quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Análise: A Odisseia de Homero

A Odisseia de Homero, de Gareth Hinds - Bertand Editora

A Odisseia de Homero, de Gareth Hinds - Bertand Editora
A Odisseia de Homero, de Gareth Hinds

A adaptação para banda desenhada pelo autor americano Gareth Hinds, da obra clássica A Odisseia, de Homero, foi o primeiro livro de banda desenhada editado em Portugal, em 2026. Pelo menos, foi o primeiro que me chegou às mãos, pois sei que há outras obras a serem lançadas durante este mês de janeiro. Mesmo assim, posso dizer-vos que o livro deverá chegar às livrarias apenas a partir do próximo dia 15 de janeiro.

Esta primeira edição da Bertrand Editora que, aliás, até já deu a conhecer as suas próximas apostas na edição de outras obras de BD, traz-nos mais uma adaptação para banda desenhada de uma obra já muito conhecida do grande público. Mais não seja, pela sua celebridade.

E, convenhamos, adaptar A Odisseia para banda desenhada não é tarefa pequena. Estamos a falar de uma das colunas vertebrais da literatura ocidental, um texto tão antigo quanto influente e que já foi estudado, dissecado e recontado até à exaustão. 

A Odisseia de Homero, de Gareth Hinds - Bertand Editora
O resultado é, pois, uma banda desenhada interessante, desde logo pelo simples facto - primordial! - de tornar acessível uma obra que muitos associam a aulas aborrecidas, resumos obrigatórios e testes cheios de perguntas traiçoeiras. Aqui, a famosa e celebrada personagem de Ulisses ganha corpo, cor e movimento, e isso, por si só, já é um mérito difícil de ignorar nesta proposta de Gareth Hinds.

A história é a que todos conhecemos, mas relembro os mais esquecidos da mesma: acompanhamos o regresso interminável de Ulisses a Ítaca, numa viagem épica e recheada de encontros com monstros, deuses rancorosos, tentações mortais e desvios narrativos. 

Essa viagem acontece após a guerra de Troia e, embora devesse durar apenas algumas semanas, acaba por se prolongar por dez anos devido à ira dos deuses e às fraquezas humanas do próprio Ulisses. Pelo caminho, o protagonista enfrenta monstros como o Ciclope Polifemo, resiste ao canto das Sereias, desce ao mundo dos mortos, perde os seus companheiros e é sucessivamente desviado por tempestades, enquanto, em Ítaca, a sua esposa Penélope engana pretendentes que devoram os bens da casa, ao mesmo tempo que o filho desta e de Ulisses, Telémaco, cresce sem saber se o pai está vivo ou morto em combate. Com a ajuda da deusa Atena, Ulisses acaba por regressar disfarçado, testa a fidelidade dos seus e, numa explosão final de violência, elimina os pretendentes e recupera o trono.

A Odisseia de Homero, de Gareth Hinds - Bertand Editora
Gareth Hinds mantém-se fiel à estrutura e à essência da epopeia, sem grandes modernizações ou atalhos narrativos duvidosos. É claro que são alguns os episódios que não estão incluídos nesta adaptação, mas diria que o autor consegue assegurar que os acontecimentos mais relevantes da obra original figuram neste livro.

Esta fidelidade é, simultaneamente, virtude e limitação. Virtude porque respeita Homero e não tenta reinventar o que não precisa de ser reinventado. Mas também limitação porque, por vezes, a narrativa sente-se algo pesada, excessivamente presa ao texto, como se tivesse medo de largar o poema épico e confiar plenamente - ou, pelo menos, mais - no poder da imagem. 

Um ponto positivo é que se nota que o texto foi adaptado, mas de uma forma que tenta estar em linha com a linguagem mais arcaica e datada da obra original. Esse esforço é bem-vindo, claro, ainda que, em muitos momentos, a obra se revele demasiadamente expositiva.

