terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Análise: Henri Vaillant

Henri Vaillant - Uma Vida de Desafios, de Marc Bourgne e Claudio Stassi

Henri Vaillant - Uma Vida de Desafios, de Marc Bourgne e Claudio Stassi
Henri Vaillant - Uma Vida de Desafios, de Marc Bourgne e Claudio Stassi

Um dos livros com que a editora ASA fechou o seu ano editorial de 2025, foi este Henri Vaillant - Uma Vida de Desafios, de Marc Bourgne e Claudio Stassi, que mais não é do que uma prequela ao universo de Michel Vaillant.

Tendo sido inicialmente editado em três álbuns, a editora ASA optou, e bem, por editá-los num só volume triplo, uma vez que a história fica encerrada no conjunto destes três livros.  

Henri Vaillant é o pai de Michel Vaillant e, tal como o nome da obra assim faria crer, é nele que se centra esta história. Henri Vaillant é-nos apresentado pelo argumentista Marc Bourgne como um homem forjado pela adversidade e pelo seu tempo. Sendo um mecânico talentoso a viver numa época em que o contexto europeu é marcado por convulsões sociais, guerras e instabilidade económica, Henri mostra-se resiliente e forte de tal modo, que consegue construir a pulso uma marca automóvel, não só com ambições industriais, como também desportivas, já que Henri é apaixonado pelas corridas de carros e até participa em algumas enquanto condutor, embora não tenha tanto talento assim como, um dia, mais tarde, o seu filho Michel virá a ter. Mas isso é algo que todos nós, conhecedores da série, já sabemos.

Henri Vaillant é um homem obstinado, orgulhoso e frequentemente incapaz de demonstrar afeto - atitude considerada normal e viril à época -, que se revela, numa vertente, um visionário empresarial e desportivo e, noutra, um homem cheio de falhas: é um marido imperfeito, marcado pela infidelidade, e um pai impaciente que coloca o trabalho acima da família. A sua vida é feita de compromissos difíceis, escolhas moralmente ambíguas e de uma vontade quase obsessiva de vencer, não por glória pessoal, mas pela necessidade de provar que é possível criar algo duradouro num mundo em constante colapso, lançando assim as bases da marca Vaillante.

Henri Vaillant - Uma Vida de Desafios, de Marc Bourgne e Claudio Stassi
Este é um livro que me agradou especialmente, tendo em conta que, confesso, não sou um enorme fã da série. Quer das temporadas mais recentes, quer mesmo dos tempos dourados de Jean Graton. Reconheço-lhe relevância, claro está, e em criança também eu me maravilhei um pouco com as dinâmicas e emocionantes corridas de carros em banda desenhada que Graton nos ofereceu, mas sempre achei que, do ponto de vista do argumento, faltava algo à série. E talvez seja mesmo este Henri Vaillant que, partindo de uma personagem secundária do universo de Michel Vaillant, consegue um feito especial ao propor-se fazer aquilo que muitas vezes falta nas grandes séries: parar, olhar para trás e perceber de onde tudo veio.

A personagem de Henri Vaillant já era vista como o patriarca duro e rabugento e visionário, sim, mas aqui, em oposição a isso, ganha finalmente espessura humana. O livro traça de forma muito competente a história da família Vaillant, colocando o foco quase exclusivo no pai de Michel, e conseguindo fazê-lo sem recorrer a truques fáceis ou a dramatizações artificiais.

O grande mérito do argumento de Marc Bourgne está precisamente nessa abordagem contida. Gostei especialmente do lado humano - e até "normal", diria - com que Henri é retratado: um homem com qualidades e defeitos bem visíveis, sem nunca cair na tentação de o transformar num herói trágico ou numa vítima do destino. A história flui com naturalidade e revela um cuidado raro na construção psicológica da personagem. Até a própria personagem de Michel Vaillant que aqui aparece, primeiramente, como uma criança e, depois como um jovem adulto intempestivo e rebelde, ganha alguma profundidade.

