Quando soube que a editora ASA iria apostar na obra de Charles Burns, não só fiquei admirado, como fiquei muito satisfeito. E por dois motivos: por um lado, a obra do americano Burns é verdadeiramente especial e diferente de tudo o que se pode ler e, portanto, merece ser lida e (re)conhecida pelo público português; por outro lado, o facto de ser a editora ASA, uma editora historicamente mais virada para a publicação de uma banda desenhada mais clássica e convencional, a apostar em Charles Burns, é a prova clara - se é que ainda disso havia dúvidas - de que a editora tem mudado (para melhor!) ao longo dos últimos anos, optando por editar obras de BD de qualidade superior, um pouco mais autorais e destinadas a um público mais maduro. Portanto, começo com isso, com uma nota de louvor à ASA por esta aposta.
Não obstante, também devo considerar que se me tivessem perguntado: "qual a primeira obra de Charles Burns que deve ser publicada em Portugal?", a minha resposta seria, sem pestanejar, "Black Hole!", a obra mais aclamada do autor. Portanto, quando soube que a aposta seria em Final Cut - e não em Black Hole - fiquei um pouco admirado. Claro que agora, bem vistas as coisas, talvez até possa ter feito sentido a jogada editorial da ASA. Mas já lá irei.
Em linha com aquilo a que Burns já nos habitou, Final Cut é uma obra que mistura terror psicológico, ficção científica e uma profunda exploração da adolescência e respetivos medos e dificuldades de socialização. Além disso, traz consigo uma homenagem sincera ao cinema de autor e aos filmes de série B que foram ficando populares ao longo do último século.
A história acompanha Brian que, juntamente com o seu amigo Jimmy, passou a sua infância a fazer filmes caseiros de ficção científica. Os filmes eram filmados em casa, no jardim, e os dois amigos iam convencendo os seus amigos a serem os atores e, eventualmente, as "vítimas" de assassinatos terríveis que gostavam de retratar nas suas criações cinematográficas. Agora que são mais velhos, os dois jovens têm um novo projeto cinematográfico um pouco mais sério - embora se mantenha amador.
Recorrendo à sua máquina Super-8 e inspirado pelos filmes de terror e ficção científica que tanto contribuíram para a sua formação enquanto amante da 7ª arte, Brian encontra no cinema uma forma de escapar à realidade e de expressar os seus desejos e medos que, de outro modo, lhe seriam tão difíceis de verbalizar. De facto, Brian é um adolescente bastante introspetivo que, naturalmente, tem problemas de socialização e que acaba por se isolar nos seus filmes, nos seus desenhos e nas suas fantasias. A sua incapacidade de se integrar plenamente nos códigos sociais torna‑o uma figura isolada, sempre um passo atrás dos outros. Burns retrata este desajuste sem condescendência, mas com um desconforto honesto e cru.
Agora, para o seu novo projeto, Brian e Jimmy convocam a bonita ruiva Laurie para o papel principal. Rapidamente esta se torna na musa de Brian, com este a sentir por ela uma crescente paixão. Que, aparentemente, não é correspondida. Por conseguinte, Brian desenvolve uma fantasia onde ela é a sua donzela em perigo e ele o seu salvador.
Juntamente com a amiga de Jimmy, Tina, os jovens partem para uma cabana remota na floresta para fazer um filme de terror de ficção científica, que procurará ser uma homenagem ao filme favorito de Brian: Invasion of the Body Snatchers. E à medida que o grupo de amigos se envolve em jogos, experiências com substâncias e explorações sexuais, a narrativa passa a alternar entre a realidade quotidiana, aparentemente banal, e algumas sequências mais oníricas, advindas de alucinações, que aparentam refletir os medos, as inseguranças e os desejos reprimidos de Brian.
Outra das coisas que mais salta à vista é que Final Cut é uma obra marcada por uma atmosfera pesada, densa e persistentemente inquietante, que se impõe desde as primeiras páginas. Somos imediatamente lançados num espaço emocional desconfortável, onde nada parece totalmente seguro ou estável. Essa sensação de opressão acompanha todo o livro.
Ao longo da narrativa também surgem criaturas estranhas, imagens grotescas e elementos perturbadores, que parecem escapar à lógica do real. Contudo, esses elementos nunca funcionam como sustos ou ornamentos visuais. Ao invés, são extensões simbólicas do estado psicológico das personagens, particularmente do protagonista. Charles Burns, já sabemos, é pródigo em alternar constantemente camadas de realidade, sonhos e fantasias, criando uma narrativa fluida e instável. Muitas vezes, o leitor não sabe exatamente onde se encontra, e essa incerteza faz parte da experiência de leitura. Mas mesmo quando nos deparamos com essas criaturas grotescas não se pode dizer que haja um horror linear, pois os verdadeiros horrores são internos, como a incapacidade de se ligar aos outros, o medo de se ser rejeitado ou a sensação de se ser estruturalmente diferente.
