Foi neste mês de fevereiro que a Gradiva publicou o segundo e último tomo da adaptação para banda desenhada, por parte de Milo Manara, de O Nome da Rosa, célebre obra da autoria de Umbero Eco. Em França, este livro saiu no final de janeiro, pelo que a editora portuguesa esteve bem ao não perder muito tempo até nos fazer chegar o final desta muito aguardada obra.
E apesar da espera de quase três anos entre o primeiro e segundo tomo, posso dizer-vos que a espera valeu a pena. De facto, estamos perante um dos maiores mestres da banda desenhada europeia que, mesmo na casa dos oitenta anos, continua a ter uma abordagem artística sublime e inteiramente diferenciada. Falo de Manara, claro.
Neste segundo tomo, continuamos a acompanhar a história que nos é narrada por Adso de Melk, já idoso, e que vai relembrando os acontecimentos vividos quando jovem noviço ao lado do frade franciscano Guilherme de Baskerville. À medida que vários monges vão aparecendo assassinados no mosteiro, em circunstâncias cada vez mais estranhas, cresce o clima de medo e superstição, e Guilherme assume o papel de detetive, utilizando a razão e a observação para tentar descobrir quem é o responsável por tão nefastos crimes.
Este segundo tomo dá, pois, continuidade direta aos acontecimentos do primeiro volume, aprofundando o clima de suspeita, clausura e tensão que envolve o mosteiro beneditino. Ao mesmo tempo, confirma a ambição de Milo Manara em ser fiel ao espírito e à estrutura do texto original de Umberto Eco. Com efeito, Manara respeita, tanto quanto possível, os diálogos, os episódios centrais e a complexa teia de referências históricas e teológicas presentes em O Nome da Rosa. Essa fidelidade procura preservar a densidade intelectual e o ambiente erudito que tornaram o romance tão popular, fazendo-nos sentir perante uma transposição cuidadosa e respeitosa, que evita simplificações excessivas.
Contudo, lá está, essa mesma fidelidade levanta alguns problemas à obra, pois acredito que certos elementos da obra original talvez pudessem ter sido retirados ou, pelo menos, condensados nesta adaptação, pois não acrescentam assim tanto ao mistério que envolve o mosteiro. Em banda desenhada, onde o ritmo e a economia narrativa são fundamentais, algumas passagens e diálogos acabam por pesar no desenrolar da ação, diluindo momentaneamente a tensão policial que sustenta a intriga. Já no primeiro volume isso tinha-se sentido - se calhar até mesmo com mais força - e volta a sentir-se neste segundo tomo.
Mesmo assim, e isto é uma boa notícia, este segundo volume revela-se, porventura, mais focado do que o anterior, notando-se uma maior concentração do enredo nos acontecimentos decisivos e na progressiva revelação dos segredos que conduzem à identificação do culpado pelos assassinatos que assolam o mosteiro. A narrativa ganha, portanto, alguma fluidez e intensidade face ao primeiro volume.
Não obstante, e reflexão teológica presente no romance original recebe aqui demasiada atenção por parte de Manara. E, bem vistas as coisas, essa componente teológica até não é tão importante assim para a história, mas mais para lhe dar alguma camada intelectual. Por esse motivo, acredito que essa parte poderia ocupar menos páginas, o que também teria permitido que houvesse menos balões sobrecarregados de texto. Que os há.
E não esqueçamos que embora esta seja uma obra que decorre no seio do clero e mergulhe profundamente em debates religiosos e filosóficos, o seu apelo principal é o mistério e a investigação. Estamos, no fundo, perante um policial histórico e o prazer do leitor advém sobretudo da tentativa de acompanhar as deduções, os indícios e as revelações que conduzem à descoberta final.
É claro que, mesmo assim, a adaptação cumpre bem o seu propósito. O encadeamento dos acontecimentos, a escalada de mortes e a revelação final são apresentados com clareza e impacto. O ritmo narrativo, sobretudo neste segundo volume, reforça a vertente de thriller intelectual que caracteriza a obra de base.
Já o desenho continua exímio e mostra bem porque é que Milo Manara é considerado um dos grandes mestres da banda desenhada europeia. A sua linha elegante, o cuidado no detalhe arquitetónico e a expressividade das personagens conferem uma dimensão visual rica e imersiva à história. O próprio mosteiro surge quase como uma personagem autónoma, labiríntica e opressiva, refletindo o enigma que o habita.
E se, no tomo anterior, a presença feminina quase não tinha acontecido - embora tenha surgido no final do livro para nos deixar em suspenso - este segundo volume abre logo com a famosa cena em que Adso é seduzido pela bela mulher. É mais uma cena fantástica, carregada de erotismo, onde Manara revela que não perdeu o jeito para o desenho do corpo feminino. E mesmo que todas as mulheres desenhadas por Manara possam parecer demasiadamente semelhantes entre si - e isso é um facto, admitamo-lo - parece que sempre queremos voltar a dar de caras com estas belíssimas mulheres. O pobre Adso que o diga.
Mas também a representação de todas as outras personagens masculinas está muito bem executada, com destaque para Guilherme de Baskerville, inspirado - talvez um pouco em demasia? - em Marlon Brando. Além disso, também os espaços interiores, as bibliotecas, os corredores e as celas são representados com uma atmosfera densa, quase sufocante, que reforça o tom sombrio da narrativa.
Nota ainda, muito positiva, para a presença de um outro estilo de desenho em que, para certas partes mais histórias, o autor recorre a uma técnica que lembra a gravura. Isso deixa-me até com a ideia de que Milo Manara se divertiu bastante a fazer este livro devido a nele haver espaço para pôr em prática todas estas nuances artísticas.
Como ponto menos positivo, tenho que referir, novamente, que as passagens em latim, sem qualquer legenda, são em maior número do que o aceitável. Embora isso não seja culpa da edição portuguesa - uma vez que as outras edições se apresentam de igual forma -, a ausência de tradução acaba por criar algum distanciamento para o leitor que não domina a língua. Se no início ainda dei comigo a tentar perceber o que quereria dizer cada expressão, mais para a frente já quase desprezava os balões em latim. É uma opção que privilegia a autenticidade histórica, bem sei, mas que poderia ter sido acompanhada por notas ou discretas traduções de apoio.Mas, de resto, essa questão já se colocava no primeiro volume, pelo que não constitui surpresa neste segundo tomo.
A edição da Gradiva é em capa dura brilhante, com bom papel brilhante no miolo. O trabalho de encadernação e impressão também é bom e há ainda, no final, espaço para um breve caderno de esboços, com três páginas, que é muito bem-vindo. A edição da Gradiva assume-se, deste modo, como bastante digna para uma obra que também o merecia, diga-se.
Em suma, O Nome da Rosa - Volume 2 é uma adaptação muito convincente, que respeita o romance de Umberto Eco, valoriza-o visualmente e confirma o talento extraordinário de Manara enquanto narrador gráfico. Com pequenos excessos herdados da matriz literária da obra original, mas amplamente compensados pela qualidade artística e pela força do mistério, este segundo tomo encerra a história de forma sólida e memorável. É um belo livro que não deve faltar na coleção de um apreciador da obra de Milo Manara!
NOTA FINAL (1/10):
9.3
-/-
Ficha técnica
O Nome da Rosa - Volume 2
Autor: Milo Manara
A partir da obra original de: Umberto Eco
Editora: Gradiva
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Fevereiro de 2026





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