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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Análise: Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso 1 e 2

Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso 1 e 2, de Chokam e Cheong-Gwa - Distrito Manga - Penguin

Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso 1 e 2, de Chokam e Cheong-Gwa - Distrito Manga - Penguin
Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso 1 e 2, de Chokam e Cheong-Gwa

Uma das mais recentes apostas por parte da editora Distrito Manga é o manhwa Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso, de Chokam e Cheong-Gwa, que já tem, até ao momento, dois álbuns editados que opto por analisar em conjunto.

Trata-se de um romance histórico que aborda os temas da reencarnação e do drama psicológico - se é que lhe posso chamar assim. A premissa é, pelo menos inicialmente, apelativa: Inés Valeztena é uma sensual mulher que, marcada pelas memórias de vidas anteriores e por um destino trágico que já viveu mais do que uma vez, procura, desta vez, alterar o rumo da sua existência através de um casamento que encara não como um ideal romântico, mas como uma ferramenta para alcançar a liberdade. Acaba por haver, logo à partida, uma inversão das expectativas tradicionais de um romance. Inés não quer ser feliz no casamento, mas sim que esse casamento falhe e instrumentaliza-o para alcançar essa tal liberdade. 

Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso 1 e 2, de Chokam e Cheong-Gwa - Distrito Manga - Penguin
No primeiro volume, a narrativa centra-se sobretudo na preparação do casamento entre Inés e Cárcel Escalante. Ambos pertencem à aristocracia do império e estão prometidos desde a infância, numa união que parece responder mais a interesses do que a sentimentos genuínos. Contudo, a protagonista possui uma consciência invulgar da sua própria história, graças às recordações das suas vidas passadas. É precisamente essa experiência acumulada que orienta as suas decisões e torna as suas ações, pelo menos em teoria, mais calculadas e estratégicas.

Apesar de partir de uma ideia promissora, a construção da narrativa revela diversas fragilidades. A história é frequentemente confusa e difícil de acompanhar. Não tanto por apresentar uma complexidade intelectual particularmente elevada, há que o dizer, mas porque parece, em vários momentos, mal arquitetada. Certos acontecimentos surgem sem a devida preparação; algumas motivações das personagens, especialmente de Cárcel, mudam abruptamente; e a progressão dramática nem sempre é muito coerente. A história é, desde o início, confusa e, se me permitem uma especulação, parece-me que na própria cabeça de quem criou a história, a mesma também está confusa. Ou, se não, houve uma clara fragilidade na forma como a história foi passada para banda desenhada.

Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso 1 e 2, de Chokam e Cheong-Gwa - Distrito Manga - Penguin
E sublinhe-se que essa sensação de desorientação é ainda agravada pela forma como os diálogos e os pensamentos são apresentados. Em diversas passagens, somos confrontados com sucessivas linhas de diálogo intercaladas com reflexões interiores de várias personagens e nem sempre é claro quem está a falar ou a pensar, obrigando-nos a regressar atrás para tentar reconstruir a cena. E mesmo quando voltamos atrás, a fragilidade do enredo e da escrita mantém-se presente. 

A própria personagem de Cárcel Escalante pareceu-me construída de forma inconsistente. Inicialmente, o rapaz é apresentado como sendo um libertino incorrigível, mas a sua evolução para um homem devoto e com uma forte pulsão sexual por Inés não só é rápida como parece pouco convincente. 

Um dos elementos mais positivos da série encontra-se, sem dúvida, na componente visual. Os desenhos são extremamente elegantes, detalhados e agradáveis à vista. As próprias capas dos livros são bonitas e requintadas. Os cenários, os figurinos e a representação da aristocracia ajudam a criar uma atmosfera sofisticada e envolvente. Parece haver um cuidado evidente na composição das páginas e na construção da estética geral da obra.

Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso 1 e 2, de Chokam e Cheong-Gwa - Distrito Manga - Penguin
Como ponto menos positivo, refiro que muitas das personagens masculinas apresentam traços físicos excessivamente semelhantes, dificultando, várias vezes, a sua identificação imediata. Se já me vi forçado, muitas vezes, a voltar atrás na leitura para perceber o que estava a acontecer, esta semelhança entre personagens ainda contribuiu mais para isso. 

Mas já tendo feito um texto grande sobre esta obra, ainda não referi algo que me deixou deveras surpreendido. É que, sem que nada o fizesse prever, o segundo volume enche-se de um erotismo super intenso, com várias cenas bastante gráficas, de sexo puro e duro - literalmente falando. E tudo isto nos é dado através de uma abordagem visual que muitos poderão considerar como escandalosa.

Devo dizer que gostei particularmente destas cenas eróticas e até considero que nelas se encontram os melhores momentos do segundo livro. Aliás, há muito digo que talvez seja interessante que as editoras portuguesas, quer de obras americanas, europeias ou japonesas, comecem a apostar mais em obras eróticas, pois também é um subgénero que não deve ficar órfão de novos lançamentos.

Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso 1 e 2, de Chokam e Cheong-Gwa - Distrito Manga - Penguin
Não obstante, e olhando para este Broken Ring em particular, parece-me que há aqui um problema de enquadramento editorial. Os momentos de sexo explícito são suficientemente gráficos para tornar difícil recomendar a obra a leitores mais jovens. É que, convenhamos, para um público mais jovem parecem-me cenas explícitas em demasia. São cenas quase a roçar a pornografia. 

Por outro lado, para um público mais maduro que possa apreciar essas cenas, a história aqui embutida é demasiadamente infantil. Parece que não é "peixe" nem é "carne". Demasiadamente sexual para o público juvenil e demasiadamente juvenil (a história) para o público adulto. A sensação é a de uma obra que procura simultaneamente agradar a públicos distintos sem conseguir definir plenamente a sua identidade. É claro que se estivermos a falar de jovens já sexualmente ativos - e bem ativos - a obra talvez faça sentido. Entre os 17 e os 20 anos, talvez? Ou estarei a ser ingénuo? Porém, parece-me uma franja demasiadamente curta.

