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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Análise: Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho

Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público

Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público
Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez

Se há capas que enganam, a capa deste Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, mais uma das obras inseridas na Coleção de Novelas Gráficas da editora Levoir e do jornal Público, é uma delas. Trata-se de uma capa lindíssima, de belo desenho e - ainda mais - belas cores que muito me deixou com vontade de ler o livro. O próprio título da obra, fazendo referência ao autor e à sua obra maior, parecia prometer um mergulho na criação de O Principezinho. Contudo, depois de feita a leitura, posso dizer-vos que, não sendo um mau livro, este Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho está longe de ter respondido às minhas expectativas. O que é pena, tendo em conta que a propósito do 80º aniversário da publicação original de O Principezinho esta seja já a segunda banda desenhada editada em Portugal. A primeira foi O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard, pela ASA, que também ficou bastante aquém do esperado.

Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público
O argumento de Pierre-Roland Saint-Dizier procura construir uma biografia de Antoine de Saint-Exupéry a partir dos anos em que o futuro escritor alimentava o sonho de se tornar piloto. Acompanhamos a sua entrada no mundo da aviação, as amizades que foi estabelecendo e alguns dos episódios mais marcantes de uma vida que viria a ser tão extraordinária quanto atribulada.

O problema é que o livro nunca parece decidir verdadeiramente qual é a história que quer contar. Será uma biografia de Saint-Exupéry? Será uma exploração da génese de O Principezinho? Será uma homenagem à aviação pioneira do início do século XX? Ao tentar ser tudo isso ao mesmo tempo, com especial ênfase nesta última, acaba por não se afirmar plenamente em nenhuma dessas dimensões.

A estrutura narrativa revela precisamente essa indecisão. Em vez de uma progressão sólida e cuidadosamente construída, encontramos uma sucessão de episódios mais ou menos autónomos que vão desfilando perante o leitor. Há acontecimentos, há encontros e há mudanças de cenário, mas raramente existe a sensação de uma linha dramática robusta que dê unidade ao conjunto.

Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público
Especialmente na primeira parte da obra aquilo que acompanhamos é um relato carregado de informações não relevantes assim e quase burocrático dos primórdios da vida de Saint-Exupéry enquanto aviador. Vemo-lo ingressar na empresa de correio aéreo Latécoère, que mais tarde viria a transformar-se, primeiro, na célebre Aéropostale e, depois, na Air France. Nesse contexto, o jovem piloto é enviado para Cap Juby, no coração do Saara, onde enfrenta os desafios inerentes às primeiras experiências da aviação comercial e postal. Embora estes episódios possuam interesse histórico, a forma como são apresentados acaba por se revelar excessivamente informativa e pouco envolvente. O livro preocupa-se em registar factos, datas e personagens, mas nem sempre consegue transformar esse material numa narrativa emocionante. Muitas vezes temos a sensação de estar perante uma enumeração de acontecimentos em vez de uma verdadeira história.

Essa tendência agrava-se à medida que novas figuras entram em cena. Surgem inúmeras personagens secundárias, algumas delas apresentadas de forma tão breve que mal deixam impressão. Fica a sensação de que muitas aparecem mais por uma questão de rigor factual ou enciclopédico do que por desempenharem uma função relevante na construção dramática da obra. O argumenista não apresenta, portanto, aquele poder de síntese e de capacidade para perceber o que é importante referir e o que é acessório.

Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público
Mas onde, quanto a mim, o livro mais falha, é na relação prometida pelo próprio título. Há muito Saint-Exupéry neste livro e pouco Principezinho. Não que faltem referências à obra maior do autor, mas estas parecem frequentemente introduzidas de forma artificial, como se o argumento se recordasse ocasionalmente da promessa feita ao leitor através da capa e título da obra e procurasse cumpri-la à pressa e à bruta.

Na verdade, fala-se muito, mas diz-se pouco. Há várias alusões que procuram estabelecer pontes entre a vida do escritor e a criação da sua personagem mais famosa, sim, mas essas ligações raramente são desenvolvidas com profundidade suficiente para produzirem uma reflexão verdadeiramente esclarecedora. Se, afinal de contas, “o essencial é invisível aos olhos” é pena que também acabe algo invisível nesta obra. Talvez, em detrimento de sabermos (todas?) as vicissitudes que Antoine Saint-Exupéry enfrentou para ser piloto de aviação, fosse preferível mergulharmos mais na forma como pensou e projetou O Principezinho. Digo eu.

A própria inclusão de um caderno final, denominado "A Origem do Principezinho" parece dar razão ao que acabo de escrever. Este conjunto de extras, que inclui texto e desenhos, faz uma bela ponte entre a BD, propriamente dita, e a obra de Saint-Exupéry, oferecendo-nos - e bem - aquilo que a banda desenhada não conseguiu oferecer. Acaba por ser um bom complemento ao livro, mas que, paradoxalmente, revela que a BD andou muito às voltas do que aquilo que realmente interessava.

Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público
Só mais no final da obra é que o argumentista se procura aproximar mais do universo de O Principezinho. Mas já vai tarde, diria, pois torna-se uma aproximação forçada e pouco convincente.