Ainda assim, há aqui uma mais-valia clara: a simplificação de uma história longa e complexa, com inúmeros episódios e personagens, mas sem que isso implique amputações graves. Para leitores mais novos - ou para adultos traumatizados por textos clássicos - esta banda desenhada pode, por isso, ser uma excelente porta de entrada para a obra original.

A Odisseia de Homero, de Gareth Hinds - Bertand Editora
As ilustrações acompanham essa intenção de evocação histórica, com bastante cuidado e aprumo. O traço a lápis é elegante, as cores são suaves e bonitas, e, nos melhores momentos, o desenho consegue ser verdadeiramente grandioso. Pelo menos para mim, há algo no traço e nas cores de Gareth Hinds que remete para uma ideia quase idealizada da Grécia Antiga, entre o épico e o ilustrativo. Quando funciona, funciona mesmo muito bem e são muitas as ilustrações presentes nesta obra que nos fazem viajar para esse tempo distante contido na obra.

O problema é que não funciona sempre. A qualidade do desenho de Hinds revela-se irregular e isso nota-se com facilidade. Há páginas belíssimas, quase sublimes, sim, mas que depois são seguidas ou antecedidas por outras em que parece que o autor estava com pressa para apanhar um barco para Ítaca.

Em várias vinhetas, a linguagem corporal das personagens, a anatomia e as expressões faciais ficam aquém do esperado, sobretudo quando comparadas com páginas imediatamente anteriores ou seguintes. O que faz com que Gareth Hinds nos ofereça, no mesmo livro, desenhos belíssimos e arrebatadores e desenhos que, não sendo maus, parecem menos profissionais. E isso invalida que este livro possa chegar a voos mais altos.

A Odisseia de Homero, de Gareth Hinds - Bertand Editora
Outro dos grandes problemas da obra é a quantidade de texto. Percebo perfeitamente a dificuldade de condensar uma epopeia de cerca de 500 páginas numa BD com cerca de 250, mas o equilíbrio aqui não foi o ideal. Há páginas sufocadas por texto, onde a imagem quase pede desculpa por existir. Das duas, uma: ou se mantinha a mesma quantidade de texto, mas dividido por mais páginas; ou se mantinha o mesmo número de páginas, mas com menos texto. 

Além disso, a legendagem, procurando, através da font utilizada, ter uma aparência mais antiga, também não funciona muito bem, fazendo com que algumas páginas se tornem penosas para ler. Os balões ocupam demasiado espaço e não dialogam bem com o tipo de ilustração de Hinds, quebrando o ritmo da leitura.

Fui confirmar a edição original e posso assegurar que este problema não é culpa da edição portuguesa. A Bertrand limitou-se a respeitar o aspecto original da obra. 

E por falar na Bertand, posso dizer que a edição da obra tem uma boa qualidade, com capa mole com badanas, bom papel baço no miolo do livro e boa encadernação e impressão.

Apesar de todos os reparos, há que reconhecer o mérito evidente desta adaptação. A Odisseia de Homero, de Gareth Hinds, é uma obra honesta, ambiciosa e culturalmente importante, que consegue o que muitas adaptações falham: respeitar o texto original sem o tornar inacessível. E mesmo com as suas irregularidades, é uma obra que se lê com interesse, que tem momentos visualmente belos e que cumpre aquilo a que se propõe: contar, em linguagem de BD, uma das maiores histórias alguma vez escritas. Acaba por ser uma adaptação agradável, e que supera - em muito - uma outra adaptação para banda desenhada da mesma obra, da autoria e Christophe Lemoine e Miguel de Lalor Imbiriba, editada pela Levoir em Portugal, há uns anos. 


NOTA FINAL (1/10):
6.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Odisseia de Homero, de Gareth Hinds - Bertand Editora

Ficha técnica
A Odisseia de Homero
Autor: Gareth Hinds
Editora: Bertrand
Páginas: 256, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 160 x 240 mm
Lançamento: Janeiro de 2026

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