Em termos de edição, os livros apresentam capa mole baça, com detalhes a verniz e com badanas. O grafismo é muito girly e bonito. No interior, o papel utilizado é baço e de boa qualidade. A impressão e a encadernação também são boas. O primeiro livro inclui ainda, para além de um marcador de livro, dois postais com bonitas ilustrações.

Em suma, e apesar de uma forte e gráfica camada sexual que aparece no segundo volume, a fazer lembrar obras célebres do hentai, e tornando este num dos livros mais eróticos do ano editorial, Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso parece indeciso entre ser adequado para leitores mais adultos ou mais jovens. Além disso, é uma série visualmente apelativa, sustentada por uma premissa intrigante, embora um pouco trapalhona. É uma leitura que poderá conquistar quem procura romance intenso, mas que dificilmente satisfará leitores que valorizem uma construção narrativa sólida e coerente.

NOTA FINAL (1/10):
6.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso 1 e 2, de Chokam e Cheong-Gwa - Distrito Manga - Penguin

Fichas técnicas
Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso #1
Autores: Chokam e Cheong-Gwa
Editora: Distrito Manga
Páginas: 280, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 149 x 200 mm
Lançamento: Março de 2026

Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso 1 e 2, de Chokam e Cheong-Gwa - Distrito Manga - Penguin

Broken Ring - Este Casamento Está Destinado ao Fracasso #2
Autores: Chokam e Cheong-Gwa
Editora: Distrito Manga
Páginas: 280, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 149 x 200 mm
Lançamento: Março de 2026


Análise: Tudo no Máximo


Tudo no Máximo, de Sarah Lippett e Ziggy Hanaor

Foi recentemente que a Nuvem de Letras, uma chancela da Penguin, editou este Tudo no Máximo, de Sarah Lippett e Ziggy Hanaor.

Trata-se de uma banda desenhada especialmente direcionada para um público adolescente que, não obstante, pretende abordar alguns temas mais densos e sérios, como o bullying e a afirmação dos adolescentes numa altura em que as suas hormonas se encontram à flor da pele. 

A história é centrada em Nel, uma adolescente de quinze anos que atravessa um período particularmente difícil da sua vida. Na escola, toda a gente goza com ela e tem poucos amigos, à excepção de Kit. Ninguém parece compreender as reais necessidades desta jovem e esta acaba por se refugir na música. É quando está a ouvir os seus cantores e bandas favoritos que Nel parece encontrar algum tipo de consolo. Por oposição, ela tem um irmão gémeo, Ludo, a quem tudo parece correr bem: ele é popular, tem muitos amigos, pertence a uma banda e até parece obter uma maior aceitação por parte da mãe de ambos. 

Tudo isto acaba por fazer com que a Nel se rebele - e acabe por explodir - contra tudo e contra todos. Mesmo assim, de um momento para o outro, o feitiço parece virar-se contra o feiticeiro e, inesperadamente, Nel vê-se enquanto figura popular na escola, pertencendo até a uma banda de rock, enquanto Ludo passa a encarar problemas que pareciam não o atingir no início da obra.

A narrativa acompanha os altos e baixos desta fase da adolescência, marcada pela intensidade das emoções e pela sensação de que cada problema assume proporções gigantescas para os jovens - daí o título Tudo no Máximo, que na edição original tem o nome de Everything Amplified. A obra procura, portanto, retratar a adolescência sem filtros, mostrando uma fase da vida em que a identidade ainda está em construção e em que as emoções surgem amplificadas. A tristeza, a raiva, a vergonha ou a felicidade são sentidas de forma extrema, e diria que o livro consegue captar essa intensidade emocional com alguma autenticidade. Há aqui uma clara tentativa de reproduzir a forma como muitos adolescentes experienciam o mundo, onde cada acontecimento parece decisivo e irreversível.

A música ocupa também um papel importante neste livro, pois além de ser o tal refúgio da protagonista, também marca a nossa experiência de leitura, através da partilha de alguns pedaços de letras de canções marcantes ou através de pequenas notas biográficas de músicos tão célebres como The Carpenters, The Beach Boys, The Slits, Courtney Love, Janis Joplin, Patti Smith, Pixies, entre vários outros. Isto é particularmente interessante para os leitores mais maduros do livro que poderão encontrar nele um misto positivo de sensações nostálgicas, do tempo em que a música também lhes servia como ponto de abrigo durante as dores de crescimento experienciadas durante a adolescência. Todos nós já passámos por isso, certo?

Mesmo tendo em conta os seus bons intentos, a história acaba por ser algo superficial, com as personagens a carecerem de um melhor desenvolvimento. Além disso, o ritmo narrativo é bastante acelerado, fazendo com que alguns acontecimentos surjam e desapareçam rapidamente, sem o desenvolvimento necessário para produzirem um impacto emocional mais sério. Em determinados momentos, a história parece mais preocupada em acumular conflitos do que em explorá-los em profundidade. Acho até que abusa um pouco desses conflitos entre Nel e aqueles que a rodeiam.

E a própria relação entre Nel e Ludo - que é o motor narrativo da obra - acaba por, lá mais para o meio do livro, perder destaque, ficando quase como uma nota de rodapé. É verdade que o irmão volta a aparecer mais para o perto do final, mas sem que haja a intensidade emocional que o início da obra parecia prometer.

Esta falta de profundidade afeta também alguns dos temas mais delicados que o livro procura abordar. Questões complexas como a saúde emocional, os problemas familiares ou a exclusão social são apresentadas de forma acessível, mas raramente ultrapassam uma abordagem introdutória. 

Do ponto de vista visual, os desenhos de Sarah Lippett cumprem eficazmente a sua função narrativa. O traço é simples, limpo e facilmente legível, privilegiando a clareza da leitura em detrimento do detalhe. Não estamos perante um trabalho visualmente deslumbrante ou particularmente inovador, mas as ilustrações conseguem transmitir as emoções essenciais das personagens e acompanhar adequadamente o tom da história.

A edição da Nuvem de Letras é em capa mole com badanas. No interior, o papel utilizado é baço e de boa qualidade. A impressão e encadernação são boas. No final, estão contidas das biografias dos artistas mais presentes na obra e é incluída ainda uma playlist da personagem de Nel com um QR Code para que possamos ouvir estas músicas.

