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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Análise: Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso 1 e 2

Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso 1 e 2, de Chokam e Cheong-Gwa - Distrito Manga - Penguin

Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso 1 e 2, de Chokam e Cheong-Gwa - Distrito Manga - Penguin
Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso 1 e 2, de Chokam e Cheong-Gwa

Uma das mais recentes apostas por parte da editora Distrito Manga é o manhwa Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso, de Chokam e Cheong-Gwa, que já tem, até ao momento, dois álbuns editados que opto por analisar em conjunto.

Trata-se de um romance histórico que aborda os temas da reencarnação e do drama psicológico - se é que lhe posso chamar assim. A premissa é, pelo menos inicialmente, apelativa: Inés Valeztena é uma sensual mulher que, marcada pelas memórias de vidas anteriores e por um destino trágico que já viveu mais do que uma vez, procura, desta vez, alterar o rumo da sua existência através de um casamento que encara não como um ideal romântico, mas como uma ferramenta para alcançar a liberdade. Acaba por haver, logo à partida, uma inversão das expectativas tradicionais de um romance. Inés não quer ser feliz no casamento, mas sim que esse casamento falhe e instrumentaliza-o para alcançar essa tal liberdade. 

Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso 1 e 2, de Chokam e Cheong-Gwa - Distrito Manga - Penguin
No primeiro volume, a narrativa centra-se sobretudo na preparação do casamento entre Inés e Cárcel Escalante. Ambos pertencem à aristocracia do império e estão prometidos desde a infância, numa união que parece responder mais a interesses do que a sentimentos genuínos. Contudo, a protagonista possui uma consciência invulgar da sua própria história, graças às recordações das suas vidas passadas. É precisamente essa experiência acumulada que orienta as suas decisões e torna as suas ações, pelo menos em teoria, mais calculadas e estratégicas.

Apesar de partir de uma ideia promissora, a construção da narrativa revela diversas fragilidades. A história é frequentemente confusa e difícil de acompanhar. Não tanto por apresentar uma complexidade intelectual particularmente elevada, há que o dizer, mas porque parece, em vários momentos, mal arquitetada. Certos acontecimentos surgem sem a devida preparação; algumas motivações das personagens, especialmente de Cárcel, mudam abruptamente; e a progressão dramática nem sempre é muito coerente. A história é, desde o início, confusa e, se me permitem uma especulação, parece-me que na própria cabeça de quem criou a história, a mesma também está confusa. Ou, se não, houve uma clara fragilidade na forma como a história foi passada para banda desenhada.

Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso 1 e 2, de Chokam e Cheong-Gwa - Distrito Manga - Penguin
E sublinhe-se que essa sensação de desorientação é ainda agravada pela forma como os diálogos e os pensamentos são apresentados. Em diversas passagens, somos confrontados com sucessivas linhas de diálogo intercaladas com reflexões interiores de várias personagens e nem sempre é claro quem está a falar ou a pensar, obrigando-nos a regressar atrás para tentar reconstruir a cena. E mesmo quando voltamos atrás, a fragilidade do enredo e da escrita mantém-se presente. 

A própria personagem de Cárcel Escalante pareceu-me construída de forma inconsistente. Inicialmente, o rapaz é apresentado como sendo um libertino incorrigível, mas a sua evolução para um homem devoto e com uma forte pulsão sexual por Inés não só é rápida como parece pouco convincente. 

Um dos elementos mais positivos da série encontra-se, sem dúvida, na componente visual. Os desenhos são extremamente elegantes, detalhados e agradáveis à vista. As próprias capas dos livros são bonitas e requintadas. Os cenários, os figurinos e a representação da aristocracia ajudam a criar uma atmosfera sofisticada e envolvente. Parece haver um cuidado evidente na composição das páginas e na construção da estética geral da obra.

Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso 1 e 2, de Chokam e Cheong-Gwa - Distrito Manga - Penguin
Como ponto menos positivo, refiro que muitas das personagens masculinas apresentam traços físicos excessivamente semelhantes, dificultando, várias vezes, a sua identificação imediata. Se já me vi forçado, muitas vezes, a voltar atrás na leitura para perceber o que estava a acontecer, esta semelhança entre personagens ainda contribuiu mais para isso. 

Mas já tendo feito um texto grande sobre esta obra, ainda não referi algo que me deixou deveras surpreendido. É que, sem que nada o fizesse prever, o segundo volume enche-se de um erotismo super intenso, com várias cenas bastante gráficas, de sexo puro e duro - literalmente falando. E tudo isto nos é dado através de uma abordagem visual que muitos poderão considerar como escandalosa.

Devo dizer que gostei particularmente destas cenas eróticas e até considero que nelas se encontram os melhores momentos do segundo livro. Aliás, há muito digo que talvez seja interessante que as editoras portuguesas, quer de obras americanas, europeias ou japonesas, comecem a apostar mais em obras eróticas, pois também é um subgénero que não deve ficar órfão de novos lançamentos.

Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso 1 e 2, de Chokam e Cheong-Gwa - Distrito Manga - Penguin
Não obstante, e olhando para este Broken Ring em particular, parece-me que há aqui um problema de enquadramento editorial. Os momentos de sexo explícito são suficientemente gráficos para tornar difícil recomendar a obra a leitores mais jovens. É que, convenhamos, para um público mais jovem parecem-me cenas explícitas em demasia. São cenas quase a roçar a pornografia. 

Por outro lado, para um público mais maduro que possa apreciar essas cenas, a história aqui embutida é demasiadamente infantil. Parece que não é "peixe" nem é "carne". Demasiadamente sexual para o público juvenil e demasiadamente juvenil (a história) para o público adulto. A sensação é a de uma obra que procura simultaneamente agradar a públicos distintos sem conseguir definir plenamente a sua identidade. É claro que se estivermos a falar de jovens já sexualmente ativos - e bem ativos - a obra talvez faça sentido. Entre os 17 e os 20 anos, talvez? Ou estarei a ser ingénuo? Porém, parece-me uma franja demasiadamente curta.

Em termos de edição, os livros apresentam capa mole baça, com detalhes a verniz e com badanas. O grafismo é muito girly e bonito. No interior, o papel utilizado é baço e de boa qualidade. A impressão e a encadernação também são boas. O primeiro livro inclui ainda, para além de um marcador de livro, dois postais com bonitas ilustrações.

Em suma, e apesar de uma forte e gráfica camada sexual que aparece no segundo volume, a fazer lembrar obras célebres do hentai, e tornando este num dos livros mais eróticos do ano editorial, Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso parece indeciso entre ser adequado para leitores mais adultos ou mais jovens. Além disso, é uma série visualmente apelativa, sustentada por uma premissa intrigante, embora um pouco trapalhona. É uma leitura que poderá conquistar quem procura romance intenso, mas que dificilmente satisfará leitores que valorizem uma construção narrativa sólida e coerente.

NOTA FINAL (1/10):
6.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso 1 e 2, de Chokam e Cheong-Gwa - Distrito Manga - Penguin

Fichas técnicas
Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso #1
Autores: Chokam e Cheong-Gwa
Editora: Distrito Manga
Páginas: 280, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 149 x 200 mm
Lançamento: Março de 2026

Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso 1 e 2, de Chokam e Cheong-Gwa - Distrito Manga - Penguin

Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso #2
Autores: Chokam e Cheong-Gwa
Editora: Distrito Manga
Páginas: 280, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 149 x 200 mm
Lançamento: Março de 2026


Análise: Tudo no Máximo


Tudo no Máximo, de Sarah Lippett e Ziggy Hanaor

Foi recentemente que a Nuvem de Letras, uma chancela da Penguin, editou este Tudo no Máximo, de Sarah Lippett e Ziggy Hanaor.

Trata-se de uma banda desenhada especialmente direcionada para um público adolescente que, não obstante, pretende abordar alguns temas mais densos e sérios, como o bullying e a afirmação dos adolescentes numa altura em que as suas hormonas se encontram à flor da pele. 

A história é centrada em Nel, uma adolescente de quinze anos que atravessa um período particularmente difícil da sua vida. Na escola, toda a gente goza com ela e tem poucos amigos, à excepção de Kit. Ninguém parece compreender as reais necessidades desta jovem e esta acaba por se refugir na música. É quando está a ouvir os seus cantores e bandas favoritos que Nel parece encontrar algum tipo de consolo. Por oposição, ela tem um irmão gémeo, Ludo, a quem tudo parece correr bem: ele é popular, tem muitos amigos, pertence a uma banda e até parece obter uma maior aceitação por parte da mãe de ambos. 

Tudo isto acaba por fazer com que a Nel se rebele - e acabe por explodir - contra tudo e contra todos. Mesmo assim, de um momento para o outro, o feitiço parece virar-se contra o feiticeiro e, inesperadamente, Nel vê-se enquanto figura popular na escola, pertencendo até a uma banda de rock, enquanto Ludo passa a encarar problemas que pareciam não o atingir no início da obra.

A narrativa acompanha os altos e baixos desta fase da adolescência, marcada pela intensidade das emoções e pela sensação de que cada problema assume proporções gigantescas para os jovens - daí o título Tudo no Máximo, que na edição original tem o nome de Everything Amplified. A obra procura, portanto, retratar a adolescência sem filtros, mostrando uma fase da vida em que a identidade ainda está em construção e em que as emoções surgem amplificadas. A tristeza, a raiva, a vergonha ou a felicidade são sentidas de forma extrema, e diria que o livro consegue captar essa intensidade emocional com alguma autenticidade. Há aqui uma clara tentativa de reproduzir a forma como muitos adolescentes experienciam o mundo, onde cada acontecimento parece decisivo e irreversível.

A música ocupa também um papel importante neste livro, pois além de ser o tal refúgio da protagonista, também marca a nossa experiência de leitura, através da partilha de alguns pedaços de letras de canções marcantes ou através de pequenas notas biográficas de músicos tão célebres como The Carpenters, The Beach Boys, The Slits, Courtney Love, Janis Joplin, Patti Smith, Pixies, entre vários outros. Isto é particularmente interessante para os leitores mais maduros do livro que poderão encontrar nele um misto positivo de sensações nostálgicas, do tempo em que a música também lhes servia como ponto de abrigo durante as dores de crescimento experienciadas durante a adolescência. Todos nós já passámos por isso, certo?

