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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Análise: Canalha Borrada

Canalha Borrada, de Zé Lázaro Lourenço - A Seita - Mundo Fantasma - Turbina

Canalha Borrada, de Zé Lázaro Lourenço - A Seita - Mundo Fantasma - Turbina
Canalha Borrada, de Zé Lázaro Lourenço

Foi já no final de 2025 que a editora A Seita, unindo forças com a Mundo Fantasma e a Turbina, editou este Canalha Borrada, que marca a estreia do português Zé Lázaro Lourenço enquanto autor de banda desenhada.

E que estreia esta!

Canalha Borrada é aquele tipo de livro que não pede licença para entrar... arromba a porta, deixa pegadas de lama no tapete e ainda se ri na cara dos presentes. 

Estamos perante um conjunto de memórias de infância e pré-adolescência - que não são mais que breves capítulos - passadas na zona de Santa Maria da Feira, por alturas dos anos 2000, vividas por dois primos e seus avós, que nos são dadas em registo aparentemente auto-biográfico. Na prática, é um conjunto de peripécias mirabolantes, ordinárias e irresistivelmente divertidas, advindas das travessuras e malvadezas feitas por estes dois primos, cuja criatividade para o errado e para o nojento parecia não ter fim, para mal da paciência dos seus avós.

Canalha Borrada, de Zé Lázaro Lourenço - A Seita - Mundo Fantasma - Turbina
Percebemos logo nas primeiras páginas deste livro - ou mesmo na capa do mesmo - que Zé Lázaro Lourenço não parece estar minimamente preocupado em conquistar o leitor pela delicadeza de palavras marcantes sobre uma infância feliz. Ao invés, parece preferir a abordagem de uma chapada bem dada, sonora, húmida e malcheirosa. E não é que resulta mesmo?

O autor leva-nos para aquele território mítico onde a inocência infantil convive alegremente com a crueldade gratuita. Se são memórias autobiográficas ou não, e se há exagero ou não, isso pouco importa: a verdade emocional de um tempo sem regras e pleno de mau comportamento está lá, e isso chega para que cada episódio soe perigosamente plausível. E escandalosamente hilariante.

Estes dois miúdos estúpidos, sem eira nem beira, cuja ocupação principal é transformar o quotidiano dos avós num inferno doméstico, são crianças no sentido mais puro e mais assustador da palavra. Não se procura aqui uma moral, uma redenção ou, sequer, uma aprendizagem, mas sim a narração de episódios vividos. Que fizeram rir e que continuam a fazer rir os leitores.

Canalha Borrada, de Zé Lázaro Lourenço - A Seita - Mundo Fantasma - Turbina
Toda esta sucessão de episódios funciona quase como uma antologia de pecados menores (ou maiores), em que cada história tenta superar a anterior em nível de infâmia. É impossível não pensar nos avós como vítimas colaterais desta guerra infantil. Se metade do que aqui é contado aconteceu mesmo, estes dois adultos mereciam uma medalha de resistência psicológica ou, pelo menos, terapia vitalícia, pois estes dois miúdos não são anjinhos... são pequenos demónios à solta.

Não há qualquer tentativa de embelezar a infância ou de a transformar num postal nostálgico. Aqui a infância é suja, cruel, ruidosa e cheia de fluidos corporais.

Posso dizer-vos que, normalmente, em BDs ou filmes supostamente "humorísticos", quando a coisa corre bem, costumo sorrir nas vezes em que acho piada. No caso deste livro, eu não sorri... eu gargalhei, tais não são incríveis e ordinárias as peripécias aqui contadas. E, lá está, como têm um fundo de verdade, faz com que impactem o leitor de forma diferente.

Canalha Borrada, de Zé Lázaro Lourenço - A Seita - Mundo Fantasma - Turbina
O grande trunfo do livro assenta num tipo humor underground e sem travões, a fazer lembrar os anos dourados de South Park. Não há aqui regras, não há bom gosto, não há aquele medo moderno de “isto pode ofender alguém”. Ofende, sim senhor, e fá-lo com gosto. E é precisamente aí que reside a sua força. Até o próprio título, Canalha Borrada, que advém do nome dado aos netos pelo próprio avô, não engana ninguém: é insultuoso, feio e direto, tal como o conteúdo que este livro nos dá.

Naturalmente, e com alguma pena minha, Canalha Borrada não é para todos. Devia ser, mas não é. Há leitores que vão fechar o livro com náuseas, outros com indignação moral. Mas o humor não existe para agradar a todos; existe para funcionar. E aqui funciona com uma eficácia quase ofensiva.

