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terça-feira, 31 de março de 2026

Análise: Nevada #3 - Blue Canyon

Nevada #3 - Blue Canyon, de Fred Duval, Jean-Pierre Pécau e Colin Wilson - A Seita

Nevada #3 - Blue Canyon, de Fred Duval, Jean-Pierre Pécau e Colin Wilson - A Seita
Nevada #3 - Blue Canyon, de Fred Duval, Jean-Pierre Pécau e Colin Wilson

Já está disponível há alguns dias uma das mais recentes apostas da editora A Seita, que dá pelo nome de Nevada. Neste caso, trata-se do terceiro volume da série, intitulado Blue Canyon, que volta a trazer o esforço coletivo dos autores Fred Duval e Jeann-Pierre Pécau, no argumento, e Colin Wilson, nas ilustrações. Relembro que a série conta com cinco volumes e que é esperado que, ainda neste ano, A Seita venha a reunir num só volume díptico, os tomos finais 4 e 5, respetivamente Jack London e Viva Las Vegas. Convido-vos também a recordarem aquilo que escrevi aos volumes anteriores da série, A Estrela SolitáriaA Estrada 99.

Blue Canyon, de que hoje vos falo, volta a oferecer-nos a curiosa e bem-vinda mistura entre os elementos de um western clássico com o ambiente cinematográfico da Hollywood dos anos 1920. 

Nevada #3 - Blue Canyon, de Fred Duval, Jean-Pierre Pécau e Colin Wilson - A Seita
Tudo começa quando, durante a rodagem de um novo filme de faroeste produzido por Louise Hathaway, a estrela principal, Sammy Glover, sofre um ataque cardíaco fulminante em pleno set. Louise precisa então de arranjar um ator substituto à altura e o único ator com talento suficiente para tal tarefa é Mac Nabb (conhecido como "A Estrela Solitária"). No entanto, Nabb é um homem difícil, consumido por vícios em jogo, álcool e drogas.

O ator aceita o papel, mas impõe uma condição específica: quer atravessar o deserto a cavalo até ao local das filmagens em Monument Valley, em vez de ir de comboio ou carro. Porquê? Porque quer mergulhar melhor no universo da personagem que vai desempenhar, procurando com isso ter uma melhor interpretação da mesma. Para tal, terá que ser Nevada Marquez a acompanhar o ator, garantindo que Mac Nabb chega vivo e a tempo ao set. Mas, claro, a viagem torna-se num autêntico desafio constante devido à natureza autodestrutiva do ator e aos perigos do deserto, misturando dívidas de jogo e acertos de contas. Acerto de contas esse que procura ser feito pelo implacável Carlsen, o que cria uma certa dinâmica de "gato e rato" na viagem das personagens.

Nevada #3 - Blue Canyon, de Fred Duval, Jean-Pierre Pécau e Colin Wilson - A Seita
Paralelamente a esta linha de ação principal, assistimos ainda à investigação levada a cabo por Louise e Miss Johnson. As duas personagens tentam desvendar a causa da morte de Sammy Glover que talvez não tenha sido tão natural como parecia inicialmente. E isto introduz uma vertente de mistério policial que se cruza com o ambiente glamoroso, mas decadente, dos primórdios do cinema.

Contudo, a estrutura da história acaba por ser o ponto mais crítico. A narrativa revela-se, por vezes, algo confusa, apresentando mudanças de cena bruscas que quebram o ritmo e que nos fazem perder um pouco a linha condutora da história. Há a sensação de que estão a acontecer demasiadas coisas ao mesmo tempo, o que pode sobrecarregar quem lê. Vejamos: temos o resgate de Mac Nab, a vingança de Carlsen e a investigação do homicídio no estúdio. Embora sejam elementos bem-vindos para adensar a trama e dar complexidade ao universo da série, a gestão destes múltiplos fios narrativos num álbum de apenas 56 páginas, torna-se algo demasiado superficial. Para que todas estas subtramas fossem devidamente explanadas e ganhassem o fôlego necessário, o argumento beneficiaria certamente de um maior número de páginas. Da forma como está, alguns desenvolvimentos parecem apressados ou comprimidos para caberem num álbum relativamente curto. É um daqueles casos em que "less is more". Por este motivo, e mesmo não sendo um mau livro, acaba por ser o álbum da série que menos me conquistou até agora. O que até pode acabar por ser uma afrimação algo injusta da minha parte, pois também considero que, face aos álbuns anteriores, os autores ousaram mais neste Blue Canyon. Infelizmente, essa ousadia poderia ter sido melhor aproveitada, quer parecer-me.

Nevada #3 - Blue Canyon, de Fred Duval, Jean-Pierre Pécau e Colin Wilson - A Seita
A nível visual, o traço de Colin Wilson é um dos grandes destaques da obra. É impossível não traçar paralelos com o estilo de Jean Giraud (Moebius) na mítica série Blueberry. Até porque, convém não esquecer, o próprio Colin Wilson foi o desenhador de A Juventude de Blueberry. Neste Nevada, o autor neo-zelandês oferece-nos um desenho bastante agradável e bonito, demonstrando uma mestria particular na composição de cenas de ação dinâmicas e fluidas.

Além disso, é também na representação dos ambientes que o seu trabalho mais se destaca, pois Wilson consegue captar com igual eficácia tanto os desertos áridos, vastos e poeirentos típicos do western tradicional, como os cenários citadinos e modernos de uma Hollywood vibrante. 

