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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Análise: Atrahasis

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books
Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira

Atrahasis é o livro de banda desenhada mais recente de David Soares e Sónia Oliveira, e foi o único lançamento de BD que a editora Kingpin Books, de Mário Freitas, nos fez chegar durante o ano 2025.

Depois de Sepulturas dos Pais, com desenhos de André Coelho, O Pequeno Deus Cego e Palmas para o Esquilo, ambos com ilustrações de Pedro Serpa, e do mais recente - embora não tão recente assim - O Poema Morre, este último, também com os desenhos de Sónia Oliveira, David Soares está de regresso à feitura de banda desenhada o que, tendo em conta a singularidade da sua abordagem ao género, é boa notícia para a banda desenhada nacional.

De facto, o autor é sempre único na forma como escreve as suas densas e (talvez não tanto assim) complexas histórias. Utilizando uma linguagem erudita, que o afasta de um público mais generalista, David Soares tem, no entanto, uma franja de leitores ávidos das suas obras.

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books
Neste Atrahasis, volta a dar-nos uma história que, mais do que tudo, assenta numa alegoria e que vai beber ao poema Epopeia de Atrahasis, um dos textos mais antigos da humanidade, datado de 1700 a.C. Com efeito, ainda antes de termos a Bíblia Sagrada cujo último livro, Apocalipse, nos adverte para um conjunto de calamidades que fazem a humanidade caminhar para o seu fim, já este Epopeia de Atrahasis nos dava a provar esse sabor da destruição da humanidade, neste caso, causada por um dilúvio abismal.

Nesta releitura desse poema, David Soares conduz-nos por essa visão da relação tensa entre deuses e humanos, estes marcados pelo sofrimento enquanto parte inaliável da sua condição e, aparentemente, seres contemporâneos da nossa existência.

É uma abordagem abstrata e de leitura não tão fácil assim.

Sendo sincero - como, aliás, sou sempre, não procurando parecer mais ou menos erudito do que aquilo que realmente sou - não tenho problemas em dizer-vos que considero não "ter estudos" para o abstracionismo da maioria das obras de David Soares. Mas como em tudo na vida, e após uma segunda leitura do livro, senti o fulgor de querer ir saber mais sobre Atrahasis, sobre o seu mito, a origem do seu poema e da sua história. E se um objetivo de uma obra pode ser o de criar ensinamentos e reflexão, já posso dizer que esta obra funciona de sobremaneira.

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books
De facto, a sua leitura é complexa e requere que nós, leitores, sejamos detentores de uma forte cultura, em termos histórico-literários, não tão frequente assim. É por isso que - e muitas vezes injustamente - os argumentos de David Soares possam parecer divagar em demasia. Mas se estivermos preparados ou, lá está, se fizermos o "trabalho de casa", certamente conseguiremos apreciar melhor estas obras.

Além dos temas alegóricos e abstratos, a própria linguagem do autor é de uma riqueza tal que é bem possível que demos por nós mesmos a ter que pesquisar alguma palavra no google. Eu, certamente, o fiz. Não julgo haver nada de mal nisso, aliás, pois se as palavras existem, é mesmo para serem utilizadas. Acho apenas que a opção por se utilizar determinado discurso ou linguagem em detrimento de outro, leva a que possamos estar, desse modo, a balizar o nosso público, seja pela utilização de uma linguagem erudita, seja pela utilização de uma linguagem mais banal ou mesmo corriqueira. Mas dizer isto é apenas um comentário "La Paliciano", pois, naturalmente, tudo o que somos ou fazemos delimita a aproximação dos outros face a nós.

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books
Mas, voltando a Atrahasis, e não obstante a beleza e coragem do autor para um texto propositadamente polido com palavras rebuscadas e sofisticadas, o próprio discurso deliberadamente erudito também pode esconder algumas debilidades narrativas, levando a que a obra se perca mais na forma do que no conteúdo. De certo modo, senti um pouco isso neste livro, pois já depois de mais bem preparado para melhor sorver os acontecimentos descritos e narrados, dei comigo a achar, em vários casos, o texto demasiado divagante. Como se, a partir de um tema, se limitasse a divagar de forma abstrata sobre o mesmo. É legítimo, como o é qualquer tipo de criação, mas igualmente passível de ser apenas um mero recurso de estilo e de reflexão. 

