segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Análise: Soli Deo Gloria

Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros

Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros
Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour

Depois de lido este Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour, recentemente publicado pela Ala dos Livros, e que, justamente, está nomeado aos Prémios de Banda Desenhada da Amadora, uma coisa é certa: Soli Deo Gloria é uma dessas obras raras que nos lembram porque continuamos a ler banda desenhada. Há livros que entretêm, outros que impressionam pela técnica, outros ainda que revelam uma história memorável. Mas depois há aqueles livros em que tudo isso se parece alinhar numa harmonia perfeita. E é precisamente isso que acontece neste livro. Da primeira à última página, somos confrontados com uma obra de uma beleza avassaladora, que nos fala da música, da arte, da ambição, da fé e da condição humana com uma sensibilidade verdadeiramente extraordinária. Para aqueles que estão a ler este meu texto, digo-vos que não percam mais tempo e coloquem este livro na vossa lista de compras.

Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros
Soli Deo Gloria
, uma expressão em latim que significa "somente a Deus a glória" conta-nos a história e vida dos dois irmãos gémeos Hans e Helma. 

A ação decorre no período do Sacro Império Romano-Germânico e começa por nos revelar uma existência miserável por parte dos irmãos Hans e Helma, que vivem em extrema pobreza e sem qualquer acesso à música ou a qualquer tipo de arte. Até que um tio afastado lhes oferece uma flauta e Hans começa a extrair dela as primeiras notas musicais que a sua irmã Helma, portadora de uma voz cristalina, começa a tentar reproduzir com o canto. Mas após o desaparecimento de toda a sua família, pais e irmãos, os pequenos Hans e Helma precisam refugiar-se na densa floresta escura e inexplorada. São então acolhidos por um eremita que lhes permite desenvolver, um pouco mais, a sua apetência para a música. Depois disso, acabam hóspedes de um convento, onde aprendem a teoria musical, com base nos cânticos religiosos. Do convento passam para as instalações de um margrave, um chefe militar que mora sozinho, e que tem uma forte paixão pela música e pelos instrumentos musicais. Daí passam depois para a corte aristocrática. É uma história de permanente evolução musical - e social - de Hans e Helma, embora isso não queira dizer que seja uma evolução fácil ou sem a presença de eventos dolorosos. Pelo contrário.

Diria que é uma história que poderia facilmente ter sido apenas mais uma narrativa de superação. Nascidos na pobreza extrema, privados de quase tudo, e em especial da arte, os dois protagonistas acabam por encontrar na música um caminho possível para escapar ao destino aparentemente traçado para eles. Mas o argumento do autor Jean-Christophe Deveney (do qual este ano também já pudemos ler por cá o muito interessante O Sétimo Homem e Outros Contos) tem inteligência suficiente para transformar essa premissa numa reflexão muito mais rica. O que começa como uma história de sobrevivência torna-se progressivamente uma história de formação, uma procura incessante por algo maior, mais belo e mais puro do que a simples existência quotidiana. Não será essa a vida e demanda de qualquer artista?

O argumento está montado com uma elegância notável. Os diferentes nove capítulos funcionam simultaneamente como divisões na narrativa e como etapas nas vidas de Hans e Helma. Cada segmento tem a sua identidade própria, o seu ritmo particular e os seus desafios específicos. E há, parece-me, algo profundamente teatral nesta construção. Por vezes, pode dar a ideia de que estamos a assistir aos atos sucessivos de uma grande ópera, em que as personagens sobem ao palco para viver momentos de glória, de descoberta ou de desilusão, enquanto a música invisível da narrativa continua sempre a tocar. Gostei muito desta formato de "quase ópera" do livro.

Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros
Até porque essa estrutura contribui para a sensação de estarmos perante uma obra clássica, quase intemporal. Deveney compreende que as grandes narrativas não vivem apenas dos acontecimentos, mas sobretudo da forma como estes transformam aqueles que os vivem. Por isso, mais do que contar uma sucessão de episódios, Soli Deo Gloria acompanha a lenta metamorfose dos seus protagonistas, mostrando como cada conquista deixa marcas, como cada perda cobra o seu preço e como cada escolha redefine o percurso seguinte. Há, pois, um ótimo encadeamento entre capítulos. Se por vezes digo, em algumas das minhas análises, que sinto que o argumentista não sabia bem para onde estava a levar a sua obra, neste caso concreto sinto exatamente o oposto. Parece-me claro que Deveney sabia bem para onde queria levar a sua história e, a partir daí, "só" teve que tomar as decisões certas em termos de escrita, relato e eventos vividos pelas personagens. 

É uma história de esperança na medida a que nos leva a crer que, mesmo partindo do nada, todos nós podemos alcançar, através do trabalho, da paixão e do talento, uma posição mais justa face à nossa capacidade. Uma meritocracia, portanto. Por outro lado, é uma obra que também nos faz olhar para os mesmos eventos, mas de um modo quiçá menos otimista: o que é que perdemos, o que é que deixamos para trás quando perseguimos, de forma desenfreada, um sonho? Será que a perseguição pelo divino, por algo que ultrapassa o comum dos mortais, nos tira a nossa humanidade?

Hans e Helma não possuem privilégios nem estatuto. Possuem apenas talento, paixão e uma determinação inabalável. Mas à medida que os protagonistas se aproximam dos seus sonhos, torna-se impossível ignorar a pergunta que acompanha toda a narrativa: quanto custa verdadeiramente alcançar a excelência? Que amizades, que amores, que afetos, que partes de nós próprios ficam para trás quando dedicamos toda a nossa existência a um único objetivo?

