Depois de Islander, uma mini-série em 3 tomos - dos quais a Arte de Autor já publicou o primeiro número - me ter deixado com tão boas impressões, estava muito curioso em ler este Sangoma - Os Condenados da Cidade do Cabo, feito pela mesma dupla de autores formada por Caryl Férey e Corentin Rouge!
Isto porque, nesse primeiro volume de Islander, quer o argumentista se mostrou capaz de apresentar uma história policial muito dinâmica, com uma ambiência política na quantidade certa, com personagens cativantes e com algumas reviravoltas impactantes, como o ilustrador, do qual eu já tinha ficado fã no seu trabalho em RIO, se afirmour como dono de um estilo de ilustração magnífica e super dinâmica que, mesmo sendo moderna e singular, parece ir beber a alguns dos mais célebres ilustradores da banda desenhada europeia.
Ora, dito por outras palavras, esta parece ser uma das melhores duplas da atualidade para o estilo de histórias que se propõe fazer. Um autêntico prato cheio.
Se Islander me agradou, Sangoma também me deixou extremamente satisfeito!
Neste caso, estamos perante uma história fechada em 150 páginas, um one shot, que se desenrola na África do Sul, num contexto pós-apartheid. Este foi um período marcado por profundas desigualdades e tensões raciais que deixaram brancos e negros de costas voltadas entre si e que tiveram eco um pouco por todo o mundo. E até mesmo nos dias de hoje, e embora já não se fale tanto do tema, estas tensões permanecem ativas no país. E deixem-me já dar-vos nota do tema da obra. Considero-o bastante original, pois remete-nos para uma outra igualdade. Já li muita banda desenhada e não me lembro de ter lido uma banda desenhada sobre o Apartheid. Às vezes, e deixo o comentário, começa por ser uma boa abordagem para uma obra o simples facto de a mesma versar sobre um tema menos batido, ou mesmo inédito em banda desenhada. Boa escolha, portanto.
De resto, a história arranca com a descoberta de um cadáver de um trabalhador negro nas terras da quinta Pienaar, uma linha de produção agrícola pertencente a uma influente família branca. É então que conhecemos o carismático tenente Shane Shepperd que é o oficial designado para investigar o caso. Rapidamente se percebe que a verdade está envolta em silêncios e mentiras e à medida que Shepperd mergulha na investigação, a trama entrelaça-se com as divisões políticas do país, refletindo um cenário em que a reforma agrária e os velhos ressentimentos (ainda) estão à flor da pele. Consequentemente, a tensão aumenta quando os debates no parlamento se tornam cada vez mais acalorados e a violência parece uma solução iminente.
Portanto, o argumentista Caryl Férey não nos apresenta apenas um mistério policial, mas também uma crítica social incisiva. Embora essa crítica não seja panfletária ou demasiadamente politizada. O assassinato deste homem não é apenas um crime, mas o reflexo óbvio das cicatrizes deixadas pelo apartheid.
Além disso, este thriller bem arquitetado, destaca-se pela sua capacidade em vários outros elementos: para além do enfoque político, há toda uma questão social e ainda cultural, pois os mitos tribais também têm importância na forma como os acontecimentos se desenrolam. A história é, deste modo, um excelente reflexo das complexidades da África do Sul contemporânea, onde as feridas do passado ainda estão abertas. A forma como os debates sobre a reforma agrária se entrelaçam com a narrativa principal enriquece a história, proporcionando um contexto que a torna ainda mais relevante.
E, claro, está carregada de momentos de ação, com um ritmo que, por vezes, é frenético, mantendo-nos sempre alerta e em tensão emocional. A isso juntam-se ainda algumas personagens que, admito, podem ser um pouco o arquétipo expetável para este tipo de história - como o protagonista bem parecido, a fazer lembrar John Tango, que é ao mesmo tempo um sedutor -, mas que fazem bem o seu papel, contribuindo para que não seja difícil criar empatia com as personagens.
Férey demonstra um domínio impressionante do ritmo narrativo. A cada página, somos puxados para dentro da trama, ansiosos para descobrir o que acontecerá a seguir. As interações entre as personagens são carregadas de tensão, e as revelações são cuidadosamente doseadas, criando um efeito de crescente suspense. Esta habilidade em manter o leitor interessado na história é uma das grandes virtudes da obra.
Diria que, sendo uma obra one shot, talvez não se tenha conseguido explorar com tanto detalhe algumas nuances das personagens e das suas intenções, como acontece no primeiro volume de Islander, mas, e não obstante, continua a ser uma história muito bem cozinhada.
Visualmente, Sangoma também é um espetáculo! Corentin Rouge dá vida à narrativa com ilustrações muito inspiradas, com forte influência cinematográfica, que servem a história da melhor forma possível! Os seus desenhos são dinâmicos e precisos, capturando a energia das cenas de ação de maneira vibrante. Além disso, também na representação das personagens, nos momentos mais introspetivos, nos debates no parlamento ou nas senas sensuais, o seu trabalho é de qualidade superior e muito envolvente.
Os planos cinematográficos utilizados por Rouge oferecem uma amplitude à história que é muito bem-vinda e que não só realça os momentos de ação frenética, como também permite que nós, leitores, sintamos a magnitude dos conflitos representados. A energia e o ritmo das ilustrações de Rouge são contagiantes. As cenas de ação estão carregadas de movimento e emoção, fazendo com que o leitor se sinta parte da narrativa. A sequência visual é tão bem executada que, muitas vezes, é possível “ouvir” os sons e sentir as emoções das personagens apenas através das imagens. Nota para a existência de maravilhosas ilustrações em página dupla, que ajudam a que a obra crie momentos ainda mais impactantes.
Talvez por tudo isto, não admira que, na biografia de Corentin Rouge presente nesta edição, seja feita menção ao facto de o autor seguir "a tradição gráfica dos maiores artistas realistas clássicos da banda desenhada como Hermann, François Boucq, Rossi e Jean Giraud/Moebius". Ainda que haja diferenças entre estes ilustradores e, claro, com o trabalho de Corentin Rouge, compreendo esta comparação, pois parece-me que, no panorama atual da banda desenhada franco-belga, talvez seja mesmo Rouge o autor que segura a tocha deste importante legado.
Daí que, sim, não tenho dúvidas de que amantes de uma banda desenhada de ação de origem europeia certamente gostarão muito deste Sangoma como, e isso é sempre assinalável, a abordagem moderna no estilo de Rouge também pode conquistar novos leitores.
A edição da Arte de Autor é em capa dura baça, com detalhes a verniz, e bom papel brilhante no miolo. A encadernação e impressão também são muito boas. O trabalho de ilustração é tão bom que lamentei que não houvesse um caderno gráfico a esse propósito nesta edição. Mas acredito que talvez a edição portuguesa não o inclua pela simples razão de o mesmo não estar disponível.
Em suma, e acima de tudo, Sangoma é uma aposta ganha por parte da Arte de Autor! Como, aliás, também o é a aposta nesta dupla de autores que é mais do que capaz de nos oferecer um espetacular thriller de ação que não se contenta em entreter e sabe provocar reflexões sobre justiça, memória e reconciliação. Ao entrelaçar a investigação policial com as questões sociais da África do Sul, um bom ritmo narrativo, personagens empáticas, memoráveis cenas de ação frenética e um desenho soberbo, Férey e Rouge criam uma obra que é um "prato cheio" de boa banda desenhada e que merece ser conhecida por todos. Adorei!
NOTA FINAL (1/10):
9.5
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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