No entanto, nota-se que nem todas as vinhetas mantêm o mesmo nível de detalhe. Em certos momentos, sente-se que a representação de algumas personagens poderia ter beneficiado de um pouco mais de aprumo e acabamento. Outra coisa que acho, no mínimo, curiosa é que o rosto do protagonista, Nevada Marquez, pareça por vezes mais cru e menos refinado do que o das restantes personagens. É, portanto, uma escolha estética que, quanto a mim, não se compreende.

Nevada #3 - Blue Canyon, de Fred Duval, Jean-Pierre Pécau e Colin Wilson - A Seita
Para a boa fruição da leitura, as cores de Jean-Paul Fernandez revelam-se fundamentais. A paleta escolhida é muito bem-vinda, oferecendo uma atmosfera quente aos desfiladeiros e uma luz distinta às sequências urbanas, ajudando o leitor a situar-se nas diferentes frentes da narrativa.

A edição da editora A Seita apresenta-se em linha com os anteriores volumes da série. O livro apresenta capa dura baça, com papel brilhante no interior e um bom trabalho ao nível da impressão e encadernação.

Em suma, apesar de algumas limitações estruturais presentes no seu argumento, este terceiro volume da série Nevada é um livro que se lê bem. A premissa continua a ser refrescante, fugindo aos clichets mais batidos do género, ao colocar um herói de poucas palavras num mundo onde o cowboy está a ser substituído pelo duplo de cinema. Dito por outras palavras, esta mistura entre o final da época dourada do western e o início da também era de ouro de Hollywood, continua a ser o maior trunfo da série. 


NOTA FINAL (1/10):
7.9

Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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Nevada #3 - Blue Canyon, de Fred Duval, Jean-Pierre Pécau e Colin Wilson - A Seita

Ficha técnica
Nevada #3 - Blue Canyon
Autores: Fred Duval, Jean-Pierre Pécau e Colin Wilson
Editora: A Seita
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 24 x 33 cms
Lançamento: Março de 2026

sexta-feira, 13 de março de 2026

Análise: Longe

Longe, de Alicia Jaraba - Ala dos Livros

Longe, de Alicia Jaraba - Ala dos Livros
Longe, de Alicia Jaraba

Estava bastante curioso para mergulhar numa das mais recentes apostas da Ala dos Livros, que se denomina Longe e que marca a estreia da autora espanhola Alicia Jaraba em Portugal. Autora essa que, aproveito para lembrar, já foi confirmada como presença para a próxima edição do evento Comic Con, em Santa Maria da Feira. 

Vindo na senda de obras realistas, simples, em género slice of life e, aparentemente, leves, a editora portuguesa lança mais este Longe, que poderíamos colocar ao lado de outras como Peças, O Mergulho ou A Adopção, por exemplo. Com as devidas diferenças, claro está. Se faço menção a essas obras não é por achar que são obras parecidas ou que tratam do mesmo tipo de assuntos, mas por me parecer que quem gostou dessas obras pode gostar deste Longe.

Acompanhamos a história de Aimée e Ulysse, um jovem casal que empreende uma viagem ao sul de Espanha para que Ulysse possa realizar o seu sonho de fazer mergulho no Cabo de Gata e encontrar um peixe lua. Mas, por detrás do manto da aparente felicidade de umas férias com sol e mar, está uma relação amorosa em que cada um dos elementos do casal parece ter vindo a afastar-se do outro, tendo outros interesses e prioridades que nem sempre são correspondidos. 

Aimée tem pavor a fazer mergulho e, em termos profissionais, procura ser aceite num cargo importante como investigadora em Lausanne. Enquanto que Ulysse, depois de um ano difícil, quer focar-se mais nos pequenos prazeres da vida, desejando viver mais perto do mar. Ora, os desejos de cada um não são coincidentes com os do outro. E, invariavelmente, os seus caminhos conjuntos encontram-se perante um obstáculo. Como ultrapassá-lo? Como seguir em frente?

Longe, de Alicia Jaraba - Ala dos Livros
A obra assume um cariz de “road-movie” intimista, que nos fala sobre o medo de se sair da zona de conforto e da inércia de um relacionamento longo, cujo rumo já não se controla. É uma leitura profundamente agradável, destacando-se pela sua leveza enquanto nos convida a embarcar numa jornada que é tanto física como emocional.

A narrativa transporta-nos para o interior de uma autocaravana que atravessa paisagens soalheiras, à medida em que os protagonistas vão tentando realizar as várias coisas que se propuseram realizar quando delinearam uma lista de objetivos, em estilo bucket list. Essa dinâmica de irmos vendo, aos poucos, as personagens a realizar esses objetivos é muito bem-vinda e dinâmica, pois nem sempre essas realizações ocorrem da maneira que poderíamos perspectivar. 

Pelo caminho, Ulysse e Aimée encontram ainda uma personagem secundária, Paco, que acaba por assumir bastante relevância para a trama, servindo como catalisador para que vários momentos na vida conjunta de Aimée e Ulysse possam espoletar.

E, claro, ainda que a história possa parecer simples à primeira vista, ela possui a capacidade de nos fazer pensar. Aliás, diria mesmo que é esse o grande objetivo desta obra. O de nos fazer parar para refletir acerca da nossa vida, dos caminhos que trilhámos, juntos ou separados, não esquecendo tudo aquilo que optámos - voluntária ou involuntariamente - por não fazer. 

Longe, de Alicia Jaraba - Ala dos Livros
As personagens de Ulysse e Aimée - e até Paco - são cuidadosamente esculpidas pela autora, revelando camadas de personalidade que vão surgindo ao longo dos quilómetros de estrada. Graças a este cuidado na caracterização das personagens, dotando-as de vários layers, torna-se extremamente fácil para o leitor criar empatia com o trio. 

