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terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Análise: A Polaroid em Branco

A Polaroid em Branco, de Mário Freitas - Kingpin Books

A Polaroid em Branco, de Mário Freitas - Kingpin Books
A Polaroid em Branco, de Mário Freitas

Em outubro de 2022 história foi feita quando Mário Freitas, um conhecido autor e editor de banda desenhada da nossa praça, lançou A Polaroid em Branco, a primeira obra portuguesa feita através – ou com – Inteligência Artificial. E este é um daqueles casos em que, a priori, e independentemente do quão bom ou mau o livro pudesse ser, já representava algo histórico para a banda desenhada nacional.

E também por todo o debate que a Inteligência Artificial tem gerado nos últimos meses, é difícil falar de A Polaroid em Branco, fugindo a esse tema. São muitas as vozes que defendem cegamente a utilização da IA, mas também são muitas as vozes que defendem que a utilização deste tipo de tecnologias é em tudo menos ética, especialmente tendo em conta que, aparentemente, estes softwares recolheram o estilo de ilustração de muitos autores e o sintetizaram virtualmente. E quando alguém pede à máquina, através de um prompt, para criar determinada imagem, a máquina está a “roubar” os estilos de outros autores que não são remunerados por tal. A apropriar-se da arte de outrem, vá. No outro lado da barricada, os defensores da IA contra-argumentam que mesmo quando é o homem o desenhador, este também está, de forma consciente ou não, a apropriar-se de estilos e técnicas já perpetrados no tempo por outros autores.

A Polaroid em Branco, de Mário Freitas - Kingpin Books
Sou-vos sincero: ao contrário de muita gente que é "totalmente contra" ou "totalmente a favor", eu não tenho, ainda, uma opinião muito formada sobre o tema. Como é algo novo, tenho estado atento a todos os argumentos e acho que percebo as diferentes fações. Simplesmente, e por agora, é-me difícil ser totalmente a favor ou totalmente contra neste assunto. Tendo em conta que sou alguém que não sabe desenhar, gosto de olhar para a IA como uma ferramenta que me permitirá desenhar ou, pelo menos, chegar ao desenho que eu quero. Bem o sei, e neste livro, Mário Freitas refere-o, não é a máquina que faz tudo. Depois é preciso tratar as imagens, alterando-as a bel gosto do autor. A máquina não faz, por isso, a papinha toda.

Não obstante, e porque sou alguém que respeita a criação do autor original, também não sei se não será uma apropriação não ética da criação de outros autores. Preocupa-me que o criador original de algo não seja remunerado – ou, no mínimo, creditado ou bonificado – pela sua criação visto que, sem ele, essa criação não existira. Mas, dito isto, entra em cena a fação “pró-IA” e diz: “ah, mas nenhuma criação é totalmente original. Somos sempre influenciados por toda a envolvente e é humanamente impossível, creditarmos todas as nossas influências”. Pois, como vêem, o assunto dá pano para mangas.

Eu acredito que, se usado como ferramenta e tentando acautelar a criação dos autores humanos da melhor forma possível (não me perguntem qual), a IA pode ser algo muito positivo. Já quanto àquele argumento do “ah… mas isto vai tirar trabalho aos desenhadores”, não concordo tanto. Quanto a mim, estas máquinas representam apenas mais uma forma de fazer algo. Admito que a IA possa até fazer com que mais argumentistas se aventurem a fazer um livro de BD (ou ilustrado) que, de outra forma, não conseguiriam. Todavia, continuará a ser necessário o trabalho humano. 

Na música, as mesas de loops de ritmo também iriam acabar com os bateristas, não era? Ou os ProTools e as suas enormes bibliotecas de instrumentos em MIDI também iriam acabar com os instrumentistas não era? Também se dizia que os condutores da UBER iriam acabar com os taxistas e continuo a ver táxis em todo o lado, certo? As coisas novas geram sempre algum medo, mas daí a dizermos que uma tecnologia, ainda por cima artística, vai exterminar com uma profissão já existente… vai uma longa distância. 

Até porque o facto de uma tecnologia assegurar que eu consigo ter desenhos para ilustrar as minhas histórias, não pressupõe que, depois, os leitores as apreciem. A palavra final, em termos comerciais, cabe sempre ao mercado. E se, por ventura, os leitores preferirem ilustrações feitas por humanos, então essas serão mais apreciadas e valorizadas, comercialmente falando. Aliás, e tal como já escrevi anteriormente, continuo a achar que a grande razão da polémica pela utilização de ilustrações geradas por IA é o facto de o resultado final ser verdadeiramente impressionante. Estou certo que se a qualidade do output da IA não fosse tão boa, não haveria qualquer polémica.

Portanto, e como julgo ter deixado claro, ainda me é difícil ter uma opinião fechada sobre o tema. Pelo menos, para já.

A Polaroid em Branco, de Mário Freitas - Kingpin Books
E focando-me mais em A Polaroid em Branco, há que dizer que Mário Freitas merece, em primeiro lugar, o meu louvor pela tentativa, pela coragem e pelo passo em frente que deu, ao atirar-se para fora de pé e proporcionar-nos esta primeira BD feita com o auxílio da Inteligência Artificial.

Este é um curto livro de 16 páginas em que o autor nos convida a uma divagação narrativa – chamemos-lhe assim - de teor onírico sobre a procura de uma identidade e a tentativa de rutura com aquilo que é suposto ser, só porque é o pré-estabelecido. Aquilo que os outros esperam de nós e aquilo que nós mesmos queremos ser. É um bom mote, diria.

A partir daí, o autor leva-nos para um mundo abstrato, onde o bigode e a posterior ausência e procura pelo mesmo simbolizam esta tal sede de autoconhecimento e de identidade. Ao longo da caminhada do protagonista, surge uma peculiar e algo sinistra Fada dos Bigodes que, narrativamente falando, funciona bem, ao permitir ao protagonista interessantes diálogos e a presença de um metatexto naquilo que nos é dado, não só pela personagem principal como, e especialmente, pela própria Fada dos Bigodes.

