segunda-feira, 2 de março de 2026

Análise: Old Pa Anderson | Redenção

Old Pa Anderson | Redenção, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor

Old Pa Anderson | Redenção, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
Old Pa Anderson | Redenção, de Hermann e Yves H.

O primeiro livro de banda desenhada editado pela Arte de Autor em 2026 trouxe-nos mais um livro da dupla de autores formada por Hermann e Yves H. Desta feita, através de um volume duplo que inclui as histórias Old Pa Anderson e Redenção. A primeira decorre durante os anos 1950 - sendo, por isso, uma história mais contemporânea - enquanto que a segunda é um western mais clássico na abordagem.

A capa pode induzir-nos em erro e levar-nos a crer que estamos perante um duplo western, mas, como já disse, são duas narrativas passadas em períodos distintos. Mesmo assim, a junção dos dois livros num só volume não choca já que, além da autoria das obras, há aqui um denominador comum: a violência. Ambas as histórias nos transportam para ambientes duros, personagens moralmente ambíguas e uma violência extrema que, não obstante, também não é gratuita, mas antes consequência de contextos sociais e humanos muito específicos. 

Old Pa Anderson | Redenção, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
Pai e filho (Yves H. ou Yves Hermann é filho de Hermann, para quem não sabe) voltam a trabalhar em conjunto num livro que, mesmo com diferenças claras de qualidade entre as duas histórias, se revela uma leitura interessante e consistente no seu tom sombrio.

Em Old Pa Anderson, originalmente editado no ano 2016, somos transportados para o sul profundo dos Estados Unidos do início dos anos 50, para um Mississipi sufocado pela segregação racial, onde o racismo estrutural dita leis não escritas e onde o homem branco parece deter o direito à vida e à morte sobre a população negra. É um cenário historicamente envenenado e a narrativa também não procura suavizar arestas: pelo contrário, mergulha de frente na brutalidade desse período. E ainda bem que o faz, digo eu.

A premissa é simples: um velho afro-americano decide agir depois da morte da sua esposa e do assassinato impune da neta. Portanto, podemos dizer que a narrativa é tão linear quanto isso. Trata-se, pois, e sem rodeios, de uma história de vingança. Contudo, essa aparente simplicidade não impede que o impacto seja profundo. Pelo contrário, é precisamente essa frontalidade que torna o álbum tão eficaz. A injustiça racial é sentida em cada página, e o leitor é confrontado com uma revolta que se adensa vinheta após vinheta. .

Old Pa Anderson | Redenção, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
Em vários momentos, não consegui evitar a associação a filmes como Tempo de Matar, com Matthew McConaughey e Samuel L. Jackson, ou Mississipi em Chamas, com Gene Hackman e Willem Dafoe. Não porque a narrativa lhes seja semelhante em termos estruturais, mas porque partilha essa mesma sensação de indignação perante um sistema judicial cúmplice e uma sociedade profundamente racista e segregadora.

O enredo pode ser básico, sim, mas é muito bem conduzido. Yves H. demonstra maturidade ao não dispersar a narrativa em subtramas desnecessárias. O foco mantém-se no essencial: a dor, a humilhação, a perda e a inevitável resposta. Tão violenta quanto possível. Cada passo dado pelo protagonista da história é sentido como a consequência lógica de um mundo que lhe negou qualquer forma de justiça e lhe tirou o seu bem mais precioso.

Nem todos os livros da dupla Hermann/Yves H. têm sido particularmente felizes. Há álbuns que passaram quase despercebidos ou que não atingiram o impacto esperado. Contudo, Old Pa Anderson é, muito provavelmente, um dos melhores trabalhos que pai e filho produziram em conjunto. Pode não ser brilhante em todos os aspetos, mas é um bom livro, coeso, simples e emocionalmente forte, que prende o leitor da primeira à última prancha.

Há ainda um mérito adicional da obra, pois funciona como lembrete histórico da segregação racial nos Estados Unidos, não se tratando de uma lição académica, mas de um retrato humano que expõe feridas ainda longe de estarem completamente saradas. Ainda nos tempos presentes...

Old Pa Anderson | Redenção, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
Redenção, leva-nos para outro território... o do western clássico. Aqui, o foco desloca-se para uma história de cowboys, num faroeste duro - muito duro mesmo! - onde a violência atinge patamares igualmente elevados. A herança da culpa e o peso dos atos passados estruturam uma narrativa centrada numa relação pai/filho marcada pela ausência, pelo crime e por escolhas erradas.

Buck Carter, pai de um rapaz que não herdará propriamente virtudes, é um homem sem escrúpulos procurado por um xerife de métodos rápidos e expeditos. Buck abandonou a sua família mesmo no exato momento em que esta mais precisava de si. Ao fazê-lo, não só traiu aqueles que mais amava - ou que deveria amar - como despojou a sua vida de qualquer sentido profundo, transformando-se num fora-da-lei implacável e procurado. Não há aqui espaço para heróis tradicionais. Até porque o seu filho não se revela muito melhor. Na verdade, quase só encontramos vilões nesta história, o que até vai ao encontro do faroeste duro, sujo e violento que mais aprecio. 

Ainda que não seja um livro que se lê mal - e, na verdade, ambos os livros até se leem bastante depressa - comparativamente falando, Redenção, originalmente editado em 2015, não está ao mesmo nível de Old Pa Anderson. A história, apesar de competente, revela-se mais previsível e oca e, no final, algo esquecível. Falta-lhe, quanto a mim, o peso emocional e a relevância temática da primeira narrativa. 

Old Pa Anderson | Redenção, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
Quanto à questão visual da obra, temos um Hermann inspirado. É verdade que, nos últimos anos, o autor nos tem oferecido obras onde fica aquém daquilo que produziu nos seus anos dourados. No entanto, aqui entrega-nos um trabalho bastante belo, com desenhos expressivos e, claro, uma aguarela muito própria, que continua a ser uma das suas imagens de marca. Quer em Old Pa Anderson, com veículos clássicos num ambiente mais citadino e urbano, quer em Redenção, com cavalos e pradarias de perder de vista no Wyoming, o autor revela-se inspirado.

Claro que nem tudo é irrepreensível. Encontramos, por vezes, pranchas algo desequilibradas, onde uma vinheta verdadeiramente impressionante convive com outra em que determinada personagem surge numa pose menos credível. Esse ligeiro desnível gráfico tem sido mais comum no Hermann das últimas duas décadas. Ainda assim, este livro mantém uma qualidade gráfica muito agradável.

A edição da Arte de Autor está bastante bonita. O livro tem uma capa própria, retirada de uma vinheta do livro Redenção, que nos é dada em capa dura, com um bonito acabamento aveludado. No interior, o papel é brilhante e de boa qualidade e o trabalho efetuado ao nível da encadernação e da impressão também é bom. Parece-me que a editora optou bem por colocar a melhor história em primeiro lugar no livro, mas talvez pudesse ter - também por isso - escolhido uma imagem de Old Pa Anderson para a capa do livro.

Em suma, este álbum duplo que nos traz um Hermann ainda bastante em forma, funciona especialmente bem, graças à primeira das duas histórias que nos oferece um dos melhores trabalhos conjuntos da dupla. No seu todo, é uma leitura dura e violenta, recomendável especialmente para quem aprecia um Hermann capaz de revisitar o seu melhor registo humanista e implacável.


NOTA FINAL (1/10):
8.7


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Old Pa Anderson | Redenção, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor

Ficha técnica

Old Pa Anderson | Redenção
Autores: Hermann & Yves H.
Editora: Arte de Autor
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Fevereiro de 2026


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