Também é justo referir que, em certos momentos, ficamos com uma certa sensação de que alguns desenvolvimentos na história são algo expectáveis, podendo a obra dar uma ideia de alguma previsibilidade em certas passagens. Não diria que essa familiaridade com a estrutura narrativa clássica de uma viagem em que as duas personagens principais procuram resolver conflitos internos e relacionais retire o prazer da leitura, mas concedo que torna alguns conflitos ou soluções narrativas menos surpreendentes do que poderiam ser.

Todavia, Longe tem, ainda assim, o grande mérito de não apresentar um final tão óbvio assim. Quando o leitor pensa que já sabe exatamente para onde a obra o leva, Alicia Jaraba introduz algumas nuances que poderão desafiar as suas expectativas, o que é, sem dúvida, um ponto a favor.

No plano visual, o trabalho de Alicia Jaraba é simplesmente encantador. Os seus desenhos são belos e modernos, com uma paleta de cores airosas e estivais - da autoria de Déborah I. Villahoz - , que capta na perfeição a luminosidade e a atmosfera de férias passadas no sul de Espanha.

Longe, de Alicia Jaraba - Ala dos Livros
Também a expressividade das personagens é um dos triunfos do livro. Assente num traço algo caricatural, a autora consegue transmitir emoções complexas através de olhares e gestos, dando uma alma vibrante a cada prancha. Sobre este ponto, apenas tenho que referir que me fez alguma confusão que a personagem de Ulysse fosse tão pouco caricatural quando comparada com as personagens de Aimée ou Paco, que apresentam traços faciais muito mais exagerados do que os de Ulysse. Não é nada que estrague o prazer, mas confesso que me pareceu um tratamento visual algo desequilibrado.

À medida que vamos acompanhando a viagem das personagens, Alicia Jaraba oferece-nos desenhos bastante "felizes" e luminosos. Contudo, essa leveza vai sendo entrecortada por alguma negritude visual que nos é dada por desenhos de Aimée a mergulhar nas profundezas de um mar obscuro e misterioso. Esta alteração gráfica permite que a obra ganhe ritmo e diversidade visual. Gostei bastante.

A edição da Ala dos Livros é em capa dura baça, com bom papel brilhante e boa encadernação e impressão. No final, somos presenteados com um texto da autora sobre a obra e com páginas com esboços e estudos para as personagens de Aimée, de Ulysse, de Paco e da própria autocaravana que acaba, também, por ser uma quase quarta personagem devido à importância da mesma para a história.

Em suma, Longe é uma bela obra bem equilibrada que, mesmo podendo parecer ligeira, combina bastante substância e faz-nos pensar sobre as escolhas que fazemos (e não fazemos) na vida. É uma leitura ideal para quem procura uma história reconfortante, mas capaz de deixar uma marca reflexiva muito depois de fecharmos a última página do livro. Boa escolha.


NOTA FINAL (1/10):
8.6


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Longe, de Alicia Jaraba - Ala dos Livros

Ficha técnica
Longe
Autora: Alicia Jaraba
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Março de 2026

quarta-feira, 11 de março de 2026

Análise: O Guia do Mau Pai

O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir


O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir
O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle

Saiu há poucos dias uma das mais recentes novidades da Devir que se intitula O Diário do Meu Pai. Originalmente editado em quatro volumes, entre os anos 2013 e 2018, depois de as suas pranchas até terem começado por ser divulgadas no blog do autor, este trabalho de Guy Delisle - do qual a editora portuguesa já por cá editou as obras Crónicas de Jerusalém, Shenzhen, Crónicas da Birmânia ou Pyongyang - assume-se com uma banda desenhada extremamente divertida, que me fez rir como há muito uma BD não me fazia.

Bem sabemos que, por vezes, lemos determinada obra na altura certa da nossa vida. Pode ter sido isso que aconteceu comigo. Também eu sou pai de duas crianças e também eu experencio, se não todas, muitas das situações que, carregadas de humor, Delisle nos oferece neste álbum.

De cariz autobiográfico, o autor vai narrando, em histórias curtas, as situações e peripécias que vive com os seus dois filhos, Alice e Louis, berm como as múltiplas maneiras como tenta manter-se com a cabeça acima de água enquanto é pai. Muitas vezes, Delisle parece um mau pai... ou um pai que não sabe argumentar bem aos seus filhos, ou que lhes mente ou que é mais distraído do que aquilo que deveria ser... mas a verdade é que qualquer pai - ou mãe - se pode identificar com aquilo que aqui é contado. Digo até mais: há aqui coisas que me aconteceram de um modo quase igual.

O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir
O humor é das coisas mais subjetivas que existe. Aquilo que me faz rir a mim, pode não fazer rir outra pessoa qualquer. E vice-versa. Portanto, tenho sempre alguma reserva em dizer que algo é cómico ou que "faz rir", pois poderá não fazer rir mais ninguém se não a mim mesmo. Mas, lá está, focando-me apenas na minha experiência, pessoal, enquanto leitor, e que aqui vou partilhando convosco, tenho a dizer-vos que este O Guia do Mau Pai não só me fez rir, como muitas vezes me fez gargalhar. Ao ponto da minha mulher e filhas me perguntarem: "mas o que é que estás a ler, que só te está a fazer rir à gargalhada?". Com efeito, a verdade é que nem todas as breves histórias que aqui nos são dadas me arrancaram uma gargalhada, claro está, mas houve algumas que achei verdadeiramente hilariantes.

