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sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Análise: Tango #2 – Areia Vermelha

Tango #2 – Areia Vermelha, de Philippe Xavier e Matz - Gradiva

Tango #2 – Areia Vermelha, de Philippe Xavier e Matz - Gradiva
Tango #2 – Areia Vermelha, de Philippe Xavier e Matz

A Gradiva tem apostado fortemente nesta série. Em poucos meses, já lançou três álbuns. O que me faz antever que as vendas assim o justificam. E vender-se bem banda desenhada – seja ela qual for – é sempre uma boa notícia para nós, amantes de bd. Significa que há leitores compradores, o que, consequentemente, pode levar a uma maior aposta das editoras em novos lançamentos. Fico, portanto, feliz que Tango esteja, aparentemente, a ter sucesso.

Olhando para este segundo tomo, devo admitir que senti alguma desilusão com a obra, após um primeiro tomo, já aqui analisado, que, não sendo perfeito, acalentou as minhas esperanças numa banda desenhada com várias boas ideias. Este Areia Vermelha é um livro que se lê bem, mas que poderia ser muito melhor. Especialmente em termos de argumento.

Tango #2 – Areia Vermelha, de Philippe Xavier e Matz - Gradiva
Neste segundo tomo, continuamos a acompanhar a personagem carismática de John Tango que, desta vez, fazendo-se acompanhar pelo seu amigo Mário, visita o seu avô a uma pequena ilha das Caraíbas. O encontro entre neto e avô dá-se com satisfação e surpresa do mais velho. E embora pareça que o avô de John Tango viva num autêntico paraíso tropical, depressa se verifica que os poucos habitantes daquela pequena ilha enfrentam sérios problemas devido ao seu lugar ter começado a ser cobiçado por traficantes de droga, que querem utilizar a ilha com ancoradouro para o seu tráfico de droga. 

John Tango vê-se assim - e novamente - forçado a intervir. Entretanto, existe uma rapariga na ilha, Alma, com quem Tango não estava há muitos anos e que, com o passar do tempo, se tornou numa bela e mulher. E pronto, basicamente, são estas as bases do argumento traçado por Matz neste Areia Vermelha.

Mas é tudo feito de uma forma tão superficial que chega a fazer-me alguma confusão. Os eventos e, especialmente, os diálogos são bastante pobres, denotando pouca inspiração por parte do autor. Considero até que há um subaproveitamento das páginas do livro com eventos não tão importantes assim a receberem mais destaque do que mereciam. Por exemplo, quando, logo no início do livro, Mário faz uma curta paragem na viagem de barco para ir a um bar e conhecer uma mulher, isso não traz absolutamente nenhuma mais valia à história, propriamente dita, e são 3 páginas inteiras do livro que se gastam com um não-acontecimento. Nem sequer essa mulher ou essa experiência de Mário trazem nada de especial ao enredo, exceptuando uma pequena graçola – não muito espirituosa – no final do livro. 

Tango #2 – Areia Vermelha, de Philippe Xavier e Matz - Gradiva
No entanto, quando mais à frente morre uma personagem na história – que não digo qual é, para não fazer um spoiler a ninguém – a maneira como as outras personagens reagem a esse acontecimento, parece-me demasiado afastada e fria, não batendo a "bota com a perdigota", entre as consequências de um acontecimento e a forma como as personagens reagem a esse acontecimento. 

Há, portanto, uma superficialidade na forma como o argumentista trabalha as personagens. A própria obrigatoriedade de Tango ter, novamente, um episódio romântico parece-me, mais uma vez, bastante forçada. Dá a ideia de que as coisas acontecem só porque sim, como se fosse para “cumprir calendário”. 

Se formos a ver bem, já no primeiro tomo, eu registei algumas dúvidas quanto à banda desenhada. No entanto, nesse caso, a meio do livro houve todo um regresso ao passado da personagem de John Tango, que achei inspirado e mais profundo e que, de certa forma, salvou esse primeiro livro, tornando-o muito melhor do que este segundo tomo. Como neste Areia Vermelha não há um regresso ao passado ou uma qualquer outra tentativa de character building mais inspirada como houve no tomo anterior, isso leva a que a história seja manifestamente inferior.

Tango #2 – Areia Vermelha, de Philippe Xavier e Matz - Gradiva
Quanto à arte ilustrativa, temos um livro em linha com aquilo que já nos tinha sido dado no tomo anterior, pelo autor Philippe Xavier. Num traço franco-belga que nos remete para outras séries clássicas como Largo Winch ou XIII, os desenhos de Xavier cumprem a tarefa de nos contar a história de forma satisfatória. Repito, por isso, aquilo que escrevi por altura de Tango #1: "embora as ilustrações de Xavier tenham um aspeto geralmente bem apelativo, se formos ao pormenor, encontraremos a falta disso mesmo: de pormenores. Com efeito, é verdade que as personagens são bastante bem desenhadas e que, no cômputo mais direto, este é um daqueles livros que, quando abertos, parecem ter desenhos espetaculares. Um olhar atento permitirá ver que talvez não sejam espetaculares, mas lá que são globalmente bem conseguidos, lá isso são. Penso que se os cenários fossem, por vezes, mais detalhados, estaríamos perante uma experiência ainda mais impactante, em termos da nossa imersão nas ilustrações do autor Xavier. Não obstante, e com a arte ilustrativa ajudada por uma boa aplicação de cores, que oferece ao conjunto total um cariz moderno, acho justo admitir que, visualmente falando, e mesmo sem ser deslumbrante, Tango consegue ser apelativo."

Tango #2 – Areia Vermelha, de Philippe Xavier e Matz - Gradiva
Olhando para a edição da Gradiva, o trabalho também está em linha com aquilo que a editora tem vindo a lançar nos seus livros de banda desenhada franco-belga: capa dura e baça, papel brilhante de boa gramagem, boa encadernação e boa impressão. Nada a apontar. Ao contrário do primeiro livro da série, aqui não há um pequeno dossier de extras.

