quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Análise: Duas Raparigas Nuas

Duas Raparigas Nuas, de Luz - ASA - LeYa

Duas Raparigas Nuas, de Luz - ASA - LeYa
Duas Raparigas Nuas, de Luz

Foi ainda em Setembro do ano passado que a ASA aguçou o nosso apetite quando anunciou a edição deste Duas Raparigas Nuas, de Luz, para o início de 2026. Esta foi, convém não esquecer, a obra vencedora do prémio Fauve D' Or do Festival de Angoulême, na sua edição de 2025. Sabemos que um prémio não dita a qualidade de uma obra, mas lá que chama a atenção para a mesma, lá isso chama. E, descansem, no caso concreto, este não é uma obra que vive do hype, mas sim um livro original e relevante que merece ser lido por todos os amantes de banda desenhada.

Duas Raparigas Nuas acompanha a trajetória do quadro homónimo de Otto Mueller, pintado em 1919, e transforma esta obra de arte enquanto verdadeira protagonista da narrativa. 

A história começa na Alemanha do pós-Primeira Guerra Mundial, num ambiente de efervescência artística e cultural, quando o expressionismo floresce e a pintura nasce como símbolo de liberdade, intimidade e modernidade. Acompanhamos a feitura do próprio quadro, com Otto a ilustrar a sua esposa (e musa) Maschka, por quem nutre um profundo mas inconstante amor. O casal acaba por se separar. Passados uns anos, o quadro é comprado por Ismar Littmann, um ilustre colecionador de arte moderna que professa o judaísmo. E, entretanto, o tal período de experimentação e júbilo do pós-Primeira Guerra dá lugar a um outro, mais deprimente, com a ascensão do nazismo. A partir desse ponto, o quadro pintado por Otto passa a ser perseguido por representar aquilo que o regime condenava: a nudez, a sensibilidade, a arte moderna e, acima de tudo, a livre criação. Classificada como “arte degenerada”, a pintura é retirada das mãos de Littmann e acaba escondida, vendida e traficada. Ao longo de todo este percurso, acompanhamos não só o destino da obra, mas também o impacto da violência ideológica sobre artistas, colecionadores e amantes da arte. A bem ou a mal, exposto ou escondido numa cave escura, o quadro acaba por sobreviver, atravessando um século da história da humanidade e superando algumas das horas mais negras da nossa existência.

Duas Raparigas Nuas é uma obra profundamente madura, tanto naquilo que escolhe contar como na forma - pouco usual e arriscada, diria - como decide fazê-lo. Ao tomar uma pintura de Otto Mueller como eixo narrativo e ponto de vista privilegiado, o autor constrói uma obra que não procura apenas revisitar um século de História, mas antes refletir sobre a fragilidade da criação artística perante os poderes políticos e ideológicos que tentam controlá-la. O resultado é um livro denso, exigente e, acima de tudo, necessário.

Duas Raparigas Nuas, de Luz - ASA - LeYa
Desde logo, a ideia de transformar um objeto inanimado, um quadro, nos “olhos” através dos quais observamos o mundo, através dum ponto de vista subjetivo, revela-se uma escolha narrativa tão simples quanto brilhante. Planos subjetivos são por vezes utilizados em banda desenhada, colocando o leitor a ver o que determinada personagem vê - lembro-me, por exemplo, do exercício feliz que Diogo Carvalho faz no seu livro Sol - no entanto, esta opção estilística não é tantas vezes utilizada quando se trata de um objeto inanimado, como é o caso de um quadro. Em banda desenhada, não me lembro de já o ter visto, sequer. Neste caso, e contrariamente a um plano subjetivo da vista de outra personagem, a pintura não age, não reage, não interfere: apenas observa. E é precisamente nessa passividade que reside a força simbólica da obra. O quadro torna-se, assim, um sobrevivente silencioso, atravessando décadas de violência, censura e apagamento cultural sem nunca perder a sua identidade.

A narrativa não se apresenta de forma linear ou clássica. Luz prefere fragmentar o tempo, oferecendo-nos episódios soltos, momentos-chave da História alemã (e europeia), que se vão acumulando na nossa memória enquanto leitores. Ainda assim, nunca nos sentimos perdidos. Cada curto episódio cumpre uma função clara, ajudando-nos a compreender o percurso errante da obra e o contexto político e social que a rodeia. Existe, portanto, um olhar fixo e imóvel, que nos coloca numa posição quase desconfortável de voyeurismo histórico.

Este voyeurismo é um dos aspetos mais interessantes do livro. O quadro é a nossa porta de entrada para os horrores do século XX, mas também o nosso limite. Só vemos o que está à sua frente. Só sabemos o que acontece no seu campo de visão. Esta limitação narrativa reforça a ideia de impotência face à barbárie: a arte vê, regista, sobrevive, mas não a pode impedir. E esse feito deste livro é verdadeiramente brilhante.

