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terça-feira, 29 de julho de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Ala dos Livros nos últimos 5 anos!


A propósito da comemoração dos 5 anos de existência do Vinheta 2020, trago-vos um especial que começa a partir de hoje e que procura celebrar e assinalar a melhor banda desenhada que cada uma das principais editoras portuguesas editou nos últimos 5 anos. Durante as próximas semanas tentarei, pois, oferecer-vos um artigo por editora.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Faço aqui uma pequena nota sobre o procedimento: considerei séries como um todo e obras one-shot. Tudo junto. Pode ser um bocado injusto para as obras autocontidas, reconheço, e até ponderei fazer um TOP exclusivamente para séries e outro para livros one-shot, mas depois achei que isso seria escolher demasiadas obras. Deixaria de ser um TOP 10 para ser um TOP 20. Até me facilitaria o processo, honestamente, mas acabaria por retirar destaque a este meu trabalho que procura ser de curadoria. Acabou por ser um exercício mais difícil, pois tive que deixar de fora obras que também adoro, mas acho que quem beneficia são os meus leitores que, deste modo, ficam com a BD que considero ser a crème de la crème de cada editora.

Em cinco anos de edição ininterrupta de banda desenhada, há naturalmente muitos títulos editados e, como devem calcular, a tarefa não foi fácil e vi-me forçado a excluir obras fantásticas, mas, lá está, há que fazer escolhas e estas são as minhas escolhas.

Hoje começo com uma editora cujo contributo para o lançamento de boa banda desenhada em Portugal é verdadeiramente inegável: a Ala dos Livros.

Esta editora tem um catálogo que considero de extrema qualidade. São (muito!) mais as obras que adoro da editora, do que aquelas de que não gosto. Não foi fácil, mas aqui está o meu TOP

Eis, mais abaixo, as minhas obras favoritas lançadas pela editora Ala dos Livros:

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Análise: Harlem - Edição Integral

Harlem - Edição Integral, de Mikaël - Ala dos Livros

Harlem - Edição Integral, de Mikaël - Ala dos Livros
Harlem - Edição Integral, de Mikaël

A leitura do recente Harlem, de Mikaël, de quem a editora Ala dos Livros já havia publicado os igualmente brilhantes álbuns Giant e Bootblack deixou-me, mais uma vez, maravilhado. Este é um daqueles álbuns que faz tudo bem: tem um bom argumento, tem um bom enredo, é educativo, tem boas personagens de quem guardamos memória já depois de finalizada a leitura do livro, tem ilustrações magníficas, cores belas e um igualmente belo trabalho de edição. Que mais podemos pedir?

Tal como em Giant e em Bootblack, este Harlem pertence à trilogia de histórias ambientadas na Nova Iorque do século passado. Cada uma destas histórias foi originalmente lançada em dois volumes e em cada um deles a Ala dos Livros optou, e bem, por publicá-los em volumes duplos integrais.

Harlem foca-se numa personagem real histórica, Stephanie St. Clair, também conhecida por Queenie, o que aumenta o cariz educativo da obra. 

Harlem - Edição Integral, de Mikaël - Ala dos Livros
A ação decorre, como seria expectável, no bairro de Harlem, situado na ilha de Manhattan, em Nova Iorque. Estamos em 1931, durante a época da Grande Depressão. Os habitantes desta cidade, que por esta altura já é o centro do mundo, vivem muitas privações. E, em especial, a população negra, segregada neste bairro, diariamente vê injustiças racistas a serem perpetradas pelo regime vigente.

Porém, e apesar das difíceis circunstâncias, há uma mulher, Stéphanie St. Clair, conhecida como Queenie, que parece contrariar o regime. É mulher, é negra e profundamente rica, tornando-se influente no bairro.

Mas, e à boa maneira da cidade da qual Frank Sinatra cantava "if I can make it there, I'll make it anywhere", Queenie teve que superar muitos obstáculos e ser muito corajosa para subir a pulso até ocupar a sua posição atual. Originária das Índias Ocidentais e outrora escrava, cria a lotaria clandestina de Harlem que a torna muito poderosa e rica. Obviamente, o seu sucesso incomoda não só a polícia local, como a mafia que procura reclamar para si o império construído por Queenie.

