terça-feira, 21 de abril de 2026

Análise: Os Cabelos de Édith

Os Cabelos de Édith, de Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid - ASA - LeYa

Os Cabelos de Édith, de Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid - ASA - LeYa
Os Cabelos de Édith, de Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid

Engrossando a quantidade de obras de cariz mais maduro que a ASA tem vindo a editar recentemente, está este Os Cabelos de Édith - com argumento de Fabienne Blanchut e Catherine Locandro, e ilustrações de Dawid - que a editora portuguesa lançou há algumas semanas.

Esta é uma obra sensível e poética que nos remete para a memória do Holocausto, reiterando a podridão de valores e o infame ataque aos mais basilares direitos humanos que se viveu na Europa entre os anos 30 e os anos 40.

A história acontece em Paris, em maio de 1945, já depois da Segunda Guerra Mundial ter terminado. O célebre Hotel Lutetia, um marco da cidade, é transformado em centro de repatriamento para sobreviventes do holocausto nazi.

O protagonista é Louis, um estudante de 17 anos, que, contra a vontade do seu pai, acaba por se juntar aos voluntários encarregues de acolher os homens e mulheres que sobreviveram aos campos de concentração. E é nessa altura que conhece Édith, que havia estado em Birkenau.

Embora Louis se aproxime da rapariga, esta parece um concha selada perante qualquer tipo de interação social. Como se estivesse alienada de tudo o que acontece à sua volta. Mesmo assim, vai tolerando a presença de Louis, ainda que aquilo que mais lhe ofereça seja uma boa dose de silêncio.

Há ainda um complemento relevante para a trama que é o facto de Louis vir a saber que o seu pai tinha sido motorista durante a guerra e, através disso, tenha transportado muitos judeus para os campos de detenção em Drancy. Ora, tudo isto faz com que se abra um fosso de distância entre si e o seu pai.

Os Cabelos de Édith, de Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid - ASA - LeYa
Ler Os Cabelos de Edith é aceitar caminhar devagar, quase em silêncio, por uma história que parece sussurrada ao ouvido. As duas argumentistas Fabienne Blanchut e Catherine Locandro têm uma abordagem bastante serena e séria, que tenta sempre não ser demasiadamente dramática. Como se os silêncios que nos são impostos pelo relato e uma gestão narrativa mais lenta do que o normal, tivessem o objetivo implícito de nos fazer parar para pensar. Há, portanto, um trabalho de contenção na escrita, beneficiando silêncios confrangedores, que tornam a leitura bastante madura e, ao mesmo tempo, arrebatadora.

A narrativa gira em torno da ausência, daquilo que ficou por dizer e do que nunca mais pôde ser vivido plenamente. Edith e os cabelos que o holocausto lhe retirou são meros símbolos de perda e de violência histórica. Algo que, mesmo quando uma barbárie termina, continua a persistir naqueles que por ela são afetados. A história avança depois como uma recordação fragmentada, feita de imagens soltas que se insinuam mais do que se explicam.

O tema do Holocausto é abordado com enorme pudor e respeito por parte das autoras, não havendo propriamente uma tentativa de mostrar todo o mal que aconteceu a Édith, mas antes sugeri-lo. Afinal de contas, para os sobreviventes basta uma silhueta que surge de repente, um choro distante que se escuta repentinamente, uma paisagem observada ao acaso ou a simples recordação de um longo cabelo que já não existe, para que o pesadelo se reinstale. A memória traumática nunca se vai embora, apenas aprende a esconder-se. Essa permanência do horror gera desconfiança, medo difuso e uma sensação de perda irreparável. O livro capta bem esse estado de suspensão emocional, onde o passado invade o presente sem pedir licença, tornando cada gesto simples num campo minado de recordações.

Gostei desta abordagem das autoras em não procurar dramatizar o tema em excesso, nem transformar a dor em espetáculo e, pelo contrário, deixar espaços em branco e silêncios narrativos que dizem tanto quanto as palavras impressas, respeitando a inteligência emocional do leitor.

Os Cabelos de Édith, de Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid - ASA - LeYa
Os desenhos de Dawid - do qual a ASA já havia editado o curioso, mas não tão bom, Senhor Apothéoz - elevam ainda mais os bons apontamentos deixados pela história e narrativa da obra. O traço do autor volta a mostrar-se delicado, quase etéreo, e embora os rostos das personagens não sejam excessivamente detalhados, há neles uma expressividade subtil que se ajusta perfeitamente à serenidade narrativa da obra. O que falta em detalhe, sobra em sensação. Além de que, a tal serenidade da narrativa em texto encontra paralelo na narrativa visual, o que é perfeito para a cadência de ambas.

As ilustrações de Dawid sugerem emoções e acontecimentos através de imagens fortes, mas delicadas, que reforçam o impacto simbólico da história sem chocar o leitor. Ainda assim, gostei particularmente da maneira como o autor desenha as memórias do passado de Édith, com os nazis a serem representados com um traço mais grosso e agressivo que os judeus.

O desenho de vários pontos da cidade de Paris também é particularmente marcante. Reconhecemos ruas, fachadas e atmosferas, mas também uma Paris suspensa no tempo, atravessada por uma melancolia discreta. O Hotel Lutetia, em particular, um lugar carregado de memória histórica, surge com uma sobriedade tocante, como se as suas paredes ainda guardassem vozes.

Algumas dessas imagens da cidade fazem lembrar os postais ilustrados que ainda hoje são vendidos nas margens do rio Sena. Há nestes desenhos da cidade uma certa beleza calma, quase turística, que contrasta com o peso da história que se carrega. Talvez Dawid se tenha inspirado nesses postais ou talvez tenha sido apenas coincidência, mas o que é certo é que o efeito das mesmas é poderoso precisamente por essa ambiguidade.

As cores são em tons pastéis e contribuem para a beleza sóbria do todo, criando uma tensão visual constante entre beleza e horror. É como se a delicadeza do traço tentasse, sem nunca conseguir totalmente, atenuar a brutalidade do que é contado.

A edição da ASA apresenta-se em capa dura baça, com um bom papel braço no miolo. Ao nível da encadernação e da impressão, o livro também está bem produzido.

Em suma, Os Cabelos de Édith é uma muito bela e tocante obra, que procura ser um testemunho decoroso das atrocidades do Holocausto, levando-nos a refletir também na dificuldade das escolhas morais em tempos de terror e procurando trazer-nos igualmente uma sensação de esperança para a humanidade. Com efeito, mesmo que já tenhamos ouvido muitas histórias sobre o Holocausto, é vital que elas regressem, sob novas vozes e novos olhares, pois cada repetição é um gesto de resistência contra o esquecimento. E porque lembrar, ainda que doa, é talvez a única forma de impedir que o horror volte a acontecer. Especialmente nos dias que vivemos no tempo presente...


NOTA FINAL (1/10):
9.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Os Cabelos de Édith, de Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid - ASA - LeYa

Ficha técnica
Os Cabelos de Edith
Autores: Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid
Editora: ASA
Páginas: 168, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 275 x 206 mm
Lançamento: Março de 2026




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