Mesmo tendo em conta os seus bons intentos, a história acaba por ser algo superficial, com as personagens a carecerem de um melhor desenvolvimento. Além disso, o ritmo narrativo é bastante acelerado, fazendo com que alguns acontecimentos surjam e desapareçam rapidamente, sem o desenvolvimento necessário para produzirem um impacto emocional mais sério. Em determinados momentos, a história parece mais preocupada em acumular conflitos do que em explorá-los em profundidade. Acho até que abusa um pouco desses conflitos entre Nel e aqueles que a rodeiam.

E a própria relação entre Nel e Ludo - que é o motor narrativo da obra - acaba por, lá mais para o meio do livro, perder destaque, ficando quase como uma nota de rodapé. É verdade que o irmão volta a aparecer mais para o perto do final, mas sem que haja a intensidade emocional que o início da obra parecia prometer.

Esta falta de profundidade afeta também alguns dos temas mais delicados que o livro procura abordar. Questões complexas como a saúde emocional, os problemas familiares ou a exclusão social são apresentadas de forma acessível, mas raramente ultrapassam uma abordagem introdutória. 

Do ponto de vista visual, os desenhos de Sarah Lippett cumprem eficazmente a sua função narrativa. O traço é simples, limpo e facilmente legível, privilegiando a clareza da leitura em detrimento do detalhe. Não estamos perante um trabalho visualmente deslumbrante ou particularmente inovador, mas as ilustrações conseguem transmitir as emoções essenciais das personagens e acompanhar adequadamente o tom da história.

A edição da Nuvem de Letras é em capa mole com badanas. No interior, o papel utilizado é baço e de boa qualidade. A impressão e encadernação são boas. No final, estão contidas das biografias dos artistas mais presentes na obra e é incluída ainda uma playlist da personagem de Nel com um QR Code para que possamos ouvir estas músicas.

Em suma, Tudo no Máximo é uma leitura claramente direcionada para um público juvenil, sobretudo para leitores que se encontram próximos da idade da protagonista. A sua maior força reside na forma como retrata a intensidade emocional da adolescência e na homenagem sincera que presta à música enquanto espaço de refúgio e descoberta pessoal. Apesar de abordar temas importantes e facilmente reconhecíveis para muitos jovens, ou para aqueles que ainda se lembram de terem sido jovens, a narrativa nem sempre aprofunda estas questões com a consistência desejável, resultando numa obra agradável e acessível, sim, mas que dificilmente se revelará particularmente marcante ou inesquecível para leitores mais experientes.


NOTA FINAL (1/10):
5.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens dos álbuns. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
Tudo no Máximo
Autoras: Sarah Lippett e Ziggy Hanaor
Editora: Nuvem de Letras
Páginas: 272, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 160 x 207 mm
Lançamento: Setembro de 2026

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Vem aí nova edição de "Balada para Sophie"!!!



Balada para Sophie
, aquele que considero ser o melhor livro da banda desenhada portuguesa, prepara-se para receber nova edição de luxo, que deverá estar disponível a partir de 19 de Outubro!

A nova edição desta internacionalmente aclamada obra de Filipe Melo e Juan Cavia terá uma nova ilustração de capa, sendo que a capa terá lombada de tecido. Será uma edição limitada e numerada e incluirá um ex-libris numerado e assinado, uma partitura impressa para piano do tema principal e uma nova música Avec Amour.

O livro editado pela Companhia de Letras, uma chancela da Penguin, já se encontra em pré-venda no site da editora.

Por agora, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.
Balada para Sophie (Edição especial), de Filipe Melo e Juan Cavia

EDIÇÃO ESPECIAL LIMITADA E NUMERADA
Com capa em tecido, um ex-libris numerado e assinado por Filipe Melo e a partitura de uma nova música, composta especialmente para esta edição.

A vida de Julien Dubois, pianista de sucesso, confunde-se com a história da Europa do século XX. Desencantado e misantropo, vive a reforma numa velha mansão, com um gato e uma governanta por companhia. 

Um dia, é visitado por uma jovem jornalista que o incita a contar tudo o que verdadeiramente conheceu.
Nas paredes da casa, saturadas de fumo de cigarros e de memórias antigas, ressoa a confissão de uma vida feita de rivalidade, desamor e arrependimento.