Harlem - Edição Integral, de Mikaël - Ala dos Livros
Esta Queenie representada pelo autor francês Mikaël revela-se uma enigmática e interessantíssima personagem, da qual até já uma outra banda desenhada, intitulada Queenie: Godmother of Harlem: A Graphic Novel, de Aurelie Levy e Elizabeth Colomba, foi publicada. Com efeito, ela é uma espécie de "godmother" que terá que se envolver numa luta contra a polícia e contra a máfia. A história remete-nos, pois, para clássicos do cinema como O Padrinho, Tudo Bons Rapazes, Era Uma Vez Na América, entre outros. Pessoalmente, sou um grande fã do género e acho que a história arquitetada por Mikaël neste Harlem está muito bem construída, adicionando várias personagens relevantes e carismáticas além da protagonista Queenie. Não é portanto de espantar que esta seja uma daquelas BDs que nos dão a impressão de estarmos a ver um filme no cinema.

Se a história e os diálogos são bons, há uma outra coisa neste Harlem que também é digna de nota: a história principal é entrecortada por flashbacks do passado de Queenie. Dito assim, não parece nada que não tenhamos visto em milhentos outros livros ou filmes. Mas, no caso em apreciação, estes flashbacks demarcam-se totalmente da restante história ao serem-nos dados de forma muda, sem qualquer texto. E, ainda por cima, com uma paleta de cores que difere daquela utilizada na restante história. Ora, não só os desenhos são lindos - já lá irei - mas também a capacidade de Mikaël em nos contar uma história passada de vida sem qualquer recurso a texto é verdadeiramente impressionante. Acaba por dar a ideia que temos um "novo livro dentro do livro". Que certamente, se isolado da obra e comercializado dessa forma, continuaria a resultar muito bem. Fiquei mesmo muito bem impressionando com este, digamos assim, "extra" da obra. E talvez seja até esse o motivo que, possivelmente me faz considerar Harlem ligeiramente acima dos também impressionantes Giant e Bootblack.

Harlem - Edição Integral, de Mikaël - Ala dos Livros
Como se não bastasse tudo aquilo que aqui é feito em termos de história e narrativa, o autor ainda nos dá um pequeno easter egg, ligando os acontecimentos desta história aos dos livros anteriores. Uma cereja no topo do bolo, diria.

Concentrando-me nas ilustrações presentes nesta obra, o trabalho de Mikaël volta a ser magnânime. A forma como o autor capta a cidade de Nova Iorque consegue fazer-nos viajar para a Big Apple e fazer-nos absorver todos os seus ruídos, os seus cheiros, a sua sujidade, a sua beleza, as suas gentes e o seu rebuliço. Há vinhetas que poderiam ser comercializadas como postais da cidade de Nova Iorque dos anos 30, tal não é a sua beleza e perfeita execução. É um livro extremamente bonito.

E não é só a cidade que é brilhantemente desenhada pelo autor. As personagens são muito bem esculpidas, a sua linguagem corporal ou o dramatismo das suas expressões faciais são perfeitos e a própria escolha de planos de câmara é portentosa, remetendo-nos, mais uma vez, para o cinema. Aprecio também a forma como o autor consegue diferenciar as várias personagens, bem como um certo erotismo que perpassa em várias cenas.

Harlem - Edição Integral, de Mikaël - Ala dos Livros
A parte dos flashbacks, já por mim referida, numa escala em tons azulados, apresenta-nos maravilhosas ilustrações que nos pedem uma observação cuidada. Um verdadeiro deleite para os olhos.

Até a própria capa do livro - e sobrecapa - é de uma beleza estética estonteante.

Quanto à edição da Ala dos Livros, eis-nos perante mais um belíssimo trabalho. O livro apresenta capa dura baça, bom papel brilhante, boa encadernação e boa impressão. Para além da também boa escolha, já enunciada, de publicar num só volume os dois volumes que correspondem à totalidade da obra. No final do livro, somos ainda brindados com um dossier de extras com 14 páginas, que nos permite apreciar inúmeros esboços do autor. Neste ponto, devo dizer que gostaria que os comentários do autor - que surgem ao lado das ilustrações - tivessem sido traduzidos em vez de deixados em francês.

