Foi recentemente que a editora ASA editou dois volumes de Blake e Mortimer: A Ameaça Atlante, de Yves Sente e Peter Van Dongen; e A Dupla Exposição, de James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux. Este último, inserido na série As Micro-Aventuras de Blake e Mortimer, não é bem um álbum de Blake e Mortimer, pelo menos no sentido canónico da questão, pois é um livro de texto em prosa sobre aventuras da dupla que depois é complementado por ilustrações. Nem sequer é de banda desenhada. Já o primeiro livro, esse sim, é um livro pertencente à série principal, canónica, de Blake e Mortimer.
Infelizmente, e por muito que eu gostasse de ter uma opinião mais favorável, nem um nem outro são livros que eu possa recomendar àqueles que são adeptos de um bom livro de banda desenhada. Mesmo aos amantes da série, eu tenho que recomendar alguma cautela na escolha destes livros.
Começando por A Ameaça Atlante, este livro revelou-se uma verdadeira decepção. Embora Blake e Mortimer seja uma série que tem um lugar indiscutível na história da banda desenhada europeia, este álbum mostra o desgaste de uma fórmula que já não convence fora do círculo dos leitores mais saudosistas. O que antes era admirável pela ousadia e pelo rigor estético, hoje soa forçado e anacrónico. Muito forçado e muito anacrónico, sinceramente.
Hoje em dia, Blake e Mortimer é uma série que só facilmente consegue agradar aos fãs nostálgicos, aos que ainda se sentem fascinados pela reconstituição de um imaginário dos anos 1950. Mas o problema, quanto a mim, é que a junção de história clássica com ficção científica tende, por definição, a não funcionar bem, pois deixa-nos com um travo demasiadamente kitsch. Continuo a defender que a tentativa de continuar a fazer ficção científica centrada nesse período, ignorando os avanços e as sensibilidades do século XXI, falha redondamente. À luz da realidade em que vivemos, o mundo de Blake e Mortimer parece uma reconstrução de um museu, estático e ultrapassado.
A ideia da história deste livro até tinha algum potencial, uma vez que a narrativa opta por continuar os acontecimentos de O Enigma da Atlântida, um dos álbuns mais célebres da série originalmente criada por Edgar P. Jacobs.
Philip Mortimer viaja para a Escócia para embarcar numa missão governamental para o estudo de antigas terras vulcânicas e para que possa testar a viabilidade de uma instalação geotérmica. É então que a personagem toma contacto com estranhos fenómenos que estão a afetar todo o Mar do Norte e que resultam de nuvens de gazes tóxicos, bem como de um tsunami gigantesco. Para além das vítimas causadas por estes estranhos fenómenos, aparecem ainda corpos mumificados a boiar no Mar do Norte. Sou-vos sincero: este livro começa bem e a premissa inicial prendeu-me. Mas depressa esse interesse inicial deu lugar a uma sensação de frustração.
Isto porque rapidamente o enredo se começa a atropelar a si mesmo deixando a história cada vez mais desinspirada e inverosímil. Nota-se o esforço do argumentista Yves Sente em imitar o estilo de Edgar P. Jacobs, mas fá-lo sem alcançar o seu encanto ou a sua coerência, deixando que o texto, além de enorme - mas isso já é comum à série - se enrede em explicações longas e desnecessárias.
Igualmente desastrada é a tentativa de Yves Sente de justificar continuamente as pontes entre as obras de Jacobs e a sua própria criação. As longas páginas de exposição e contextualização soam forçadas. Em vez de integrar harmoniosamente a herança original, o autor parece colar fragmentos antigos e novos. Mas com uma "cola" pouco consistente. O resultado é uma narrativa rígida e olvidável, que tenta parecer densa, mas apenas se torna confusa e cansativa. A história parece costurada a partir de fragmentos soltos, sem uma lógica verdadeiramente consistente e com demasiadas passagens a soarem infamemente artificiais.
A própria lógica científica que se procura dar ao intento é bastante incoerente, minando a própria credibilidade da narrativa. Se fosse uma paródia ou um exercício de humor, talvez resultasse; mas sendo um livro que se leva a sério, torna-se penoso.