Em termos de argumento, e sabendo de antemão que foram as experiências visuais de Mário Freitas que o levaram a construir, posteriormente, uma história que ligasse todos os pontos, acho que este A Polaroid em Branco encerra em si um belo exercício criativo. Logicamente, isto também faz com que, de certo modo, a história possa parecer algo "amarrada" e que navega ao sabor da corrente visual.

Talvez por isso, a história deste A Polaroid em Branco acabe por ser, e como o próprio autor o admite, no início do livro, um certo devaneio narrativo. O texto é bom e bem tecido, e está carregado de mensagens subliminares e vários piscares de olhos. Alguns deles, como algumas frases que parecem autobiográficas ou a referência a Tintin, são mais facilmente percetíveis. No entanto, há depois um conjunto de afirmações ou referências que, certamente, por serem mais abstratas ou menos lineares, servirão muito mais como capricho criativo do próprio autor do que como reais complementos à história que nos é dada.

Visualmente, temos a presença de todo um universo imagético que achei deveras interessante. Fica clara a inteligência do autor em ter sabido fazer uma história que pudesse navegar ao bom sabor, algo do fantástico e do abstrato, que as imagens nos passavam. A história encaixa bem nas imagens e as imagens encaixam bem na história, por assim dizer.

A Polaroid em Branco, de Mário Freitas - Kingpin Books
Em termos de desenho, podemos então dizer que o resultado é muito interessante. Estranho, mas no bom sentido da palavra. Estranhamente interessante ou interessantemente estranho. Há vários casos em que os bigodes parecem tão reais e palpáveis, que parecem feitos a partir de colagens, remetendo-me, por exemplo, para alguns trabalhos de Dave Mckean. Também em termos de cor, onde predominam os amarelos e os laranjas, a obra assume um tom bastante surrealista. 

Posso dizer que o grande desafio de utilizar um software de Inteligência Artificial para gerar uma história em banda desenhada será, sem sombra de dúvidas, o alcance – ou não – de um fio condutor imagético, isto é, que de umas imagens para outras fiquemos com a noção de que estamos a ler uma história com princípio, meio e fim, e com uma sequência constante em termos visuais. Acho que, bem vistas as coisas, Mário Freitas consegue com este A Polaroid em Branco, superar essa dificuldade maior.

É verdade que há alguns casos onde a arte visual talvez mude de forma mais abrupta do que aquilo que seria recomendável. Contudo, e como o autor teve a inteligência de escolher uma história do universo onírico e surrealista, acaba por ser mais fácil de aceitar esta certa heterogeneidade gráfica. Estes desenhos não serviriam para contar uma história mais mundana, mais terra-a-terra. Mas servem bem para navegarmos por este universo abstrato.

A Polaroid em Branco, de Mário Freitas - Kingpin Books
Mas se Mário Freitas consegue nesta obra um bom equilíbrio entre argumento e ilustrações oníricas, devo dizer que foi na forma como a obra foi planificada - e, com isto, refiro-me ao desenho das páginas - que me senti mais defraudado. Especialmente porque sei que o autor muito valoriza este tipo de questões. 

Explico: são muitas as páginas onde - inexplicavelmente, diria - Mário Freitas opta por não colocar divisões ou margens entre vinhetas e creio que isso faz com que haja uma menor orgânica entre as mesmas, ficando a parecer que as ilustrações foram ali coladas sem grande preocupação. No par de páginas em que a Fada dos Bigodes se dá a conhecer, o autor colocou (e bem) margens brancas entre as vinhetas. E é nestas duas páginas que o arranjo de página melhor funciona. Infelizmente o autor não o volta a fazer. E aquilo que mais temos são largas margens pretas verticais, mas sem margens entre vinhetas. Ou quando há divisão entre vinhetas, aparece apenas um fino traço preto. Faz com que tudo pareça muito “all over the place”, claustrofóbico e desarrumado. 

Conhecendo o autor como conheço, e a sua (bendita) preocupação com o detalhe, custa-me a crer que este desenho das páginas não tenha sido bem pensado por Mário Freitas. Talvez tenha sido um experimento seu ou talvez tenha pretendido passar algo ao leitor, que eu não fui capaz de alcançar. Seja como for, é a minha principal “queixa” em relação ao livro.

A Polaroid em Branco, de Mário Freitas - Kingpin Books
Em termos de edição, o livro apresenta capa mole com agrafos e um bom papel couchê. Convém dizer também que este é o livro que inaugura uma nova chancela do autor, intitulada Mário Breathes Comics. Aparentemente, o autor terá outras ideias de histórias curtas de banda desenhada para lançar nos próximos tempos. Que venham elas.

Ainda sobre a edição, posso dizer que achei curiosa a não tão breve explicação que o autor dá sobre a forma como usou a Inteligência Artificial nesta obra. Tendo em conta o processo pioneiro para o mercado português, acho que foi uma boa explicação mesmo que, de certa forma, o autor me parecesse estar a justificar-se. Não creio que o autor o tivesse que fazer. É legítimo - e digno de respeito - o trabalho do autor neste livro.

Em suma, acredito que este A Polaroid em Branco vale mais pelo statement que traz consigo e por ser um livro que, aconteça o que acontecer, ficará na história da banda desenhada portuguesa como a primeira BD ilustrada com o auxílio da IA. Aparte esse grande feito, é bom que o autor Mário Freitas, que andava meio afastado da criação enquanto argumentista, volte ao lançamento de novas histórias. Devido ao seu carácter experimental, não será um livro perfeito. Mas, tal como tudo aquilo que é pioneiro, traz consigo essa mesma valência de ser o primeiro em algo o que, certamente, influenciará novas tentativas de outros autores no futuro. Que assim seja.


