Murena #13 - As Neronia, de Jean Dufaux e Jérémy
Foi no passado mês de março que a editora ASA nos fez chegar o mais recente volume da muito celebrada série Murena. Ambientada na antiga Roma, esta é uma obra rica no argumento, sendo carregada de conspirações, traições, tramas políticas, erotismo e personagens impactantes. E tem sido brilhantemente desenhada.
Da autoria de Jean Dufaux, a série foi originalmente ilustrada por Philippe Delaby. Depois do falecimento deste, foi Theo quem ocupou o seu lugar. Mas, neste 13º volume, intitulado As Neronia, que abre o quarto e último ciclo da série, é Jérémy quem assegura os desenhos. Recordo que este autor até já havia trabalhado na série, tendo feito o trabalho de colorização de vários tomos, ainda no tempo de Delaby.
Dando, por isso, continuidade a uma das mais ambiciosas recriações da Roma Antiga alguma vez produzidas em banda desenhada, este novo livro não perde o fôlego, apesar do encerramento de importantes linhas narrativas no álbum anterior. Pelo contrário, sente-se que Dufaux aproveita este novo ponto de partida para um "fresh restart", reposicionando as suas personagens e preparando o terreno para novos conflitos. Apreciei especialmente esta faceta deste livro, pois sinto sempre que nestas séries longas, com muitas personagens e tramas complexas, é sempre bem-vindo um álbum que procure unir algumas das pontas que vão ficando soltas.
Regressamos à Roma de Nero, o imperador que está cada vez mais absorvido pela sua própria imagem e pelo desejo quase doentio de ser admirado pelos demais. Após os eventos decorridos nos tomos anteriores, Nero procura agora reconquistar o povo através da organização dos Neronia, os grandiosos jogos artísticos e atléticos inspirados nos festivais gregos. Uma espécie de jogos olímpicos. Algo que possa entreter as gentes do povo. À superfície, estes jogos surgem, pois, como uma celebração cultural, mas, naturalmente, não passam de um mero exercício propagandístico destinado a glorificar o imperador e a reforçar o seu poder.
Aprecio bastante a forma como Nero é retratado, com Dufaux a não caracterizá-lo como um simples tirano unidimensional. Ao invés, existe nele uma mistura curiosa de charme, fragilidade, vaidade e crueldade que o torna simultaneamente imprevisível e assustador. Por vezes parece mau, noutras vezes parece um bom homem.
Além disso, a morte de Séneca, ocorrida no volume anterior, continua a fazer-se sentir ao longo de toda a narrativa, pois é algo que deixou Roma mergulhada num ambiente de medo, suspeita e vigilância constante. Esta atmosfera sufocante, onde ninguém parece verdadeiramente seguro e onde cada palavra pode ser interpretada como um ato de traição, está muito bem trabalhada e sente-se ao longo de todo o livro.
Entretanto, Lúcio Murena continua a estar cercado por intrigas, manipulações e traições, sendo constantemente obrigado a movimentar-se num território onde as certezas são escassas e onde a lealdade tem um preço cada vez mais elevado. Por sua vez, Tigelino continua a consolidar a sua posição como uma das figuras mais perigosas da narrativa. A sua influência sobre Nero permanece grande, mas Dufaux introduz novos equilíbrios de forças dentro da corte imperial. A presença da misteriosa Hidra acrescenta novas camadas de complexidade ao jogo político, criando uma interessante competição pela proximidade ao imperador. Um autêntico jogo de cadeiras.
Não é que haja, porém, grandes cenas de violência. Na verdade, parece haver uma preocupação em privilegiar-se uma construção pausada da intriga, como se fosse uma forma de preparar o que pode vir no futuro. É verdade que isto pode fazer com que sintamos que acontecem poucas coisas neste tomo. No entanto, parece-me que essa opção é deliberada. Como já disse mais acima, Dufaux parece estar mais interessado em reorganizar o tabuleiro das peças humanas, dando um passo atrás para, depois, poder dar dois em frente. Ou assim espero.
Ainda assim, continuo a sentir que uma das fragilidades recorrentes da série permanece presente. Por vezes, Dufaux introduz personagens, ideias ou subtramas muito interessantes que nem sempre recebem o desenvolvimento que aparentam prometer inicialmente. Não se trata de um problema grave, mas há momentos em que a narrativa parece dispersar-se ligeiramente, desviando a atenção para elementos cujo impacto acaba por revelar-se mais reduzido do que seria expectável. Do ponto de vista global, se os nós forem bem atados no futuro, até pode não ser um problema. Contudo, pensando o livro de forma isolada, acaba por ser algo mais comprometedor, parece-me.
Do ponto de vista visual, este é também um álbum importante por, tal como já mencionei, marcar a chegada de Jérémy ao lugar de desenhador da série. E a verdade é que o autor não demonstra qualquer necessidade de adaptação. Desde as primeiras páginas percebe-se que compreendeu perfeitamente os códigos gráficos de Murena e que sabe respeitar a identidade visual construída por Philippe Delaby ao longo de tantos anos.
Assim os desenhos, de traço realista, continuam a apresentar uma qualidade visual muito elevada. O enquadramento das cenas é bastante cinematográfico, enquanto a expressividade das personagens continua a ser uma das grandes forças da série. Além disso, as decorações, as indumentárias, os cenários e os elementos arquitetónicos revelam um cuidado impressionante com o detalhe, contribuindo para uma recriação histórica particularmente convincente.
E, já agora, as cores também desempenham um papel fundamental. Há uma riqueza cromática constante que valoriza cada página e ajuda a reforçar tanto a grandiosidade dos espaços imperiais como os momentos mais intimistas. O resultado final é um álbum visualmente muito sólido, que consegue simultaneamente preservar o legado dos seus antecessores e afirmar a identidade própria do novo ilustrador.
E não posso deixar de referir que a ilustração desta capa é verdadeiramente sublime. Todas as capas de Murena, ou quase todas, são belas, mas esta, em particular, é a mais bonita de todas, quanto a mim.
Quanto à edição da obra, o livro apresenta capa dura brilhante, com bom papel brilhante no miolo. A encadernação e a impressão também são boas. Há ainda um importante prefácio de Jean Dufaux.
Não posso, no entanto, deixar de referir algo que me deixou bastante desapontado: o texto constante na contracapa do livro não está em português de Portugal, mas em português do Brasil(!), o que me leva a crer que talvez se tenha utilizado um google translator, ou semelhante, para traduzir este texto. E saber que numa editora como a ASA isso acontece, é algo que acho lastimoso. Devo dizer que no interior do livro, não detetei que o texto não estivesse bem feito... mas o mal - do texto da contracapa - já estava feito. E espero que tenha sido apenas um lapso que passou e que não venha a ser repetido no futuro, pois isto é algo que não dignifica a obra, nem a editora, nem a edição, nem a tradução.
Em suma, este recente Murena #13 - As Neronia funciona sobretudo como um volume de transição, em que Jean Dufaux aproveita este novo ciclo para aprofundar as tensões políticas e psicológicas do enredo, enquanto o ilustrador Jérémy assegura a continuidade gráfica da obra com enorme competência. Está longe de ser o álbum mais explosivo da série, mas é, ainda assim, um capítulo sólido, elegante e promissor que deixa grande expectativa para o que virá a seguir.
NOTA FINAL (1/10):
8.8
-/-
Murena #13 - As Neronia
Autores: Jean Dufaux e Jérémy
Editora: ASA
Páginas: 46, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 298 x 226 mm
Lançamento: Março de 2026
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