Foi há poucos dias que a editora ASA publicou Pátria, de Toni Fejzula, que adapta para banda desenhada a obra com o mesmo nome de Fernando Aramburu, que depressa se tornou num dos livros mais relevantes dos últimos anos editados em Espanha.
A história incide na história de duas famílias bascas, a de Bittori e a de Miren, que eram amigas íntimas até serem brutalmente separadas pelo terrorismo da ETA. O ponto de partida da história é o regresso de Bittori à sua terra natal, anos depois do assassinato do seu marido, Txato, um empresário local morto pela organização ETA. Por outro lado, o filho de Miren, Joxe Mari, é um terrorista da ETA que se encontra preso e que faz surgir a dúvida a Bittori - e a nós, leitores - se terá sido ele, ou não, o encapuzado a assassinar Txato. Esse regresso da velha Bittori desencadeia, assim, uma revisitação do passado, marcada pela dor, pelo silêncio e pela necessidade de compreender quem esteve por trás do crime do seu marido.
Por agora, fiquemos com este lado da história do livro. Já voltarei a esse tema. Deixem que me foque, para já, nas ilustrações fantásticas deste livro. Toni Fejzula dá-nos, acima de tudo, um objeto artístico profundamente ambicioso. Não se trata apenas de transpor um romance muito reconhecido para outro formato, mas de reinterpretar uma obra complexa num meio que exige síntese, ritmo visual e economia narrativa.
O livro original conta com mais de 700 páginas e, nesta sua adaptação para banda desenhada, ultrapassa as 300 páginas. O resultado é, pois, impressionante enquanto realização material e estética. Aliás, até vos sou sincero quando vos digo que considero inexplicável que não se esteja a "fazer barulho" sobre este livro. É certo que foi lançado há pouco tempo, mas já é para mim assente que estamos perante uma das obras mais relevantes do ano.
Há um cuidado visual impressionante neste trabalho, com Toni Fejzula a construir cada página com um rigor que denota um investimento quase obsessivo, haveno uma atenção minuciosa ao enquadramento, à expressividade das personagens e à composição cromática. As cores, frequentemente contidas mas expressivas, contribuem para a atmosfera emocional, ora fria, ora opressiva, que atravessa toda a narrativa. Nesse sentido, percebe‑se claramente a ideia de que estamos perante “a obra de uma vida” para Fejzula. Verdadeiramente impressionante e com um aspeto belíssimo e cuidado.
E, convém não perder isso de vista, essa dimensão gráfica não é apenas decorativa, sustentando o próprio peso emocional da narrativa. Os silêncios, os olhares, os espaços vazios... tudo o que é visual nos comunica algo intenso. Dito por outras palavras, o que não é dito em palavras é transmitido pela imagem, o que exige do leitor uma atenção redobrada. Esta complementaridade entre texto e imagem é uma das maiores forças da obra, mas também um dos seus maiores desafios.
A história em si, mantém a carga temática do romance de Aramburu: a violência política, a fragmentação social e o impacto íntimo do terrorismo nas vidas de toda a gente, seja qual for a barricada em que cada uma das personagens se encontra. E embora centrada no tema da ETA, a narrativa transcende esse contexto específico, indo mais longe e conseguindo ser mais universal e atual. Isto porque estas mesmas personagens poderiam perfeitamente protagonizar um relato semelhante no contexto de um outro conflito qualquer, porque o que está em causa é uma lógica universal: a capacidade humana de dividir o mundo em “nós” e “eles”, muitas vezes em nome de uma "pátria" idealizada. Mas uma "pátria", caros amigos, é muito mais um conceito abstrato, do que algo tangível ou palpável.
A narrativa constrói-se de forma fragmentada, alternando entre diferentes personagens e momentos temporais, revelando progressivamente o impacto profundo da violência nas vidas individuais e na comunidade. Através das várias perspetivas - incluindo familiares de vítimas e de membros da ETA - o livro mostra como o medo, a pressão social e a ideologia moldaram comportamentos, destruíram relações e dividiram uma sociedade inteira.
Assim, ao acompanharmos diferentes personagens, percebemos como cada uma constrói a sua própria verdade, justificando posições, decisões e silêncios. Nenhuma delas é perfeita. Mas, como em tudo na vida, não há heróis e vilões. Apenas humanos que são capazes do melhor e do pior. Essa multiplicidade reforça a ideia de que não há uma leitura única do conflito, mas antes uma rede de perspetivas que se cruzam, chocam e, por vezes, se anulam.
E é precisamente nesta questão das múltiplas vozes e múltiplas personagens deste Pátria que entra uma das características mais marcantes - e mais exigentes - desta adaptação: a sua densidade. Trata-se, de facto, não vos posso negar, de uma leitura difícil. Que exige muita atenção do leitor. Não tanto pela complexidade conceptual, mas principalmente pela forma como a informação nos é apresentada.
