terça-feira, 28 de julho de 2026

Análise: Wild West - Volumes 4 e 5


Wild West - Volumes 4 e 5 - A Lama e o Sangue | Redenção, de Thierry Gloris e Jacques Lamontagne

Com o volume 4, intitulado A Lama e o Sangue, da série Wild West publicado no mês passado de abril, a editora Ala dos Livros não esperou muito tempo até lançar o álbum mais recente desta série da autoria de Thierry Gloris e Jacques Lamontagne  que, deste modo, fica a par com a edição original da obra em termos de lançamentos. Este quinto e novo volume chama-se Redenção e acaba de chegar às livrarias.

Como tal, foi razão para que eu pudesse ler estes dois volumes de forma seguida. E, mais uma vez, posso dizer-vos que esta é uma série do estilo western que me deixa especialmente agradado, mesmo admitindo que os últimos volumes, em especial o volume 4, caíram ligeiramente em qualidade.

Depois do excelente Escalpes em Série, aquele que considerei o melhor da série até agora, as minhas expectativas eram naturalmente elevadas, até porque esta coleção se tem afirmado como uma das mais consistentes abordagens ao western na banda desenhada franco-belga contemporânea. Se o quarto volume encerra o segundo ciclo narrativo da série, o quinto tomo inaugura uma nova etapa para estas personagens, com resultados distintos, mas igualmente interessantes.

Mas falemos de cada volume em particular.

Em A Lama e o Sangue, continuamos a acompanhar Wild Bill Hickok, Calamity Jane e Charlie Utter na perseguição ao assassino que marcou os acontecimentos de Escalpes em Série. Desta feita, e relembrando que em cada um dos tomos há sempre uma nova personagem que é inspirada em figuras históricas reais, a nova personagem é Bass Reeves, uma personagem absolutamente fascinante da história americana, por ser um dos primeiros U.S. Marshals negros. 

Paralelamente, a narrativa alarga o seu foco para os conflitos em torno da expansão ferroviária, do tratamento reservado aos povos indígenas e da utilização dos Soldados Búfalo (soldados afro-americanos), acrescentando uma importante dimensão histórica e social ao enredo.

O álbum começa de forma particularmente promissora. As primeiras páginas conseguem articular muito bem o mistério em torno dos assassinatos com questões históricas reais, explorando as tensões raciais e culturais da América do século XIX. A inclusão dos Soldados Búfalo revela-se especialmente interessante, não só pelo valor histórico da sua presença, mas também pelas ambiguidades morais que a sua utilização levanta dentro da narrativa, claro está.

Contudo, à medida que a história progride, fica a sensação de que parte desse potencial inicial não é totalmente aproveitado. O enredo encaminha-se para soluções mais convencionais e para uma sucessão de confrontos que, embora visualmente impressionantes, nem sempre parecem surgir de forma totalmente orgânica. Existe ação em abundância, sim, mas por vezes ela surge quase como um fim em si mesma, ocupando espaço que poderia ter sido dedicado a aprofundar algumas personagens ou conflitos.

Isto não significa que o álbum seja fraco. Longe disso. Simplesmente, depois da densidade dramática e da excelente gestão de ritmo que encontrámos em Escalpes em Série, este quarto volume parece um pouco mais apressado e menos refinado no desenvolvimento de algumas das suas ideias mais interessantes. É o tomo mais fraco - ou menos forte, como preferirem - da série, quanto a mim.

Redenção, segue uma abordagem bastante diferente. Após os acontecimentos traumáticos do ciclo anterior, encontramos agora Wild Bill, Calamity Jane e Charlie Utter estabelecidos em Dolores City. Bill desempenha funções de xerife, Charlie tornou-se carteiro e Jane continua a travar uma batalha contra os seus próprios vícios, cedendo ao alcoolismo. Parece que, exceptuando Calamity Jane, Wild Bill e Charlie Utter alcançaram uma vida de amena normalidade. Isto até à chegada da família Ballou, que promete pôr a tranquilidade da pequena cidade em causa.

Desde cedo se percebe que este quinto volume tem objetivos bastante diferentes, pois, ao contrário do tomo antecessor, não procura impressionar-nos através de uma sucessão constante de confrontos ou revelações. Como tal, o ritmo é mais pausado, mais contemplativo e claramente orientado para a construção das personagens e das relações entre elas. É uma opção que poderá surpreender alguns leitores - especialmente tendo em conta o tomo anterior -, mas que, na minha opinião, beneficia bastante a narrativa.

A presença dos Ballou e da lendária Belle Starr funciona sobretudo como catalisador para explorar as fragilidades e os conflitos das personagens principais, com a história a "respirar" de forma mais natural. Existe uma clara sensação de construção, como se este álbum estivesse deliberadamente a posicionar as peças para acontecimentos mais relevantes futuros. O resultado é um álbum que talvez tenha menos momentos de ação memoráveis, mas que oferece maior consistência dramática. Como se fosse a preparação de algo maior que há de chegar no tomo seguinte, Dolores City.

De uma forma geral, continuo a apreciar muito esta série. Wild West consegue encontrar um equilíbrio raro entre rigor histórico e liberdade ficcional. Embora as aventuras sejam obviamente romanceadas, existe sempre um pé bem assente em factos, personagens e contextos reais, o que contribui para uma maior credibilidade e riqueza da narrativa. Como se, à boa maneira de Lucky Luke, que procurou sempre falar-nos de uma figura ou de um tema real do faroeste, a história se tornasse mais verossímil. E, claro, quando comparada com a série do "cowboy que dispara mais depressa do que a própria sombra", Wild West consegue ser mais madura e realista no conteúdo e forma.

No plano gráfico, o trabalho de Jacques Lamontagne continua a ser verdadeiramente espetacular. O seu traço permanece impressionante, quer na representação das personagens históricas, quer na recriação dos ambientes do Oeste americano. Existe um cuidado constante com os enquadramentos, as expressões faciais e os cenários, fazendo com que cada página seja visualmente apelativa. Por vezes, pode aparecer uma ou outra expressão mais "cartoonizada" do que aquilo que seria expectável, mas de um modo geral, tudo funciona muito bem no plano visual da obra.

E são especialmente memoráveis algumas das ilustrações de página dupla que surgem ao longo destes dois volumes, e que acabam por constituir verdadeiros momentos de espetáculo visual que demonstram todo o talento de Lamontagne. Também em termos de cores, o trabalho do autor é impressionante, especialmente em termos de luz, em cenas com iluminação interior.

Quanto à edição destes livros, a mesma está em linha com os restantes volumes da série, como seria expectável. Os livros têm capa dura baça, com detalhes a verniz, e o papel no interior é brilhante e de boa qualidade. A impressão e a encadernação também são boas.

Em suma, Wild West continua a ser uma série obrigatória para todos os fãs do western em BD e um persuasivo convite aos leitores menos experientes em obras do género, mesmo ficando no ar a sensação de que o quarto volume ficou uns furos abaixo dos restantes. A boa notícia é que Redenção recupera uma abordagem mais ponderada e centrada nas personagens, inaugurando de forma bastante promissora um novo ciclo da série. Que venha o próximo volume!


NOTA FINAL (1/10):
Wild West #4 - A Lama e o Sangue: 8.4
Wild West #5 - Redenção: 9.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Fichas técnicas
Wild West #4 - A Lama e o Sangue
Autores: Thierry Gloris e Jacques Lamontagne
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Abril de 2026


Wild West #5 - Redenção
Autores: Thierry Gloris e Jacques Lamontagne
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Julho de 2026


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