FINALISTA DOS PRÉMIOS EISNER: Melhor Álbum de Banda Desenhada | Melhor Edição Americana de um Livro Estrangeiro | Melhor Escritor (Filipe Melo) | Melhor Ilustrador (Juan Cavia)

UMA DAS MELHORES NOVELAS GRÁFICAS DO ANO
Forbes

LIVRO DO ANO BERTRAND
Ficção Lusófona

PRÉMIO AMADORA BD
Melhor BD de Autor Português

Os elogios da crítica:

«A mais ambiciosa e bela criação da dupla composta pelo argumentista português e o desenhador argentino. A história de um pianista que luta contra o pior dos vilões: ele próprio.»
Gonçalo Frota, Público

«Balada para Sophie tem o fôlego de um romance - e música lá dentro.»
Sara Figueiredo Costa, Expresso

«Uma história de redenção e de amor pela música.»
Hugo Torres, Time Out

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Ficha técnica
Balada para Sophie (Edição especial)
Autores: Filipe Melo e Juan Cavia
Editora: Companhia da sLetras (Penguin)
Páginas: 320, a cores
Encadernação: Capa dura com lombada em tecido
Formato: 169 x 247 mm
PVP: 42,95€

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Penguin prepara-se para editar BD multipremiada!




A editora Penguin prepara-se para editar, no próximo dia 19 de outubro, a obra Os Meus Fantasmas, da americana Tessa Hulls!

Esta é uma volumosa banda desenhada autobiográfica, com 400 páginas, que foi vencedora de variados prémios e muito bem recebida pela crítica, quando foi originalmente editada em 2024.

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora.

Deixo-vos ainda com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.





Os Meus Fantasmas, de Tessa Hulls

Vencedor do Prémio Pulitzer, do prémio Eisner e do National Book Critics Awards

Comic do Ano: Time · The Guardian · NPR · Library Journal · Kirkus Reviews · New York Public Library · Indigo

Uma comovente e arrebatadora memória gráfica que atravessa três gerações de mulheres chinesas, explorando, com uma extraordinária sensibilidade, o amor, o luto, o exílio e a identidade.

Na sua aclamada estreia literária, Tessa Hulls acompanha o eco da história da China ao longo de três gerações de mulheres da sua família.

A avó de Tessa, Sun Yi, era jornalista em Xangai quando a vitória comunista de 1949 alterou para sempre o rumo da sua vida. Forçada a fugir para Hong Kong com a filha pequena, escreveu um livro de memórias sobre a perseguição de que foi alvo e a sua luta pela sobrevivência que se tornou um enorme sucesso editorial. Pouco tempo depois, sofreu um colapso mental do qual nunca recuperou.

Durante a sua infância, Tessa vê a mãe e a avó debaterem-se com o peso de traumas e doenças mentais. Determinada a escapar ao medo sufocante da mãe, Tessa parte para os lugares mais remotos do mundo. Mas, ao completar trinta anos, percebe que a sua vida errante se parece mais com uma fuga do que com a liberdade. Decide então regressar e enfrentar a história que moldou a sua família.
Fruto de uma investigação exaustiva e ilustrado com extraordinária sensibilidade, Os Meus Fantasmas é o regresso de Tessa Hulls às suas origens: uma viagem intensa e profundamente comovente ao coração de uma família, que expõe o medo e o trauma que assombram gerações, e o amor que as mantém unidas.

Os elogios da crítica:

«A memória gráfica de Tessa Hulls traça, com uma perspicácia emocional avassaladora, a linha entre a história da China sob o regime de Mao Tsé-Tung — um período de mortandade e agitação política quase inimagináveis — e os fantasmas do passado da sua família que ela acabou por desenterrar… O livro de Hulls é um retrato impressionante desta linhagem de trauma.
Ganha vida através dos seus desenhos assombrosamente vívidos, nos quais o passado é frequentemente uma presença surrealista e espectral que invade constantemente o presente.» 
San Francisco Chronicle

«Uma história multigeracional repleta de drama, intriga e desgosto… Um triunfo da narrativa em banda desenhada.»
Seattle Times

«Embora Os Meus Fantasmas pertença a uma longa tradição de não ficção gráfica que define subgéneros, incluindo Persépolis, a voz narrativa de Hulls é cativante de uma forma singular porque combina a sua excentricidade de cartoonista com o olhar de uma artista plástica para a composição das páginas, além de uma total disposição para mergulhar em temas densos sem procurar desfechos fáceis.»
Los Angeles Review of Books

«Pormenorizado, vulnerável e pungente.»
Booklist

«Do início ao fim, este livro é uma revelação… Uma obra que brilha com discernimento, perspicácia e uma recusa em contentarse com respostas simples.»
Kirkus Reviews

«A estreia desta memória gráfica épica e elegantemente desenhada de Tessa Hulls debate-se com os longos tentáculos do trauma, acompanhando três gerações da sua família desde a China de Mao até Hong Kong nos anos sessenta e, eventualmente, até à atualidade no norte da Califórnia… O resultado é uma obra reveladora, tão multifacetada como a história que explora.»
Publishers Weekly

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Ficha técnica
Os Meus Fantasmas
Autora: Tessa Hulls
Editora: Penguin
Páginas: 400, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 203 x 249 mm
PVP: 28,85€

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Análise: Mar de Rosas

Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin

Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin
Mar de Rosas, de Tomás Sousa

Enquanto amante de arte nas suas mais diversas formas, há algo que aprecio especialmente numa criação artística: que se sinta claramente a dedicação e o aprimoramento que determinado autor colocou na sua obra. Podemos falar de música, nos casos em que conseguimos escutar as diferentes camadas que um músico coloca na sua música de estúdio; podemos falar de cinema, nos casos em que percebemos que o cineasta colocou muitos pozinhos além dos estritamente necessários a fazer com que o filme funcionasse. Podemos falar de pintura, podemos falar de escultura, podemos falar de literatura. E também podemos falar de banda desenhada, claro.

