quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Análise: Lucky Luke - Dakota 1880

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita
Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno

Com já sete volumes editados até à data - e estando nós perto de vermos chegar um novo Lucky Luke por Matthieu Bonhomme - a verdade é que esta série Lucky Luke Visto Por... , que A Seita nos tem feito chegar, já apresenta um conjunto bastante interessante e alargado de obras e autores. Este Dakota 1880, com argumento de Appollo e ilustração de Brüno, é a mais recente entrada na coleção.

Eis-nos perante uma banda desenhada que revisita o imaginário do faroeste, e de Lucky Luke em particular, para nos contar uma história maior dividida em várias histórias mais curtas. E fá-lo abordando este ícone da banda desenhada mundial com respeito, inteligência e uma clara vontade de o compreender para lá da caricatura. 

Talvez por isso, este álbum não parece focado em tentar competir diretamente com a série canónica criada por Morris; antes, propõe-se a dialogar com ela, preenchendo lacunas, explorando silêncios e oferecendo uma leitura mais séria e madura de um herói que todos julgamos conhecer de cor e salteado.

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita
Acontecendo, como o próprio título da obra indica, no ano de 1880 e nas terras áridas do Dakota, a narrativa acompanha Lucky Luke numa fase anterior àquela que o consagrou enquanto figura lendária do Oeste. Aqui, Lucky Luke ainda é um jovem que trabalha enquanto guarda de uma diligência que viaja até à Califórnia. Esqueçam os irmãos Dalton, o Rantanplan e até mesmo Jolly Jumper. Aqui, temos apenas Lucky Luke. Mas o cowboy não está só. São várias as personagens históricas que desfilam diante de si nesta viagem atribulada. Louis Riel, Annie Oakley, Paul V. Sullivan, John Arthur Cullingam, Curly Wilcox ou Baldwin Chenier são apenas algumas dessas personagens. É uma travessia física, mas também simbólica, em que o mito começa lentamente a ganhar forma.

A estrutura do álbum assenta em sete histórias curtas, inspiradas por relatos e personagens históricas reais. À primeira vista, esta opção episódica poderia sugerir uma leitura fragmentada, mas rapidamente se percebe que Appollo constrói algo mais ambicioso. Cada episódio acrescenta uma camada à personagem e ao contexto, funcionando como peças de um mesmo percurso narrativo, que ganha coerência e fôlego à medida que avançamos. E como são histórias que acontecem durante a viagem de diligência - ou, pelo menos, nos são contadas durante essa travessia -, há todo um fio condutor que granjeia dinâmica e unidade à soma do todo. Não estamos, portanto, perante uma antologia de histórias curtas sobre Lucky Luke. Não. Estamos perante uma história que se espraia por sete capítulos que, mesmo podendo parecer distantes entre si, contribuem para um todo. E esta opção narrativa é muito bem conseguida.

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita
Há uma continuidade temática e emocional que liga todos estes diferentes encontros e situações, criando a sensação de estarmos perante uma única grande viagem, marcada por perigos, descobertas e pequenas epifanias. É nesse percurso que Lucky Luke começa verdadeiramente a tornar-se Lucky Luke.

Um dos aspetos mais interessantes do álbum é precisamente a forma como nos é revelada a origem da alcunha “Lucky”. Sem recorrer a grandes dramatismos ou explicações forçadas, Appollo integra esse momento na narrativa de forma orgânica, quase casual, mas suficientemente marcante para ganhar peso simbólico. Passando-se a ação no ano de 1880, fica claro que estas são as primeiras aventuras da personagem, ainda antes de Morris, o seu criador, nos ter dado a sua primeira aventura com Arizona.

O leque de personagens secundárias é outro dos pontos fortes da obra. Escravos libertos, mulheres determinadas, fotógrafos visionários, poetas e pistoleiros cruzam-se com Lucky Luke de forma episódica, mas nunca gratuita. Cada encontro serve para refletir uma faceta do Oeste americano e, ao mesmo tempo, para revelar algo do próprio protagonista, mesmo quando este permanece, como sempre, lacónico e reservado.

