Inserido no arranque da nova Coleção DC Pocket, da Devir, estava - além do fantástico Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - este Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo. Tal como o livro de Sean Murphy que refiro, também este já havia sido previamente publicado em Portugal pela editora Levoir... duas vezes.
Originalmente publicado em 2008, este Joker propõe-nos uma visão sombria e realista do mais famoso inimigo de Batman. A história decorre fora da continuidade principal do universo DC e acompanha o regresso do Joker às ruas de Gotham após uma misteriosa libertação do Asilo Arkham. Em vez de apresentar o vilão como uma figura quase caricatural, a obra procura retratá-lo como um criminoso brutal e imprevisível. E credível. E aqui, o verdadeiro protagonista é mesmo Joker. Batman aparece, sim, mas tem um papel menor nesta narrativa.
Quem nos conta a história é Jonny Frost, um pequeno criminoso que se torna motorista e acompanhante de Joker. E acho que isso é um grande trunfo utilizado pelo argumentista Brian Azzarello. É que, ao olhar para os acontecimentos pelos olhos de alguém fascinado pelo poder e pelo carisma do vilão, o leitor é conduzido para o interior do submundo de Gotham, sendo colocado próximo do caos que Joker representa. E isto tudo dá um sentido de tensão latente que se vai experienciando ao longo de todo o livro.
À medida que a narrativa avança, Joker tenta recuperar a influência que perdeu durante o tempo em que esteve internado, com a história a transformar-se numa guerra pelo controlo da cidade, culminando numa reflexão amarga sobre a natureza destrutiva do próprio Joker e sobre aqueles que se deixam seduzir pela sua personalidade.
Um dos aspetos menos conseguidos da obra, quanto a mim, sente-se na construção da narrativa em determinados momentos. É que, apesar de a história assentar numa premissa relativamente simples - o regresso de Joker ao topo da hierarquia criminosa de Gotham -, Azzarello introduz por vezes algumas dinâmicas entre as várias figuras do submundo que tornam o enredo desnecessariamente complexo. Certas alianças, conflitos e movimentações entre personagens secundárias acabam por não acrescentar grande coisa ao tema central, criando momentos em que a leitura perde alguma fluidez ou que aparente não saber para onde ir. Já tinha lido o livro há uns anos - e tinha gostado muito - mas agora que o voltei a ler, senti esta fraqueza da obra mais presente.
Não obstante, um dos grandes méritos deste Joker é a forma como Brian Azzarello desconstrói a "romantização" da personagem, respondendo diretamente à tendência de muitos fãs - eu incluído - para admirarem o Joker como um rebelde carismático. Aqui, Joker apresenta essa rebeldia, mas de um modo demasiado extremo, mostrando-se profundamente perturbado, cruel e incapaz de sentir empatia por quem quer que seja.
Azzarello também demonstra um excelente domínio do subgénero criminal. Gotham é apresentada menos como uma cidade de super-heróis e mais como um território controlado por gangues, corrupção e interesses criminosos. Lembra-me, com as devidas diferenças, a abordagem noir de Ed Brubkaer nos seus Criminal ou Reckless, que tanto admiro.
Recordo que este livro foi publicado pouco tempo depois da atuação brilhante do ator Heath Ledger, enquanto Joker, no filme Batman - O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan. Pode-se, por isso, sentir que houve uma certa tentativa de cavalgar essa onda e esse hype da personagem, mas também não deixa de ser verdade que se procura criar uma narrativa tensa e memorável, por si só.
Se a escrita é poderosa, a arte de Lee Bermejo eleva a obra para outro nível. O artista adota um estilo hiper-realista impressionante, cheio de detalhes e texturas. Cada rosto, cicatriz ou expressão transmite uma sensação de autenticidade que torna os acontecimentos ainda mais perturbadores. E a representação visual de Joker é particularmente memorável, com Bermejo a apresentá-lo como um homem marcado física e psicologicamente, com um sorriso que parece uma ferida permanente e retorcida. A figura apresenta-se-nos simultaneamente repulsiva e fascinante, captando na perfeição a essência contraditória da personagem.
Em termos de cores, a paleta é dominada por tons escuros, acastanhados e esverdeados, criando uma atmosfera decadente e sufocante. Além disso, a própria cidade de Gotham surge-nos como uma cidade suja e doente, refletindo o estado moral das personagens que a habitam.
A edição da Devir é em capa mole, com badanas, e num formato reduzido. No miolo, o papel é de boa qualidade. O livro apresenta o preço incrível de 10€, pelo que me parece uma bela forma de chegar a outros públicos, assegurando uma qualidade física bastante aceitável. No final, há ainda 4 páginas com estudos preliminares e ilustrações não utilizadas por Bermejo.
Em suma, Joker é uma das mais marcantes interpretações modernas do vilão mais vil de sempre. Brian Azzarello constrói um thriller criminal intenso e perturbador, enquanto Lee Bermejo oferece algumas das ilustrações mais impressionantes alguma vez associadas a esta personagem. O resultado é uma obra adulta, violenta e provocadora, que não procura tornar Joker em alguém mais simpático, mas sim mostrar, sem filtros, porque é que este continua a ser um dos vilões mais assustadores da banda desenhada.
NOTA FINAL (1/10):
8.8
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
-/-
Joker
Autores: Brian Azzarello e Lee Bermejo
Editora: Devir
Páginas: 132, a cores
Encadernação: Capa mole, com badanas
Formato: 14,8 x 21 cm
Lançamento: Maio de 2026
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
Sem comentários:
Enviar um comentário