quinta-feira, 23 de julho de 2026

Análise: CoBrA - Porto

CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros

CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros
CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes

Foi há algumas semanas que chegou ao fim a série CoBrA, editada pela Ala dos Livros, e extraída da mente de Marco Calhorda que, para tamanha empreitada, contou com quatro autores - três deles portugueses - para as ilustrações desta ambiciosa e historicamente (muito) relevante banda desenhada nacional. 

Este mais recente livro chama-se CoBrA - Porto e conta com as ilustrações de Paulo Montes. Depois de Operação Goa e dos dois tomos de Operação Conacri, a ação da série leva-nos finalmente para o território de Portugal, durante o período dos anos 80, numa altura em que o país procurava encontrar estabilidade após o turbilhão político, militar e social desencadeado pelo 25 de Abril. 

Passaram-se mais de dez anos desde os acontecimentos de Conacri e nesse período de tempo, tudo tinha mudado em Portugal. O império colonial tinha desaparecido, o regime ditatorial tinha caído, a Guerra Colonial tinha terminado e atores importantes de todo esse universo, como Jorge Jardim, o fundador da agência CoBrA, deixaram de estar presentes. Contudo, algumas das feridas desse tempo permaneceram abertas... até mesmo ao tempo atual,  diria eu, já que ainda vivemos num tempo em que o 25 de Abril está bem fresco, muito embora já se tenham passado mais de 50 anos. 

CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros
Mas voltando à história, é quando uma vaga de atentados terroristas perpetrada pelas FP-25 começa a atingir Portugal, que Afonso Costa e Ivone Reis, antigos agentes do CoBrA, se voltam a encontrar no centro dos acontecimentos, colaborando nas investigações conduzidas pela Polícia Judiciária para desmontar uma das mais violentas organizações clandestinas da nossa história recente. De facto, as Forças Populares 25 de Abril (FP-25) foram uma organização armada clandestina de extrema-esquerda que atuou em Portugal entre 1980 e 1987, levando a cabo atentados, assaltos e ações terroristas que provocaram mais de duas dezenas de mortos, alegadamente em defesa dos ideais revolucionários que consideravam traídos após o 25 de Abril.

A partir deste tema, não tantas vezes comentado, narrado ou discutido, Marco Calhorda volta a construir uma narrativa que cruza ficção e realidade histórica, utilizando este contexto para desenvolver um conto de espionagem. Tal como nos volumes anteriores, os factos históricos servem, pois, de alicerce a uma narrativa de entretenimento, mas até diria que desta vez existe, quiçá, uma dimensão mais pessoal e emocional na narrativa, pois as personagens de Afonso Costa e Ivone Reis não estão apenas a enfrentar inimigos, mas mostrando-se confrontadas com as consequências das escolhas feitas ao longo das décadas antecedentes. Isso confere ao álbum um tom mais melancólico e reflexivo, que acaba por ser bastante adequado, tendo em conta que estamos perante um capítulo final.

Ao longo da história presente neste CoBrA - Porto, encontramos vários momentos de ação e tiroteios, que quase nos parecem transportar para um filme policial de ação americano, o que é especialmente impactante para o leitor que sente, por um lado, uma certa proximidade histórica a estes eventos, mas, por outro, e ao mesmo tempo, um certo distanciamento por poder custar a acreditar que, de facto, houve tanta violência a ser feita à custa da ação das FP-25. É claro que, repito, há aqui uma forte componente ficcional, não deixando de ser verdade que o enredo se apoia em eventos e lugares que, efetivamente aconteceram mesmo. Apreciei também o facto da introdução das mulheres strippers que acabou por emprestar a este volume um tom mais noir e uma certa sensualidade.

CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros
A história torna-se, portanto, interessante para acompanhar da primeira à última página, fazendo com que esta seja uma leitura que se faz de um só trago. Mesmo que, tal como aconteceu comigo, possamos regressar à obra para uma segunda e mais atenta leitura. 

Também é justo dizer que Marco Calhorda é hoje um argumentista mais sólido do que era quando iniciou esta aventura com Operação Goa. A evolução ao longo dos vários volumes é, pois, evidente, já que o autor foi refinando a sua forma de construir cenas, de gerir o ritmo narrativo e de organizar a informação histórica dentro da própria narrativa. Aquilo que no primeiro livro, por vezes, parecia excessivamente apressado ou fragmentado surge agora mais amadurecido e controlado.

Ainda assim, algumas das fragilidades que fui apontando aos volumes anteriores continuam presentes, embora de forma menos acentuada. Também neste CoBrA - Porto, em determinados momentos, voltei a sentir alguma dificuldade em acompanhar com total clareza certas ligações entre personagens, acontecimentos e localizações. Não se trata de um "problema" grave, até porque a história continua perfeitamente legível, mas parece-me existir, ocasionalmente, uma certa dificuldade em encontrar o equilíbrio ideal entre uma narrativa demasiado explicativa e outra que deixa algumas peças importantes por preencher. 