Em termos de desenho, Cédric Fernandez oferece-nos um trabalho competente, ainda que irregular. Existem vinhetas muito bem conseguidas, particularmente nas paisagens africanas e nas sequências ligadas à aviação, onde o sentido de escala e de movimento se faz sentir com eficácia. No entanto, essas qualidades coexistem com desenhos que mereciam maior aprumo visual. O autor parece, por vezes, esconder essa fragilidade através da utilização de vinhetas mais pequenas, que permitem um traço mais esboçado e menos detalhado, mas essa opção não deixa de ser facilmente notada pelo olho atento.

Quanto à edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço e boa encadernação. Senti que algumas das páginas apresentam os desenhos ligeiramente desfocados. Não é algo que salte sempre à vista ou que ponha em causa a boa leitura da obra, mas é algo com que me deparei mais vezes do que o conveniente. O caderno de extras, com 18 páginas, já por mim mencionado, é um ótimo acrescento à edição. É daqueles extras que, além de dar mais algumas informações sobre a obra, ainda consegue o feito de melhorar a obra. Nota positiva para o facto deste livro reunir os três tomos em que a obra foi originalmente editada. Boa opção da Levoir. 

Concluindo, não quero ser demasiado negativo. Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho não é uma má leitura nem um livro destituído de interesse. Tem valor enquanto retrato biográfico e oferece alguns momentos visualmente apelativos. Ainda assim, permanece a sensação de oportunidade perdida. Ao querer abarcar demasiados acontecimentos, demasiadas personagens e demasiados objetivos em simultâneo, os autores acabaram por construir uma obra dispersa e episódica, que raramente encontra o foco necessário para se tornar verdadeiramente memorável. É um livro agradável, mas fica a impressão de que passou muito perto de ser algo bastante mais marcante. E isso é inglório.


NOTA FINAL (1/10):
7.9



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público

Ficha técnica
Saint-Exupéry e a origem do Principezinho
Autores: Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez
Editora: Levoir
Páginas: 176, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
Lançamento: Agosto de 2026

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Análise: No Rasto de Blueberry

No Rasto de Blueberry, de vários autores - ASA - LeYa

No Rasto de Blueberry, de vários autores - ASA - LeYa
No Rasto de Blueberry, de vários autores

No Rasto de Blueberry, uma das mais recentes apostas da editora ASA, surge como uma celebração assumida dos 60 anos de Blueberry, uma das personagens mais emblemáticas da banda desenhada franco-belga. Criado por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud, Mike Steve Blueberry marcou gerações de leitores e tornou-se uma referência incontornável do western em BD. Quando falamos em "banda desenhada de cowboys" é bem provável que Blueberry seja a primeira série a vir-nos à cabeça. Ou uma das primerias, vá. E este álbum coletivo procura assinalar essa longevidade através da reunião de numerosos autores consagrados, convidados a prestar a sua homenagem a uma série que continua a influenciar criadores e leitores em todo o mundo.

A principal virtude deste livro reside precisamente na sua natureza de homenagem. Em vez de tentar reinventar ou subverter o universo de Blueberry, os diferentes autores que participam nesta antologia optam por celebrar os elementos que fizeram da personagem um ícone: a aventura, o sentido épico, os cenários do Oeste americano e o carisma de um protagonista que sempre se distinguiu pela sua personalidade complexa e pouco convencional. Por vezes parecia pautado por uma forte código de valores, noutras situações o Tenente Blueberry parecia um verdadeiro "badass". E essa é uma dicotomia que sempre apreciei na série.

No Rasto de Blueberry, de vários autores - ASA - LeYa
Neste No Rasto de Blueberry a diversidade de vozes criativas é impressionante. Autores como Enrico Marini, Dominique Bertail, Fred Duval, Matz, Corentin Rouge ou Olivier Taduc juntam-se a muitos outros nomes reconhecidos para nos oferecer histórias curtas e ilustrações que, logicamente, refletem diferentes sensibilidades artísticas. Mesmo assim, e apesar da variedade de abordagens, existe uma evidente preocupação de todos os autores envolvidos em respeitar o legado deixado por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud.

As narrativas reunidas nesta antologia exploram caminhos distintos. Algumas procuram preencher pequenas lacunas da cronologia de Blueberry, enquanto outras desenvolvem novas situações inspiradas em períodos ou álbuns particularmente marcantes da série. Esta estratégia é bem-vinda, uma vez que permite revisitar momentos familiares para os leitores mais antigos e conhecedores da série, ao mesmo tempo que oferece perspetivas inéditas sobre o universo da personagem.

Como acontece frequentemente em projetos deste género, a qualidade das histórias revela algumas oscilações. Naturalmente, e quiçá consoante os gostos de cada um, há episódios mais inspirados e outros menos memoráveis, mesmo sendo verdade que se sente que os autores abordaram o desafio com respeito e genuína admiração pela obra original. E isso é especialmente verificável quando, no início de cada história, nos é dado um breve comentário de cada um dos autores participantes em que os mesmos nos revelam o quão importante foi Blueberry nas suas vidas.