Insisto também no facto da legendagem desta banda desenhada, com balões que ocupam espaço a mais nas vinhetas, letras demasiado grandes e um espaçamento muito alargado entre palavras, me fazer uma certa confusão. Parece feito propositadamente para pessoas com problemas de visão. E não estou a fazer nenhuma piada, dizendo isto. É mesmo o que me parece. De qualquer maneira, como já é o segundo álbum da série, também compreendo que agora não se vá mudar esta questão. Foi uma opção, vá.

Em conclusão, este segundo tomo de Tango fica uns furos abaixo do primeiro volume que apresentou algumas boas ideias e, acima de tudo, a criação de um protagonista emblemático. Pelo lado positivo, destaca-se o bom comprometimento da Gradiva nesta série que, em pouco tempo, já vê 3 dos seus 6 volumes publicados em Portugal.


NOTA FINAL (1/10):
6.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Tango #2 – Areia Vermelha, de Philippe Xavier e Matz - Gradiva

Ficha técnica
Tango #2 – Areia Vermelha
Autores: Philippe Xavier e Matz
Editora: Gradiva
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Setembro de 2021

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Análise: Long John Silver (Série Completa)

Long John Silver (Série Completa), de Xavier Dorison e Matthieu Lauffray - ASA e Público

Long John Silver (Série Completa), de Xavier Dorison e Matthieu Lauffray - ASA e Público
Long John Silver (Série Completa), de Xavier Dorison e Matthieu Lauffray

Quando soube que a ASA iria lançar, com o jornal Público, a mini-série Long John Silver, de Dorison e Lauffray, constituída por 4 volumes, eu não poderia ter ficado mais contente! Por vários motivos, até: primeiro, porque é uma série muito boa, muito bem pensada e desenvolvida pelos seus autores; em segundo lugar, porque se encontrava, inexplicavelmente, inédita em Portugal; e terceiro, porque é mais um passo da editora ASA num caminho de edição de banda desenhada que me parece o mais adequado.

Começo até por aí. Mesmo que possa admitir que já houve alguns anos em que a ASA lançou séries muito boas com o jornal Público, não me recordo de nenhum ano tão bom como este. Na passagem de 2020 para 2021 a editora editou a surpreendentemente boa série RIO. Depois, a meio deste ano, lançou a maravilhosa série Peter Pan, de Régis Loisel, que, lamentavelmente, nunca tinha sido integralmente editada em Portugal. E, agora, mais no final do ano, lança este Long John Silver. Que ano fantástico para a parceria ASA/Público! O melhor de sempre, estou certo!

Long John Silver (Série Completa), de Xavier Dorison e Matthieu Lauffray - ASA e Público
E que assinala uma coisa que me faz ficar esperançoso para os próximos tempos: a ASA parece estar a mudar a sua forma de lançar séries de banda desenhada com o Público. Nada tenho contra o facto da editora ter lançado, em outros anos, séries do espectro franco-belga mais clássico - como Blueberry ou Spirou, que agora me vêm à memória, e que eu até mesmo as comprei. Não obstante, do ponto de vista editorial, era sempre uma aposta algo bafienta, demasiado clássica, que mantinha a mesma fórmula, não trazendo nada de verdadeiramente novo para o catálogo da editora. Com este trio de séries curtas franco-belgas de 2021 – RIO, Peter Pan e Long John Silver – a editora e o Público demarcaram-se dos anos anteriores. E para muito melhor.

De futuro, é continuar a trilhar este caminho!

Falando agora mais concretamente de Long John Silver, posso dizer que é uma série com um enorme fulgor narrativo e um desenho carregado de alma e emoção, a que os amantes de boa banda desenhada franco-belga terão dificuldade em resistir. Ambientada no tempo dos piratas, a história é como que uma continuação da vida do pirata Long John Silver, uma personagem originalmente concebida por Robert Louis Stevenson no seu clássico da literatura A Ilha do Tesouro.

A história deste Long John Silver, sendo independente, e podendo ler-se sem se conhecer, sequer, A Ilha do Tesouro, continua exatamente a partir do momento em que a história de Stevenson termina.

Long John Silver (Série Completa), de Xavier Dorison e Matthieu Lauffray - ASA e Público
Depois de regressar da ilha do tesouro, o pirata Long John Silver abriu uma pousada em Bristol. É claro que sendo “o maior pirata de todos os tempos”, a sua carreira como estalajadeiro não seria, nunca, muito demorada. E quando a bela e sensual Lady Vivian Hastings lhe propõe um trabalho que o levará ao encontro de um dos maiores tesouros de sempre, de Huayna Capac, no Peru, Long John Silver não tem muitos problemas em dizer SIM a este convite. É a partir daí que começa uma épica viagem pelo oceano Atlântico, sempre cheia de atribulações, até às terras do império inca, apoiada num bom enredo, que nos traz personagens cativantes e misteriosas.

Se a personagem de Long John Silver é a “estrela do show” e nos parece cativar de vinheta para vinheta, Lady Vivian Hastings (também) é verdadeiramente magnífica. Ela é uma das personagens femininas mais carismáticas e emblemáticas de todas as bandas desenhadas franco-belgas que já li. Vivian é má, mas com uma índole boa. Temível, mas temerária. Sensual, mas vingativa. Presa, mas caçadora. Vilã, mas heroína, ao mesmo tempo. O tipo de personagem a que é difícil ficar indiferente. Aliás, com efeito, se poucas são as minhas queixas com esta excelente banda desenhada, uma delas é que Lady Vivian Hastings vá perdendo algum do seu protagonismo ao longo dos quatro volumes. No primeiro volume é ela a grande estrela da série, mas, com alguma pena minha, e gradualmente, daí em diante Dorison parece centrar-se apenas na personagem de Long John Silver e “esquecer”, de certa forma, esta fantástica personagem feminina.