NOTA FINAL (1/10):
7.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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A Polaroid em Branco, de Mário Freitas - Kingpin Books

Ficha técnica
A Polaroid em Branco
Autor: Mário Freitas
Editora: Kingpin Books
Páginas: 16, a cores
Formato: 16,5 x 23,5 cms
Lançamento: Outubro de 2022

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Análise: Lucky Luke - A Arca de Rantanplan

Lucky Luke - A Arca de Rantanplan, de Achdé e Jul - ASA

Lucky Luke - A Arca de Rantanplan, de Achdé e Jul - ASA
Lucky Luke - A Arca de Rantanplan, de Achdé e Jul

Tinha muitas expetativas para este novo álbum de Lucky Luke, lançado em Outubro pela ASA, especialmente por dois motivos: primeiro, porque gostei bastante do último álbum da dupla Achdé e Jul que foi Um Cowboy no Negócio do Algodão. Achei que, com esse livro, o famoso cowboy da banda desenhada voltou à boa forma com um volume bastante bem conseguido a todos os níveis. Por outro lado – e já aqui o escrevi diversas vezes – sou um grande fã da personagem de Rantanplan. Há várias personagens que se tornaram emblemáticas na série de Lucky Luke, mas, para mim, Rantanplan, “o cão mais estúpido do faroeste” é, sem grande concorrência, a personagem mais divertida da série. Adoro-a! E sabendo que iria figurar na história - tendo até o destaque de ter o seu nome no título do álbum - deixou-me muito entusiasmado.

Lucky Luke - A Arca de Rantanplan, de Achdé e Jul - ASA
Depois de feita a leitura, as minhas expetativas para este A Arca de Rantanplan foram correspondidas a metade. Não é um álbum tão bom como eu desejava – e fica vários furos abaixo de Um Cowboy no Negócio do Algodão – mas é, mesmo assim, uma boa leitura e um livro que vai agradar aos muitos fãs que Lucky Luke tem pelo mundo e, concretamente, em Portugal.

Como tem sido feito pela dupla de autores Achdé e Jul, há também neste A Arca de Rantanplan uma tentativa de pegar num tema da atualidade e transpô-lo para o universo de Lucky Luke. Isso traz sempre uma certa pertinência e valor histórico aos álbuns do célebre cowboy, já que, acabam sempre por nos fazer aprender algo mais sobre determinado tema. No caso deste livro, o tema é a proteção dos direitos dos animais e a sugestão de, para garantia dos mesmos, uma adoção do vegetarianismo. O tema é, portanto, mais do que atual.

Ora, no universo dos cowboys, se há coisas onde os humanos não perdiam tempo era com os direitos dos animais. Cavalos, vacas, ovelhas, bisontes… eram vistos como matéria-prima para o enriquecimento dos seus proprietários. Aliás, basta pensarmos no próprio nome “cowboy” (ou “vaqueiro”, em português) para percebermos que os animais eram a fonte de rendimento de uma grande parcela da população. Ainda o é, de um modo mais industrializado e capitalista. Disso não tenhamos quaisquer dúvidas.

No entanto, e no longínquo ano de 1866, Henry Bergh criou a USPCA, a “Sociedade Americana para a Prevenção da Crueldade contra os Animais”.

Lucky Luke - A Arca de Rantanplan, de Achdé e Jul - ASA
E, com base nisso, o argumentista Jul traz-nos a personagem de Ovide Byrde que, em pleno faroeste, cria a Sociedade Protetora dos Animais do Condado de Cattle Gulch, cujo próprio nome, “Ravina do Gado”, já nos faz antever os problemas que surgirão desta iniciativa. E assim é. Devido às suas atividades de tentativa de salvar todo e qualquer animal, Ovide Byrde passa a ser perseguido pela população local, estando à beira de um linchamento público quando Lucky Luke esbarra com a situação e resolve intervir, em auxílio do desamparado Byrde.

Byrde é um homem à frente do seu tempo e, como tal, age de um modo incompreensível para os demais: acolhe na sua quinta todos os animais feridos ou abandonados. Mas é quando Ovide Byrde descobre, devido a Rantanplan, uma grande quantidade de ouro, que os eventos começam a ser alterados. A novidade sobre a riqueza do protetor dos animais espalha-se e, em pouco tempo, surge em cena Tacos, um presidiário que é posto em liberdade e que logo encabeça um plano para extorquir a fortuna a Ovide Byrde. Em nome do bem-estar animal, e com a ajuda de Tacos, Ovide Byrde passa a levar ao extremo as suas metodologias em defesa dos animais.

Se até aqui me parecia que o enredo, sendo simples, estava bem pensado por Jul, depois disto o autor introduz os índios nesta história, o que dá uma clara sensação de filler ou, em bom português, dá uma clara sensação de “enchimento de chouriços”. É certo que o pequeno índio Rabanete Ágil procura ser o estereótipo de um jovem que, de um momento para o outro, começa a perceber a importância da vida dos animais e tenta operar, em si e no mundo à sua volta, uma mudança drástica, recusando tudo o que é carne e defendendo uma alimentação vegetariana. Mas mesmo permitindo alargar um pouco o espetro da temática do livro, parece-me que o autor o faz de forma um pouco atabalhoada. E é, pois, a partir deste ponto que a história perde fulgor. Não fica estragada, mas perde o bom ritmo que levava, parecendo algo desinspirada e até algo forçada daqui em diante.

Lucky Luke - A Arca de Rantanplan, de Achdé e Jul - ASA
Convém relembrar ainda que entre os animais acolhidos na sua quinta por Byrde está Rantanplan que, naturalmente, tem uma visão deturpada e completamente alheada da realidade que o envolve. Percebo que Rantanplan sempre teve um papel secundário, de comic relief, nas histórias de Lucky Luke (excetuando, claro, quando recebeu uma série própria, à margem da série principal). Não obstante, e até pelo título do livro – que acaba por ser enganador neste ponto - gostaria de ter visto Rantanplan a ter mais destaque nesta história. Continua a ter pensamentos completamente absurdos que me fizeram rir várias vezes, mas acaba por desempenhar um papel mais secundário na trama principal. O seu aparecimento é bom, mas subaproveitado, quanto a mim.

Voltando à história, caberá a Lucky Luke tentar restabelecer a justiça e tentar reconciliar todas as partes porque dizem que “a virtude está no meio”. E mesmo sem ter um argumento com a coesão desejada, gostei da mensagem do álbum de que os direitos dos animais deverão ser protegidos e tidos em conta pela humanidade, mas também não é forçando essa mensagem, de forma artificial, e da noite para o dia, que se consegue mudar de forma positiva para todos. A mudança é um processo gradual e é com isso em mente que conseguimos operá-la da melhor forma. Ora, se pensarmos que Lucky Luke (também) é uma série infanto-juvenil, que bela e madura mensagem este álbum consegue proporcionar.

