Seguramente um dos grandes (re)lançamentos de banda desenhada em Portugal do ano 2025, foi este O Grande Poder do Chninkel, dos autores Van Hamme e Rosinski, que hoje vos trago e que a Arte de Autor nos fez chegar no passado mês de Setembro.
Esta é uma dessas obras raras que parecem existir fora do tempo, pois, mesmo sendo lida nos dias de hoje, quase quatro décadas após a sua publicação original em 1988, mantém intacta a sua força simbólica, narrativa e visual. Van Hamme e Rosinski oferecem-nos com este O Grande Poder do Chninkel um álbum que não só marcou a banda desenhada franco-belga, como ajudou a alargar definitivamente as fronteiras do que a BD podia - e pode - ser: um espaço de reflexão filosófica, espiritual e profundamente humana.
E o mais engraçado é que, à primeira vista, nada leva a crer que esta obra seja assim tão filosófica e profunda, pois a mesma lança-nos num universo de fantasia heroica, habitado por pequenas criaturas oprimidas, guerras tribais e deuses caprichosos. Dentro do seu género, parece "mais do mesmo". Mas rapidamente se percebe que O Grande Poder do Chninkel não está interessado apenas em espadas e batalhas. O que está em jogo é algo bem mais vasto: a eterna luta entre o destino imposto e o desejo visceral de liberdade. O livre arbítrio em oposição a ser-se supostamente predestinado para isto ou para aquilo. Um tema que o argumentista Jean Van Hamme trabalha aqui com uma bela dose de clareza.
J'On, o improvável herói da história, é uma figura fascinante precisamente por não corresponder ao arquétipo clássico do salvador triunfante. Inspirado em figuras bíblicas como Moisés e Jesus, ele é simultaneamente mártir e redentor. E, por muito que o próprio J'On se convença disso, o seu verdadeiro poder não reside na força física - e muito menos na intervenção divina direta -, mas na capacidade de perdoar, de resistir ao ódio e de aceitar o sofrimento como parte do caminho. É isso, afinal de contas, o que nos faz grandiosos. Algo que já nos foi dito mil vezes, mas que parece que o acabamos por esquecer no mesmo número de vezes.
Essa dimensão espiritual da obra, com forte influência no Novo Testamento da Bíblia Sagrada e, portanto, na vida de Jesus Cristo, nunca é apresentada de forma dogmática. Pelo contrário, Van Hamme mistura referências bíblicas com um humor negro e fatalista, quase cruel, que sublinha a fragilidade da condição humana. As repetidas tentativas falhadas de J’On para conquistar a voluptuosa G'Well, a sua mais desejada do que amada, são um exemplo perfeito dessa ironia trágica que atravessa todo o álbum e lhe confere uma humanidade verossímil. Não parece haver uma crítica aguda à religião, mas, acima de tudo, uma reinterpretação dos seus cânones. Ou uma colocação dos mesmos em perspetiva.
Este universo da fantasia imaginada por Van Hamme é depois construído com uma verosimilhança impressionante e com um enorme conjunto de referências óbvias, com vários mitos a serem revisitados, desconstruídos e reinventados ao longo da obra, numa mistura ousada de fantasia heroica, inspiração bíblica e imaginário cinematográfico. E, ainda assim, o grande feito da obra é que tudo soa coeso, natural e bastante bem pensado. Continuando a mencionar algumas das referências, há aqui ecos evidentes dos hobbits de Tolkien. A estas influências juntam-se referências cinematográficas que ampliam ainda mais o alcance da obra, sendo que a alusão final a 2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, com os australopitecos a dançar em torno do monólito, não é apenas um piscar de olho cinéfilo, mas uma afirmação poderosa sobre os ciclos que marcam qualquer existência, incluindo a própria evolução, fechando o álbum com uma ambição quase cósmica.
Por falar em fecho, uma das muitas coisas cabalmente bem conseguidas com esta obra é a forma como Van Hamme conduz tudo para um final absolutamente certeiro em que nada parece aleatório ou gratuito. Um final que nos deixa um sorriso discreto no rosto e uma pergunta persistente na mente.
Não é difícil imaginar esta história adaptada ao cinema. O seu universo visual forte, a estrutura quase bíblica e o arco emocional de J’On dariam origem a um filme poderoso, capaz de dialogar tanto com o grande público como com espectadores mais exigentes. É uma narrativa que pede outras leituras, outros meios, sem nunca perder a sua essência.
