quinta-feira, 25 de junho de 2026

Análise: A Sombra das Luzes - Tomo 2 – Rendas e Colares de Conchas

A Sombra das Luzes - Tomo 2 – Rendas e Colares de Conchas, de Alain Ayroles e Richard Guérineau - Ala dos Livros

A Sombra das Luzes - Tomo 2 – Rendas e Colares de Conchas, de Alain Ayroles e Richard Guérineau - Ala dos Livros
A Sombra das Luzes - Tomo 2 – Rendas e Colares de Conchas, de Alain Ayroles e Richard Guérineau

A editora Ala dos Livros publicou recentemente o segundo tomo da minisérie A Sombra das Luzes, de Alain Ayroles e Richard Guérineau, pensada para três volumes. E se no primeiro volume, O Inimigo do Género Humano, houve algumas questões que me deixaram com reservas com esta obra, reconheço que neste segundo volume as coisas funcionam - todas - muito melhor.

Intitulado Rendas e Colares de Conchas, este segundo tomo conduz-nos para um cenário inesperado e refrescante face àquilo que tínhamos tido no primeiro volume. Agora estamos longe dos salões aristocráticos da corte francesa e acompanhamos a viagem do infame Cavaleiro de Saint-Sauveur, que parte rumo à Nova França (Canadá), acompanhado pelo iroquês Adario e pelo seu criado filósofo, Gonzague. É uma viagem que rapidamente se transforma numa nova oportunidade para exibir o talento manipulador do protagonista e mergulhar-nos numa nova intriga em que Saint-Sauveur procura casar a Menina de Archambaud, de uma família da nobreza parisiense, com Adario, um homem selvagem. Um ameríndio. É óbvio que as motivações de Saint-Sauveur não são as de um cupido casamenteiro, mas sim a de conquista de poder para si mesmo.

Contudo, as suas maquinações começam a revelar consequências imprevisíveis, com o protagonista a ver que vários acontecimentos escapam ao seu controlo. 

A Sombra das Luzes - Tomo 2 – Rendas e Colares de Conchas, de Alain Ayroles e Richard Guérineau - Ala dos Livros
É precisamente este maior enfoque narrativo numa demanda mais concreta, bem como a própria deslocação geográfica - que permite a exploração de um enredo mais aventureiro - que marca uma evolução mais positiva neste segundo tomo. Dito por outras palavras, se o primeiro volume parecia demasiado preso a uma função introdutória, aqui a narrativa ganha corpo, ritmo e consequências. A mudança de cenário permite, pois, que a história respire e avance.

Ainda assim, e com alguma pena minha, visto que não me parece que este estilo funcione particularmente bem em banda desenha - pelo menos da forma em que nos é dado -, Ayroles mantém a estrutura epistolar que caracteriza a obra, continuando a construir a narrativa através de cartas trocadas entre diversas personagens. Esta opção, embora coerente com o tom e as referências literárias da série - das quais tenho que referir Ligações Perigosas, de Pierre Choderlos de Laclos - continua a revelar-se ambígua na sua eficácia. Isto porque a coexistência entre o conteúdo das cartas e os balões de fala cria, em vários momentos, uma sensação de desencontro que pode desorientar o leitor.

E essa dificuldade até é acentuada pela multiplicidade de vozes e pelas constantes idas e vindas de correspondência. Se fossem apenas duas personagens a trocar cartas entre si, a coisa até ficaria menos confusa. Mas com tantas personagens a corresponderem-se, o enredo torna-se artificialmente cheio e carregado de informação desnecessária. A experiência torna-se algo difusa. A leitura exige, portanto, concentração e uma atenção redobrada para acompanhar quem escreve, para quem escreve e com que intenção. 

A Sombra das Luzes - Tomo 2 – Rendas e Colares de Conchas, de Alain Ayroles e Richard Guérineau - Ala dos Livros
Embora reconheça que, neste segundo tomo, a experiência funciona bastante melhor. O enredo está mais consistente, mais orientado e, acima de tudo, mais interessante. As intrigas ganham peso e as ações das personagens começam a produzir efeitos concretos, o que contribui para um maior envolvimento emocional entre obra e leitor.