Long John Silver (Série Completa), de Xavier Dorison e Matthieu Lauffray - ASA e Público
O mistério está sempre constante nesta obra. Mistério sobre o famigerado ouro de que tanto se fala, mistério sobre Lord Hastings, o esposo de Vivan, mistério sobre o local para onde a tripulação ruma, mistério sobre a enigmática personagem do índio Moc ou, claro, dos próprios Long John Silver e Lady Vivian Hastings. A leitura é feita com um ligeiro sobressalto pois estamos sempre à espera que alguma personagem possa morrer ou nos possa fazer uma enorme revelação. Tal como a tripulação do Neptuno, também nós navegamos rumo ao desconhecido nesta banda desenhada.

Ainda falando sobre o argumento, bem estruturado, e com muitas camadas para irmos desembrulhando ao longo da nossa leitura, lamento apenas que a parte final – o último volume – pareça ter sido feito um pouco mais “à pressa”. A resolução da história é boa, assinale-se, mas pareceu-me algo abrupta e um pouco à pressão, por vezes. Embora admita que as últimas 3 páginas do último livro saibam, ainda assim, encerrar com mestria esta fantástica banda desenhada.

O principal néctar desta aventura está, pois, na preparação da viagem (tomo 1) e na própria viagem em si (tomo 2 e 3). Quando Long John Silver e a sua tripulação chegam, finalmente, ao destino, a história passa de um registo mais “de aventura” para um registo “de fantasia”, com um teor metafísico. Não apreciei tanto, mas também não posso dizer que isso estrague alguma coisa. É mais uma questão de opção de narrativa do autor. Ou de gosto do leitor, vá.

Long John Silver (Série Completa), de Xavier Dorison e Matthieu Lauffray - ASA e Público
O desenho de Lauffray é verdadeiramente maravilhoso! Ao princípio, até pode parecer um traço algo rude e rápido, sem o detalhe a que o género franco-belga já nos habituou, mas um olhar atento permitir-nos-á compreender toda a aptidão e virtuosismo do autor, no desenho de magníficas paisagens; de fantásticas personagens, cujas expressões não mais esquecemos; de um mar que parece ter vida própria e ser um personagem por si só; do barco Neptuno e da sua imponência e fragilidade; das brilhantes cenas de ação e luta, das condições meteorológicas que, ora adversas, ora calmas, contribuem - em muito! - para a veracidade e dinâmica da narrativa gráfica. Somando ainda, para além de tudo isso, uma mudança dinâmica e variada de enquadramentos, efeitos de luz que acentuam momentos dramáticos impactantes e m belo processo de colorização das ilustrações. Enfim, também em termos visuais, tudo funciona magnificamente bem em Long John Silver.

Destaque ainda para o facto de algumas páginas terem uma planificação muito arrojada, que quase nos remete para cartazes de filmes, em que temos, ao mesmo tempo, ilustrações de vários lugares e várias personagens. Absolutamente fantástico e revelador de um autor muito inspirado!

Long John Silver (Série Completa), de Xavier Dorison e Matthieu Lauffray - ASA e Público
E falando em coisas arrojadas e inspiradas, que dizer das brilhantes, magníficas e luxuriantes capas destes livros? As quatro capas são excelentes, mas, especialmente as capas dos volumes 2 e 3, Neptuno e Labirinto de Esmeralda, respetivamente, considero das capas mais bonitas de toda a minha (grande!) coleção de banda desenhada. Se há casos em que uma capa já quase vendeu o livro, este é um deles. Aliás, não nego que, quando comprei e li a versão inglesa desta série, o fiz porque fiquei rapidamente cativado pelas brilhantes ilustrações de capa. Autênticas obras de arte! Portanto, entre ficar impressionado com estas capas até à compra dos livros, foi um curto passo.

Quanto à edição da obra, a ASA volta a fazer as coisas bem. A boa encadernação em capa dura e brilhante, bom papel e boa impressão fazem com que possamos olhar para esta edição como uma edição de colecionador. 

E tanto assim o é que a própria lombada dos quatro volumes até forma um desenho conjunto que, neste caso, é o bonito logótipo da série. Gosto muito de desenhos na lombada, pois os mesmos dão um cunho de luxo e de colecionador à obra. E, sinceramente, até tive alguma pena que a editora não tenha feito o mesmo com as lombadas de RIO ou de Peter Pan – embora, no caso desta última série, como já tinham sido publicados anteriormente 4 dos 6 volumes que compõem Peter Pan, eu compreenda que a ASA tenha jogado pelo seguro, não arriscando em ter um desenho de lombada que poderia – ou não? – afastar eventuais compradores, que já tinham os 4 volumes anteriormente lançados.

Long John Silver (Série Completa), de Xavier Dorison e Matthieu Lauffray - ASA e Público
Concluindo, e voltando ao início do meu texto, ver Long John Silver totalmente editado em Portugal foi uma das (muitas) boas notícias para a banda desenhada em Portugal, durante este ano de 2021. 

Quando, há uns meses, eu tinha feito o meu Top 10 de BD's incríveis que (ainda) não estão publicadas em Portugal, Long John Silver até tinha ocupado a 2ª posição da minha lista, vejam lá.

Long John Silver tem tudo o que uma boa banda desenhada deve ter: uma boa história, muito bem contada, com personagens inesquecíveis, com um pendor histórico, embora ficcional, e desenhos maravilhosos que elevam a nossa experiência de leitura. Que boa cartada, cara editora ASA! 

E, já agora, que futuramente venham mais séries de bd com piratas. Gosto bastante de cowboys mas, para mim, os verdadeiros “badasses” sempre foram os piratas!