É precisamente aqui que a obra atinge uma dimensão quase metafísica. A busca pela perfeição musical acaba por se transformar numa procura do sublime, do absoluto, de algo que parece ultrapassar os limites do humano. O próprio título sugere essa aspiração, convenhamos. Mas quanto mais perto as personagens parecem chegar dessa dimensão superior, mais o leitor é levado a questionar se a grandeza artística não exigirá também uma forma de renúncia. E, eventualmente, os caminhos dos dois irmãos, tão inseparáveis em tempos, acabam por seguir vias opostas. Mas voltarão a encontrar-se? 

As personagens são outro dos grandes triunfos do livro. Não há aqui figuras reduzidas a funções narrativas. Cada um dos irmãos possui uma densidade emocional impressionante, uma personalidade própria, desejos, falhas e contradições, sendo que uma das personagens é um pouco mais vilã do que a outra.

Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros
Ao mesmo tempo, a opção por utilizar nome de cidades e de músicos com pequenas variações - embora reconhecíveis - contribui para o universo algo onírico de uma história que parece, deste modo, ainda mais clássica. Amesterdão, Veneza ou Roma são cidades que aparecem reconhecíveis, mas que são mencionadas com nomes diferentes. E também os próprios nomes das personagens Aldiviva e Sach são variações de nomes de compositores clássicos como Vivaldi ou Bach. Vê-se que isto também fez com que o argumentista se tivesse divertido bastante a ocultar certas coisas na história, mas sem o fazer em demasia, o que permite com que seja possível a compreensão desses jogos por parte do leitor atento.

Também o texto acompanha a qualidade geral da obra. Os diálogos são naturais, credíveis e profundamente humanos.  

Se o argumento é fantástico, o que dizer dos magníficos desenhos de Édouard Cour?

A verdade é que, por muito que se elogie o argumento, é impossível não ficar igualmente deslumbrado perante o trabalho gráfico realizado pelo ilustrador. O desenho é maioritariamente a preto e branco, com bonitos cinzentos pelo meio. E quando a cor surge, associada à música, o efeito é simplesmente arrebatador. Esta cor que aparece associada à representação da música não só funciona muito bem em termos visuais, como é uma perfeita analogia para a obra que temos em mãos, ou não fosse a música uma das coisas que mais cor dá à nossa vida cinzenta. Quão mais sorumbática e sem cor seria a nossa vida sem música?

Por falar em música e em ilustração de música, que maravilhosa é a forma como Cour representa a música. E atente-se que desenhar o som, ou a música, não me parece tarefa fácil. De todo. Como desenhar o som? Como tornar visível aquilo que, por definição, é invisível? Não me recordo de muitas obras, em qualquer meio artístico, que consigam representar a experiência musical de forma tão convincente como este Soli Deo Gloria. Há momentos em que quase conseguimos ouvir as notas apenas através das imagens. Os movimentos, as linhas, as composições e os jogos de luz transmitem sensações auditivas com uma eficácia absolutamente extraordinária. Cour faz um trabalho magnífico, pois o leitor consegue, realmente, imaginar os sons da música graças aos desenhos do autor. Vou até mais longe: que boa ideia seria apresentar este livro junto da Associação Portuguesa de Surdos. Já trabalhei com surdos num projeto musical que tive (deixo aqui o link para o caso de haver gente interessada) e sei bem dos desafios inerentes à representação/reprodução da música perante quem não a consegue ouvir. Como tal, não tenho dúvidas de que este livro, voluntária ou involuntáriamente - isso não interessa para o caso em questão - faz um excelente trabalho nesse sentido. 

Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros
Mas voltando a Soli Deo Gloria, há que dizer que, para além da representação visual de algo tão abstrato como a música, o trabalho de Cour também é impressionante nas outras vertentes. As linhas são elegantes e conferem a cada página uma dimensão quase divina, tornando cada desenho ao mesmo tempo expressivo e poético. Se os cenários são muito realistas, as personagens são um pouco mais "cartoonescas", embora essa aparente diferença até funcione bem, contribuindo para a expressividade das suas reações. O resultado é marcante e impressionantemente belo.

Não admira, portanto, que a obra tenha sido tão bem recebida e alcançado tantos prémios, como o Prix BD Fnac France Inter 2026 e o Prix Libraires, pois é fenomenal a diversos níveis.

Em termos de edição, a Ala dos Livros volta a assegurar um fantástico trabalho. A capa já é lindíssima e já nos faz querer olhar para ela durante longos minutos. Mas os detalhes a dourado e a opção por capa dura com textura aveludada tornam a experiência ainda mais elegante e requintada. Por falar em elegância e requinta, a fita marcadora dourada que o livro traz é apenas mais um detalhe dessa classe. No interior, o livro apresenta bom papel brilhante. A encadernação, a impressão e os acabamentos são todos de qualidade superior.

Em suma, Soli Deo Gloria não é apenas uma excelente banda desenhada. É uma obra que parece reunir todas as qualidades que procuramos na grande arte: inteligência, beleza, emoção, ambição e profundidade. É uma celebração da música, mas também do sonho humano de alcançar algo maior do que nós próprios. Poucos livros conseguem ser simultaneamente tão grandiosos e tão íntimos. Poucos conseguem ser tão exigentes e, ao mesmo tempo, tão profundamente emocionantes. E poucos deixam no leitor a convicção tão clara de ter acabado de percorrer as páginas de uma obra-prima. Um ótimo exemplar para "atirar à cara" - so to speak - de aqueles - cada vez menos, felizmente - que dizem que a banda desenhada é uma arte menor. 


NOTA FINAL (1/10):
10.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour - Ala dos Livros

Ficha técnica
Soli Deo Gloria
Autores: Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 280, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Julho de 2026

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