Todavia, devo dizer que, por outro lado, também aprecio a abordagem singular de David Soares, pois é algo que nos tira das azáfama do dia a dia, servindo como simples (e bem-vindo) escape. Como um livro de poesia. São divagações, sem dúvida, de cariz poético e filosófico mas, quanto a mim, têm - e devem ter - o seu lugar na produção nacional de banda desenhada. É a chamada BD de culto. Boa, mas não para toda a gente.

Daí que, mais uma vez, uma obra de David Soares me faça ficar com sentimentos mistos.

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books
Já quanto ao trabalho de Sónia Oliveira neste livro, devo dizer que as suas ilustrações a preto e branco impressionam pelo seu estilo a carvão, onde a negritude da obra salta à vista. Há algo de imediatamente evocativo nestes desenhos, como se os mesmos pudessem ter sido extraídos do booklet de um álbum - ou, pelo menos, da imagética - de uma banda de metal mais pesado. É uma presença sombria e intensa que caminha de mãos dadas com o texto de David Soares e que nos oferece uma força visual que capta a atenção do leitor, reforçando o clima da história.

Também aqui há um grande abstracionismo que resulta, nuns casos, muito bem, com imagens de grande fulgor poético e estético. Noutras situações, porém, o abstracionismo é de tal ordem que a perceção de alguns elementos e personagens se torna mais difícil, criando um (maior) desafio interpretativo ao leitor.  

Ora, tendo em conta que o texto já não é muito leve ou linear, o casamento é perfeito. Os desenhos de Sónia Oliveira não parecem procurar tornar mais perceptível o texto de David Soares e vice-versa. Texto e imagens caminham, pois, de mãos dadas, havendo coerência. Quer seja para o bem, quer seja para o mal. No meu caso, mantenho-me um pouco neutro, pois considero uma obra interessante a vários níveis, que me faz querer salvaguardá-la, mas que poderia almejar maiores voos se fizesse algum tipo de cedências. Logicamente, não estou a dizer - ou, sequer, a sugerir - que um autor deva equacionar cedências para a sua própria criação só para fazer a mesma chegar a um público maior. Também eu sou músico independente e é isso - música independente - que me dá gozo fazer. Agora, quando nos perguntarmos o porquê de determinada obra não chegar a um público maior, também temos que ter a honestidade intelectual de perceber os motivos para que essa situação aconteça.

A edição do livro é em capa mole, baça, com detalhes a verniz e badanas. No interior, o papel utilizado é baço e de boa qualidade, tal como o é a impressão, a encadernação e o aprumo gráfico da edição - o que é frequente nas obras editadas pelo selo de Mário Freitas.

No final, posso dizer que gostei de Atrahasis. A obra apresenta boas ideias e um universo visual e literário rico e denso, onde se sente a força da alegoria e a complementaridade entre o texto de David Soares e as ilustrações de Sónia Oliveira. Apesar disso, há momentos em que a narrativa e a própria relação entre imagens e palavras se tornam algo divagantes, tornando a leitura mais caótica e o enredo mais aleatório do que o desejável.


NOTA FINAL (1/10):
8.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira - Kingpin Books

Ficha técnica
Atrahasis
Autores: David Soares e Sónia Oliveira
Editora: Kingpin Books
Legendagem e design de Mário Freitas
Páginas: 72, a preto e branco
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 18 x 27 cms
Lançamento: Novembro de 2025



terça-feira, 18 de novembro de 2025

Kingpin Books publica nova BD!...


...E traz-nos o regresso dos autores David Soares e Sónia Oliveira!

A Kingpin Books acaba de anunciar que irá lançar o novo livro de banda desenhada da dupla de autores portugueses formada por David Soares e Sónia Oliveira que, em 2015, já havia lançado O Poema Morre.

Este novo livro intitula-se Atrahasis e deverá ter apresentação e lançamento no próximo Marvila Comics, que acontecerá entre os dias 29 e 30 de novembro.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira

Sufocante e frenético, Atrahasis é uma observação filosófica e visceral sobre dissolução civilizacional. 

