Uma das novidades mais curiosas - pela originalidade do projeto, diria - foi a recente aposta da editora A Seita numa nova coleção que procura editar obras de autores polacos e que goza de uma parceira entre a editora portuguesa e a editora polaca Timof Comics e o Festival Internacional de Comics de Łódź. A coleção chama-se Bursztyn/Âmbar e já inclui três obras editadas por cá: Heksa: A Bruxa, de Kasia Witterscheim e Xulm; Lunáticos, de Adam Fyda e Marek Ospalski; e este Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska.
Sem qualquer referência sobre a obra ou sobre a autora, foi com curiosidade que parti para esta leitura que nos conta a história de três irmãs que se veem obrigadas a viver sozinhas depois da morte precoce dos seus pais. Uma delas, Olza, é maior de idade, Lena tem 17 anos e a mais nova das irmãs, Dominika, sofre da "Doença de Werdurski", uma doença degenerativa que faz com que a pequena Domi não possa falar, nem andar, tendo que passar a totalidade dos seus dias na cama e a requerer de cuidados continuados. As duas irmãs mais velhas tentam conciliar o trabalho com os cuidados prestados a Domi. A vida não se lhes afigura fácil, mas num dia recebem a notícia que beneficiarão de uma herança de uma tia afastada. Isto permite às irmãs contemplarem a hipótese de colocarem Dominika num centro de reabilitação.
Mas esta hipótese não será fácil de alcançar por diversos motivos que não vos revelo, para não vos estragar o prazer da leitura.
Desde o início, a autora mergulha-nos num ambiente de instabilidade e perda, criando uma narrativa que oscila entre a dureza da realidade e a resiliência das personagens, principalmente de Lena. Ao mesmo tempo, mostra-nos como a divergência entre as irmãs mais velhas acaba por afetar as suas vidas, quer a nível amoroso, quer a nível profissional, quer a nível de relacionamento familiar ou quer a nível de projeções futuras. É, aliás, natural que uma situação tão delicada como uma doença degenerativa deste nível faça surgir tensões inevitáveis que se revelam perante a adversidade.
Uma das características mais marcantes do livro é a forma como Poszepczyńska constrói as personagens. Cada irmã possui uma identidade própria, com traços psicológicos bem definidos, o que permite ao leitor compreender as suas escolhas e conflitos internos. Essa individualização reforça a credibilidade da narrativa.
Todavia, como ponto menos positivo, senti em vários momentos que certos eventos na história são ali colocados um pouco "à força" - como, por exemplo, a questão da herança - fazendo com que os mesmos sejam meras muletas narrativas, com o propósito único de levar a história para onde a autora pretende. Mas, lá está, são algo forçadas, o que retira alguma credibilidade ao todo. Aliás, a primeira parte da história até me estava a deixar um pouco consternado com a mesma, devo admitir. Felizmente, porém, creio que, algures a meio do livro, a autora agarra melhor o enredo, centrando-se naquilo que importa e acabando por nos dar um livro bom.
Quanto aos desenhos, Anna Poszepczyńska apresenta-nos um estilo de traço bastante moderno e agradável. Por vezes, o desenho pode parecer demasiadamente pouco aprumado, uma vez que é especialmente assente no esquisso - sendo até frequente que várias personagens não apresentem narizes, bocas ou olhos em planos mais afastados - o que até poderia sugerir que estamos mais próximos de um storyboard do que de uma arte final, tal não é a velocidade e simplicidade do traço. Os cenários também se apresentam algo vazios e portadores de poucos detalhes. Contudo, com a colocação das suaves e agradáveis cores nos desenhos, a experiência acaba, ainda assim, por funcionar.
E há que dizer que, em termos de expressividade, Anna Poszepczyńska é exímia na concepção das suas personagens. E isso seria algo obrigatório para que nós, leitores, pudéssemos criar empatia e proximidade com as vivências destas três irmãs. O que acontece facilmente. Cada olhar, cada sorriso, cada expressão de desespero ou esperança é aqui representada de um modo muito convincente.
Este é um daqueles livros que poderia verdadeiramente ter sido "espetacular". Mas pelos motivos que aponto acima, nomeadamente o facto da história poder ter sido mais bem arquitetada ou pela existência de desenhos que poderiam ser mais aprimorados, não o é. É uma daquelas obras que acaba por ser inglória, pois sente-se que havia potencial para criar algo mais grandioso. Embora, claro, seja uma boa leitura que vos recomendo a fazer. E concedo que, especialmente mais para o final, a obra revela-se interessante e valiosa, deixando-nos com uma boa experiência. Gostei particularmente como a autora resolveu e concluiu a história, de modo realista e, ao mesmo tempo, impactante.
A edição é em capa mole baça, com badanas, e bom papel baço no miolo. A encadernação e a impressão também estão bem feitas. No final, há três páginas com esboços e estudos de personagens.
Em suma, Três Irmãs é uma obra tocante e sensível sobre os sacrifícios e as escolhas que fazemos - ou que nos vemos forçados a fazer - para apoiar aqueles que nos são próximos, mesmo que isso, muitas vezes, nos afaste da caminhada que havíamos pensado para nós mesmos. É um livro agradável, que merece ser lido, mesmo que, com um pouco mais de trabalho da autora, pudesse ter ficado ainda melhor.
NOTA FINAL (1/10):
7.8
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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Três Irmãs
Autora: Anna Poszepczyńska
Editora: A Seita
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Março de 2026
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