NOTA FINAL (1/10):
9.6


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Long John Silver (Série Completa), de Xavier Dorison e Matthieu Lauffray - ASA e Público

Fichas técnicas
Long John Silver #1 - Lady Vivian Hastings
Autores: Xavier Dorison e Matthieu Laufray
Editora: ASA
Páginas: 68, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Setembro de 2021

Long John Silver (Série Completa), de Xavier Dorison e Matthieu Lauffray - ASA e Público

Long John Silver #2 - Neptuno
Autores: Xavier Dorison e Matthieu Laufray
Editora: ASA
Páginas: 60, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Outubro de 2021

Long John Silver (Série Completa), de Xavier Dorison e Matthieu Lauffray - ASA e Público

Long John Silver #3 - Labirinto de Esmeralda
Autores: Xavier Dorison e Matthieu Laufray
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Outubro de 2021

Long John Silver (Série Completa), de Xavier Dorison e Matthieu Lauffray - ASA e Público

Long John Silver #4 - Huayna Capac
Autores: Xavier Dorison e Matthieu Laufray
Editora: ASA
Páginas: 72
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Novembro de 2021

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Análise: Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos

Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos, de Pedro Brito e João Fazenda - A Seita e Comic Heart

Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos, de Pedro Brito e João Fazenda - A Seita e Comic Heart
Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos, de Pedro Brito e João Fazenda

Há obras que pura e simplesmente parecem trilhar o seu próprio caminho de uma forma única e fluída. Que chegam até nós e, sem pedir licença, se afirmam comodamente como representativas de algo único e sofisticado. E como se os seus autores pudessem saber, logo desde o início, para onde queriam ir em termos artísticos e em que lugar de honra ficaria a sua criação. Estão a ver quando um jogador de futebol parte confiante para a marcação de um livre, sabendo que vai marcar golo? 

Por vezes também é verdade que acontecem acasos felizes e certas criações artísticas são acalmadas sem que os autores assim o pudessem prever. Apenas se deixaram levar pela sua criação sem noção de como a mesma seria recebida. Com ou sem noção por parte dos autores, há uma coisa certa: por vezes, algumas criações artísticas têm uma vida própria e marcam um tempo e um género artístico. É o caso deste Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos. Um título grande e inspirado para uma obra cuja marca na banda desenhada nacional se fez sentir desde o seu lançamento original, então pela editora Polvo, em 2000, e se mantém intacta passadas mais de duas décadas.

Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos, de Pedro Brito e João Fazenda - A Seita e Comic Heart
A reedição desta obra pel'A Seita e pela Comic Heart, que já era impossível de encontrar nas lojas portuguesas, faz, portanto, todo o sentido e é bem-vinda para todos. Para os que já conheciam - e a podem apreciá-la novamente, numa melhor edição - e para os que ainda não a tinham lido.

Esta é uma daquelas obras que se mantém atual passados todos estes anos. E isso justifica-se, a meu ver, por duas razões: 1) a abordagem visual, de tão original e única, tem e terá sempre o seu espaço próprio, não sofrendo obsoletismos com o passar dos anos; e 2) o próprio argumento, sendo mundano e focado nas relações humanas e seus respetivos problemas que enfrentamos, será sempre tema presente nas nossas vidas. 

Com efeito, há que considerar que as coisas que ficam obsoletas são as coisas que estão presas à atualidade e à moda. Não é o caso desta obra. No ano de 2000 não era esta a maneira de se fazer banda desenhada. Em 2021 também não o é. Necessariamente. E porquê? Porque Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos é uma obra original, com uma linguagem narrativo-visual à sua própria maneira. E quando algo é diferente no tempo presente, também o será no tempo futuro, a menos que, claro está, seja replicado por outros. Também não foi o caso, felizmente.

Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos, de Pedro Brito e João Fazenda - A Seita e Comic Heart
A história da obra é simples. Acompanhamos a vida de um casal, Tomás e Elsa, que se encontra em crise conjugal. Cada um dos elementos está cada vez mais afastado do outro. Os caminhos, interesses, paixões de ambos parecem estar a separar-se, sem que seja possível mudar esse rumo. Ela é artística plástica e ele é escritor. Um dia, Tomás compra a uma idosa uma planta que, julga ele, pode bem ser a sua musa inspiradora, já que ele há muito não se sente verdadeiramente inspirado para as suas escritas. Não há muito mais a dizer sobre o argumento, que é simples e, à primeira vista, até pode não impressionar muito.

Mas este é um caso em que o que mais conta não será tanto o conteúdo, mas a forma. E, olhando para o papel de Pedro Brito, o argumentista, nesta obra, acho que o que mais salta à vista é a qualidade e inspiração que o mesmo aparenta ter para imaginar diálogos marcantes e verosímeis, que permitem às personagens um bom grau de profundidade, pois é através desses mesmos diálogos que vai sendo traçado o carácter de cada uma das personagens e suas respetivas motivações.

Por vezes, todos nós, menosprezamos a importância da construção de um bom diálogo (em banda desenhada, no cinema ou em literatura) para que a experiência que uma obra nos dá seja verdadeiramente impactante. E este é um claro exemplo em que são exatamente os diálogos que fazem a história. É aquilo que aqui é dito, e como é dito, que torna esta história tão prazerosa de acompanhar.

Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos, de Pedro Brito e João Fazenda - A Seita e Comic Heart
Mas se os temas e problemas levantados pelo argumentista são bem pensados e apresentados, acho que é justo dizer que a força primordial desta obra reside na sua componente visual. João Fazenda, desconstruindo todas as regras possíveis e imaginárias, construiu o seu próprio mundo próprio, dotando Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos de uma singularidade total. Nunca li uma obra que, visualmente, fosse parecida a esta. E mesmo aquelas obras em que disse: “Hmmm é do mesmo género”, depois de bem vistas, me fizeram perceber que, de facto, não eram do mesmo género, coisíssima nenhuma.

João Fazenda apresenta um traço simplista e rápido, que parece advir do universo da ilustração e, não tanto, da banda desenhada. Os traços são lineares e, quase sempre, servem apenas para delinear uma expressão, uma postura de um corpo em mancha. Manchas essas que são pequenos borrões em tons de vermelho. Por exemplo, abrindo o livro ao calhas, vejo o corpo da personagem de Tomás que não passa de uma mancha de tinta a vermelho. Mas depois, para que se reconheça que se trata de Tomás, e não de uma outra qualquer personagem, o autor desenhou as suas feições e o seu rosto num traço a preto. Só é desenhado o estritamente necessário. Acaba por funcionar muito bem, a meu ver, porque o resultado final é sofisticado, mas simples; abstrato, mas percetível o quanto baste. Ou seja, acaba por haver muito equilíbrio. Se um leitor, numa livraria, folheando o livro achar: “Ui, que desenhos estranhos… isto não é para mim” pode, quase de certeza, depois de finda a leitura – se lhe der a devida oportunidade – descobrir que este tipo de desenhos, primeiro estranham-se, mas depois entranham-se. Mas, gostos à parte, que são subjetivos, o que será, sem dúvida mais consensual, é o cariz único e verdadeiramente inspirado destes desenhos, onde o autor se recria, página após página. Uma nota ainda para a maneira quase arcaica como faz a planificação da história sem, no entanto, tornar a leitura difícil de acompanhar. São dualidades atrás de dualidades que, medindo forças entre si, se conjugam de maneira maravilhosa nesta obra de grande fulgor.

Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos, de Pedro Brito e João Fazenda - A Seita e Comic Heart

O resultado dos esforços de Pedro Brito e João Fazenda resulta numa obra que quem já leu não esqueceu e quem a ler, agora, pela primeira vez, não esquecerá também. E é assim mesmo que se querem as criações artísticas com que nos vamos deparando na nossa vida: inolvidáveis.

Quanto à edição, acho que a Comic Heart e A Seita estão de parabéns pelo fantástico trabalho que aqui encetaram. São quase 20 páginas de extras, onde se incluem esboços, uma longa e interessante entrevista conduzida por André Oliveira e um texto sobre a obra de Pedro Vieira de Moura. A edição é em capa dura, com papel baço de boa gramagem. O design gráfico da obra também está muito bem conseguido também. E a capa, sendo inédita, também é muito bonita. Tudo feito com muito bom gosto.

Em conclusão, esta é uma obra original, marcante, e, até, seminal na sua abordagem à banda desenhada. Fica-se com aquela sensação de que nunca se leu um livro igual e, provavelmente, nunca se voltará a ler um livro igual. Nem mesmo no caso de serem os mesmos autores a tentarem esse feito. Imperdível e um dos melhores álbuns da banda desenhada portuguesa. De sempre.


NOTA FINAL (1/10):
9.3


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos, de Pedro Brito e João Fazenda - A Seita e Comic Heart

Ficha técnica
Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos
Autores: Pedro Brito e João Fazenda
Editora: A Seita e Comic Heart
Páginas: 120, a 2 cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Setembro de 2021

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Análise: Murena XI - Lemúria

Murena XI - Lemúria, de Jean Dufaux e Theo Caneschi - ASA

Murena XI - Lemúria, de Jean Dufaux e Theo Caneschi - ASA
Murena XI - Lemúria, de Jean Dufaux e Theo Caneschi

Com o lançamento deste Lemúria, a ASA conseguiu estar a par da edição original da série Murena. O que é sempre uma nota positiva e digna de louvores. Este é o 11º volume da série, que sucede a O Banquete, álbum editado já este ano pela ASA. O que atesta, uma vez mais, o bom comprometimento da editora portuguesa para com esta série. Pelo meio, houve ainda a reedição do primeiro volume de Murena.

O que me leva a tecer um comentário sobre a forma meio aos "ziguezagues", como a série tem sido publicada por cá. Aliás, há uns tempos, em conversa com uns amigos que dominam a bd, chegámos à conclusão que nenhum de nós tinha lido todos os tomos da série devido a termos ficado, a determinada altura, perdidos na forma meio anárquica como a série foi publicada por cá. E a verdade é que todos os volumes de Murena até foram publicados por cá. 

Murena XI - Lemúria, de Jean Dufaux e Theo Caneschi - ASA
Senão vejamos: foram publicados dois álbuns duplos, que continham os volumes 3 e 4 e os volumes 6 e 7. Todos os outros foram lançados em volume único. Para baralhar ainda mais as coisas, a ASA decidiu reeditar o volume 1 há uns meses. Todos os fãs da série ficaram radiantes com esta iniciativa da editora, mas, aparentemente, e até agora, pelo menos, a reedição da obra parece ter ficado por aí. Portanto, os volumes 2 e 3-4 estão esgotados. Os outros talvez se possam encontrar ainda por aí. Cada ciclo da série é composto por 4 volumes.

Portanto, chegados aqui, e dado que a ASA continua a publicar a série, acho que seria uma oportunidade de ouro para que a editora portuguesa reeditasse, efetivamente, toda a série. Do primeiro ao mais recente livro. E com um formato e edição estandardizados, se não for pedir muito.

Feita a nota relativamente à edição da série, resta-nos olhar para este volume 11, intitulado Lemúria, que é o terceiro e penúltimo deste ciclo da série, e que traz Theo Caneschi nas ilustrações, mais uma vez, depois de, a partir do volume anterior, este autor ter assegurado a ilustração da série devido ao falecimento do ilustrador original, Phillipe Delaby.

Murena XI - Lemúria, de Jean Dufaux e Theo Caneschi - ASA
Começando até por aí, pela componente da arte ilustrativa, devo dizer que este Lemúria não desilude e apresenta ilustrações muito belas e bem conseguidas, onde tudo parece funcionar bem. Sendo ao jeito do estilo do autor anterior e assegurando, por isso, a continuidade gráfica da série, Theo parece conseguir igualar o autor original em todas as formas possíveis. Se estivermos com os álbuns de um e outro autor abertos, ao lado um do outro, talvez vejamos algumas diferenças ao nível do traço. Mas, tirando isso, e lendo de enfiada este Lemúria, ou o anterior Banquete, tendo apenas presente, na memória, as ilustrações de Delaby, decerto não encontraremos diferenças por aí além. O que me leva a dizer que foi uma substituição perfeita. 

As personagens continuam carismáticas, realistas, expressivas e com uma personalidade muito própria e muito cativante. Há uma grande riqueza e variedade naquilo que nos é dado, com várias cenas de ação ou momentos mais introspetivos, em que somos convidados pelos autores a apreciar os magníficos cenários, tão bem retratados por Theo. As cores, de Lorenzo Pieri, também são muito belas, contribuindo para uma experiência visual muito agradável. Planificação, dinâmica sequencial... está tudo bem feito, também.