Em suma, Tudo no Máximo é uma leitura claramente direcionada para um público juvenil, sobretudo para leitores que se encontram próximos da idade da protagonista. A sua maior força reside na forma como retrata a intensidade emocional da adolescência e na homenagem sincera que presta à música enquanto espaço de refúgio e descoberta pessoal. Apesar de abordar temas importantes e facilmente reconhecíveis para muitos jovens, ou para aqueles que ainda se lembram de terem sido jovens, a narrativa nem sempre aprofunda estas questões com a consistência desejável, resultando numa obra agradável e acessível, sim, mas que dificilmente se revelará particularmente marcante ou inesquecível para leitores mais experientes.


NOTA FINAL (1/10):
5.5


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Ficha técnica
Tudo no Máximo
Autoras: Sarah Lippett e Ziggy Hanaor
Editora: Nuvem de Letras
Páginas: 272, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 160 x 207 mm
Lançamento: Setembro de 2026

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Análise: Blast - Edição Integral - Volume 2 de 2

Blast - Edição Integral - Volume 2 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros

Blast - Edição Integral - Volume 2 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros
Blast - Edição Integral - Volume 2 de 2, de Manu Larcenet

Quando terminei o primeiro volume de Blast, de Manu Larcenet, escrevi que estava rendido à obra, mas também que mantinha alguma prudência na minha avaliação. Sentia que tinha atravessado metade de um rio escuro e turbulento, fascinante em cada página, mas cuja margem de chegada permanecia oculta. A grande questão era simples: conseguiria Manu Larcenet fechar uma história tão ambiciosa sem se perder nas suas próprias sombras? 

Agora que li este segundo volume integral, composto pelos tomos De Cabeça e Oxalá Os Budistas Estejam Enganados, posso dizer que sim. E posso dizer mais do que isso, até: aquilo que já me parecia uma grande obra revelou-se uma obra ainda maior. Com efeito, se adorei o primeiro volume, fiquei ainda mais maravilhado com este segundo, aquele onde chegam as grandes revelações e onde percebemos, finalmente, que nada foi deixado ao acaso.

Blast - Edição Integral - Volume 2 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros
Originalmente composta por quatro tomos, reunidos em Portugal em dois volumes integrais pela Ala dos Livros, a série encontra aqui a sua densa, triste e pesada conclusão. E aquilo que poderia ter sido apenas uma resolução de pontas soltas, transforma-se numa demonstração impressionante de controlo narrativo, por parte de Manu Larcenet. Quando chegamos ao fim, percebemos que o autor esteve sempre vários passos à nossa frente. E aquilo que poderia parecer disperso ou fragmentado revela-se, afinal, como parte de um trabalho muito maior e cuidadosamente arquitetado.

O cariz policial, que no primeiro volume servia sobretudo de moldura para o relato de Polza, regressa aqui com renovada intensidade. A investigação ganha peso, os interrogatórios tornam-se mais incisivos e os inspetores deixam progressivamente de ser simples ouvintes para assumirem, especialmente no final, um papel cada vez mais ativo. Este reforço da componente policial tem um efeito muito curioso: torna a leitura ainda mais compulsiva. Queremos saber. Aliás, precisamos de saber o que aconteceu com Polza e com Carole, a mulher de cujo assassinato Polza é suspeito. E cada nova revelação que nos vai sendo dada por Larcenet apenas aumenta a nossa ansiedade perante o inevitável desenlace.

Polza continua a contar a sua história aos inspetores. Continua a conduzir-nos através dos escombros da sua vida, ora seduzindo-nos com as suas palavras poéticas, ora chocando-nos com aquilo que nos revela. O discurso do protagonista mantém-se fascinante, poético, delirante e, acima de tudo, perturbador. As suas palavras parecem emergir de uma escuridão tão profunda que o leitor acaba por questionar constantemente aquilo que vê, aquilo que ouve e aquilo em que escolhe acreditar. Se querem obras que vos consumam um pouco do vosso ser, este Blast é uma delas.

Blast - Edição Integral - Volume 2 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros
O relato dos acontecimentos que levaram Polza até àquela sala de interrogatório continua a ser-nos dado de uma forma impregnada de violência, degradação e sofrimento. Há passagens particularmente difíceis de ler, quer seja pela sua brutalidade gráfica, quer seja pelo peso emocional que transportam. Mesmo assim, parece-me que Larcenet não procura propriamente o choque gratuito. O que faz é, aliás, muito mais desconfortável: obriga-nos a permanecer junto da dor desta personagem. A viver a sua dolorosa experiência de vida. Obriga-nos a observá-la. A compreendê-la. A senti-la. E isso transforma esta leitura numa viagem exigente e, por vezes, quase sufocante.

É precisamente por isso que o aparecimento da personagem de Carole, depois de tantas páginas a falar sobre ela, assume finalmente uma importância tão significativa, pois dá uma certa ternura ao livro e à personagem de Polza. Não diria que a presença de Carole se trate propriamente de luz, porque Blast nunca é uma obra luminosa, mas de uma suave mudança de temperatura emocional, vá. 

E, no entanto, há uma ironia cruel a acompanhar tudo isto. Desde o início sabemos que algo terrível aconteceu. Sabemos qual é o destino de Carole. Conhecemos, pelo menos parcialmente, o resultado final. Mas entre conhecer o resultado e compreender o caminho existe um abismo gigantesco. É precisamente esse abismo que Larcenet explora magistralmente ao longo destas páginas. 

Blast - Edição Integral - Volume 2 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros
Outra das grandes virtudes deste segundo volume está na forma como reorganiza tudo aquilo que julgávamos saber. Cada revelação lança nova luz sobre os acontecimentos anteriores. E aquilo que, no primeiro livro, parecia uma caminhada turbulenta e imprevisível revela, afinal, um percurso narrativo perfeitamente delineado. A sensação de construção é impressionante, gerando um sentimento muito forte de "recompensa narrativa". E isto já para não falar do segundo final da história - sim, podemos considerar que o final da obra se divide em duas partes.

