terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Análise: O Gosto do Cloro

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir
O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès

A Coleção Angoulême da editora Devir aproxima-se do final, ficando apenas a faltar a publicação do livro Kiki de Montparnasse, de Catel & Bocquet. Antes desse derradeiro lançamento, a editora já nos fez chegar, durante este primeiro mês do ano, o livro O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès, que, assumindo desde já que pode não agradar a todo o tipo de leitores, confesso ter adorado.

Afinal de contas, estamos perante um livro que se lê quase em apneia, de tão intenso e vazio que é ao mesmo tempo. Bastien Vivès, autor de outras obras já por cá publicadas por outras editoras, como Uma Irmã, Polina ou a mais recente e contemporânea abordagem à série clássica de Corto Maltese, constrói neste O Gosto do Cloro, uma narrativa curta e silenciosa, onde o essencial não está tanto no que acontece, mas naquilo que se sente. E nisso, o autor é um verdadeiro mago. A piscina onde decorre a quase totalidade desta história surge-nos, pois, como mais do que um cenário: é um estado de espírito. Um espaço fechado, azul, repetitivo, onde os corpos se movem e os pensamentos se libertam lentamente, como se cada braçada fosse também um ensaio de aproximação emocional.

Mas já me estou a adiantar. Recuemos um pouco.

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir
A história é bem simples. Acompanhamos o percurso de um rapaz, que pelo bem das suas costas, precisa nadar. Pelo menos, uma vez por semana. É essa a sua prescrição médica. É então que, na piscina onde decide fazer natação, o seu olhar assenta numa bela rapariga, antiga campeã de natação. Não sabemos muito mais sobre cada uma das personagens e é bem possível que não fiquemos a saber muito mais depois de finalizada a leitura. No entanto, várias emoções e um sentimento de reflexão estão à nossa espera enquanto mergulhamos, literalmente, nesta leitura.

Também não sabemos os nomes das personagens, e isso não é um acaso, pois tratam-se, claro, de figuras quase universais, arquétipos de um encontro que poderia ser de qualquer um de nós, num tempo indefinido, suspenso.

A relação dos dois começa de forma bastante lenta - e, portanto, credível - à medida em que as duas personagens, principalmente o rapaz, vão vencendo os seus medos e a sua timidez para estabelecer contacto um com o outro.

Vivès aposta numa relação que surge através de pequenos gestos, olhares trocados e correções técnicas de natação, que funcionam como pretextos para o toque e para a proximidade entre as personagens. Há uma intimidade que cresce de forma orgânica, sem grandes declarações ou viragens dramáticas. Tudo acontece num registo silencioso, quase sussurrado, como se o próprio livro tivesse medo de quebrar o silêncio húmido da piscina.

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir
Este é, claramente, um livro que não agradará a todos. Passa-se pouca coisa, no sentido clássico da narrativa. Isso é verdade. E estamos perante um encontro entre duas personagens Apenas isso. A possibilidade do que pode vir, ou não, a ser. O virar da página de um encontro fortuito. Mas é precisamente aí que reside a maturidade da proposta: Vivès imprime significado nos silêncios, na observação pura, naquilo que fica por dizer. O vazio aparente é, afinal, um espaço cheio de tensão e expectativa.

É verdade que o ritmo da narrativa também acaba por ser lento, mas tudo isso é bastante deliberado. Cada página parece flutuar, como os corpos na água. Essa lentidão, que poderia ser um defeito noutro contexto, funciona aqui como uma virtude, porque nos obriga a desacelerar, a ler com atenção, a habitar o tempo da narrativa em vez de o atravessar apressadamente. Este é mesmo um daqueles livros que serve como escape. Se o lermos à pressa - e essa possibilidade até fará com que o livro seja lido em 15 ou 20 minutos - estaremos a não dar à obra aquilo que ela nos pede: tempo. Os livros discretos, sensíveis e profundamente contemplativos normalmente carecem de tempo para serem bem degustados.

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir
Há também uma dimensão profundamente nostálgica nesta história que me agradou especialmente. O Gosto do Cloro remeteu-me para os tempos da adolescência, da juventude, em que o primeiro contacto - mesmo que breve - com alguém do sexo oposto parecia a abertura de um livro em branco. Quando em jovens, não sabíamos o que podia sair dali, desse primeiro contacto com alguém que desconhecíamos, e talvez por isso, a carga emocional fosse tão intensa. Vivès capta muito bem esse momento frágil de passagem da infância para o mundo adulto.

O final deixa tudo em aberto, o que acaba por fazer ressoar ainda mais a obra no leitor. Posso dizer-vos que tentar perceber como acaba esta história dá pano para mangas e promete conversas longas entre quem tiver lido a obra. Mas mais não digo. Terão mesmo que ler este belo livro e tirar as vossas conclusões.

Do ponto de vista gráfico, os desenhos são simples, minimalistas e bastante despidos. Há um certo charme nessa economia de meios, um requinte visual que contribui para o erotismo latente do conto. Os corpos, desenhados sem excessos, parecem mais vulneráveis, mais reais, e o grafismo ajuda a construir essa atmosfera de intimidade contida. As próprias posições dos corpos na água são muito bem delineadas por parte do autor. Fica a ideia que ou o autor passou muitos anos da sua vida em piscinas de natação, ou fez um estudo demorado e profundo para este álbum, já que a linguagem corporal das personagens está muito bela e verossímil.

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir
Há momentos belíssimos, quase hipnóticos, que parecem levar-nos para o ambiente de uma piscina. Diria que, enquanto lemos este livro, quase conseguimos sentir o cheiro do cloro. Aliás, o livro poderia perfeitamente chamar-se "O Cheiro do Cloro" em vez de O Gosto do Cloro. Vivès coloca-nos dentro da piscina com uma eficácia rara: o eco das vozes, o reflexo da luz na água, a repetição dos azulejos... Enfim, tudo contribui para uma experiência sensorial que vai além da leitura convencional.

E mesmo na forma como utiliza as cores, com um sentido de estética gráfica muito própria, o autor nos oferece um belo trabalho. Nota ainda para a utilização de planos de câmara e perspetivas mais arriscadas e audazes, mas que acabam sempre por ser muito bem executados. Apreciei também a forma como as linhas desaparecem, dando lugar a borrões de cor, quando somos presenteados com uma vista a partir do interior da piscina. 

A edição da Devir é em capa dura baça, com bom papel baço no miolo. A encadernação e a impressão também são boas. Ainda que o formato da obra não seja muito grande, diria que isso não belisca em nada a nossa imersão na leitura.

Em suma, O Gosto do Cloro é, acima de tudo, um livro de sensações. Não oferece respostas, não fecha a narrativa de forma confortável e não explica excessivamente as personagens. Prefere deixar-nos em suspenso, a pairar na calma das águas azuis, tal como os próprios protagonistas. Esta é uma obra que mantém uma poesia silenciosa que continua a ecoar, muito depois de sairmos da piscina e de nos secarmos. É um livro denso, delicado e imperfeito. Um livro que se lê rápido, mas que permanece na memória. Como um encontro breve que nunca mais é esquecido. 


NOTA FINAL (1/10):
9.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir

Ficha técnica
O Gosto do Cloro 
Autor: Bastien Vivès 
Editora: Devir
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
Lançamento: Janeiro de 2026


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