Portanto, em suma e como já referido por mim, Harlem é - como, aliás, Giant ou Bootblack também o são - uma daquelas bandas desenhadas que me deixam de "barriga cheia" por fazerem tanta coisa bem. Estes livros de Mikaël até podem não ser, por motivos que serão apenas pessoais e subjetivos, "livros de uma vida", mas que são livros brilhantemente executados já será algo mais objetivo e claro de afirmar. Harlem é, pois, totalmente recomendado, e entra para o grupo dos melhores livros de banda desenhada do ano. Não deixem de ler!


NOTA FINAL (1/10):
9.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Harlem - Edição Integral, de Mikaël - Ala dos Livros

Ficha técnica
Harlem - Edição Integral
Autor: Mikaël
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Outubro de 2024

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Ala dos Livros lança Harlem!




Depois dos brilhantes álbuns Giant e Bootblack, dos quais fiquei um grande fã, é com muita satisfação que vejo que a editora Ala dos Livros se prepara para lançar o terceiro volume desta série.

Bem, chamar "série" a esta trilogia temática, talvez não seja o mais adequado. Tratam-se de três histórias ambientadas na cidade Nova Iorque, sim, mas apresentam-nos histórias autoconclusivas e independentes entre si.

Originalmente, cada uma destas histórias foi lançada em dois tomos e a Ala dos Livros optou - e bem - por lançar estes livros em volumes duplos, integrais.

Gosto do tema, gosto das histórias e gosto muito das ilustrações do autor Mikael. Estes têm sido daqueles livros que me deixam de "barriga cheia". Como tal, o meu entusiasmo é muito para ler este Harlem que, já agora, tem uma capa magnífica!

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora e deverá chegar às livrarias portuguesas nas próximas semanas.

Por agora, deixo-vos com a sinopse do livro e com algumas imagens promocionais.


Harlem - Edição Integral, de Mikaël

Nova Iorque, Harlem, 1931. 

Durante a época da Grande Depressão, a sobrevivência torna-se prioritária e a necessidade aguça o engenho. Stéphanie St. Clair, conhecida como 'Queenie', já se havia apercebido disso há quase vinte anos, na altura em que chegou a Nova Iorque: sendo mulher, e negra, para sobreviver naquela grande cidade iria necessitar de muito mais do que coragem.

Em poucos anos, esta jovem imigrante das Índias Ocidentais liberta-se do peso da escravidão e cria o seu próprio sonho americano: a lotaria clandestina de Harlem. O seu sucesso e ascensão são temidos tanto pela polícia como pelas máfias locais. Dutch Schultz, um mafioso sem escrúpulos também conhecido como “o holandês”, faz tudo para assumir o controlo do reino dos "franceses". Mas para consegui-lo terá de ter em linha de conta a determinação e a impetuosidade de Queenie…

Depois dos aclamados Giant e Bootblack, também publicados entre nós pela Ala dos Livros, Mikaël transporta-nos à época da Grande Depressão e ao bairro pobre de Harlem, para o capítulo final de sua trilogia de Nova Iorque, dando-nos a conhecer uma mulher tão forte quanto enigmática.

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Ficha técnica
Harlem - Edição Integral
Autor: Mikaël
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
PVP: 30,00€




quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Análise: Bootblack - Edição Integral

Bootblack – Edição Integral, de Mikaël - Ala dos Livros

Bootblack – Edição Integral, de Mikaël - Ala dos Livros
Bootblack – Edição Integral, de Mikaël

A Ala dos Livros não demorou muito tempo entre o lançamento de Giant, no ano passado, e o lançamento deste Bootblack, no passado mês de Setembro. Giant foi, a meu ver, um dos melhores livros do ano passado e, sem surpresas, Bootblack é um dos melhores livros deste ano. Uma banda desenhada bem pensada, bem contada, bem desenhada, bem colorida e bem editada que se assume como um dos livros mais obrigatórios de 2022.

Antes de avançar, permitam-me, desde já, deixar uma nota bem clara. Se gostaram de Giant, diria que há 99,9% de possibilidades de gostarem deste Bootblack. E quando digo isto, não quero dizer que este livro é “mais do mesmo” porque, afinal de contas, até temos duas histórias completamente independentes entre ambos os livros. Quando digo que é quase impossível que um leitor que gostou de uma obra não gostar da outra é porque há todo um trabalho de fundo, por parte do autor Mikaël, que é comum às duas obras. São duas histórias de época, ambientadas em Nova Iorque, na primeira metade do século XX, e que nos trazem um desenho fantástico, com belas cores e uma clara perceção cinematográfica no modo como a narrativa nos é dada.

