Foi durante este mês de Abril que a editora Relógio D'Água editou a adaptação para banda desenhada de Um Feiticeiro de Terramar. A obra original é da autoria de Ursula K. Le Guin e o autor responsável por esta adaptação para a 9ª arte é Fred Fordham, que já nos havia dado as obras Mataram a Cotovia e Admirável Mundo Novo. Ambas adaptações para BD de obras de literatura e ambas editas por cá pela Relógio D' Água.
Embora conhecesse a obra Um Feiticeiro de Terramar e a autora Ursula K. Le Guin de nome, nunca tinha lido esta obra, nem nada da autora, pese embora o seu nome e o seu reconhecimento dentro da literatura de fantasia seja muito grande.
Um Feiticeiro de Terramar acompanha a infância e formação de Ged, um rapaz nascido na ilha de Gont que descobre possuir um grande talento natural para a magia. Inicialmente orgulhoso e impulsivo, Ged aprende feitiçaria com um mago local. Devido ao seu enorme potencial para as feitiçarias, Ged acaba por trocar os ensinamentos desse mago local por aqueles lecionados na Escola de Magos da ilha de Roke. Aí, estuda as leis profundas da magia, sobretudo a importância do verdadeiro nome das coisas. O que achei curioso é que a magia e controlo dos elementos da natureza, como o estado do tempo ou os comportamentos dos animais, por exemplo, advenha desse conhecimento da linguagem mágica, ou seja, da palavra que controla cada coisa que o mágico pretende controlar. Se um mágico procura controlar, por exemplo, um corvo, tem que saber a palavra mágica própria para que consiga controlar esse animal. É por isso que há muito que estudar e aprender naquela escola que, com as devidas distâncias, até nos pode remeter para a Hogwarts, de Harry Potter.
Apesar do ensino rigoroso que é dado nesta Escola de Magos, o orgulho de Ged leva-o a cometer um ato proibido, pois ao tentar mostrar a sua superioridade sobre outro estudante, Ged liberta uma sombra maligna no mundo. E é a partir desse exato momento que a história se transforma numa jornada pessoal. Essa sombra passa a persegui‑lo, representando tanto um perigo real quanto o reflexo dos seus próprios medos e falhas. Ged vagueia pelo reino de Terramar, um local repleto de numerosas ilhas e muita água, tentando de alguma forma combater esta sombra das trevas que, sem querer, acabou por libertar. Mas qual será então o verdadeiro poder de um feiticeiro? O de fazer feitiços ou o do auto-conhecimento? Terão que ler a obra para responder a esta questão.
A adaptação de Fred Fordham traz consigo um tom meditativo, simbólico e íntimo bem explanado pela linguagem visual contida e poética das ilustrações. O traço de Fordham é deliberadamente simples e suave, evitando o excesso de detalhe. Esta escolha estética está intimamente ligada à filosofia da própria história, que valoriza o equilíbrio, a humildade e a moderação. De facto, os desenhos limpos e suaves de Fordham, bem como vários enquadramentos amplos, contribuem para uma leitura contemplativa, em perfeita sintonia com o carácter introspectivo da viagem de Ged.
O uso da cor é outro elemento que merece menção. Predominam tons terrosos, azuis suaves e uma paleta contida, que evoca simultaneamente a naturalidade do arquipélago de Terramar e a sobriedade do universo mágico. Não tenho dúvidas de que é neste Um Feiticeiro de Terramar que Fordham se revela inspirado como nunca. Do ponto de vista visual, e tendo em conta os livros Mataram a Cotovia e Admirável Mundo Novo, é este o seu melhor trabalho. Ainda que, como um todo, eu tenha preferido o belíssimo Mataram a Cotovia.
Sendo Um Feiticeiro de Terramar uma obra com vários momentos de ilustração que achei arrebatadores, nem tudo é perfeito. É verdade que, por vezes, as personagens são pouco expressivas. Noutros casos, podem ser dificilmente reconhecíveis, o que fragiliza o fio condutor da narrativa. Também há alguns problemas com as cores das ilustrações quando os ambientes ilustrados são mais escuros, como no caso em que a ação decorre no interior de casas ou nas alturas em que o relato acontece de noite. Isto torna certas ilustrações algo ilegíveis, de tão escuras que ficam. Primeiro, ainda achei que a "culpa" de isto acontecer era da edição da Relógio D'Água, que tinha deixado as páginas muito escuras. No entanto, fui procurar páginas de edições estrangeiras e cheguei à conclusão de que acontecia o mesmo fenómeno. Ou seja, as imagens acabam por ser bastante escuras em vários momentos, o que é uma pena.
Mesmo assim, nas vezes em que a ação decorre ao ar livre - e felizmente isso acontece na maioria das páginas da obra - Fred Fordham oferece-nos magníficas vistas, com vários momentos e imagens que ficam na nossa mente muito depois de fecharmos o livro. Imagino que, se daqui a alguns anos, alguém me falar deste livro, prontamente se formará na minha mente uma imagem do nosso Ged envolvo por verdejantes montes e/ou azuladas ondas marinhas. É um daqueles livros em que, em termos visuais, quando funciona, funciona muitíssimo bem... mas quando não funciona, também o faz de forma inglória.
De resto, a edição da Relógio D'Água apresenta-se sólida. A capa é mole, baça e com badanas. No interior, o papel utilizado é brilhante e de boa qualidade. A encadernação também está bem feita. Quanto à impressão - e tal como referi no parágrafo anterior - a mesma me parece boa, pois o facto de haver páginas demasiado escuras está mais relacionado com a obra original do que com a impressão portuguesa da obra.
Em suma, a adaptação de Um Feiticeiro de Terramar para banda desenhada é um exemplo notável de como um clássico literário pode ser transposto para outro meio sem perder identidade nem profundidade. O resultado é um livro belo, equilibrado e profundamente humano, que confirma Terramar como um espaço de reflexão sobre identidade, responsabilidade e maturidade. É uma obra que confirma que a fantasia pode ser silenciosa, séria e profundamente humana.
NOTA FINAL (1/10):
8.3
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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Um Feiticeiro de Terramar
Autor: Fred Fordham
Adaptação a partir da obra original de Ursula K. Le Guin
Editora: Relógio D'Água
Páginas: 288, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Lançamento: Abril de 2026
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