Uma outra coisa que me agrada bastante em Blast é o facto de a obra desafiar qualquer tentativa de classificação simples. Estaremos perante um policial? Um drama psicológico? Uma crítica social? Uma (retorcida) história de amor? Uma descida ao inferno? Um tratado filosófico sobre a condição humana? Parece justo admitir que esta obra é tudo isso. 

Visualmente, Larcenet continua simplesmente assombroso. O seu preto e branco denso, carregado e visceral traz-nos momentos inesquecíveis e impregnados de expressividade dramática. Há páginas inteiras que parecem respirar angústia. Outras que parecem gritar sem emitir qualquer som. Gosto especialmente do "tempo narrativo" que o autor atribui à obra, com inúmeras vinhetas contemplativas sem texto, que permitem que possamos refletir, absorver, questionar. Até é possível que esta obra que no somatório dos dois livros editados pela Ala dos Livros, tem 800 páginas, pudesse ter sido contada em 200 ou 300 páginas. Possivel, era. Mas, claro, não seria o mesmo livro e perderia todo o seu impacto.

Blast - Edição Integral - Volume 2 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros
Os momentos de "blast", que são em menor número neste volume, representados num estilo de ilustração diferente, carregado com cores aplicadas a caneta de feltro, continuam a ser marcantes e incómodos para o leitor.

Em termos de edição, a Ala dos Livros continua o trabalho feito no primeiro volume, que se revela muito elegante, com o livro a apresentar capa dura baça, com detalhes a verniz, papel baço de primeira qualidade no miolo, e um excelente trabalho ao nível da impressão e da encadernação. Nota ainda, muito positiva, para a fita marcadora em tecido que granjeia ainda mais elegância à edição.

É mais um dos grandes livros do ano. E notem que este está a ser um ano espetacular no que ao número de grandes obras de BD diz respeito. 

E é precisamente por isso, e em jeito de conclusão, que Blast se afirma, sem hesitação, como uma das grandes obras-primas da banda desenhada contemporânea. Não é uma leitura relaxante. É torturante. Sombria. Terrível. Por vezes até dolorosa. Mas também é brilhante, inteligente e profundamente humana. É um murro no estômago, um buraco na alma e uma dor persistente no coração. Um daqueles livros raros que não nos deixam sair iguais àquilo que éramos quando os começámos a ler. Depois de terminar esta extraordinária viagem ao lado de Polza, resta apenas fazer aquilo que se faz perante as grandes obras: levantar-nos da cadeira, engolir em seco, acenar com a cabeça e aplaudir. Inesquecivelmente bom.


NOTA FINAL (1/10):
10.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Blast - Edição Integral - Volume 2 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros

Ficha técnica
Blast - Edição Integral - Volume 2 de 2
Autor: Manu Larcenet
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 408, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 225 x 280 mm
Lançamento: Agosto de 2026

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Análise: Terra ou Lua

Terra ou Lua, de Jade Khoo - ASA - LeYa

Terra ou Lua, de Jade Khoo - ASA - LeYa
Terra ou Lua, de Jade Khoo

Mesmo depois de já ter lido, não centenas, mas milhares de livros de banda desenhada, ainda parece haver, de quando a quando, livros que conseguem surpreender-nos. E quando falo em "surpreender" nem sequer estou a dizer se é pela positiva ou pela negativa - já lá irei. Não. Refiro-me a isso mesmo, a essa capacidade de surpreender, de nos questionar, de não ser mais do mesmo, de ser original. Terra ou Lua, de Jade Khoo, lançado há poucos dias pela editora ASA, é um desses livros. Bem, possivelmente até é o livro que mais me surpreendeu do ano, pois está bem carregado de inúmeras coisas com as quais me fui surpreendendo à medida que avançava na leitura desta primeira de duas partes.

Sim, convém ter isso bem presente, esta é uma obra pensada para ser finalizada através de um segundo tomo, que está previsto sair durante o primeiro semestre de 2027. E talvez por isso, por essa sensação de história inacabada e não resolvida, eu tenha ficado tão surpreendido. Há muitas pontas soltas que, sendo bem tratadas, podem tornar a obra em algo verdadeiramente inesquecível. Um clássico da banda desenhada, mesmo. Mas, caso essas pontas soltas não recebam o tratamento devido, o livro pode não ser tão inesquecível assim. 

Terra ou Lua, de Jade Khoo - ASA - LeYa
Esta é uma daquelas histórias que, levantando inúmeras e inúmeras questões pertinentes e bem-vindas, não resolve ainda nada em concreto. O que quer dizer que, após o lançamento do segundo tomo, quando ficarmos com uma noção completa da obra, é que poderemos ter presente se, de facto, esta é um trabalho espetacular... ou se é "só" uma obra interessante.

Mas comecemos com o que é mais óbvio: a qualidade do desenho. 

O estilo de ilustração da autora francesa, que bebe diretamente da inspiração em Miyazaki, remetendo-nos para vários dos filmes de animação do estúdio Ghibli, é um verdadeiro deleite para os olhos. A luz, as cores, as personagens, os cenários, o céu, as aves, a natureza, as casas - com especial destaque para telhas e tijolos, que são apresentados com um detalhe incrível - são desenhados e coloridos de tal forma, que parecem levar-nos para um universo poético do qual não queremos sair. É verdadeiramente impressionante. O desenho é espetacular, mas as cores aplicadas por aguarelas são qualquer coisa de fantástico.