Bootblack – Edição Integral, de Mikaël - Ala dos Livros
Com efeito, ler Bootblack é semelhante a vermos um belo filme de cinema. Posso citar filmes como Era uma Vez na América, Tudo Bons Rapazes, Sleepers – Sentimento de Revolta ou mesmo Lendas de Paixão, para vos referir que, à semelhança desses grandes clássicos do cinema, Bootblack parece ser uma daquelas histórias, maiores do que a vida, que nos marcam durante anos e anos. Porque há espaço para romance e para todas essas borboletas no estômago que as primeiras paixões despertam em cada um de nós; porque há espaço para as aventuras juvenis e primeiras amizades, pelas quais todos nós já passámos; porque há espaço para a guerra e para todo o nefasto que daí advém. Enfim, é uma história maior do que a vida, como já disse mais acima.

E Mikaël tem a capacidade de, num mero livro de 128 páginas em banda desenhada, sintetizar a labuta e os obstáculos com que toda uma geração americana teve que lidar, à medida em que a nação saiu do período dourado dos Loucos Anos 20 para a Grande Depressão e que havia de (re)emergir como a grande potência mundial que ainda hoje é. Um claro e belo trabalho de storytelling, por parte do autor.

Admito que se afirme que a história parece já ter sido contada noutras ocasiões – quer nos filmes que nomeei mais acima, quer noutros romances ambientados na época – todavia, é justo dizer que a história tem elementos e um enredo próprio e diferenciado, que a tornam única. Confesso até que adoraria ver a adaptação deste livro para cinema, numa oportunidade futura. Seria um belo filme se se mantivesse fiel ao livro.

Bootblack – Edição Integral, de Mikaël - Ala dos Livros
Falando da história, esta leva-nos diretamente para o cenário desolado que a Segunda Guerra Mundial semeou em plena Alemanha. Arrancando a narrativa em 1945, já estava a guerra bem próxima do seu fim. O protagonista, Al, ou Altenberg Ferguson, que é o único soldado americano sobrevivente na sua unidade de combate, perscruta as suas memórias tentando, quiçá, relembrar a sua vida até esse momento. E é então que a história volta para trás e nos dá a conhecer o percurso do protagonista que, sendo filho de imigrantes alemães, nascido em território norte-americano, cedo encontrou nas ruas da Big Apple a sua melhor e, ao mesmo tempo, impetuosa companhia. Após o trágico incêndio que vitima os seus pais, Al vê-se forçado a viver na rua e a ganhar uns trocos enquanto engraxador de sapatos. Um “bootblack”, portanto.

Vamos, então, conhecendo as primeiras aventuras de Al, que acaba por se rodear de amigos com sorte semelhante à sua: são eles Shiny, Buster e Diddle Joe. Entretanto, surge em cena a irmã de Buster, a bela Maggie, por quem Al – e não só – vai nutrir uma forte e arrebatadora paixão. 

A vida é madrasta para os rapazes, mas a sua sede de “serem alguém”, de superarem a sua condição social, e de resistirem à guerra entre gangs que assolava Nova Iorque durante este período, é grande. O que os vai fazer tomar algumas más decisões, com Al a acabar mesmo preso durante um período de 10 anos. 

Novamente só e sem nada a perder, Al decide alistar-se no exército assim que acaba a sua pena de prisão. E é então que a guerra toma conta da sua vida. Não sem que, durante a mesma, Al volte a encontrar Diddle Joe para perceber que uma enorme traição condicionou a sua vida para sempre. Apetecia-me continuar a contar mais sobre esta bela história, mas fico-me por aqui. Terão que ler o livro para apreciar esta bela narrativa, um romance dramático, contado através de flashbacks em dois tempos e em dois lugares.

