terça-feira, 19 de maio de 2026

Análise: Vizinhos


Vizinhos, de Ana Bárbara Pedrosa e Nuno Saraiva

Tendo este Vizinhos sido lançado oficialmente na passada sexta-feira, dia 15 de Maio, não consegui perder muito tempo até mergulhar na leitura do mesmo, num álbum que marca o regresso à banda desenhada de Nuno Saraiva, que desta vez se faz acompanhar por Ana Bárbara Pedrosa, que assina o argumento da obra.

Vizinhos é, na verdade, uma antologia composta por quatro histórias curtas, cada uma com mais de 10 páginas, que, apesar de independentes entre si, procuram passar uma ideia global - daí que o livro funcione especialmente bem como um todo.

Eis-nos perante uma obra profundamente contemporânea que explora o quotidiano urbano e as tensões que nascem da proximidade entre pessoas. É essa ideia de "vizinhança", isto é, de vivermos próximos uns dos outros, que a obra capta, oferecendo-nos uma abrangente panóplia de conflitos, quase todos eles assentes em preconceitos infundados. Aliás, qualquer preconceito é, por definição, infundado. 

Este eixo estrutural do livro permite que Ana Bárbara Pedrosa, que aqui se estreia como autora de banda desenhada, nos insira em variadas situações experenciadas por vizinhos que, quase sempre, se transformam em numerosos conflitos, tendo eco nos preconceitos que habitam o mundo atual em que vivemos. As histórias evidenciam a forma como o julgamento do outro surge com facilidade. É fácil olharmos para o outro e julgá-lo. É mais difícil, porém, que esse julgamento seja assente numa argumentação válida. 

Em Todos os Dias era o Mesmo tomamos contacto com um ex-presidiário, acusado por matar a própria mulher, que agora se incomoda com o barulho que vem da casa dos vizinhos onde é praticada violência doméstica. Em vez de se preocupar com a violência que vem da casa anexa à sua, o protagonista desta história incomoda-se mais com o barulho causado pela violência e chega mesmo a compadecer-se pelo agressor.

Em Coisas Ilegais, um homem protesta contra o barulho causado pelas obras na casa ao lado, mas depressa vamos percebendo que o seu problema não é bem com o barulho em si, mas com o facto dos trabalhadores dessa mesma obra serem imigrantes. 

Em A Velhota Lá de Baixo, uma história algo diferente das demais, com menos sátira e com uma certa dose de poesia, encontramos duas mulheres idosas cujas vidas se desenvolveram de forma muito díspar. Uma tem filhos e netos e gosta de ter a casa cheia com as suas visitas, especialmente em dias festivos. A outra vive sozinha e isolada de todos, não tolerando o barulho que vem da casa da vizinha. Confesso que achei esta história tão cativante que até considero que merecia um maior desenvolvimento. Talvez desse mesmo para explorar a ideia da história num álbum de grande fôlego que lhe fosse apenas dedicado. Se bem que, não obstante, é uma história que, mesmo sendo diferente, encaixa bem no livro em questão.

Finalmente, em Reunião de Condomínio, rapidamente as preocupações mundanas dos condóminos parecem resvalar para uma queixa que, na verdade, é mais advinda de um preconceito etnocêntrico face a vizinhos oriundos de outro país do que, propriamente, de um real problema.

Todas as narrativas convergem, está bom de ver, num retrato coletivo de uma sociedade que vive lado a lado sem verdadeiramente se compreender. Esta estrutura tem o condão de multiplicar os pontos de vista e impedir uma leitura simplista da realidade. Pelo menos, acredito que seja esse o grande objetivo dos autores. É que num mundo - e até num país - cada vez mais polarizado, onde as duas fações de qualquer desacordo parecem colocar-se em pontos opostos na forma de estar, ser e pensar, é importante que surjam obras como este Vizinhos, que nos faz parar um pouco para pensar e perceber que talvez devêssemos dar mais espaço ao outro - especialmente àquele que é completamente diferente de nós - para que ele possa ser ele próprio. Da maneira que o quiser ser. Não tenho dúvidas de que não só essa heterogeneidade torna o mundo melhor, como evita guerras e conflitos mesquinhos que são a prova comprovada que talvez a humanidade não seja tão sofisticada e inteligente como julga ser, faltando-lhe a própria "humanidade" que lhe caracteriza o nome.  

Um dos aspetos mais relevantes da obra é, pois, o modo como trabalha o conceito de "vizinhança". O vizinho não é apenas aquele que vive ao lado: é o outro, o diferente, o desconhecido que se torna próximo por força das circunstâncias. Assim, o título Vizinhos revela-se particularmente feliz, pela sua simplicidade e pela sua potência simbólica. Afinal, todos somos, de alguma forma, vizinhos uns dos outros.

O texto de Ana Bárbara Pedrosa destaca-se pela sua verossimilhança. As personagens parecem extraídas diretamente da realidade, não sendo figuras distantes, mas pessoas comuns que poderíamos reconhecer do nosso prédio ou bairro. Essa proximidade é um dos pontos fortes da obra, pois permite ao leitor identificar-se facilmente com o universo apresentado.

E em vez de tratar os temas com um tom excessivamente dramático, os autores optam por uma abordagem crítica e satírica. Essa escolha evidencia o absurdo de certas atitudes e comportamentos sociais. Até podemos rir de algumas situações por parecerem tão absurdas, mas será sempre - assim espero! - um riso incómodo que nos confronta com nós mesmos.


Já do trabalho de Nuno Saraiva, poderemos dizer que o mesmo complementa de forma exemplar o texto. O seu traço, inconfundível mesmo à distância, ebastante colorido, encaixa perfeitamente neste tipo de narrativas. Com uma estética que já se evidenciou em cartoons e ilustrações anteriores, Saraiva traz uma energia visual que amplifica o impacto das histórias, oscilando entre o humor e a crítica social com grande eficácia. De resto, o seu estilo é tão singular que é daqueles casos em que quem gosta continuará a gostar, e quem não gosta continuará a não gostar. No meu caso, não só gosto do trabalho do autor como acho que há uma portugalidade - e até um certo lisboetismo - na sua obra, que é difícil de encontrar noutro autor.

Se me posso queixar de algo neste livro - embora não seja uma real "queixa", confesso - é que o mesmo poderia ser (ainda) mais marcante se tivesse mais umas três ou quatro histórias, aumentando ainda mais a sua esfera de contacto e reflexão. É um pouco "curtinho" em demasia.

A edição da ASA é em capa dura baça, com bom papel brilhante no interior e um bom trabalho ao nível da impressão e da encadernação. No final, há ainda duas páginas com esboços de Nuno Saraiva. Mas mais do que falar na edição da obra, que é boa, apraz-me falar da boa iniciativa da editora portuguesa que, embora de forma ainda tímida, tem vindo a incrementar a sua aposta em edições nacionais. Algo que aplaudo sempre, claro está.

Em suma, Vizinhos é uma obra sólida, inteligente e profundamente atual. É uma leitura que oferece um olhar crítico sobre a sociedade contemporânea portuguesa (e não só) incomodando, desafiando e, ao mesmo tempo, convidando à reflexão, através de um retrato duro, mas realista, de uma sociedade que continua a excluir ou a rotular tudo o que foge à norma. Ousemos ser melhor do que isso.


NOTA FINAL (1/10):
8.6


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
Vizinhos
Autores: Ana Bárbara Pedrosa e Nuno Saraiva
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 222 x 296 mm
Lançamento: Maio de 2026

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