Terra ou Lua, de Jade Khoo - ASA - LeYa
Sobre o desenho, tenho apenas uma queixa. E não é uma queixa por capricho ou ideologia... é uma queixa por ruptura na compreensão da história. Por alguma razão, a autora decidiu ilustrar as caras das personagens de uma forma algo andrógena. O protagonista da história, Othello, mesmo sendo um rapaz, apresenta a fisionomia facial de uma rapariga, tal como acontece com o seu melhor amigo, Ange. Já as raparigas do ciclo de amigos do protagonista, pelo menos uma delas, Pissenlit, bem como a mãe de Othello, parecem do sexo oposto. Parecem homens. Ora, tendo em conta a capacidade de ilustração de Jade Khoo, não me parece que isto seja uma incapacidade de desenho da autora. Parece-me, isso isso, uma opção pensada e assumida. Ou um capricho. Ora, se isto for aproveitado para a história, pois, como veremos à frente, trata-se de uma rgumento que se vai abrindo às camadas, tudo bem. Agora, se esta androgenia das personagens não servir nada à história, então parece-me uma coisa sem sentido. Naturalmente que cada autor desenha como quer... mas a bem da credibilidade, não faz sentido. Pelo menos, quanto a mim. 

Mas se já falei bastante sobre o desenho, o que dizer da história?

Confesso-vos que como é uma narrativa repleta de camadas e de novas coisas que nos vão sendo dadas aos poucos, em novas camadas, é-me difícil desenvolver muito o assunto sem que vos crie algum tipo de spoiler. Coisa que não quero. Portanto, vou tentar ser um pouco lato e dizer que a história acompanha o tal rapaz, Othello, que certo dia - e de forma aparentemente acidental - contribui para a morte do seu pai. O que o leva a um orfanato onde a vida não lhe é facilitada pelas outras crianças. Passam alguns anos até que recebe a visita do seu amigo de infância Ange, com quem partilha um profundo interesse ornitológico, ou seja, pelo estudo das aves, que o permite sair do orfanato para um estádio na Sociedade de Ornitologia, onde reencontra Solveig, Han e Pissenlit. 

Terra ou Lua, de Jade Khoo - ASA - LeYa
E é então que descobrimos que talvez estas crianças nem se encontrem no planeta Terra... ou encontrarão? Desculpem, mas tenho que ficar por aqui. Caso contrário, ponho-me a contar a história e a fazer revelações por mim indesejadas. Posso acrescentar, no entanto, que há também uma relevância para a história na origem de Othello. Tudo aquilo que ele julga saber sobre os seus pais - que entretanto, aquando do incidente que vitimou o seu pai, se encontravam de costas voltadas - pode não ser a verdade. Mais do que tentar descobrir onde está ou em que mundo vive, Othello parece estar a tentar descobrir quem é e até que ponto é responsável pelos acontecimentos que marcaram a sua infância.

Não deixa igualmente de ser significativo que a autora coloque as aves no centro de grande parte da narrativa. Mais do que um mero interesse científico das personagens, a ornitologia parece funcionar como uma ponte entre vários dos temas do livro: a liberdade, a deslocação, o equilíbrio ecológico e a procura de um lugar a que possamos chamar casa.

A história é extremamente densa, mas isso nunca me fez achá-la exagerada por todas as nuances que apresenta. Parece - e é - uma obra slice of life sobre a adolescência; parece - e é - uma obra de ficção científica em subgénero distópico; parece - e é - uma obra sobre os dramas da existência familiar; parece - e é - uma história com elementos de fantasia. Ao mesmo tempo que ainda nos dá mensagens ecológicas e poéticas sobre a nossa vida, fazendo vários "avisos à navegação" sobre a forma como habitamos o planeta Terra. 

Terra ou Lua, de Jade Khoo - ASA - LeYa
"Mas que guisado confuso", dirá o meu leitor mais cético. Assim parece, reconheço, mas também tenho que conceder que, pelo menos até agora, durante este primeiro tomo, é um autêntico gozo ler este livro. Surpresa após surpresa, coisa interessante após coisa interessante. Para onde nos está Jade Khoo a levar? Saberemos melhor no segundo episódio se é para um local fantástico ou não. Mas, para já, a viagem, por assim dizer, está a ser muito agradável. 

E o mais impressionante é que, apesar da quantidade de conceitos, personagens e mistérios que introduz, Jade Khoo raramente perde o controlo do ritmo. A leitura avança de forma natural, alternando momentos contemplativos com novas revelações, sem nunca se tornar excessivamente expositiva.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça e bom papel brilhante no miolo. A encadernação e impressão também são de boa qualidade. Uma nota, menos positiva, tem que ser dada sobre a legendagem: bem sei que a a editora tentou aproximar-se da font utilizada na edição original. Mas acabou por escolher uma font em que a letra "i" é serifada, o que causa uma experiência de leitura menos fluída. Um erro à maçarico, diria.

Em suma, posso dizer-vos que há livros que vivem das respostas que dão ao leitor e há livros que vivem das perguntas que lhe colocam. Como é o caso de Terra ou Lua. Ao longo de centenas de páginas, Jade Khoo semeia dúvidas, hipóteses e inquietações, convidando-nos a avançar sempre mais um capítulo na esperança de compreender o mundo que temos diante dos olhos. É um exercício arriscado, porque a recompensa foi adiada para um segundo volume, o que me obriga a olhar com alguma contenção para esta obra. Mas é também a prova da capacidade da autora para criar fascínio. Quando terminamos este livro não temos quaisquer respostas. Mas temos - eu, pelo menos, tenho! - uma vontade enorme e imediata de ler esta continuação. E isso, convenhamos, não deixa de ser um feito. Fiquei a "chorar por mais", reconheço.


NOTA FINAL (1/10):
9.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Terra ou Lua, de Jade Khoo - ASA - LeYa

Ficha técnica
Terra ou Lua
Autora: Jade Khoo
Editora: ASA
Páginas: 296, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 29,1 x 22 mm
Lançamento: Setembro de 2026

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Análise: O Julgamento dos Famintos

O Julgamento dos Famintos, de Jolan Thomas - A Seita

O Julgamento dos Famintos, de Jolan Thomas - A Seita
O Julgamento dos Famintos, de Jolan Thomas

Não é todos os dias que vemos uma editora portuguesa a apostar numa primeira obra de um autor estrangeiro que passou um pouco pelos pingos da chuva em termos de destaque internacional, mas é exatamente isso que A Seita fez quando lançou recentemente o livro O Julgamento dos Famintos, obra de estreia do francês Jolan Thomas. Mas em boa hora a editora portuguesa apostou neste livro, já que é bastante interessante e parece-me que também faz parte das missões de uma (boa) editora a aposta em novos talentos - nacionais ou estrangeiros. Editar obras de autores consagrados é fácil no sentido de não exigir uma aposta tão às escuras. Editar obras de autores em princípio da carreira é, portanto, uma verdadeira aposta nos mesmos.