Bootblack – Edição Integral, de Mikaël - Ala dos Livros
Se a história, o enredo e a narrativa são boas… o desenho de Mikaël, num belo traço semi-realista, é absolutamente soberbo e carregado de personalidade. A sua caracterização das personagens - e das suas expressões e da sua linguagem corporal – é muito bela. Mas se as personagens estão visualmente muito bem conseguidas por parte do autor, a caracterização da cidade de Nova Iorque merece todos os louvores possíveis! A forma como o autor visualiza e, diria ainda mais, perpetua aquela aura da "cidade dos sonhos" é absolutamente soberba e cada uma dessas vinhetas, que nos dão um vislumbre da cidade, poderia ser vendida como postal turístico desta época de ouro da "cidade que nunca dorme", onde o Art Déco era a tónica estética perfeita para o símbolo de hegemonia económico-social que a cidade sempre tentou representar. Mesmo que essa hegemonia fosse – como não? – apenas e só para alguns e que a cidade arrastasse para a miséria milhões de vidas como, aliás, o próprio Will Eisner já nos tinha mostrado no seu belo e aclamado Um Contrato com Deus.

Os enquadramentos escolhidos por Mikaël - por vezes arriscados e exigentes de um apurado virtuosismo no desenho - são fantásticos e sublinham o cariz cinematográfico da obra, enquanto que as belas cores, onde predominam os castanhos dos edifícios, os brancos da neve citadina e os amarelos soalheiros que envolvem a cidade, são um mimo para a vista. Isto já para não falar que, nos cenários de guerra da Alemanha, o autor nos brinda com uma aridez e uma destruição nos cenários que traz consigo toda a desolação cénica que uma guerra deve trazer. 

Bootblack – Edição Integral, de Mikaël - Ala dos Livros
Visualmente é um livro que roça a perfeição.

A edição da Ala dos Livros está muito bem conseguida. A impressão e encadernação do livro apresenta muita qualidade, sendo o mesmo provido de capa dura baça e de papel brilhante de excelente qualidade. Recorde-se que este Bootblack tinha sido originalmente lançado em dois volumes separados, mas a Ala dos Livros optou – e bem! – por reunir os dois tomos num só volume integral como, aliás, também fez com Giant no ano passado. E tal como nesse livro, a capa e contracapa também são baseados nas duas capas dos dois volumes, o que faz com que este livro reúna as duas capas e seja belo de observar em qualquer um dos seus lados. Bootblack traz ainda um fantástico caderno gráfico com 15 páginas, onde nos é dada a oportunidade de ver os numerosos esboços para cada personagem que Mikaël fez, bem como três belíssimas e grandes ilustrações de página dupla. Um mimo para os olhos.

Em suma, Bootblack recebe o título de obrigatório e consegue mesmo ser melhor do que Giant, que já foi tão espetacular! Bootblack é um daqueles álbuns coesos onde tudo parece funcionar bem, de um autor que já conseguiu encontrar o seu signature style. Sabendo que se encontra a meio de mais um díptico, denominado Harlem, só posso "fazer figas" para que a Ala dos Livros continue a publicar essa terceira obra assim que esteja disponível. Em pouco tempo, Mikaël tornou-se um dos meus autores preferidos de banda desenhada.


NOTA FINAL (1/10):
9.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Bootblack – Edição Integral, de Mikaël - Ala dos Livros

Ficha técnica
Bootblack - Edição Integral
Autor: Mikaël
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Setembro de 2022

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Depois de Giant, é a vez de Bootblack nos maravilhar!



Depois do lançamento do fabuloso Giant, do mesmo autor, Mikaël, que, quanto a mim, foi um dos melhores livros lançados no ano passado, a Ala dos Livros traz-nos agora Bootblack.

Também uma história de época, dividida em dois tomos, e que a editora opta - e bem! - por lançar num álbum duplo, integral.

Estou muito curioso para ler este livro. Refira-se que, atualmente, o autor já publicou o primeiro número do díptico Harlem que espero que a Ala dos Livros venha a editar no futuro!

Ma, para já, concentremo-nos em Bootblack e na sinopse da obra e em algumas imagens promocionais, que publico mais abaixo.
Bootblack, de Mikaël

Alemanha, 1945. As tropas americanas procuram os últimos soldados inimigos.

Para fugir aos horrores daquilo que vive, Al, um soldado americano, único sobrevivente da sua unidade, mergulha nas memórias do seu passado em Nova Iorque. Filho de imigrantes alemães, nascido nos Estados Unidos, não tinha ainda dez anos quando perdeu os pais e a sua casa num terrível incêndio. Passa a viver na rua e torna-se Bootblack, um “engraxador de sapatos”. 

