Foi muito recentemente que tive a oportunidade de visitar, pela primeira vez, o Museu Van Gogh, em Amesterdão, onde a vida e obra do famosíssimo pintor está muito bem documentada e explanada. Já conhecendo um pouco do percurso do pintor neerlandês, foi uma boa oportunidade para recuperar alguns conhecimentos sobre a sua obra que, com a passagem dos anos, tinha olvidado.
Portanto, ler agora Vicent, de Barbara Stok, recentemente editado pela editora Iguana, que procura dar-nos um retrato intimista dos últimos anos de Van Gogh, foi uma sensação especialmente prazerosa até pelo simples facto de ter os meus conhecimentos "vangoghianos" em dia.
Devo começar por dizer que trazer a figura incontornável de Van Gogh para a 9ª arte é, por si só, um projeto meritório e de interesse inegável para muita gente: os que leem banda desenhada e têm algum interesse na vida do pintor e os que, mesmo não lendo banda desenhada, são admiradores do pintor. O que pode ainda ser um engodo para trazer mais gente para a banda desenhada. E isso é sempre positivo e digno de nota. Por falar nisso, recordo também a obra Vincent e Van Gogh, de Gradimir Smudja, publicada por cá pela Arte de Autor em 2023.
O foco da narrativa deste Vicent centra-se no período em que Van Gogh tentou encontrar inspiração e alguma serenidade para a sua mente no sul de França, em Arles. Acompanhamos a transição da sua vida atribulada num quarto de hotel para a célebre "Casa Amarela", onde o sonho de fundar uma colónia de artistas acaba por colidir com a rigidez e o temperamento explosivo de um Van Gogh assumidamente workaholic.
É durante esse período que Van Gogh convive mais de perto com o seu amigo Paul Gauguin, outro célebre pintor, partilhando casa e locais de inspiração com ele, mas experenciando, igualmente, algumas divergências e incompatibilidades. É que a convivência forçada e os métodos de trabalho díspares dos dois amigos pintores acabam mesmo por afastá-los um do outro, culminando no desmoronamento dos planos de Vincent para a criação da comunidade criativa.
De resto, acedemos ainda aos vários períodos em que Vincent tem que ser internado em hospitais psiquiátricos para aí recuperar, tanto quanto possível, dos seus surtos psicóticos.
Além de Gauguin, outra das presenças assíduas neste livro, ainda que à distância, é a de Theo, o irmão de Vincent que, trabalhando enquanto comerciante de arte em Paris, não só enviava dinheiro a Van Gogh para este poder viver do seu sonho de ser pintor, como ainda se correspondia assiduamente com o irmão. Várias dessas cartas são integralmente reproduzidas na obra para, desse modo, nos narrarem algumas das experiências, dificuldades, processos criativos e sonhos de Vincent. É nestas passagens que sentimos a admiração profunda de Van Gogh pela luz e paisagem da Provença.
Embora estejamos perante uma leitura "que se faz bem" e cujos intuitos são mais do que bons, o livro padece de uma crise de identidade, pois revela-se perdido entre dirigir-se a um público infantil e/ou um público adulto. Podendo considerar-se que é para ambos, mas para nenhum em concreto. Analisado enquanto "livro infantil", a história e densidade do livro - bem como alguns episódios mais adultos como, por exemplo, a confraternização do pintor com prostitutas - pode ser desadequada. Por outro lado, observado enquanto "livro para adultos", talvez a abordagem seja demasiadamente leve e otimista, não refletindo a profundidade da depressão do pintor, tratando-o de uma forma algo unidimensional e simplista, não se sentindo, consequentemente, a verdadeira profundidade da sua depressão. Como se a sua dor fosse apenas um acessório e não a sua essência. A obra fica, portanto, algures a meio caminho entre um livro que parece destinado aos mais novos e um livro que parece destinado aos mais velhos, não sendo excelsa em nenhuma dessas duas opções.
Ainda assim, não deixa de ser verdade que Barbara Stok consegue retratar, com alguma emoção e de forma convincente, várias características basilares de Van Gogh: a sua obsessão pela arte e pelo processo artístico, o sentimento de solitude, o desajuste social e a angústia da sua doença mental.
Quanto às ilustrações, a obra apresenta um estilo gráfico extremamente naïf e simples, quase infantil. Pode não ser deslumbrante nos primeiros momentos em que observamos as pranchas deste livro, mas devo reconhecer que, depois de nos habituarmos à abordagem de Barbara Stok, começamos a melhor valorizar as suas ilustrações. A utilização de uma paleta de cores muito vivas dá uma certa sensação de frescura e leveza ao trabalho. E há algumas vinhetas ou pranchas onde parecemos entrar dentro de um quadro de Van Gogh. Não por Stok e Van Gogh terem o mesmo estilo de ilustração, sublinhe-se, mas pelo facto de a autora ter conseguido transmitir - no seu próprio estilo - a ambiência e estética, mesmo que de uma forma muito pictórica, do trabalho de Van Gogh. Gostei particularmente das ilustrações onde são reproduzidos os campos de trigo, os ciprestes, os girassóis, a noite estrelada ou até mesmo o famoso quarto desarrumado onde viveu Vincent.
A edição da Iguana apresenta capa dura baça, bom papel baço, e uma boa encadernação e impressão. Nada a objetar, portanto.
Em suma, esta é uma obra que mesmo sendo, devido ao seu tema, mais que bem-vinda, deixa um certo travo agridoce devido à opção por uma abordagem algo lata e pouco densa da narrativa. Barbara Stok apresenta-nos um Vincent estranhamente feliz e luminoso, o que, para quem conhece minimamente a biografia do pintor, soa a uma simplificação excessiva da sua realidade atormentada. Mesmo assim, também é verdade que é uma leitura agradável para que não esqueçamos o quão especial foi este homem de nome Vincent Van Gogh.
NOTA FINAL (1/10):
7.6
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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Vincent
Autora: Barbara Stok
Editora: Iguana
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Fevereiro de 2026
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