Murena XI - Lemúria, de Jean Dufaux e Theo Caneschi - ASA
Quanto ao argumento, a história coloca-nos novamente na Roma Antiga, agora no dia que sucedeu ao grande incêndio de julho de 64, em que o imperador Nero se mantém cheio de dúvidas, e em que o seu amigo, Lúcio Murena, desapareceu. Terá mesmo Lúcio participado numa conspiração contra o imperador romano como muitos afirmam? As dúvidas persistem na mente de Nero. Quanto a Lúcio, encontra-se nas mãos de Lemúria, que o tem manipulado com drogas, de forma a torná-lo um mero objeto dos seus prazeres carnais. Mesmo assim, Lúcio consegue fugir dela pois só dessa forma pode recuperar a sua própria lucidez e memória. E, entretanto, aparece Petrónius para o ajudar a reconectar-se consigo mesmo e com o seu passado. 

A trama vai-se então adensando, mantendo a mesma aura daquilo que a série nos tem dado até agora. Confesso que para mim, que andei afastado desta série alguns anos, tive alguma dificuldade em recordar certos eventos que aparecem mencionados neste Lemúria de forma direta ou indireta. Devo, no entanto, dizer que dá para perceber a história, ainda assim mas, claro, a imersão na trama e nas pretensões das personagens, não é tão profunda se já não conhecermos -ou lembrarmos - bem o background da série.

Murena XI - Lemúria, de Jean Dufaux e Theo Caneschi - ASA
Pareceu-me também que a intriga, carregada de diferentes camadas de compreensão, opta por nos embalar de forma lenta enquanto vai tecendo, com vagar, o desenvolvimento das personagens e, mais concretamente, o de Lúcio. Claro que, por ventura, se pode acusar este Lemúria de não ter muitos acontecimentos propriamente ditos. Não obstante, mesmo que possa parecer que não se passa grande coisa neste 11º volume, a verdade é que o argumentista Dufaux adensa bem a trama, doseia os acontecimentos e prepara-nos para um próximo álbum que, certamente, dará resposta às (muitas) questões que ficam em aberto neste volume. 

Como ponto menos positivo, acho que, por vezes, o autor divaga um pouco em termos de narrativa, o que faz com que a história não fique tão bem sequenciada em si mesma. Como se houvesse uma certa aleatoriedade em alguns acontecimentos que, depois, acabam por não ser tão relevantes assim.

A edição da ASA é em capa dura, com bom papel brilhante e encadernação e impressão de qualidade. Semelhante à maioria dos lançamentos da editora, diga-se.

Em nota final, devo dizer que Murena está de boa saúde e recomenda-se. Os desenhos continuam belos e o enredo continua propenso a muitas intrigas que captam o nosso interesse. Esta série merecia ser integralmente (re)editada em Portugal. Em álbuns duplos, em 3 álbuns integrais ou em 12 volumes (quando sair o 12º volume, que ainda está a ser feito, relembre-se). Com a editora o quiser! Mas faça-o! Por favor. Porque, convenhamos, para um leitor português que se esteja a iniciar na série ou para os muitos leitores que, como eu, se foram afastando da mesma devido ao ritmo e forma de publicação da série muito intermitente, é difícil (voltar a) pegar nesta série. E é uma pena porque Murena é fabulosa!


NOTA FINAL (1/10):
8.8



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Murena XI - Lemúria, de Jean Dufaux e Theo Caneschi - ASA

Ficha técnica
Murena XI - Lemúria
Autores: Jean Dufaux e Theo Caneschi
Editora: ASA
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Setembro de 2021

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Análise: O Coração na Boca


O Coração na Boca, de Horácio Gomes

Começo esta análise por dizer que este O Coração na Boca será, possivelmente, o livro mais impactante, belo, angustiante e notável em todo o catálogo da editora Escorpião Azul, que tive oportunidade de ler, até hoje. E olhem que, se não todos, eu já li grande parte dos livros da editora. À boa maneira do constante trabalho da editora no lançamento de banda desenhada nacional, esta é mais uma obra de um autor português: Horácio Gomes. Do qual eu nunca tinha lido um livro. Até agora.

O Coração na Boca é mais do que um bom livro. É uma autêntica tour de force do autor, que nos arrebata o coração e que nos comove. Não pude deixar de sentir uma clara empatia e admiração por Horácio. E não apenas pela boa obra de banda desenhada que aqui nos dá, mas também, e especialmente, pela forma corajosa como se expôs - a si e aos seus - neste livro. Numa altura em que todos nós parecemos querer pintar uma melhor imagem do que aquilo que realmente somos, publicando, por exemplo, nas redes sociais, a nossa melhor fotografia, o nosso melhor comentário político, a nossa melhor preocupação ambiental e/ou a nossa melhor piadola desportiva, é bom encontrar em O Coração na Boca um testemunho real e transparente, onde Horácio Gomes não aparenta querer pintar uma imagem artificialmente bonita da pessoa que é. Pelo contrário, oferece-nos um retrato duro e comovente, onde nos revela como foi a sua vida e as amarguras recorrentes do seu divórcio, dos seus problemas financeiros, da sua solidão e até da sua luta para conseguir publicar o próprio livro em questão. 

E tudo com uma única âncora: a de querer ser o melhor pai possível para a sua filha. Não só é ela a protagonista do livro, como fica óbvio que o autor se serve de O Coração na Boca para dedicá-lo à sua filha Mariana, de forma a resolver e fechar(?) um período negro na sua vida, na tentativa de conquistar essa coisa que todos nós, em determinado momento das nossas vidas, procuramos: a redenção. A redenção de uma vida nem sempre praticada como gostaríamos que fosse. A redenção de uma vida onde falhamos. Onde fracassamos. Onde desiludimos os outros e a nós próprios.
 
As temáticas do divórcio; do desespero de, subitamente, um pai deixar de viver com a sua filha, de apenas 4 anos; das despesas financeiras de um homem adulto que se vê desempregado e forçado a procurar guarida na casa da mãe idosa; bem como a sobrecarga de stress com que coabitamos diariamente, estão praticamente sempre presentes ao longo da obra.