No Rasto de Blueberry, de vários autores - ASA - LeYa
Uma das fragilidades da obra - embora já fosse totalmente expectável - é que a limitação imposta pelo formato curto das histórias impede, naturalmente, um desenvolvimento mais aprofundado das tramas e das personagens. Muitas histórias terminam precisamente quando começamos a desejar uma exploração mais extensa das suas premissas. Mas, bem, isso é algo comum em antologias com histórias curtas.

Por outro lado, um dos aspetos mais positivos do álbum é a forma como preserva o espírito da série clássica. Quer do ponto de vista narrativo, quer na representação visual de Blueberry e do Oeste americano, existe uma preocupação constante em manter a identidade da criação original. 

É, contudo, na componente gráfica que No Rasto de Blueberry atinge alguns dos seus momentos mais marcantes. O livro tem muitos momentos de alto nível, com alguns autores a aplicarem-se verdadeiramente na forma como homenageiam o trabalho incrível de Jean Giraud. Entre os quais, destaco os de Enrico Marini, Dominique Bertail, Vincent Perriot e de Paul Gastine que é, a meu ver, o ilustrador que nos oferece, em termos de desenho, o melhor contributo do álbum. Nota ainda para a inclusão de ilustrações de vários autores de renome como Blutch, Milo Manara ou Ralph Meyer. A capa é da autoria de Mathieu Lauffray.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço no interior, boa encadernação e boa impressão. No início, há ainda um texto de duas páginas sobre Blueberry e os seus autores.

Em suma, No Rasto de Blueberry cumpre plenamente o seu objetivo: homenagear um dos cowboys mais famosos da história da banda desenhada e assinalar com dignidade os 60 anos de existência de uma personagem verdadeiramente icónica, quer marcou gerações e cujo potencial aventureiro não se encontra ainda extinto.


NOTA FINAL (1/10):
8.0



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No Rasto de Blueberry, de vários autores - ASA - LeYa

Ficha técnica
No Rasto de Blueberry
Autores: Vários
Editora: ASA
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Setembro de 2026

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Análise: A Armação

A Armação, de Daniel Silvestre - Levoir

A Armação, de Daniel Silvestre - Levoir
A Armação, de Daniel Silvestre

O 10º lançamento da Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público trouxe-nos a edição de uma obra de autoria portuguesa, facto que é de louvar e que já não acontecia, se a memória não me atraiçoa, desde a primeira coleção em que se editou Beterraba: A Vida numa Colher, de Miguel Rocha.  

O livro em questão é este A Armação, de Daniel Silvestre, uma obra que eu já conhecia bastante bem, ainda do tempo em que a mesma foi premiada na categoria de Melhor Publicação Independente nos Prémios de Banda Desenhada da Amadora, em 2024. Originalmente, a obra havia sido publicada pelo Centro de Língua Portuguesa Camões IP – Bruxelas e pela Bedeteca de Beja, no âmbito da primeira Residência Artística de Banda Desenhada em Bruxelas, em 2023.

Este é um belo livro, carregado de poesia, com um ambiente muito próprio que, em boa altura, a Levoir decidiu editar por cá, assegurando, desta forma, que o livro pode chegar a um público maior do que aquele que, naturalmente, conseguiu impactar na sua primeira edição independente.

A Armação, de Daniel Silvestre - Levoir
Partindo das memórias do seu avô, José Silvestre, o autor constrói uma narrativa profundamente humana e enraizada num Portugal que já desapareceu. A história centra-se numa viagem ocorrida nos anos 30 do século XX. José, então com apenas dez anos, é encarregado de transportar sozinho um enorme peixe de 150 Kgs entre Porto Novo e Torres Vedras, recorrendo apenas à ajuda de um burro, que transporta o enorme peixe às costas. 

O grande mérito do livro está precisamente na forma como transforma um acontecimento aparentemente banal numa experiência carregada de significado. A viagem física do jovem José acaba por se transformar, também, numa viagem emocional, onde os receios, as fantasias e a imaginação de uma criança desempenham um papel central na narrativa. Este peixe colossal que o jovem José transporta assume, portanto,  uma dimensão quase mítica, como se fosse uma criatura saída de um conto popular ou de uma lenda transmitida entre gerações. O real e o imaginado cruzam-se constantemente de forma muito natural, o que me remeteu para um dos meus filmes preferidos, Big Fish, de Tim Burton. 

Ao mesmo tempo, este A Armação funciona como um retrato atento da vida dos pescadores portugueses durante a primeira metade do século XX. Sem nunca cair num tom excessivamente documental, Daniel Silvestre consegue transmitir a dureza das condições de vida, a precariedade económica e o esforço físico exigido por um quotidiano que hoje parece distante, mas que moldou (e ainda molda?) gerações inteiras de pescadores.