Lucky Luke - A Arca de Rantanplan, de Achdé e Jul - ASA
Olhando para os desenhos de Achdé, não tenho muito a acrescentar face àquilo que já escrevi na análise ao anterior álbum da série, portanto, parece-me ajustado repescar o que escrevi nessa altura: “quanto ao trabalho de Achdé, só posso dizer que é impecável. Sem uma única falha que lhe possa apontar. Mesmo que os mais puristas considerem que Achdé se limita a emular o autor original da série, Morris, a verdade é que o faz de forma perfeita e permite a milhões de leitores em todo o mundo, a oportunidade de continuar a ler novas histórias de Lucky Luke. Portanto, todos aqueles que são fãs da arte de Lucky Luke, dos desenhos tão característicos desta série, certamente ficarão muito satisfeitos com esta obra. Há até espaço para algumas pranchas algo diferentes, em termos de planificação e dimensão das vinhetas, mas, lá está, sempre respeitando o legado do mestre Morris. O álbum não é desenhado por Morris, mas poderia sê-lo perfeitamente.

A capa volta a ser bastante apelativa, o que é um bónus. E a edição da ASA vai ao encontro daquilo que estaríamos à espera para a série: capa dura e papel baço. Nota positiva para o facto de, mais uma vez, o lançamento da obra em Portugal ter ocorrido em simultâneo com o lançamento mundial. Os leitores portugueses de banda desenhada merecem que isto seja prática comum!

Concluindo, A Arca de Rantanplan poderia ser melhor em termos de argumento – ou na gestão do mesmo, vá. No entanto, os muitos fãs portugueses da série podem ficar descansados porque estamos perante um álbum bastante agradável e que se lê muito bem.


NOTA FINAL (1/10):
7.0



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Lucky Luke - A Arca de Rantanplan, de Achdé e Jul - ASA

Ficha técnica
Lucky Luke - A Arca de Rantanplan
Autores: Achdé e Jul
Editora: ASA
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Outubro de 2022

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Análise: Companheiros da Penumbra

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
Companheiros da Penumbra, de Nunsky

Quem pôde visitar o Amadora BD deste ano, certamente não ficou indiferente a uma das exposições do evento, que era dedicada a Companheiros da Penumbra, o mais recente trabalho do autor português Nunsky. Por um lado, pela qualidade da exposição, que nos remetia para um ambiente urbano, negro, sujo e punk, que acabava por ser bastante impactante. Por outro lado, porque não eram precisos muitos segundos para que nos saltasse à vista a qualidade das pranchas ali expostas.

Foi uma obra parcamente anunciada pela editora, Chili com Carne, e, talvez também por isso, apanhou muita gente desprevenida até ao dia do seu lançamento, no Amadora BD. Mas agora, depois de lido este grande livro, com mais de 300 páginas, posso dizer-vos que este é um dos livros do ano, em termos do lançamento de banda desenhada nacional.

O que Nunsky, autor de Erzsébet, nos traz neste Companheiros da Penumbra é simples em termos de história, mas verdadeiramente complexo e admirável em termos da dimensão e detalhe visual com que essa mesma história simples nos é dada. 

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
A síntese é linear: esta obra procura ser um quase livro de memórias, em que o autor nos convida a (re)viver os anos 90 portuenses, com especial destaque para o aparecimento da cena gótica. Lembram-se da malta do secundário que se vestia de preto, com enormes botas Doc Martens, crucifixos e pentagramas pendurados ao pescoço? É sobre esta tribo urbana e toda a cultura que lhe é tida como adjacente que se baseia este livro. Ler Companheiros da Penumbra é uma viagem a um passado relativamente recente em que a música, o cinema, as festas e os convívios entre góticos ganhavam expressão nos centros urbanos. Particularmente em Lisboa e no Porto. Mas o livro centra-se no Porto, e em toda a cena gótica da cidade, em particular.

Em termos de história, acompanhamos as aventuras de várias personagens, mas o principal enfoque é em Alex Nogueira e no próprio Nunsky (Paulo) que, tendo interesses comuns, começam por formar uma banda que procura tocar rock gótico. Não é de admirar que bandas como Siouxsie and the Banshees, Joy Division, The Cure ou, especialmente Bauhaus, sejam referências óbvias para a música que a banda de Paulo e Alex, a quem se juntam Igor e Marco, quer fazer. 

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
A partir daqui, acompanhamos o início da caminhada da banda que dá pelo nome de "The Ids". Desde a procura pelo nome, aos primeiros ensaios, às entradas e saídas de membros do coletivo, até aos primeiros concertos. Mas este não é apenas um livro sobre a formação de uma banda de rock gótico. Diria que a questão da banda será apenas parte da caminhada destes amigos, já que, ao volante de um Fiat Uno – esse automóvel tão característico dos anos 90 -, vamos conhecendo aquilo que será mais uma história nostálgica de uma amizade entre jovens que nutrem gostos e preferências semelhantes do que, apenas e só, a história de uma banda de garagem. A banda aparece porque é parte dessa amizade e dessa caminhada. Os relacionamentos amorosos com as raparigas, que começam a seguir a banda, também marcam presença, bem como as festas no mítico Heaven’s, a rodagem de filmes ou os grandes feitos ou fracassos nos variados projetos artísticos destes jovens.

Para o bem e para o mal, fica-se com a ideia que nos é oferecido por Nunsky um conjunto de episódios datados nos anos 90. E todo o livro é como se fosse uma manta de retalhos de memórias. Se, por um lado, é verdade que não há um fio condutor claro que possa ligar com mais detalhe alguns episódios que parecem ser avulsos, por outro lado, também não se pode dizer que a história não vá tendo uma ligação, mesmo que ténue, entre si. Porque vai. Simplesmente, senti falta de uma narrativa mais coesa nesse ponto.