Como a narrativa nos é dada em tom de desabafo, ou de expiação, não temos aquela estrutura clássica dos acontecimentos que é mais comum de encontrar numa qualquer história. Nem sequer temos balões de diálogo ou uma sequência concreta de ação. Aquilo que temos é um discurso em forma de narrador em voz off, que nos vai contando todo o seu percurso antes e após o divórcio com a mãe de Mariana. E o texto tem um cariz tão honesto que, por si só, já funcionaria bem se lido isoladamente. Com efeito, mesmo que esta história fosse lida num texto em prosa corrido, continuaria a ser delicada e marcante para o leitor. Mas, claro, dotando o texto de bonitas ilustrações, toda a experiência sai muito mais maximizada.

Em termos de história, vamos pois acompanhando os vários eventos e infortúnios que vão acontecendo ao protagonista, para que, depois, haja uma luta da personagem de Horácio consigo mesmo, e com os fantasmas que o perseguem, que aparece representada num tom mais onírico e metafísico que, embora funcione bem em termos narrativos para ilustrar a história, talvez se torne um pouco mais expetável, trazendo alguns clichets próprios desta "luta interior" que, várias vezes, observamos em livros e filmes.

Em termos visuais, O Coração na Boca também traz consigo um estilo muito próprio, com o autor a apresentar um traço hiper-realista e bastante detalhado, que aparenta alimentar-se diretamente do registo fotográfico para, depois, ser desenhado através de mesa digital. O resultado é original e bastante expressivo, além de que, paralelamente, o processo de colorização, de cores suaves mas carregadas de vida, também dá uma dinâmica bastante apelativa à obra. Colorização essa que até tem a valência de se alterar, em termos de paleta de cores, consoante o momento vivido pelo protagonista da história. Uma nota ainda para a planificação, onde o autor nos oferece uma dinâmica muito interessante, devido a colocar muitos elementos que saem dos limites das vinhetas para deambularem pelas páginas, dando um efeito de harmonia e de "organização desorganizada", muito interessante.

Como ponto menos positivo, embora as ilustrações sejam bem bonitas, por vezes também me pareceu que havia muitas vinhetas demasiado semelhantes entre si. Explico: quando a Mariana é ilustrada no jardim a brincar, ou na praia, por vezes somos brindados com muitos planos idênticos de uma só atividade da criança que se tornam, quiçá, algo redundantes. Não é uma coisa que belisque o prazer de leitura, mas talvez aqui o autor pudesse ter possibilitado outro tipo de solução gráfico-narrativa.

Em termos de edição, a Escorpião Azul mantém-se fiel ao seu modus operandi de edição de livros: capa mole com bandanas e papel baço de qualidade decente. O livro abre com uma nota introdutória do próprio autor que logo nos traça o ambiente pessoal e marcante da obra. Devo dizer que, em termos de ilustração de capa, este livro poderia (deveria?) ter sido mais bem conseguido. Quer ao nível da ilustração escolhida para figurar na capa - que está longe de estar ao nível do melhor que o autor consegue fazer, como, aliás, folheando o livro, nos apercebemos logo; como, também, ao nível do trabalho de grafismo da capa. Estou certo que o título da obra e o nome do autor poderiam ter sido inseridos com um maior decoro visual.

Mas, mais uma vez, não são estes pequenos apontamentos menos positivos que estragam a obra – nem pouco mais ou menos! – contudo, são pequenas nuances que poderiam contribuir para uma melhor sensação de leitura e, quiçá, atrair mais potenciais leitores que passeiam numa livraria e dão de caras com este livro.

Olhando para o todo, termino como comecei: O Coração na Boca é das melhores obras do já extenso catálogo da Escorpião Azul. E o autor e editor poderão estar tranquilos que, de facto, valeu a espera o longo tempo que demorou a criar este livro. Se este trabalho não conseguir tocar a sensibilidade do leitor, algo de errado se passa… com o leitor. Talvez o seu coração não esteja onde devia estar. Este livro é pungente. É corajoso. É angustiante. É muito bom e recomenda-se! 


NOTA FINAL (1/10):
8.6



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Ficha técnica
O Coração na Boca
Autor: Horácio Gomes
Editora: Escorpião Azul
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa mole
Lançamento: Setembro de 2021

Análise: O Homem de Lugar Nenhum – Volume 1

O Homem de Lugar Nenhum – Volume 1, de Tiago Barros e Fábio Veras - A Seita e Comic Heart

O Homem de Lugar Nenhum – Volume 1, de Tiago Barros e Fábio Veras - A Seita e Comic Heart
O Homem de Lugar Nenhum – Volume 1, de Tiago Barros e Fábio Veras

Entre os vários livros que a editora A Seita lançou durante o último Amadora BD, este O Homem de Lugar Nenhum, de Tiago Barros e Fábio Veras, que é editado em parceria com a chancela Comic Heart, foi um dos livros que mais interesse e expetativa motivou na minha pessoa. Porquê? Bem porque, sinceramente, não sabia bem o que esperar.

Tinha já uma ideia do trabalho promissor de Fábio Veras, que já nos tinha dado obras como Os Filhos do Rato (G. Floy Studio e Comic Heart) ou Jardim dos Espectros (Escorpião Azul), mas, tirando isso, e tendo em conta que o autor era acompanhado por Tiago Barros, que eu não conhecia, não sabia bem o que nos traria este O Homem de Lugar Nenhum.

E, finda a leitura deste primeiro livro (de dois), posso dizer que este poderá vir a ser um livro de culto na banda desenhada nacional. E quando utilizo o termo “poderá” é porque ainda há muita coisa em aberto. Há aqui muito potencial, é certo, mas ainda é difícil opinar taxativamente sobre uma obra que ainda vai a meio. Se o segundo livro conseguir fechar bem a história e limar algumas pontas soltas, sim, aí estamos perante um claro livro de grande qualidade da bd portuguesa. Uma referência. Mas também há o risco dos autores – principalmente o argumentista Tiago Barros – não conseguir agarrar bem a história e, consequentemente, fazer com que a mesma seja uma promessa não realizada. “A ver vamos”, como diz o cego. Diria que se O Homem de Lugar Nenhum fosse uma partida de futebol, estávamos, neste momento, no intervalo, após uma excelente primeira parte.