O Julgamento dos Famintos, de Jolan Thomas - A Seita
O Julgamento dos Famintos
é um western que, à primeira vista, parece seguir caminhos já conhecidos, mas que rapidamente revela ambições mais amplas. A história decorre nos Estados Unidos do final do século XIX, uma época em que o país acelera rumo à modernidade, deixando para trás todo um universo ligado aos caçadores de peles, aos cowboys, aos índios e às formas de vida tradicionais. O caminho de ferro começa a substituir o cavalo e são inúmeros os desenvolvimentos que a Revolução Industrial coloca à disposição das sociedades. E é nesse contexto de mudança inabalável - quer estejamos prontos para ela ou não - que conhecemos as personages de Will, Sheld e John, três homens incapazes de encontrar o seu lugar num mundo em transformação tão rápida. E é também devido a essa transformação que está alterar as suas vidas, deixando estes homens na penúria, que congeminam, entre os três, um assalto que, logicamente, terá consequências irreversíveis.

Uma das particularidades mais interessantes da narrativa é a forma como ela é construída. Desde as primeiras páginas sabemos que o crime aconteceu, que os responsáveis foram detidos e que estão agora a ser julgados. A questão nunca é descobrir quem cometeu o delito, mas antes compreender como tudo aconteceu e, sobretudo, porque aconteceu. Ao inverter a lógica tradicional da narrativa, Jolan Thomas consegue despertar a curiosidade do leitor de uma forma particularmente eficaz, fazendo com que o tal julgamento que dá título ao livro funcione mais como um enquadramento narrativo. 

O Julgamento dos Famintos, de Jolan Thomas - A Seita
À medida que vamos conhecendo os antecedentes dos protagonistas, torna-se evidente que o autor pretende questionar a própria noção de culpa. Serão os três homens os únicos responsáveis pelo que fizeram ou terá a sociedade que os empurrou para a miséria uma parte da responsabilidade? Embora tal não tivesse sido antevisto por mim quando comecei a leitura deste livro, a verdade é que esta é uma obra especialmente interessada nas questões sociais e nas tensões de classe.

Nesse sentido, o livro afasta-se do western clássico centrado em heróis e vilões bem definidos. As personagens de Jolan Thomas são homens comuns, esmagados pelas circunstâncias e pelas mudanças económicas do seu tempo. O desaparecimento gradual de certas profissões, a concentração da riqueza e a dificuldade em acompanhar o progresso criam um cenário onde a marginalização parece inevitável para muitos. E isso dá que pensar, claro.

O Julgamento dos Famintos, de Jolan Thomas - A Seita
Todavia, também convém dizer que Jolan Thomas não transforma o livro num ensaio político disfarçado. Dira apenas que nos traz uma crítica, uma constatação subjacente à leitura da obra, mas sem que esse seja o único propósito da obra. Isto porque as reflexões surgem naturalmente a partir das personagens e das suas experiências, sem discursos excessivamente explicativos nem moralismos. 

Por falar em discurso, uma coisa que salta à vista na leitura deste livro é que são muitos os momentos de silêncio. Encontramos páginas inteiras sem que apareça uma legenda ou balão, e isso faz com que o nosso olhar se detenha naquilo que as personagens fazem. E como fazem. O autor prefere muitas vezes deixar que as imagens falem por si, em detrimento de povoar as pranchas com demasiada informação. 

E, especialmente se tivermos em conta de que estamos perante a primeira obra de um autor, há uma maturidade surpreendente na forma como Jolan Thomas consegue controlar o ritmo da leitura e dirigir a atenção para aquilo que realmente importa. Não é algo tão comum assim, digamos. 

O Julgamento dos Famintos, de Jolan Thomas - A Seita
Por outro lado, e isto talvez possa ser apontado como um ponto negativo por alguns, esta aposta nos silêncios e na narrativa visual faz com que a leitura do livro decorra com bastante rapidez. Apesar das cerca de 80 páginas de banda desenhada - que, mais uma vez, não são tão frequentes assim numa obra de estreia - o álbum lê-se num ápice. Não porque seja superficial, mas porque a fluidez da narrativa convida a avançar constantemente para a página seguinte. 

Mesmo assim, considero que a diferença que separa este "bom livro" de um "muito bom livro" é especificamente essa: se fosse maior em dimensão, teríamos uma experiência mais marcante e inolvidável. Assim, como está, é bom e apresenta-se cheio de potencial, mas senti que a obra poderia ainda ser mais impactante se tivesse mais páginas que permitissem desenvolver melhor as personagens.

O desenho também é algo que me surpreendeu bastante. E isso aconteceu logo após ter visualizado pela primeira vez a bela capa do livro. Desculpem a redundância da minha escrita, mas, mais uma vez, considero particularmente surpreendente perceber que esta é uma primeira obra de banda desenhada, tendo em conta a maturidade das ilustrações do autor. A qualidade do desenho de Jolan Thomas faz pensar num autor muito mais experiente. 

O Julgamento dos Famintos, de Jolan Thomas - A Seita
O traço, meio selvagem e solto, remeteu-me para uma combinação feliz entre Christophe Blain e Joann Sfar. Encontramos linhas nervosas, aparentemente espontâneas, carregadas de energia e carácter. Há algo de selvagem e de imperfeito no desenho, mas é precisamente essa rugosidade que dá vida ao universo retratado. 

Há também um claro lado cinematográfico ao longo de todo o álbum. Muitos dos enquadramentos parecem retirados de um filme, com grande atenção à composição visual e ao ritmo das cenas. É, portanto, uma obra muito interessante do ponto de vista visual.

A edição d' A Seita é em capa dura baça, com bom papel baço no miolo. O trabalho de encadernação e impressão também está bem feito. No final do livro, há um caderno de extras, com 10 páginas, que vem recheado de esboços e estudos de personagem. Um bom complemento, portanto.  