Mar de Rosas, de Tomás Sousa, recentemente editado pela editora Penguin, é uma dessas obras em que se sente que o autor deu tudo de sim, construiu camadas, desenvolveu personagens marcantes, pensou na narração, escreveu bem o texto e, no final, ainda fez uns acrescentos e melhoramentos à obra. É, pois por isso, um desses trabalhos de dedicação e de aprimoramento constante até a obra seguir para a gráfica. O ano ainda não acabou, mas é possível que estejamos perante o melhor livro do ano no que à banda desenhada nacional diz respeito.

Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin
Em boa verdade, Tomás Sousa já tinha "avisado" os mais atentos ao que vinha. Com participações em alguns fanzines lançados recentemente e, especialmente, com a sua história curta A Paragem, que até ficou entre os nomeados para o VINHETA D'OURO 2025 para Melhor Curta de Autor Nacional, a abordagem visual do autor, com um traço muito elegante, embora rápido, por vezes cru, mas sempre confiante, já se revelava diferenciada. Parecia haver ali potencial para algo especial.

E foi então que saiu este Mar de Rosas, a primeira obra de grande fôlego do autor, editada pela Penguin - editora que muito provavelmente faz aqui a sua melhor aposta em termos de edição de BD nacional.

Com uma história que nos remete para o tempo das fotonovelas, em que a trama era dramática e intrincada, com as personagens a deambularem em torno dos seus próprios objetivos, quase sempre em oposição aos das outras personagens, Tomás Sousa constrói uma história a que é difícil ficar indiferente.

Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin
A história de Mar de Rosas coloca-nos dentro da casa de uma poderosa família. O filho do patriarca é Sebastião, por quem a empregada da casa, Celeste, nutre uma grande paixão. Se a mesma é correspondida ou não, só saberemos mais à frente. Embora os seus sentimentos sejam intensos, Celeste tem consciência de que há toda uma condição social que separa Sebastião de si. E ainda mais o é pela entrada em cena de Rosalinda, uma mulher impactante, cheia de si mesma, capaz de irritar qualquer leitor, e cuja ambição de se apoderar da fortuna da família é enorme. O seu plano passa por casar-se com Sebastião. 

Entretanto, a morte do patriarca agrava as tensões já existentes e desencadeia uma sucessão de conflitos, revelando interesses ocultos, rivalidades entre irmãos e uma luta feroz pelo controlo da herança. As duas irmãs de Sebastião também entram em cena, para que a trama cresça ainda mais. A intriga é digna de uma autêntica novela mexicana e aprecio especialmente que Tomás Sousa não o esconda, pois o próprio subtítulo do livro é "uma fotonovela de Tomás Sousa".

Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin
Mas o que importa aqui referir é que é uma fotonovela no melhor sentido da palavra, com uma trama cativante, por vezes provocadora, com muito drama à mistura e personagens impactantes. Algo que tão depressa bebe das saudosas Tieta do Agreste ou de Pedra Sobre Pedra, como das mais memoráveis obras de Eça de Queirós ou de Guy de Maupassant. É verdade que as personagens são algo unidimensionais, isto é, ou são muito boas ou muito más, e que podem representar clichés já por nós vistos noutras paragens, mas acho que, mais uma vez, isso não é bem uma fraqueza, mas antes uma escolha assumida.

A história é-nos contada por várias vozes: por Celeste, por Rosalinda, por Lúcia e por Victor, o irmão e advogado da infame Rosalinda. E isso dá profundidade à narrativa, pois coloca as personagens em contacto direto com o leitor. É, pois, (mais) uma escolha inteligente de Tomás Sousa. 

O que também é inteligente e rico, é o texto, que se nos revela muito bem escrito, com um certo pendor clássico na forma, mas sem ser pesado, o que dá um certo charme à narrativa. O próprio final da obra está bem concebido e é inteligente o suficiente para resolver bem a história, deixando uma brecha para, quem sabe, o autor poder voltar a este universo numa obra vindoura.

Nota ainda, positiva, para a introdução de anúncios entre capítulos, que são um plus muito bem vindo, pois permitem incutir à obra algum humor, fazerem a história parar para respirar e, em última análise, sedimentar ainda mais a não escondida homenagem às fotonovelas do antigamente. Como comecei por dizer neste texto, é mais um exemplo do aprimoramento e da atenção ao detalhe de Tomás Sousa.