Aprecio também a forma como Guy Delisle se expõe nesta obra, não tendo qualquer receio de ver a "qualidade" da sua paternidade a poder ser questionada pelos seus leitores. A vida tem-me ensinado que, ainda antes de olharmos para os defeitos e imperfeições dos outros, temos que olhar para bem dentro de nós. Talvez isso até nos ajude na percepção que temos de nós mesmos e, por conseguinte, dos demais. E é isso que o livro nos dá e que é verdadeiramente valioso, sejamos nós pais, mães, avós ou mesmo filhos. 

O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir
Deixem-me também dizer-vos que o motivo do meu entusiasmo com esta obra é que, na verdade, até nem me considero um grande fã deste tipo de humor, baseado em gags do dia a dia, pois muitas vezes me parece algo forçado e seco. Se neste O Guia do Mau Pai há, de facto, uma ou duas mini-histórias mais secas - tenho que o admitir - tenho que dizer-vos também que a grande maioria das restantes ou me fez rir à gargalhada ou, pelo menos, sorrir com verdadeira vontade.

Nota ainda para a última história do livro que o encerra na perfeição com um pouco de ternura e poesia que eu não estava à espera. Maravilhoso e quase nos deixa com a lágrima no olho.

Bem sei que Guy Delisle é bem mais celebrado pelas suas crónicas em países com realidades distantes - como Crónicas de JerusalémShenzhenCrónicas da Birmânia ou Pyongyang - para os quais tem acompanhado a sua esposa, que pertence aos médicos sem fronteiras, mas sou-vos sincero quando digo que talvez este O Guia do Mau Pai me tenha marcado (bem) mais do que qualquer um desses livros, não obstante a sua qualidade e relevância.

O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir
Estando nós perto do Dia do Pai, parece-me uma aposta irrecusável para oferecerem aos vossos pais. E não tenham receio do título do livro por poder parecer negativo para o pai que o receber. Na verdade, assim que o lemos, percebemos logo o tom humorístico e caricatural do mesmo. Na verdade, ou bem que todos somos "maus pais" ou a maioria de nós até é "bom pai".

Os desenhos de Guy Delisle nesta obra assemelham-se, em termos de traço e aspeto, àqueles a que o autor já nos habituou nas outras obras já editadas por cá, com a diferença que, neste caso, os desenhos são ainda mais simples, sendo a preto e branco, e não havendo espaço, sequer, para grandes detalhes. É frequente que não haja cenários a rodear as personagens, além dos elementos estritamente necessários para cada uma das mini-histórias. Seria mais bonito, sem dúvida, se o desenho fosse mais aprimorado, reconheço, mas também me parece que, tendo em conta o estilo de obra humorística baseada em gags que temos nas mãos, a arte de Delisle funciona bem, acabando por ser eficiente na forma como serve as histórias aqui apresentadas.

A edição da Devir é em capa dura baça, com bom papel baço no interior e uma boa impressão e encadernação. A opção por editar a obra de forma integral e não através de quatro volumes soltos, foi uma boa escolha da editora portuguesa.

Em suma, adoraria encontrar uma BD em 2026 que me fizesse gargalhar mais do que este O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle. Seria muito bom sinal. Mas não será tarefa fácil isso vir a acontecer, pois este livro deixou-me várias vezes a rir que nem um maluquinho com todas as suas curtas histórias que, de tão honestas que são, nos fazem olhar para nós mesmos e rir dos nossos defeitos e facilitismos à medida que assumimos as nossas funções parentais. Gostei mesmo muito.


NOTA FINAL (1/10):
8.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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O Guia do Mau Pai, de Guy Delisle - Devir

Ficha técnica
O Guia do Mau Pai
Autor: Guy Delisle
Editora: Devir
Páginas: 204, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Março de 2026

terça-feira, 10 de março de 2026

Análise: Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante e A Dupla Exposição

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA
Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux

Foi recentemente que a editora ASA editou dois volumes de Blake e Mortimer: A Ameaça Atlante, de Yves Sente e Peter Van Dongen; e A Dupla Exposição, de James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux. Este último, inserido na série As Micro-Aventuras de Blake e Mortimer, não é bem um álbum de Blake e Mortimer, pelo menos no sentido canónico da questão, pois é um livro de texto em prosa sobre aventuras da dupla que depois é complementado por ilustrações. Nem sequer é de banda desenhada. Já o primeiro livro, esse sim, é um livro pertencente à série principal, canónica, de Blake e Mortimer.

Infelizmente, e por muito que eu gostasse de ter uma opinião mais favorável, nem um nem outro são livros que eu possa recomendar àqueles que são adeptos de um bom livro de banda desenhada. Mesmo aos amantes da série, eu tenho que recomendar alguma cautela na escolha destes livros.

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA
Começando por A Ameaça Atlante, este livro revelou-se uma verdadeira decepção. Embora Blake e Mortimer seja uma série que tem um lugar indiscutível na história da banda desenhada europeia, este álbum mostra o desgaste de uma fórmula que já não convence fora do círculo dos leitores mais saudosistas. O que antes era admirável pela ousadia e pelo rigor estético, hoje soa forçado e anacrónico. Muito forçado e muito anacrónico, sinceramente.

