Há obras que, independentemente da idade com que as descobrimos, mantêm um magnetismo especial na nossa estante. E este História Alegre de Portugal, de Artur Correia, é, sem sombra de dúvida, um desses marcos incontornáveis da banda desenhada nacional. O que o autor conseguiu com esta obra, foi transformar a herança literária de Manuel Pinheiro Chagas num objeto visual vibrante, capaz de atravessar gerações sem perder a frescura. Ainda hoje é uma obra que merece ser (re)conhecida por novas gerações. E, por tudo isso, fiquei satisfeito quando soube que a editora Bertand iria reeditar este livro sobejamente conhecido da banda desenhada portuguesa.
De facto, a proposta de contar a História de Portugal de forma leve e cativante foi, sem dúvida, uma das razões pelas quais esta BD se destacou no panorama literário português, aquando do seu lançamento original, ainda nos anos 1970.
A narrativa começa com João, um antigo mestre-escola que decide compartilhar as suas experiências e conhecimentos com os habitantes de Agualva. Esta personagem acaba por ser o elo entre o passado e o presente, permitindo que os leitores se sintam imersos naquela que é uma autêntica viagem no tempo, ficando no ar a ideia de que História não é - ou, pelo menos, pode não ser! - um mero conjunto enfadonho de datas estáticas.
É verdade que estamos perante uma BD de cariz assumidamente didático, mas, lá está, sem que seja uma aborrecida aula de história, mas uma abordagem simples, direta e divertida que põe de lado os formalismos pesados dos manuais escolares. É desse modo que a obra nos guia pela História da nação portuguesa, desde os primórdios da nossa fundação, pelas mãos de D. Afonso Henriques, até ao final do século XIX.
É uma viagem cronológica, dividida de forma episódica, que se foca naquilo que torna a narrativa histórica cativante: a ação e a personalidade dos seus protagonistas. E, claro, é uma obra onde há espaço para o humor, que é uma constante ao longo das páginas, com piadas e trocadilhos que tornam a leitura leve e divertida.
A baliza temporal, que termina em 1895, não é um acaso, pois coincide com o ano da morte de Manuel Pinheiro Chagas, o autor original da obra que serviu de base a esta adaptação. Esta ligação ao texto do século XIX confere à BD um sabor clássico, mas que Artur Correia soube revitalizar com um ritmo narrativo moderno - pelo menos à altura da criação original desta BD, em 1978 - e uma linguagem visual que apela tanto aos mais novos como aos leitores mais velhos.
Além disso, uma das coisas que torna rapidamente reconhecível a obra, assim que a abrimos, é o traço de Artur Correia, colorido e marcadamente "cartoonesco" e caricatural. Deste modo, podemos olhar para as grandes figuras históricas de Portugal de um modo divertido, ainda que respeitador.
Obviamente, é este registo visual que assegura que a abordagem seja leve e humorística. Mas é um humor que não é gratuito ou meramente focado numa piada pois, em sentido oposto, serve como um veículo para a aprendizagem. Ao rirmos, por exemplo, de uma expressão de D. João I ou de uma situação caricata durante os Descobrimentos, acabamos por reter na memória o acontecimento de forma muito mais eficaz do que através da leitura de um texto meramente factual. Especialmente se formos crianças.
Embora, ainda assim, me pareça que a obra também deve ser lida por um público adulto, seja por uma questão de obtenção de cultura geral, seja com o intuito de uma aproximação à obra de um dos grandes autores nacionais de banda desenhada.
Além disso, esta é uma edição que também se reveste de uma tentativa editorial de chegar a um público maior. Àquele que não tem por hábito a leitura de BD, mas que se pode interessar pela abordagem leve e divertida ao tema, e, também, ao público mais internacional ou estrangeiro.
Talvez seja por isso que a Bertand optou por editar a obra em português, mas também em inglês, com o título A History of Portugal. Acredito, por isso, e espero, que este livro possa surgir, para além das livrarias, nas muitas lojas turísticas espalhadas pelo país.
A edição da Bertrand é em capa mole, com badanas, baça e com verniz localizado. No miolo o papel é baço e de boa qualidade, com a encadernação e impressão a serem igualmente boas. Como é uma obra que considero de ser de consulta, penso que teria sido bem-vinda, no fim ou no início do livro, um índice cronológico para os vários episódios aqui constantes.
Em suma, História Alegre de Portugal é, acima de tudo, um livro que nos faz sorrir perante o nosso passado luso, provando que a História, quando bem desenhada, é tudo menos aborrecida. Continua a ser um clássico da 9ª arte portuguesa que deve ser relembrado e oferecido a todo um grupo de novos leitores, tenham eles a idade - ou nacionalidade - que tiverem.
NOTA FINAL (1/10):
8.2
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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História Alegre de Portugal
Autor: Artur Correia
Adaptado a partir da obra original de: Manuel Pinheiro Chagas
Editora: Bertrand
Páginas: 256, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 166 x 242 mm
Lançamento: Janeiro de 2026
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