Em suma, O Julgamento dos Famintos afirma-se como uma estreia impressionante: um "western social", se é que lhe podemos chamar assim, que utiliza a queda de três homens para refletir sobre as transformações de toda uma sociedade. E mesmo sendo sobre um tempo passado traz consigo várias mensagens que podemos aplicar aos tempos atuais em que vivemos, em que a força da economia e da mudança não se compadece de deixar alguém para trás, avançando, ao invés, imparavelmente. Quer gostemos ou não.


NOTA FINAL (1/10):
8.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Julgamento dos Famintos, de Jolan Thomas - A Seita

Ficha técnica
O Julgamento dos Famintos
Autor: Jolan Thomas
Editora: A Seita
Páginas: 96, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 225 x 295 mm
Lançamento: Junho de 2026

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Análise: Soli Deo Gloria

Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros

Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros
Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour

Depois de lido este Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour, recentemente publicado pela Ala dos Livros, e que, justamente, está nomeado aos Prémios de Banda Desenhada da Amadora, uma coisa é certa: Soli Deo Gloria é uma dessas obras raras que nos lembram porque continuamos a ler banda desenhada. Há livros que entretêm, outros que impressionam pela técnica, outros ainda que revelam uma história memorável. Mas depois há aqueles livros em que tudo isso se parece alinhar numa harmonia perfeita. E é precisamente isso que acontece neste livro. Da primeira à última página, somos confrontados com uma obra de uma beleza avassaladora, que nos fala da música, da arte, da ambição, da fé e da condição humana com uma sensibilidade verdadeiramente extraordinária. Para aqueles que estão a ler este meu texto, digo-vos que não percam mais tempo e coloquem este livro na vossa lista de compras.

Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros
Soli Deo Gloria
, uma expressão em latim que significa "somente a Deus a glória" conta-nos a história e vida dos dois irmãos gémeos Hans e Helma. 

A ação decorre no período do Sacro Império Romano-Germânico e começa por nos revelar uma existência miserável por parte dos irmãos Hans e Helma, que vivem em extrema pobreza e sem qualquer acesso à música ou a qualquer tipo de arte. Até que um tio afastado lhes oferece uma flauta e Hans começa a extrair dela as primeiras notas musicais que a sua irmã Helma, portadora de uma voz cristalina, começa a tentar reproduzir com o canto. Mas após o desaparecimento de toda a sua família, pais e irmãos, os pequenos Hans e Helma precisam refugiar-se na densa floresta escura e inexplorada. São então acolhidos por um eremita que lhes permite desenvolver, um pouco mais, a sua apetência para a música. Depois disso, acabam hóspedes de um convento, onde aprendem a teoria musical, com base nos cânticos religiosos. Do convento passam para as instalações de um margrave, um chefe militar que mora sozinho, e que tem uma forte paixão pela música e pelos instrumentos musicais. Daí passam depois para a corte aristocrática. É uma história de permanente evolução musical - e social - de Hans e Helma, embora isso não queira dizer que seja uma evolução fácil ou sem a presença de eventos dolorosos. Pelo contrário.

Diria que é uma história que poderia facilmente ter sido apenas mais uma narrativa de superação. Nascidos na pobreza extrema, privados de quase tudo, e em especial da arte, os dois protagonistas acabam por encontrar na música um caminho possível para escapar ao destino aparentemente traçado para eles. Mas o argumento do autor Jean-Christophe Deveney (do qual este ano também já pudemos ler por cá o muito interessante O Sétimo Homem e Outros Contos) tem inteligência suficiente para transformar essa premissa numa reflexão muito mais rica. O que começa como uma história de sobrevivência torna-se progressivamente uma história de formação, uma procura incessante por algo maior, mais belo e mais puro do que a simples existência quotidiana. Não será essa a vida e demanda de qualquer artista?

O argumento está montado com uma elegância notável. Os diferentes nove capítulos funcionam simultaneamente como divisões na narrativa e como etapas nas vidas de Hans e Helma. Cada segmento tem a sua identidade própria, o seu ritmo particular e os seus desafios específicos. E há, parece-me, algo profundamente teatral nesta construção. Por vezes, pode dar a ideia de que estamos a assistir aos atos sucessivos de uma grande ópera, em que as personagens sobem ao palco para viver momentos de glória, de descoberta ou de desilusão, enquanto a música invisível da narrativa continua sempre a tocar. Gostei muito desta formato de "quase ópera" do livro.

Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros
Até porque essa estrutura contribui para a sensação de estarmos perante uma obra clássica, quase intemporal. Deveney compreende que as grandes narrativas não vivem apenas dos acontecimentos, mas sobretudo da forma como estes transformam aqueles que os vivem. Por isso, mais do que contar uma sucessão de episódios, Soli Deo Gloria acompanha a lenta metamorfose dos seus protagonistas, mostrando como cada conquista deixa marcas, como cada perda cobra o seu preço e como cada escolha redefine o percurso seguinte. Há, pois, um ótimo encadeamento entre capítulos. Se por vezes digo, em algumas das minhas análises, que sinto que o argumentista não sabia bem para onde estava a levar a sua obra, neste caso concreto sinto exatamente o oposto. Parece-me claro que Deveney sabia bem para onde queria levar a sua história e, a partir daí, "só" teve que tomar as decisões certas em termos de escrita, relato e eventos vividos pelas personagens. 

É uma história de esperança na medida a que nos leva a crer que, mesmo partindo do nada, todos nós podemos alcançar, através do trabalho, da paixão e do talento, uma posição mais justa face à nossa capacidade. Uma meritocracia, portanto. Por outro lado, é uma obra que também nos faz olhar para os mesmos eventos, mas de um modo quiçá menos otimista: o que é que perdemos, o que é que deixamos para trás quando perseguimos, de forma desenfreada, um sonho? Será que a perseguição pelo divino, por algo que ultrapassa o comum dos mortais, nos tira a nossa humanidade?