Saint-Sauveur, em particular, surge aqui como uma figura ainda mais fascinante. Fora do ambiente controlado da corte, o seu talento para a manipulação é posto à prova em circunstâncias mais adversas. A oposição entre civilização e selvajaria é abordada de forma inteligente por Alain Ayroles, questionando preconceitos e sugerindo que a verdadeira barbárie não reside necessariamente onde se supõe. Há aqui uma reflexão interessante sobre o olhar europeu e as suas limitações, diria.

Do ponto de vista do ritmo, este segundo volume apresenta uma progressão mais equilibrada, também, com a ação a fluir com maior naturalidade e as reviravoltas a surgirem de forma mais orgânica, evitando a sensação de estagnação que marcava o primeiro tomo. 

Outro aspeto que merece destaque é a forma como este volume consegue reconsiderar retroativamente o primeiro. Elementos que antes pareciam dispersos começam aqui a ganhar significado, sugerindo que Ayroles aparenta ter, efetivamente, um plano mais amplo para esta trilogia. O leitor passa a perceber melhor a construção gradual do enredo. Portanto, quando concluí a minha análise ao primeiro volume com esta frase: "A esperança, no entanto, reside na promessa de que os volumes seguintes consigam atar as pontas deixadas soltas e revelar, enfim, o grande jogo que Ayroles parece estar a construir.", talvez eu tivesse razões para estar esperançoso com esta obra.

A Sombra das Luzes - Tomo 2 – Rendas e Colares de Conchas, de Alain Ayroles e Richard Guérineau - Ala dos Livros
E, já agora, também o trabalho de Richard Guérineau parece beneficiar da mudança de cenário. O autor demonstra uma maior à-vontade na representação de ambientes naturais, paisagens vastas e cenas de ação. As florestas do Canadá, com a sua densidade e mistério, são retratadas com grande beleza e as páginas ganham movimento, energia e uma certa liberdade visual que se adequa muito bem ao espírito aventureiro desta segunda parte.

Além disso, a elegância do traço e o cuidado com o detalhe, que já eram evidentes no primeiro volume, continuam presentes. Guérineau mantém o rigor histórico nas indumentárias e nos ambientes, mas agora alia essa precisão a uma maior expressividade narrativa. E o trabalho de cores também é especialmente bem conseguido.

Em termos de edição, temos a continuação do belo trabalho já encetado no volume anterior. Portanto, recupero o que já havia escrito sobre o trabalho editorial do primeiro tomo: "Para além de editado em grande formato, a capa dura do livro apresenta uma textura que faz lembrar tecido e que é muito agradável ao toque. Tem ainda um brilho localizado que torna o objeto mais requintado. As próprias guardas do livro, fazendo lembrar papel de parede, são belíssimas. No interior, o papel é brilhante e de boa qualidade, tal como também assim o é a impressão e a encadernação."

Em suma, este segundo tomo de A Sombra das Luzes representa uma evolução clara face ao volume anterior. Apesar de ainda manter algumas fragilidades, sobretudo ao nível da clareza narrativa, oferece uma história mais rica, dinâmica e envolvente. É, acima de tudo, um sinal encorajador de que esta série poderá afirmar-se como uma obra de grande fôlego, capaz de conjugar ambição literária com um verdadeiro prazer de leitura e belos desenhos. Nota mais positiva e otimista, desta vez!


NOTA FINAL (1/10):
8.3


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Sombra das Luzes - Tomo 2 – Rendas e Colares de Conchas, de Alain Ayroles e Richard Guérineau - Ala dos Livros

Ficha técnica
A Sombra das Luzes - Tomo 2 – Rendas e Colares de Conchas
Autores: Alain Ayroles e Richard Guérineau
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 255 x 340 mm
Lançamento: Abril de 2026

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