Se há capas que enganam, a capa deste Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, mais uma das obras inseridas na Coleção de Novelas Gráficas da editora Levoir e do jornal Público, é uma delas. Trata-se de uma capa lindíssima, de belo desenho e - ainda mais - belas cores que muito me deixou com vontade de ler o livro. O próprio título da obra, fazendo referência ao autor e à sua obra maior, parecia prometer um mergulho na criação de O Principezinho. Contudo, depois de feita a leitura, posso dizer-vos que, não sendo um mau livro, este Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho está longe de ter respondido às minhas expectativas. O que é pena, tendo em conta que a propósito do 80º aniversário da publicação original de O Principezinho esta seja já a segunda banda desenhada editada em Portugal. A primeira foi O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard, pela ASA, que também ficou bastante aquém do esperado.
O argumento de Pierre-Roland Saint-Dizier procura construir uma biografia de Antoine de Saint-Exupéry a partir dos anos em que o futuro escritor alimentava o sonho de se tornar piloto. Acompanhamos a sua entrada no mundo da aviação, as amizades que foi estabelecendo e alguns dos episódios mais marcantes de uma vida que viria a ser tão extraordinária quanto atribulada.
O problema é que o livro nunca parece decidir verdadeiramente qual é a história que quer contar. Será uma biografia de Saint-Exupéry? Será uma exploração da génese de O Principezinho? Será uma homenagem à aviação pioneira do início do século XX? Ao tentar ser tudo isso ao mesmo tempo, com especial ênfase nesta última, acaba por não se afirmar plenamente em nenhuma dessas dimensões.
A estrutura narrativa revela precisamente essa indecisão. Em vez de uma progressão sólida e cuidadosamente construída, encontramos uma sucessão de episódios mais ou menos autónomos que vão desfilando perante o leitor. Há acontecimentos, há encontros e há mudanças de cenário, mas raramente existe a sensação de uma linha dramática robusta que dê unidade ao conjunto.
Especialmente na primeira parte da obra aquilo que acompanhamos é um relato carregado de informações não relevantes assim e quase burocrático dos primórdios da vida de Saint-Exupéry enquanto aviador. Vemo-lo ingressar na empresa de correio aéreo Latécoère, que mais tarde viria a transformar-se, primeiro, na célebre Aéropostale e, depois, na Air France. Nesse contexto, o jovem piloto é enviado para Cap Juby, no coração do Saara, onde enfrenta os desafios inerentes às primeiras experiências da aviação comercial e postal. Embora estes episódios possuam interesse histórico, a forma como são apresentados acaba por se revelar excessivamente informativa e pouco envolvente. O livro preocupa-se em registar factos, datas e personagens, mas nem sempre consegue transformar esse material numa narrativa emocionante. Muitas vezes temos a sensação de estar perante uma enumeração de acontecimentos em vez de uma verdadeira história.
Essa tendência agrava-se à medida que novas figuras entram em cena. Surgem inúmeras personagens secundárias, algumas delas apresentadas de forma tão breve que mal deixam impressão. Fica a sensação de que muitas aparecem mais por uma questão de rigor factual ou enciclopédico do que por desempenharem uma função relevante na construção dramática da obra. O argumenista não apresenta, portanto, aquele poder de síntese e de capacidade para perceber o que é importante referir e o que é acessório.
Mas onde, quanto a mim, o livro mais falha, é na relação prometida pelo próprio título. Há muito Saint-Exupéry neste livro e pouco Principezinho. Não que faltem referências à obra maior do autor, mas estas parecem frequentemente introduzidas de forma artificial, como se o argumento se recordasse ocasionalmente da promessa feita ao leitor através da capa e título da obra e procurasse cumpri-la à pressa e à bruta.
Na verdade, fala-se muito, mas diz-se pouco. Há várias alusões que procuram estabelecer pontes entre a vida do escritor e a criação da sua personagem mais famosa, sim, mas essas ligações raramente são desenvolvidas com profundidade suficiente para produzirem uma reflexão verdadeiramente esclarecedora. Se, afinal de contas, “o essencial é invisível aos olhos” é pena que também acabe algo invisível nesta obra. Talvez, em detrimento de sabermos (todas?) as vicissitudes que Antoine Saint-Exupéry enfrentou para ser piloto de aviação, fosse preferível mergulharmos mais na forma como pensou e projetou O Principezinho. Digo eu.
A própria inclusão de um caderno final, denominado "A Origem do Principezinho" parece dar razão ao que acabo de escrever. Este conjunto de extras, que inclui texto e desenhos, faz uma bela ponte entre a BD, propriamente dita, e a obra de Saint-Exupéry, oferecendo-nos - e bem - aquilo que a banda desenhada não conseguiu oferecer. Acaba por ser um bom complemento ao livro, mas que, paradoxalmente, revela que a BD andou muito às voltas do que aquilo que realmente interessava.
Só mais no final da obra é que o argumentista se procura aproximar mais do universo de O Principezinho. Mas já vai tarde, diria, pois torna-se uma aproximação forçada e pouco convincente.
Em termos de desenho, Cédric Fernandez oferece-nos um trabalho competente, ainda que irregular. Existem vinhetas muito bem conseguidas, particularmente nas paisagens africanas e nas sequências ligadas à aviação, onde o sentido de escala e de movimento se faz sentir com eficácia. No entanto, essas qualidades coexistem com desenhos que mereciam maior aprumo visual. O autor parece, por vezes, esconder essa fragilidade através da utilização de vinhetas mais pequenas, que permitem um traço mais esboçado e menos detalhado, mas essa opção não deixa de ser facilmente notada pelo olho atento.
Quanto à edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço e boa encadernação. Senti que algumas das páginas apresentam os desenhos ligeiramente desfocados. Não é algo que salte sempre à vista ou que ponha em causa a boa leitura da obra, mas é algo com que me deparei mais vezes do que o conveniente. O caderno de extras, com 18 páginas, já por mim mencionado, é um ótimo acrescento à edição. É daqueles extras que, além de dar mais algumas informações sobre a obra, ainda consegue o feito de melhorar a obra. Nota positiva para o facto deste livro reunir os três tomos em que a obra foi originalmente editada. Boa opção da Levoir.
Concluindo, não quero ser demasiado negativo. Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho não é uma má leitura nem um livro destituído de interesse. Tem valor enquanto retrato biográfico e oferece alguns momentos visualmente apelativos. Ainda assim, permanece a sensação de oportunidade perdida. Ao querer abarcar demasiados acontecimentos, demasiadas personagens e demasiados objetivos em simultâneo, os autores acabaram por construir uma obra dispersa e episódica, que raramente encontra o foco necessário para se tornar verdadeiramente memorável. É um livro agradável, mas fica a impressão de que passou muito perto de ser algo bastante mais marcante. E isso é inglório.
NOTA FINAL (1/10):
7.9
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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