Entretanto, com a ascensão do nazismo, o quadro "Duas Raparigas Nuas" ganha um peso político evidente. A classificação da arte moderna como “degenerada”, a desapropriação de bens a famílias judias, as exposições humilhantes e a destruição cultural surgem não como um tratado histórico, mas como um conjunto de acontecimentos observados de forma quase clínica. Não é uma opinião, é a constatação de um facto. Que convém que nunca seja esquecido. E é essa frieza que torna tudo ainda mais perturbador neste Duas Raparigas Nuas.

Se há algo a apontar como menos conseguido na obra, será talvez a forma como, a meio/final do livro, alguns episódios surgem de forma demasiado rápida, por um lado, e, por outro, que os mesmos nos sejam dados mais por uma necessidade documental do que por verdadeira relevância narrativa. Não chegam a comprometer o todo, mas dão a sensação de “cumprir calendário”, reforçando até uma ligeira repetição estrutural e visual. Por exemplo, não me parece necessária que aquando da tour da exposição "Arte Degenerada" tenhamos que acompanhar a obra em Berlim, Munique, Leipzig, Dusseldorf ou Salzburgo, com planos e pranchas quase iguais, sem que aconteça algo verdadeiramente relevante. Mas será uma nota negativa menor, claro.

Em termos gráficos, Luz afasta-se aqui do registo mais associado à caricatura política do Charlie Hebdo (a que pertence), embora esse traço rápido e expressivo continue presente. O desenho é solto, por vezes quase esquemático, mas encontra nas aguarelas um aliado fundamental. A cor, em aguarela, traz textura, emoção e uma beleza inesperada a um traço que, isoladamente, poderia parecer demasiado simples.

Duas Raparigas Nuas, de Luz - ASA - LeYa
O facto de estarmos perante um objeto estático obriga a um jogo constante de enquadramentos. O quadro pode estar torto, parcialmente tapado, encostado a uma parede, transportado de forma descuidada. Tudo isso afeta também a nossa leitura. A vinheta inclina-se, o campo de visão é obstruído, e cabe ao leitor adaptar-se a essa instabilidade visual, o que representa tanto um desafio como uma virtude da obra.

Esta opção chega até mesmo a fazer uma ponte bem sucedida com o significado da obra, pois reforça a ideia de que a arte não controla o seu destino. Ela é movida, escondida, exposta ou censurada conforme a vontade de terceiros. O leitor sente isso fisicamente na leitura, através da forma como a página se organiza (ou desorganiza). Mais uma vez, ideia brilhante por parte de Luz!

E não deixa de ser curioso que embora todo o livro seja sobre um quadro, nunca temos a hipótese de ver esse mesmo quadro até ao final do livro. Pois, apesar de tudo, é como se o quadro fôssemos nós: se se ataca a liberdade criativa, atenta-se contra a liberdade de toda a humanidade.

Por fim, e convém não o esquecer, é impossível não ler Duas Raparigas Nuas à luz do ataque à redação do Charlie Hebdo, experiência que marcou indelevelmente o percurso de Luz que, nesse dia, teve a sorte de chegar atrasado à redação. Caso contrário, poderia já não estar neste mundo como alguns dos seus colegas da altura. O paralelismo é claro: tal como os jihadistas atacaram os cartunistas por não se reverem na sua criação, também os nazis perseguiram artistas e obras por estas não servirem a sua visão do mundo. Em ambos os casos, temos a instrumentalização da arte como inimiga política.

A edição da ASA é em capa dura baça, com bom papel baço no interior. A impressão e encadernação também são boas. Nota ainda, positiva, para a forte componente documental do livro que inclui um posfácio assinado por Rita Kersting, Diretora-adjunta do museu Ludwig de Colónia, um conjunto de biografias das personagens mais relevantes desta história, uma cronologia detalhada e ainda referência às obras, também chamadas de "degeneradas" pelos nazis, pelas quais o quadro de "Duas Raparigas Nuas" se vai cruzando.

Em jeito de conclusão, Duas Raparigas Nuas é mais do que uma BD histórica. É, antes e mais do que isso, um ensaio visual sobre liberdade de expressão, memória e resistência cultural. Ao dar voz simbólica a um quadro, Luz constrói uma meditação poderosa sobre o papel da arte face à barbárie, mostrando como uma simples pintura pode atravessar regimes, guerras e décadas sem perder o seu significado humano. O livro é simultaneamente uma homenagem à arte perseguida e um alerta contra todas as formas de censura e intolerância. A não perder!


NOTA FINAL (1/10):
9.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Duas Raparigas Nuas, de Luz - ASA - LeYa

Ficha técnica
Duas Raparigas Nuas
Autor: Luz
Editora: ASA
Páginas: 200, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 282 x 211 mm
Lançamento: Janeiro de 2026

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