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita
No campo gráfico, o trabalho de Brüno destaca-se pela sua aparente simplicidade. O seu traço linear, direto e em linha clara pode, à primeira vista, parecer minimalista, mas revela-se profundamente eficaz. Há uma elegância discreta no desenho, uma clareza narrativa que nunca distrai da história, antes a serve com rigor e contenção.

Não me é, pois, difícil imaginar este traço a ilustrar outras grandes séries clássicas da BD franco-belga. Imagino, por exemplo, Brüno a ilustrar com sucesso séries como Blake e Mortimer ou mesmo Tintin - caso fosse possível que outros autores ilustrassem histórias do famoso repórter, claro está.

E embora a abordagem estética contribua para uma (bem-vinda) atmosfera séria e quase melancólica do livro, também reconheço que pode parecer algo fria para alguns leitores. Especialmente para os fãs mais acérrimos da série canónica. As personagens surgem por vezes algo rígidas, com expressões contidas e gestos pouco expansivos. Ainda assim, tendo em conta o tom da narrativa, não considero que isso funcione necessariamente mal. Pelo contrário, essa contenção reforça a ideia de um Oeste duro, pouco dado a sentimentalismos, mas que, ao mesmo tempo, abre espaço para algumas paisagens idílicas.

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita
E já que falo na componente séria deste Dakota 1880, permitam-me afirmar que é precisamente nesta abordagem mais séria e realista que, quanto a mim, este tipo de adaptações de Lucky Luke Visto Por... melhor funciona. Sempre que os álbuns da coleção tentam recuperar o humor da série canónica - e mesmo quando o conseguem pontualmente - acabam inevitavelmente por ser comparados com algo que dificilmente superam. O humor visual dos desenhos de Morris, bem como os argumentos divertidos de Goscinny - depois reproduzidos com maior ou menor sucesso por outros autores que se lhes seguiram, como Achdé nas ilustrações, e um conjunto alargado de argumentistas - raramente conseguem ser superados nos Lucky Luke Visto Por... que procuram ser humorísticos. Por outro lado, as abordagens mais sérias das duas adaptações assinadas por Matthieu Bonhomme e, agora, este Dakota 1880, permitem que esta iniciativa faça aquilo que deve fazer: humanizar a personagem e o seu universo, libertando-os para algo diferente. Dito por outras palavras, uma coisa é um músico tocar uma canção feita por outro músico, fazendo-o da forma mais parecida possível com o original. Outra coisa, mais interessante a meu ver, é um músico pegar na mesma canção e mudá-la completamente. É assim que nascem as verdadeiras homenagens. 

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita
É que, ao optar por uma leitura mais madura, Dakota 1880 oferece-nos um Lucky Luke mais humano, mais vulnerável e, paradoxalmente, mais próximo do leitor. Não perde o estatuto de herói, mas ganha profundidade. Passa a ser alguém moldado pelas circunstâncias, pelos encontros e pela dureza do caminho, e não apenas um símbolo imutável.

Em termos de edição, voltamos a ter um bom trabalho d' A Seita. O livro apresenta capa dura brilhante, com bom papel baço no interior. A encadernação e a impressão são boas. No final, há ainda uma curiosa entrevista de duas páginas com Gustav Frankenbaum. Nota para a opção da editora em lançar a obra com uma capa alternativa - exclusiva da loja online Wook - e dois ex-libris: um para os 100 primeiros leitores que compraram o livro no site da editora, e outro para os primeiros 100 compradores da versão da Wook.

No balanço geral, Lucky Luke - Dakota 1880 é um belo livro e uma homenagem muito bem conseguida ao "cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra". Se excluirmos os álbuns de Matthieu Bonhomme - que considero os melhores desta coleção - Dakota 1880 é, muito provavelmente, o ponto mais alto de Lucky Luke Visto Por…. Não é um livro que seja uma obra prima, mas é uma obra bastante sóbria, bem pensada e carregada de bom gosto autoral. 


NOTA FINAL (1/10):
8.7



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita

Ficha técnica
Lucky Luke - Dakota 1880
Autores: Appollo e Brüno
Editora: A Seita
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 24,5 x 33 cms
Lançamento: Novembro de 2025

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