Não estamos perante uma história maior do que a vida, daquelas que nos marcam para sempre, mas confesso que, tendo em conta que estamos a falar de um livro de Michel Vaillant, ou do seu universo, não estava à espera de algo tão sólido. 

Acima de tudo, trata-se de uma narrativa profundamente verosímil. Bourgne apresenta-nos um homem moldado pela sua época, afetado pelos contextos político-sociais da Europa do início do século XX, e que tenta, a pulso, criar uma marca automóvel capaz de sobreviver no mercado e competir nas pistas. Nada soa forçado ou deslocado. Poderia ser a história real de uma pessoa.

A questão da infidelidade está lá, bem presente, conforme já mencionei, e contribui para essa sensação de realidade crua e pouco romantizada. Não obstante, considero que esta nuance "salgada" na vida de Henri talvez pudesse - ou, diria mesmo, devesse - ter sido mais explorada, pois teria reforçado ainda mais a credibilidade emocional da narrativa e o seu tom mais adulto.

Se a história convence e surpreende, já no campo gráfico a experiência é mais irregular. O trabalho de Claudio Stassi é eficiente e cumpre satisfatoriamente a sua função narrativa, mas raramente vai além disso. Para um álbum que se assume como uma produção especial dentro do universo Michel Vaillant, devo dizer que esperava um pouco mais de arrojo visual.

Henri Vaillant - Uma Vida de Desafios, de Marc Bourgne e Claudio Stassi
Não é que os desenhos sejam maus - longe disso -, mas sente-se a ausência de algo verdadeiramente distintivo, com várias vinhetas a carecerem de maior apuro e composição, algo que poderia ter elevado o impacto visual da obra e acompanhado melhor a força do argumento.

Em vários momentos, os fundos reduzem-se a manchas de cinzento que servem apenas para preencher espaços, deixando os cenários mais despidos do que o desejável.

É, no entanto, no desenho dos carros e sobretudo na quase ausência de sensação de movimento, que o traço do argumentista Claudio Stassi mais peca. Especialmente, se compararmos o seu trabalho com o do mestre Jean Graton  E, lá está, num universo onde o automóvel e a velocidade são elementos tão importantes, esta limitação torna-se mais evidente. Também as expressões faciais surgem por vezes algo rígidas e estáticas. Mantenho que não acho que a obra se deva "envergonhar" pelo seu desenho, mas simplesmente também não se pode propriamente vangloriar do mesmo.

Mais de metade do livro é apresentada a preto e branco, numa escala de cinzentos bastante sóbria. O segundo terço da obra passa gradualmente à cor, numa clara tentativa de assinalar a passagem do tempo. Gostei da forma faseada como esta transição é feita, permitindo ao leitor perceber a intenção narrativa sem que a mudança se torne abrupta.

A edição da ASA é em capa dura baça, com bom papel ligeiramente brilhante, boa encadernação e boa impressão. No final do livro, há uma página a simular um álbum de fotografias da família Vaillant e uma página com o modelo, em lápis de carvão, do carro Vaillante Le Mans 01.

Em suma, não só Henri Vaillant - Uma Vida de Desafios me surpreendeu pela positiva - mesmo sem ser especialmente empolgante em termos gráficos, admita-se - como é uma leitura indispensável para qualquer fã da série. Prova ainda que há espaço para contar boas histórias no universo Michel Vaillant desde que se tenha a coragem de abrandar, olhar para as personagens e tratá-las como pessoas de carne e osso.


NOTA FINAL (1/10):
8.4




Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Henri Vaillant - Uma Vida de Desafios, de Marc Bourgne e Claudio Stassi

Ficha técnica
Henri Vaillant - Uma Vida de Desafios
Autores: Marc Bourgne e Claudio Stassi
Editora: ASA
Páginas: 168, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 295 x 221 mm
Lançamento: Novembro de 2025

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