Olhando agora, para a globalidade da série, penso ser justo dizer que se há algo que a série CoBrA conseguiu fazer de forma particularmente eficaz ao longo dos seus quatro volumes, foi pegar em episódios frequentemente negligenciados da história portuguesa recente e transformá-los em matéria-prima para uma narrativa acessível e cativante. Desde Goa até Conacri, passando agora pelo período das FP-25, Marco Calhorda demonstrou uma capacidade rara para identificar acontecimentos históricos pouco explorados, transportando-os para o universo da BD sem perder o equilíbrio entre o rigor e o entretenimento.

Aliás, até creio que nem sempre é suficientemente referido o valor documental deste projeto. Num país onde muitas vezes se lamenta o desconhecimento das gerações mais novas sobre o Estado Novo, sobre a Guerra Colonial ou sobre os complexos anos do pós-25 de Abril, CoBrA desempenha quase uma função de serviço público. Através de um meio tão apelativo e acessível como a BD, Marco Calhorda convida leitores de diferentes idades a descobrir episódios marcantes da nossa história contemporânea. E fá-lo sem transformar os livros em manuais escolares, privilegiando sempre a aventura, a ação e o suspense.

É precisamente essa combinação entre entretenimento e divulgação histórica que me parece ser a principal força da série. Os livros de CoBrA conseguem despertar curiosidade sobre os temas que abordam. Muitas vezes, terminada a leitura, o impulso natural é procurar saber mais sobre os acontecimentos reais que inspiraram a narrativa. Poucas obras nacionais conseguem gerar esse efeito de forma tão consistente e isso é um mérito que deve ser reconhecido.

CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros
Falando em méritos, no campo visual, Paulo Montes revela-se uma escolha bastante feliz para encerrar a saga. Depois do estilo mais "cartoonesco" de Osvaldo Medina em Operação Conacri - Tomo 2, este novo livro recupera uma abordagem mais realista, aproximando-se visualmente da linha definida por Daniel Maia e posteriormente continuada por Zoran Jovicic. Essa maior proximidade estética ajuda inclusivamente a reforçar a sensação de unidade da série. Considero apenas que, devido ao traço de Osvaldo Medina ser o mais diferente dos quatro autores, talvez pudesse ter sido Osvaldo a assinar esta tomo, que é independente, em detrimento de ter ilustrado a segunda parte de uma história já começada por outro autor.

De resto, Paulo Montes é especialmente bem sucedido na caracterização, em grande plano, das personagens e das suas expressões faciais, e na ilustração dos veículos de época que são um mimo para os olhos - especialmente se, como eu, apreciarem os carros do tempo em que decorre a ação desta obra. 

É verdade que surgem ocasionalmente algumas posturas corporais menos naturais ou menos elegantes, mas são casos pontuais. Também dei conta de, em várias situações, as personagens segurarem as armas com mãos diferentes, coisa que pode ser vista como um erro de continuidade visual. Mas, no essencial, Paulo Montes entrega um trabalho sólido, competente e visualmente apelativo, contribuindo para que este volume mantenha o bom nível artístico que sempre caracterizou a série.

A edição do livro segue aquilo que já havia sido feito nos anteriores volumes da série. O livro tem capa dura, em tecido, que é ainda coberta por uma sobrecapa. No interior, o livro tem bom papel brilhante e um bom trabalho ao nível da encadernação e impressão, se bem que, entre as páginas 73 e 78, verifiquei que os tons a preto estavam menos carregados e contrastados do que o expectável. Pode estar relacionado com o meu exemplar apenas, sendo um pequeno erro da gráfica que imprimiu o livro. Mas deixo a nota. Para além disso, temos ainda vários textos adicionais: uma introdução de Marco Calhorda, um prefácio de Manuel Castelo Branco e um posfácio de Ana Gomes. Há, por fim, ainda quatro páginas em que nos são dados estudos e esboços de páginas.

Em suma, CoBrA – Porto encerra de forma digna uma série que conquistou um lugar muito próprio na banda desenhada portuguesa. Marco Calhorda conclui aqui um percurso marcado por uma evidente evolução enquanto argumentista e por uma permanente preocupação em recuperar episódios esquecidos da nossa história recente. Já Paulo Montes oferece um trabalho gráfico consistente e alinhado com a identidade visual que ajudou a definir o universo CoBrA. Mais do que um simples álbum de ação ou espionagem, este livro - tal como a série no seu conjunto - afirma-se como uma obra de enorme relevância cultural, histórica e editorial. E só por isso, independentemente das pequenas imperfeições que possam ser apontadas, CoBrA merece ser lida, discutida e valorizada por todos aqueles que acompanham a banda desenhada portuguesa.


NOTA FINAL (1/10):
8.9


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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CoBrA - Porto, de Marco Calhorda e Paulo Montes - Ala dos Livros

Ficha técnica
CoBrA - Porto
Autores: Marco Calhorda e Paulo Montes
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 88, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 270 mm
Lançamento: Junho de 2026

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