E não esqueçamos que num panorama cultural saturado de tragédias, discursos pesados e preocupações existenciais, o simples aparecimento de bandas desenhadas humorísticas como esta, é quase um ato de higiene mental. Por muito que lhe falte a higiene. Rir da porcaria - literal e metafórica - também pode ser uma forma de sobrevivência e, especialmente, de escape. E é bom que haja banda desenhada portuguesa de humor - que, aliás, em 2025, registou um bom índice, com o lançamento de obras como Amável, O Pugilista Gentil, A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos, ou Toxic West, só para nomear alguns. É importante que haja espaço para a leveza de uma gargalhada. Por mais infantil que seja o gatilho que a faz nascer.

Canalha Borrada, de Zé Lázaro Lourenço - A Seita - Mundo Fantasma - Turbina
O desenho de Zé Lázaro Lourenço acompanha perfeitamente o espírito underground da obra. O traço é rude, arcaico, a preto e branco, caricatural e com um sabor a desenho infantil malcomportado. Não é bonito, não quer ser bonito, e ainda bem. Ser bonito seria trair estas histórias. Em vários momentos, o grafismo é especialmente explícito, quase agressivo. Mas, mais uma vez, isso não joga contra o livro; pelo contrário, reforça o impacto, pois ser gráfico numa obra deste teor acaba por ser uma atitude honesta. O nojo faz parte da experiência neste livro e não pode ser suavizado.

A edição conjunta d' A Seita, da Mundo Fantasma e da Turbina é em capa dura baça, com bom papel baço no miolo, boa encadernação e boa impressão. 

Em suma, Canalha Borrada procura, no fundo, encontrar o belo no meio da merda... não porque a merda seja bela, mas porque rir dela é profundamente humano. Eis um livro ordinário, porco e infame, como todo o bom livro humorístico deveria ter a coragem de ser, ainda que muita gente possa vir a ficar enjoada, desagradada e chocada com o mesmo. Quanto a mim, considero que aquilo que mais importa quando qualificamos se uma obra humorística é boa ou não, é apenas uma coisa: se faz rir ou não. E, como tal, Canalha Borrada mais que funciona, pois não faz rir... faz chorar a rir.


NOTA FINAL (1/10):
8.2

Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Canalha Borrada, de Zé Lázaro Lourenço - A Seita - Mundo Fantasma - Turbina

Ficha técnica
Canalha Borrada
Autor: Zé Lázaro Lourenço
Editora: A Seita, Turbina e Mundo Fantasma
Páginas: 80, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
Lançamento: Novembro de 2025


segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Acaba de sair "Canalha Borrada", uma BD nacional de humor javardo!



Já se encontra em livraria a obra de estreia de Zé Lázaro Lourenço, que se intitula Canalha Borrada e que é editada pel' A Seita, em parceria com a Turbina e com a Mundo Fantasma.

Posso dizer-vos que já li esta obra e que a achei verdadeiramente delirante, mas igualmente divertida.

Brevemente poderão ler a minha análise à obra, por aqui.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais.


Canalha Borrada, de Zé Lázaro Lourenço

Canalha Borrada é uma colectânea de memórias de infância e pré-adolescência vividas nas aldeias de Santa Maria da Feira. 

Quem sabe, talvez autobiográfica, ou talvez não, esta BD narra as desventuras de dois primos, cujo principal passatempo era infernizar a vida dos avós. 

O título vem da alcunha insultuosa com que a família os baptizou, por motivos que se tornarão óbvios no livro. Alcunha bruta, javarda, e sem qualquer romantismo. 

Uma ratazana podre, um escroto furado, um esguicho de sémen, um mergulho no esgoto... está lá tudo! Canalha Borrada é encontrar o belo no meio da merda!

Pois é! Nós n’A Seita somos muitos (uma seita, da BD!) e às vezes a alguns de nós, dá-nos uns vibes, e desta vez, com o apoio surdo e silencioso da Turbina, e em parceria cúmplice e algo mafiosa ou qualquer coisa com a Mundo Fantasma (que sugeriu tudo, a culpa é essencialmente deles), editámos talvez o livro de BD mais javardo do ano (teríamos de ir verificar e ler um monte de coisas para as quais se calhar não tínhamos estômago!), mas também dos mais cómicos. São uma dezena de histórias, algumas pouco mais que episódios desopilantes ou apontamentos de mau gosto adolescente idiota, outras pequenas pérolas de narrativa que de algum modo poderíamos baptizar de “punk pseudo-rural sujo e feio”, e todas cómicas (embora às vezes nos façam chorar com pena dos desgraçados dos avós), e ilustradas com figuras e paisagens caricatas e muito divertidas!

O autor ofereceu por uma pequena e módica quantia cuecas borradas aos primeiros que compraram o livro no lançamento na Bedeteca do Porto, e achamos que isso diz tudo!!

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Ficha técnica
Canalha Borrada
Autor: Zé Lázaro Lourenço
Editora: A Seita, Turbina e Mundo Fantasma
Páginas: 80, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
PVP: 12,99€