A quarta obra editada na mais recente Coleção de Novelas Gráficas da editora Levoir e do jornal Público correspondeu ao livro Formosa, de Li-Chin Lin, que marca a estreia da autora taiwanesa em Portugal.
Esta é uma obra autobiográfica em que Li-Chin Lin revisita a sua infância e juventude em Taiwan para refletir - e nos fazer refletir - sobre como se constrói a identidade de um indivíduo num contexto marcado pela propaganda política e pelo autoritarismo.
A obra acompanha, pois, o percurso da autora desde a infância até ao despertar da sua consciência crítica, apresentando simultaneamente um retrato pessoal e uma reflexão sobre a história recente de Taiwan.
Nascida em Taiwan nos anos 1970, Li-Chin Lin pertence a uma geração educada sob a influência do regime do partido Kuomintang, que promoveu uma forte doutrinação ideológica nas escolas e na sociedade em geral, através do culto da personalidade de Chiang Kai-shek e da transmissão de uma "versão oficial" da história.
E o que mais me impressionou neste relato foi a dicotomia, o conflito de opiniões e formas de estar, que afetou a Li-Chin Lin nos seus tempos de criança. É que enquanto a escola transmitia uma determinada visão da nação e da história, sempre enaltecendo os enormes feitos da China, a autora crescia num ambiente familiar onde sobreviviam outras memórias e referências culturais japonesas. Os avós falavam japonês, herança do período colonial japonês, o que revelava a coexistência de identidades distintas e frequentemente silenciadas pelo discurso oficial. Segundo o regime, todas as referências e cultura vindas do Japão, antigo colonizador de Taiwan, deveriam ser renegadas pelos taiwaneses, em detrimento do culto de toda a cultura chinesa. Por um lado, Li-Chin Lin ganhava concursos escolares de ilustração com desenhos pró-regime chinês; por outro lado, cedo começou a ter um enorme fascínio pela cultura japonesa, em especial o mangá e o anime.
A questão da identidade cultural assume, pois, um papel fundamental ao longo da obra, com a autora a demonstrar que a identidade taiwanesa não pode ser reduzida a uma única narrativa. E é algo que ainda importa relembrar a tantas pessoas por esse mundo fora. A convivência entre diferentes línguas, culturas e memórias históricas evidencia a complexidade, em particular, da sociedade taiwanesa. Aliás, se pensarmos bem, o próprio título da obra apresenta um forte significado simbólico, pois "Formosa" foi o nome atribuído pelos navegadores portugueses à ilha de Taiwan no século XVI e, ao recuperar esta designação histórica, Li-Chin Lin sublinha a multiplicidade de influências culturais que moldaram a identidade da ilha.
Outro tema relevante na obra é a educação como instrumento de controlo ideológico, pois este Formosa evidencia bem a influência que a escola exerce - ou pode exercer - na formação das crianças e na construção da sua visão do mundo. Ao mostrar a repetição constante de símbolos patrióticos e mensagens políticas, a autora revela a forma como o poder utiliza a educação para moldar mentalidades e legitimar a sua autoridade.
Por outro lado, à medida que Li-Chin Lin foi crescendo, e a pensar pela sua própria cabeça - coisa que, vá-se lá saber porquê, os regimes autoritários não costumam apreciar -, começou a detectar várias contradições do regime e as diferenças entre aquilo que lhe era ensinado e a realidade que observava. O próprio e infame episódio na Praça Tiananmen, em 1989, foi um claro exemplo para que Li-Chin Lin começasse a questionar não apenas o regime chinês, mas também os mecanismos de poder e propaganda presentes em Taiwan. Este episódio marca simbolicamente a passagem da inocência para uma consciência política mais madura.
Quanto às ilustrações, devo dizer que foi talvez nesta dimensão da obra que Formosa menos me convenceu. Embora os desenhos, com influência clara no mangá, cumpram eficazmente a sua função narrativa e transmitam com clareza as emoções, ideias e contextos históricos que Li-Chin Lin pretende explorar, o estilo gráfico parece por vezes excessivamente pouco aprimorado e próximo de um esboço. O traço solto e aparentemente inacabado transmite espontaneidade e autenticidade, reconheço, mas nem sempre proporciona uma experiência visual particularmente apelativa. Em vários momentos, a sensação é a de estarmos perante páginas de um caderno de apontamentos transformadas diretamente em banda desenhada.
Senti também uma certa acumulação de texto, imagens, notas e comentários visuais, o que torna certas sequências densas e algo confusas, fazendo com que a leitura seja menos fluida do que seria desejável. Mesmo assim, também tenho que apontar que há certos bons momentos ao nível da ilustração, especialmente quando a autora interpreta, de forma humorística e hiperbolizada, certas cenas ou reações das personagens.
Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço, boa impressão e boa encadernação. No final da obra, há ainda dois posfácios da autora. O primeiro é da altura em que a obra foi originalmente lançada, em 2011. Já o segundo posfácio é deste ano e foi feito de propósito para a edição portuguesa, o que é algo especial e revela aqui um cuidado da editora Levoir para valorização da própria obra que publica. Por fim, há duas páginas, denominadas "Pontos de Referência", em que nos é dada uma contextualização histórico-política de Taiwan.
Tenho visto algumas críticas por esse internet fora sobre a introdução do subtítulo "Uma Visão Diferente Sobre a Recente História de Taiwan" na capa do livro. Mesmo sendo algo que não consta na edição original, não me parece que seja negativo, pois ajuda especialmente os que não conhecem a obra ou a autora, ou que não fazem tão diretamente a ponte entre "Formosa" e "Taiwan". Podemos discutir se, em termos de grafismo, este subtítulo poderia ter sido introduzido de uma forma mais harmoniosa - possivelmente, sim - mas não me parece que seja algo tão negativo como certas vozes querem dar a entender. Aliás, neste ponto, estou desejoso de saber como é que as mesmas vozes lidarão com a capa do próximo título da coleção Albert Londres Tem de Desaparecer.
Em suma, Formosa é uma obra de grande relevância literária e histórica sobre Taiwan, que nos é oferecida através de uma narrativa autobiográfica sincera e de uma reflexão profunda sobre identidade, liberdade, educação e memória. Mais do que a história de uma infância em Taiwan, a obra constitui um bom testemunho sobre a importância do pensamento crítico perante qualquer forma de poder autoritário propagandístico. É, portanto, um belo ensaio que merece ser lido.
NOTA FINAL (1/10):
8.0
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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