Falta-me ainda mencionar os belos desenhos presentes neste Mar de Rosas. Tomás Sousa dá-nos personagens com uma expressividade impressionante com quem se torna difícil não criarmos uma relação de empatia - ou de repulsa, no caso de Rosalinda. O seu estilo é bastante moderno e o traço até se revela rápido e caricatural. Dá a ideia de que o autor desenha com velocidade. Mas a confiança do desenho é tal que essa alegada velocidade na ilustração nunca nos deixa com a ideia de estarmos perante desenhos apressados. Isto porque há bastante cuidado com os detalhes, com as cores, com a escolha das poses das personagens e dos próprios "planos de câmara". A primeira página de cada capítulo abre também com uma abordagem visual um pouco mais autoral, que nos permite perceber que, em presumíveis futuros trabalhos, o autor até pode, se quiser, enveredar por outras abordagens gráficas. Estamos, pois, perante um novo talento da BD nacional, cheio de potencial.

Em termos de edição, o livro apresenta capa mole e baça, com badanas. No interior, o papel utilizado é em papel baço de boa qualidade. A encadernação e impressão também são boas. No final, há um bem-vindo dossier de extras, convenientemente denominado de "Bastidores", que nos traz estudos de personagens, desenvolvimentos visuais, desenhos livres e estudos de capa. Por falar em capa, não é que eu não goste desta capa, mas creio que a mesma poderia ter sido melhor. E o que me leva a dizer isto é o talento demonstrado pelo autor dentro do próprio livro, bem como os outros estudos de capa ou mesmo a galeria de desenhos livres que nos é apresentada. Não sendo má, parece-me que a capa ainda poderia ser melhor. Mas isso é um detalhe que em nada belisca a qualidade desta primeira obra de grande fôlego de Tomás Sousa.

E, em suma, Mar de Rosas é bem capaz de ser o livro do ano, em termos de banda desenhada nacional, tal como Tomás Sousa pode bem ser o novo "menino de ouro" da BD portuguesa. Bela história, belos desenhos, bela escrita e bela execução, numa obra que todos devem conhecer. Fiquei fã!


NOTA FINAL (1/10):
9.2


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Mar de Rosas, de Tomás Sousa - Penguin

Ficha técnica
Mar de Rosas
Autor: Tomás Sousa
Editora: Penguin
Páginas: 192, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 171 x 239 mm
Lançamento: Setembro de 2026

terça-feira, 22 de setembro de 2026

A adaptação em BD de "Sapiens", de Harari, chega ao fim!




A Elsinore, uma chancela do grupo Penguin, edita durante este mês de setembro o quarto e último volume da adaptação para banda desenhada de Sapiens, a famosa obra de Yuval Noah Harari!

Com argumento de David Vandermeulen e desenhos de Daniel Casanave, Yuval Noah Harari também está intimamente ligado ao projeto, pelo que divide a autoria da obra com os outros dois autores.

É um trabalho deveras interessante, uma leitura que nos enche de informações pertinentes, e que aconselho especialmente. Relembro que, por aqui, já analisei os volumes 1 e 2, bem como o terceiro volume da série.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Sapiens: A Idade das Revoluções (Novela Gráfica, vol. 4), de Yuval Noah Harari, David Vandermeulen e Daniel Casanave

Há quinhentos anos, a humanidade fez uma descoberta surpreendente: descobriu a sua própria ignorância coletiva. Foi um momento histórico decisivo no percurso da espécie Sapiens, em que o domínio do pensamento científico se sobrepôs ao religioso e filosófico. 

Com o surgimento de novas tecnologias, as antigas estruturas sociais e políticas desmoronaram-se, impulsionando a expansão imperialista, o colonialismo e o modelo capitalista com as suas promessas de progresso e crescimento.
Determinados a desvendar finalmente os segredos do Universo, os seres humanos modernos aprenderam a controlar o mundo e a produzir mais de tudo. Mas será que a modernidade nos tornou mais felizes?

Neste quarto e último volume da adaptação de Sapiens: História Breve da Humanidade, Yuval Noah Harari, em colaboração com o escritor David Vandermeulen e o ilustrador Daniel Casanave, leva-nos pela Idade das Revoluções, até ao início da atual Revolução da Inteligência Artificial, respondendo de forma simples a questões complexas do nosso tempo: como é que os bancos criam dinheiro do nada, como é que os relógios passaram a dominar as nossas vidas, o que nos reserva o futuro agora que a humanidade enfrenta o seu desafio mais premente de sempre – descobrir como controlar uma inteligência alienígena. Será que vamos conseguir? Ou ficaremos presos nos sonhos das máquinas inteligentes?

Ilustrado a cores, original e cheio de humor, é o livro perfeito para quem quer continuar o diálogo iniciado em Sapiens: História Breve da Humanidade e para apresentar o universo e as ideias de Noah Harari a novos leitores, curiosos pela história e pela ciência, e pelo que tem sido o longo e agitado percurso do ser humano até aos dias de hoje.

O aguardado quarto e último volume da extraordinária adaptação ilustrada do bestseller internacional de Yuval Noah Harari


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Ficha técnica
Sapiens: A Idade das Revoluções (Novela Gráfica, vol. 4)
Autores: Yuval Noah Harari, David Vandermeulen e Daniel Casanave
Editora: Elsinore
Páginas: 248, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 212 x 283 mm
PVP: 31,45€

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Penguin vai publicar BD de Miyazaki!