A Armação, de Daniel Silvestre - Levoir
É uma história que avança sem pressas, permitindo que o leitor absorva o ambiente, as paisagens e os estados de espírito das personagens. Essa abordagem mais contemplativa encaixa particularmente bem na temática da obra. Afinal, A Armação fala de um tempo em que as distâncias eram percorridas a pé, em que o trabalho começava cedo e em que cada tarefa exigia uma dedicação difícil de imaginar nos dias de hoje, em que nos preocupamos em ter uma vida mais despreocupada - se é que esta minha última afirmação faz algum sentido.

Por outro lado, A Armação uma obra bastante curta, já que conta apenas com 20 páginas de banda desenhada. E, talvez por isso, nos deixe com a sensação de "saber a pouco". Parece que estamos perante uma história e um universo que mereciam mais páginas. Mesmo assim, é um trabalho que consegue cumprir bem os seus pressupostos narrativos e, acima de tudo, revela uma coisa muito clara: Daniel Silvestre tem um potencial enorme para, assim que lançar uma obra de grande fôlego, marcar profundamente a banda desenhada portuguesa. Se com esta obra curta já o consegue fazer - em parte - imagine-se numa obra de grande fôlego!

A Armação, de Daniel Silvestre - Levoir
Visualmente, o livro é igualmente muito bem conseguido. O traço de Daniel Silvestre revela-se elegante, expressivo e extremamente seguro de si mesmo. Nota-se que estamos perante um ilustrador experiente, com uma grande capacidade para representar tanto figuras humanas como espaços naturais e ambientes rurais.

Além disso, um dos aspetos mais interessantes do desenho é a sua versatilidade. Daniel Silvestre consegue introduzir alterações significativas na composição das páginas, nos enquadramentos e até no grau de realismo de determinadas sequências, sem que a obra perca a sua identidade visual. Existe sempre uma coerência gráfica - por ventura, suportada pela paleta de cores, em tons de azul - que mantém a leitura fluida e harmoniosa. A atmosfera visual consegue ser melancólica, poética e evocativa. Sou, portanto, um claro admirador do trabalho de ilustração do autor, já que também em Os Lusíadas, também editado pela Levoir, fiquei rendido aos desenhos de Daniel Silvestre.

Em termos de edição, o livro está muito bem conseguido. Além da capa dura baça, bom papel baço e boa encadernação e impressão, já habituais nesta coleção da Levoir, a edição da obra prima especialmente pelo grande conjunto de extras que traz consigo. Há um extenso texto do autor, quase em tons de ensaio, que explica muito bem o processo de criação da obra, os seus intentos e as suas dificuldades. Há ainda um conjunto de desenhos, esboços e estudos gráficos que são muito belos e que tornam este longo texto do autor em algo mais airoso do ponto de vista visual. São mais de 30 páginas a falar sobre o processo criativo do autor, o que faz com que a experiência de leitura vá bastante além da própria obra.

No final, A Armação afirma-se como uma obra sensível, inteligente e visualmente muito bonita. Sem recorrer a artifícios ou espetacularidades, Daniel Silvestre consegue construir uma homenagem emocionante à memória familiar e, simultaneamente, um retrato de um Portugal desaparecido. É um livro que confirma o enorme talento - e ainda maior potencial, diria - do autor português. A não perder!


NOTA FINAL (1/10):
8.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Armação, de Daniel Silvestre - Levoir

Ficha técnica
A Armação
Autor: Daniel Silvestre
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
Lançamento: Setembro de 2026

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Análise: O Acidente de Caça

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros
O Acidente de Caça, de David L. Carlson e Landis Blair

Num dos anos mais fortes de sempre da Ala dos Livros, em termos de lançamentos de banda desenhada, a editora portuguesa voltou a marcar mais pontos, oferecendo-nos este O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia, dos autores americanos David L. Carlson e Landis Blair, que se assume como (mais) um dos melhores livros de BD editados por cá em 2026.

Estamos perante uma daquelas obras que desafiam qualquer tentativa de classificação simples, pois trata-se de um trabalho monumental, tanto pela sua dimensão física como pela densidade dos temas que aborda. 

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros
Antes de mais, importa explicar um pouco a sua estrutura narrativa deste O Acidente de Caça, já que estamos perante uma história construída através de várias camadas e subnarrativas que se entrelaçam gradualmente. No centro da narrativa encontra-se Charlie Rizzo, um jovem de Chicago que, nos anos 50, vive uma adolescência marcada por pequenos delitos com a justiça e por uma relação difícil com o seu pai, Matt Rizzo. Até aos 10 anos, Charlie vive com a sua mãe, afastado do seu pai, mas assim que a sua mãe morre, Charlie passa a ir viver com o seu pai. 

Este é cego e a causa dessa cegueira é devida a um acidente de caça que o deixou invisual após um tiro mal disparado numa tentativa de caça a um veado. Mas o passado do pai é muito mais complexo do que aquilo que Charlie alguma vez possa imaginar. E quando o jovem se vê próximo de rumar à prisão por tentativa de assalto, Matt expõe a verdade da sua vida ao seu filho, explicando-lhe qual a real causa da sua cegueira e mostrando-lhe que também ele já esteve preso.