Mas Nova Iorque não oferece qualquer futuro aos miseráveis e Al está decidido a ganhar mais dinheiro. Antes de se alistar, passa dez anos na prisão. Hoje, tem 25 anos. A mulher da sua vida, Maggie, é apenas um reflexo na sua memória. Todos os seus amigos estão mortos.
Todos, exceto um certo "Diddle Joe", que encontra novamente na frente de batalha. O seu reencontro é brutal: Al descobre que "Diddle Joe" o traiu a ele e aos amigos...

Com esta obra, o autor de Giant (que a Ala dos Livros oportunamente também publicou) assina mais um fabuloso díptico que se desenrola através de flashbacks e que oferece um mergulho fascinante numa Nova Iorque mítica e onírica.

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Ficha técnica
Bootblack - Edição Integral
Autor: Mikaël
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
PVP: 27,00€

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Análise: Giant

Giant, de Mikaël - Ala dos Livros

Giant, de Mikaël - Ala dos Livros
Giant, de Mikaël

Este era mais um daqueles livros que já tinha folheado inúmeras vezes na sua versão original e que sempre me tinha suscitado muito interesse e vontade de o ler. Felizmente, pude fazer a minha primeira leitura da obra na língua portuguesa, graças à aposta da editora Ala dos Livros. Estava à espera de um excelente livro e não fiquei desiludido. Quer argumento, quer arte ilustrativa, conjugam-se para nos darem mais um livro de qualidade superior neste que será, por ventura, o melhor ano de sempre no que à edição de banda desenhada de qualidade em Portugal diz respeito.

Esta é uma edição integral que reúne os dois volumes que correspondem à obra originalmente lançada em 2017 e em 2018. O volume 1 e 2, respetivamente. Acaba por ser uma boa opção da editora – e que, claramente, beneficia o leitor - em ter juntado os dois volumes num só livro.

Giant, de Mikaël - Ala dos Livros
Giant
conta-nos a história de Nova Iorque e de como a Terra dos Sonhos foi construída em cima desse ideal de sucesso e de fortuna - o "sonho americano" - que era falsamente vendido aos europeus que se aventuravam na América, em busca de uma vida melhor, no início do século XX. Estamos em 1930, os loucos anos 20 acabaram e o crash da bolsa de 1929 trouxe uma nova realidade aos habitantes da Grande Maçã, como é comummente chamada a cidade de Nova Iorque. Mas o capitalismo não parece dar tréguas e constroem-se inúmeros arranha-céus. O mais emblemático até ao momento – e, por ventura, para sempre, digo eu – é o Empire State Building. Mas, agora, prepara-se a construção de um enorme complexo de edifícios, que virá a ter o nome de Rockerfeller Center. E é na construção destes arranha-céus, de enorme envergadura, que assenta a acção deste livro da autoria do francês Mikaël.

Com uma forte base histórica, Mikaël, constrói, depois, uma boa trama, de cariz de romance clássico, que assenta na história de alguns irlandeses que – como tantos outros aventureiros de outras nacionalidades – se arriscavam em Nova Iorque, deixando as suas famílias e vivendo nas mais duras e miseráveis condições de vida, até conseguirem o "pé de meia" suficiente. Ou para regressar a casa. Ou para poderem fixar-se nos Estados Unidos com as suas famílias.

Giant, de Mikaël - Ala dos Livros
Acompanhamos a história de Giant, que dá nome ao livro, um irlandês enorme em dimensão, mas de parcas palavras que, tal como as outras personagens que o rodeiam, também trabalha na construção do Rockerfeller Center. O trabalho é pesado e Giant é rijo como uma rocha, também, não estando para perder tempo com palavras. Mas, gradualmente, vamos percebendo que o protagonista pode não ser o que parece. Em primeiro lugar, porque a personagem esconde um passado. Por isso, mais do que almejar uma melhor vida, Giant aparenta fugir apenas do passado que deixou algures. E quando lhe é pedido que envie os pertences e a pequena indemnização que um dos seus colegas irlandeses recebe, ao morrer na obra, Giant passa a corresponder-se com a viúva do colega, fazendo-se passar por ele. Tudo começa com um acaso e uma boa ação mas, quando o protagonista se dá conta, já a mentira se tornou demasiado grande. Como a sua estatura. E como a grandeza do sonho americano. Mais não conto para não estragar surpresas a nenhum leitor. Mas posso dizer que gostei bastante do argumento.