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
Estando a história carregada de referências reais, também parece haver um grande conjunto de elementos ficcionais o que, quanto a mim, até ajuda a criar uma certa aura de misticismo e de interesse aumentado nestas figuras. Se pesquisarmos por várias das coisas que acontecem neste Companheiros da Penumbra, veremos que algumas delas aconteceram mesmo. Já quanto a outras, como o nome da própria banda The Ids, por exemplo, não encontramos qualquer referência na internet. Aprecio essa ficção bem inserida numa história carregada de elementos reais.

Mas se a história traz consigo uma viagem bem aprofundada e detalhada à cena gótica portuense dos anos 90, é nas ilustrações que Nunsky mais consegue impressionar.

Em primeiro lugar, comecemos por abordar a dimensão da obra que temos em mãos. Com mais de 300 páginas, não surpreende que este livro tenha demorado mais de 5 anos a ser feito. Isto porque, e convém não esquecer, não estamos a falar de um estilo de ilustração que seja simples e rápido de fazer. Ao invés, o traço fino e virtuoso de Nunsky é realista e pleno de detalhe. 

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
Sendo completamente a preto e branco, torna-se claro e impressionante o belo domínio do autor nos mais variados níveis da ilustração: as personagens são verossímeis e as suas expressões e linguagem corporal são representadas de forma muito realista pelo autor. Os cenários também recebem belos detalhes que dão profundidade cénica a toda a experiência visual. Uma nota de espanto e admiração tem que ser dada à forma como, por vezes, o autor nos presenteia com uma ilustração mais dramático-poética que torna a experiência muito gratificante para o leitor. É incrível o virtuosismo de Nunsky nas ilustrações. Um verdadeiro talento.

Se há uma única coisa que, em termos de desenho não me agradou tanto, foi que tive dificuldade em distinguir as personagens demasiadas vezes. Todas elas são muito bem desenhadas, mas difíceis de distinguir em vários momentos. Os penteados podem ajudar um pouco, mas como estamos a falar de uma tribo que se vestia de forma idêntica, o que fazia com que tivesse um aspeto semelhante entre si, acaba por ser algo que impacta a fluidez da leitura. Mas, enfim, é apenas uma queixa num trabalho tão grandioso do autor.

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
Não costumo falar muito de balonagem e legendas, a menos que seja algo muito positivo ou muito negativo para a minha experiência enquanto leitor.

E, em Companheiros da Penumbra, a legendagem é, por si só, uma outra "personagem" que se impregna nas numerosas cenas musicais. Dito por outras palavras, para nos dar a ideia de que há música a tocar, sempre que as personagens estão no Heaven’s, por exemplo, conseguimos percecionar as músicas de fundo através das legendas com letras garrafais que nos dizem que música é. 

A esse propósito, no final do livro há uma lista com todas as músicas que foram apresentadas ao longo do livro. É um bom complemento embora me pareça que talvez tivesse sido preferível que cada música e banda recebessem uma breve nota no final de cada prancha. Assim tornar-se-ia mais automático para o leitor saber que música era aquela, daquela página, e que banda tornou esse tema célebre, sem ter que saltar até à cábula da última página.

Companheiros da Penumbra, de Nunsky - Chili com Carne
Finalmente, também fiquei admirado com a capacidade do autor em conseguir dar-nos – pelo menos, em termos visuais pois, em termos de argumento talvez isso não aconteça tanto – uma enorme diversidade de momentos. Temos, portanto, uma planificação dinâmica, com planos e enquadramentos vários que fazem com que a leitura visual da obra não se torne repetitiva ao longo de tantas páginas. Já em termos de história, senti alguma redundância em alguns momentos (demasiado?) mundanos na vida destas personagens.

A edição da Chili com Carne é em capa mole, com generosas badanas, e um papel que, embora competente, poderia ser mais robusto e menos frágil. No final da obra temos ainda um texto de Alex Nogueira – uma das pessoas que inspirou a história –; a tal lista de músicas que já referi acima; e quatro páginas em que são traduzidas para português algumas falas que ao longo do livro nos foram dadas em inglês ou em castelhano.

Em suma, esta obra é uma autêntica tour de force de Nunsky. Não descurando tudo aquilo que o autor já nos deu em obras passadas, é com este Companheiros da Penumbra que o autor esculpe com letras gordas o seu nome no panteão da banda desenhada nacional. Imprescindível e uma das melhores BD’s portuguesas do ano.


NOTA FINAL (1/10):
9.1



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Ficha técnica
Companheiros da Penumbra
Autor: Nunsky
Editora: Chili com Carne
Páginas: 318, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 19 x 26 cm
Lançamento: Outubro de 2022

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Análise: O Castelo dos Animais #3 - A Noite dos Justos

O Castelo dos Animais #3 - A Noite dos Justos, de Delep e Dorison - Arte de Autor

O Castelo dos Animais #3 - A Noite dos Justos, de Delep e Dorison - Arte de Autor
O Castelo dos Animais #3 - A Noite dos Justos, de Delep e Dorison

Foi preciso esperar cerca de um ano e meio por um novo volume da linda e maravilhosa série O Castelo dos Animais, mas posso dizer-vos que valeu a pena cada momento de espera. É que, se não havia dúvidas acerca da qualidade da série até ao momento, parece-me que este terceiro tomo ainda consegue elevar mais a qualidade da obra. Quer no texto, quer na mensagem, quer nas ilustrações. Esta é, afinal, uma das melhores séries de banda desenhada da atualidade!

Mas vamos por partes.

Antes de avançarmos nesta análise ao terceiro volume, intitulado A Noite dos Justos, convido-vos a (re)lerem as minhas análises aos volumes 1 e 2, Miss Bengalore e As Margaridas do Inverno, respetivamente, para melhor se ambientarem ao tema desta belíssima série.