A história desenvolve-se depois através da revelação dessa vida oculta de Matt Rizzo, cuja experiência pessoal se transforma numa longa reflexão sobre identidade, culpa, redenção e transformação. Sem revelar os principais mistérios da narrativa, já que este é um livro em que o enredo nos oferece várias surpresas, posso dizer-vos que a obra alterna entre diferentes períodos históricos e diferentes histórias dentro da história principal, apresentando um retrato fascinante da forma como determinados acontecimentos moldam sucessivas gerações. É uma obra que exige atenção constante do leitor, mas que recompensa amplamente esse investimento, diria.

Uma das grandes qualidades do livro reside na construção destas duas personagens centrais. Charlie é impulsivo, inquieto e procura constantemente o seu lugar no mundo. Já o seu pai Matt, por seu lado, revela-se uma figura muito mais complexa do que inicialmente parece. E embora cego, parece ver muito além da maioria dos outros homens. E à medida que a narrativa avança, ambos enfrentam as consequências dos erros cometidos na juventude, descobrindo, cada um à sua maneira, que o crescimento pessoal raramente é um processo linear. 

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros
Acima de tudo, mas sem se limitar a isso, O Acidente de Caça é a história de uma relação entre pai e filho. Embora baseada em factos da vida real, a obra transcende rapidamente a mera autobiografia para se tornar uma reflexão universal sobre os laços familiares. E não só, pois o argumento é extraordinariamente rico e abrangente. Questões como a cegueira e tudo o que ela acarreta, a vida na prisão, o amor perdido, a filosofia existencial e a própria literatura estão presentes dentro desta densa narrativa. O resultado é, pois, uma obra que consegue discutir temas muito diferentes sem perder coerência. Pelo contrário, todas estas dimensões acabam por se complementar, contribuindo para uma reflexão profunda sobre aquilo que nos torna humanos e sobre a capacidade que temos de reconstruir a nossa vida depois dos erros cometidos.

Entre todas as mensagens presentes no livro, há ainda uma que, a meu ver, se destaca de forma particularmente clara: a ideia de que a arte (e a cultura) deve estar ao serviço da humanidade. Através das experiências das personagens, a obra demonstra-nos como os livros, as ideias e as diferentes formas de expressão artística podem transformar pessoas, ampliar horizontes e oferecer caminhos de redenção. E diria mesmo que poucas obras conseguem transmitir de forma tão convincente o poder transformador da cultura.

Nesse sentido, O Acidente de Caça é também uma apaixonada homenagem à literatura. A obra estabelece uma ligação muito forte com A Divina Comédia, de Dante Alighieri, e em particular com O Inferno de Dante. As referências à viagem dantesca são constantes e assumem um papel fundamental na interpretação dos acontecimentos. Existe um interessante paralelismo entre as descidas simbólicas de Dante e os percursos vividos pelas personagens desta novela gráfica, criando momentos de grande impacto emocional e intelectual, reconheço.

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros
Ainda assim, esta é também a área onde encontro a principal fragilidade da obra. Apesar de David L. Carlson conseguir, no final, unir praticamente todos os pontos da narrativa com enorme competência, e até alguma grandiosidade, houve momentos em que senti que a presença de Dante se tornava algo excessiva. Em determinadas passagens, a ligação temática parece um pouco forçada, como se a narrativa procurasse constantemente reforçar um paralelismo que já estava suficientemente estabelecido, criando alguma redundância. Acredito que, neste ponto em concreto, "menos teria sido mais", pois preservar-se-ia uma maior sensação de espontaneidade e genuinidade na história.

Mas mesmo com essa reserva é impossível não admirar a ambição deste projeto de banda desenhada. O conjunto de temas abordados é verdadeiramente impressionante. Poucas bandas desenhadas conseguem integrar tantos assuntos diferentes (literatura, arte, braille, educação, filosofia, you name it...) sem perder o foco narrativo. Mais importante ainda, consegue fazê-lo de forma orgânica, com cada novo tema a acrescentar profundidade à história principal. Pode parecer, por vezes, que a história se perde um pouco, mas logo o argumentista David L. Carlson segura as rédeas narrativas com primor.

Admito que não é uma leitura rápida nem particularmente fácil. Existem momentos em que a quantidade de informação e de referências culturais pode parecer esmagadora. Contudo, é precisamente dessa exigência que nasce a força da obra. E à medida que a narrativa avança, torna-se evidente que cada detalhe foi colocado com um propósito específico. Quando finalmente chegamos ao final, percebemos que estamos perante um daqueles raros livros que nos enriquecem enquanto leitores e enquanto pessoas.

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros
Se já muito escrevi sobre o trabalho do argumentista, pouco ou nada referi sobre os desenhos de Landis Blair que, ainda por cima, merecem especial atenção. O seu desenho, a preto e branco, assente num uso intenso de hachuras, cria uma atmosfera sombria, opressiva e simultaneamente fascinante. É um estilo muito próprio, imediatamente reconhecível, que dificilmente deixa alguém indiferente. Compreendo perfeitamente que não agrade a todos os leitores. Ainda recentemente, um amigo apaixonado por banda desenhada, e também ele autor, me confessou que não apreciava particularmente esta abordagem visual, por ser, nas suas palavras "demasiado densa". No meu caso, sucede exatamente o contrário: considero que a identidade gráfica da obra é uma das suas maiores virtudes.

