinte singular, capaz de transformar as cenas mais simples em momentos visualmente memoráveis. A própria sobriedade das cores também contribui muito para a beleza gráfica do livro.

Acho igualmente admirável que o ilustrador consiga criar um universo belo, mas sem nunca abdicar de uma certa contenção gráfica. Através de movimentos subtilmente colocados, sugere feminilidade, curvas, delicadeza e emoção, recorrendo a uma linha aparentemente simples, mas surpreendentemente expressiva.

Grande Pequeno Homem, de Zanzim - A Seita
Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça com verniz localizado, bom papel baço no interior e um bom trabalho ao nível da impressão e encadernação.

Gostei bastante deste livro. A sua abordagem mistura humor, sensibilidade e reflexão de uma forma extremamente pessoal, conseguindo criar momentos simultaneamente acessíveis e profundos.

A única coisa que, realmente, não me agradou tanto - e é disso que devíamos estar a falar, em vez de acusarmos, cega e ridiculamente, a obra de ser misógina - é que, em termos narrativos, a história acabe por seguir um caminho relativamente previsível, optando por uma moral algo fácil. Acredito que teria sido mais interessante explorar mais profundamente as dificuldades do protagonista sem recorrer a uma redenção algo convencional. E isso sente-se particularmente no final da obra que, embora belo, me pareça algo forçado e rápido. Tendo em conta que durante as primeiras 40 páginas, o enredo não arranca propriamente, a resolução da história em tão poucas páginas merecia ter sido explorada de um modo mais profundo.

Ainda assim, o balanço final é claramente positivo. A história deste pequeno homem que acaba por aprender a tornar-se grande através das suas ações e generosidade é simultaneamente divertida, tocante e inspiradora. Se por vezes a mensagem pode parecer demasiado evidente, a verdade é que a sinceridade do relato, aliada ao extraordinário talento gráfico de Zanzim, faz de Grande Pequeno Homem uma leitura muito recomendável. E, francamente, se uma obra tão cheia de humanidade, delicadeza e bondade é posta em causa por vários leitores que a acusam, injustamente, de ser "misógina", então talvez seja o mundo que esteja perdido.


NOTA FINAL (1/10):
8.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens dos álbuns. www.instagram.com/vinheta_2020


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Grande Pequeno Homem, de Zanzim - A Seita

Ficha técnica
Grande Pequeno Homem
Autor: Zanzim
Editora: A Seita
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 21,5 x 29 cm
Lançamento: Junho de 2026

Já saiu nova adaptação para BD de "Macbeth" de Shakespeare!



Já se encontra em livraria a nova adaptação de um clássico para banda desenhada dos irmãos Brizzi! Desta vez, trata-se de Macbeth - obra originalmente extraída da mente de William Shakespeare - que é editada por cá pela Arte de Autor.

Os livros desta dupla de autores franceses - que eu adoro! - têm estado a ser editados pel' A Seita e pela Arte de Autor, mas excecionalmente este novo livro é unicamente editado pela Arte de Autor, o que se justifica tendo em conta que A Seita já tem no seu catálogo uma adaptação para banda desenhada da mesma obra de Shakespeare, da autoria de Thomas Day e Guillaume Sorel.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais da mesma.

Macbeth, de Gaëtan e Paul Brizzi

Baseado no romance de William Shakespeare

Nesta nova adaptação, os irmãos Brizzi abordam a tragédia mais conhecida de William Shakespeare e ilustram com brilhantismo a tumultuosa descida ao inferno do casal Macbeth.

Depois do sucesso das suas adaptações do Inferno de Dante, Dom Quixote de Cervantes e o Fantasma da ópera Paul e Gaëtan Brizzi voltam a aventurar-se num clássico da literatura.


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Ficha técnica
Macbeth
Autores: Gaëtan e Paul Brizzi
Editora: Arte de Autor
Páginas: 136, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 340 mm
PVP: 33,00€

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

"BD à Lupa" regressa este sábado com BD grátis!


Lá porque o Amadora BD terminou no domingo passado, não quer dizer que os eventos dedicados a banda desenhada tenham desaparecido.

E a prova disso é o regresso do BD à Lupa para este sábado, dia 31 de Outubro, às 16h00, na FNAC, do Alegro de Alfragide.

E desta vez faremos algo nunca antes feito: uma conversa não com uma pessoa dedicada à banda desenhada, mas antes uma conversa com toda uma família dedicada à produção de banda desenhada: a família Louro. 

Luís Louro, possivelmente o autor português de banda desenhada com a obra mais extensa e consolidada, pode ser o mais famoso dos Louros, mas a verdade é que a sua filha mais velha, Verónica Louro, acaba de se estrear enquanto autora de banda desenhada, com Smoke & Mirrors. Já Luísa Louro, a esposa de Luís, exerce funções de agente do marido e da filha, sendo um verdadeiro dínamo na promoção e comunicação das obras. Por fim, Rebeca Louro, a filha mais nova e "a mais crítica de todos", funciona como crivo de qualidade, acompanhando de perto a criação do pai e da irmã e sendo, também ela, ilustradora.

Qual o processo criativo? Como é a dinâmica de tantos talentos numa só família? Que influência tem Luís Louro para as suas filhas? Que novos projetos acontecerão no futuro? 

E que livros acabados de editar são estes Coração de Papel (Luís Louro) e Smoke & Mirrors (Verónica Louro)?

Será uma autêntica "Louroversa", onde falaremos sobre estes e muitos outros assuntos numa conversa entre mim e os quatro Louros, aberta a todos os seus amigos e leitores.

E, claro, como habitual, teremos vários livros para oferecer àqueles que nos fizerem companhia.

Não faltem!

Próximo Sábado | 31 de Outubro | 16h00 | FNAC | Alegro Alfragide

domingo, 25 de outubro de 2026

Ofertas e Revelações no Último Dia do Amadora BD!



Hoje, no último dia do Amadora BD 2026, vou participar em duas belas apresentações, às quais vos convido a comparecer.

Às 16h00, estarei à conversa com Filipe Melo, a propósito da mais recente edição especial do fantástico Balada para Sophie. Falaremos também de outros assuntos e até faremos uma revelação que, certamente, não quererão perder. Haverá ainda a possibilidade de ganharem um dos seus livros. Para tal, só têm que comparecer à apresentação marcada para as 16h00, no auditório do evento.

Às 18h00, estarei à conversa com João Mascarenhas, o mais recente galardoado com o Troféu de Honra do Amadora BD e autor dos recentes lançamentos Nas Estrelas (Editora Polvo) e O Menino Triste - Ginguba (Editora Escorpião Azul).



Não deixem de comparecer, para esta e para outras apresentações.

Até logo!