O Castelo dos Animais #3 - A Noite dos Justos, de Delep e Dorison - Arte de Autor
Livremente inspirado no clássico da literatura O Triunfo dos Porcos (Animal Farm, no título original), de George Orwell, O Castelo dos Animais apresenta-nos um universo onde os vários animais de uma quinta são liderados (e subjugados) por um infame touro e pelos seus cães que funcionam enquanto seu exército pessoal. Perante todas as injustiças praticadas, começa a haver, tímida mas gradualmente, uma força de oposição a este regime totalitário, que é encabeçada por uma gata viúva e mãe de duas crias, um coelho gigolo e um velho rato sábio e viajado.

Neste terceiro volume, essa luta, que se pretende feita sem violência, levam a gata Miss B, o coelho César e o rato Azelar a focarem-se, pois, nesse ponto: o de convencer os outros animais da quinta a não cederem à violência, de forma a terminarem com o reinado do touro Sílvio. O primeiro instinto para resolver um confronto é, quer em animais, quer em humanos, o de recorrer à violência. Mas esse instinto também acaba por ser muito primário e, por esse motivo, é relevante - embora mais difícil, sem dúvida - que a luta justa pelos direitos seja pacata e sem violência. A rude e rigorosa ditadura do ditador Sílvio mantém-se bastante ativa e, face ao movimento pacifista das margaridas, o touro começa a claudicar nas suas ações que, antes do início da rebelião, pareciam tão bem sedimentadas. Afinal, como controlar um povo, deixando-o feliz mas, ao mesmo tempo, à sua mercê, lucrando com o fruto do seu trabalho? Não é tarefa fácil.

O Castelo dos Animais #3 - A Noite dos Justos, de Delep e Dorison - Arte de Autor
E se no início, a luta dos animais começou por procurar ter direito ao acesso a coisas mais básicas, como a comida ou o calor, em A Noite dos Justos, os animais começam a reclamar o direito à democracia e à eleição daquele que os governa. Não falo mais da história para não vos tirar o prazer da leitura, mas posso assegurar-vos que tudo está meticulosamente bem pensado e bem feito.

E tudo aparece carregado de um forme humanismo que faz o leitor criar um elo emocional com as personagens e com todos os obstáculos que as mesmas têm que ultrapassar.

Sinceramente, olhando agora para o terceiro tomo, aquilo que me parece mais brilhante em O Castelo dos Animais é a tentativa, bem sucedida e graciosamente bem arquitetada, dos autores em nos proporcionarem uma breve síntese da introdução à génese de vários sistemas políticos. À primeira vista até pode parecer que estamos a ler uma simples “historiazita com animais simpáticos”… mas a verdade é que estamos a ler uma muito bem pensada e extremamente madura, história política. Quase como se fosse “totalitarismo, socialismo e luta de classes para dummies”. 

O Castelo dos Animais #3 - A Noite dos Justos, de Delep e Dorison - Arte de Autor
Mas tudo isto é feito de forma natural, sem que a história pareça cinicamente política ou paternalista ou que se procure, sequer, fazer do livro um instrumento para veicular correntes de pensamento de forma maniqueísta. E que grande feito isto é! Já li muitas belas histórias de Dorison, mas esta parece-me ser aquela que vai mais fundo, que consegue ser mais do que um mero argumento com boas ideias. É, sem dúvida, a história mais humana que o autor já fez. E quão curiosa esta afirmação é, se tivermos em conta que nem sequer aparecem humanos nesta história.

E já para não falar das ilustrações de Delep que, por incrível que possa parecer, me parecem estar a melhorar, em termos qualitativos, de volume para volume. Desde o início, que os belos desenhos de O Castelo dos Animais me conquistaram, sim. Mas sinto que o autor não parou de evoluir desde então. E a maneira como ilustra a expressividade das feições dos animais, tornando-os tão humanos, por um lado, mas, ainda assim, preservando, por outro lado, as suas características naturais de animais; ou a forma como ilustra momentos tensos, momentos tristes ou momentos de redenção; ou mesmo o modo como desenha as diferentes estações do ano – sejam elas o branco manto de neve, as tristes chuvas outonais ou os verdejantes cenários primaveris, tudo é feito com uma singular mestria. Um verdadeiro gáudio para os olhos, garanto-vos!

A própria maneira como o autor utiliza a planificação das páginas, com uma diversidade impressionante, que junta ilustrações de grande dimensão, a outras mais pequenas, e alterando entre planos de todo o tipo, fazem com que fiquemos rendidos ao modo como Delep se mostra um magnífico narrador visual. A título de exemplo, a página 19, que mostra a passagem das estações por uma árvore; ou as flores que, nas páginas, 36 e 37, circundam as pranchas, são, aos meus olhos, verdadeiras obras de arte. Algo não tão comum assim em banda desenhada. E é também por isso que digo que este terceiro volume é o melhor de todos. Os primeiros foram muito bons. Este é ainda melhor!

O Castelo dos Animais #3 - A Noite dos Justos, de Delep e Dorison - Arte de Autor
Com efeito, se há autores que estão bem alinhados, em termos de inspiração, esses autores são Delep e Dorison. Cada um, na sua vertente, parece estar demasiado mergulhado e focado em nos dar uma banda desenhada que, se não for perfeita, não anda nada longe disso.

A edição da Arte de Autor, que acompanhou o lançamento mundial da obra, mantém-se em linha com o que já havia sido feito nos tomos anteriores. O livro é provido de uma bela capa dura, com textura aveludada, tão agradável ao toque, e vários detalhes a verniz, como o título da obra e as folhas verdes que adornam a capa, cuja ilustração é qualquer coisa de maravilhoso. O papel é brilhante, de boa qualidade e o trabalho de encadernação e de impressão também não apresenta defeitos.

Nota ainda, positiva, para a breve síntese dos primeiros dois tomos que foi colocada no início do livro. Tendo em conta o espaçamento temporal que existiu entre o lançamento do volume 2 e este livro, parece-me uma excelente ideia para captar, novamente, a atenção dos leitores.

Em suma, estou rendido a esta série! O terceiro volume de O Castelo dos Animais melhorou o que era possível melhorar e aproximou a série da perfeição. A mesma está pensada para 4 volumes, o que deixa apenas a dúvida se Xavier Dorison saberá fechar, com chave de ouro, esta brilhante e obrigatória série de banda desenhada. Estou muito curioso para como a série irá acabar e apenas tenho pena que tenhamos que esperar um ou dois anos – digo eu! - por esse desfecho.


