No Rasto de Blueberry, uma das mais recentes apostas da editora ASA, surge como uma celebração assumida dos 60 anos de Blueberry, uma das personagens mais emblemáticas da banda desenhada franco-belga. Criado por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud, Mike Steve Blueberry marcou gerações de leitores e tornou-se uma referência incontornável do western em BD. Quando falamos em "banda desenhada de cowboys" é bem provável que Blueberry seja a primeira série a vir-nos à cabeça. Ou uma das primerias, vá. E este álbum coletivo procura assinalar essa longevidade através da reunião de numerosos autores consagrados, convidados a prestar a sua homenagem a uma série que continua a influenciar criadores e leitores em todo o mundo.
A principal virtude deste livro reside precisamente na sua natureza de homenagem. Em vez de tentar reinventar ou subverter o universo de Blueberry, os diferentes autores que participam nesta antologia optam por celebrar os elementos que fizeram da personagem um ícone: a aventura, o sentido épico, os cenários do Oeste americano e o carisma de um protagonista que sempre se distinguiu pela sua personalidade complexa e pouco convencional. Por vezes parecia pautado por uma forte código de valores, noutras situações o Tenente Blueberry parecia um verdadeiro "badass". E essa é uma dicotomia que sempre apreciei na série.
Neste No Rasto de Blueberry a diversidade de vozes criativas é impressionante. Autores como Enrico Marini, Dominique Bertail, Fred Duval, Matz, Corentin Rouge ou Olivier Taduc juntam-se a muitos outros nomes reconhecidos para nos oferecer histórias curtas e ilustrações que, logicamente, refletem diferentes sensibilidades artísticas. Mesmo assim, e apesar da variedade de abordagens, existe uma evidente preocupação de todos os autores envolvidos em respeitar o legado deixado por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud.
As narrativas reunidas nesta antologia exploram caminhos distintos. Algumas procuram preencher pequenas lacunas da cronologia de Blueberry, enquanto outras desenvolvem novas situações inspiradas em períodos ou álbuns particularmente marcantes da série. Esta estratégia é bem-vinda, uma vez que permite revisitar momentos familiares para os leitores mais antigos e conhecedores da série, ao mesmo tempo que oferece perspetivas inéditas sobre o universo da personagem.
Como acontece frequentemente em projetos deste género, a qualidade das histórias revela algumas oscilações. Naturalmente, e quiçá consoante os gostos de cada um, há episódios mais inspirados e outros menos memoráveis, mesmo sendo verdade que se sente que os autores abordaram o desafio com respeito e genuína admiração pela obra original. E isso é especialmente verificável quando, no início de cada história, nos é dado um breve comentário de cada um dos autores participantes em que os mesmos nos revelam o quão importante foi Blueberry nas suas vidas.
Uma das fragilidades da obra - embora já fosse totalmente expectável - é que a limitação imposta pelo formato curto das histórias impede, naturalmente, um desenvolvimento mais aprofundado das tramas e das personagens. Muitas histórias terminam precisamente quando começamos a desejar uma exploração mais extensa das suas premissas. Mas, bem, isso é algo comum em antologias com histórias curtas.
Por outro lado, um dos aspetos mais positivos do álbum é a forma como preserva o espírito da série clássica. Quer do ponto de vista narrativo, quer na representação visual de Blueberry e do Oeste americano, existe uma preocupação constante em manter a identidade da criação original.
É, contudo, na componente gráfica que No Rasto de Blueberry atinge alguns dos seus momentos mais marcantes. O livro tem muitos momentos de alto nível, com alguns autores a aplicarem-se verdadeiramente na forma como homenageiam o trabalho incrível de Jean Giraud. Entre os quais, destaco os de Enrico Marini, Dominique Bertail, Vincent Perriot e de Paul Gastine que é, a meu ver, o ilustrador que nos oferece, em termos de desenho, o melhor contributo do álbum. Nota ainda para a inclusão de ilustrações de vários autores de renome como Blutch, Milo Manara ou Ralph Meyer. A capa é da autoria de Mathieu Lauffray.
Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço no interior, boa encadernação e boa impressão. No início, há ainda um texto de duas páginas sobre Blueberry e os seus autores.
Em suma, No Rasto de Blueberry cumpre plenamente o seu objetivo: homenagear um dos cowboys mais famosos da história da banda desenhada e assinalar com dignidade os 60 anos de existência de uma personagem verdadeiramente icónica, quer marcou gerações e cujo potencial aventureiro não se encontra ainda extinto.
NOTA FINAL (1/10):
8.0
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
-/-
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)