A Penguin prepara-se para editar, a partir do próximo dia 5 de Outubro, A Viagem de Shuna, uma BD da autoria do famoso cineasta Hayao Miyazaki!

Ainda antes de se tornar no realizador de tantos clássicos de animação, o autor já havia escrito e ilustrado este A Viagem de Shuna, que agora a Penguin lança pela primeira vez em Portugal.

Por agora, o livro já se encontra em pré-venda no site da editora.

Deixo-vos, mais abaixo, com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


A Viagem de Shuna, de Hayao Miyazaki

Shuna, jovem herdeiro de uma terra hostil e árida, passa os dias a observar com desespero como o seu povo trabalha até à exaustão, colhendo o pouco grão que cresce nos seus campos. 

Um dia, um misterioso ancião chega às suas terras após uma longa viagem e, à beira da morte, fala-lhe de umas sementes douradas com as quais poderia devolver a abundância às suas colheitas. 

No entanto, terá de pagar um alto preço se quiser encontrá-las, pois as sementes encontram-se no lugar onde a lua nasce e regressa para morrer, onde a terra anuncia o seu fim — um lugar de onde nunca ninguém regressou. 

Shuna, cheio de esperança perante a ideia de pôr fim à fome do seu povo, parte numa perigosa viagem rumo a oeste.

Este conto é inspirado numa lenda tibetana, e foi escrito e ilustrado pelo multipremiado cineasta Miyazaki, uma obra originalmente publicada em 1983 e até agora inédita em português, que se afirma como uma joia imprescindível para todos os fãs de Miyazaki.

Uma aventura intemporal sobre coragem, esperança e compaixão.

A obra-prima que revelou o imaginário de Hayao Miyazaki antes da fundação do Studio Ghibli.


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Ficha técnica
A Viagem de Shuna
Autor: Hayao Miyazaki
Editora: Penguin
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 160 x 223 mm
PVP: 24,95€

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Penguin aposta em novo autor português!!!


A editora Penguin, que aparentemente está a deixar cair o nome da chancela Iguana para usar apenas a nomenclatura "Penguin", prepara-se para editar, a partir do próximo dia 7 de Setembro, Mar de Rosas, a primeira obra de grande fôlego do autor português Tomás Sousa!

Posso dizer-vos que já conheço um pouco do trabalho do autor, especialmente pela sua história curta A Paragem (Cadernos da Tentáculo 2), que até lhe valeu uma nomeação para o VINHETA D'OURO para Melhor Curta de Autor Nacional no ano passado, e que sou um admirador do seu traço e do seu trabalho.

Agora, o autor lança-se com este Mar de Rosas, que é apelidado como uma "fotonovela", coisa que despertou o meu interesse, já que parece tratar-se de uma história de amor carregada de intriga.

Estou mesmo muito curioso para o que pode vir deste livro.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Mar de Rosas, de Tomás Sousa

Uma história de amor proibida, uma heroína muito boa, uma vilã muito má e uma teia de intrigas digna de novela.

Numa família abastada prestes a enfrentar o caos, Rosalinda fará tudo para casar com Sebastião e garantir a herança — até afastar Celeste, a jovem apaixonada por ele. Quando o patriarca morre e o casamento ameaça ruir, intrigas, chantagem e ambições desmedidas rebentam à superfície.
Entre uma irmã determinada a proteger o legado, outra dividida entre o mundo e o convento, e um advogado cúmplice que acaba por recuar, a teia de Rosalinda implode. 

Presa e traída, jura regressar… mas até os cúmplices têm limites.

Uma banda desenhada inspirada nas antigas fotonovelas, onde nem os anúncios (ou reclames, como se dizia antigamente) faltam.




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Ficha técnica
Mar de Rosas
Autor: Tomás Sousa
Editora: Penguin
Páginas: 192, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 171 x 239 mm
PVP: 20,45€

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Análise: Entre Elas

Entre Elas, de Pauline Spira - Nuvem de Letras - Penguin Random House

Entre Elas, de Pauline Spira - Nuvem de Letras - Penguin Random House
Entre Elas, de Pauline Spira

Por vezes, há livros de banda desenhada que não precisam de ser espetacularmente bem desenhados para serem muitíssimo bons. Ou que não precisam de ter uma história "maior do que a vida" para merecerem uma leitura atenta. É o caso deste Entre Elas, de Pauline Spira, uma bela aposta que a Nuvem de Letras, uma chancela da Penguin, editou recentemente.

Este é um daqueles típicos livros que até pode não apelar muito aos leitores mais habituais do Vinheta 2020: a ilustração é de um cariz mais simples, infanto-juvenil, a história é com - e para - teenagers e aparenta ter um significado algo infantil. Pois bem, digo-vos que é uma leitura muito bem conseguida para jovens, claro, mas também para adultos.

