O 10º lançamento da Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público trouxe-nos a edição de uma obra de autoria portuguesa, facto que é de louvar e que já não acontecia, se a memória não me atraiçoa, desde a primeira coleção em que se editou Beterraba: A Vida numa Colher, de Miguel Rocha.
O livro em questão é este A Armação, de Daniel Silvestre, uma obra que eu já conhecia bastante bem, ainda do tempo em que a mesma foi premiada na categoria de Melhor Publicação Independente nos Prémios de Banda Desenhada da Amadora, em 2024.
Este é um belo livro, carregado de poesia, com um ambiente muito próprio que, em boa altura, a Levoir decidiu editar por cá, assegurando, desta forma, que o livro pode chegar a um público maior do que aquele que, naturalmente, conseguiu impactar na sua primeira edição independente.
Partindo das memórias do seu avô, José Silvestre, o autor constrói uma narrativa profundamente humana e enraizada num Portugal que já desapareceu. A história centra-se numa viagem ocorrida nos anos 30 do século XX. José, então com apenas dez anos, é encarregado de transportar sozinho um enorme peixe de 150 Kgs entre Porto Novo e Torres Vedras, recorrendo apenas à ajuda de um burro, que transporta o enorme peixe às costas.
O grande mérito do livro está precisamente na forma como transforma um acontecimento aparentemente banal numa experiência carregada de significado. A viagem física do jovem José acaba por se transformar, também, numa viagem emocional, onde os receios, as fantasias e a imaginação de uma criança desempenham um papel central na narrativa. Este peixe colossal que o jovem José transporta assume, portanto, uma dimensão quase mítica, como se fosse uma criatura saída de um conto popular ou de uma lenda transmitida entre gerações. O real e o imaginado cruzam-se constantemente de forma muito natural, o que me remeteu para um dos meus filmes preferidos, Big Fish, de Tim Burton.
Ao mesmo tempo, este A Armação funciona como um retrato atento da vida dos pescadores portugueses durante a primeira metade do século XX. Sem nunca cair num tom excessivamente documental, Daniel Silvestre consegue transmitir a dureza das condições de vida, a precariedade económica e o esforço físico exigido por um quotidiano que hoje parece distante, mas que moldou (e ainda molda?) gerações inteiras de pescadores.
É uma história que avança sem pressas, permitindo que o leitor absorva o ambiente, as paisagens e os estados de espírito das personagens. Essa abordagem mais contemplativa encaixa particularmente bem na temática da obra. Afinal, A Armação fala de um tempo em que as distâncias eram percorridas a pé, em que o trabalho começava cedo e em que cada tarefa exigia uma dedicação difícil de imaginar nos dias de hoje, em que nos preocupamos em ter uma vida mais despreocupada - se é que esta minha última afirmação faz algum sentido.
Por outro lado, A Armação uma obra bastante curta, já que conta apenas com 20 páginas de banda desenhada. E, talvez por isso, nos deixe com a sensação de "saber a pouco". Parece que estamos perante uma história e um universo que mereciam mais páginas. Mesmo assim, é um trabalho que consegue cumprir bem os seus pressupostos narrativos e, acima de tudo, revela uma coisa muito clara: Daniel Silvestre tem um potencial enorme para, assim que lançar uma obra de grande fôlego, marcar profundamente a banda desenhada portuguesa. Se com esta obra curta já o consegue fazer - em parte - imagine-se numa obra de grande fôlego!
Visualmente, o livro é igualmente muito bem conseguido. O traço de Daniel Silvestre revela-se elegante, expressivo e extremamente seguro de si mesmo. Nota-se que estamos perante um ilustrador experiente, com uma grande capacidade para representar tanto figuras humanas como espaços naturais e ambientes rurais.
Além disso, um dos aspetos mais interessantes do desenho é a sua versatilidade. Daniel Silvestre consegue introduzir alterações significativas na composição das páginas, nos enquadramentos e até no grau de realismo de determinadas sequências, sem que a obra perca a sua identidade visual. Existe sempre uma coerência gráfica - por ventura, suportada pela paleta de cores, em tons de azul - que mantém a leitura fluida e harmoniosa. A atmosfera visual consegue ser melancólica, poética e evocativa. Sou, portanto, um claro admirador do trabalho de ilustração do autor, já que também em Os Lusíadas, também editado pela Levoir, fiquei rendido aos desenhos de Daniel Silvestre.
Em termos de edição, o livro está muito bem conseguido. Além da capa dura baça, bom papel baço e boa encadernação e impressão, já habituais nesta coleção da Levoir, a edição da obra prima especialmente pelo grande conjunto de extras que traz consigo. Há um extenso texto do autor, quase em tons de ensaio, que explica muito bem o processo de criação da obra, os seus intentos e as suas dificuldades. Há ainda um conjunto de desenhos, esboços e estudos gráficos que são muito belos e que tornam este longo texto do autor em algo mais airoso do ponto de vista visual. São mais de 30 páginas a falar sobre o processo criativo do autor, o que faz com que a experiência de leitura vá bastante além da própria obra.
No final, A Armação afirma-se como uma obra sensível, inteligente e visualmente muito bonita. Sem recorrer a artifícios ou espetacularidades, Daniel Silvestre consegue construir uma homenagem emocionante à memória familiar e, simultaneamente, um retrato de um Portugal desaparecido. É um livro que confirma o enorme talento - e ainda maior potencial, diria - do autor português. A não perder!
NOTA FINAL (1/10):
8.6
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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