Como se não bastasse, a previsibilidade das histórias atinge (novamente!) o seu ponto mais notório com a insistente presença de Olrik. Esta personagem, que devia ser um símbolo do antagonismo engenhoso de Jacobs, converte-se agora, em todos os livros, num clichet. Espanta-me que na editora original da obra, ninguém diga: "se calhar, desta vez não usávamos o Olrik, não?" A sua aparição em cada novo álbum já não causa surpresa, acabando por ser uma quase paródia involuntária. Como nos episódios de Scooby-Doo, o leitor já sabe sempre quem é o “vilão mascarado” antes mesmo de o rosto ser revelado. E Blake e Mortimer parece ter chegado a essa bitola. O que é lamentável, pois esta repetição constante destrói qualquer hipótese de suspense. Em vez de alimentar o mistério, reduz o universo narrativo a um ciclo mecânico e previsível. É difícil acreditar que, após tantas décadas, não se tenha encontrado uma forma diferente de desafiar os protagonistas. A persistência de Olrik é, de facto, o testemunho mais evidente da falta de originalidade e da dificuldade em reinventar a série.
Visualmente, o trabalho de Peter Van Dongen funciona bem, mantendo uma boa ponte com o estilo gráfico, em linha clara, de Edgar P. Jacobs. Nem sempre é perfeito, existindo algumas vinhetas menos perfeitas, especialmente ao nível dos cenários e dos ambientes interiores, mas diria que não é por aí que o álbum falha. É eficiente.
Falando de A Dupla Explosão, que nos procura dar um texto em prosa, mais uma aventura de Blake e Mortimer, devo dizer que, inicialmente, gostei da ideia arquitetada por James Guth e Sonja Shillito. Blake e Mortimer são convidados para a Feira Mundial de 1964 e acabam expostos aos raios de uma máquina que os reduz à escala milimétrica. Uma premissa que facilmente nos remete para o filme Querida, Encolhi os Miúdos. Blake e Mortimer ficam assim presos num universo futurista, vendo-se forçados a superar esta desvantagem física que lhes é imposta. É uma história algo inusitada, mas que até me agradou. Talvez pudesse ser um pouco mais profunda e mais bem desenvolvida, ainda assim.
No entanto, as ilustrações de Laurent Durieux, autor que já tinha trabalhado em parceria com Jaco Van Dormael, Thomas Gunzig e François Schuiten em O Último Faraó, me agradou muitíssimo. Gosto desta abordagem visual ao universo de Blake e Mortimer. Claro que, sendo ilustrações que acompanham o texto, não permitem que possamos apreciar o lado mais sequencial da narrativa visual, o que talvez ainda fosse mais agradável, mas tenho que dizer que fiquei bem impressionado com estes desenhos.
Em termos de edição, A Ameaça Atlante apresenta a habitual capa dura brilhante, com bom papel baço no miolo, havendo uma capa alternativa - melhor do que a principal, diga-se - exclusiva da rede de lojas FNAC. Já A Dupla Exposição recebe uma edição mais diferenciada, com capa dura baça e lombada em tecido. Lamento que na lombada não haja qualquer texto, mas já pude tomar nota que também foi assim na edição original da obra, pelo que esta ausência - incompreensível - não deve ser imputada à ASA, mas à editora original. O livro é-nos dado em formato horizontal e o papel baço utilizado, bem como a encadernação e impressão, é de boa qualidade. É um livro bonito.
Em suma, fica a sensação amarga de que esta série persiste mais por obrigação comercial do que por necessidade artística. Há uma clara tentativa de rentabilizar o nome de Blake e Mortimer junto dos leitores que ainda lembram os tempos áureos da série, mas é difícil imaginar que novos públicos encontrem aqui algo inspirador. Especialmente em A Ameaça Atlante, tudo soa a requentado naquele que é (mais) um capítulo fraco de uma saga que vive mais da memória do que do presente. Falta-lhe risco, emoção e sentido de descoberta. No esforço de parecer fiel ao passado, o álbum esquece-se de ser relevante no presente e aquilo que foi outrora símbolo de aventura e elegância tornou-se apenas um eco empalidecido de uma glória perdida.
NOTA FINAL (1/10):
Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante: 5.0
A Dupla Exposição: 7.0
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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Blake e Mortimer - A Ameaça Atlante
Autores: Yves Sente e Peter Van Dongen
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 310 x 235 mm
Lançamento: Novembro de 2025
Autores: James Huth, Sonja Shillito e Laurent Durieux
Editora: ASA
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura com lombada em tecido
Formato: 200 x 255 mm
Lançamento: Novembro de 2025
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