Reunindo os estilos inconfundíveis de David Soares e Sónia Oliveira, dez anos depois de O Poema Morre (Kingpin Books, 2015), esta é a definitiva alegoria do apocalipse.



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Ficha técnica
Atrahasis
Autores: David Soares e Sónia Oliveira
Editora: Kingpin Books
Legendagem e design de Mário Freitas
Páginas: 72, a preto e branco
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 18 x 27 cms
PVP: 18,99€

sexta-feira, 11 de março de 2022

Análise: Umbra #3

Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy

Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy
Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches e vários autores

A Umbra é um projeto independente de banda desenhada nacional – embora aqui seja contemplada uma participação estrangeira - que reúne algumas histórias curtas – mas que, felizmente, não são assim tão curtas – e que já vai na terceira edição. Nota para o facto de ser uma antologia em que o tema central das histórias assenta, praticamente sempre, na ficção científica ou no universo da fantasia distópica.

Tenho que começar por dizer que é uma iniciativa fantástica e que é impregnada por qualidade do princípio ao fim. Desde sempre que considero as antologias de banda desenhada como aquela parte das apresentações de filmes – os chamados trailers – que vemos no cinema, antes de um filme começar. Isto porque, sendo histórias mais pequenas, têm o especial condão de nos apresentarem exercícios criativos, narrativos e visuais. Como se fossem o trailer para um qualquer filme. Claro que, dito assim, pode parecer que estou a menosprezar as curtas de banda desenhada. Mas, meus caros, o meu intuito é exatamente o oposto. Pois acho verdadeiramente importante que estas antologias com curtas de bd vão sendo lançadas para que nós, leitores, possamos destrinçar autores e estilos, bem como conhecer novas e especiais abordagens.

Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy
Ora, olhando para este Umbra #3, não diria que o parágrafo anterior se aplique assim tanto. Isto porque, nem as histórias deste número são assim tão curtas - como, aliás, já referi mais acima -, nem os autores que aqui aparecem são desconhecidos. Todos eles são já bastante “batidos” e experientes autores de banda desenhada. Falo de Filipe Abranches – o autor que também é o editor da publicação e que, portanto, vai ao leme da Umbra –, de David Soares, de Pedro Moura, de Ricardo Baptista e de Bárbara Lopes. Sendo totalmente honesto, o único autor que me era mais desconhecido era mesmo o do artista canadiano convidado, Simon Roy, que assina a última história do livro, intitulada Naufragado com Dan, o Gorila.

Portanto, se é verdade que as antologias têm a mais-valia de apresentar novos artistas – ou novas e/ou diferentes abordagens artísticas -, também é verdade que a Umbra trilha o seu próprio caminho, procurando ser uma seleção de bons artistas, que nos dão boas histórias que circundam os temas da “ficção científica, das teorias da conspiração, dos cenários pós-apocalípticos”, como nos revela o site oficial do projeto.

São histórias pesadas e negras que nos convidam a uma breve reflexão. Todas elas são interessantes e apresentam abordagens visuais muito díspares entre si como é, bem sabemos, uma das características inerentes às antologias de banda desenhada.

Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy
Fazendo uma breve menção a cada uma das quatro histórias que compõem este Umbra #3, começo com a história de abertura: Intenções Comestíveis: Ou Nova Tábua de Cebes, com argumento de David Soares e ilustrações de Filipe Abranches. É, sem dúvida, a história mais densa e pesada e, quanto a mim, em termos de alinhamento, deveria ser a história que fechava o livro. Assim, obriga-nos logo a mergulhar no denso e profundo, ainda mal chegámos à segunda página do livro. Após um cataclismo ter feito desaparecer as montanhas, à boa maneira de David Soares, é-nos dado um universo negro, medonho e pesado, com inúmeras referências mitológicas que se consubstanciam no mundo real em que vivemos. Como se tudo não passasse de uma metáfora surreal da nossa existência mundana. A arte de Filipe Abranches apresenta-se suja, rabiscada, complexa e em total linha de harmonia com a história (desarmoniosa) que nos é dada por Soares. Tudo junto funciona bastante bem. Abranches domina muito bem o preto e o branco, brincando com as luzes e as sombras contrastantes de forma agradável. No entanto, também é verdade que, por vezes, os seus desenhos, de tão carregados e “sujos” que estão, podem tornar-se um pouco ilegíveis.