E é neste ponto que este livro me tocou especialmente: é que, com a introdução do tema do cinema dentro da história, o tal “final cut” torna‑se - pelo menos segundo a minha interpretação pessoal da obra - uma metáfora central para a tentativa de Brian de editar a própria vida, de criar uma versão alternativa da realidade onde ele tenha poder, aceitação e intimidade. Quem de nós já não pensou em algumas formas de editar a sua própria vida para que a mesma seja mais suportável?
Talvez por toda esta temática, devo dizer que, mesmo sendo obras diferentes, não pude deixar de considerar que Final Cut e Black Hole têm alguns pontos em comum, pois partilham o foco de Charles Burns na adolescência como território de medo, desejo e alienação. Final Cut acaba até mesmo por ser mais intimista e psicológico, concentrando‑se na subjetividade de um único protagonista. Se em Black Hole o terror se manifesta de forma aberta e social, marcando uma geração inteira, em Final Cut esse terror é mais silencioso e interior. O que me leva ao ponto que já abordei acima: mesmo que Black Hole seja, quanto a mim, a melhor e mais marcante obra de Burns, finda a leitura deste Final Cut - cujo final é absolutamente soberbo, já agora - até dei comigo a considerar que talvez a escolha da ASA por esta obra, em detrimento de Black Hole, possa ter feito algum sentido. Seja como for, faço votos para que a editora continue a editar mais obras de Charles Burns, como o já referido Black Hole ou a trilogia composta por X’ed Out, The Hive e Sugar Skull.
Em termos visuais, o livro apresenta o estilo inequívoco de Charles Burns, em que o papel do preto e das sombras é uma verdadeira imagem de marca do autor. E mesmo que, desta vez, esta seja uma obra a cores e não a preto e branco, esse estilo singular do autor mantém-se bem presente. É um daqueles autores em que basta um rápido vislumbre, numa qualquer vinheta, para percebermos rapidamente: "isto é um desenho de Charles Burns".
É particularmente digna de nota a diferença de estilos gráficos entre a narrativa principal e as sequências que remetem para os filmes e sketches de Brian dentro do próprio livro. Burns utiliza esta distinção visual de forma inteligente, sublinhando o contraste entre o mundo interior do protagonista e a realidade que o rodeia e mostrando-nos como tem várias ferramentas visuais ao seu dispor para bem nos contar a sua história. E ainda que goste do trabalho a preto e branco do autor, devo dizer que também gosto bastante desta opção a cores. Até porque, convenhamos, no caso em concreto, as cores são especialmente importantes para diferenciar a sensualidade do cabelo ruivo da bela Laurie.
Quanto à edição, o livro apresenta capa dura, bom papel baço no miolo e um bom trabalho de encadernação e impressão. Não gostando de ser um "polícia das edições de BD" - há quem o faça de modo mais afincado e persecutório do que eu - desta vez tenho que dar nota de alguns erros de sintaxe ou ortografia que, infelizmente, poderiam ter sido mais bem acautelados com um melhor trabalho de revisão. E embora a font utilizada para o texto seja bastante próxima daquela da edição original, a versão portuguesa apresenta I's serifados - que naturalmente não aparecem na edição original - o que impacta negativamente a experiência. Atenção que não acho que estas imperfeições arruínem a sensação de leitura, mas, lá está, com a ASA a fazer um bom trabalho crescente nas suas edições, é expectável que não cometa este tipo de erros de palmatória.
Concluindo este texto que já vai bastante longo, considero que Final Cut se afirma como uma obra verdadeiramente original, capaz de cruzar belas referências cinematográficas e culturais com reflexões profundas sobre solidão, desejo, identidade e desajuste, deixando o leitor num estado de inquietação que persiste para além da leitura. O equilíbrio entre estranheza e densidade emocional faz deste livro uma experiência singular, exigente e recompensadora. Nesse sentido, a aposta nacional na edição da obra de Charles Burns é mais do que bem-vinda, contribuindo para enriquecer o panorama editorial e oferecendo ao público português acesso a uma das vozes mais marcantes e singularmente perturbadoras da banda desenhada contemporânea.
NOTA FINAL (1/10):
9.4
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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Final Cut
Autor: Charles Burns
Editora: ASA
Páginas: 224, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Fevereiro de 2026
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