quarta-feira, 4 de março de 2026

Análise: Sangoma - Os Condenados da Cidade do Cabo

Sangoma  - Os Condenados da Cidade do Cabo, de Caryl Férey e Corentin Rouge - Arte de Autor

Sangoma  - Os Condenados da Cidade do Cabo, de Caryl Férey e Corentin Rouge - Arte de Autor
Sangoma  - Os Condenados da Cidade do Cabo, de Caryl Férey e Corentin Rouge

Depois de Islander, uma mini-série em 3 tomos - dos quais a Arte de Autor já publicou o primeiro número - me ter deixado com tão boas impressões, estava muito curioso em ler este Sangoma - Os Condenados da Cidade do Cabo, feito pela mesma dupla de autores formada por Caryl Férey e Corentin Rouge!

Isto porque, nesse primeiro volume de Islander, quer o argumentista se mostrou capaz de apresentar uma história policial muito dinâmica, com uma ambiência política na quantidade certa, com personagens cativantes e com algumas reviravoltas impactantes, como o ilustrador, do qual eu já tinha ficado fã no seu trabalho em RIO, se afirmour como dono de um estilo de ilustração magnífica e super dinâmica que, mesmo sendo moderna e singular, parece ir beber a alguns dos mais célebres ilustradores da banda desenhada europeia.

Ora, dito por outras palavras, esta parece ser uma das melhores duplas da atualidade para o estilo de histórias que se propõe fazer. Um autêntico prato cheio.

Se Islander me agradou, Sangoma também me deixou extremamente satisfeito! 

Sangoma  - Os Condenados da Cidade do Cabo, de Caryl Férey e Corentin Rouge - Arte de Autor
Neste caso, estamos perante uma história fechada em 150 páginas, um one shot, que se desenrola na África do Sul, num contexto pós-apartheid. Este foi um período marcado por profundas desigualdades e tensões raciais que deixaram brancos e negros de costas voltadas entre si e que tiveram eco um pouco por todo o mundo. E até mesmo nos dias de hoje, e embora já não se fale tanto do tema, estas tensões permanecem ativas no país. E deixem-me já dar-vos nota do tema da obra. Considero-o bastante original, pois remete-nos para uma outra igualdade. Já li muita banda desenhada e não me lembro de ter lido uma banda desenhada sobre o Apartheid. Às vezes, e deixo o comentário, começa por ser uma boa abordagem para uma obra o simples facto de a mesma versar sobre um tema menos batido, ou mesmo inédito em banda desenhada. Boa escolha, portanto.

De resto, a história arranca com a descoberta de um cadáver de um trabalhador negro nas terras da quinta Pienaar, uma linha de produção agrícola pertencente a uma influente família branca. É então que conhecemos o carismático tenente Shane Shepperd que é o oficial designado para investigar o caso. Rapidamente se percebe que a verdade está envolta em silêncios e mentiras e à medida que Shepperd mergulha na investigação, a trama entrelaça-se com as divisões políticas do país, refletindo um cenário em que a reforma agrária e os velhos ressentimentos (ainda) estão à flor da pele. Consequentemente, a tensão aumenta quando os debates no parlamento se tornam cada vez mais acalorados e a violência parece uma solução iminente.

Portanto, o argumentista Caryl Férey não nos apresenta apenas um mistério policial, mas também uma crítica social incisiva. Embora essa crítica não seja panfletária ou demasiadamente politizada. O assassinato deste homem não é apenas um crime, mas o reflexo óbvio das cicatrizes deixadas pelo apartheid. 

Sangoma  - Os Condenados da Cidade do Cabo, de Caryl Férey e Corentin Rouge - Arte de Autor
Além disso, este thriller bem arquitetado, destaca-se pela sua capacidade em vários outros elementos: para além do enfoque político, há toda uma questão social e ainda cultural, pois os mitos tribais também têm importância na forma como os acontecimentos se desenrolam. A história é, deste modo, um excelente reflexo das complexidades da África do Sul contemporânea, onde as feridas do passado ainda estão abertas. A forma como os debates sobre a reforma agrária se entrelaçam com a narrativa principal enriquece a história, proporcionando um contexto que a torna ainda mais relevante. 

E, claro, está carregada de momentos de ação, com um ritmo que, por vezes, é frenético, mantendo-nos sempre alerta e em tensão emocional. A isso juntam-se ainda algumas personagens que, admito, podem ser um pouco o arquétipo expetável para este tipo de história - como o protagonista bem parecido, a fazer lembrar John Tango, que é ao mesmo tempo um sedutor -, mas que fazem bem o seu papel, contribuindo para que não seja difícil criar empatia com as personagens.

