Foi já fora de época que li, em conjunto, dois dos mais recentes livros da coleção que adapta para banda desenhada as obras clássicas de Agatha Christie e que a Arte de Autor tem vindo a editar, naquela que é a maior coleção, em número de volumes, da editora portuguesa.
Ambos os livros foram lançados por cá, compreensivelmente, perto da quadra natalícia: O Natal de Hercule Poirot teve lançamento em Dezembro de 2024, enquanto A Aventura do Bolo de Natal, o mais recente álbum da coleção, chegou-nos em Novembro de 2025.
De um modo genérico, posso dizer-vos que estes dois livros, ambos com argumento de Isabelle Bottier, presença assídua nesta coleção, e com ilustrações de Callixte (O Natal de Hercule Poirot) e Alberto Taracido (A Aventura do Bolo de Natal), mesmo não sendo os melhores da coleção, representam mais dois acréscimos interessantes à mesma, mantendo o charme do detetive belga Hercule Poirot e adaptando os contos originais a um formato quiçá mais acessível. Apesar disso, as duas obras apresentam diferenças notáveis na execução narrativa e estética. Mas, quanto a isso, já lá irei.
Falando um pouco das histórias propriamente ditas, em O Natal de Hercule Poirot, Hercule Poirot é convidado para passar o Natal na casa de Simeon Lee, um velho tirânico e rico. Lee mantém relações tensas com os seus filhos e netos, que parecem mais interessados na sua herança do que na companhia do idoso homem. Na véspera de Natal, o velho é brutalmente assassinado em casa, o que leva Poirot a assumir a investigação, observando minuciosamente as interações da família e examinando os indícios deixados pelo assassino. Como é habito nas histórias de Agatha Christie, todos os presentes tinham motivos para desejar a morte do patriarca, tornando o caso extremamente complexo.
Por sua vez, em A Aventura do Bolo de Natal, Hercule Poirot também é convidado a passar o Natal - mas será que este homem era assim tantas vezes convidado sem nunca convidar ninguém? Piadolas à parte, neste caso é a família Endicott que o recebe na sua antiga mansão, onde a atmosfera festiva contrasta com um clima de suspense logo desde o início. Antes mesmo da refeição de Natal começar, Poirot encontra um bilhete anónimo na sua almofada avisando‑o para não comer o tradicional bolo de Natal. Durante o jantar, um pedaço de rubi aparece no bolo servido a um dos convidados, o que desperta suspeitas. A dita pedra desaparece antes da festa e precisa ser recuperada sem envolver a polícia para evitar um escândalo internacional.
Em termos de narrativa, O Natal de Hercule Poirot revela-se mais sólido e coerente. A história mantém um bom ritmo, preservando o mistério e o suspense até ao final. O enredo está bem estruturado, e o desenvolvimento do móbil das personagens é convincente, proporcionando uma leitura envolvente. Este volume consegue prender o leitor do início ao fim, graças à forma como a intriga é construída e aos detalhes cuidadosamente trabalhados na interação entre as personagens. A tensão é gradual, e os momentos de revelação são satisfatórios, respeitando o espírito do original de Agatha Christie.
Por outro lado, A Aventura do Bolo de Natal revela-se mais irregular. A história, embora interessante, não consegue gerar o mesmo envolvimento. A construção do enredo é menos consistente, e há momentos em que o mistério perde força, tornando a narrativa mais previsível e menos cativante. A própria estrutura narrativa deste segundo volume parece menos fluida, com alguns dos elementos a surgirem de forma abrupta ou sem o devido desenvolvimento, o que compromete a capacidade do leitor de se imergir totalmente na história.
Em termos de ilustração, os dois livros também apresentam abordagens bastante distintas, mas, neste caso, o vencedor é, quanto a mim, A Aventura do Bolo de Natal. O trabalho de Alberto Taracido salta imediatamente à vista pela sua elegância e originalidade. As personagens têm um traço mais caricatural e expressivo, e as cores suaves conferem um registo autoral e distintivo dentro da coleção. Taracido arrisca mais, oferecendo-nos uma estética diferente da usada tradicionalmente na série, e isso funciona como um refresco visual.
Por contraste, Callixte, em O Natal de Hercule Poirot, mantém um estilo mais clássico e eficiente, alinhado com o que tem sido apresentado na maioria das adaptações da coleção. O traço é limpo, preciso, e as personagens são facilmente reconhecíveis. Embora o trabalho do autor não traga grandes inovações visuais, é funcional e adequado à história, reforçando a narrativa sem a distrair.
Assim sendo, e comparando os dois volumes, percebe-se uma assimetria clara nas suas valências: o primeiro destaca-se pela força narrativa, enquanto o segundo se sobressai pelo valor estético e originalidade gráfica.
Olhando para a edição, estes dois livros apresentam o mesmo cuidado a que os restantes livros da coleção nos têm habituado: capa dura brilhante, bom papel baço no interior, boa encadernação e boa impressão.
Em conclusão, O Natal de Hercule Poirot e A Aventura do Bolo de Natal são mais dois bons títulos, bem-vindos para quem acompanha a coleção de adaptações para banda desenhada de Agatha Christie. A sua leitura é especialmente adequada para a época natalícia, junto à lareira e com um chocolate quente na mão, mas também são livros que podem perfeitamente ser lidos fora da época festiva, especialmente por aqueles que procuram histórias bem carregadas de mistério e charme.
NOTA FINAL (1/10):
8.0
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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Hercule Poitot - O Natal de Poirot
Autores: Isabelle Bottier e Callixte
Editora: Arte de Autor
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Dezembro de 2024
Autores: Isabelle Bottier e Alberto Taracido
A partir da obra original de: Agatha Christie
Editora: Arte de Autor
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Novembro de 2025
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