Hans e Helma não possuem privilégios nem estatuto. Possuem apenas talento, paixão e uma determinação inabalável. Mas à medida que os protagonistas se aproximam dos seus sonhos, torna-se impossível ignorar a pergunta que acompanha toda a narrativa: quanto custa verdadeiramente alcançar a excelência? Que amizades, que amores, que afetos, que partes de nós próprios ficam para trás quando dedicamos toda a nossa existência a um único objetivo?

É precisamente aqui que a obra atinge uma dimensão quase metafísica. A busca pela perfeição musical acaba por se transformar numa procura do sublime, do absoluto, de algo que parece ultrapassar os limites do humano. O próprio título sugere essa aspiração, convenhamos. Mas quanto mais perto as personagens parecem chegar dessa dimensão superior, mais o leitor é levado a questionar se a grandeza artística não exigirá também uma forma de renúncia. E, eventualmente, os caminhos dos dois irmãos, tão inseparáveis em tempos, acabam por seguir vias opostas. Mas voltarão a encontrar-se? 

As personagens são outro dos grandes triunfos do livro. Não há aqui figuras reduzidas a funções narrativas. Cada um dos irmãos possui uma densidade emocional impressionante, uma personalidade própria, desejos, falhas e contradições, sendo que uma das personagens é um pouco mais vilã do que a outra.

Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros
Ao mesmo tempo, a opção por utilizar nome de cidades e de músicos com pequenas variações - embora reconhecíveis - contribui para o universo algo onírico de uma história que parece, deste modo, ainda mais clássica. Amesterdão, Veneza ou Roma são cidades que aparecem reconhecíveis, mas que são mencionadas com nomes diferentes. E também os próprios nomes das personagens Aldiviva e Sach são variações de nomes de compositores clássicos como Vivaldi ou Bach. Vê-se que isto também fez com que o argumentista se tivesse divertido bastante a ocultar certas coisas na história, mas sem o fazer em demasia, o que permite com que seja possível a compreensão desses jogos por parte do leitor atento.

Também o texto acompanha a qualidade geral da obra. Os diálogos são naturais, credíveis e profundamente humanos.  

Se o argumento é fantástico, o que dizer dos magníficos desenhos de Édouard Cour?

A verdade é que, por muito que se elogie o argumento, é impossível não ficar igualmente deslumbrado perante o trabalho gráfico realizado pelo ilustrador. O desenho é maioritariamente a preto e branco, com bonitos cinzentos pelo meio. E quando a cor surge, associada à música, o efeito é simplesmente arrebatador. Esta cor que aparece associada à representação da música não só funciona muito bem em termos visuais, como é uma perfeita analogia para a obra que temos em mãos, ou não fosse a música uma das coisas que mais cor dá à nossa vida cinzenta. Quão mais sorumbática e sem cor seria a nossa vida sem música?

Por falar em música e em ilustração de música, que maravilhosa é a forma como Cour representa a música. E atente-se que desenhar o som, ou a música, não me parece tarefa fácil. De todo. Como desenhar o som? Como tornar visível aquilo que, por definição, é invisível? Não me recordo de muitas obras, em qualquer meio artístico, que consigam representar a experiência musical de forma tão convincente como este Soli Deo Gloria. Há momentos em que quase conseguimos ouvir as notas apenas através das imagens. Os movimentos, as linhas, as composições e os jogos de luz transmitem sensações auditivas com uma eficácia absolutamente extraordinária. Cour faz um trabalho magnífico, pois o leitor consegue, realmente, imaginar os sons da música graças aos desenhos do autor. Vou até mais longe: que boa ideia seria apresentar este livro junto da Associação Portuguesa de Surdos. Já trabalhei com surdos num projeto musical que tive (deixo aqui o link para o caso de haver gente interessada) e sei bem dos desafios inerentes à representação/reprodução da música perante quem não a consegue ouvir. Como tal, não tenho dúvidas de que este livro, voluntária ou involuntáriamente - isso não interessa para o caso em questão - faz um excelente trabalho nesse sentido. 

Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros
Mas voltando a Soli Deo Gloria, há que dizer que, para além da representação visual de algo tão abstrato como a música, o trabalho de Cour também é impressionante nas outras vertentes. As linhas são elegantes e conferem a cada página uma dimensão quase divina, tornando cada desenho ao mesmo tempo expressivo e poético. Se os cenários são muito realistas, as personagens são um pouco mais "cartoonescas", embora essa aparente diferença até funcione bem, contribuindo para a expressividade das suas reações. O resultado é marcante e impressionantemente belo.

Não admira, portanto, que a obra tenha sido tão bem recebida e alcançado tantos prémios, como o Prix BD Fnac France Inter 2026 e o Prix Libraires, pois é fenomenal a diversos níveis.

Em termos de edição, a Ala dos Livros volta a assegurar um fantástico trabalho. A capa já é lindíssima e já nos faz querer olhar para ela durante longos minutos. Mas os detalhes a dourado e a opção por capa dura com textura aveludada tornam a experiência ainda mais elegante e requintada. Por falar em elegância e requinta, a fita marcadora dourada que o livro traz é apenas mais um detalhe dessa classe. No interior, o livro apresenta bom papel brilhante. A encadernação, a impressão e os acabamentos são todos de qualidade superior.

Em suma, Soli Deo Gloria não é apenas uma excelente banda desenhada. É uma obra que parece reunir todas as qualidades que procuramos na grande arte: inteligência, beleza, emoção, ambição e profundidade. É uma celebração da música, mas também do sonho humano de alcançar algo maior do que nós próprios. Poucos livros conseguem ser simultaneamente tão grandiosos e tão íntimos. Poucos conseguem ser tão exigentes e, ao mesmo tempo, tão profundamente emocionantes. E poucos deixam no leitor a convicção tão clara de ter acabado de percorrer as páginas de uma obra-prima. Um ótimo exemplar para "atirar à cara" - so to speak - de aqueles - cada vez menos, felizmente - que dizem que a banda desenhada é uma arte menor. 


NOTA FINAL (1/10):
10.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros

Ficha técnica
Soli Deo Gloria
Autores: Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 280, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Julho de 2026