O cariz histórico da obra também é relevante já que, vamos recebendo inúmeros relatos dum locutor de rádio que, todos os dias, através do seu programa radiofónico, informa os habitantes das novidades que assolam o país. E isso é uma interessante “bengala narrativa” que Mikaël utiliza para conseguir passar-nos essa sensação histórica. Ou seja, educa o leitor de forma aparentemente involuntária.

Giant, de Mikaël - Ala dos Livros
Pareceu-me apenas que, como ponto menos positivo, os amigos irlandeses da obra, poderiam ser em menor número, já que os seus papeis não têm grande relevância na trama – exceptuando Dan Shackleton – e, de certa forma, acabam por adensar desnecessariamente o rol de personagens que, por vezes, até se confundem entre si. Mesmo assim, isto é uma pequena crítica. Está longe de estragar o prazer de leitura.

E se falamos em prazer, há que mencionar que esta é uma obra cujas ilustrações são vistosas, bonitas e carregadas de uma personalidade muito própria. Gostei muito desta versão de tons acastanhados – tão em linha com a art déco a que associamos Nova Iorque – com que Mikaël ilustra as ruas da Grande Maçã. Eu sou um confesso fã da cidade de Nova Iorque que, até ver, ainda é a minha cidade favorita de sempre e, nesse sentido, admito que só de olhar para a forma como o autor ilustra os arranha-céus, as ruas repletas de gente, os bairros pobres, a Brooklyn Bridge, o metro de superfície e tantas outras coisas emblemáticas da cidade, já era meio caminho andado para eu gostar da arte do autor.

Giant, de Mikaël - Ala dos Livros
Mas Mikaël acaba por ir bem mais além do que isso, oferecendo-nos um bonito e elegante traço que caracteriza tão bem as personagens, as suas emoções, os seus comportamentos. Os enquadramentos são vistosos e cinematográficos, a utilização da luz e das sombras é muito interessate e o próprio ritmo narrativo não desilude. E, paralelamente, gostei da forma como o autor sabe ilustrar os vários tipos de eventos na história: dos mais alegres, aos mais reflexivos ou mais dramáticos. Na verdade, Mikaël apresenta-se como um autor completo. Daqueles que sabe fabricar uma boa história, à boa maneira romântica, enquanto a ambienta de forma natural em eventos históricos e, em cima de tudo isto, desenha-a e aplica-lhe cores com mestria. Nada fica em falta.

Quanto à edição da Ala dos Livros, estamos perante um livro em capa dura, com papel brilhante de boa qualidade e boa encadernação e impressão. No final do livro há ainda 6 páginas dedicadas a esboços do autor e, no início, temos um interessante prefácio de Jean-Louis Tripp (autor de Armazém Central).

Em suma, este é mais outro dos grandes lançamentos do ano. Boa história, boa narrativa, bons desenhos, boas cores. Não há nada que não funcione particularmente bem em Giant. Resta-me esperar que o outro díptico do autor, intitulado Bootblack, ambientado na Segunda Guerra Mundial, venha a receber aposta da editora Ala dos Livros. Fiquei fã do autor e recomendo vivamente este magnífico Giant!


NOTA FINAL (1/10)
9.6


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Giant, de Mikaël - Ala dos Livros

Ficha técnica
Giant
Autor: Mikaël
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Outubro de 2021

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Lançamento: Giant




A Ala dos Livros acaba de lançar um dos livros muito aguardados do ano! Trata-se de Giant, de Mikaël. 

É uma obra que já folheei vezes e vezes e que sempre me deixou uma enorme vontade de a ler mas que, até agora, e lamentavelmente, ainda não tive oportunidade de o fazer.

As ilustrações parecem fenomenais, conforme podemos ver pelas imagens promocionais que partilho abaixo, juntamente com a sinopse da obra.

Faço um destaque ainda para a boa opção da editora em lançar esta obra, constituída por dois tomos, um só volume integral.

Tenho grandes esperanças nesta obra!
Giant, de Mikaël
Nova Iorque, início dos anos 1930. Fazer-se passar por um outro homem tem um preço: o da verdade. A verdade que, mais cedo ou mais tarde, acaba sempre por ser revelada…

Na Nova Iorque da Grande Depressão, imigrantes provenientes de todas as partes do globo arriscam a vida na construção do mítico Rockefeller Center. Giant, um misterioso colosso irlandês, é um dos inúmeros trabalhadores que, com os seus compatriotas imigrantes, labuta arduamente na construção da Grande Maçã. 