Outra coisa positiva é que este livro, originalmente publicado no final dos anos oitenta, envelheceu muito bem. Este é um assunto delicado para muitos, bem sei, mas por vezes sinto que certas obras consideradas marcos na banda desenhada - com toda a legitimidade, diga-se - não envelheceram muito bem, tornando-se demasiado datadas e presas aos constrangimentos e modus operandi da própria época em que foram feitas. O Grande Poder do Chninkel não é um desses casos. Sendo uma história universal, poderá ser lida daqui a 10, 50 anos com a mesma relevância. Bem, talvez a brigada woke se choque com o flirt despudorado de de J'On a G'Wel, mas quero acreditar que não. Todos estes elementos de fantasia, bem como as mensagens e as referências se mantêm bem-vindos e atuais.
E a própria edição da obra a preto e branco também permite isso. Mais uma vez, talvez esta afirmação seja polémica, mas se há coisas em que a passagem do tempo se revela com mais veemência é na questão das cores. Mais do que o desenho, os processos de colorização passaram a ser muito diferentes com a passagem dos anos. Tal como a cor da fotografia, ou do cinema ou da televisão. E não quer dizer que a cor de obras das outras décadas seja melhor ou pior... quer dizer isso mesmo: que é de "outra época". E se isso pode agradar a um público que procura esse regresso ao passado, não agradará às franjas maiores que, entretanto, evoluíram para outras abordagens cromáticas. Ora, quando estamos a falar do preto e branco, nada disto acontece. O preto e o branco, especialmente o puro, sem escala de cinzentos, não muda e mantém-se sempre atual. Mas já falo desta questão do preto a branco novamente, mais abaixo.
Importa ainda sublinhar o trabalho de Grzegorz Rosinski, que em O Grande Poder do Chninkel nos apresenta uma criação plena de liberdade, talvez precisamente por estar fora das amarras canónicas e narrativas da série Thorgal. É óbvio que há semelhanças entre uma e outra obra em termos visuais, mas aqui, o desenhador sente-se mais solto, mais experimental, mais autoral. O preto e branco não é apenas uma opção estética, mas uma verdadeira ferramenta expressiva que lhe permite explorar contrastes, texturas e atmosferas com uma força quase visceral. Há um traço mais cru e mais arriscado que reforça a dimensão trágica e simbólica da história. O resultado é uma obra visualmente poderosa, que não serve apenas o argumento de Van Hamme, mas dialoga com ele de igual para igual, elevando O Grande Poder do Chninkel a um patamar verdadeiramente excecional.
Graficamente, Rosinski atinge, pois, com esta obra um dos pontos mais altos da sua carreira. Liberto da cor, o preto e branco ganha uma expressividade brutal. As páginas respiram, os enquadramentos são precisos e a escala das cenas impressiona ainda hoje.
A edição da Arte de Autor está um mimo para os olhos e mente. O livro apresenta capa dura baça, com verniz localizado. A lombada é em tecido e com impressão a prateado. No miolo, o papel é baço e de boa qualidade, tal como a impressão e a encadernação. Há ainda uma breve nota introdutória de João Miguel Lameiras. No final do livro, encontramos um grande dossier de extras, com 20 páginas, em que somos convidados a mergulhar ainda mais na obra. Há um texto de Benoît Mouchard e extensas entrevistas feitas aos autores Van Hamme e Rosinski, que são acompanhadas por várias ilustrações a cores, esboços e pranchas coloridas, bem como as capas dos três volumes em que a obra foi originalmente editada. É demonstrada ainda a comparação entre uma prancha a preto e branco e uma prancha colorida.
Sobre esse assunto, convém que não esqueçamos que a edição da obra a preto e branco vai ao encontro da ideia inicial dos dois autores. Esta obra foi pensada e concebida para ser a preto e branco. Portanto, são infundadas algumas das críticas que li em relação à opção da Arte de Autor por lançar a obra em preto e branco. Não se pode ser mais fiel a uma obra do que editá-la da exata forma que os autores queriam, certo? Compreendo que, com o anterior lançamento da obra na sua versão a cores, no início dos anos 2000, pela Meribérica, muitos de nós - inclusive eu - nos tenhamos apaixonado por essas cores. De facto, essas cores estavam boas. Mas, lá está, essa versão, sim, desvirtuava a ideia original que os autores tinham para a obra. Façam como eu e optem por ter as duas versões da obra em casa. Acho que justifica, sinceramente. Se só poderem ter uma, optem pela versão a preto e branco.
No fim de contas, O Grande Poder do Chninkel é uma história magnífica, poética e filosófica que ainda hoje está atual e impactante. Um verdadeiro marco da banda desenhada franco-belga, um conto universal que todos deveríamos ler - sejamos nós adeptos de BD ou não. Um daqueles livros que merece, sem discussão, um lugar de destaque numa boa estante de banda desenhada.
NOTA FINAL (1/10):
9.6
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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O Grande Poder do Chninkel - Edição Integral
Autores: Van Hamme e Rosinski
Editora: Arte de Autor
Páginas: 184, a preto e branco (con caderno de extras a cores)
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Setembro de 2025
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