Há momentos visualmente extraordinários ao longo do livro, incluindo várias ilustrações de página dupla que atingem uma escala quase épica. A técnica de Blair é original, meticulosa e profundamente marcante. Apenas tenho uma pequena reserva relativamente à representação de algumas expressões faciais que, por vezes, parecem demasiado simples quando comparadas com o impressionante nível de detalhe presente nos cenários e ambientes.

A edição do livro é também ela grandiosa, com a edição a ser em capa dura baça, com detalhes a verniz. No miolo, o papel utilizado é baço e de qualidade máxima. Encadernação, impressão e acabamentos também estão muito bem feitos. A edição é complementada por uma elegante fita marcadora e, no final, há ainda um posfácio e alguns documentos reais sobre Matt Rizzo.

Em suma, O Acidente de Caça afirma-se como uma das melhores leituras do ano, sendo uma obra grandiosa não apenas pela sua dimensão física, mas sobretudo pela quantidade de ideias, emoções e reflexões que deixa no leitor. É um livro que exige entrega, atenção e disponibilidade intelectual, mas que retribui esse esforço de forma generosa. Daqueles livros raros que nos marcam, que nos acompanham muito depois da última página e que, de certa forma, nos mudam. Para melhor.


NOTA FINAL (1/10):
9.8


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O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros

Ficha técnica
O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia
Autores: David L. Carlson e Landis Blair
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 464, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 209 x 237 mm
Lançamento: Agosto de 2026

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Análise: A Loja e A Demanda do G

A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral) - Polvo

A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral) - Polvo
A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral)

Hoje trago-vos dois livros emblemáticos da produção nacional no que à banda desenhada humorística diz respeito: A Loja e A Demanda do G. No caso do primeiro livro, editado em 2019, temos o veterano Derradé enquanto autor completo, assumindo desenhos e argumento. No caso de A Demanda do G, originalmente editado em 2016, a obra conta com Geral e Derradé no argumento e Derradé nos desenhos. Ambos os livros foram publicados pela editora Polvo.

Estas são duas obras que, apesar de diferentes na sua estrutura narrativa e nos seus universos ficcionais, partilham alguns elementos que até nem são tão comuns assim na banda desenhada nacional: o humor, a ironia, a cultura popular e, diria até, uma certa recusa em respeitar convenções narrativas demasiado rígidas. Além disso, as duas obras revelam a capacidade de Derradé (e de Geral) para cruzar o quotidiano português com situações absurdas, inesperadas e frequentemente cómicas.

Em A Loja, acompanhamos Bernardo Duarte, um homem que abandona uma carreira estável na informática para concretizar o sonho de gerir uma loja especializada em banda desenhada. Trata-se de uma ficção com claros laivos autobiográficos. Não que Derradé tenha tido - tanto quanto sei - uma loja de banda desenhada, mas por também ele ser informático de profissão e um acérrimo amante e defensor da banda desenhada. A premissa é simples e bastante direta, com vários elementos cómicos e muitas, muitas referências que o público mais conhecedor da BD em Portugal certamente vai encontrar. Tudo num registo carregado de sarcasmo, que nos deixa bem dispostos ao longo da leitura. Mesmo assim, e tal como o autor haveria de fazer, uns anos mais tarde, no seu O Fogo Sagrado, a obra também tem um lado mais sério que nos deixa a refletir de um modo mais amplo sobre vocação, realização pessoal e os riscos associados à perseguição de um sonho. 

Uma das maiores virtudes de A Loja é precisamente a sua autenticidade. O leitor percebe rapidamente que as situações descritas têm origem em experiências vividas ou observadas de perto. Esta proximidade com a realidade confere credibilidade à obra e permite uma representação bastante fiel das dificuldades enfrentadas por pequenos empresários no setor cultural português, particularmente num nicho tão específico como o da banda desenhada. Se trabalhar em cultura já não é fácil... imaginem trabalhar em banda desenhada, um "nicho do nicho" da cultura.

A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral) - Polvo
Ao mesmo tempo, a obra evita cair no dramatismo excessivo. Derradé utiliza o humor como instrumento de análise social, mostrando que o fracasso, as dificuldades financeiras e as desilusões podem ser retratados de forma leve, mas sem perder profundidade. Acaba, pois, por ser um livro especialmente bem sucedido por conseguir ser, ao mesmo tempo, divertido e melancólico. E se há coisa que nos demonstra é que - quer queiramos, quer não - muitos dos nossos sonhos individuais acabam por se confrontar constantemente com as limitações da realidade em que vivemos. Há contas por pagar, filhos por criar, sonhos por deixar.