Hoje em dia, Blake e Mortimer é uma série que só facilmente consegue agradar aos fãs nostálgicos, aos que ainda se sentem fascinados pela reconstituição de um imaginário dos anos 1950. Mas o problema, quanto a mim, é que a junção de história clássica com ficção científica tende, por definição, a não funcionar bem, pois deixa-nos com um travo demasiadamente kitsch. Continuo a defender que a tentativa de continuar a fazer ficção científica centrada nesse período, ignorando os avanços e as sensibilidades do século XXI, falha redondamente. À luz da realidade em que vivemos, o mundo de Blake e Mortimer parece uma reconstrução de um museu, estático e ultrapassado.

A ideia da história deste livro até tinha algum potencial, uma vez que a narrativa opta por continuar os acontecimentos de O Enigma da Atlântida, um dos álbuns mais célebres da série originalmente criada por Edgar P. Jacobs.

Philip Mortimer viaja para a Escócia para embarcar numa missão governamental para o estudo de antigas terras vulcânicas e para que possa testar a viabilidade de uma instalação geotérmica. É então que a personagem toma contacto com estranhos fenómenos que estão a afetar todo o Mar do Norte e que resultam de nuvens de gazes tóxicos, bem como de um tsunami gigantesco. Para além das vítimas causadas por estes estranhos fenómenos, aparecem ainda corpos mumificados a boiar no Mar do Norte. Sou-vos sincero: este livro começa bem e a premissa inicial prendeu-me. Mas depressa esse interesse inicial deu lugar a uma sensação de frustração.

Isto porque rapidamente o enredo se começa a atropelar a si mesmo deixando a história cada vez mais desinspirada e inverosímil. Nota-se o esforço do argumentista Yves Sente em imitar o estilo de Edgar P. Jacobs, mas fá-lo sem alcançar o seu encanto ou a sua coerência, deixando que o texto, além de enorme - mas isso já é comum à série - se enrede em explicações longas e desnecessárias. 

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA
Igualmente desastrada é a tentativa de Yves Sente de justificar continuamente as pontes entre as obras de Jacobs e a sua própria criação. As longas páginas de exposição e contextualização soam forçadas. Em vez de integrar harmoniosamente a herança original, o autor parece colar fragmentos antigos e novos. Mas com uma "cola" pouco consistente. O resultado é uma narrativa rígida e olvidável, que tenta parecer densa, mas apenas se torna confusa e cansativa. A história parece costurada a partir de fragmentos soltos, sem uma lógica verdadeiramente consistente e com demasiadas passagens a soarem infamemente artificiais.

A própria lógica científica que se procura dar ao intento é bastante incoerente, minando a própria credibilidade da narrativa. Se fosse uma paródia ou um exercício de humor, talvez resultasse; mas sendo um livro que se leva a sério, torna-se penoso.

Como se não bastasse, a previsibilidade das histórias atinge (novamente!) o seu ponto mais notório com a insistente presença de Olrik. Esta personagem, que devia ser um símbolo do antagonismo engenhoso de Jacobs, converte-se agora, em todos os livros, num clichet. Espanta-me que na editora original da obra, ninguém diga: "se calhar, desta vez não usávamos o Olrik, não?" A sua aparição em cada novo álbum já não causa surpresa, acabando por ser uma quase paródia involuntária. Como nos episódios de Scooby-Doo, o leitor já sabe sempre quem é o “vilão mascarado” antes mesmo de o rosto ser revelado. E Blake e Mortimer parece ter chegado a essa bitola. O que é lamentável, pois esta repetição constante destrói qualquer hipótese de suspense. Em vez de alimentar o mistério, reduz o universo narrativo a um ciclo mecânico e previsível. É difícil acreditar que, após tantas décadas, não se tenha encontrado uma forma diferente de desafiar os protagonistas. A persistência de Olrik é, de facto, o testemunho mais evidente da falta de originalidade e da dificuldade em reinventar a série.

Visualmente, o trabalho de Peter Van Dongen funciona bem, mantendo uma boa ponte com o estilo gráfico, em linha clara, de Edgar P. Jacobs. Nem sempre é perfeito, existindo algumas vinhetas menos perfeitas, especialmente ao nível dos cenários e dos ambientes interiores, mas diria que não é por aí que o álbum falha. É eficiente.

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA
Falando de A Dupla Explosão, que nos procura dar um texto em prosa, mais uma aventura de Blake e Mortimer, devo dizer que, inicialmente, gostei da ideia arquitetada por James Guth e Sonja Shillito. Blake e Mortimer são convidados para a Feira Mundial de 1964 e acabam expostos aos raios de uma máquina que os reduz à escala milimétrica. Uma premissa que facilmente nos remete para o filme Querida, Encolhi os Miúdos. Blake e Mortimer ficam assim presos num universo futurista, vendo-se forçados a superar esta desvantagem física que lhes é imposta. É uma história algo inusitada, mas que até me agradou. Talvez pudesse ser um pouco mais profunda e mais bem desenvolvida, ainda assim.

No entanto, as ilustrações de Laurent Durieux, autor que já tinha trabalhado em parceria com Jaco Van Dormael, Thomas Gunzig e François Schuiten em O Último Faraó, me agradou muitíssimo. Gosto desta abordagem visual ao universo de Blake e Mortimer. Claro que, sendo ilustrações que acompanham o texto, não permitem que possamos apreciar o lado mais sequencial da narrativa visual, o que talvez ainda fosse mais agradável, mas tenho que dizer que fiquei bem impressionado com estes desenhos.