NOTA FINAL (1/10):
9.9



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O Castelo dos Animais #3 - A Noite dos Justos, de Delep e Dorison - Arte de Autor

Ficha técnica
O Castelo dos Animais #3 - A Noite dos Justos
Autores: Delep e Dorison
Editora: Arte de Autor
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Novembro de 2022

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Análise: Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru

Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru, de Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira

Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru, de Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira
Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru, de Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira

Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru é uma banda desenhada, de origem nacional, que chegou a álbum físico – numa audaz edição, diga-se – através de uma campanha de crowdfunding bem sucedida. O autor responsável deste grande livro, com 176 páginas, é Marco Fraga da Silva. Faz-se acompanhar pelos autores Matthieu Pereira, nos desenhos, e por Sofia Pereira, nas cores.

Este livro resultou da tese de doutoramento de Marco Fraga da Silva, que acabou por proporcionar que a obra Uluru chegasse primeiramente aos canais digitais, surgindo como webcomic em quatro línguas: (inglês, francês, mandarim e português). Mas, claro, é com a edição em papel que esta obra chegará, estou certo, a um mais alargado conjunto de leitores. Incluindo a minha pessoa.

Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru, de Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira
A história deste primeiro livro de uma trilogia, coloca-nos num universo futurista de ficção científica, que nos convida a conhecer a jornada do jovem Uluru, que deve o seu nome ao monólito da Austrália com o mesmo nome.A jornada do protagonista vai desenrolando-se, pois, pela floresta do território australiano, enquanto, ao mesmo tempo, nos apresenta o passado da personagem. Nomeadamente, a sua convivência com as suas duas irmãs. O que há de especial nesta história de aventura, carregada de elementos de ficção científica, é que as três crianças têm dois pais artificiais: o robot Talus e uma entidade cibernética.

É um tema que acho muito interessante – esta em que a convivência do homem com a máquina molda a vida do primeiro de forma tão marcante – e que, de certo modo, também marcou presença numa das minhas recentes leituras, que foi Senciente, de Jeff Lemire e Gabriel H. Walta. Embora, claro está, cada autor aborde o tema da sua própria forma.

Eventualmente, Uluru acaba a receber um braço e uma perna cibernéticas que lhe conferem habilidades adicionais que o ajudarão na sua caminhada que surge, pois, como uma viagem iniciática para o protagonista que, viajando pelos confins florestais da Austrália, num mundo que parece carecer de vida humana, à exceção do próprio Uluru, tentará alcançar autoconhecimento. 

Pelo caminho, vai encontrando alguns animais, que assumem dimensões muito grandes, o que aumenta o perigo de confrontos físicos que, ainda por cima, se tornam inevitáveis. Nesta versão futurista do planeta Terra, são os animais e as máquinas(?) que parecem estar a tomar o controlo do planeta e Uluru terá que defrontar inúmeros animais maiores do que ele para poder manter-se vivo.

Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru, de Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira
Em paralelo à viagem, o autor permite-nos vários vislumbres, através de flashbacks, à infância de Uluru, juntamente com as suas duas irmãs. Algo que, quanto a mim, funciona muito bem e permite duas coisas: por um lado, permite-nos aprofundar a personagem principal, bem como o seu background e motivações que agora sustenta; por outro lado, estes flashbacks também funcionam enquanto forma de tornar a leitura mais aprazível e mais diversificada, contribuindo para uma narrativa bem esgrimida pelo autor.

Nota ainda para a presença de um canguru, Pernas, que acompanha Uluru na sua jornada e que serve mais como ferramenta narrativa, para que Uluru possa falar para ele. Mesmo sem receber resposta por parte do canguru, isso permite ao leitor saber o que vai na cabeça do protagonista. Temos, portanto, mais um bom recurso narrativo por parte de Marco Fraga da Silva.

Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru, de Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira
Relativamente à história, posso dizer que a achei bem arquitetada pelo autor e que apenas não fiquei muito convencido quando a mesma, lá mais para o meio, assume um cariz mais de fantasia isotérica. Mas, como a história não acaba aqui, devo dizer que teremos que esperar para ver, para saber como o autor irá solucionar a história. Por agora, estou bastante bem impressionado.

Relativamente aos desenhos, o trabalho do ilustrador de origem francesa, Matthieu Pereira, dá-nos muitos e belos desenhos. Sendo dono de um traço moderno e bastante eficiente, o autor mostra-se bastante inspirado, especialmente no início da história, e vai-nos criando um belo ambiente gráfico para que a história imaginada por Marco Fraga da Silva possa florescer convenientemente.

Por vezes, os desenhos apresentam algumas insuficiências ao nível da ação, dando-nos sensações de movimento algo estáticas, mas tenho que destacar algumas ilustrações de maior dimensão, onde o trabalho do autor se nos apresenta como bastante impressionante.

Infelizmente, Matthieu Pereira não é constante na sua qualidade e, à medida que o livro se aproxima do fim, começam a aparecer alguns desenhos que carecem de detalhe e de aprimoramento, quando comparados com as primeiras páginas do livro. Talvez a justificação para isto seja uma certa falta de tempo que, possivelmente, o autor teve e que o levou a apressar as suas ilustrações. Não é nada que estrague a leitura ou que revele incapacidades do autor. Pelo contrário, revela que o mesmo seria capaz de fazer melhor.

Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru, de Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira
Quanto à edição, e tendo em conta que estamos perante uma edição de autor, acho que o livro está muito bem conseguido. Com capa mole, com badanas, o livro apresenta um belo papel brilhante com uma generosa espessura. Tão generosa que talvez nem fosse preciso, digo eu, um papel tão bom. É que um papel pesado numa lombada em capa mole, até a deixa mais facilmente vulnerável, o que acaba por acontecer nesta edição. Mesmo assim, é positivo verificar que, mesmo em edições de autor, é possível fazer um trabalho de edição bastante bem conseguido. O livro inclui ainda, no seu final, uma galeria com 12 ilustrações elaboradas por vários autores. Um acrescento que dignifica, ainda mais, esta edição.