A segunda história, Weep me Not Dead, faz uma boa ponte distópica para aquilo que poderia – poderá? – ser um futuro possível para a civilização humana. Numa sociedade moderna, que premeia a meritocracia, o capitalismo e o liberalismo ideológico, teremos nós uma vida mais feliz e humana ou, em contraste com isso, teremos uma existência mais maquinal, mais fria e mais politicamente correta? Uma reflexão muito contemporânea e inteligente de Pedro Moura que muito me agradou. A história é servida com as ilustrações de Ricardo Baptista que são verdadeiramente a antítese das ilustrações da história anterior. Os desenhos de Baptista assumem-se como limpos, simplistas, com muita legibilidade e com uma aura totalmente digital. Também em linha com a história que nos é dada, diria. Gostei bastante.

Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy
A terceira história, Tens a Certeza?, é da autoria de Bárbara Lopes, que assume o argumento e as ilustrações e, devo dizer, foi a história que mais me impressionou. Isto porque é um conto onde quase não existem diálogos e onde a autora nos mostra uma longa viagem do seu protagonista, recorrendo a opções gráfico-narrativas muito interessantes e onde o seu traço moderno - e que vai parecendo melhorar de história para história - nos dá desenhos muito ricos. Seja no desenho das personagens, dos ambientes, das expressões faciais, das cenas de ação. Também na planificação e enquadramentos, Bárbara Lopes se revela muito talentosa. Além de que a história, que nos mostra um protagonista a levar a cabo uma longa viagem à procura de respostas, assume uma audácia narrativa ao nos deixar com respostas incertas entre o que é real e o que não é. Muito bem feito e o ponto alto deste Umbra #3, quanto a mim.

Finalmente, terminamos com Naufragado com Dan, o Gorila, a história do artista estrangeiro convidado, Simon Roy, que nos oferece a experiência de um homem naufragado numa ilha que tem como companhia um gorila falante, com quem vai mantendo diálogos, até ao dia em que descobrem um barco naufragado na ilha, com várias provisões, incluindo dez garrafas de whisky, que deixarão o homem e o gorila igualmente embriagados e a fazerem-nos refletir através do seu diálogo. O desenho de Roy é elegante e bonito. Com traço relativamente simples, as ilustrações ganham mais força através da forma como são utilizados os cinzentos, que conferem dinâmica e beleza ao conjunto. Não conhecia o autor e fiquei agradado.

Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy
Em termos de edição, o livro apresenta uma boa qualidade de impressão e encadernação, tem capa mole brilhante e papel baço de boa qualidade. Nota ainda para a fantástica ilustração da capa que é assinada por João Maio Pinto. Devo dizer que gostaria que a lombada do livro tivesse o nome da publicação em vez de só ter o número. Do ponto de vista de arrumação/catalogação, seria mais fácil de encontrar, quer nas nossas estantes, quer nas livrarias.

Tratando-se de um projeto que evoluiu a partir de uma campanha de crowdfunding bem-sucedida, tem ainda mais o meu respeito, pois, sendo eu uma pessoa que, na música, conhece bem o que é e quão relevante para trabalhar um público pode ser uma campanha de crowdfunding, fico feliz pela iniciativa se ter revelado um sucesso.

Em suma, Umbra #3 é uma antologia de banda desenhada que vale muito a pena conhecer pois consegue reunir um bom número de artistas consagrados da bd nacional, enquanto nos oferece histórias densamente povoadas por elementos de uma ficção científica distópica. Recomenda-se.


NOTA FINAL (1/10):
8.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada, de Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy

Ficha técnica
Umbra #3 – Antologia de Banda Desenhada
Autores: Filipe Abranches, David Soares, Pedro Moura, Ricardo Baptista, Bárbara Lopes e Simon Roy
Editora: Umbra Edições
Páginas: 112, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Dezembro de 2021