O Homem de Lugar Nenhum – Volume 1, de Tiago Barros e Fábio Veras - A Seita e Comic Heart
Portanto, por agora, resta-nos olhar para este primeiro tomo. Trata-se de uma história que saltita entre realidade e questões metafísicas. Acompanhamos um homem que, através de uma profunda reflexão que faz consigo mesmo – e com o leitor –, parece tecer considerações filosóficas sobre o princípio e o fim de algo, com o objetivo primordial de se encontrar a ele mesmo. Tudo nos é dado de uma forma bastante lata, sem que possamos, para já, perceber para onde nos pretende levar Tiago Barros. Como é que vai desabrochar aquilo que parece ser uma metáfora da vida e da existência humana. E somos levados ao sabor das afirmações inspiradas do protagonista. Com um pé na realidade mundana, que vive ao nosso lado, e com um pé em mundos e figuras fantásticas do lado de lá. Do lado da não-realidade. Do metafísico.

A escrita de Tiago Barros é verdadeiramente fabulosa! Texto inspirado, e muito quotable, que nos oferece monólogos que, na verdade, são diálogos feitos entre o protagonista da história – ou, talvez, o próprio autor? – e o leitor. E nisso, Tiago Barros, sendo um jovem autor, já é um autêntico mestre. E, talvez também por isso, a sua escrita me tenha remetido muitas vezes para Ed Brubaker, um autor que também é mestre na construção destes monólogos com o ritmo e a força certos. Se juntarmos a este texto em voz-off a arte de Fábio Veras, que aqui nos apresenta cores garridas, repletas de altos níveis de contraste, é quase impossível não pensar em Criminal, a obra maior da dupla norte-americana formada por Ed Brubaker e Sean Phillips. Claro que, em termos de conteúdo, haverão muitas diferenças entre as histórias contadas e ilustradas por uns e outros autores. Mas, não deixa de ser verdade, que são dois nomes aos quais somos muitas vezes remetidos neste livro.

O Homem de Lugar Nenhum – Volume 1, de Tiago Barros e Fábio Veras - A Seita e Comic Heart
Em termos visuais O Homem de Lugar Nenhum também se assume como uma obra ímpar na banda desenhada portuguesa. O talento e o potencial de Fábio Veras não enganaram ninguém nas suas obras supracitadas, mas é fácil chegar à conclusão que este é o melhor trabalho de Veras até agora. Deveras o é. O seu traço moderno, por vezes rude e arcaico, a fazer lembrar Eduardo Risso, mas com umas cores vibrantes que, tal como já referi, nos remetem para a série Criminal, ilustrada por Sean Phillips, está mais confiante do que nunca. E essa confiança permite a Fábio oferecer-nos um conjunto de momentos marcantes, de páginas que ficam na retina, já depois de termos prosseguido com a leitura do restante livro. Já para não falar na fantástica cena de sexo em que o autor se volta a recriar de forma magistral, fazendo-nos lembrar, desta vez, um Edmond Baudoin ou um Bastien Vivès. Muito bom!

Apreciei, ainda, e bastante, a capacidade e engenho do autor para nos apresentar boas soluções narrativas ao nível do uso de “câmara”, enquadramentos e a própria planificação das pranchas, que é airosa quando tem que ser e claustrofóbica quando também tem que ser. Atente-se, também, na boa capacidade de Fábio Veras para deixar a história respirar. A utilização de poucas vinhetas em algumas páginas, faz com que a narrativa não seja sorvida de uma só vez e se criem, dessa forma, as condições para que haja uma reflexão do leitor acerca do que se passa em termos de imagem e em termos de palavras. Ambos os autores juntam muito bem as suas forças, portanto, de forma a darem-nos um livro coeso, interessante e que nos faz indagar sobre o que ainda pode aí vir.

O Homem de Lugar Nenhum – Volume 1, de Tiago Barros e Fábio Veras - A Seita e Comic Heart
Confesso que as partes mais fantásticas, me levaram a temer um pouco pela história. Não é que não estejam interessantes ou não possam vir a ser unidas de forma magistral pelo argumentista. Mas achei que eram um pouco “areias movediças”, que podem tornar a história com alguns clichets escusados. Mas, como estamos ainda a meio da viagem, isto também pode não vir a acontecer sequer e, portanto, para já, deixo em aberto esta minha opinião sobre a aura mais metafísica da história. Porque a parte mais mundana, mais do dia-a-dia, é verdadeiramente fantástica! Foi nisso que os autores mais me surpreenderam e é aí que considero que está o néctar desta obra.

A edição d’ A Seita e da Comic Heart é excelente. Capa dura, papel brilhante de boa qualidade. Encadernação e impressão excelentes, também. Há ainda algumas páginas com esboços de Fábio Veras e um excerto do argumento, que nos permite perceber o processo de trabalho de ambos os autores. Nota final ainda para o bom grafismo da capa, lombada e contracapa. Tudo bem feito, portanto.

Em suma, e por agora, diria que estou muito entusiasmado com esta obra d’ O Homem de Lugar Nenhum. Há muitos bons apontamentos sobre o bom trabalho de ambos os autores, embora seja cedo, insisto, para tecer uma opinião final sobre se esta será uma obra de culto da banda desenhada portuguesa ou não. Tem potencial para o ser, sem dúvida. Mas resta-nos esperar pela parte dois.


NOTA FINAL (1/10):
8.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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O Homem de Lugar Nenhum – Volume 1, de Tiago Barros e Fábio Veras - A Seita e Comic Heart

Ficha técnica
O Homem de Lugar Nenhum – Volume 1
Autores: Tiago Barros e Fábio Veras
Editoras: A Seita e Comic Heart
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Outubro de 2021