Com um começo de 2026 bastante positivo para a editora Bertand, no que ao lançamento de banda desenhada diz respeito, com a edição de quatro livros, tendo em conta que, e convém relembrar isso, a editora portuguesa não tem apostado especialmente no lançamento de banda desenhada nos últimos anos - pelo menos, na proporcionalidade da sua dimensão e relevância editorial - uma das suas novas apostas foi a série Elas, de Kid Toussaint e Aveline Stokart. E que bela aposta, posso dizer-vos.
Kid Toussaint não é nenhum desconhecido para o mercado nacional, uma vez que é o autor da série de grande sucesso A Incrível Adele, também editada pela Bertrand, e de A Corrida do Século, editado pela Arte de Autor.
Sendo dirigida a um público mais juvenil, este Elas, que conta com ilustrações de Aveline Stokart, tem registado um grande sucesso no mercado franco-belga. Sucesso esse que, quanto a mim, é justificado, uma vez que estamos diante de uma série bem pensada, com um cariz didático e - por ventura mais relevante ainda para aqueles que me leem - que pode e deve ser lida por um público mais maduro.
Na verdade, Elas pode parecer um convite para nos levar aos tempos dos recreio da escola, mas esconde, nas entrelinhas, temas bem mais densos do que aquilo que a capa colorida deixa adivinhar. Com efeito, esta é uma BD que se apresenta como um retrato juvenil e energético, mas que, à medida que avança, revela uma profundidade emocional surpreendente.
A premissa é simples e imediata: Ella chega a uma nova escola e, como qualquer adolescente, tenta encontrar o seu lugar entre colegas, amigos e pequenas paixões. O problema é que Ella não é apenas uma rapariga. Dentro dela convivem cinco personalidades diferentes, cada uma com o seu temperamento, a sua voz e até a sua cor de cabelo. A metáfora é visual, clara e eficaz, transformando algo complexo em algo que qualquer leitor consegue compreender.
Além disso, a série também tem o mérito de equilibrar entretenimento e pedagogia sem nunca soar moralista. A narrativa aborda transtornos de personalidade e bipolaridade de uma forma acessível, mas sem banalizar o tema. O leitor percebe que há algo sério por trás das mudanças de humor e de comportamento de Ella, mas a história nunca perde o ritmo ou o foco.
Kid Toussaint constrói um argumento dinâmico, cheio de pequenas situações do quotidiano escolar, diálogos vivos e realistas, e momentos de humor e de tristeza. A leitura flui com naturalidade, como se estivéssemos a espreitar os corredores de uma escola onde cada sub-personagem tem o seu próprio drama, as suas inseguranças e os seus segredos. Isso faz com que a história seja muito fácil de acompanhar, mesmo para leitores mais novos.
Ainda assim, há uma camada mais profunda a atravessar toda a narrativa. Por trás das cores, das gargalhadas e dos encontros entre amigos, está a luta interna de uma jovem que tenta manter a estabilidade num mundo emocional fragmentado. É nesse contraste que a obra ganha força, mostrando que crescer nunca é simples, e que cada pessoa carrega batalhas invisíveis. Há reflexões subtis sobre identidade, pertença e saúde mental que ressoam muito para lá do público-alvo inicial. No fundo, é uma história sobre aceitar quem somos, mesmo quando esse “quem somos” é mais complexo do que gostaríamos.
Essa profundidade é construída com cuidado, sem grandes dramatismos forçados. A história não tenta chocar nem ser excessivamente sombria. Pelo contrário, mantém sempre um tom leve e acessível, entrecortado por outros momentos mais intensos em termos emocionais, que ajuda a criar empatia com as personagens e com as suas dificuldades. Não sentimos que estamos a receber uma lição, mas sim a acompanhar uma vida em movimento.
Outro dos feitos desta série que, no mercado franco-belga já conta com três volumes, e que, possivelmente, também justifica o sucesso da mesma, é a empatia que emana desta protagonista. Ella, nas suas várias versões, é uma personagem com quem é fácil simpatizar. Cada personalidade tem as suas fragilidades e os seus impulsos, e isso torna-a humana, imperfeita e, por isso mesmo, próxima de quem lê.
No campo visual, Aveline Stokart apresenta um trabalho que encaixa na perfeição com o tom da história. O traço é moderno, expressivo e cheio de energia, com personagens que parecem saltar das páginas. Há uma clara influência do universo visual da Disney-Pixar, tanto na construção das figuras como na expressividade dos rostos e dos gestos. Aliás, em várias vezes fui remetido para o filme Inside-Out da Disney-Pixar. Não só em termos de história, como também em termos visuais e de estética.
Essa opção estética facilita muito a ligação emocional com a narrativa. As cores, as expressões bem executadas e o design apelativo criam uma atmosfera acolhedora, quase cinematográfica, que convida o leitor a mergulhar naquele mundo. É uma BD que se lê rapidamente, mas que deixa uma sensação de proximidade com as personagens.
A edição da Bertand é em capa mole baça, com badanas, e apresenta bom papel brilhante no interior. A encadernação e a impressão são boas e, no final, há ainda um breve caderno com uma página para cada um dos vários perfis de Ella.
Em suma, Elas - A Miúda Nova revela-se uma obra especialmente interessante por conseguir aquilo que muitas vezes parece incompatível: entreter e educar ao mesmo tempo. É uma leitura dinâmica, divertida e surpreendentemente profunda, que fala de temas delicados com sensibilidade e clareza. Uma BD pensada para os mais jovens, mas com coração e inteligência suficientes para conquistar leitores de qualquer idade. Boa aposta da Bertrand!
NOTA FINAL (1/10):
8.5
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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Elas #1 - A Miúda Nova
Autores: Kid Toussaint e Aveline Stokart
Editora: Bertand Editora
Páginas: 96, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 183 x 238 mm
Lançamento: Janeiro de 2026
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