segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Análise: The Ghost In The Shell

The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House

The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House
The Ghost In The Shell, de Shirow 
Masamune

Fiquei especialmente satisfeito quando, no ano passado, soube que a Distrito Manga, a chancela pertencente ao grupo editorial Penguin Random House totalmente dedicada à edição de mangás, iria editar a obra The Ghost In The Shell que, quanto a mim, é uma obra emblemática e totalmente recomendada! Para todos! Quer para os amantes do mangá (de forma genérica), quer para os amantes de distopias futuristas, de obras de ficção científica ou do subgénero cyberpunk. E, já agora, quer até para os amantes de uma boa história.

No total, são 3 os volumes desta obra que, com poucos meses de intervalo, foram sendo editados pela Distrito Manga. É verdade que o primeiro volume desta obra já havia sido editado em Portugal pela extinta editora JBC, mas não só o mesmo estava extinto das livrarias portuguesas, como faltava editar os restantes dois volumes.

The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House
Criada por Shirow Masamune, esta é uma das obras mais influentes da ficção científica contemporânea. E quando falo em "obras mais influentes da ficção científica contemporânea" não me refiro a obras de banda desenhada... refiro-me a todo o tipo de obras! Literatura, cinema, séries ou videojogos. Publicada originalmente no final dos anos 80 e início dos anos 90, The Ghost In The Shell apresenta um universo cyberpunk denso, tecnológico e filosoficamente inquietante. A história acompanha a Major Motoko Kusanagi, uma agente cibernética num mundo onde as fronteiras entre humano e máquina se tornaram cada vez mais difusas.

Desde o início, a obra destacou-se pela sua abordagem madura e complexa de temas como identidade, consciência e livre-arbítrio. O conceito de haver um “ghost”, que podemos considerar a essência ou consciência humana, inserido num “shell”, um corpo artificial, é explorado com uma profundidade rara, mesmo quando comparado com outras obras de ficção científica. E o que é mais interessante é que a reflexão proposta por Masamune, passados mais de 30 anos, permaneça atual numa era dominada por inteligência artificial, próteses avançadas e debates sobre a cada vez maior presença de máquinas na vida dos homens. Incluindo nos seus próprios corpos.

The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House
A relevância da obra para o estilo cyberpunk é, também ela, incontornável. Não foi a obra que criou o termo nem o género, mas é inquestionável que ajudou decisivamente a expandi-lo e a redefini-lo visual e filosoficamente. Aliás, a adaptação animada de 1995, realizada por Mamoru Oshii, foi, se bem se lembram, fundamental para internacionalizar a estética cyberpunk japonesa e influenciou fortemente o cinema ocidental posterior. Este é um daqueles casos em que, à semelhança de Akira, também editado pela Distrito Manga, a adaptação do mangá para obra de animação teve um enorme sucesso. Conheço várias pessoas que não leem banda desenhada e que são fãs de cada uma destas obras cinematográficas. Isso deixa-me um bocado triste, porque sou sempre defensor da "obra-mãe", especialmente quando se trata de banda desenhada, mas, ainda assim, prefiro que as pessoas conheçam as obras, mesmo que num outro meio que não o original.

Se o anime é bom, a verdade é que o mangá mantém uma identidade própria, com maior densidade técnica e uma inclinação mais explícita para discussões filosóficas e políticas. A combinação de redes digitais omnipresentes, cidades hiper-tecnológicas e questões existenciais continuar a ecoar no leitor que se depara com esta obra. 

The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House
Outro aspeto relevante é a construção do mundo. A sociedade apresentada não é apenas pano de fundo, mas um organismo vivo, moldado por redes de informação, corrupção política e avanços tecnológicos. Essa densidade estrutural confere credibilidade ao universo narrativo e amplia o alcance temático da obra. Reitero que, nos tempos que correm, The Ghost in the Shell assume uma importância renovada. A crescente presença de inteligência artificial, vigilância digital e manipulação de dados torna as suas questões ainda mais pertinentes. O mangá antecipou dilemas éticos que hoje são discutidos em fóruns académicos e políticos reais.

Além disso, a obra desafia noções fixas de identidade. Num mundo em que corpos podem ser substituídos e memórias hackeadas, o que define o “eu”? Esta pergunta, central no mangá, ressoa fortemente numa sociedade cada vez mais mediada por avatares digitais e redes sociais.

Outro ponto a que quero dar ênfase é a originalidade da obra em misturar ação tática e especulação teórica. Shirow Masamune alterna sequências de combate altamente detalhadas com páginas densas em texto explicativo, quase ensaístico. Essa combinação pode exigir mais atenção do leitor, mas recompensa-o com uma experiência intelectualmente estimulante. Devo dizer que neste ponto das notas adicionais do autor, apresentadas em rodapé, numa dimensão pequena do texto de forma a conseguir albergar todos os comentários de Shirow, pode haver um certo exagero que distrai até da trama principal. Mesmo assim, também é algo que merece algum mérito. Mais não seja pela dedicação do autor à sua obra.

