Há muito que eu estava à espera deste livro! Tendo-o já folheado em livrarias na Bélgica ou em Espanha, não tinha dúvidas de que esta obra tinha tudo para me agradar: não só pelo nome dos autores da mesma, Fabien Nury - autor do fantástico Era Uma Vez em França que eu não me canso de recomendar aos editores portugueses - e Matthieu Bonhomme - autor daqueles que considero ser os melhores Lucky Luke de autor, nomeadamente O Homem Que Matou Lucky Luke e Procura-se Lucky Luke; como também pelo charme inerente à história que só de folhear o livro algumas vezes, percebi que havia.
Fiquei, portanto, radiante quando a Ala dos Livros editou este primeiro volume de dois. No lançamento original, a obra foi editada em quatro volumes, mas na edição portuguesa, a mesma sairá em dois volumes duplos, sendo que o segundo é esperado ainda para este ano.
Depois de lido este livro, posso dizer-vos que as razões para o meu interesse na obra eram devidos e até acabei por achar melhor do que aquilo que esperava. E, como já referi, até já esperava algo bastante bom.
Carlota Imperatriz é uma obra ambiciosa que nos transporta para o século XIX e para a figura trágica da princesa Carlota da Bélgica, futura imperatriz do México, acompanhando o seu percurso desde a juventude cheia de sonhos até ao início de uma queda inevitável. O tal desconsolo que a vida adulta tantas vezes oferece.
A história começa na Europa, com Carlota, uma jovem princesa muito bem educada, inteligentíssima, bonita, a mostrar-se pouco satisfeita com o papel que lhe é reservado. A sua mão até estava prometida ao futuro rei de Portugal, D. Pedro V, mas o coração e intuição de Carlota levam-na a preferir casar com Maximiliano, da família Habsburgo e irmão de Francisco José I, o Imperador da Áustria.
Talvez não tenha sido a escolha mais acertada, como a história nos mostrará, mas as escolhas que fazemos durante a mais tenra idade nem sempre se revelam as mais benéficas a longo prazo. O casamento com Maximiliano surge, pois, como uma promessa de grandeza, de poder e de mudança. Mas Carlota é inteligente e rapidamente se apercebe do papel que lhe é exigido, vendo mais longe do que aqueles que a rodeiam, inclusive do seu recém marido que, ao longo do tempo, se vai revelando como um homem não talhado nem para o amor, nem para a família, nem para as ambições políticas que poderia acalentar.
À medida que a narrativa avança, Napoleão III oferece a Maximiliano a proposta de este se tornar imperador do México, num país instável que, à época, era marcado por numerosos conflitos internos. Carlota, como sempre, empenha‑se com determinação na aceitação da coroa do marido. Mas ainda que a proposta possa parecer apelativa, também traz consigo várias ameaças devido às bases políticas e frágeis da mesma.
Com efeito, e já no México, Carlota e Maximiliano confrontam‑se rapidamente com a dura realidade de encontrarem um país dividido por inúmeras ações de guerrilha e, por isso, dependente do apoio militar francês. Ao início, Maximiliano até tenta agradar a tudo e todos, mas quando, no seu primeiro discurso, se revela como tendo ideais liberais e democráticos, ao mesmo tempo que apela a um exército menos austero e a que cada um possa ter a religião que bem entender, rapidamente consegue desagradar a todos os poderes já previamente instalados no México. Carlota assume, então, e progressivamente, um papel central no governo do país, revelando pragmatismo, energia e uma compreensão profunda do jogo político. Torna‑se evidente que é ela quem sustenta o império e que Maximiliano é apenas um bon vivant, mais preocupado nas suas escapadelas ao bordel ou à caça das suas borboletas, em detrimento das suas responsabilidades de suposto chefe de estado.
E mesmo em termos amorosos, Maximiliano não dá a devida atenção a Carlota, fazendo dela uma mulher que não se sente desejada e que, consequentemente, começa a nutrir sentimentos por Félix Éloin, o braço direito do seu marido. A tensão vai crescendo muito, fazendo com que fiquemos verdadeiramente agarrados à narrativa.
O livro está bem carregado de trunfos. E um deles reside no belo argumento de Fabien Nury. O trabalho que o autor faz ao cruzar factos históricos com ficção é absolutamente impressionante. Aquilo que podia ser um relato seco e sensaborão de acontecimentos históricos - lembram-se daquelas aulas de História que vos deixavam a dormir? - transforma‑se num drama cheio de intrigas, conspirações e conflitos permanentes, onde a leitura flui de forma quase viciante.