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA
Em termos de edição, A Ameaça Atlante apresenta a habitual capa dura brilhante, com bom papel baço no miolo, havendo uma capa alternativa - melhor do que a principal, diga-se - exclusiva da rede de lojas FNAC. Já A Dupla Exposição recebe uma edição mais diferenciada, com capa dura baça e lombada em tecido. Lamento que na lombada não haja qualquer texto, mas já pude tomar nota que também foi assim na edição original da obra, pelo que esta ausência - incompreensível - não deve ser imputada à ASA, mas à editora original. O livro é-nos dado em formato horizontal e o papel baço utilizado, bem como a encadernação e impressão, é de boa qualidade. É um livro bonito.

Em suma, fica a sensação amarga de que esta série persiste mais por obrigação comercial do que por necessidade artística. Há uma clara tentativa de rentabilizar o nome de Blake e Mortimer junto dos leitores que ainda lembram os tempos áureos da série, mas é difícil imaginar que novos públicos encontrem aqui algo inspirador. Especialmente em A Ameaça Atlante, tudo soa a requentado naquele que é (mais) um capítulo fraco de uma saga que vive mais da memória do que do presente. Falta-lhe risco, emoção e sentido de descoberta. No esforço de parecer fiel ao passado, o álbum esquece-se de ser relevante no presente e aquilo que foi outrora símbolo de aventura e elegância tornou-se apenas um eco empalidecido de uma glória perdida.


NOTA FINAL (1/10):
Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante: 5.0
A Dupla Exposição: 7.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA

Fichas técnicas
Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante
Autores: Yves Sente e Peter Van Dongen
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 310 x 235 mm
Lançamento: Novembro de 2025

Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante | A Dupla Exposição, de Yves Sente, Peter Van Dongen, James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux - ASA

A Dupla Exposição
Autores: James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux
Editora: ASA
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura com lombada em tecido
Formato: 200 x 255 mm
Lançamento: Novembro de 2025



sexta-feira, 6 de março de 2026

Análise: Obras de Pratt

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros
Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt

Recentemente li (e, nalguns casos, reli) quatro dos livros da autoria de Hugo Pratt que, nos últimos tempos, a Ala dos Livros editou na sua coleção Obras de Pratt. Os livros em questão são Jesuit Joe e Outras Histórias; Anna na Selva; Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles; e Fanfulla, este último, editado mais recentemente e que conta com a participação no argumento de Mino Milani. É sobre estes livros que hoje vos falo, recordando que, da mesma coleção, já aqui analisei Verão Índio e El Gaucho, de Hugo Pratt e Milo Manara, bem como Os Escorpiões do Deserto.

Começo por afirmar que Obras de Pratt é uma coleção de caráter documental mais que relevante pois permite, por um lado, trazer as obras de Hugo Pratt a uma nova geração de leitores que, de outra forma, poderia (já) não ter acesso a estas obras; e, por outro lado, permite que aqueles que já conhecem algumas destas obras de outras edições portuguesas passadas, possam ter acesso às mesmas numa edição de qualidade superior e, diria mesmo, de colecionador. Até porque, convém não esquecer, a obra de Hugo Pratt não se finda com Corto Maltese, merecendo ser explorada além dessa e como um todo.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Falando agora, de forma tão breve quanto possível, de cada uma destas obras, Jesuit Joe e Outras Histórias reúne três histórias a que o próprio Hugo Pratt apelidou de "Trilogia das Religiões", já que o tema das histórias orbita em torno do assunto da crença. A primeira história acompanha Jesuit Joe, um mestiço de ascendência francesa e indiana, que veste um uniforme da Polícia Montada, embora não pertença à mesma. Movido por uma lógica moral própria e implacável, ele atravessa as paisagens geladas do Norte, deixando um rasto de violência ao mesmo tempo que procura a sua irmã. 

Por sua vez, as histórias A Macumba do Gringo e A Oeste do Éden exploram o choque entre crenças espirituais e a dureza da sobrevivência, apresentando personagens que enfrentam dilemas éticos em cenários exóticos e isolados, bem ao jeito das histórias de Hugo Pratt. Esta é, talvez, a obra onde a amoralidade de Pratt atinge o seu auge, oferecendo uma leitura desconcertante, mas igualmente fascinante, pois é certo que a figura da personagem Jesuit Joe desafia as convenções do herói tradicional, servindo como um veículo perfeito para Pratt explorar a solidão absoluta e a violência gratuita numa ambiência fria e hipnótica. Gostei particularmente deste livro.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Já a história de Anna na Selva, decorre em 1913, na aldeia de Gombi, na África Oriental, pouco antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Esta é uma história que embora seja constituída por quatro episódios, tem, por ventura, a história mais articulada, em termos de enredo, de todos estes livros que aqui vos trago. Convém referir que esta foi a primeira obra em que Hugo Pratt assumiu totalmente tanto o argumento como o desenho e nela já se vislumbram os temas e a sensibilidade histórica que viriam a definir a sua obra mais célebre, Corto Maltese

O álbum mistura um certo realismo histórico do colonialismo com elementos de magia e mistério típicos das temáticas que, normalmente, associamos a Pratt, servindo como um documento visual da juventude do autor vivida em África. Embora tenha um tom ligeiramente mais juvenil que obras posteriores, a riqueza dos detalhes coloniais e a construção da atmosfera africana já revelam a profundidade e o respeito cultural que tornariam o autor num mestre do género.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Quanto a Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles voltamos a acompanhar as aventuras do major polaco Koinsky que já tinha sido peça fundamental da série Os Escorpiões do Deserto. O livro reúne cinco narrativas curtas baseadas em memórias da campanha militar italiana entre os anos de 1943 e 1945.