Tal como já referi acima, considero ainda que outro dos feitos da obra é a homenagem que presta à (sub)cultura da banda desenhada. O livro funciona quase como um retrato de uma comunidade específica de leitores, colecionadores e apaixonados pela nona arte. Nesse sentido, ultrapassa a história individual do protagonista para se tornar uma reflexão sobre a sobrevivência das pequenas livrarias especializadas e sobre a persistência de certas paixões culturais num mundo cada vez mais dominado pela lógica comercial. Gosto muito deste A Loja. Não consegue, quanto a mim, ser tão profundo como O Fogo Sagrado, o meu livro favorito do autor, mas anda lá perto. E, claro, mesmo sendo um livro mascarado de comédia pura e dura, traz também uma seriedade e uma reflexão que importa referir. 

Já A Demanda do G segue um caminho radicalmente diferente. A história tem início com o desaparecimento misterioso de G, vocalista dos fictícios The BadSummerBoys Band, desencadeando uma procura que rapidamente se transforma numa viagem delirante povoada por referências musicais, literárias e culturais. Pelo percurso surgem figuras tão improváveis como Federico García Lorca, Serge Gainsbourg, Vinicius de Moraes, Joe Strummer, entre muitos outros.

Aqui as reflexões mais sérias de A Loja ou O Fogo Sagrado dão lugar a uma narrativa que não tem medo de adoptar uma lógica assumidamente absurda. Em vez de procurar coerência realista, o livro aposta mais na acumulação de situações extravagantes e encontros improváveis. Esta opção aproxima a obra de uma corrente mais nonsense, com a viagem dos protagonistas a ser mais importante pelas situações inesperadas que as personagens encontram ao longo do caminho, do que pelo próprio destino final.

Um dos elementos mais interessantes de A Demanda do G é, portanto, a utilização da cultura popular como matéria-prima narrativa. Música punk, literatura, cinema e mitologias urbanas convivem num mesmo espaço ficcional.

A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral) - Polvo
Mas onde a obra surpreende mais é na forma como está estruturada, em termos de planificação. Temos a história principal - chamemos-lhe assim - a ocupar, mais ou menos, 66% de cada página, e temos uma sub-narrativa a acontecer em simultâneo, em forma de tira, no fundo de cada página. Aqui, a narrativa aproxima-se mais de gags que reagem à ação principal da história. São os autores a comentarem a própria história, vá. Quase como se essa tira representasse um coro grego que reage à própria história, numa abordagem meta-narrativa. A ideia é super audaz e original, sendo vista poucas vezes na BD. Mas bons exemplos desta técnica podem ser encontrados, por exemplo, em Fat Freddy's Cat ou Krazy Kat. 

E quando esta abordagem funciona bem, é hilariante. Foram várias as vezes em que gargalhei com os disparates contidos nestas tiras. Por outro lado, também tenho que ser justo e referir que à medida que a leitura vai avançando, esta iniciativa se torna um pouco repetitiva e que até acaba por retirar a nossa atenção da ação principal. É um pau de dois bicos, portanto - no pun intended.

Comparando ambas as obras, percebe-se que A Loja é mais intimista e realista, enquanto A Demanda do G aposta no delírio imaginativo. Ainda que ambas nos façam rir em diversos momentos. É um humor inteligente, frequentemente autorreferencial e recheado de referências culturais. Mesmo quando os contextos são muito distintos, a "voz" do autor mantém-se reconhecível, assente numa observação irónica do comportamento humano e numa simpatia evidente pelas figuras marginais, excêntricas ou sonhadoras.

Em termos de desenho, o autor apresenta o mesmo tipo de ilustrações a que já estamos habituados, com as personagens a serem delineadas com um traço caricatural a preto e branco que evidencia emoções e contribui para o humor presente nos textos e nas situações. Em A Demanda do G, na tal parte que já mencionei das tiras humorísticas, o estilo de desenho é ainda mais direto e "cartoonesco" do que nas outras ocasiões. Percebo a escolha, até porque permite separar melhor as duas narrativas, mas acho que em termos visuais não funciona tão bem, uma vez que deixa cada página mais cheia, causando uma certa sensação de claustrofobia gráfica.

Em termos de edição, cada um dos livros publicados pela Polvo apresenta capa mole, com badanas, e bom papel baço no interior. A impressão e a encadernação são boas. Nota para o acabamento brilhante, em tons dourados, da capa de A Demanda do G, que a torna um pouco mais distinta do que o habitual nos lançamentos da Polvo.

Em suma, A Loja e A Demanda do G demonstram não apenas a versatilidade criativa de Derradé, mas também a vitalidade de uma banda desenhada portuguesa capaz de oscilar entre a reflexão intimista e o humor mais delirante. Eis duas obras diferentes, mas de certo modo complementares, unidas por um olhar irónico sobre o mundo e por uma profunda paixão pela cultura popular. Indispensáveis para os amantes de BD humorística... e não só.


