Por vezes, há livros de banda desenhada que não precisam de ser espetacularmente bem desenhados para serem muitíssimo bons. Ou que não precisam de ter uma história "maior do que a vida" para merecerem uma leitura atenta. É o caso deste Entre Elas, de Pauline Spira, uma bela aposta que a Nuvem de Letras, uma chancela da Penguin, editou recentemente.
Este é um daqueles típicos livros que até pode não apelar muito aos leitores mais habituais do Vinheta 2020: a ilustração é de um cariz mais simples, infanto-juvenil, a história é com - e para - teenagers e aparenta ter um significado algo infantil. Pois bem, digo-vos que é uma leitura muito bem conseguida para jovens, claro, mas também para adultos.
Começando pelos desenhos, não são nada de maravilhoso, mas também não se pode dizer que não sejam eficazes nas funções narrativas e ilustrativas que procuram ter. O estilo de desenho de Pauline Spira é simples, por vezes um pouco naïf até, mas com as personagens a terem uma expressividade bem conseguida e muito eficiente. Além disso, existem alguns momentos mais marcantes no modo como a planificação da obra é utilizada e o trabalho de cores é bastante bem-vindo, também, fazendo com que em termos visuais a obra funcione bem. Algumas personagens confundem-se um pouco entre si - e isso deve-se, essencialmente, ao modo simples como as suas expressões e fisionomias são retratadas - embora também mereça ser reconhecido que, através dos penteados e cores dos cabelos, a autora procure diferenciar as suas personagens tanto quanto possível. Acima de tudo, pode dizer-se que as ilustrações se ajustam bem ao tipo de obra que temos em mãos.
Já quanto à história, acompanhamos a estadia num castelo, para um daqueles cursos linguísticos de verão, de duas amigas adolescentes: Júlia e Mariana. Elas sempre foram as melhores amigas e poderem estar a passar uma temporada de férias juntas, afigura-se-lhes como (mais) uma experiência incrível nas suas vidas. Mas as coisas deixam de correr bem quando Mariana se começa a afastar de Júlia e a procurar novas amigas. Pior ainda, essas novas amigas parecem acolher Júlia com repúdio. E Mariana, em vez de defender a sua amiga, acaba por ficar mais próxima das suas novas amigas.
Até aqui, a história até parece simplória e que já vimos esta storyline em muitos outros livros. Aparenta ser "mais do mesmo". Mas a trama adensa-se por dois motivos: em primeiro lugar, pelo facto de Júlia ter perdido recentemente a sua avó, o que transporta automaticamente a história para um relato sobre o luto na adolescência, oferecendo uma leitura mais profunda; e, em segundo lugar, pela escalada para o bullying e para as amizades tóxicas entre jovens.
E assinale-se que nenhuma destas componentes me pareceu demasiado forçada ou que estava ali só para ser tema. Ao invés, a narrativa está bastante bem construída, tornando o relato muito verossímil. Com efeito, se queremos olhar para aquilo que o bullying pode ser, e os traumas que com isso surgem, este livro é uma perfeita porta de entrada. E está pensado para ser um bom caso de estudo, quer para jovens - que podem encontrar aqui algumas referências ou pontes de como devem e de como não devem agir quando confrontados com situações semelhantes -, quer para os próprios adultos. É que nós, adultos, passamos a vida a ouvir falar de bullying, mas se calhar sem a sensibilidade e exemplificação prática de como se manifestam tais atos.
Gostei bastante, pois, deste livro por estes motivos. Sem "surfar" em demasia o drama das amizades tóxicas e da tristeza da perda de um ente querido e próximo, o livro consegue alcançar um equilíbrio muito bom.
É igualmente relevante a forma subtil como a autora aborda a solidão. Mesmo num ambiente cheio de gente - um curso de verão, rodeado de jovens -, Júlia experiencia um isolamento que é profundamente notório. E outro ponto positivo reside na construção das dinâmicas de grupo. As novas amizades de Mariana não são apresentadas de forma caricatural, mas antes como uma realidade plausível, com comportamentos que facilmente se identificam no dia-a-dia escolar.
Importa ainda sublinhar a forma como o livro demonstra que o bullying nem sempre se apresenta de forma explícita ou física. Especialmente, no caso das raparigas, normalmente mais vocais e menos físicas. Por isso, muitas das situações descritas assentam em exclusão social, comentários subtis ou atitudes passivo-agressivas, o que contribui para uma representação mais fiel deste fenómeno.
Do ponto de vista pedagógico, o livro revela-se especialmente útil. Pode funcionar como um instrumento de diálogo entre jovens e adultos, permitindo discutir temas difíceis sem cair em moralismos ou soluções simplistas. Essa capacidade de abrir espaço para conversa é uma das suas maiores qualidades. Lá em casa, já coloquei este livro na lista de livros que as minhas filhas podem e devem ler.
Em termos de edição, o livro apresenta capa mole, com badanas, baça e com detalhes a verniz. No miolo, o livro tem bom papel baço. A encadernação, impressão e acabamentos são bons.
Em suma, Entre Elas destaca-se pela sua honestidade emocional e pela forma equilibrada como aborda temas complexos. Sem recorrer a dramatizações exageradas, consegue construir uma narrativa consistente, sensível e relevante, que se afirma como uma leitura valiosa tanto para jovens como para adultos. Um sério candidato a melhor BD infanto-juvenil do ano.
NOTA FINAL (1/10):
8.5
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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