Neste caso concreto, em vez de grandes batalhas estratégicas, Hugo Pratt foca-se mais em pequenos episódios e encontros mais centrados nas relações humanas que ocorrem à margem do conflito bélico. Talvez por isso, diria que é uma obra fundamental para compreendermos não só a evolução técnica do autor, como o seu interesse duradouro por cenários bélicos e destinos cruzados. Pratt consegue capturar a fragilidade das alianças e a ironia do destino, provando - se dúvidas ainda houvesse - que as melhores histórias de guerra são aquelas que se focam nos homens e não nas bandeiras das nações.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Por último, em Fanfulla, Hugo Pratt une esforços, no argumento, a Mino Milani, para nos narrar as peripécias de Fanfulla da Lodi, um mercenário histórico do século XVI. A trama desenrola-se durante a Renascença Italiana, período em que dois clãs inimigos se enfrentam pela posse da cidade de Florença. Esta será certamente a obra menos conhecida destas quatro - e que era inédita em Portugal - e, representada em formato italiano, ou horizontal, traz-nos um conjunto de peripécias, algumas divertidas, deste mercenário que é um guerreiro implacável e valente, enquanto tenta ser, ao mesmo tempo, gentil para com as mulheres. É uma narrativa histórica, de espada e capa, que nos dá uma personagem principal muito carismática, como foi apanágio, diria, das criações de Hugo Pratt.

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Sendo verdade que todos estes livros foram feitos em alturas diferentes da vida de Pratt, em todos eles é notório e facilmente identificável o traço característico do autor. Todos os livros são editados nas suas versões a cores o que, quanto a mim, torna mais visível uma certa obsolescência de algumas opções do autor nas suas cores. Sei que esta é uma opinião não partilhada por alguns, mas mesmo não descurando a beleza das aguarelas de Pratt em algumas das suas ilustrações, olhando para as suas obras à luz do tempo corrente, diria que funcionam bem melhor a preto e branco do que a cores. Mesmo assim, e fora esta opinião muito pessoal, compreendo obviamente que a edição da Ala dos Livros seja a cores, pois muitos são os leitores que valorizam especial e especificamente as cores de Pratt.

Em termos de edição, e conforme já referi, considero estas edições da Ala dos Livros verdadeiramente espetaculares, carregadas de brio e respeito pela obra do autor. Todos os livros têm capa dura, com detalhes a verniz. No miolo, o papel utilizado é brilhante e de qualidade superior, bem como assim é o trabalho de encadernação e impressão. Todos os livros apresentam, também, belos extras que complementam a leitura e o nosso conhecimento sobre a obra. 

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros
Em Jesuit Joe encontramos um texto final de apoio à obra, escrito por Francesco Boille, que é complementado por imagens de capas italianas e por uma página com esboços de Pratt. Em Anna na Selva, temos um texto introdutório de Renato Gaita, que é acompanhado com imagens de algumas vinhetas e mais esboços. Há uma ilustração de Anna Livingstone, a protagonista do livro, que é uma autêntica obra de arte e que bem que poderia ser emoldurada. Em Koinsky relata... temos um texto introdutório do próprio Hugo Pratt e cada uma das cinco histórias é iniciada com uma introdução composta por texto, imagens de oficiais e veículos de guerra e esboços a aguarela. É, de todos, o livro mais bem documentado através dos seus fantásticos conteúdos adicionais. Por fim, Fanfulla, sendo um álbum em formato horizontal, inclui uma manga em formato vertical, que nos permite arrumá-lo desse modo junto dos outros livros. Um detalhe que adorei, semelhante ao que a editora já tinha feito em O Relatório de Brodeck, de Manu Larcenet. O livro inclui ainda um texto introdutório da autoria de Antonio Carboni.

Em suma, todos estes livros são preciosas adições a uma boa biblioteca de banda desenhada e verdadeiros "must have" para os muitos adeptos da obra de Hugo Pratt. Jesuit Joe é, quanto a mim, o melhor destes álbuns; Anna na Selva, é um prenúncio claro do que seria Corto Maltese alguns anos mais tarde; Koinsky relata... é, de todos, o livro com o conteúdo extra mais apetecível, e Fanfulla é a proposta mais original e diferente dos quatro livros. Dito por outras palavras, há algo de apetecível e diferenciador em cada uma destas quatro obras.


NOTA FINAL (1/10):
9.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Fichas técnicas
Anna na Selva
Autor: Hugo Pratt
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Junho de 2023

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles
Autor: Hugo Pratt
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 196, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 320 mm
Lançamento: Setembro de 2023

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Jesuit Joe e outras histórias
Autor: Hugo Pratt
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 320 mm
Lançamento: Setembro de 2024

Jesuit Joe e Outras Histórias | Anna na Selva | Koinsky relata... meia dúzia de coisas que sei sobre eles | Fanfulla, de Hugo Pratt - Ala dos Livros

Fanfulla
Autores: Hugo Pratt e Mino Milani
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 120, a cores
Encadernação: Capa dura, em formato italiano com manga vertical
Formato: 295 x 210 mm
Lançamento: Março de 2026



quinta-feira, 5 de março de 2026

Análise: Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir
Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito

Hoje trago-vos uma dose dupla de Junji Ito, o mestre do terror em mangá. Para tal, centro-me nas duas obras mais recentes do autor japonês que a Devir nos fez chegar, nomeadamente Soichi - As Maldições Inconvenientes e As Angústias Amorosas dos Mortos.

Relembro que este é um autor com uma assinalável quantidade de obras já editadas em Portugal. Não só pela Devir, como pela Editorial Presença e pela Sendai Editora.