Começando pelos desenhos, não são nada de maravilhoso, mas também não se pode dizer que não sejam eficazes nas funções narrativas e ilustrativas que procuram ter. O estilo de desenho de Pauline Spira é simples, por vezes um pouco naïf até, mas com as personagens a terem uma expressividade bem conseguida e muito eficiente. Além disso, existem alguns momentos mais marcantes no modo como a planificação da obra é utilizada e o trabalho de cores é bastante bem-vindo, também, fazendo com que em termos visuais a obra funcione bem. Algumas personagens confundem-se um pouco entre si - e isso deve-se, essencialmente, ao modo simples como as suas expressões e fisionomias são retratadas - embora também mereça ser reconhecido que, através dos penteados e cores dos cabelos, a autora procure diferenciar as suas personagens tanto quanto possível. Acima de tudo, pode dizer-se que as ilustrações se ajustam bem ao tipo de obra que temos em mãos.

Entre Elas, de Pauline Spira - Nuvem de Letras - Penguin Random House
Já quanto à história, acompanhamos a estadia num castelo, para um daqueles cursos linguísticos de verão, de duas amigas adolescentes: Júlia e Mariana. Elas sempre foram as melhores amigas e poderem estar a passar uma temporada de férias juntas, afigura-se-lhes como (mais) uma experiência incrível nas suas vidas. Mas as coisas deixam de correr bem quando Mariana se começa a afastar de Júlia e a procurar novas amigas. Pior ainda, essas novas amigas parecem acolher Júlia com repúdio. E Mariana, em vez de defender a sua amiga, acaba por ficar mais próxima das suas novas amigas. 

Até aqui, a história até parece simplória e que já vimos esta storyline em muitos outros livros. Aparenta ser "mais do mesmo". Mas a trama adensa-se por dois motivos: em primeiro lugar, pelo facto de Júlia ter perdido recentemente a sua avó, o que transporta automaticamente a história para um relato sobre o luto na adolescência, oferecendo uma leitura mais profunda; e, em segundo lugar, pela escalada para o bullying e para as amizades tóxicas entre jovens. 

E assinale-se que nenhuma destas componentes me pareceu demasiado forçada ou que estava ali só para ser tema. Ao invés, a narrativa está bastante bem construída, tornando o relato muito verossímil. Com efeito, se queremos olhar para aquilo que o bullying pode ser, e os traumas que com isso surgem, este livro é uma perfeita porta de entrada. E está pensado para ser um bom caso de estudo, quer para jovens - que podem encontrar aqui algumas referências ou pontes de como devem e de como não devem agir quando confrontados com situações semelhantes -, quer para os próprios adultos. É que nós, adultos, passamos a vida a ouvir falar de bullying, mas se calhar sem a sensibilidade e exemplificação prática de como se manifestam tais atos.

Entre Elas, de Pauline Spira - Nuvem de Letras - Penguin Random House
Gostei bastante, pois, deste livro por estes motivos. Sem "surfar" em demasia o drama das amizades tóxicas e da tristeza da perda de um ente querido e próximo, o livro consegue alcançar um equilíbrio muito bom.

É igualmente relevante a forma subtil como a autora aborda a solidão. Mesmo num ambiente cheio de gente - um curso de verão, rodeado de jovens -, Júlia experiencia um isolamento que é profundamente notório. E outro ponto positivo reside na construção das dinâmicas de grupo. As novas amizades de Mariana não são apresentadas de forma caricatural, mas antes como uma realidade plausível, com comportamentos que facilmente se identificam no dia-a-dia escolar. 

Importa ainda sublinhar a forma como o livro demonstra que o bullying nem sempre se apresenta de forma explícita ou física. Especialmente, no caso das raparigas, normalmente mais vocais e menos físicas. Por isso, muitas das situações descritas assentam em exclusão social, comentários subtis ou atitudes passivo-agressivas, o que contribui para uma representação mais fiel deste fenómeno.

Do ponto de vista pedagógico, o livro revela-se especialmente útil. Pode funcionar como um instrumento de diálogo entre jovens e adultos, permitindo discutir temas difíceis sem cair em moralismos ou soluções simplistas. Essa capacidade de abrir espaço para conversa é uma das suas maiores qualidades. Lá em casa, já coloquei este livro na lista de livros que as minhas filhas podem e devem ler.

Em termos de edição, o livro apresenta capa mole, com badanas, baça e com detalhes a verniz. No miolo, o livro tem bom papel baço. A encadernação, impressão e acabamentos são bons.

Em suma, Entre Elas destaca-se pela sua honestidade emocional e pela forma equilibrada como aborda temas complexos. Sem recorrer a dramatizações exageradas, consegue construir uma narrativa consistente, sensível e relevante, que se afirma como uma leitura valiosa tanto para jovens como para adultos. Um sério candidato a melhor BD infanto-juvenil do ano.


NOTA FINAL (1/10):
8.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Entre Elas, de Pauline Spira - Nuvem de Letras - Penguin Random House

Ficha técnica
Entre Elas
Autora: Pauline Spira
Editora: Nuvem de Letras (Grupo Penguin)
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 170 x 233 mm
Lançamento: Junho de 2026