NOTA FINAL (1/10):
A Loja:  8.3
A Demanda do G: 7.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral) - Polvo

Fichas técnicas
A Loja
Autor: Derradé
Editora: Polvo
Páginas: 64, a preto e branco
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 16 x 22 cm
Lançamento: Novembro de 2019

A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral) - Polvo

A Demanda do G
Autores: Geral e Derradé
Editora: Polvo
Páginas: 64, a preto e branco
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 16 x 22 cm
Lançamento: Agosto de 2016

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Análise: Faithless #3

Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio

Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio
Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet

Sabem aquela sensação de querer estar enganado? Aquela esperança teimosa de que um autor ainda consiga recuperar uma história que parece ter perdido o rumo? Foi exatamente esse sentimento que me acompanhou durante a leitura deste Faithless #3, editado por cá em Outubro de 2022 pela editora G. Floy Studio.

Este é o terceiro e último volume desta série criada por Brian Azzarello e Maria Llovet. Depois de um primeiro volume estimulante e imprevisível e de um segundo volume que me pareceu uma enorme desilusão, a questão impunha-se: conseguiria Azzarello salvar Faithless na reta final?

A resposta curta é: parcialmente. Mas a resposta longa é um pouco mais complicada.

Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio
Na análise ao primeiro volume escrevi que não fazia a menor ideia de para onde a história se dirigia, mas que isso não me incomodava. Pelo contrário. Havia algo de fascinante naquela mistura de erotismo, fantasia, terror psicológico e psicadelismo que envolvia Faith, Poppy e Louis. Tudo parecia possível a esta história. 

Mas foi com o segundo volume da série que me consegui aperceber do "problema" da obra, quando comecei a suspeitar de que o próprio autor não sabia bem para onde a história caminhava. E é uma coisa que, enquanto leitor com alguma experiência, costumo "farejar" ao longe. Quando um argumentista começa a chutar ideias para o ar... é mau sinal. E isso aconteceu no segundo volume da série: as ideias multiplicavam-se, mas raramente encontravam um propósito. A provocação, especialmente devido ao erotismo desregrado - que acaba até por ser a minha parte preferida de toda a série -, parecia ter tomado conta da narrativa.

Não diria que Brian Azzarello salve a honra da obra com este Volume Três, mas reconheço-lhe, pelo menos, o mérito de finalmente tentar construir uma conclusão. Pode não ser uma conclusão totalmente satisfatória, pode até deixar algumas questões em aberto, mas existe aqui pelo menos uma tentativa de dar sentido a vários elementos que vinham sendo introduzidos desde o primeiro livro.

Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio
A história deste último volume encontra a personagem de Faith numa fase de queda livre. Depois da ascensão meteórica ao estatuto de artista provocadora e celebridade do mundo da arte, a protagonista desapareceu durante meses e regressa profundamente transformada. A fama que parecia alimentá-la converteu-se numa prisão. As dúvidas acumulam-se. Os acontecimentos sobrenaturais tornam-se mais intensos. E a relação com Louis aproxima-se cada vez mais de um confronto inevitável.

O elemento mais interessante deste volume é precisamente a forma como Azzarello procura transformar os excessos dos livros anteriores em algo que se aproxima de um tema. Pela primeira vez, Faithless parece querer falar seriamente sobre criação artística. Sobre o que significa criar. Sobre a exploração da imagem do artista. Sobre a forma como o mercado consome, recicla e destrói personalidades criativas. 

Infelizmente, continuam presentes muitos dos problemas que prejudicaram o segundo tomo. Há momentos em que o argumento parece avançar aos saltos, como se páginas inteiras de desenvolvimento tivessem desaparecido. Algumas revelações surgem de forma abrupta e continuam a existir passagens em que os autores parecem mais interessados em criar imagens potencialmente chocantes do que em contar uma história coerente.

Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio
Quanto aos desenhos, o trabalho da espanhola Maria Llovet é muito interessante e original. A autora continua a oferecer-nos páginas belas, perturbadoras, sensuais e hipnóticas. A utilização das cores mantém-se extraordinária, alternando vermelhos agressivos, rosas vibrantes e tonalidades sombrias. Existem sequências inteiras que poderiam perder os diálogos e continuariam a funcionar apenas pela força da componente visual.

Considero que o traço de Maria Llovet continua a encaixar perfeitamente nesta história, portanto. Há personalidade, ousadia e identidade visual em praticamente todas as páginas. Dito por outras palavras, mesmo quando não acreditamos totalmente naquilo que Azzarello nos está a contar, acreditamos sempre nas imagens de Llovet.

Quanto à edição da G. Floy Studio, esta mantém a boa qualidade dos volumes anteriores. A capa é dura, a impressão e a encadernação são boas, também. No miolo, o papel é brilhante e de boa qualidade.  No final do livro, há um belo conjunto de ilustrações que engrandecem a edição.

No final da leitura desta série, fiquei com uma sensação curiosa. Faithless não se revelou a obra marcante que imaginei depois de terminar o primeiro volume. Também não acabou por ser o desastre absoluto que temi após o segundo. Ficou algures no meio. Como uma experiência ambiciosa, irregular e frequentemente contraditória. No fim, Faithless assume-se como uma viagem estranha, excessiva, provocadora e visualmente impactante. 


NOTA FINAL (/10):
6.4



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio

Ficha técnica
Faithless #3
Autores: Brian Azzarello e Maria Llovet
Editora: G. Floy Studio
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Outubro de 2022