quarta-feira, 15 de julho de 2026

Análise: Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia

Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, de Xavier Almeida - Péssima Editora


Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, de Xavier Almeida - Péssima Editora
Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, de Xavier Almeida

Foi com bastante satisfação que tomei conhecimento, muito recentemente, do lançamento de uma nova editora portuguesa de banda desenhada, audazmente intitulada Péssima Editora. E a esse lançamento da editora veio também acoplado o lançamento de Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, que assinala a estreia do português Xavier Almeida no formato de livro de maior fôlego de banda desenhada, reunindo oito/nove histórias, ou capítulos, que, apesar da sua autonomia narrativa, partilham um eixo temático comum: a reflexão sobre a crise ambiental, os impactos do capitalismo contemporâneo e a relação cada vez mais problemática entre a humanidade e o mundo natural. 

Foi uma bela surpresa, devo dizer. Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia apresenta-se como um instrumento de pensamento crítico, procurando questionar hábitos, sistemas e valores profundamente enraizados na nossa sociedade atual.

Um dos aspetos mais interessantes da obra reside, precisamente, na sua capacidade de cruzar diferentes influências filosóficas e científicas. Ao longo dos vários capítulos, é possível identificar ecos das reflexões de autores como Jason W. Moore - que até faz o posfácio da obra - Justin McBrien, Neil deGrasse Tyson, Ben Irvine, Sarat Colling ou Ortega y Gasset. 

Cada um dos capítulos aqui presentes apropria-se de muitas das preocupações destes autores, para as transportar para a linguagem da banda desenhada, tornando (mais) acessíveis ideias complexas sobre ecologia, responsabilidade e consciência social.

Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, de Xavier Almeida - Péssima Editora
Cheap Nature - Episódios de Renúncia e Parcimónia
 demonstra-nos que a crise ambiental não é tanto um problema isolado da natureza, mas uma consequência direta da organização económica dominante. Xavier Almeida, que conta com a participação de Pato Bravo na concepção do guião, parece sugerir-nos, e até apoiando-se nos textos dos supramencionados pensadores - sendo estes até creditados, no final do livro, enquanto autores da "proveniência da narração" - que capitalismo e natureza não podem ser analisados separadamente, uma vez que os mecanismos de exploração económica condicionam profundamente a forma como os recursos naturais são utilizados e encarados.

Com efeito, ficamos com a sensação de que a destruição ambiental não é um efeito secundário do sistema, mas sim uma das suas consequências mais evidentes. A degradação dos ecossistemas, o desperdício e a transformação de tudo em mercadoria surgem representados como sintomas de uma lógica económica incapaz de reconhecer limites ecológicos.

Paira no ar a ideia de que talvez até nem se trate de uma crítica aos sistemas económicos ou políticos, aquilo que aqui se procura fazer, mas antes um convite à reflexão individual. Convém não esquecer - embora o façamos tantas vezes, especialmente quando nos dá mais jeito - que as grandes transformações sociais começam frequentemente por uma mudança de consciência individual. 

Narrativamente, as várias histórias funcionam como diferentes ângulos de observação sobre uma mesma inquietação. Em vez de construir uma narrativa contínua, Xavier Almeida prefere explorar múltiplos cenários e problemáticas, reforçando a ideia de que a crise contemporânea possui muitas faces. O resultado é um mosaico de episódios que dialogam entre si e que contribuem para uma visão coerente do conjunto da obra.

Há uns capítulos que resultam melhor do que outros - mas isso, já se sabe, é apanágio de antologias de banda desenhada, muito embora eu tenha alguns pruridos em classificar esta obra como uma antologia de BD, já que me parece que estes diferentes capítulos, mesmo podendo parecer ser independentes ente si, contribuem para uma história maior, quando juntos.

Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, de Xavier Almeida - Péssima Editora
É verdade que, pensando a obra enquanto texto e imagem, por vezes se sente uma certo desfasamento entre os dois universos. Isto porque, por vezes, parece existir um certo afastamento entre aquilo que é narrado verbalmente e aquilo que é representado graficamente. E o texto parece, em vários casos, demasiado frio, fechado em si mesmo e monologante. Contudo, também concedo que quando ambas as linguagens, a da imagem e a do texto, convergem plenamente, o impacto é significativo. Nesses momentos, o livro consegue chegar mais longe. Os capítulos Jovem Herdeiro ou A Anarca pareceram-me especialmente bem-sucedidos e impactantes.

As críticas dirigidas ao mundo actual são tudo menos subtis. Grandes empresas, modelos neoliberais, consumismo desenfreado, riqueza, desigualdades económicas e destruição ambiental surgem identificados como componentes de uma mesma estrutura de poder. Longe de procurar uma falsa neutralidade, a obra assume claramente uma posição ideológica, fazendo da crítica social um dos seus principais motores narrativos.

Essa postura é reforçada pela própria estética do livro. O carácter independente da edição e das ilustrações a preto e branco, bastantes livres na forma e conteúdo, por vezes algo toscas na concepção, noutras vezes mais elegantes e artísticas, contribui para uma sensação de autenticidade e urgência. Existe na obra uma energia próxima do panfleto político, não no sentido pejorativo do termo, mas enquanto instrumento de intervenção cultural. A aparência gráfica por vezes crua e experimental, à qual poderíamos apelidar de BD indie, acaba por servir os propósitos do autor e da editora, transmitindo uma sensação de resistência e inconformismo. Que foi, é e será sempre bem-vinda, digo eu.

Em termos de edição, o livro apresenta capa mole baça, bom papel baço no miolo - embora o papel pudesse ser um pouco menos translúcido - e uma impressão e encadernação decentes. No final, há um posfácio de Jason W. Moore que, incompreensivelmente, está na língua inglesa. Sendo uma edição portuguesa, acho que a opção mais lógica era ter traduzido o texto original para português. Há ainda um capítulo final, intitulado Rocha Brecha da Arrábida que me parece um final perfeito para o livro, uma vez que, de um modo muito simples e direto - e, por ventura, mais direto do que noutros capítulos do livro -, concede sintetizar a força motriz desta obra.

Em conclusão, Cheap Nature - Episódios de Renúncia e Parcimónia é uma bela e interessante primeira obra de grande fôlego de Xavier Almeida, que se revela ambiciosa na forma como tenta ser um espaço de reflexão filosófica, ecológica e política. O resultado é um livro exigente, provocador e profundamente contemporâneo, que desafia o leitor a repensar a sua relação com o ambiente, com a economia e com o próprio modelo de sociedade em que vive. Trata-se de uma estreia de grande maturidade, que se recomenda a todos aqueles que gostam de parar um pouco para refletir sobre aquilo que andamos todos aqui a fazer. 


NOTA FINAL (1/10):
7.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Cheap Nature – Episódios de Renúncia e Parcimónia, de Xavier Almeida - Péssima Editora

Ficha técnica
Cheap Nature - Episódios de Renúncia e Parcimónia
Autor: Xavier Almeida
Editora: Péssima Editora
Páginas: 260, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: A5
PVP: 12,00€

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