The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House
Falando agora dos três volumes que compõem esta trilogia enquanto um todo, devo dizer que há bastantes diferenças - mesmo no foro qualitativo - entre os três livros. O primeiro volume é o claro ponto alto da série. Tanto pela sua importância histórica no género cyberpunk como pelo equilíbrio entre história, personagens e atmosfera futurista. É o volume que introduz a Major Motoko Kusanagi, a Secção 9 e os temas centrais de identidade, consciência e tecnologia, acabando por ser até o mais acessível e marcante para quem entra na saga pela primeira vez, mesmo que a sua narrativa seja episódica e densa em detalhes técnicos.

O Volume 1.5 é intermédio em termos de qualidade. Trata‑se de uma coleção de histórias curtas focadas em investigações da Secção 9 e problemas técnicos. Funciona bem e acaba por ser quase como um volume de material adicional interessante, mas menos marcante do que o Volume 1 clássico.

Já no Volume 2, pareceu-me que Shirow se perdeu na sua própria divagação existencialista, "navegando em demasia na maionese". A história é confusa e desarticulada, sendo menos coerente e até incompreensível nalguns pontos. Confesso-vos: não gostei e tive até dificuldades para conseguir acabar de ler este volume.

The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House
Lá está, se tiverem interesse na obra, mas não a conhecerem, o meu conselho é que experimentem ler o primeiro volume - ou mesmo o volume 1.5, para terem um "cheirinho" deste universo -, mas afastem-se do segundo volume. É claro que a minha veia colecionista me "obriga" a ter a trilogia completa, mas, neste caso em concreto, aqueles que não conhecem a obra ficam bem servidos só com o primeiro volume.

Visualmente, o desenho de Shirow Masamune é extremamente apelativo. O traço é detalhado, preciso e tecnicamente impressionante, sobretudo na representação de maquinaria, armas e interfaces digitais. Ao mesmo tempo, as personagens possuem expressividade e presença marcantes, equilibrando o lado técnico com uma forte componente humana. As personagens femininas apresentam formas descaradamente voluptuosas que, ainda por cima, assumem poses verdadeiramente sexy. São desenhos que me agradam, sem dúvida. Os cenários são "verdadeiramente desenhados", coisa que, como sabemos, nem sempre acontece com mangás, onde os cenários são muitas vezes fotografias retocadas de forma a parecerem desenhos.

O segundo livro da trilogia apresenta um estilo de desenho mais digital que, embora pareça fazer um ligação mais direta ao anime, me agradou menos por ser mais artificial e menos dinâmico. No entanto, apreciei que houvesse um maior número de páginas a cores neste volume, em comparação com os restantes dois livros.

The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House
Por falar nisso, as páginas a cores são especialmente bonitas e demonstram o cuidado estético do autor. A aplicação de cor valoriza o desenho das personagens e a atmosfera futurista, criando composições vibrantes e sofisticadas. Ainda assim, poderia haver um maior número dessas páginas, já que enriquecem significativamente a experiência visual. Mas, lá está, esta minha última frase poderia ser aplicada a (quase) todos os mangás.

A edição dos livros é numa espessa capa dura, com detalhes a verniz. No interior, o papel é baço e de boa qualidade. Diria mesmo que, comparando com outros mangás editados em Portugal, o papel deste livro é francamente melhor. Dois dos livros incluem ainda posfácios do autor. Nota ainda para a oferta de uma caixa arquivadora que a editora providenciou a quem comprasse o livro no site da editora. Limitado ao stock existente, claro. Achei uma boa ideia, pois gosto de caixas arquivadoras e considero-as um "plus" positivo para os colecionadores de plantão.

Em síntese, The Ghost in the Shell permanece uma obra seminal, tanto pela sua originalidade conceptual como pelo impacto estilístico que gerou. O traço apelativo de Shirow Masamune, as belas páginas a cores e a profundidade filosófica fazem deste mangá uma leitura indispensável. Mais do que um clássico do cyberpunk, é uma reflexão visionária sobre o futuro da humanidade que recomendo a toda a gente. Pelo menos, o primeiro volume da obra deve figurar numa boa estante de banda desenhada!


NOTA FINAL (1/10):
The Ghost In The Shell - Livro 1: 9.2
The Ghost In The Shell - Livro 1.5: 8.0
The Ghost In The Shell - Livro 2: 5.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House

Fichas técnicas
The Ghost In The Shell - Livro 1
Autor: Shirow Masamune
Editora: Distrito Manga
Páginas: 360, a preto e branco (e algumas páginas a cores)
Encadernação: Capa dura
Formato:175 x 250 mm
Lançamento: Setembro de 2025

The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House

The Ghost In The Shell - Livro 2
Autor: Shirow Masamune
Editora: Distrito Manga
Páginas: 320, a cores 
Encadernação: Capa dura
Formato: 175 x 250 mm
Lançamento: Outubro de 2025

The Ghost In The Shell, de Shirow Masamune - Distrito Manga - Penguin Random House

The Ghost In The Shell - Livro 1.5
Autor: Shirow Masamune
Editora: Distrito Manga
Páginas: 192, a cores e a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 175 x 250 mm
Lançamento: Janeiro de 2026

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