sexta-feira, 24 de abril de 2026

Análise: O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo

O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard - ASA - LeYa

O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard - ASA - LeYa
O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard

Editado ainda no presente mês de Abril, chegou-nos pelas mãos da editora ASA este O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard. Originalmente, o livro foi lançado em 2024 e chega a Portugal no exato ano em que se assinalamos o 80º aniversário da obra O Principezinho, de Antoine de Saint‑Exupéry, um dos meus livros preferidos (de sempre!).

Este O Príncipe dos Pássaros de Alto não se trata de uma adaptação de O Principezinho para banda desenhada, convém dizer, mas antes de uma obra de cariz biográfico baseada num período concreto da vida de Antoine de Saint‑Exupéry, o autor dessa obra-prima da literatura.

Mais concretamente, este livro acompanha Saint‑Exupéry durante a sua estadia no Quebeque, Canadá, na primavera de 1942, no exato momento em que o escritor e aviador se encontrava exilado na América do Norte. Enquanto a guerra devastava a Europa - e a França especialmente - Saint‑Exupéry percorria o Canadá francófono para dar palestras, reunir‑se com intelectuais e conviver com a elite cultural local, assumindo publicamente o papel de escritor consagrado e figura moral da resistência francesa.

Mas nesta fase da sua vida, já bem longe do combate e dos céus de guerra que marcaram a sua vida, Saint‑Exupéry sente‑se dividido entre o privilégio do exílio e a culpa de não estar a lutar. A narrativa acompanha essa dicotomia que lhe gera mal‑estar interior, mostrando um homem cansado, inquieto e por vezes irascível, que tenta dar sentido à sua presença num território seguro, enquanto milhões vivem sob a violência do conflito. Paralelamente, a relação conturbada com Consuelo, a sua mulher, revela‑se complexa e instável, marcada tanto pelo apoio mútuo como por tensões emocionais profundas.

O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard - ASA - LeYa
O autor canadiano Philippe Girard opta por uma abordagem que não é puramente biográfica nem estritamente histórica. Mais do que relatar factos que comprovadamente aconteceram na vida de Saint-Exupéry, como palestras, encontros com a elite franco‑canadiana e outros compromissos públicos, o autor procura insinuar o estado interior de um homem suspenso entre a culpa do exílio e a impossibilidade física de intervir na guerra. 

Essa escolha, porém, tem um custo: o livro apresenta‑se como o retrato de uma fase curta e algo circunscrita da vida de Saint‑Exupéry, o que lhe confere um carácter fragmentário. A sensação é a de que Philippe Girard se baseia sobretudo em entrevistas, textos públicos e episódios documentados, e que os articula numa narrativa que, embora coerente, nem sempre parece totalmente orgânica ou profunda.

Essa fragilidade estrutural revela-se também em alguns saltos temporais que se revelam algo abruptos, causando alguns momentos de descontinuidade e uma ligeira perda de intensidade dramática.

E sou-vos sincero: a minha profunda paixão (ou será mesmo amor?) pela obra O Principezinho até pode ter jogado contra mim nesta leitura, reconheço. É que O Principezinho acaba por ter uma presença relativamente reduzida neste O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo. Obviamente, a "culpa" disso não é do autor, nem da obra... é minha, por ter, por ventura, acalentado esse desejo.

É claro que existem referências subtis - embora facilmente detectáveis - e piscadelas de olho e alusões simbólicas a O Principezinho, mas Girard recusa fazer dessa obra o eixo central da sua narrativa. E, atenção, está no seu pleno direito! E essa contenção até tem a sua elegância, mas acabou por gerar em mim alguma frustração, pois ainda que não fosse uma biografia completa de Saint-Exupéry ou uma ode a O Principezinho, considero que esperava um mergulho mais profundo na génese literária dessa obra maior.

O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard - ASA - LeYa
Além de que essa ausência se traduz também numa menor carga poética do que seria expectável. A história opta por um tom desencantado, quase árido, centrado numa existência marcada pelo tédio, pela melancolia e pelo sentimento de inutilidade. Mesmo aceitando essa opção estética, fica a sensação de que poderia haver mais espaço para a poesia, para a imaginação e para a leveza que tanto caracterizam Saint‑Exupéry como figura literária.

Há, por vezes, alguns momentos mais poéticos, sim, mas, quanto a mim, insuficientes em número e em carga emotiva. Não obstante o que acabo de referir, reconheço que também é justamente esse afastamento do mito que permite que alguns dos momentos mais fortes do livro emerjam noutro plano: o da intimidade conjugal. A relação entre o protagonista e Consuelo, a sua esposa, é um dos pontos fortes da obra, retratando com intensidade a relação do casal e mostrando como, especialmente no meio artístico, é comum que os relacionamentos amorosos sejam mais na base do contrato social e do apoio mútuo quase profissional entre ambos, do que propriamente no amor propriamente dito. 

Em termos de desenho, Girard adopta uma linha clara eficaz e legível, bastante simples, quase linear, com alguns momentos de beleza evidente. A composição é sóbria - talvez em demasia? -, favorecendo a leitura fluida. No entanto, essa mesma contenção acaba por se tornar, a certa altura, previsível, e a repetição de enquadramentos e soluções visuais começa a fazer‑se sentir.

As cores são garridas e de personalidade vincada, o que contribui de forma positiva para a experiência do leitor e, ao mesmo tempo, ajuda a encobrir a presença de um maior número de cenários vazios do que seria recomendável.

É um daqueles livros um pouco "enganadores" em termos visuais que, à primeira vista, impressionam, mas que, ao longo da leitura integral, perdem algum do seu impacto gráfico pela falta de variação. Reafirmo que há alguns bons momentos na vertente visual, mas isso não foi suficiente para que tenha ficado especialmente apaixonado pelo desenho do autor.

Apesar das várias reservas com que o livro me deixou, reconheço-lhe alguns bons feitos, nomeadamente quanto ao desfecho do mesmo, que se revela surpreendentemente eficaz. O final consegue reunir e amplificar os motivos que vinham sendo discretamente preparados ao longo da narrativa, oferecendo uma espécie de síntese emocional e simbólica que recontextualiza tudo o que foi lido antes. Essa apoteose final não apaga todas as fragilidades do percurso, mas eleva significativamente o conjunto.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça e um bom papel baço no interior. A encadernação e a impressão também se apresentam bem feitas.

Em suma, este é um livro que ficou um pouco aquém das minhas expectativas - que eram altas, admito. O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo é uma obra imperfeita, por vezes aquém do seu potencial, mas honesta na sua ambição: pensar Saint‑Exupéry não como lenda, mas como homem. Alguém cansado, contraditório, e ainda assim criador, mesmo quando tudo à sua volta parecia pedir silêncio. 


NOTA FINAL (1/10):
6.9



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O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard - ASA - LeYa

Ficha técnica
O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo
Autor: Philippe Girard
Editora: ASA
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 32 x 23,8 cms

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