Férey demonstra um domínio impressionante do ritmo narrativo. A cada página, somos puxados para dentro da trama, ansiosos para descobrir o que acontecerá a seguir. As interações entre as personagens são carregadas de tensão, e as revelações são cuidadosamente doseadas, criando um efeito de crescente suspense. Esta habilidade em manter o leitor interessado na história é uma das grandes virtudes da obra. 

Diria que, sendo uma obra one shot, talvez não se tenha conseguido explorar com tanto detalhe algumas nuances das personagens e das suas intenções, como acontece no primeiro volume de Islander, mas, e não obstante, continua a ser uma história muito bem cozinhada.

Sangoma  - Os Condenados da Cidade do Cabo, de Caryl Férey e Corentin Rouge - Arte de Autor
Visualmente, Sangoma também é um espetáculo! Corentin Rouge dá vida à narrativa com ilustrações muito inspiradas, com forte influência cinematográfica, que servem a história da melhor forma possível! Os seus desenhos são dinâmicos e precisos, capturando a energia das cenas de ação de maneira vibrante. Além disso, também na representação das personagens, nos momentos mais introspetivos, nos debates no parlamento ou nas senas sensuais, o seu trabalho é de qualidade superior e muito envolvente.

Os planos cinematográficos utilizados por Rouge oferecem uma amplitude à história que é muito bem-vinda e que não só realça os momentos de ação frenética, como também permite que nós, leitores, sintamos a magnitude dos conflitos representados. A energia e o ritmo das ilustrações de Rouge são contagiantes. As cenas de ação estão carregadas de movimento e emoção, fazendo com que o leitor se sinta parte da narrativa. A sequência visual é tão bem executada que, muitas vezes, é possível “ouvir” os sons e sentir as emoções das personagens apenas através das imagens. Nota para a existência de maravilhosas ilustrações em página dupla, que ajudam a que a obra crie momentos ainda mais impactantes.

Sangoma  - Os Condenados da Cidade do Cabo, de Caryl Férey e Corentin Rouge - Arte de Autor
Talvez por tudo isto, não admira que, na biografia de Corentin Rouge presente nesta edição, seja feita menção ao facto de o autor seguir "a tradição gráfica dos maiores artistas realistas clássicos da banda desenhada como Hermann, François Boucq, Rossi e Jean Giraud/Moebius". Ainda que haja diferenças entre estes ilustradores e, claro, com o trabalho de Corentin Rouge, compreendo esta comparação, pois parece-me que, no panorama atual da banda desenhada franco-belga, talvez seja mesmo Rouge o autor que segura a tocha deste importante legado.

Daí que, sim, não tenho dúvidas de que amantes de uma banda desenhada de ação de origem europeia certamente gostarão muito deste Sangoma como, e isso é sempre assinalável, a abordagem moderna no estilo de Rouge também pode conquistar novos leitores.

A edição da Arte de Autor é em capa dura baça, com detalhes a verniz, e bom papel brilhante no miolo. A encadernação e impressão também são muito boas. O trabalho de ilustração é tão bom que lamentei que não houvesse um caderno gráfico a esse propósito nesta edição. Mas acredito que talvez a edição portuguesa não o inclua pela simples razão de o mesmo não estar disponível. 

Em suma, e acima de tudo, Sangoma é uma aposta ganha por parte da Arte de Autor! Como, aliás, também o é a aposta nesta dupla de autores que é mais do que capaz de nos oferecer um espetacular thriller de ação que não se contenta em entreter e sabe provocar reflexões sobre justiça, memória e reconciliação. Ao entrelaçar a investigação policial com as questões sociais da África do Sul, um bom ritmo narrativo, personagens empáticas, memoráveis cenas de ação frenética e um desenho soberbo, Férey e Rouge criam uma obra que é um "prato cheio" de boa banda desenhada e que merece ser conhecida por todos. Adorei! 


NOTA FINAL (1/10):
9.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Sangoma  - Os Condenados da Cidade do Cabo, de Caryl Férey e Corentin Rouge - Arte de Autor

Ficha técnica
Sangoma - Os Condenados da Cidade do Cabo
Autores: Caryl Férey e Corentin Rouge
Editora: Arte de Autor
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 232 x 310 mm
Lançamento: Março de 2026

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