Foi com este Kiki de Montparnasse, com Catel Muller nas ilustrações e José‑Louis Bocquet no argumento, que a editora Devir completou a sua Coleção Angoulême, dedicada a obras que conquistaram prémios no célebre festival francês de banda desenhada, Angoulême. E diga-se que é um belíssimo livro para fechar esta coleção.
Kiki de Montparnasse é uma biografia que retrata a vida de Alice Prin, conhecida como Kiki de Montparnasse, uma figura central da boémia parisiense nas décadas de 1920 e 1930.
A obra acompanha o percurso de Kiki desde a juventude marcada por dificuldades financeiras até à sua afirmação como modelo, cantora, atriz, artista de cabaret e pintora, tornando‑se musa de alguns dos principais nomes das vanguardas artísticas do período entre guerras. Entre estes, destacam‑se Modigliani, Man Ray, Alexander Calder, Picasso, Cocteau, Chaim Soutine e outros artistas ligados ao meio de Montparnasse, então o coração cultural de Paris. Também digno de nota é que Kiki não só era a musa de tantos artistas, como acabou mesmo por ter relações amorosas com muitos eles. Era uma mulher verdadeiramente livre e muito à frente do seu tempo.
Na verdade, ainda no tempo atual, algumas mentes mais conservadoras poderão admirar-se com certas escolhas que esta mulher fez ao longo da sua vida, nunca se prendendo a nada que considerasse ser um peso social. Fosse lá o que fosse. Podemos por isso dizer que Kiki foi uma das primeiras mulheres realmente emancipadas em relação aos constrangimentos culturais e sexuais impostos pela sociedade da altura.
Se pensarmos que esta obra foi bastante mal recebida no mercado norte-americano quando, em 2007, por lá foi publicada, devido a ter muitas representações de nudez, verificamos que continua a haver um ironia irresistível em relação à vida de Kiki. Se já em 1929 a autobiografia de Kiki tinha sido formalmente proibida pelas autoridades americanas, que curioso é verificar que, quase 100 anos depois, esta banda desenhada tenha sido restringida e colocada em listas de livros não recomendáveis pelo regime educativo americano. Ora, naturalmente, este não será um livro adequado para crianças de 7 ou 8 anos. E não digo isso devido à nudez que ocasionalmente aparece na história, mas pela própria natureza exigente e madura da história. Mesmo assim, será um livro extremamente indicado - e até recomendável - para qualquer aluno adolescente que esteja a estudar história, arte ou até sociologia. Seria importante perceber, de uma vez por todas, que nudez não quer dizer pornografia. No caso concreto, a obra tem valor artístico e educativo claro, sobretudo para o estudo da história da arte moderna e da emancipação feminina.
O relato preparado por José-Louis Bocquet é meticuloso e espraia-se por quase 400 páginas, o que demonstra bem o nível de documentação e estudo que foi necessário para a execução desta obra.
Até porque, para além de narrar episódios pessoais na vida de Kiki, o livro também oferece, lá está, um retrato vivo do ambiente artístico e social da época, abordando temas como a liberdade feminina, a emancipação sexual, a precariedade material dos artistas e, claro, o papel das mulheres no mundo da arte. Kiki surge-nos como uma personagem carismática e indisciplinada, que acaba por ser o símbolo de uma geração que ousou desafiar muitas normas morais e estéticas. É, portanto, um excelente documento histórico, não só da vida de Kiki de Montparnasse, como de uma época em que Paris - e Montparnasse, em particular - funcionava como epicentro boémio cultural, com o dadaísmo e o surrealismo a terem um papel muito grande.
A meu ver, talvez a estrutura seja algo episódica em demasia, não havendo o fio condutor que seria de esperar entre as várias vivências de Kiki. Fica a ideia de que a história poderia existir perfeitamente - sem que disso demos conta, sequer - se um ou vários capítulos fossem retirados da mesma. E dizer isso não é dizer que a história se arrasta ou que é enfadonha. Não. Mas é referir que, tendo em conta que estamos perante uma biografia, talvez a obra merecesse ter os eventos que relata mais bem costurados entre si.
O desenho de Catel é minimalista, num preto e branco puro, apresentando um estilo "cartoonesco" bastante expressivo, que funciona muito bem, servindo com eficácia a narrativa. É uma abordagem visual simples e direta, que consegue contribuir para a fluidez da narrativa e dos diálogos. Posso dizer que fiquei bastante agradado com o trabalho da autora, que não conhecia muito bem.
Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, com bom papel baço no interior e um bom trabalho ao nível da encadernação e impressão. Algo em linha com aquilo que a editora portuguesa Devir nos ofereceu nos restantes livros da coleção. Coleção essa que tem sido alvo de algumas críticas que me parecem bastante exageradas. Sim, é verdade que a estandardização do formato aos 17 x 24 cm em obras como A Trilogia Nikopol ou O Caderno Azul, por exemplo, não contribuiu para o favorecimento expectável das obras em questão. No entanto, é um formato que também funcionou muito bem noutras obras - especialmente naquelas que eram inéditas em Portugal - como Anais Nin - No Mara das Mentiras, O Gosto do Cloro ou este Kiki de Montparnasse. Não sendo, por ventura, a melhor opção, está longe de ser o maior crime editorial feito em Portugal. Enfim, não contem comigo para dizer mal só porque os outros o dizem. Há que pensar pela própria cabeça.
Ainda sobre a edição deste livro, refira-se que há um muito(?) extenso caderno de extras, com mais de 38 páginas, que nos oferece uma cronologia completa da vida de Alice Prin/Kiki e um conjunto de notas biográficas sobre os vários artistas e individualidades com que a protagonista desta obra se cruzou ao longo da sua vida. Mais uma vez, fica bem patente o nível de documentação que foi necessário à feitura desta obra.
Em suma, Kiki de Montparnasse é tanto a história de uma mulher extraordinária como um testemunho cultural de uma Paris vanguardista, combinando rigor biográfico com uma abordagem acessível e visualmente marcante. Ao devolver voz e centralidade a uma mulher frequentemente reduzida ao estatuto de musa, Catel e Bocquet prestam um tributo sensível à liberdade criativa e à própria emancipação feminina. É um belo livro que fecha uma bela coleção de banda desenhada.
NOTA FINAL (1/10):
9.1
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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Kiki de Montparnasse
Autores: Catel & Bocquet
Editora: Devir
Páginas: 406, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 17x24 cm
Lançamento: Fevereiro de 2026
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