Isto porque a narrativa surge em fragmentos, como se fossem retalhos de memória. Em vez de uma progressão linear e claramente estruturada, o leitor é confrontado com pequenos momentos da vida das várias personagens - e não são poucas - muitas vezes sem grande contextualização. Esses fragmentos acumulam-se, e cabe ao leitor reconstruir o todo, preenchendo lacunas e estabelecendo ligações. Tive que parar várias vezes, voltar atrás e tentar unir os pontos. É um daqueles livros que demora tempo a ler e mais tempo ainda a perceber.
Acresce a isso a multiplicidade de "vozes narrativas" diferentes que nos vão dando a sua visão dos factos. Mas, mais uma vez, a contextualização é quase inexistente. É verdade que as legendas vão mudando de cor, consoante a personagem que dialoga connosco, mas nem isso é suficiente para, muitas vezes, conseguirmos perceber quem é a personagem que está a falar e a que momento se refere. Isto gera uma sensação de fluidez, mas também de indefinição, pois, por momentos, torna-se difícil perceber quem está a narrar e em que ponto da história estamos.
Essa escolha formal é interessante do ponto de vista artístico, pois reforça o caráter "polifónico" da obra. Contudo, também contribui para a sensação de uma certa desorientação. As vozes tendem a fundir-se, especialmente quando não há tempo suficiente para o leitor se fixar em cada personagem de forma clara.
O próprio facto das personagens terem nomes bascos, que serão pouco familiares para a maioria dos leitores portugueses, torna-se exigente para que consigamos identificar quem é quem. No romance, que tive oportunidade de ler há uns anos, esse processo é mais gradual, mas nesta adaptação, devido a uma certa condensação, é mais abrupto.
Ainda assim, acredito que essa dificuldade não deve ser vista como uma falha. Pelo contrário, pode ser entendida como uma consequência direta da ambição desta adaptação. Ao tentar preservar a complexidade da obra original, Toni Fejzula opta por não simplificar em excesso, mantendo intacta a fragmentação narrativa e a multiplicidade de perspetivas. Quem leu o romance original, vai compreender esta a minha afirmação, acredito.
Só para vos fazer um comparativo com base nesta questão da complexidade que estou a referir, livros como Watchmen, V de Vingança ou Do Inferno, de Alan Moore, parecem-me simples na abordagem, comparativamente com este Pátria. Achei-os (bem) mais fáceis de ler.
"Não é defeito, é feitio". Por vezes, aponto a questão da complexidade como um defeito numa obra, pois considero que não se justificava, mas neste caso concreto, parece-me que faz parte do jogo de personagens, desse carrossel narrativo arquitetado por Fernando Aramburu e fielmente mantido por Toni Fejzula. Com sinceridade, quando soube deste livro, não esperava que fosse algo tão grandioso. Mas é.
Quanto à edição, o livro apresenta capa dura baça e bom papel baço no interior. A impressão, encadernação e acabamentos são igualmente bons. Há ainda um extenso caderno de material extra, que inclui um epílogo de Toni Fejzula, em que o mesmo nos conta a sua própria experiência enquanto sérvio, fazendo uma ponte para os acontecimentos desta obra. Há ainda ilustrações, estudos de página, storyboards, etc. Além disso, uma coisa de que gostei muito - e que acho até que mais livros poderiam ter - foi da forma como o autor nos fala do seu processo de trabalho, da documentação que fez, de como condensou a obra original, entre outras coisas.
Há ainda um glossário no final do livro que nos revela algumas das palavras bascas que, durante a obra, são referidas até à exaustão, como aita (pai), ama (mãe), ongi etorri (bem-vindo), etc. Considero que a experiência de leitura poderia ter saído beneficiada se a tradução destas palavras bascas aparecessem em notas de rodapé nas páginas em que são proferidas. Mas é uma escolha, claro. Achei também que, em termos de legendagem, por vezes a obra não é tão legível como poderia ser, muito por causa do tamanho das legendas e texto ser muito pequeno - e a transparência das legendas também não ajuda. Mas fui ver a versão original da obra e isto também acontece, pelo que não terá sido uma falha da ASA nesta questão.
No final, o que fica é uma obra simultaneamente bela e exigente. Uma BD que impressiona pelo virtuosismo visual e pela profundidade temática, mas que pede ao leitor um envolvimento ativo e paciente. Pátria é uma reflexão sobre memória, culpa e reconciliação, em que se explora a dificuldade de enfrentar o passado, a persistência do trauma e a complexidade do perdão, sugerindo que os conflitos coletivos deixam marcas duradouras nas vidas pessoais. Um dos livros do ano.
NOTA FINAL (1/10):
9.7
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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Pátria - Romance Gráfico
Autor: Toni Fejzula
Adaptado a partir da obra original de: Fernando Aramburu
Editora: ASA
Páginas: 304, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 27, 5 x 20,6 cm
Lançamento: Junho de 2026
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