Foi com este A Aranha de Mashhad - Viagem a um Irão Desconhecido, de Mana Neyestani, que a editora Levoir iniciou a sua mais recente Coleção de Novelas Gráficas. Uma boa escolha, parece-me, tendo em conta que já é um autor conhecido dos portugueses - tendo a mesma editora lançado anteriormente as belas obras Uma Metamorfose Iraniana e Os Pássaros de Papel. Mana Neyestani é mais um dos autores que se juntam ao coro de vozes que procuram dar destaque às práticas político-sociais presentes no Irão.
Depois de, em Uma Metamorfose Iraniana, o autor nos ter dado um sentido e marcante relato biográfico onde ficámos a conhecer a história real que levou ao seu encarceramento de apenas e só porque publicou um cartoon que não caiu nas boas graças de outrem; e de, em Os Pássaros de Papel, o autor ter abordado a situação que se vive nas montanhas do Curdistão iraniano, na fronteira com o Iraque, em que são efetuadas perigosas expedições de transporte por pessoas extremadamente pobres que se veem forçadas, para obter algum dinheiro, a transportar às costas, em "mochilas" verdadeiramente gigantes, muitos materiais contrabandeados; este A Aranha de Mashhad fala-nos da história real de Saïd Hanaï, um homem aparentemente normal e sem quaisquer antecedentes criminais que, certo dia, decidiu eliminar prostitutas em nome da religião, na cidade santa xiita de Mashhad, no nordeste do Irão. Foram 16 as prostitutas assassinadas.
A inspiração do autor surgiu após assistir ao documentário And Along Came a Spider, do jornalista iraniano-canadense Maziar Bahari, que abordava este caso ocorrido entre os anos de 2000 e 2001.
Se o caso é interessante, a abordagem de Mana Neyestani é ainda mais interessante. Em vez de nos contar a história exata do que aconteceu, o autor opta por nos apresentar uma narrativa em formato de entrevista, em que Roya Karimi Majd conduz uma entrevista ao agora presidiário, e condenado à pena de morte, Saïd Hanaï. Trata-se de uma entrevista que procura dar a versão dos factos do assassino, de modo a levar-nos a perceber quais foram, realmente, as suas motivações para, no espaço de pouco mais de um ano, tirar a vida a 16 mulheres.
É-nos dada também a visão dos mesmos factos por parte da mulher e filho de Saïd Hanaï e do juiz Masouri que conduziu o caso judicial. É reproduzida, ainda, o dia na vida de Leila, uma das vítimas, que culminou com o contacto e confronto com Saïd Hanaï.
O que mais impressiona é que este assassino seja um homem completamente sereno, que não se procura esquivar ou esconder daquilo que fez, mas, ao invés, não tem pruridos em confirmar os seus assassinatos e passar a ideia que os fez por um motivo maior: o de Alá não tolerar a prostituição. No fundo, era como se este homem considerasse que estava a fazer o trabalho certo, a função divina de eliminar as pessoas que, por serem prostitutas, não merecerem viver neste mundo.
Mais incrível ainda - especialmente aos olhos de um ocidental - é que a mulher e filho de Saïd Hanaï considerem que aquilo que este homem fez, não só é tolerável como até digno de louvores. E embora Saïd tenha sido preso e condenado, os locais passaram mesmo a olhar para ele como um exemplo a seguir e alguém que procurava fazer do mundo um lugar melhor. E mais limpo. Mesmo que, para isso, matasse quase duas dezenas de mulheres. É isto que um estado que faz brainwashing com os seus cidadãos, através de uma religião austera e castradora, faz à mentalidade e cultura vigentes. É triste de ler, mas é importante que livros como este A Aranha de Mashhad continuem a chamar a atenção do mundo para o atraso cultural que o Irão (ainda) vive.
O final, de cariz poético e político, é verdadeiramente espetacular. Funciona como um cartoon certo para concluir uma história tão impactante e triste como aquela que nos é dada neste livro. Talvez a causa do Irão seja mesmo uma causa perdida... pelo menos durante as próximas décadas, pois é difícil perceber como é que se altera um quadro de valores tão profundamente enraizado na população do país.
O estilo de desenho de Mana Neyestani mantém-se fiel àquilo que já conhecemos. Apresenta uma linha expressiva, a preto e branco, que recorre a hachuras e que é simultaneamente simples e carregada de tensão emocional. As personagens aparecem muitas vezes com feições exageradas ou ligeiramente distorcidas, criando um efeito que sublinha a opressão das situações retratadas. Funciona muito bem, na minha opinião.
Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço e um bom trabalho a nível de impressão e encadernação. O livro abre com uma introdução do próprio Mana Neyestani e fecha com um epílogo onde se dão breves notas adicionais sobre o assassino Saïd Hanaï, a jornalista Roya Karimi Majd e o próprio Maziar Bahari, autor do documentário original e que aqui também aparece como personagem, sendo a pessoa responsável por filmar a entrevista a Saïd Hanaï.
Em suma, A Aranha de Mashhad é mais um belo livro de Mana Neyestani que consegue fazer-nos parar para refletir sobre as atrocidades que, dia após dia, continuam a ser feitas no Irão, ao mesmo tempo que vai um pouco mais longe e nos mostra que mudar a mentalidade profundamente doutrinada presente no Irão, em que os direitos humanos são menos importantes do que as escrituras religiosas sobre uma personagem fictícia como Alá, é algo virtualmente impossível. Pelo menos, para já.
NOTA FINAL (1/10):
8.7
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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A Aranha de Mashhad - Viagem a um Irão Desconhecido
Autor: Mana Neyestani
Editora: Levoir
Páginas: 164, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240m
Lançamento: Maio de 2026
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