quinta-feira, 16 de abril de 2026

Análise: Elric (Volumes 1 e 2)


Elric (Volumes 1 e 2), de Julien Blondel, Didier Poli, Robin Recht e Julian Telo

Foi com algum estrondo e pompa que a Arte de Autor editou, há algumas semanas a obra Elric, a adaptação para banda desenhada de Elric de Melniboné, uma obra original de Michael Moorcock. Apanhando os leitores portugueses desprevenidos, a editora optou por editar, de uma só vez, os dois primeiros tomos da série, O Trono de Rubi e Stormbringer, respetivamente, cujo primeiro ciclo tem quatro tomos.

Criada nos anos 60, a saga de Elric de Melniboné, é um dos pilares da fantasia épica moderna e do subgénero sword and sorcery, na tradição de Conan, O Bárbaro e comparável em relevância - com as devidas distâncias - com a saga de O Senhor dos Anéis, de Tolkien.

Elric é o último imperador da antiga e decadente ilha/império de Melniboné, uma civilização outrora dominante que governou o mundo com crueldade, magia e pactos com forças sobrenaturais. Diferente de seus antepassados, Elric é fisicamente frágil, albino e doente, dependendo de poções e feitiços para sobreviver. Intelectual e introspectivo, Elric rejeita a brutalidade tradicional do seu povo, o que o coloca em conflito com a própria herança cultural e política que deveria defender, sendo que o seu oponente máximo passa a ser o seu primo Yyrkoon que, colidindo com estas supostas fraquezas do protagonista, tenta reclamar para si mesmo o direito ao trono rubi. E tudo fará ao seu alcance para conseguir este objetivo pessoal.

O que desperta a ira adormecida de Elric que se vê forçado a restaurar a sua autoridade e a forjar pactos com Arioch, o mais poderoso dos Senhores do Caos. A história destes primeiros dois volumes decorre muito em torno deste conflito entre Elric e Yyrkoon.

Um dos elementos centrais da narrativa também é stormbringer, a espada negra e senciente de Elric, que acaba por ser trazida à sua mão impiedosa para que Elric combata o seu primo. A arma concede-lhe força, saúde e poder, mas cobra-lhe, claro, um preço terrível, visto que a espada se alimenta das almas dos mortos, frequentemente de aliados e de inocentes. 

O que é especialmente interessante na obra - se bem que isso não seja ainda totalmente explorado nestes primeiros dois volumes - é a profundidade da personagem de Elric, cuja tragédia pessoal se intensifica à medida que as suas decisões, mesmo quando bem-intencionadas, resultam em sofrimento e destruição. Isto faz com que Elric se torne numa figura sombria e solitária. Mas como é uma personagem com uma consciência moral mais desenvolvida do que a dos muitos heróis de fantasia do seu tempo - e da atualidade? - acho que podemos considerar que Elric é uma personagem profundamente moderna e ambígua.

É importante referir que esta adaptação da obra original para banda desenhada não se limita a transpor literalmente os romances de Moorcock, com o argumentista Blondel a optar por reorganizar, condensar e dramatizar o material original, criando uma narrativa fluida e moderna, pensada como banda desenhada desde a raiz. Tenha-se em conta que o próprio Michael Moorcock declarou publicamente que esta é a melhor transposição de Elric que já viu, elogiando tanto o tom trágico como o rigor conceptual da adaptação.

Apreciei especialmente que a obra não tente apenas utilizar a temática sword and sorcery para se focar num conjunto infindável de batalhas, sem grande substância de enredo. Pelo contrário, a narração dos acontecimentos dedica tempo ao enquadramento do universo e à construção da personagem principal, explorando cuidadosamente as suas várias facetas e permitindo ao leitor compreender as suas motivações e evolução ao longo da história.

Relativamente aos desenhos, que são assegurados pelos autores Didier Poli, Robin Recht (autor do belíssimo Thorgal - Adeus Aaricia)   Julien Telo, esta é uma obra soberba que dificilmente não apelará à grande maioria dos leitores portugueses. 

Com desenhos grandiosamente arrebatadores, os ilustradores conseguiram trazer para a nossa visão um mundo frio e cruel, digno das maiores sagas épicas. Os cenários são de cortar a respiração, as personagens são marcantes, expressivas e cheias de personalidade, e as cenas de ação revelam não só dinamismo, mas também uma clara consciência da escala épica e megalómana que uma obra deste género exigiria. Nota‑se, igualmente, um cuidadoso trabalho de pesquisa associado à conceção tanto das personagens como dos ambientes retratados. Fica no ar a ideia de que cada decisão, por ínfima que fosse, foi devidamente ponderada entre os vários autores que colaboraram na obra.