Mas, contrariamente aos demais, Giant parece mais interessado em fugir de um passado que o persegue e atormenta. E quando duas vidas se cruzam, nem tudo é que parece.
Giant, que a Ala dos Livros publica em edição integral, que reúne os dois volumes originais, é um comovente relato sobre a imigração e as origens do “sonho americano”. 

Uma apaixonante narrativa, que se desenrola na sombra dos arranha-céus da grande cidade que nunca dorme, conduzida pelo grafismo impressionante de Mikaël (Prémio de BD RTL Junho 2017 por Giant – tomo 2; Prémio Albéric-Bourgeoisau do Festival Québec-BD 2019 por Giant – tomo2)

«Gosto sinceramente que me contem uma boa história. E que a contem bem. E o Mikaël sabe fazê-lo.»
Jean-Louis Tripp
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Ficha técnica
Giant
Autor: Mikaël
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 25,00€

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

A Ala dos Livros prepara-se para publicar 3 pesos pesados da BD!!!



Não é que já não soubéssemos que a Ala dos Livros iria publicar estas 3 obras... 

Na verdade, até foi algo que aqui dei conta, há uns meses, quando falei com o editor Ricardo M. Pereira, a propósito das novidades editoriais da Ala dos Livros para o segundo semestre de 2021.

Mesmo assim, a editora avançou hoje com mais algumas informações relevantes sobre o lançamento destas 3 obras magníficas.

Todas elas deverão chegar às lojas brevemente, já neste terceiro trimestre.




Blacksad #6 - Então, tudo cai. Primeira Parte

Blacksad #6 terá lançamento mundial, a 1 de Outubro! Ainda não se sabe muito sobre a nova história de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido. Apenas que este trará consigo a primeira parte de um díptico. E é a primeira vez que tal acontece nesta série. 

Esta é uma banda desenhada que desde o primeiro número tem enchido as minhas medidas e, portanto, a expetativa é enorme!

Blacksad, o famoso gato detective de Guarnido e Canales está de volta para mais um caso. O que irá encontrar desta vez por entre os interesses e corrupção? A não perder o lançamento mundial.





Giant (Edição integral)
Esta é uma banda desenhada com uma arte ilustrativa fenomenal! E considero uma excelente notícia que a Ala dos Livros opte por editar este díptico num só volume integral. 

Gostei também de como a editora soube usar as duas lindíssimas capas dos volumes 1 e 2 neste livro, utilizando a capa do segundo volume para a contracapa da edição integral. Boa escolha!

Mikael conduz-nos pela vida dos imigrantes que ajudaram a construir a cidade de Nova Iorque, na personagem de um gigante que tenta apagar o passado e encontrar uma nova vida num novo mundo. Mas mesmo as boas intenções podem não ter o resultado esperado...



O Relatório de Brodeck
À semelhança de Giant, também O Relatório de Brodeck estava planeado para sair em 2020. Infelizmente, e devido à pandemia, as duas obras - juntamente com O Mercenário - acabaram adiadas para 2021. 

No entanto, só tivemos que esperar alguns meses e teremos neste O Relatório de Brodeck, de Manu Larcenet, uma obra fantástica e inolvidável para todos aqueles que tenham o bom senso de adquirir este livro fantástico! 

Mais uma vez, considero uma ótima notícia que a editora portuguesa lance uma edição integral da obra (que também é composta por dois volumes). 

E a edição deverá ser espetacular visto que até contará com caixa! 

Numa nota mais pessoal, não deixa de ser curioso - e um ótimo sinal dos tempos, diga-se! - que no dia de hoje se anunciem aqui no Vinheta 2020 duas obras deste autor tão emblemático e relevante na banda desenhada mundial: Manu Larcenet. Para além de O Relatório de Brodeck, pela Ala dos Livros, também  O Combate Quotidiano, será lançado pelas editoras A Seita e Arte de Autor. 

O Relatório de Brodeck é uma adaptação do romance de Philippe Claudel, através do maravilhoso traço frio e perturbador de Larcenet no seu melhor, em que a imagem assume várias vezes, por si só, todo o peso da história e que não vai deixar ninguém indiferente.