À boa maneira de Junji Ito, quer Soichi - As Maldições Inconvenientes, quer As Angústias Amorosas dos Mortos, são duas obras que, partindo de uma premissa macabra e "assustadora", nos oferecem vários episódios sobre esse mesmo tema. Há um fio condutor entre esses episódios mas, ao mesmo tempo, há uma certa independência entre os demais.

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir
O que traz a vantagem ao leitor de ir lendo cada um dos episódios no seu próprio ritmo, podendo intercalar a sua leitura com outros livros, mas que também traz o problema maior que encontro nas obras de Junji Ito: um certo sobreaproveitamento das suas premissas. Ou seja, começo sempre por gostar das ideias e das premissas de cada livro... mas depois, o meu interesse vai diminuindo por achar: "ok, já percebi a ideia". Invariavelmente, isto acontece-me com TODOS os livros do autor. Mesmo que aprecie muito as suas ideias macabras e os seus desenhos.

Falando-vos um pouco de cada um dos livros em concreto, em Soichi - As Maldições Inconvenientes, a história centra-se num rapaz excêntrico e antissocial que acredita possuir poderes sobrenaturais para lançar maldições. Caracterizado pela sua aparência pálida e pelo hábito bizarro de mastigar pregos de ferro (alegadamente para combater a anemia!), Soichi é uma criança narcisista que se sente incompreendida pela sua família e colegas. O livro reúne diversos contos que acompanham as suas tentativas sádicas de atormentar todos ao seu redor, utilizando bonecos de palha e rituais de vodu para causar infortúnios a quem o desagrada. O ponto mais positivo que encontrei nesta obra é a introdução de um humor negro, por vezes muito divertido, que contrasta um pouco com o tom mais sério que o autor utiliza noutras das suas obras. É que muitas vezes os planos maléficos de Soichi acabam por ter resultados inesperados ou cómicos, voltando-se contra ele próprio. 

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir
Já As Angústias Amorosas dos Mortos, é uma obra que explora a intersecção entre o amor obsessivo e o sobrenatural. A trama principal decorre na cidade de Nazumi, um lugar perpetuamente envolto em nevoeiro, onde os jovens praticam a "leitura da sorte no cruzamento" que é um ritual em que os habitantes locais tapam o rosto e pedem ao primeiro estranho que passa por si para prever o seu futuro amoroso. O enredo segue Ryusuke, um estudante que regressa à cidade anos após um evento traumático na sua infância. Ao dar uma previsão cruel a uma mulher desesperada num cruzamento, o pequeno Ryusuke levou-a, indiretamente, a cometer suicídio. E, ao voltar à cidade, o protagonista depara-se com uma onda de suicídios entre raparigas, todas influenciadas por um misterioso e "belo rapaz de preto" que vagueia pelo nevoeiro distribuindo leituras da sorte que levam ao desespero e à morte.

O que mais gostei neste livro foi do clima de suspense e mistério que contrasta com o terror mais direto de outras obras do autor. Gostei mesmo muito de toda aquela incerteza do nevoeiro a rodear tudo e todos, de quem seria o "belo rapaz de preto" e como isso estaria, ou não, relacionado com o episódio anterior na vida de Ryusuke. 

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir
Posso até dizer-vos que talvez este As Angústias Amorosas dos Mortos tenha sido o livro que mais me impactou de todos os que já li de Junji Ito. Até aprecio o terror macabro e gutural direto que o autor nos dá, mas senti-me mais impelido pela história quando esta se revelou menos direta e mais na base do suspense e do mistério.

Mesmo assim, pecou apenas, tal como Soichi - As Maldições Inconvenientes, na sensação de repetição, estilo "mais do mesmo", que se começa a sentir sensivelmente a meio da obra.

Em termos de desenho, o autor volta a oferecer-nos um belo trabalho nos dois livros. A sua mestria visual reside especialmente na sua capacidade única de fundir o belo com o grotesco, utilizando um traço meticuloso e detalhado que eleva o horror a uma forma de arte hipnótica e singular. É através deste contraste entre a os traços limpos das suas personagens humanas e a densidade caótica do sobrenatural, que Junji Ito consegue evocar uma sensação de desconforto visceral e que é única na abordagem.

Em termos de edição, ambos os livros apresentam capa mole com badanas e papel baço aceitável no miolo da obra. A encadernação e impressão estão boas, também.

Em suma, tanto Soichi - As Maldições Inconvenientes como As Angústias Amorosas dos Mortos, nos trazem mais dois bons livros de Junji Ito, especialmente direcionados aos fãs do autor. Se o primeiro livro prima por ter algum humor negro que se junta ao terror visual, o segundo apresenta um clima de tensão, mistério e suspense que me agradou especialmente. Muito embora, tenho que o admitir, ambos os livros pequem na exata mesma questão de, sensivelmente a meio das obras, esgotarem as suas próprias premissas.


NOTA FINAL (1/10):
Soichi - As Maldições Inconvenientes: 8.3
As Angústias Amorosas dos Mortos: 8.8

Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir

Fichas técnicas
Soichi - As Maldições Inconvenientes
Autor: Junji Ito
Editora: Devir
Páginas: 414, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 14,8 x 21 cm
Lançamento: Maio de 2025

Soichi - As Maldições Inconvenientes | As Angústias Amorosas dos Mortos, de Junji Ito - Devir

As Angústias Amorosas dos Mortos
Autor: Junji Ito
Editora: Devir
Páginas: 406, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 14,8 x 21 cm
Lançamento: Outubro de 2025