Há, pois, uma dimensão épica nos desenhos que não só encaixa perfeitamente no tema da obra, como revela bem o talento do esforço colaborativo dos desenhadores Didier Poli e Robin Recht. E mesmo quando, a partir da página 12 do segundo volume, Didier Poli decidiu abandonar o projeto, a transição é praticamente imperceptível, visto que Julien Telo assumiu o seu lugar de forma extremamente fiel, assegurando uma continuidade visual que em nada compromete a qualidade artística da obra. Nota ainda, positiva, para o trabalho de Jean Bastide e Scarlet Smulkowski nas cores que contribuem para o espetáculo visual da obra.

Em termos de edição, ambos os livros apresentam um trabalho cuidado e especial. Têm capa dura, com a textura aveludada, que tanto aprecio, e detalhes a verniz. No miolo, o papel é bom, tendo a quantidade certa de brilho, e o trabalho de impressão e encadernação também é de qualidade superior. Como extras, o primeiro livro tem um prefácio do próprio Michael Moorcock e o segundo tem um prefácio de Alan Moore. Além disso, o primeiro volume tem um caderno adicional de extras muito bom, que inclui textos explicativos sobre o processo de criação da banda desenhada e das personagens, que são acompanhados por esboços e estudos de personagem. Há ainda uma página que nos permite perceber como foi o processo colaborativo entre Didier Poli, Robin Recht e Jean Batisde. Muito interessante. E, no final, ainda há uma galeria com oito ilustrações de homenagem, feitas por vários autores. O segundo volume não tem um dossier tão extenso de extras, mas mesmo assim ainda apresenta 5 páginas de esboços.

Como cereja em cima do bolo, os livros vinham acompanhados por uma pasta em veludo vermelha, com uma tira de cetim, o que ainda ofereceu uma dose extra de charme e requinte à edição. Não é comum vermos algo assim - para ser sincero, acho que nunca o tinha visto. E, por isso, dou os meus parabéns à editora pela ousadia e sofisticação.

Devo dizer que, tendo em conta que existe um integral do primeiro ciclo publicado em França, talvez eu tivesse preferido que a editora portuguesa tivesse optado por editar a obra desse modo, reunindo num volume integral os quatro tomos que compõem o primeiro ciclo de Elric.  Mas também compreendo que, com o preço da edição francesa a 55,00€, o preço da edição portuguesa - por motivos de quantidade da tiragem, tradução, etc - deveria ser anda maior, o que poderia tornar a compra incomportável para muitas carteiras portuguesas. Aceita-se, pois, a opção da Arte de Autor, que permite diluir o esforço financeiro dos leitores ao dar-lhes a oportunidade de comprar cada um dos tomos abaixo dos 20€. 

Em suma, Elric é uma obra imponente e cheia de personalidade que sabe impressionar o leitor menos impressionável, nunca perdendo o sentido de grandiosidade sombria que a define. Com personagens duras, moralmente dúbias e por vezes abertamente maléficas, e um mundo onde a tragédia e o excesso fazem parte do quotidiano, esta BD é uma recomendação fácil para qualquer fã do género fantástico. Melhor ainda: é também leitura obrigatória para quem vibra com o imaginário do power metal, feito de heróis condenados, atmosferas épicas e sentimentos levados ao limite. Não terá sido o próprio power metal influenciado pela obra original de Moorcock? Em Elric tudo é grande, majestoso, intenso, excêntrico e megalómano...  e isso joga claramente a favor da obra!


NOTA FINAL (1/10):
9.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020




-/-


Fichas técnicas

Elric #1 - O Trono de Rubi
Autores: Julien Blondel, Didier Poli, Robin Recht e Jean Bastide
Adaptação a partir da obra original de Michael Moorcock
Editora: Arte de Autor
Páginas: 64, a cores - inclui extenso caderno de extras
Encadernação: Capa dura
Formato: 232 x 310 mm
Lançamento: Março de 2026

Elric #2 - Stormbringer
Autores: Julien Blondel, Didier Poli, Robin Recht e Julien Telo
Adaptação a partir da obra original de Michael Moorcock
Editora: Arte de Autor
Páginas: 56, a cores - inclui extenso caderno de extras
Encadernação: Capa dura
Formato: 232 x 310 mm
Lançamento: Março de 2026

Sem comentários:

Enviar um comentário