Com uma conceção de personagens deliciosamente corrompidas e cínicas que poderia remeter-nos para os romances de um Eça de Queiroz ou de um Guy de Maupassant, Nury constrói uma narrativa carregada de traições, ódios, amores impossíveis, tensões sociais por resolver e uma violência que nem sempre é física: muitas vezes é psicológica, silenciosa e devastadora, com as personagens a revelaram comportamentos perfeitamente desprezíveis umas para as outras. Nenhuma personagem é simplista na concepção: todas (até Carlota) têm sombras, dúvidas e motivações que as tornam credíveis e, ao mesmo tempo, memoráveis.
Por esse motivo, considero que a forma como o autor joga com os factos reais, as suposições e a imaginação está extremamente bem conseguida. É evidente que a base histórica, assente em factos concretos do passado, é sólida, mas os “espaços em branco” são depois preenchidos com enorme inteligência narrativa - e até alguma audácia - criando as tais ligações emocionais que os manuais de História raramente conseguem oferecer. Bem que Fabien Nury poderia ser o meu professor de História favorito!
Carlota, enquanto personagem, é, sem dúvida, uma protagonista fascinante. Uma mulher forte no exercício do poder, determinada e lúcida, mas ao mesmo tempo profundamente frágil na sua vida emocional. Essa contradição é uma das maiores forças do livro e torna‑a uma personagem muito trágica e humana. E isso também contribui para que o livro tenha um ritmo tão forte que é difícil parar de ler antes de chegar ao fim.
E depois há o desenho de Matthieu Bonhomme, que é simplesmente soberbo. A sua linha clara, de grande precisão e perfeita legibilidade, confere ao álbum uma elegância visual excecional, ao mesmo tempo que serve eficazmente a narrativa, contribuindo imenso para o tom cinematográfico da obra. Cada vinheta parece pensada ao milímetro, com as personagens a serem visualmente muito expressivas. De todas elas, tenho que destacar Carlota: belíssima, sensual, poderosa e vulnerável... tudo ao mesmo tempo! Bonhomme consegue transmitir emoções complexas com um simples olhar ou uma subtil mudança de postura.
Os cenários também merecem aplausos. Dos interiores sofisticados dos palácios europeus às paisagens mexicanas mais áridas e luminosas, tudo está representado com grande cuidado e atenção ao detalhe, reforçando o contraste entre mundos e culturas. Também as cores do livro, asseguradas por Isabelle Merlet no primeiro tomo e por Delphine Chegru no segundo, são muito belas e elegantes, contribuindo para que o resultado visual da obra seja o de um trabalho que sabe ser clássico e moderno ao mesmo tempo.
Já tinha admirado muito os desenhos de Bonhomme nos seus Lucky Luke de autor, mas devo admitir que talvez o seu trabalho me tenha impressionado ainda mais neste Carlota Imperatriz, talvez pela presença de maiores detalhes em cada uma das suas ilustrações. De facto, quer numa, quer noutra obra, Matthieu Bonhomme revela-se notável, sendo justamente considerado como um dos grandes desenhadores da banda desenhada europeia contemporânea.
A edição da Ala dos Livros também nos oferece a qualidade expectável: o livro apresenta capa dura brilhante, bom papel baço no interior e uma excelente encadernação e impressão. A separar os dois tomos encontramos a ilustração que foi a capa do segundo tomo, o que me parece bem-vindo para que nada nos falte.
Num primeiro trimestre editorial em que as obras apresentadas por um grande número de editoras têm tido uma qualidade absurdamente alta, dizer-vos que este Carlota Imperatriz ocupa um lugar cimeiro nas minhas preferências do ano até agora, não é coisa pouca. É um livro que me prendeu do início ao fim, deixando‑me rendido pela força da narrativa e pela beleza do desenho. A história envolve, o desenho encanta e a tragédia ecoa bem alto, deixando-nos a contar os dias até que a Ala dos Livros edite o próximo e último livro desta mini-série. Até agora... estou a adorar!
NOTA FINAL (1/10):
9.6
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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Carlota Imperatriz - Tomo 1/2
Autores: Fabien Nury e Matthieu Bonhomme
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 243 x 317 mm
Lançamento: Março de 2026
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