Em suma, Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru traz-nos uma bela e relevante trama, onde Marco Fraga da Silva convence enquanto argumentista e onde Matthieu Pereira revela ter potencial para a ilustração em banda desenhada. Não é um livro isento de alguns erros ou imperfeições, mas é uma obra que, em termos da banda desenhada nacional, se assume como uma das revelações do ano.


NOTA FINAL (1/10):
7.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru, de Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira

Ficha técnica
Crónicas do Tempo e do Espaço – Uluru
Autores: Marco Fraga da Silva, Matthieu Pereira e Sofia Pereira
Editora: Independente
Páginas: 176, a cores
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Agosto de 2022
Contacto para compra: marcoffs@sapo.pt

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Análise: Aurora Boreal em Reflexos Partilhados

Aurora Boreal em Reflexos Partilhados, de vários autores - Kafre e Arga Warga

Aurora Boreal em Reflexos Partilhados, de vários autores - Kafre e Arga Warga
Aurora Boreal em Reflexos Partilhados, de vários autores

NOTA INTRODUTÓRIA: Nem de propósito. Quando ontem comecei as escrever as palavras que vos apresento abaixo pensei: “que fantástico que o Mestre José Ruy ainda esteja no ativo com 92 anos e que tenha participado neste Aurora Boreal em Reflexos Partilhados”. Mal sabia eu que, passadas umas horas, quando me preparasse para publicar esta análise, tivesse conhecimento do falecimento de José Ruy. A contribuição de José Ruy para esta antologia data de 2012, mas quer-me parecer que, em termos de publicação em livro, talvez seja este Aurora Boreal em Reflexos Partilhados o último livro a sair durante a vida de José Ruy. O que é assinalável.

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Por alturas do último Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, em Maio, foi lançada a antologia Aurora Boreal em Reflexos Partilhados, que conta com a participação de vários autores portugueses como José de Matos-Cruz, José Ruy, Daniel Maia, Fernando Vilhena de Mendonça, João Raz, José Bandeira, Nuno Dias, Renato Abreu e Susana Resende.

Aurora Boreal em Reflexos Partilhados, de vários autores - Kafre e Arga Warga
Devo admitir que o alcance das histórias deste livro me surpreendeu. E quando digo que me surpreendeu não tem de ser, forçosamente, uma coisa positiva nem negativa. Surpreendeu-me pois não conhecia todo o envolvimento em torno da personagem de Aurora Boreal. E talvez por esse motivo, fiquei quase atordoado com toda a viagem onírica que esta personagem transporta consigo e que está bem patente nas várias histórias que constituem esta antologia.

Dito por outras palavras, se esperam encontrar uma leitura simples e leve, como é, muitas vezes, apanágio das antologias de banda desenhada, Aurora Boreal em Reflexos Partilhados não será para vós. Por outro lado, se apreciam poesia, questões do metafísico e banda desenhada… é bem provável que devam conhecer esta antologia.

A personagem que dá mote a estas histórias foi criada em 2012 por José de Matos-Cruz e apareceu na sua trilogia de livros dedicados a O Infante Portugal. É uma figura feminina e sensual, carregada de elementos cósmicos, que a fazem parecer uma deusa do imaginário. 

Aurora Boreal em Reflexos Partilhados, de vários autores - Kafre e Arga Warga
Não diria que exista nestas histórias uma linha narrativa que nos conte uma história concreta à volta da personagem. Ao invés, vão-nos sendo dado abordagens diferentes que colocam Aurora Boreal em variadas situações. Mas há sempre um toque de fantástico, de exótico e de transcendente nestas histórias.

Em muitos casos – não há como não – o leitor acaba por se perder na própria premissa, já que a mesma é demasiado lata e abstrata. No entanto, por vezes também sabe bem deixarmo-nos levar por narrativas mais psicadélicas. É o caso.

O estilo de ilustração que aqui podemos encontrar é expetavelmente muito variado, dada a quantidade de autores que participam na antologia. 

Destacam-se o belo estilo de sketch a carvão de Susana Resende, o estilo realista de Daniel Maia, o estilo mais clássico de José Ruy, ou a abordagem mais estilizada e abstrata de Renato Abreu.

Aurora Boreal em Reflexos Partilhados, de vários autores - Kafre e Arga Warga

Como história, propriamente dita, fiquei agradavelmente surpreendido com Aurora Boreal e o Reverso do Universo, com desenho de José Macedo Bandeira, que nos dá um belo conto ambientado na temática de Fernando Pessoa.

Já quanto aos desenhos, enquanto confesso fã das ilustrações de Daniel Maia, posso dizer que as mesmas não desiludem e que revelam como o autor é virtuoso na execução de belos desenhos. Além disso, também tem a capacidade para ilustrar vários tipos de ambientes e histórias diferentes, o que revela que é um autor com um potencial enorme, ainda por explorar.

Em termos de edição, tendo em conta que é independente, parece-me que o trabalho é bastante decente. Este livro a preto e branco tem capa mole e um papel brilhante que me parece adequado. Acho apenas que deveria ter sido feita uma maior divisão entre histórias, uma vez que, por vezes, ainda estamos mergulhados numa história e já o conto seguinte começou. Julgo que mesmo que não fosse dada uma página branca entre histórias, ao menos poderia ter sido feita uma divisão gráfica mais inequívoca.

Em suma, Aurora Boreal em Reflexos Partilhados, pelo universo alegórico-fantástico que traz consigo, é uma antologia bastante original na sua génese. Nem sempre de fácil de leitura, relembro, mas audaz nos intuitos de significados profundos que procura atingir.


NOTA FINAL (1/10):
5.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Aurora Boreal em Reflexos Partilhados, de vários autores - Kafre e Arga Warga

Ficha técnica
Aurora Boreal em Reflexos Partilhados
Autores: José de Matos-Cruz, José Ruy, Daniel Maia, Fernando Vilhena de Mendonça, João Raz, José Bandeira, Nuno Dias, Renato Abreu e Susana Resende
Edição: Kafre e Arga Warga
Páginas: 52, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Maio de 2022